Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

17º Domingo do Tempo Comum

17º Domingo do Tempo Comum

Um caminho marcado pela alegria

 

Frei Gustavo Medella

Nas duas parábolas apresentadas no Evangelho deste domingo (Mt 13,44-52), Jesus ilustra que a descoberta do Reino é um divisor de águas na vida de quem vive tal experiência. É um encontro crucial que muda o rumo da vida, altera as prioridades, transforma totalmente a caminhada. O que até então parecia central, torna-se periférico e o que estava na periferia ganha força, relevo e vem para o centro.

Importante notar que tal descoberta tem como marca fundamental a alegria, que passa a impulsionar a busca daquele que reorganiza a própria existência em função do tesouro encontrado, da pérola descoberta. Também se faz necessário perceber que nem a pérola nem o tesouro pertencem de antemão àquele que os encontrou. Adquiri-los envolve um esforço concentrado e efetivo, marcado – é importante ressaltar – pela alegria, sobre a qual escreve o Papa Francisco em sua Encíclica Evangelii Gaudium: “A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria” (EG 1).

Nos diferentes momentos desta busca, o ser humano vive uma verdadeira aventura, nunca solitária, mas sempre na companhia do Senhor. Da mesma forma que atendeu ao pedido do Rei Salomão (1Rs 3,5.7-12), Deus é sempre generoso ao oferecer sua Sabedoria para quem a busca. À pessoa, cabe a humildade de se reconhecer necessitada de tal virtude e, com confiança, pedi-la ao Pai.

Acolhendo a Sabedoria do alto, a pessoa adquire uma maturidade espiritual que se converte em força para lidar com as contrariedades da vida. É por conta de tal virtude que o crente passa a ter a capacidade de chegar à mesma conclusão que São Paulo apresenta na Carta aos Romanos: “Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados para a salvação, de acordo com o projeto de Deus” (Rm 8,28).

Eis um percurso desafiante, capaz de preencher a busca de uma vida inteira. Que o Senhor nos conduza nesta bela empreitada!


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.

Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura: 1Rs 3,5.7-12

Naqueles dias, 5 em Gabaon, o Senhor apareceu a Salomão, em sonho, durante a noite, e lhe disse: “Pede o que desejas, e eu te darei”.

7E Salomão disse: “Senhor meu Deus, tu fizeste reinar o teu servo em lugar de Davi, meu pai. Mas eu não passo de um adolescente, que não sabe ainda como governar. 8 Além disso, teu servo está no meio do teu povo eleito, povo tão numeroso que não se pode contar ou calcular. 9 Dá, pois, ao teu servo, um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal. Do contrário, quem poderá governar este teu povo tão numeroso?”

10 Esta oração de Salomão agradou ao Senhor. 11 E Deus disse a Salomão: “Já que pediste esses dons e não pediste para ti longos anos de vida, nem riquezas, nem a morte de teus inimigos, mas sim sabedoria para praticar a justiça, 12 vou satisfazer o teu pedido; dou-te um coração sábio e inteligente, como nunca houve outro igual antes de ti nem haverá depois de ti”.


Salmo Responsorial: Sl 118

— Como eu amo, Senhor, a vossa lei, vossa palavra!

— Como eu amo, Senhor, a vossa lei, vossa palavra!

— É esta a parte que escolhi por minha herança:/ observar vossas palavras, ó Senhor!/ A lei de vossa boca, para mim,/ vale mais do que milhões em ouro e prata.

— Vosso amor seja um consolo para mim,/ conforme a vosso servo prometestes. Venha a mim o vosso amor e viverei,/ porque tenho em vossa lei o meu prazer!

— Por isso amo os mandamentos que nos destes,/ mais que o ouro, muito mais que o ouro fino!/ Por isso eu sigo bem direito as vossas leis,/ detesto todos os caminhos da mentira.

— Maravilhosos são os vossos testemunhos,/ eis por que meu coração os observa!/ Vossa palavra, ao revelar-se, me ilumina,/ ela dá sabedoria aos pequeninos.


Segunda Leitura: Rm 8,28-30

Irmãos: 28 Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados para a salvação, de acordo com o projeto de Deus. 29 Pois aqueles que Deus contemplou com seu amor desde sempre, a esses ele predestinou a serem conformes a imagem de seu Filho, para que este seja o primogênito numa multidão de irmãos.

30 E aqueles que Deus predestinou, também os chamou. E aos que chamou, também os tornou justos; e aos que tornou justos, também os glorificou.


A decisão pelo Reino
Evangelho: Mt 13,44-52

* 44 «O Reino do Céu é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra, e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens, e compra esse campo.

45 O Reino do Céu é também como um comprador que procura pérolas preciosas. 46 Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens, e compra essa pérola.»

* 47 «O Reino do Céu é ainda como uma rede lançada ao mar. Ela apanha peixes de todo o tipo. 48 Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e escolhem: os peixes bons vão para os cestos, os que não prestam são jogados fora. 49 Assim acontecerá no fim dos tempos: os anjos virão para separar os homens maus dos que são bons. 50 E lançarão os maus na fornalha de fogo. Aí eles vão chorar e ranger os dentes.»

* 51 «Vocês compreenderam tudo isso?» Eles responderam: «Sim.» 52 Então Jesus acrescentou: «E assim, todo doutor da Lei que se torna discípulo do Reino do Céu é como pai de família que tira do seu baú coisas novas e velhas.»

* 44-46: Para entrar no Reino é necessária decisão total. Apegar-se a seguranças, mesmo religiosas, que são falsas ou puras imitações, em troca da justiça do Reino, é preferir bijuterias a uma pedra preciosa.

* 47-50: A consumação do Reino se realiza através do julgamento que separa os bons dos maus. Os que vivem a justiça anunciada por Jesus tomarão parte definitiva no Reino; os que não vivem serão excluídos para sempre. É preciso decidir desde já.

* 51-52: As parábolas revelam o segredo de Deus para aqueles que têm fé. Por isso, o doutor da Lei que se torna discípulo de Jesus é capaz de ver a ligação entre o Antigo e o Novo Testamento. Em Jesus tudo se renova e toma novo sentido.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

17º Domingo do Tempo comum

 Oração: “Ó Deus, sois o amparo dos que em vós esperam e, sem vosso auxílio, ninguém é forte, ninguém é santo; redobrai de amor para conosco, para que, conduzidos por vós, usemos de tal modo os bens que passam para abraçar os que não passam”.

  1. Primeira leitura: 1Rs 3,5.7-12

Pediste-me sabedoria.

Salomão, apenas nomeado e ungido rei de Israel e Judá, foi oferecer sacrifícios em Gabaon. Estava preocupado com seu plano de governo, para substituir à altura seu pai Davi no trono. Em sonho, o próprio Deus lhe diz: “Pede o que desejas, e eu te darei”. E Salomão não pediu riquezas nem vida longa, ou a morte de seus inimigos, mas o dom da sabedoria para praticar a justiça. Praticar a justiça para o rei significava julgar os pobres com justiça e coibir a violência e opressão dos grandes e poderosos contra os pequenos: o órfão, viúva, o pobre e o estrangeiro. Desejava o dom da sabedoria para buscar, sempre melhor, o bem-estar do povo; e foi isso que ele pediu. Logo em seguida conta-se como o rei fez justiça entre duas pobres mulheres (prostitutas), que, tendo morrido o filho de uma delas, disputavam o filho ainda vivo (1Rs 3,16-28).

Estamos vivendo em tempos de graves crises, a nível mundial e em nosso país, agravadas agora pela pandemia. A falta de sabedoria em nossos políticos e governantes provoca o escândalo da injustiça, da corrupção, da divisão e da violência, como estamos vendo no Brasil. Peçamos a Deus que ilumine nossos políticos e governantes com o dom da sabedoria, a fim de que busquem sempre o bem do povo mais pobre e não os interesses pessoais ou de grupos.

Salmo responsorial: Sl 118

Como eu amo, Senhor, a vossa lei, vossa palavra!

  1. Segunda leitura: Rm 8,28-30

Ele nos predestinou para sermos conformes à imagem de seu Filho.

Paulo medita sobre o projeto de Deus a nosso respeito. Tudo começa com seu plano de amor para conosco. “Desde sempre”, Deus quis torna-nos conformes à imagem de seu Filho. Deus nos ama como seus filhos e filhas adotivos e irmãos de Cristo. Quer, assim, que seu Filho seja o primogênito “no meio de uma multidão de irmãos”. Que em nossa vida sejamos espelhos vivos da imagem de seu Filho Jesus Cristo, amando o nosso próximo, como ele nos amou até o fim (Jo 13,1). Deus já glorificou seu Filho Jesus Cristo e quer que nós, irmãos de Cristo, participemos como filhos adotivos da mesma glória.

Aclamação ao Evangelho

            Eu te louvo, ó Pai Santo, Deus do céu, Senhor da terra:

            Os mistérios do teu Reino aos pequenos, Pai, revelas!

  1. Evangelho: Mt 13,44-52

Ele vende todos os seus bens e compra aquele campo.

O evangelho deste domingo contém as últimas três parábolas (exclusivas de Mateus) e a conclusão do “sermão das parábolas” de Mt 13: parábola do tesouro escondido, parábola da pérola preciosa e a parábola da rede. Jesus continua explicando o que é o Reino dos Céus (Deus). A parábola do tesouro escondido mostra a gratuidade do achado: o homem estava passando por um campo e o “encontra por acaso” e investe tudo que tem para comprar aquele campo, por causa do tesouro escondido. O encontro não era premeditado. É a experiência do deixar-se surpreender por Deus, da qual o Papa Francisco falava aos jovens na JMJ (2013). Deus gosta de nos surpreender… A parábola da pérola preciosa mostra outra faceta: o mercador lidava com pérolas, sabia o que procurava e queria; mesmo assim, é surpreendido por uma pérola que jamais sonhara encontrar. Estas duas parábolas fazem parte da experiência pessoal de Mateus/Levi: Na sua banca de cobrador de impostos lidava com moedas, mas Jesus o surpreende com o convite: “Segue-me”! E Mateus larga tudo, faz uma festa de despedida para seus amigos e segue a Jesus, porque encontrou o tesouro escondido (Mt 9,9-13; cf. Lc 5,27-29). – O seguimento de Jesus, no reino de Deus, exige de nós um “investimento total” e prioritário: “Buscai o reino de Deus e a sua justiça e tudo mais vos será dado de acréscimo” (Mt 6,33). A parábola da rede aponta para o juízo final e se assemelha àquela do joio no meio do trigo, que ouvimos domingo passado.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

Entrar no Reino de Deus é possuir todas as riquezas

Frei Clarêncio Neotti

O Reino de Deus é um tesouro. O livro dos Provérbios insistia em que se procurasse a sabedoria como se busca um tesouro (Pr 2,4). Ora, sabedoria, para o Antigo Testamento, era um modo de viver a justiça e a santidade de Deus e sentir o gosto por tudo o que provinha de Deus. A comparação de Jesus, então, retomou a comparação dos sábios antigos, porque o Reino tinha a ver com a presença de Deus e o comportamento humano.

Para os brasileiros, encontrar um tesouro no campo parece fantasia, coisa impossível. Mas não o era para os ouvintes de Jesus, que moravam em uma terra muito velha, que havia sofrido muitas invasões e muitos saques. Não era raro uma
família enterrar, em tempo de perigo, suas economias. Não raro acontecia a família inteira ser massacrada, e perderem-se as moedas e as joias enterradas. Pela lei, um tesouro achado pertencia ao dono do terreno. Daí, na parábola, o interesse em comprar primeiro o campo.

Mas esses pormenores não interessam à parábola. As parábolas não devem ser interpretadas em seus pormenores, mas na lição central. Nessa parábola do tesouro achado, a lição é esta: o Reino de Deus vale mais que todos os outros bens que
um homem possa ter. Não importa se temos muito ou pouco. Importa é que se troque tudo pelo Reino. Nem Pedro e André nem João e Tiago eram ricos, mas deixaram imediatamente tudo por Jesus (Mt 4, 20-22). A parábola chega a dizer que o lavrador sentiu grande alegria. Certamente não por vender o que tinha, mas por conseguir em troca o tesouro do Reino. As coisas de Deus, ainda quando atravessadas pela cruz, vêm envoltas em alegria. Já o salmista dizia que quem procurar o Senhor terá seu coração trasbordante de alegria (Sl 105,3).


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

Ouvi dizer que há um tesouro escondido...

Frei Almir Guimarães

♦ “O Reino de Deus está oculto. Muitos ainda não descobriram o grande tesouro do projeto de Deus para um mundo novo. Mas não é um mistério inacessível. Está oculto em Jesus, em sua vida e sua mensagem. Uma comunidade cristã que não descobriu o Reino de Deus, não conhece bem a Jesus e não pode seguir seus passos” (Pagola, Mateus, p. 169).

♦ Viver. Fundamental viver e viver com toda intensidade. Não deslizar pelas coisas. Parar, escutar, observar, respeitar, acolher. Viver, no entanto, é empreendimento complexo e cheio de curvas. Cave-nos arrumar as coisas para a viagem. Ajeitamos as abóboras no caminhãozinho da vida. Sacolejamos. Há pistas melhor conservadas que nos permitem “deslizar”. Há outras esburacadas. Homem, mulher, trabalho, descanso, relacionamentos, filhos, parentes, viagens, sede, ser homem, ser mulher, saúde, doenças, preocupações, dívidas…vida…

♦ Carregamos perguntas e questionamentos. Por vezes tudo abafamos. Muitos questionamentos: Para onde vamos? Por que conflitos e dilaceramentos? O que quer viver na verdade? A quem farei falta quando morrer? O que transmitir aos nossos filhos? Será que desperdiçamos a vida? Qual o saldo de nossa existências? Para que ou para quem eu conto? Deixamos que as pessoas pudessem sentar-se na sala de visitas de nosso coração? Por vezes penso que melhor do que respostas deveríamos nos deter mais nas perguntas. As respostas se encontram mais facilmente, quando as perguntas são bem formuladas. Carregam as respostas.

♦ O homem que soube que existia um tesouro no campo não perdeu tempo. O mesmo se deu com o comerciante de pérolas. Ficaram quietos para que ninguém soubesse. Esse tesouro não seria o Mistério? Não seria um voz a nos invadir e querer que a ouçamos a partir do nó de nossa vida? Não poderia ser despontar de uma luz para o viver?

♦ Antes de chegar ao tesouro é preciso não dizer nada a ninguém, guardar silêncio, pensar, perscrutar. “O que ou quem está querendo mexer com a minha vida?”. O desejo de Deus, o desejo do amor é escondimento. Quando vivemos para sermos vistos, falseamos a verdade. Quando vivemos só de ação, tornamo-nos possessivos. O tempo que precede alcançar o tesouro que é o amor de Deus, é tempo de noviciado, de purificação, de baixar o preço do que vendemos ou mesmo de dar tudo para que aconteça a festa do encontro, de preparar as bodas.

♦ Encontrar o tesouro muda a vida dos protagonistas das parábolas. Há neles uma explosão de alegria. Encontraram o essencial, o melhor de Jesus. O importante é buscar o Reino e tudo o mais será dado de acréscimo.

♦ Venderam o que tinham. Agora é o tesouro. Tesouro, amor, vida plena, o próprio Altíssimo. Tesouro: certeza de que somos amados pelo Senhor e que deu provas disto. Tesouro que é a vida de Jesus que no alto da cruz como que dizia a Adão e a nós: “Onde tu estás”. Tesouro do amor de Deus.

♦ Tesouro, modo novo de viver: ter a certeza de que contamos aos olhos do Senhor, desapropriar-nos de nós mesmos e sermos dádiva, dom; esposos que se amam e se respeitam, que organizam sua vida segundo os ditames da Sermão das Bem-aventuranças, trabalhadores e profissionais que exercem bem o que precisam fazer e que com sua dedicação vislumbram seres humanos para além das máquinas, das burocracia, da rotina.

♦ O Reino começa quando deixarmos de dançar em torno de nosso mesquinho e pequeno mundinho.


Para a reflexão

Mas afinal, que tesouro é esse?

A experiência de quem encontra um tesouro e vende tudo por ele é, na realidade a experiência de quem ouve a Palavra que lhe diz: “Tu és precioso aos meus olhos e Eu te amo. Eu entrego populações em troca de ti” (Is 43,4). É este amor o segredo da alegria da radicalidade de uma vida cristã, é este o amor, o bem precioso a proteger e salvaguardar, este o amor do Senhor e pelo Senhor que pode renovar vidas tentadas pelo envelhecimento, cansaço, insensibilidade, cinismo, indiferença. A nós que, na oração dizemos ao Senhor “és tu o meu Senhor, não há nenhum bem além de ti” e “tu és o meu único bem” (Sl 16,2), e, ainda, “em ti ó Deus se alegra o meu coração, exulta o meu íntimo” (Sl 16,9), é pedido que nos ponhamos à prova para saber se Cristo habita em nós(cf.2Cor 13,5). E isto porque nós habitamos lá, onde está o nosso tesouro: é o tesouro que nos assenta, que nos situa. Se Cristo habita em nós, nós habitamos em Cristo e então podemos gozar a alegria indizível no caminho para o Reino. Trata-se apenas de redescobrirem cada dia a preciosidade do dom recebido, combatendo a tentação do banal, do adquirido, do “tudo é devido”.

Luciano Manicardi – Comentário à Liturgia Dominical e Festiva – Paulinas (Portugal), p. 126


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Descobrir o projeto de Deus

José Antonio Pagola

Não era fácil crer em Jesus. Alguns se sentiam atraídos por suas palavras. Em outros, pelo contrário, surgiam não poucas dúvidas. Seria razoável seguir a Jesus, ou seria urna loucura? Hoje acontece o mesmo: vale a pena comprometer-se em seu projeto de humanizar a vida, ou é mais prático ocupar-nos com o nosso próprio bem-estar? Neste ínterim, pode nossa vida passar sem tomarmos nenhuma decisão.

Jesus conta duas breves parábolas. Em ambos os relatos, o respectivo protagonista se encontra com um tesouro sumamente valioso ou com uma pérola de valor incalculável. Ambos reagem do mesmo modo: vendem tudo o que têm e se fazem com o tesouro ou a pérola. É, sem dúvida, o mais sensato e razoável que podem fazer.

O Reino de Deus está “oculto”. Muitos não descobriram ainda o grande projeto de Deus para um mundo novo. Mas não é um mistério inacessível. Está “oculto” em Jesus, em sua vida e em sua mensagem. Uma comunidade cristã que não descobriu o Reino de Deus, não conhece bem a Jesus, não pode seguir seus passos.

A descoberta do Reino de Deus muda a vida de quem o descobre. Sua “alegria” é inconfundível. Encontrou o essencial, o melhor de Jesus, o que pode transformar sua vida. Se nós cristãos não descobrimos o projeto de Jesus, na Igreja não haverá alegria.

Os dois protagonistas das parábolas tomam a mesma decisão: “vendem tudo o que têm”. Nada é mais importante do que “buscar o Reino de Deus e sua justiça”. Tudo o mais vem depois, é relativo e há de ficar subordinado ao projeto de Deus.

Esta é a decisão mais importante a ser tomada na Igreja e nas comunidades cristãs: libertar-nos de tantas coisas acidentais para comprometer-nos no Reino de Deus. Despojar-nos do supérfluo. Esquecer-nos de outros interesses. Saber “perder” para “ganhar” em autenticidade. Se o fizermos, estaremos colaborando na conversão da Igreja.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

Escolher é renunciar

Johan Konings

Renunciar não está na moda, é contrário à economia do mercado, ao consumo irrestrito… O evangelho, porém, mostra a atualidade eterna da renúncia. E para entender isso melhor, a liturgia nos lembra primeiro o exemplo de Salomão. Quando Deus o convidou para pedir o que quisesse, ele não escolheu poder e riqueza, mas, sim, sabedoria, para julgar com justiça (1ª leitura). Jesus ensina o povo a escolher o que vale mais: o Reino de Deus. Para participar deste, vale colocar tudo em jogo, como faz um negociante para comprar um campo que esconde um tesouro, ou para adquirir uma pérola cujo valor resiste a qualquer inflação…

O que se contrapõe, nestas leituras, são por um lado as riquezas imediatas (materiais), por outro, o dom que Deus nos dá (para Salomão, a sabedoria no julgar; para nós, o Reino). Na hora de escolher, o dom de Deus é que deve prevalecer, e o resto tem que ser sacrificado, se for preciso.

Qual será o dom de Deus hoje? Aquilo que queremos ter em nosso poder, aquilo que com tanta insistência agarramos e procuramos segurar? Nossas posses, privilégios de classe, status etc? Ou não será antes a participação na comunhão fraterna, superar o crescente abismo entre ricos e pobres e transformar as estruturas de nossa sociedade, para que todos possam participar da construção do mundo e da História que Deus nos confia? “Os pobres, nosso tesouro”. Queremos investir tudo, os nossos bens materiais, culturais etc., para uma sociedade que encarne melhor a justiça de Deus?

Às vezes, a gente preferiria não escolher, para ficar com tudo: a riqueza, o poder, e, além disso, Deus…. Mas quem não se decide, não se realiza. Optar e renunciar é que nos torna gente. O grande escultor Miguel Ângelo disse que realizava suas obras de arte cortando fora o que havia demais. (Podemos meditar neste sentido sobre a 2ª leitura: Deus, artesão perfeito, quer fazer de nós uma obra de arte: conhece o material, projeta, escolhe, endireita… até coroar sua obra que somos nós, feitos imagens de seu Filho).

O cristão deve, de maneira absoluta, renunciar ao pecado; é essa uma das promessas de nosso batismo. Mas, se for preciso para servir melhor o Reino de Deus, ele deve renunciar também a coisas que não são más em si (riqueza, prestígio etc). Pois o Reino vale mais do que tudo.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella