Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

11º Domingo do Tempo Comum

11º Domingo do Tempo Comum

O envio nasce da compaixão

 

Frei Gustavo Medella

O envio missionário dos Apóstolos brota da Compaixão de Jesus, de sua empatia diante das ovelhas que vagavam sem pastor. Não eram homens ricos, letrados, influentes ou importantes na política, nas artes ou na religião. Eram homens comuns e simples. No entanto, estavam investidos da força da fé e da adesão à proposta do Mestre. A proximidade do Reino deveria ser o núcleo de sua pregação.

Deixaram-se guiar pelos mesmos sentimentos do Mestre e, desta forma, especialistas em compaixão, tornaram-se capazes de operar milagres que só acontecem quando o ser humano transpõe as barreiras do próprio egoísmo e se entrega com generosidade à força do amor. Enfermos curados, mortos ressuscitados, leprosos limpos e demônios expulsos, efeitos da ação da graça generosa que age em nós e entre nós quando nos abrimos à sua atuação.

Em tempos de pandemia, a humanidade anseia pela presença destes enviados, que hoje somos nós. Nossa tarefa é dura e desafiante. Sem deixarmos de lado os cuidados conosco e com os outros, devemos ser provas vivas de que, onde o vírus e a doença se espalham, podem também se espalhar a solidariedade e o amor.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.

Textos bíblicos para este domingo

Primeira Leitura: Êxodo 19,2-6

Naqueles dias, os israelitas, 2partindo de Rafidim, chegaram ao deserto do Sinai, onde acamparam. Israel armou aí suas tendas, defronte da montanha. 3Moisés, então, subiu ao encontro de Deus. O Senhor chamou-o do alto da montanha e disse: “Assim deverás falar à casa de Jacó e anunciar aos filhos de Israel: 4Vistes o que fiz aos egípcios e como vos levei sobre asas de águia e vos trouxe a mim. 5Portanto, se ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim a porção escolhida dentre todos os povos, porque minha é toda a terra. 6E vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa”.


Salmo Responsorial: 99 (100)

Nós somos o povo e o rebanho do Senhor.

1. Aclamai o Senhor, ó terra inteira, † servi ao Senhor com alegria, / ide a ele, cantando jubilosos! – R.

2. Sabei que o Senhor, só ele, é Deus, † ele mesmo nos fez, e somos seus, / nós somos seu povo e seu rebanho. – R.

3. Sim, é bom o Senhor e nosso Deus, † sua bondade perdura para sempre, / seu amor é fiel eternamente! – R.


Segunda Leitura: Romanos 5,6-11

Irmãos, 6quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelos ímpios, no tempo marcado. 7Dificilmente alguém morrerá por um justo; por uma pessoa muito boa, talvez alguém se anime a morrer. 8Pois bem, a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós quando éramos ainda pecadores. 9Muito mais agora, que já estamos justificados pelo sangue de Cristo, seremos salvos da ira por ele. 10Quando éramos inimigos de Deus, fomos reconciliados com ele pela morte do seu Filho; quanto mais agora, estando já reconciliados, seremos salvos por sua vida! 11Ainda mais, nós nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo. É por ele que, já desde o tempo presente, recebemos a reconciliação.


A origem da missão

Evangelho: Mt 9,36-10,8

36 Vendo as multidões, Jesus teve compaixão, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor. 37 Então Jesus disse a seus discípulos: «A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos! 38 Por isso, peçam ao dono da colheita que mande trabalhadores para a colheita.» 1 Então Jesus chamou seus discípulos e deu-lhes poder para expulsar os espíritos maus, e para curar qualquer tipo de doença e enfermidade. 2 São estes os nomes dos Doze Apóstolos: primeiro Simão, chamado Pedro, e seu irmão André; Tiago e seu irmão João, filhos de Zebedeu; 3 Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; 4 Simão, o Cananeu, e Judas Iscariotes, que foi o traidor de Jesus.

-* 5 Jesus enviou os Doze com estas recomendações: «Não tomem o caminho dos pagãos, e não entrem nas cidades dos samaritanos. 6 Vão primeiro às ovelhas perdidas da casa de Israel. 7 Vão e anunciem: ‘O Reino do Céu está próximo’. 8 Curem os doentes, ressuscitem os mortos, purifiquem os leprosos, expulsem os demônios. Vocês receberam de graça, deem também de graça!

* 35-38: Mateus apresenta um resumo da atividade de Jesus (cf. 4,23), mostrando a raiz da ação dele: nasce da visão da realidade, que o leva a compadecer-se, isto é, a sentir junto com o povo cansado e abatido. O trabalho é grande, e necessita de pessoas dispostas a continuar a obra de Jesus. A comunidade deve assumir a preocupação de levar a Boa Notícia do Reino ao mundo inteiro, consciente da necessidade de trabalhadores disponíveis para essa missão divina.
* 10,1-4: Os discípulos recebem o mesmo poder de Jesus: desalienar os homens (expulsar demônios) e libertá-los de todos os males (curar doenças). Os doze apóstolos formam o núcleo da nova comunidade, chamada a continuar a palavra e ação de Jesus.
* 5-15: A missão é reunir o povo para seguir a Jesus, o novo Pastor. Ela se realiza mediante o anúncio do Reino e pela ação que concretiza os sinais da presença do Reino. A missão se desenvolve em clima de gratuidade, pobreza e confiança, e comunica o bem fundamental da paz, isto é, da plena realização de todas as dimensões da vida humana. Os enviados são portadores da libertação; rejeitá-los é rejeitar a salvação e atrair sobre si o julgamento.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

11º Domingo do Tempo Comum, ano A2017

Oração: “Ó Deus, força daqueles que esperam em vós, sede favorável ao nosso apelo, e como nada podemos em nossa fraqueza, dai-nos sempre o socorro da vossa graça, para que possamos querer e agir conforme vossa vontade, seguindo os vossos mandamentos”.

  1. Primeira leitura: Ex 19,2-6a

Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa!

O presente texto começa informando como o povo de Israel chegou aos pés do Monte Sinai (v. 1-2), para, em seguida, descrever em que consiste a aliança que o Senhor faz com Israel (v. 3-6). Enquanto o povo permanece aos pés do Monte, Moisés sobe ao encontro do Senhor, para ouvir suas instruções. Os destinatários da mensagem divina são a casa de Jacó e os filhos de Israel, isto é, os hebreus descendentes do patriarca Jacó, que Deus libertou do Egito. Os que escutavam, tinham deixado de serem escravos do faraó para servirem unicamente a Javé (Senhor). Uma frase resume o histórico da libertação, que justifica a proposta de aliança: “Vistes o que fiz aos egípcios, e como vos levei sobre asas de águia e vos trouxe a mim”. Uma referência à frase que precede os dez mandamentos: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te libertou do Egito, lugar de escravidão” (Ex 20,2). A leitura de hoje lembra que Israel foi separado como a “porção escolhida dentre todos os povos”. Mas, para ser o povo escolhido, Israel deverá escutar a voz do Senhor, obedecer às suas ordens, guardar e observar a aliança. E o povo de Israel se compromete com a aliança e diz a Moisés: “Faremos tudo o que o Senhor nos disse” (Ex 24,3).

A escolha de Israel como povo de Deus, porém, não é um privilégio em detrimento de outras nações. A eleição faz de Israel uma nação santa – isto é, consagrada –, ligada profundamente ao Senhor; será uma nação, separada para a missão de levar todas as nações a servirem ao único e verdadeiro Deus. É neste sentido que Israel é “um reino de sacerdotes e uma nação santa”.

Salmo responsorial: Sl 99

Nós somos o povo e o rebanho do Senhor.

  1. Segunda leitura: Rm 5,6-11

Se fomos reconciliados pela morte do Filho,

muito mais seremos salvos por sua vida.

No texto que ouvimos, Paulo se dirige aos romanos adultos, judeus ou pagãos convertidos a Cristo. Paulo inclui-se entre os convertidos e lembra o que ele e os romanos eram antes da conversão: “éramos fracos (…) éramos pecadores”. Mas Cristo morreu por nós, ímpios e pecadores. Diante disso, Paulo se espanta maravilhado. Já é difícil, diz ele, que alguém morra por um justo. Mas Cristo morreu por nós “quando ainda éramos pecadores” (v. 6-8). Esta é a maior prova de que Deus nos ama. Pela morte de seu Filho, Deus nos justifica; isto é, perdoa nossos pecados, tornando-nos justos e agradáveis a Deus e nos acolhe como seus filhos e filhas. Fomos “justificados” quando ainda éramos pecadores. Agora que fomos reconciliados com Deus pelo sangue de Jesus Cristo, podemos esperar e confiar que seremos salvos por sua vida. A fé nos diz que já no tempo presente fomos reconciliados. Por isso nos alegramos, “nos gloriamos por nosso Senhor Jesus Cristo”. Paulo abraçou com tanto amor o Cristo crucificado como a expressão máxima do amor de Deus, que chega a dizer: “Quanto a mim, não pretendo jamais gloriar-me a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo” (Gl 6,14).

O que você vê na cruz de Jesus Cristo? Que Cristo você abraça?

Aclamação ao Evangelho: Mc 1,15

 O Reino do céu está perto!
Convertei-vos, irmãos, é preciso!
Crede todos no Evangelho!

  1. Evangelho: Mt 9,36–10,8

Jesus chamou seus doze discípulos e os enviou.

Mateus mostra Jesus ensinando sua doutrina com autoridade (Mt 5–7), autoridade comprovada com obras e milagres (8,1–9,34), e delineia a finalidade de sua missão: “Quero misericórdia e não sacrifícios. Porque não vim chamar os justos, mas os pecadores” (9,13). O texto de hoje, é precedido por um resumo da missão de Jesus, que percorria cidade e aldeias, ensinava nas sinagogas, pregava o Evangelho do Reino e curava enfermidades e doenças (9,35). Jesus ia ao encontro do povo para anunciar o Evangelho do Reino; o povo, por sua vez, procurava Jesus para ouvi-lo e ser atendido em suas necessidades. É nesse quadro da missão de Jesus que se coloca o evangelho que acabamos de ouvir. Jesus vê as multidões e se compadece delas: são pessoas cansadas, abatidas e desassistidas, como ovelhas sem pastor. As autoridades políticas, bem como as autoridades religiosas do Templo e das sinagogas, tinham a missão de pastorear; tinham o dever de cuidar do bem-estar físico e espiritual do povo, mas não o faziam. Ante a tantas carências do povo, Jesus se dirige aos discípulos para que vejam o que ele vê, sintam compaixão do povo como ele sente, e peçam “ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita” (v. 36-37). Mas não espera que comecem a pedir ao dono da messe esses trabalhadores. O próprio Jesus escolhe doze entre eles com a missão de expulsar espíritos maus e curar “toda enfermidade e doença”. Em seguida os envia, delimitando o alcance da missão: neste momento, não devem dirigir-se aos pagãos nem aos samaritanos, mas “antes às ovelhas perdidas da casa de Israel”. Após sua morte e ressurreição, Jesus amplia esta missão para o mundo inteiro: “Ide, pois, fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar tudo quanto vos mandei…” (Mt 28,19-20).

Você, meu irmão, sente a compaixão que Cristo sentiu pelo povo? Sinta-se convidado a viver e anunciar o “Evangelho do Reino” de Deus às pessoas sofridas que você conhece.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

Só anunciamos aquilo que vivemos

Frei Clarêncio Neotti

O número doze não é ocasional. Eram doze as tribos de Israel. Os doze aqui significam ‘todos’. Observe-se que Mateus, ao nomear os Apóstolos, diz: “primeiro, Pedro”. De fato, Pedro seria mais tarde o chefe de todos, e o próprio Jesus afirmou que sobre ele, a quem apelidou de Cefas (Jo 1,42), isto é, Pedra, haveria de construir a nova comunidade (Mt 16,18-19). Outra observação: para a escolha não contam as origens dos escolhidos, nem sua ideologia, nem a militância religiosa. O leque é bem diversificado: vai de simples pescadores (considerados pecadores, porque não podiam cumprir todas as leis nas horas determinadas) a Mateus, cobrador de impostos e socialmente odiado, passando por Simão, que era um ‘zelota’, partido terrorista daquele tempo, até Judas Iscariotes. Ao lado da imensa misericórdia, Jesus tem um coração de confiança sem limites. Do Apóstolo Jesus não pede senão compaixão e gratuidade. E sabemos que foi exatamente isso que faltou a Judas, o mau Apóstolo.

Jesus diz: “Em vosso caminho” (v. 7). Podemos entender como ‘ao longo da vossa vida’, ‘no vosso dia a dia’. Vale dizer: devemos ser apóstolos de Cristo em todos os momentos e em todas as circunstâncias. Mesmo porque o Reino dos Céus acontece dentro da comunidade e na vida de cada dia dos cristãos. Mais: o anúncio começa ao nosso próprio coração. Quem não é capaz de guardar em seu coração a Palavra do Senhor não será capaz de transmiti-la aos outros. Quem não é um enviado do Senhor para as pessoas vizinhas, com quem convive todos os dias, não o será para as pessoas distantes. Por isso Jesus quer que os Apóstolos preguem primeiro “às ovelhas da casa de Israel” (v. 6), isto é, às pessoas que estão em torno deles. Em outras palavras: devemos ser testemunhas de Jesus Cristo primeiro aos de perto, isto é, pelo nosso comportamento, visto e comprovado pelos que nos conhecem.

Devemos ser como o rio: as terras mais fecundadas por ele são as mais perto dele.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

Multidões que inspiram compaixão...

Frei Almir Guimarães

“Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não tem pastor”.

O olhar é fundamental para celebrarmos o encontro com nós mesmos e com os outros. Só se olharmos e nos deixarmos impressionar pelo outro que está diante de nós é que amamos as pessoas por si mesmas.
José Tolentino Mendonça

♦ Jesus compadece-se com a multidão que tem diante de seus olhos, sem rumo, sem ninguém, sem amanhã, sem possibilidades de superar suas deficiências e carências. A cena antecede a escolha dos apóstolos. A cena de ontem, em termos de número de pessoas, era insignificante diante de tudo aquilo que assistimos em nossa aldeia global. A pandemia do coronavírus fez com as vísceras da humanidade fossem expostas. Multidões precisando sobreviver, milhares morrendo e sendo enterrados às pressas, firmas falindo, um horizonte sem claridade, pavor, o mundo com máscaras. Muitas autoridades tiveram o olhar de Jesus e foram tomando as decisões acertadas. Muitos, no dia, experimentaram compaixão… esse sofrer com…

♦ Os sem pastor são esses e muitos outros. São pessoas que perderam o gosto de viver, que não são capazes de vislumbrar a dignidade dos outros, esses que usam pessoas a seu bel-prazer. Sem pastor são os que perderam o endereço do coração e vivem na epiderme da vida, pessoas que comem, bebem, vivem com celular entre os dedos, casas de famílias que são palco de toda sorte de desrespeito. Sem pastor são os jogados à beira da estrada, a meninas bonitinhas que andam entregando seu corpo aos executivos, são os cristãos que se nutrem apenas de ritos e convenções, são os movimentos de Igreja que perderam a garra, são todos esses não vivem até o fundo a viagem da vida. Sem pastores são os que adotaram seguir o indiferentismo e alheamento dos irmãos e irmãs de destino.

♦ Compaixão tem a ver com proximidade, atenção ao que o outro vive. A pessoa compassiva sofre, padece com… aproxima-se, se possível leva o que sofre a um alívio. “O olhar de Jesus sobre a multidão é olhar de compaixão. Jesus vê o povo e de certo apercebe-se de sua pobreza, talvez mesmo da mediocridade e da miséria, vê o povo como ovelhas incapazes de se orientarem por si, vê pessoas desprovidas, mas o seu olhar não se transforma em desprezo, não origina manipulações ou aproveitamento.” (Manicardi, Comentário à Liturgia, Ano A, p. 113).

♦ Jesus dá a entender que se fazem necessário operários. Seu projeto precisa ir adiante depois de seu desaparecimento. O trabalho é ingente. Jesus chama um grupo que ele designará de enviados, de apóstolos. Dá-lhes o poder sobre o mal e de se fazerem presentes no meio da multidão sem pastores. Estavam sendo colocadas as pedras da função de uma comunidade de pessoas que deveria continuar a ter o olhar de compaixão de Jesus. Nascia a Igreja, albergue de todos os que suplicam compaixão. Os pastores assumem jubilosamente a implantação de um mundo segundo o coração de Deus.

♦ “A missão em que são enviados os doze consiste em fazer recuar o mal, em praticar o bem como o seu Senhor Jesus, em pregar o Reino narrado por Jesus na sua pessoa. Isto situa-se entre dom e responsabilidade: ‘Haveis recebido de graça, dai de graça” (Mt 10,8). A missão é evocada em sua inteireza, não como um fazer, mas como um receber e um dar. Pedir ou receber dinheiro é incompatível com a gratuidade do anúncio messiânico: seria contradizer o dom gratuito recebido” (Manicardi, supra mencionado, p. 114).

♦ Pastores, pessoas dispostas a alimentar, nutrir, cuidar. Pensamos nos bispos e nos sacerdotes. Pensamos em agentes de bondade que desenvolvem cuidados “pastorais” em prol dos mais desnutridos, dos idosos, presidiários, jovens, dos casados (pastoral sem oba-oba). Pastor, esplendorosa a vida de tantos sacerdotes: acolhida e carinhoso atendimento, tempo para escutar, tentar ao menos tentar, ir ao encalço dos grupos mais próximos do desespero. Padre, pai, colega de outros pastores que não se deixa “burocratizar”, mas seres leves e cheios do zelo do Senhor e capazes de olhar com compaixão. Compaixão tem a ver com bondade sem floreios. Seres que estão em intimidade com o supremo pastor.


O olhar de Jesus

O olhar de Jesus estava sempre cheio de carinho, respeito e amor (…) Sofria ao ver tanta gente perdida e sem orientação. Doía-lhe o abandono em que se encontravam tantas pessoas sós, cansadas e maltratadas pela vida. Aquelas pessoas eram muito mais vítimas do que culpadas. Não precisavam ouvir mais ordens, mas conhecer uma vida mais sadia. Por isso Jesus começou um movimento novo e inconfundível. Chamou seus discípulos e deu-lhes “autoridade” não para condenar, mas “para curar toda enfermidade e sofrimento.

Na Igreja, só vamos mudar quando começarmos a olhar as pessoas como Jesus as olhava. Quando chegarmos a ver as pessoas mais como vítimas do que como culpadas, quando nos fixamos mais em seu sofrimento do que em seu pecado, quando olhar todos com menos medo e mais piedade (Pagola, Mateus, p. 115-116)


Oração

Vem, Espírito Santo.
Abre nossos ouvidos para escutar os teus apelos,
os que nos chegam hoje das interrogações,
sofrimentos, conflitos e contradições dos nossos irmãos.
Faz-nos ficar abertos a teu poder
para gerar a fé nova de que necessita esta sociedade nova.
Que na tua Igreja vivamos mais atentos
ao que nasce do que ao que morre,
com o coração animado pela esperança
e não minado pela nostalgia.

José Antonio Pagola


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Programa libertador

José Antonio Pagola

Muitos cristãos pensam estar vivendo sua fé com responsabilidade, porque se preocupam em cumprir determinadas práticas religiosas e tratam de ajustar seu comportamento a leis morais e normas eclesiásticas.

Do mesmo modo, muitas comunidades cristãs pensam que estão cumprindo fielmente sua missão, porque se esfalfam em oferecer serviços de catequese e educação da fé, e se esforçam por celebrar com dignidade o culto cristão.

Será que é só isto que Jesus queria pôr a caminho ao enviar seus discípulos pelo mundo afora? É esta a vida que Ele queria infundir no coração da história?

Precisamos ouvir de novo as palavras de Jesus para redescobrir a verdadeira missão dos cristãos no meio desta sociedade. Assim resume o evangelista a ordem de Jesus: “Ide e proclamai que o Reino dos Céus está próximo. Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, dai de graça”.

Nossa primeira tarefa também hoje é proclamar que Deus está perto de nós, empenhado em salvar a felicidade da humanidade. Mas este anúncio de um Deus salvador não se faz só através de discursos e palavras sugestivas. Não se assegura só com catequese, ou com aulas de religião. Jesus nos lembra a maneira de proclamar Deus: trabalhar gratuitamente para infundir nos seres humanos nova vida.

“Curar os enfermos” quer dizer libertar as pessoas de tudo que lhes rouba vida e as faz sofrer. Sarar a alma e o corpo dos que se sentem destruídos pela dor e angustiados pela dureza impiedosa da vida diária.

“Ressuscitar os mortos” quer dizer libertar as pessoas daquilo que bloqueia sua vida e mata sua esperança. Despertar novamente o amor à vida, a confiança em Deus, a vontade de lutar e o desejo de liberdade em tantos homens e mulheres nos quais a vida vai morrendo pouco a pouco.

“Limpar os leprosos’: quer dizer limpar esta sociedade de tanta mentira, hipocrisia e convencionalismo. Ajudar as pessoas a viver com mais verdade, simplicidade e honradez.

“Expulsar os demônios”,isto é, libertar as pessoas de tantos ídolos que as escravizam e pervertem nossa convivência. Onde se está libertando as pessoas, ali se está anunciando a Deus.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

Os doze apóstolos e o novo povo de Deus

Pe. Johan Konings

O evangelho narra a vocação e missão dos doze apóstolos de Jesus. O número doze tem um significado simbólico muito forte. No Antigo Testamento, Deus escolheu as doze tribos de Israel para ser seu “povo sacerdotal”, povo que devia celebrar e mostrar aos outros povos a santidade de Javé, sua Lei e seu reino (1ª leitura). Ora, o evangelho conta que Jesus encontrou a massa popular abatida e exausta. Pediu, então, operários para a “colheita messiânica”, para reconstituir, a partir dessa massa dispersa, o povo de Deus. De acordo com a estrutura do antigo povo das doze tribos, nomeia doze representantes do novo povo de Deus. Eles serão os operários da colheita. Esses doze operários, Jesus os manda anunciar o reino e curar as doenças. E, pensando no “aqui e agora”, os manda primeiro às ovelhas desgarradas de Israel. Depois de sua ressurreição, enviá-los-á a todas as nações (Mt 28,16-20).

Nosso povo também está abatido, oprimido. Observamos a decadência social, e até física, das populações da periferia e do interior, a desorientação dos jovens, a violência crescente etc. Isso não nos deve desanimar: é um desafio. A consciência comunitária e a missão evangelizadora podem transformar a situação, como acontece, por exemplo, em comunidades de base que realmente vivem o evangelho.

Pelo número dos seus “operários”, Jesus manifestou a intenção de constituir um povo novo para Deus. De imediato, mandou-os às ovelhas perdidas do povo de Israel. Jesus reconstruiu o povo com base nos símbolos de sua tradição religiosa e cultural, tomando como referência as doze tribos de Israel. Isso é uma lição para nós. Povo para Deus não se constrói destruindo sua identidade. Será que nós respeitamos, ou melhor, devolvemos à multidão popular (índios, negros … ) sua identidade? Damo-Ihes representantes conforme as feições próprias deles?

Além disso, Jesus os envia a anunciar e a curar. As curas são sinais de que no âmbito da missão de Jesus se realiza o que Deus deseja, o bem de seus filhos. Em nossa missão evangelizadora, a palavra deve ser acompanhada da prática transformadora. É preciso levar “amostras do Reino”.

Deus e Jesus quiseram a ajuda de um povo. O Reino de Deus não pode ser realizado sem o povo, ainda que fraco e até inconfiável (como revela o caso de Judas). O paternalismo pastoral (fazer para, mas não com .. .) é condenável. O povo deve participar ativamente, pelo anúncio e pela ação transformadora, da realização do Reino de Deus.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo com Frei Gustavo Medella