Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

29º Domingo do Tempo Comum

29º Domingo do Tempo Comum

O problema não era César, mas Cristo

 

Frei Gustavo Medella

A preocupação dos fariseus não era o tributo, mas colocar Jesus numa situação constrangedora. Além do mais, certamente eles tinham já sua opinião formada, afinal, julgavam-se os melhores praticantes das leis e maiores conhecedores da religião. No entanto, sua postura de empáfia e autossuficiência não lhes permitia enxergar a grande novidade apresentada por Jesus: a de um messianismo que salva e liberta pelo despojamento e não pela conquista e pelo acúmulo de poder e de dinheiro. Um paradoxo difícil de entrar na cabeça de quem se formatou a partir de uma concepção de mundo onde, necessariamente, precisa haver vencedores e vencidos, dominadores e dominados, alguns que usufruem de todas as vantagens e uma imensa maioria vivendo sempre no prejuízo.

Para quem pensa assim, ao modo fariseu, ser livre, bem-sucedido e feliz significa estar do lado de quem manda, de quem ganha, de quem ostenta e de quem julga. Para Jesus, a grande liberdade e o auge da bem-aventurança é a graça de se cultivar um coração puro e misericordioso, capaz de se compadecer e de se mostrar solidário à dor do outro, fazendo-se próximo especialmente daquele que sofre.

Difícil de entender o motivo pelo qual os ensinamentos e os testemunhos de um pobre e periférico tenha incomodado tantos “herodes” e “césares”. Enquanto estes tinham o rosto estampado em moedas, o nome exposto em placas pelas ruas e praças, Aquele não tinha sequer onde recostar a cabeça. E mesmo assim sua mensagem permaneceu, embora ainda hoje se tenha dificuldade em entendê-la a partir de sua essência. Este Deus de Jesus Cristo é mesmo desconcertante.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.


Imagem: Dinheiro de César, do pintor Rubens (domínio público)

Leituras bíblicas deste domingo

Primeira Leitura: Is 45,1.4-6

1Isto diz o Senhor sobre Ciro, seu Ungido: “Tomei-o pela mão para submeter os povos ao seu domínio, dobrar o orgulho dos reis, abrir todas as portas à sua marcha, e para não deixar trancar os portões.

4Por causa de meu servo Jacó, e de meu eleito Israel, chamei-te pelo nome; reservei-te, e não me reconheceste. 5Eu sou o Senhor, não existe outro: fora de mim não há deus. Armei-te guerreiro, sem me reconheceres, 6para que todos saibam, do oriente ao ocidente, que fora de mim outro não existe. Eu sou o Senhor, não há outro”.


Salmo Responsorial: Sl 95

— Ó família das nações, dai ao Senhor poder e glória!

— Ó família das nações, dai ao Senhor poder e glória!

— Cantai ao Senhor Deus um canto novo,/ cantai ao Senhor Deus, ó terra inteira!/ Manifestai a sua glória entre as nações,/ e entre os povos do universo seus prodígios!

— Pois Deus é grande e muito digno de louvor,/ é mais terrível e maior que os outros deuses,/ porque um nada são os deuses dos pagãos./ Foi o Senhor e nosso Deus quem fez os céus.

— Ó família das nações, dai ao Senhor,/ ó nações, dai ao Senhor poder e glória,/ dai-lhe a glória que é devida ao seu nome!/ Oferecei um sacrifício nos seus átrios.

— Adorai-o no esplendor da santidade,/ terra inteira, estremecei diante dele!/ Publicai entre as nações: “Reina o Senhor! ”,/ pois os povos ele julga com justiça.


Segunda Leitura: 1Ts 1,1-5b

1Paulo, Silvano e Timóteo, à Igreja dos tessalonicenses, reunida em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo: a vós, graça e paz! 2Damos graças a Deus por todos vós, lembrando-vos sempre em nossas orações. 3Diante de Deus, nosso Pai, recordamos sem cessar a atuação da vossa fé, o esforço da vossa caridade e a firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo.

4Sabemos, irmãos amados por Deus, que sois do número dos escolhidos. 5bPorque o nosso Evangelho não chegou até vós somente por meio de palavras, mas também mediante a força que é o Espírito Santo; e isso, com toda a abundância.


O povo pertence a Deus
Evangelho: Mt 22,15-21

-* 15 Então os fariseus se retiraram, e fizeram um plano para apanhar Jesus em alguma palavra. 16 Mandaram os seus discípulos, junto com alguns partidários de Herodes, para dizerem a Jesus: «Mestre, sabemos que tu és verdadeiro, e que ensinas de fato o caminho de Deus. Tu não dás preferência a ninguém, porque não levas em conta as aparências. 17 Dize-nos, então, o que pensas: É lícito ou não é pagar imposto a César?» 18 Jesus percebeu a maldade deles, e disse: «Hipócritas! Por que vocês me tentam? 19 Mostrem-me a moeda do imposto.» Levaram então a ele a moeda. 20 E Jesus perguntou: «De quem é a figura e inscrição nesta moeda?» 21 Eles responderam: «É de César». Então Jesus disse: «Pois deem a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.»

* 15-22: Cf. nota em Mc 12,13-17. O novo povo de Deus pertence unicamente a Deus, e só Deus pode exigir do homem adoração. [* 13-17: O imposto era o sinal da dominação romana; os fariseus a rejeitavam, mas os partidários de Herodes a aceitavam. Se Jesus responde «sim», os fariseus o desacreditarão diante do povo; se ele diz «não», os partidários de Herodes poderão acusá-lo de subversão. Mas Jesus não discute a questão do imposto. Ele se preocupa é com o povo: a moeda é «de César», mas o povo é «de Deus». O imposto só é justo quando reverte em benefício do bem comum. Jesus condena a transformação do povo em mercadoria que enriquece e fortalece tanto a dominação interna como a estrangeira.]

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

29º Domingo do Tempo Comum

 Oração: “Deus eterno e todo-poderoso, dai-nos a graça de estar sempre ao vosso dispor, e vos servir de todo o coração”.

  1. Primeira leitura: Is 45,1.3-6

Tomei Ciro pela mão direita,

Para que submeta os povos ao seu domínio.

Por volta do ano 550 a.C., Ciro, rei dos persas conquistou Babilônia, pondo fim ao império babilônico. Surge uma nova esperança entre os judeus deportados, residentes junto ao rio Eufrates. Ciro, o novo rei dos persas, é saudado pelo profeta como o ungido do Senhor, como eram chamados os reis de Israel (1Sm 24,7). Chamar alguém de ungido do Senhor é dizer que Ciro, apesar de ser pagão, foi escolhido por Javé para uma missão especial: permitir o retorno do povo de Deus para a Terra Prometida. A missão de Ciro é submeter os povos a seu domínio, dobrar o orgulho dos reis e abrir um caminho não só para os persas, mas para o Senhor, o Deus de Israel (Is 40,3-5). Os babilônios foram um instrumento de punição nas mãos de Deus para punir o povo infiel; agora, Ciro é o instrumento nas mãos de Deus para cumprir os seus planos de salvação. Para o profeta, Javé, o Deus de Israel, é o único e verdadeiro Deus que conduz a história política universal: “Eu sou o Senhor, e fora de mim não existe outro”.

Você acredita que Deus conduz a história conturbada do povo brasileiro, e do mundo inteiro, para o bem e a salvação de todas as pessoas de boa vontade? O que estamos aprendendo de bom com a pandemia? Uma senhora sábia, falando dos acontecimentos da vida, dizia: “Deus escreve direito por linhas tortas. O pior que a gente não sabe ler”.

Salmo responsorial: Sl 95 (96)

Ó família das nações, dai ao Senhor poder e glória!

  1. Segunda leitura: 1Ts 1,1-5b

Recordamo-nos sem cessar da vossa fé,

Da caridade e da esperança.

A 2ª leitura é o início da mais antiga carta do apóstolo Paulo (pelo ano 51 d.C.), enviada à comunidade de Tessalônica. Ao chegar a uma cidade Paulo primeiro procurava a sinagoga judaica local. Em Tessalônica permaneceu mais que três meses. Durante três sábados anunciou foi a sinagoga para anunciar Jesus de Nazaré, crucificado e ressuscitado ao terceiro dia, como o Messias esperado pelos judeus (At 17,1-15). Vendo que Paulo fazia muitos adeptos, alguns judeus provocaram um tumulto e Paulo teve que sair às pressas da cidade. Por isso logo procurou comunicar-se com a nova comunidade por meio de cartas. Na saudação percebemos que Paulo trabalhava na evangelização em equipe, com Silvano e Timóteo. No trecho que ouvimos lembra as virtudes cardeais que animam a comunidade e unem a Cristo: fé, caridade e esperança. Os tessalonicenses, em parte de origem pagã, são os escolhidos em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo. Constata que a comunidade cresce pela ação do Espírito Santo, mais do que por suas palavras. Paulo e seus companheiros são apenas instrumentos da ação da graça divina. Eles anunciam o Evangelho por palavras, mas quem forma e congrega a comunidade é o Espírito Santo.

Aclamação ao Evangelho

Como astros no mundo vós resplandeceis,

Mensagem de vida ao mundo anunciando,

Da vida a Palavra, com fé, proclameis,

Quais astros luzentes no mundo brilheis.

  1. Evangelho: Mt 22,15.21

Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

A pergunta feita a Jesus pelos discípulos dos fariseus, na presença dos soldados de Herodes Antipas (herodianos), era uma armadilha de caráter político. Para captar a simpatia de Jesus eles fazem um elogio: Jesus é verdadeiro, ensina o caminho de Deus e não julga pelas aparências: “É lícito ou não pagar imposto a César?” Se Jesus respondesse “sim”, estaria do lado dos herodianos, que apoiavam os romanos. Neste caso, perderia a simpatia do povo que abominava pagar impostos aos dominadores pagãos. Mas, se respondesse “não”, poderia ser acusado como subversivo. Foi esta a acusação feita contra Jesus diante de Pilatos: “Encontramos este homem subvertendo a nação. Proíbe pagar impostos a César…” (Lc 23,2). Ao fazer seus adversários ver a imagem e a inscrição na moeda, Jesus os obriga a reconhecer que César era quem mandava no país. Uma vez que aceitavam usar sua moeda, deveriam também aceitar as regras do jogo político: “Dai a César o que é de César…” Mas, ao acrescentar “Dai a Deus o que é de Deus”, Jesus está sugerindo que, todos, fomos criados à imagem e semelhança de Deus. A Ele devemos o tributo do louvor e da adoração. Pelos gestos e pela mensagem de Jesus seus adversários deviam reconhecer a presença de Deus e vinda de seu Reino, que Jesus anunciava. No contexto de uma pergunta de caráter político Jesus dá uma resposta que abrange a vida política e religiosa, que serve de orientação para nossa vida cristã.

Jesus nos ensina a sermos coerentes nas coisas políticas, pagando também os devidos impostos. Mas não podemos esquecer as exigências de Deus. Deus não cobra de nós impostos. Pede, sim, o nosso coração: “Amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração e a teu próximo como a ti mesmo”. Jesus nos propõe a partilha com os pobres. Isso não significa que “o padre deve ficar na sacristia”, nem que o leigo cristão fique escondido na igreja. Por isso: “Dai a Deus o que é de Deus”, e “Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça”.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFM,é professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

Mais além de não gostar de pagar impostos

Frei Clarêncio Neotti

Há outra observação a fazer, para entendermos o conjunto: os judeus se sentiam profundamente humilhados no pagamento do imposto. Primeiro, porque, de fato, era pesado (imposto sobre terra, número de filhos, metros de estrada, carne e sal consumidos, número de animais, de plantas frutíferas etc.). Segundo, porque pagar tributo a um imperador era para um hebreu, no mínimo, reconhecer nele o representante de Deus, e isso contradizia leis, profetas, costumes e dignidade da raça. Terceiro, porque manusear a moeda, em que o imperador era chamado de divino, era por si idolatria. E, por último, pagar tributo a um estrangeiro era prova de sujeição, o que repugnava os sentimentos de dignidade.

Não foi a primeira vez que alguém fez uma pergunta a Jesus. Mas dessa vez o Evangelho diz que a pergunta era uma armadilha (v. 15). Se respondesse sim, Jesus seria acusado de estar a serviço de estrangeiros (e seria pecador público), de trair a raça. E podia ser apedrejado, segundo a lei deles. Se respondesse não, seria acusado de subversão e de sonegação. Podia ser levado preso ao Procurador romano. Qualquer uma das duas respostas daria aos fariseus a razão suficiente para condená-lo. A eles interessava a eliminação sumária, não a opinião de um Mestre respeitado pelo povo.

A pergunta, portanto, não é feita para obter uma resposta, mas para obter um argumento de condenação. A maldade não estava na pergunta sobre o assunto que, de fato, preocupava o povo, mas na falsidade dos que a formularam. Tivesse
sido feita sem duplicidade de intenções, provavelmente Jesus a teria respondido, dando a sua opinião a respeito. Em lugar nenhum do Evangelho se diz que Jesus não participava da vida real, pobre e sofrida do povo. Mas não podia compactuar com a falsidade dos que o interrogavam. Dentro da própria pergunta estava a denúncia da insinceridade.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

As coisas de Deus e os negócios de César

Frei Almir Guimarães

♦ A liturgia deste domingo nos faz ouvir o conhecido evangelho do “dai a César o que de César e a Deus e o que é de Deus”. Não podemos fugir do tema, mesmo em sua complexidade. Discípulos de Jesus que somos, não vivemos de um lado nossa fé cristã e completamente do outro a existência no mundo. Fé e vida, para nós cristãos, se interpenetram sem se confundirem. O tema é vasto. Na história muitas vezes a Igreja andou passeando sem muito critério nos domínios de César e este, por sua vez tentando se imiscuir nos negócios da Igreja. Cada um no seu lugar, com sadia interpenetração e complementariedade.

♦ Cabe, neste contexto ter diante de nossos olhos algumas observações pertinentes de um antigo documento da Igreja conhecido como Carta a Diogneto (em torno de 120 dC): “Não se distinguem os cristãos dos demais, nem pela região, nem pela língua, nem pelos costumes. Não habitam cidades à parte, não empregam idioma diverso dos outros, não levam um gênero de vida extraordinário”(n.4). Os cristãos vivem no meio dos homens.

♦ São como todos. Nascem, crescem, estudam, trabalham, divertem-se, cantam, dançam, choram, batalham, convivem, homem, mulher. São cidadãos. César tem reponsabilidade de cuidar de todos, tanto dos cristãos, como cuida de todos os cidadãos que lhe são confiados. Recolhe impostos de todos, também dos cristãos. Com esses impostos os governantes cuidam da educação, da saúde, dos hospitais, da atenção para com os idosos, da limpeza pública, da iluminação, da segurança. Fazem casas decentes. Administram com honestidade as cidades e o país. Os cristãos são fiéis aos seus deveres para com Cesar. Dão a César o que é de César. Pagam seus impostos. Respeitam suas leis. Querem, no entanto, que seja respeitada sua consciência e sua opção religiosa.

♦ Em seu agir cotidiano, os cristãos projetam no mundo uma luz que lhes é própria. A partir do encontro com Cristo, da assimilação do Evangelho, pela audição da Palavra, pela vivência em comunidades fraternas e de oração fazem incidir uma claridade diferente no campo da vida e da vida com os outros. Estão densamente nas realidades terrenas, fazem o que podem para humanizá-las, inserem-se no cortejo daqueles que tornam a vida humana o mais digna possível. Médicos, sapateiros, advogados, banqueiros cristãos não negligenciam seus trabalhos. Realizam-no da melhor maneira. Os cristãos sentem-se convidados a humanizar o mundo e as relações.

♦ Estão no mundo, mas não são do mundo. Não aceitam certos projetos dos homens marcados por interesses pequenos, projetos que esquecem o ser humano marcados pelo aproveitamento dos incautos, falcatruas, banalização do corpo, pornografia, violação da consciência. Sempre iluminam o campo de atuação de César com a claridade do Evangelho. Estão no mundo, sem serem do mundo. São sal da terra, luz do mundo e fermento na massa. Adquirem essa postura de viver do Sermão da Montanha e com isso colocam em tudo gosto, claridade e tempero.

♦ “Na dialética posta por Jesus entre César e Deus situa-se a condição do crente que está no mundo, mas não é do mundo, que habita cidade secular, mas espera o Reino de Deus, que vive na pólis, mas que tem a politeúma, a cidadania nos céus (cf Fl 3,20). O cristão vive uma fidelidade autêntica à terra, graças à sua reserva escatológica. Dar a Deus o que é de Deus é tomado também no sentido de atuar para que o mundo – saído das mãos de Deus e confiado por Ele aos homens – na sua organização e nas suas instituições possa corresponder aos requisitos de justiça e de direito que são próprios da práxis messiânica” (Manicardi).


Para reflexão

Ainda a Carta a Diogneto:

Os cristãos…

♦ Moram na própria pátria, mas como peregrinos. Enquanto cidadãos, de tudo participam, porém tudo suportam como estrangeiros. Toda terra estranha é pátria para eles .
♦ Casam-se como todos os homens e como todos procriam, mas não rejeitam os filhos. A mesa é comum: não o leito.
♦ Estão na carne, mas não vivem segundo a carne. Se a vida deles decorre na terra, a cidadania, contudo, está nos céus. Obedecem as leis estabelecidas, todavia superam-nas pela vida;
♦Amam a todos e por todos são perseguidos. Desconhecidos, são condenados. São mortos e com isso se vivificam. Pobres enriquecem a muitos. Tudo lhes falta, e têm abundância de tudo…


Oração

Tu, Senhor, me conheces.
Conheces minha vida e minhas entranhas,
minhas veredas, meus rodeios, minhas dúvidas de sempre.
Tu és, apesar de meus erros,
o Senhor das minhas alegrias e de minhas penas
Deixa-me estar na tua presença.
Tranquiliza-me. Serena meu espirito
Abre meus sentidos.
Lava-me com água fresca.

F.Ulíbarri


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

A vida só é para Deus

José Antonio Pagola

A exegese moderna não dá lugar a dúvidas. O principal para Jesus é a vida, não a religião. Basta analisar a trajetória de sua atividade. Sempre o vemos preocupado por suscitar e desenvolver, no meio daquela sociedade, uma vida mais sadia e mais digna.

Pensemos em sua atuação no mundo dos enfermos: Jesus se aproxima dos que vivem sua vida de maneira diminuída, ameaçada ou insegura, para despertar neles uma vida mais plena. Pensemos em sua aproximação aos pecadores: Jesus lhes oferece o perdão que os faça viver uma vida mais digna, resgatada da humilhação e do desprezo. Pensemos também nos endemoninhados, incapazes de ser donos de sua vida: Jesus os liberta de uma vida alienada e desconcertada pelo mal.

Como foi sublinhado por Jon Sobrino, pobres são aqueles para os quais a vida é uma carga pesada, pois não podem viver com um mínimo de dignidade. Esta pobreza é o que há de mais contrário ao plano original do Criador da vida. Onde um ser humano não pode viver com dignidade, ali a criação de Deus aparece como viciada e anulada.

Por isso, Jesus se preocupa tanto com a vida concreta dos camponeses da Galileia. O que aquela gente precisa em primeiro lugar é viver, e viver com dignidade. Não é a meta final, mas é, neste momento, o mais urgente. Jesus os convida a confiar na salvação última do Pai, mas o faz salvando as pessoas da enfermidade e aliviando males e sofrimentos. Anuncia-lhes a felicidade definitiva no seio de Deus, mas o faz introduzindo dignidade, paz e felicidade neste mundo.

Às vezes, nós cristãos expomos a fé com uma tal confusão de conceitos e palavras que, na hora da verdade, poucos entendem o que é exatamente o Reino de Deus de que fala Jesus. Mas as coisas não são tão complicadas. O que Deus quer é unicamente isto: uma vida mais humana para todos e, desde agora, uma vida que chegue à sua plenitude na vida eterna. Por isso nunca se deve dar a nenhum César o que é de Deus: a vida e a dignidade de seus filhos.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

O Reino de Deus e a Política

Pe. Johan Konings

“Devolvei a César o que é de César, e a Deus, o que é de Deus”. Esta frase do evangelho (Mt 22,15-21) será uma declaração política? De fato, tem peso político, mas talvez de outro modo do que se pensa. Qual é o fato? Os judeus pagavam dízimo ao templo, com prazer, pois era “para Deus”. Mas além disso, a potência estrangeira que ocupava o país, o Império Romano, cobrava dos judeus um imposto pessoal, em troca de um estatuto protegido no seio do Império. Em vista disso, os especialistas da Lei judaica perguntam a opinião de Jesus, querendo obrigá-lo a escolher entre os judeus e César, o imperador romano. Pensavam que sua pergunta fosse “queimar” Jesus de um ou de outro lado. Jesus deu a resposta que conhecemos. É como se dissesse: “Se vocês negociam com César em troca desse imposto, paguem-no, já que vocês aceitam o estatuto especial que ele lhes dá em compensação. Mas não esqueçam que também a Deus estão devendo, e não pouca coisa, já que lhes deu tudo!”

Deus não recusa a mediação política para o seu projeto. Serve-se até de um rei estrangeiro para libertar Israel do exílio, e ainda o chama de “meu ungido” (o rei persa, Ciro, na 1ª leitura, Is 45, 1.4-6). Mas esse rei é um “servo” de Deus: ele tem quem está acima dele. Deus confia aos seres humanos as responsabilidades humanas. As questões políticas devem ser tratadas em nível político, isto é, com vistas ao “bem comum”do povo. Um governo é bom se governa, o melhor que pode, para todos. Então, ele é bom para Deus também. Senão, que o povo se livre desse governo… Mas existe também o nível de Deus, que é o “fim último”, o nível da vocação humana a ser filho de Deus e a realizar semelhança com Deus (cf. Gn 1,26). A política, aos olhos dos fiéis, sempre será uma mediação para chegar a esse projeto de Deus, embora ela tenha suas regras específicas. Sem Deus, um governante poderia proclamar que o “bem comum” está sendo atendido quando os “inadaptados” são eliminados da sociedade. Quem , porém, quer “dar a Deus o que é de Deus” nunca poderá dizer isso.

“A Igreja não deve fazer política!”. Se essa frase significa que a hierarquia da Igreja não deve se colocar no lugar da administração civil, está certa. Mas não pode significar que os cristãos não devem, como qualquer cidadão, assumir sua responsabilidade política. Cristo ensinou a realizar a fraternidade humana. Ora, esta se encarna num projeto político, numa determinada maneira de entender o bem comum. Por isso, os cristãos, como cidadãos inspirados por Cristo, mexem com reforma agrária, levam os politicamente marginalizados a se organizarem, propõem alternativas para a política econômica etc. Tudo isso é retribuir a Deus o que é de Deus, a saber, os dons que Deus deu a todos… mesmo quando para isso é preciso tirar de César o que não é dele.

Enquanto, pois, se exerce a responsabilidade civil, deve-se pensar em dar a Deus o tributo devido, que é: reconhecê-lo como aquele que indica a norma última, o amor a Deus e ao próximo (ensinado por Jesus logo depois, em Mt 23,34-40).


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella