Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

25º Domingo do Tempo Comum

25º Domingo do Tempo Comum

Quando a Banda passa…

 

Frei Gustavo Medella

Os versos da Canção “A Banda”, de Chico Buarque, são uma verdadeira obra de arte que, ao ritmo da letra e da melodia permitem ao ouvinte criar na mente a imagem do desfile festivo de uma banda pelas ruas de uma cidade do interior. A passagem da banda, que “toca coisas de amor” é um divisor de águas na vida daqueles que têm a graça de “ver a banda passar”. Toca e transforma o coração de quem por um instante deixa tudo para deixar-se contagiar por aquela magia de arte e beleza.

De acordo com o poeta, com o passar da banda, a gente sofrida se despede da dor, o homem sério – um investidor ou executivo, quem sabe? – para de contar o dinheiro e tem ali a chance de ouro de perceber que nem tudo na vida o dinheiro compra. O contador de vantagem também para e percebe que nem sempre precisa ser vencedor em tudo; muitas vezes basta dar passagem à alegria e à humildade. Até a moça feia chega na janela, “pensando que a banda tocava pra ela”; e tocava mesmo, afinal, a quem ama o feio, bonito lhe parece: também a feia pode ser bela.

A passagem da banda é para todos, sem exceção, possibilidade de reencanto pela vida e renovação da esperança. Não importa se alguns tenham acompanhado o desfile desde o início e outros apenas tenham chegado para o final. O amor que a banca toca se distribui igualmente para todos.

Talvez a imagem oferecida pela canção possa ajudar-nos a compreender um pouco mais profundamente a mensagem de Jesus no Evangelho deste 25º Domingo do Tempo Comum, quando Ele conta a Parábola dos trabalhadores da vinha, contratados em horas diferentes e que, ao fim do dia, são recompensados com a mesma quantia. À princípio, o que poderia parecer uma injustiça, apresenta-se como uma generosidade sem igual de quem amorosamente deseja distribuir o melhor de si para todos, sem exceção. Este é o nosso Deus!
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FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.


Imagem ilustrativa (Fonte: Canva)

Textos bíblicos para este domingo

Primeira Leitura: Is 55,6-9

6 Buscai o Senhor, enquanto pode ser achado; invocai-o, enquanto ele está perto. 7Abandone o ímpio seu caminho, e o homem injusto, suas maquinações; volte para o Senhor, que terá piedade dele, volte para nosso Deus, que é generoso no perdão.

8 Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos, diz o Senhor. 9 Estão meus caminhos tão acima dos vossos caminhos e meus pensamentos acima dos vossos pensamentos, quanto está o céu acima da terra.


Salmo Responsorial: Sl 144

— O Senhor está perto/ da pessoa que o invoca!

— O Senhor está perto/ da pessoa que o invoca!

— Todos os dias haverei de bendizer-vos,/ hei de louvar o vosso nome para sempre./ Grande é o Senhor e muito digno de louvores,/ e ninguém pode medir sua grandeza.

— Misericórdia e piedade é o Senhor,/ ele é amor, é paciência, é compaixão./ O Senhor é muito bom para com todos,/ sua ternura abraça toda criatura.

— É justo o Senhor em seus caminhos,/ é santo em toda obra que ele faz./ Ele está perto da pessoa que o invoca,/ de todo aquele que o invoca lealmente.


Segunda Leitura:  Fl 1,20c-24.27a

Irmãos: 20 Cristo vai ser glorificado no meu corpo, seja pela minha vida, seja pela minha morte. 21 Pois, para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro. 22 Entretanto, se o viver na carne significa que meu trabalho será frutuoso, neste caso, não sei o que escolher.

23Sinto-me atraído para os dois lados: tenho o desejo de partir, para estar com Cristo — o que para mim seria de longe o melhor — 24 mas para vós é mais necessário que eu continue minha vida neste mundo. 27a Só uma coisa importa: vivei à altura do Evangelho de Cristo.


Evangelho: Mt 20,1-16
O Reino é dom gratuito

* 1 «De fato, o Reino do Céu é como um patrão, que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. 2 Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha. 3 Às nove horas da manhã, o patrão saiu de novo. Viu outros que estavam desocupados na praça, 4 e lhes disse: ‘Vão vocês também para a minha vinha. Eu lhes pagarei o que for justo’. 5 E eles foram. O patrão saiu de novo ao meio-dia e às três horas da tarde, e fez a mesma coisa. 6 Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam na praça, e lhes disse: ‘Por que vocês estão aí o dia inteiro desocupados?’ 7 Eles responderam: ‘Porque ninguém nos contratou’. O patrão lhes disse: ‘Vão vocês também para a minha vinha’. 8 Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador: ‘Chame os trabalhadores, e pague uma diária a todos. Comece pelos últimos, e termine pelos primeiros’. 9 Chegaram aqueles que tinham sido contratados pelas cinco da tarde, e cada um recebeu uma moeda de prata. 10 Em seguida chegaram os que foram contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais. No entanto, cada um deles recebeu também uma moeda de prata. 11 Ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão: 12 ‘Esses últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor do dia inteiro!’ 13 E o patrão disse a um deles: ‘Amigo, eu não fui injusto com você. Não combinamos uma moeda de prata? 14 Tome o que é seu, e volte para casa. Eu quero dar também a esse, que foi contratado por último, o mesmo que dei a você. 15 Por acaso não tenho o direito de fazer o que eu quero com aquilo que me pertence? Ou você está com ciúme porque estou sendo generoso?’ 16 Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos.»

* 20,1-16: No Reino não existem marginalizados. Todos têm o mesmo direito de participar da bondade e misericórdia divinas, que superam tudo o que os homens consideram como justiça. No Reino não há lugar para o ciúme. Aqueles que julgam possuir mais méritos do que os outros devem aprender que o Reino é dom gratuito.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

25º Domingo do Tempo Comum

Oração: “Ó Pai, que resumistes toda a lei no amor a Deus e ao próximo, fazei que, observando o vosso mandamento do amor a Deus e ao próximo, consigamos chegar um dia à vida eterna”.

  1. Primeira leitura: Is 55,6-9Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos.

O texto que ouvimos foi escrito antes de 540 a.C. por um profeta anônimo, discípulo do grande profeta Isaías (séc. VIII a.C.), quando termina o império da Babilônia e começa o império dos persas. O profeta convoca os exilados a buscar o Senhor “enquanto pode ser achado” e invocar “enquanto ele ainda está perto”. Buscar o Senhor com sinceridade já era o apelo do profeta Amós (Am 5,4-7). É o momento de invocar o Senhor; é a hora da conversão, pois Deus está pronto para perdoar. Ele não abandonou seu povo no exílio, como muitos pensavam. Pelo contrário, está bem próximo de seu povo e pode ser encontrado. Para que isso aconteça, o pecador deve buscar o Senhor, invocar seu santo nome e abandonar o mau caminho, pois Ele é generoso no perdão. Agora é o momento histórico para que isso aconteça: Ciro, o rei persa, vai permitir a volta do povo à Terra Prometida. O que parece humanamente impossível acontecer (vossos pensamentos, vossos caminhos…) – diz Deus – é possível para Deus (meus caminhos, meus pensamentos). Ele está acima dos reinos e Impérios e controla a história.

Nossa existência neste mundo é o tempo da conversão e da graça divina da salvação. Basta abandonar os maus caminhos e voltar-se a Ele para acolher sua graça. Deus não quer a morte de ninguém, mas convida todos à conversão (cf. Ez 18,32). 

Salmo responsorial: Sl 144(145)

O Senhor está perto da pessoa que o invoca!

  1. Segunda leitura: Fl 1,20c-24.27a

Para mim, o viver é Cristo.

A comunidade de Filipos era formada por alguns judeu e simpatizantes do judaísmo e, sobretudo, por muitos pagãos convertidos. É a primeira comunidade cristã da Europa fundada por Paulo, durante a segunda viagem missionária, pelos anos 49-50. Tornou-se a comunidade mais querida do Apóstolo, que a visitou mais duas outras vezes (em 57-58). Paulo escreve da prisão em Éfeso. É uma carta muito pessoal, na qual procura confortar e animar os cristãos. Nela expressa também seus sentimentos na perspectiva de uma possível condenação à morte. Nestas circunstâncias, Paulo se pergunta o que lhe seria melhor: morrer para estar definitivamente com Cristo – o que lhe seria vantajoso – ou viver para continuar servindo à comunidade? Em outras palavras, sem Cristo a vida não teria sentido para Paulo. O importante para ele é estar unido a Cristo, seja morrendo, seja vivendo pela causa do Evangelho. “Mas para vós é mais necessário que eu continue minha vida neste mundo” – diz o Apóstolo – a fim de que os filipenses possam ter a mesma experiência de união com Cristo como a de Paulo. Para os cristãos o centro da vida cristã é Jesus Cristo.

Aclamação ao Evangelho:

Vinde abrir o nosso coração, Senhor;

Ó Senhor, abri o nosso coração,

E, então, do vosso Filho a palavra,

Poderemos acolher com muito amor.

  1. Evangelho: Mt 20,1-16a

Estás com inveja porque eu estou sendo bom?

O texto do Evangelho é conhecido como a “parábola dos trabalhadores da vinha” ou melhor, “parábola do bom patrão”. Nesta parábola Jesus parte da realidade dura do trabalho no campo, de todos conhecida. Na lei judaica previa-se que o valor da diária (12 hs!) fosse pago no fim do dia. Era uma espécie de salário mínimo. No costume romano, o valor da diária era uma moeda de prata, considerado o mínimo suficiente para alimentar uma família de seis pessoas por um dia. Na época das colheitas, os homens que esperavam ser contratados reuniam-se, desde a madrugada, numa praça. Os patrões se dirigiam à praça, bem cedo, uma só vez, e iam escolhendo os mais fortes e saudáveis; assim, os mais fracos e doentes ficavam sobrando, às vezes, sem conseguirem trabalhar; com isso, a família ficava sem comida no final do dia. O bom patrão da parábola dirige-se várias vezes à praça e contrata os que “sobraram”. Com os primeiros combina, como diária, uma moeda de prata; aos outros promete pagar o que fosse justo, que, no costume de então, seria o proporcional às horas trabalhadas. No final do dia, o bom patrão começa a pagar pelos trabalhadores da última hora e lhes paga uma moeda de prata, o suficiente para sustentar uma família. Os contratados da primeira hora, vendo que os últimos ganhavam uma moeda de prata, esperavam ganhar mais de uma moeda de prata (valor combinado), e por isso reclamam. O bom patrão (Deus) responde que eles receberam o que foi combinado (justiça humana: “vossos pensamentos”, 1ª leitura), mas ele tinha direito de dar a mesma paga aos contratados nas últimas horas, pois levava em consideração a necessidade de suas famílias (justiça divina: “meus pensamentos”). Na resposta aos trabalhadores das primeiras horas, o patrão se justifica com três perguntas, que nos convidam a refletir no sentido da parábola: 1) “Não combinamos uma moeda de prata?” – 2. Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence”? – 3. “Ou estás com inveja, porque eu estou sendo bom”? – A salvação trazida por Jesus Cristo não é um “direito” reservado aos judeus e fariseus (trabalhadores da primeira hora), que se consideravam perfeitos na observância da Lei. Pelo contrário, é oferecida a todos, incluindo pecadores e pagãos, trabalhadores da última hora. É assim que funciona a justiça de Deus. Ele oferece gratuitamente a salvação a todos seus filhos e suas filhas.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFM,é professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

Gratuidade: lição difícil

Frei Clarêncio Neotti

Se a lição desse Evangelho era extremamente difícil para os hebreus, incluídos os Apóstolos, ela se torna ainda mais difícil para nós hoje, sobretudo os ‘realizados’ economicamente. Os hebreus haviam desenvolvido toda uma teologia da re-
compensa. Deus daria segundo as obras praticadas. As obras eram ‘moeda’ certa para ‘comprar’ as bênçãos de Deus. E por obra entendia-se a observância das leis. Deus estaria obrigado a ser generoso para com os cumpridores fiéis das leis. Isso era ensinado de tal modo que qualquer doença ou desgraça era tida como castigo de más obras.

Jesus não só corrigiu o sentido do sofrimento, mas também corrigiu a ‘teologia’ da recompensa. Deus dá, não porque a criatura o mereça, mas porque ele, Deus, é bom e generoso e quer dar. É verdade que devemos praticar boas obras, cumprir os mandamentos com fidelidade e ser piedosos. Isso faz parte dos ensinamentos de Jesus, mas nossas obras, corporais e espirituais, não obrigam a Deus.

Há gente que pensa que pode comprar o que quer. Pode nas coisas terrenas, mas não nas espirituais. Pode até comprar benefícios eclesiásticos, mas não as graças do Reino de Deus. Pelo costume da barganha e pelo poder de aquisição das coisas deste mundo, facilmente pensa alguém poder obter de Deus o que quiser.

Muita esmola é dada para ‘comprar’ Deus, mas Deus não age por critérios humanos. Jesus nos ensinou que a generosidade de Deus não depende da quantidade de horas que trabalhamos, nem da nossa justiça, nem mesmo da nossa caridade. Já o profeta Isaías punha na boca de Deus: “Os meus critérios não são os vossos e os meus caminhos estão acima dos vossos” (ls 55,8-9).


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

O Senhor embaralha nossos pensamentos

O imprevisível Deus cristão

Frei Almir Guimarães

Os pensamentos do Senhor nem sempre são os nossos pensamentos.

♦ Uma parábola após a outra: Jesus vai forjando a personalidade nova dos ouvintes de então e suas Palavras ressoam através dos tempos para nos atingir e formar em nós caracteres limpidamente parecidos com o Mestre. Ouvimos a parábola dos operários da ultima hora. Quanto já se escreveu sobre isso. Mesmo chegando no final o expediente ainda se pode ganhar o salário.

♦ Trata-se de uma parábola cujo ponto nevrálgico é: os pensamentos de Deus não batem com nosso jeito de medir as coisas e a vida. Isaías já lembra: os pensamentos do Senhor não são com os pensamentos dos homens. A parábola fala de convite e uns começaram a trabalhar bem cedo. Outros chegaram na última hora e todos tiveram o mesmo pagamento. Os que atravessaram o dia reclamaram. Mereciam mais. O patrão diz que o que havia combinado pagava e ponto final.

♦ Não conseguimos penetrar nos meandros do coração e do pensamento de Deus. Fomos aprendendo a nos aproximar do Senhor com carinho. Houve um momento em nossa vida, espero eu, que ele passou a ocupar um lugar importante na organização e nosso projeto de vida. Conhecemos essas pessoas que desde a juventude andaram se revestindo do Evangelho, vivendo no meio do mundo como se senão fossem do mundo. Encanta-nos esta fidelidade que não pode deixar de encantar o Senhor. O Senhor lhes deu o amor de seu coração. São os operários da primeira hora. Os verdadeiros fiéis, mesmo é claro, conhecendo alguns arranhões.

♦ No caso da parábola os operários da primeira hora se revoltam. Movimento de inveja. Jesus fala de “olho mau”. Diz que ele, o Senhor, quer ser generoso. Quer ser bom. Qual o impedimento? Por que ele recebeu igual a mim? Estamos num movimento de inveja. Os especialistas dizem que inveja vem de in-videre que significa não ver, ver contra. Deus é bom porque quer ser bom. Os invejosos se dessolidarizam dos irmãos. Destorem a fraternidade.

♦ O Missal Festivo da Paulus, no comentário que faz da parábola, lembra o paradoxo das leis do Reino: “A lei do reino Deus parece ser o paradoxo, o inédito, inesperado. Deus escolhe as coisas frágeis e desprezíveis do mundo para confundir as fortes e bem consideradas. Não escolhe o primeiro, mas o último; não o justo, mas o pecador, não o sadio, mas o doente. Faz mais festa com ovelha perdida e reencontrada do que pelas noventa e nove que estão na segurança do aprisco. O Deus cristão é o “absolutamente-Outro”, o imprevisível (p. 806).

♦ A vida nos ensina que nem sempre no tempo da juventude conseguimos nos encantar pelo Senhor. Pode mesmo ter acontecido (e acontece) que começamos a “fazer parte de uma religião”, como nossos pais e muitos habitantes do lugar. Pode ter se dado que fomos batizados, participamos de missa, celebramos nosso casamento no sacramento. Fomos vivendo ritos e colocando palavras religiosas sem atentar para o Mistério de Deus e para a figura de Cristo que viessem arrancar uma alegre adesão de nosso interior. A vida foi nos levando e chegamos a experimentar situações muito delicadas e pecaminosas: falcatruas, desrespeito sério à pessoa do outro, infidelidades de toda sorte. Há os que chegaram ao fundo do poço e quase na iminência do desespero de viver. Ora, na undécima hora, quase no fim da existência, o Amor nos encurralou, entrou em nossa existência com a palavra alguém, com o pranto doído de arrependimento, com uma esposa bonita e santa. Levantamo-nos e passamos a ser, com toda alegria, operários da última hora quem sabe, quem sabe, com mais ardor do que os que haviam começado às nove da manhã.

O Deus dos cristãos tem seus paradoxos.


Para refletir

“Um mal da vida comunitária e eclesial é a murmuração. Murmurando os trabalhadores da primeira hora afirmam que o patrão não tinha direito de comportar-se como se comportou. A murmuração não é uma palavra pessoal clara que exprime uma discordância leal, mas um movimento subterrâneo, que agrega diversas pessoas que se dão força mutuamente com seu mau humor, para depois se exprimirem em acusações e queixas” (Luciano Manicardi).


Oração

Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova,
tarde te amei.
Eis que estavas dentro e eu fora.
E aí te procurava e lançava-me nada belo
ante a beleza que tu criaste.
Estavas comigo e eu não contigo.
Seguravam-me longe de as coisas que não existiriam
se não existissem em ti.
Chamaste, clamaste, e rompeste a minha surdez,
brilhaste, resplandeceste e afugentaste a minha cegueira.
Exalaste perfume e respirei.
Agora anelo por ti
Provei-te, e tenho fome e sede.
Tocaste-me e ardi por tua paz.

Santo Agostinho


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Bondade escandalosa de Deus

José Antonio Pagola

Provavelmente era outono e nos povoados da Galileia se fazia intensamente a vindima. Jesus via nas praças aqueles que não possuíam terras próprias, esperando para serem contratados para ganhar o sustento do dia. Como ajudar a essa pobre gente a intuir a bondade misteriosa de Deus para com todos?

Jesus contou-lhes uma parábola surpreendente. Falou-lhes de um senhor que contratou todos os jornaleiros que encontrou. Ele mesmo foi à praça do povo várias vezes, em horas diferentes. Ao final do dia, embora o trabalho tivesse sido absolutamente desigual, pagou a todos uma diária: o que a família deles precisava para viver.

O primeiro grupo protestou. Não se queixam de receber mais ou menos dinheiro. O que os ofende é que o senhor “tratou os últimos como a nós”. A resposta do senhor ao que é o porta-voz deles é admirável: “Vais ter inveja por eu ser bom?”

A parábola é tão revolucionária que certamente depois de vinte séculos não nos atrevemos ainda a tomá-la a sério. Será verdade que Deus é bom inclusive para aqueles que dificilmente podem apresentar-se diante dele com méritos e obras? Será verdade que em seu coração de Pai não há privilégios baseados no trabalho mais ou menos meritório daqueles que trabalharam em sua vinha?

Todos os nossos esquemas cambaleiam quando aparece o amor livre e insondável de Deus. Por isso achamos escandaloso que Jesus pareça esquecer-se dos “piedosos”, carregados de méritos, e se aproxime precisamente dos que não têm direito a recompensa alguma da parte de Deus: pecadores que não observam a Aliança ou prostitutas que não têm acesso ao templo.

Às vezes ficamos presos aos nossos cálculos, sem deixar a Deus ser bom para todos. Não toleramos sua bondade infinita para com todos: há pessoas que não o merecem. Achamos que Deus deveria dar a cada um o que ele merece e só o merecido. Menos mal que Deus não é como nós. De seu coração de Pai, Ele sabe dar também seu amor salvador a essas pessoas que nós não sabemos amar.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

O Reino de Deus é de graça

Pe. Johan Konings

O evangelho de hoje é “escandaloso”. O patrão sai a contratar diaristas para a safra da uva. Sai de manhã cedo, às nove, ao meio-dia, às três da tarde, e ainda uma vez às cinco da tarde. Na hora do pagamento, começa pelos últimos contratados, paga-lhes a diária completa; e depois, paga a mesma quantia aos que passaram o dia todo no serviço…

Será justo que alguém que trabalhou apenas uma hora pode ganhar tanto quanto o que trabalhou o dia inteiro?

Alguém que viveu uma vida irregular, mas se converte na última hora, pode entrar no céu igual aos piedosos? Aos que se escandalizam com isso, o “senhor”responde: “Estás com inveja porque eu estou sendo bom?” Quando Deus usa da mesma bondade para com os que pouco fizeram e para com os que labutaram o dia todo, ele não está sendo injusto, mas bom. Já no Antigo Testamento, Deus se defende contra a acusação de injustiça por perdoar ao pecador (1ª leitura).

Deus não pensa como a gente. Nós raciocinamos em termos de discriminação; Deus, em termos de comunhão. Nós pensamos em economia material, Deus segue a economia da salvação. Sua graça é infinita; ninguém a merece propriamente, e todos podem participar, por graça, se estão em comunhão com ele. Nós, facilmente achamos que os outros não fazem o suficiente para participar do Reino; não se engajam, não se esforçam… Mas quem faz o suficiente? O que importa não é o quanto fazemos: será sempre insuficiente! Importa que queiramos participar, ainda que tarde. E uma vez que está participando, a gente faz tudo…

O dom de Deus não pode ser merecido; é graça. Claro, quem trabalha na vinha do Senhor, se esforça. Mas esse esforço não é para “merecer”, mas por gratidão e alegria, por termos sido convidados, ainda que tarde – pois, em relação ao antigo Israel, nós “pagãos”somos os da undécima hora… Nosso empenho não é trabalho forçado, mas participação. Não somos movidos pelo moralismo, mas pela graça. Se entendermos bem isso, valorizaremos mais aquela humilde, mas autêntica boa vontade daqueles que sempre foram marginalizados, na Igreja e na sociedade, e que agora começam a participar mais plenamente: a Igreja dos pobres.

Então, tem ainda sentido falar em “merecer o céu”? Estritamente falando, é impossível. O céu não se paga. Mas se essa expressão significa nossa busca de estar em comunhão com Deus e viver em amizade com ele, tem sentido. Inclusive, essa busca já é o começo do céu.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella