Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

30º Domingo do Tempo Comum

30º Domingo do Tempo Comum

O desafio de ser juiz de si mesmo

  

 Frei Gustavo Medella

 Volta, na Liturgia, o tema da justiça e do juiz. Na última semana, Jesus apresenta o juiz prepotente da Parábola que contou para ensinar a necessidade de se rezar sempre e jamais desistir. Nesta semana, aparece a figura do Senhor como Justo Juiz, à qual fazem referência o livro do Eclesiástico (Eclo 35, 15b-17.20-22a), na 1ª Leitura, e o Apóstolo São Paulo (2Tm 4,6-8.16-18), na 2ª Leitura. O Justo Juiz não faz acepção de pessoas nem é parcial em prejuízo do pobre e do fraco. Age com prudência, não se guia por interesses pessoais nem por ambições que traz no coração. Justiça não combina com egoísmo e muito menos com ambição.

O bom e verdadeiro juiz, inspirado pela justiça divina, procura, em primeiro lugar, ser juiz de si mesmo, mantendo-se conectado ao húmus, à terra do chão da qual provem todo ser humano. Justiça combina, e muito, com humildade. Humildade manifesta pelo sóbrio publicano que, diante do Justo Juiz, ao fazer-se juiz de si mesmo, percebe-se pecador e entrega-se confiante à misericórdia do Senhor. Ponto para ele! A humildade o liberta do orgulho, da prepotência e de uma imagem enganadora de si mesmo. Tendo olhos atentos para as próprias misérias e renovando sua confiança na Bondade do Pai, provavelmente também saberá ser justo e compassivo para com os outros, sem julgá-los e condená-los para parecer mais santo e justo na presença de Deus, postura adotada pelo fariseu.

Este último, aliás, aliena-se no próprio orgulho e na prepotência. Em vez de fazer-se servo e irmão de seu próximo, utiliza-o como “escada”, pois tem a ilusão de que, pisando no outro, estará mais alto e, consequentemente, mais próximo de Deus. Tem dificuldade de perceber que, em Jesus Cristo, Deus nos manda seguir um caminho oposto. Quem deseja subir, deve, necessariamente, dispor-se a descer aos últimos degraus do serviço e da humildade, para ali encontrar o grande tesouro do amor generoso de Deus.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.

Textos bíblicos para este domingo

Primeira Leitura: Eclo 35,15b-17.20-22a

15bO Senhor é um juiz que não faz discriminação de pessoas. 16Ele não é parcial em prejuízo do pobre, mas escuta, sim, as súplicas dos oprimidos; 17jamais despreza a súplica do órfão, nem da viúva, quando desabafa suas mágoas.

20Quem serve a Deus como ele o quer, será bem acolhido e suas súplicas subirão até as nuvens. 21A prece do humilde atravessa as nuvens: enquanto não chegar não terá repouso; e não descansará até que o Altíssimo intervenha, 22afaça justiça aos justos e execute o julgamento.


Responsório: Sl 33

— O pobre clama a Deus e ele escuta: o Senhor liberta a vida dos seus servos.

— O pobre clama a Deus e ele escuta: o Senhor liberta a vida dos seus servos.

— Bendirei o Senhor Deus em todo o tempo,/ seu louvor estará sempre em minha boca./ Minha alma se gloria no Senhor;/ que ouçam os humildes e se alegrem!

— Mas ele volta a sua face contra os maus,/ para da terra apagar sua lembrança./ Clamam os justos, e o Senhor bondoso escuta/ e de todas as angústias os liberta.

— Do coração atribulado ele está perto/ e conforta os de espírito abatido./ Mas o Senhor liberta a vida dos seus servos,/ e castigado não será quem nele espera.


Segunda Leitura: 2Tm 4,6-8.16-18

Caríssimo: 6Quanto a mim, eu já estou para ser oferecido em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida. 7Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. 8Agora está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos que esperam com amor a sua manifestação gloriosa.

16Na minha primeira defesa, ninguém me assistiu; todos me abandonaram. Oxalá que não lhes seja levado em conta.

17Mas o Senhor esteve a meu lado e me deu forças; ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente, e ouvida por todas as nações; e eu fui libertado da boca do leão. 18O Senhor me libertará de todo mal e me salvará para o seu Reino celeste. A ele a glória, pelos séculos dos séculos! Amém.


A justificação é dom de Deus

Evangelho: Lc 18, 9-14

* 9 Para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros, Jesus contou esta parábola: 10 «Dois homens subiram ao Templo para rezar; um era fariseu, o outro era cobrador de impostos. 11 O fariseu, de pé, rezava assim no seu íntimo: ‘Ó Deus, eu te agradeço, porque não sou como os outros homens, que são ladrões, desonestos, adúlteros, nem como esse cobrador de impostos. 12 Eu faço jejum duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda’. 13 O cobrador de impostos ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu, mas batia no peito, dizendo: ‘Meu Deus, tem piedade de mim, que sou pecador!’ 14 Eu declaro a vocês: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se eleva, será humilhado, e quem se humilha, será elevado».


* 9-14: Não basta ser perseverante e insistente. É preciso reconhecer e confessar a própria pequenez, recorrendo à misericórdia de Deus. De nada adianta o homem justificar a si mesmo, pois a justificação é dom de Deus.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

30º Domingo do Tempo Comum, ano C

Oração: “Deus eterno e todo-poderoso, aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade e dai-nos amar o que ordenais para conseguirmos o que prometeis”.

  1. Primeira leitura: Eclo 35,15b-17.20-22a

A prece do humilde atravessa as nuvens.

A primeira leitura coloca-se no contexto dos sacrifícios oferecidos a Deus (35,1-14). O sábio recomenda que os sacrifícios sejam oferecidos com generosidade. Insiste, porém, que a Deus agrada mais a prática do bem do que o sacrifício: observar os mandamentos do Senhor, praticar a caridade, dar esmolas e afastar-se da injustiça. Alerta que, sem a vivência do amor ao próximo, o sacrifício seria uma inútil tentativa de subornar a Deus (v. 14; cf. Os 6,6).

A leitura de hoje completa os pensamentos do texto anterior e nos convida a buscar um relacionamento com Deus pela oração e a prática do bem, sem a mediação de sacrifícios. Parte do princípio que Deus não se deixa subornar com generosos sacrifícios (v. 14), como acontecia com juízes injustos de seu tempo, que vendiam a sentença em favor dos ricos e prejuízo dos pobres. Quando julga, Deus não olha o quanto alguém lhe possa oferecer por uma sentença favorável, mas sempre escuta a súplica do pobre e do oprimido. O pobre não tem como pagar a Deus, porque é pobre, nem o rico, porque é rico. A sentença é gratuita. Deus não discrimina ninguém, mas tem sua preferência pelos desfavorecidos, pobres, oprimidos, órfãos e viúvas que lhe pedem socorro. E se Deus atende a súplica do órfão e da viúva, também atenderá a súplica de quem “o serve como ele quer”, isto é, age em favor dos pobres e sofredores. A prece, porém, deve ser humilde e persistente como a dos pobres; a súplica deles não descansa enquanto não “atravessar as nuvens” e for atendida por Deus. E Deus, que é justo juiz, certamente fará justiça para quem lhe pede socorro. A imagem que o sábio tem de Deus se aproxima à de Jesus na parábola do juiz injusto e da viúva pobre (29º domingo).

Salmo responsorial: Sl 33

O pobre clama a Deus e ele o escuta:

            o Senhor liberta a vida dos seus servos.

  1. Segunda leitura: 2Tm 4,6-8.16-18

Agora está reservada para mim a coroa da justiça.

Na 2ª leitura ouvimos uma parte do que é considerado “o testamento do Apóstolo” (4,1-8). Paulo tem consciência que é pecador, salvo pela graça de Deus (1Tm 1,13; Gl 1,11-16a). Sabe que sua partida deste mundo está próxima. Considera-se pronto para ser oferecido em sacrifício, o martírio. Vale-se da linguagem esportiva para falar da missão cumprida: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé”. Paulo guardou não só a , mas também a esperança de receber do Senhor, justo Juiz, a coroa da justiça, reservada para ele e para todos os que aguardam com amor a sua vinda gloriosa, no fim dos tempos. Por fim, para dar ânimo a Timóteo, Paulo lembra-lhe o quanto foi decisiva a força da graça divina para que ele cumprisse fielmente a missão que Cristo lhe confiou. Por isso entrega-se confiante nas mãos do Senhor que o livrará de todo o mal e o salvará para o Reino celeste. E conclui: “Ao Senhor a glória, pelos séculos dos séculos! Amém”. – Bem diferente é a postura do fariseu que glorifica a si mesmo e não a Deus (Evangelho). Paulo manifesta uma profunda união com Cristo, vivida com fé, esperança e amor. Como eu vivo a união com Cristo com os irmãos?

Aclamação ao Evangelho: 2Cor 5,19

   O Senhor reconciliou o mundo em Cristo, confiando-nos sua Palavra;

            a Palavra da reconciliação, a Palavra que hoje, aqui, nos salva.

  1. Evangelho: Lc 18,9-14

O cobrador de impostos voltou para casa justificado, o outro não.

Domingo passado ouvimos a parábola da viúva pobre que com persistência clamava por justiça, até conseguir dobrar o juiz injusto para lhe fazer justiça. Jesus contou essa parábola para mostrar aos discípulos “a necessidade de rezar sempre, e nunca desistir”. Jesus revelou um pouco da imagem de Deus misericordioso, que atende à prece humilde e persistente do pobre. O Evangelho de hoje é a continuação do domingo anterior. Jesus conta mais uma parábola, agora para ilustrar a maneira mais adequada de se relacionar com Deus, que é a oração humilde. Lembremos que Jesus está em viagem com os discípulos e o povo rumo a Jerusalém. Era a romaria anual que se fazia por ocasião das festas da Páscoa judaica. Todos se dirigiam ao Templo, “a casa de oração”, meta da romaria (Lc 19,45-46).

É neste contexto que Jesus conta a parábola do fariseu e do cobrador de impostos. Ambos entram no Templo para rezar. Os fariseus se consideravam justos e retos, um exemplo da fiel observância da Lei. Os cobradores de imposto (publicanos) exerciam uma profissão ingrata. Os publicanos tinham um chefe e recebiam uma comissão pelo valor arrecadado. Os da escala mais baixa cobravam diretamente do povo as taxas de alfândega exigidas pelos romanos e, descontada a comissão, repassavam o dinheiro ao seu chefe. Os cobradores de imposto faziam o “serviço sujo”, aumentando a sua comissão; eram odiados pelo povo desprezados como pecadores pelos fariseus. – O fariseu rezava de pé, mas não veio para pedir perdão. Não colocou a Deus como centro de sua oração. Fez dele mesmo o centro de sua oração, e dizia: “Ó Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros ou como este cobrador de impostos”. Considerava-se perfeito porque jejuava duas vezes por semana e pagava direitinho o dízimo. O fariseu não se apresenta a um Deus pessoal, mas diz “Ó Deus”, um Deus distante que deve reconhecer sua justiça (1ª leitura). Não se encontra, nem se confronta com Deus. Apenas se compara com “os outros homens”, que são pecadores. O cobrador de impostos, porém, ficou à distância; de cabeça baixa, nem ousava levantar os olhos para o céu. Com humildade, batia no peito e dizia: “Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador”. Jesus mesmo tira a lição desta parábola: “Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado”.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

Fariseu mais que perfeito

Frei Clarêncio Neotti

O quadro que Jesus compõe é perfeito: aos olhos humanos, tanto o fariseu quanto o publicano fizeram boa oração. Os fariseus levavam muito a sério o cumprimento das Leis. Numa Jerusalém que chegava perto dos 30 mil habitantes, os fariseus, talvez, não chegassem a seis mil, mas tinham grande influência sobre o povo. Deles faziam parte os escribas (mestres da Lei) e parte da classe sacerdotal. Para eles a Lei era a expressão da vontade de Deus. Cumprir a Lei em seus pormenores era cumprir inteiramente a vontade de Deus e, portanto, ser merecedor de todas as graças e privilégios.

O fariseu que hoje reza no Templo ultrapassa o fariseu perfeito. A Lei exigia um jejum por ano, no dia da Reconciliação (Lv 16,29-39). Ele, porém, jejuava duas vezes por semana. Provavelmente para expiar os pecados do povo ignorante e assim desviar a ira de Deus, que poderia castigar com catástrofes nacionais, como acontecera várias vezes na história. A Lei mandava pagar o dízimo do trigo, do óleo, do vinho novo e entregar no Templo o primogênito dos animais. O nosso fariseu declara que paga o dízimo de todas as suas rendas, talvez para reparar o crime legal dos comerciantes que não pagavam na fonte.

Amor e humildade

Também a forma de o fariseu rezar é muito boa: entre os judeus se fazia, sobretudo, oração de louvor e agradecimento, que é sempre melhor do que a oração de pedidos. Reza em pé, não por orgulho, mas porque os judeus costumavam rezar em pé. Tudo parece certo: oração em público, no Templo, lugar privilegiado para a oração; oração de agradecimento por fazer as coisas melhor do que era sua obrigação. Onde está o erro fundamental, que anula por inteiro a oração, impedindo sua justificação (o perdão e a santificação)?

São dois os erros. O primeiro é o desprezo pelos outros, ainda que pecadores (v. 13). Aqui está uma medida indicada várias vezes por Jesus para sabermos o tamanho e a intensidade do nosso amor a Deus. Amamos a Deus não na medida do cumprimento das leis, mas na medida do amor que temos ao próximo, incluídos os que não nos amam ou não pensam como nós. O Apóstolo Paulo, no capítulo 13 da Carta aos Coríntios, enumera todas as qualidades possíveis numa pessoa, para dizer: “Mas, se eu não for caridoso, nada sou” (1 Cor 13,1- 3).

O segundo erro do fariseu é a autojustificação. Deixa entrever que se santifica a si mesmo e nada precisa de Deus a não ser recompensa. Não é o fato de enumerar as coisas boas que faz que esteja errado. Há salmos que também enumeram bens feitos (por ex. Sl 17,2-5). Mas nosso fariseu esquece que toda justificação vem de Deus, porque só Deus é a fonte da santidade.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

Daqueles que podem acolher o olhar compassivo do Senhor

Frei Almir Guimarães

A prece do humilde atravessa as nuvens.
Eclesiástico

♦ Lucas continua a nos formar no tema da oração. Nunca seremos totalmente instruídos na delicada arte da oração. Não receberemos um diploma de fim de curso. Ao longo dos caminhos de nossa vida precisamos ir revendo o modo de nos acercar do Altíssimo. Nunca é tarde para retomar o empenho de vida para o Senhor, vida de íntimo relacionamento com aquele que nos perscruta, nos vê, conhece nosso deitar e nosso levantar. Oração que não é mastigação de palavras, mas ato de oblação da vida ao Senhor em tudo e por tudo. Total e amorável entrega de nossa vida ao Amado.

♦ Os que buscamos o Senhor sabemos que a primeira condição de sucesso na “convivência” com o Senhor é uma postura de consciência de nossa verdade. Somos buscadores das estrelas, mas muitas vezes permanecemos na banalidade das coisas mais   baixas. Os que se acercam do Senhor fazem-no com profunda humildade. Não trazem títulos que foram colando em seu corpo e em sua mente. Humildade: reconhecimento de nossos limites e fraquezas. Não somos Deus e não queremos competir com ele.

♦ A parábola deste domingo é dirigida aos que se consideram justos e perfeitos quase que pela mera observância de regulamentos, mesmo oriundo das Escrituras. Não somente isso. Os que assim se julgavam “desprezavam” os pecadores.

♦ Templo, espaço de oração. Dois homens. O primeiro é um observador da lei, um garboso cumpridor de tudo. O homem está satisfeito consigo mesmo. Correto, sem erros, tudo em ordem. Ele parece feliz de ser o que é com suas observâncias. Ora em pé, seguro, sem temor algum. Sua consciência não o acusa de falta alguma. De seu coração brota espontaneamente o agradecimento: “Meu Deus, eu te dou graças”. Não é como os outros. Não é ato de hipocrisia. Tudo o que ele diz é real, cumpre todos os mandamentos da lei. Jejua todas as segundas e quintas pelos pecados do povo, embora seja o brigado a fazê-lo uma só vez, no Dia da Expiação. Uma vida irrepreensível.

♦ A oração do coletor de impostos é diferente. Entra discretamente. Não abre os braços contando vantagens. Fica atrás, porque sabe que não é digno do local sagrado. Nem sequer se atreve a levantar os olhos do chão. Reconhece seu pecado.  Manifesta sua vergonha. Não se atreve a nada prometer. Não pode restituir o que roubou por desconhecer a identidade das pessoas que prejudicou. Não pode abandonar o trabalho necessário para seu sustento e dos seus. Recorre  à misericórdia do Senhor:  “Meu  Deus, tende compaixão porque sou pecador”.  Uma súplica humilde de misericórdia.

♦ O homem religioso que fazia mais do que a lei pedia, não encontrou favor diante de Deus. Segundo Jesus o coletor de impostos volta à casa reconciliado com Deus. Jesus pega a todos de surpresa. Rompe esquemas friamente legalistas, escandaliza seus ouvintes.

♦ “Jesus capta que sua mensagem é supérflua para os que vivem seguros e insatisfeitos em sua própria religião. Os justos quase não sentem que precisam de salvação. Basta-lhes a tranquilidade proporcionada pelo sentir-se dignos de Deus e diante da consideração de Deus “  (Pagola).

♦ Colocando-nos diante de Deus, exprimimos nosso louvor, nossa adoração, nossa homenagem pela sua grandeza amorosa.  Agradecemos seu amor, o Filho querido que nos enviou. Prometemos o melhor na linha de uma fidelidade criativa que vai crescendo ao longo do tempo da vida. Queremos atingir as estrelas, mas constatamos que giramos em torno de nós mesmos e dançamos a canção do egoísmo, somos indiferentes aos passantes, não  partilhamos o que somos e o que temos.  Precisamos delicadamente examinar nossa consciência. Confiar na misericórdia do Senhor. Haveremos de viver de verdade o ato penitencial da missa e procurar receber com humildade o sacramento do perdão.

♦ Os que vivem dramas, revoltas, momentos de desespero e mesmo tenham queixas para com o Senhor que se joguem na Bondade daquele que é a Misericórdia.


Texto para a reflexão

Não sei os que podem chegar a ler estas páginas. Nesse momento eu penso em vocês que se sentem incapazes de viver de acordo com as normas impostas pela sociedade; vocês que não têm força de o ideal moral estabelecido pela religião; vocês que estão enredados numa vida indigna; vocês que não se atrevem a olhar nos olhos da esposa nem dos filhos; vocês que saem da prisão para voltar novamente a ela; vocês que não podem escapar da prostituição…  não se esqueçam nunca: Jesus veio para vocês. (Pagola Lucas, p. 307)


Oração

QUERO SEGUIR-TE, SENHOR

Tu me conheces e sabes o que eu quero,
tanto meus projetos como minhas fraquezas.
Não posso ocultar-te nada,  Jesus.
Gostaria de deixar de pensar em mim
e dedicar mais tempo a ti.
Gostaria de entregar-me inteiramente a ti.
Gostaria de seguir aonde fores.
Mas nem isso e atrevo a dizer-te,
porque sou fraco.
Tu o sabes melhor do que eu.
Sabes de que barro sou feito,
tão frágil  e inconstante.
Por isso preciso  ainda mais de ti,
para que me guies sem cessar,
para que sejas  meu apoio e meu descanso.
Obrigado, Jesus por  tua amizade!


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Refugiar-se na compaixão de Deus

José Antonio Pagola

De acordo com Lucas, Jesus dirige a parábola do fariseu e o publicano a alguns que se presumem justos diante de Deus e desprezam os outros. Os dois protagonistas que sobem ao templo para orar representam duas atitudes religiosas contrapostas e irreconciliáveis. Mas, qual é a postura acertada diante de Deus? É esta a pergunta de fundo.

O fariseu é um observante escrupuloso da Lei e um praticante fiel de sua religião. Sente-se seguro no templo. Ora de pé e com a cabeça erguida. Sua oração é a mais bela: uma oração de louvor e ação de graças a Deus. Mas não lhe dá graças por sua grandeza, por sua bondade ou misericórdia, e sim pelo que há de bom e grande nele próprio.

Imediatamente, observa-se algo falso nesta oração. Mais que orar, este homem está se contemplando a si mesmo. Conta sua própria história cheia de méritos. Ele precisa sentir-se bem diante de Deus e exibir-se como superior aos outros.

Este homem não sabe o que é orar. Não reconhece a grandeza misteriosa de Deus nem confessa sua própria pequenez. Buscar a Deus para enumerar diante dele nossas boas obras e desprezar os outros é coisa de imbecis. Por trás de sua aparente piedade esconde-se uma atitude “ateia”. Este homem não precisa de Deus. Não lhe pede nada. Basta-se a si mesmo.

A oração do publicano é muito diferente. Ele sabe que sua presença no templo é malvista por todos. Seu ofício de cobrador de impostos é odiado e desprezado. Ele não se escusa. Reconhece que é pecador. O bater no peito e as poucas palavras que sussurra dizem tudo: -o Deus, tem compaixão deste pecador”.

Este homem sabe que não pode vangloriar-se. Não tem nada a oferecer a Deus, mas sim muito a receber dele: seu perdão e sua misericórdia. Em sua oração há autenticidade. Este homem é pecador, mas está no caminho da verdade.

Os dois sobem ao templo para orar, mas cada um traz em seu coração sua imagem de Deus e seu modo de relacionar-se com Ele. O fariseu continua enredado numa religião legalista: para ele o importante é estar em ordem com Deus e ser mais observante do que todos. O cobrador, pelo contrário, abre-se ao Deus do Amor que Jesus prega: aprendeu a viver do perdão, sem vangloriar-se de nada e sem condenar ninguém.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

A oração do pecador

Pe. Johan Konings

Será preciso ser santo ou beato para rezar a Deus? Os simples pecadores precisam “delegar”as monjas ou algum padre muito santo para rezar por suas intenções? O Antigo Testamento ensinava que “a prece do humilde atravessa as nuvens” (1ª leitura). Jesus, no evangelho, faz deste humilde um pecador. Enquanto na frente do templo um fariseu, diante de Deus, se gloria de suas boas obras, um publicano – coletor de taxas a serviço do imperialismo estrangeiro – reza no fundo do templo com humildade e compunção. Jesus conclui: este foi, por Deus, declarado justo e absolvido, mas o fariseu, não.

O mais importante na avaliação geral de nossa vida não é o número e o tamanho de nossos pecados, mas nossa amizade com Deus. Como no episódio da pecadora em casa do fariseu (Lc 7, 36-50), alguém pode ter pouco pecado e pouquíssimo amor, e outra pessoa pode ter grandes pecados e imenso amor. Quem nada faz, não peca por infração. Só por desamor… e para esta falta não existe remédio. Quem só pensa em si mesmo – como o fariseu -, como Deus pode ser amigo dele?

É muito importante os pecadores manterem o costume de conversar com Deus, que chamamos de oração. É bom que saibam que Deus os escuta. Isso faz parte integrante da boa nova de Cristo (e da Igreja). A rejeição moralista dos pecadores é anticristã e contradiz o espírito da Igreja, que oferece o sacramento da penitência para marcar com sua garantia o pedido de reconciliação do pecador penitente.

Importa anunciar isso a quantos estão “afastados”, por diversas razões (situação matrimonial irregular, vida sexual não conforme as normas, pertença à maçonaria, rejeição de alguns dogmas ou posicionamentos da Igreja etc.). Em alguns casos, estas pessoas poderiam ser plenamente reintegradas, mediante devida informação e diálogo. Em outros, a plena vida sacramental continuará impossível, mas mesmo assim devem saber que Deus é maior que os sacramentos e presta ouvido à oração de quem entrega sua vida quebrantada nas mãos dele.

Importa anunciar isso sobretudo ao povo simples, marcado por séculos de desprezo e discriminação, falta de instrução, missas ouvidas na porta do templo. Suas preces do fundo do templo, como a do publicano, serão certamente atendidas! Hoje, muitos deles já podem avançar até perto do altar; oxalá não se tornem fariseus!


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella