Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Creio na Igreja Católica – 10

27/06/2012

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Aula 34

Fiéis Leigos, o Grande Povo de Deus (CIC 897-913)

1 – Introdução

Tratar o tema que aborda os leigos na Igreja é mais complicado do que pode parecer à primeira vista. As dificuldades têm muitos séculos de história, de clericalismo centralista e dominador por um lado, e, por outro, como seu fruto mais maligno, a despersonalização da parte maior da Igreja, que é sua grande massa a formar o próprio Povo de Deus em si. Creio até que a Igreja foi a única instituição a criar um vocabulário onde a referência à sua maioria constitutiva, o povo, tornou-se sinônimo de algo inferior, iletrado e desprezível.

Na quase totalidade do tempo da História da Igreja, suas autoridades deixaram de lado inteiramente qualquer coisa que possa significar consulta ao povo.

A Igreja não surgiu como uma entidade autoritária. Mas, é duro dizer, o clero a fez assim aos poucos. No início de sua formação e expansão, a Igreja tinha muitos elementos para gerar autoritarismo. Todos os governantes, sem exceção, eram autoritários e tirânicos. As famílias e as escolas estavam constituídas sob a responsabilidade autoritária só de homens. Mas quando surgiram reclamações sobre serviços prestados aos pobres da Igreja em Jerusalém, “os Doze convocaram então a assembleia plenária dos discípulos e …” ( At 6,2). Tempos depois, quando irrompeu o conflito entre cristãos sobre que exigências do tipo judaicas se deveriam fazer aos pagãos convertidos, Atos de Apóstolos registra: “De acordo com toda a Igreja,

Os apóstolos e os anciãos decidiram então escolher, dentre os seus, delegados que …” (15,22).

Os Apóstolos, apesar de terem recebido o poder de “ligar e desligar na Terra” na certeza de que suas decisões seriam ratificadas nos Céus (Cf. Mt 16,18; 18,17; Jo 20,22), sabiam cercar-se de conselhos de anciãos e consultar diretamente o povo em suas celebrações. É que as lembranças das atitudes de Jesus (lava-pés) e o Mandamento Novo, bem como de suas palavras diretas de que entre seus discípulos não pode haver exercício de poder como o de senhores sobre súditos. O único poder aceitável é aquele que é exercido somente como serviço (Cf. Lc 22,24). Tais lembranças eram nítidas e fortes demais. Elas transformaram-se em diretrizes inquestionáveis.

Contudo, o tempo vai aos poucos apagando lembranças e os exemplos vão perdendo sua força que exigem atitudes e tomadas de posição. E além do mais, o maldito poder tende a corromper sempre. Esta tendência também se observa no exercício do poder em todas as instituições da Igreja, do Papa ao menorzinho dos párocos, em todos os tempos.

Espero mais para frente abordar elementos importantes da História da Igreja. Por enquanto, termino a introdução a esta unidade afirmando que os maiores pecados e os maiores escândalos da Igreja sempre ocorreram quando pessoas do poder dentro dela afastaram-se dos exemplos e palavras de nosso Divino Mestre.

2 – Recolocar os Fiéis Leigos no seu Devido Lugar

Sem maiores delongas temos de partir do que é óbvio. A massa do povo (os leigos) é, simplesmente, quase o todo da Igreja pelo seu número. Aqui o número é tudo. Jesus exigiu que na sua Igreja todos fossem irmãos e não fez nenhuma distinção de valor entre irmãos maiores ou menores, entre os mais importantes e outros de menor importância. Foi explícito em exigir que os maiores sejam os servos de todos,  como vimos acima. Não deixou nenhuma margem para manobras, nenhuma possibilidade de se entender de outra forma. Não há maneira possível de se exercer qualquer poder ou autoridade dentro da Igreja de Jesus Cristo que não seja como serviço para o bem de irmãos. O que vai além disso é pecado de traição ao nosso Redentor e a seu povo.

O povo leigo cristão é o rebanho de

Cristo, rebanho pelo qual o Bom Pastor deu sua vida. Os pastores só existem se existirem ovelhas. Pedro só foi confirmado na sua função de pastor do rebanho e líder de todos os pastores ( Colégio dos Apóstolos) quando compreendeu e aceitou que sua caminhada à frente das ovelhas terminaria numa cruz (Cf. Jo 21,19).

O povo leigo cristão é “O Povo de Deus”.

Este foi o título mais feliz que o Concílio Vaticano II consagrou e divulgou ao mundo para referir-se aos membros da Igreja como um todo. É o povo que pertence a Deus. É este povo que leva Deus para toda a humanidade. Afinal, somos o templo vivo de Deus! Tudo que foi dito e escrito até aqui sobre a Igreja não teria qualquer sentido sem sua parte principal, os leigos cristãos.

3.- Missão Específica dos Leigos (898-900)

Sabemos que o Reino de Deus faz-se presente nas relações interpessoais de todo tipo que constituem o tecido da grande sociedade humana. Aqui podemos pensar ao menos nas relações que seguem.

Relações de família vêm em primeiro lugar.

Coloco-a em primeiro porque é aí que as pessoas se relacionam mais intensamente, envolvendo todo o seu ser, da concepção à morte. Nela as pessoas cristãs aprendem os valores mais importantes para a vivência do Reino de Deus. A melhor base para a constituição de uma boa família é um casamento proposto pela Igreja Católica onde o Novo Mandamento de Jesus constitui a forma de vida do casal.

Ele dá forma a todas as ações interpessoais do casal e dos dois com os filhos. É da família cristã que deve sair as pessoas mais íntegras, mais responsáveis, honestas e solidárias. Serão pessoas amantes da paz e do bem-estar de todos os seres humanos. Irão envolver-se em projetos que visam construir uma sociedade humana cada vez melhor.

Relações de trabalho são de grande valia para a constituição de um povo que goza de estabilidade, paz e segurança. Tem de ir muito além da mera solidez das empresas e do bom ganha-pão dos funcionários. O bem-estar de todos precisa estar em primeiro plano. Quanta falta faz em muitas empresas a honestidade, a retidão de caráter e a responsabilidade assumida por todos. O mundo do trabalho cristão tem de encarnar valores do Reino! Acredito que uma boa empresa cristã tem muito a falar ao mundo. É luz para todos. É lugar de um verdadeiro apostolado leigo.

Nas inter-relações políticas acredito que estamos engatinhando, se é que não andamos para trás. Pregar, defender e cobrar políticas éticas e de justiça na administração da “coisa pública”, do bem comum de cada cidadão. As políticas aplicadas na administração pública e a própria organização desta precisam revestir-se de valores evangélicos, para que um país inteiro adquira mais semelhanças com o Reino de Deus. Este é o grande capital que o leigo católico tem a oferecer.

Esse pequeno exercício que acabo de fazer pode e deve estender-se a outros setores básicos da organização das sociedades humanas. Pensemos no mundo da educação, seja ela pública ou privada. Pensemos no sistema de saúde. Deus do Céu, quanta falta faz aqui práticas e vivências evangélicas. Podemos ainda pensar o mesmo no campo da segurança pública.

Todos estes e outros são setores de presença viva e atuante para verdadeiros cidadãos do Reino. São todas áreas de evangelização abertas e reservadas aos leigos cristãos.

Vamos reproduzir um trecho de um sermão de Pio XII, de 1946, citado pelo CIC 899.

“Os fiéis leigos estão na linha mais avançada da vida da Igreja: por eles a Igreja é o princípio vital da sociedade humana. Por isso, especialmente eles devem ter uma consciência sempre mais clara, não somente de pertença à Igreja, mas de serem Igreja, isto é, a comunidade dos fiéis na Terra sob a direção do Chefe comum, o Papa, e os bispos em comunhão com ele. Eles são a Igreja”.

Por fim o CIC lembra que todos os fiéis tem obrigação e direito, individualmente ou organizado em associações, “de trabalhar para que a mensagem divina da Salvação seja conhecida e recebida por todos os homens” (CIC 900). E lembra-nos que no mundo de hoje, o povo em geral pode ouvir muito mais falar do Evangelho e conhecer Cristo através do contato com fiéis leigos católicos do que através dos porta-vozes oficiais do clero.

4.- Participação dos leigos no Múnus Sacerdotal de Cristo (CIC 901-903)

O múnus, ou seja, a missão que Jesus assumiu com o Pai, além de revelá-Lo ao mundo como Ele é, consiste em consagrar, santificar e oferecer tudo a Deus. Ora, como já vimos amplamente, Cristo partilha tudo o que é Seu com os discípulos, também suas funções e missões.

Então é só nos reportar às missões específicas dos leigos vistos acima e fica fácil imaginar, bem como compreender que tudo o que o cristão pratica no ES, incluindo seu lazer, repouso, sem esquecer seus sofrimentos, provações e enfermidades, enfim, tudo torna-se “hóstias espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” (1Pd 2,5). Tudo isso pode ser oferecido com piedade e grande conforto espiritual ao Senhor, na celebração da Eucaristia. Desta forma, a vida do fiel cristão pode ser um verdadeiro culto sacerdotal a Deus!

Tendo nosso Catecismo citado o número 87 da Lumen Gentium quase todo, registramos a última frase. “Assim também os leigos, como adoradores agindo santamente em toda parte, consagram a Deus o próprio mundo”.

5 – Sua Participação no Múnus Profético de Cristo (904-907)

Cristo é o grande Profeta que “fala tudo que ouviu do Pai” e proclama o seu Reino. Tanto os membros da hierarquia como cada fiel cristão precisam, por palavras e exemplos, continuar essa missão de Cristo. Para isso somos todos membros do seu Corpo. Todos também precisamos anunciar, por palavras e exemplos, as coisa futuras: a vida eterna, passando pela ressurreição da carne; a restauração de todas as coisas em Cristo (Cf. 1Cor 15,27-28) quando de Sua vinda gloriosa e instauração da plenitude do Reino de Deus. Essas coisas darão sentido a tudo na vida de cada pessoa cristã. Todo discípulo de Jesus tem de ser um sinal de esperança aos demais seres humanos.

6.- A Participação do leigo no Múnus Régio de Cristo (CIC 908-913)

Em primeiro lugar, considero importante trazer algumas explicações sobre o que é esse Múnus Real de Cristo.

Nós católicos temos todos os anos a festa de Cristo Rei. Cristo é o anunciador, o implantador e o Regente do Reino de Deus na Terra.

Além disso, na medida em que os discípulos de todos os tempos ajudam a estabelecer, em todas as instituições humanas, elementos tirados dos valores do Reino de Deus, eles estão participando do exercício da missão de Cristo: arrancar o mundo das garras do poder do Mal para colocá-lo sob a  regência do poder do Pai Eterno. Cooperar com Cristo é reinar com Ele.

Nosso Catecismo afirma que a liberdade conquistada para nós por Cristo concretiza-se na medida em que nós conseguimos vencer o reinado do pecado sobre nós e procuramos pôr sob o reinado da Graça. Santo Ambrósio, num sermão sobre o Salmo 118, afirma: “aquele que submete seu próprio corpo e governa sua alma, sem deixar-se submergir pelas paixões, é seu próprio senhor: pode ser chamado rei porque é capaz de reger a sua própria pessoa: é livre e independente e não se deixa aprisionar por uma escravidão culposa”.

● O n. 912 do CIC aponta para um setor da formação da consciência do leigo católico no que se refere a seu perfil de engajado atuante. Vamos transcrever os n. 912 e 913.

“Os fiéis devem ‘distinguir acuradamente entre os direitos e os deveres que lhes incumbem enquanto membros da Igreja e os que lhes compete enquanto membros da sociedade humana. Procurarão conciliar ambos harmonicamente entre si, lembrados de que em qualquer situação temporal devem conduzir-se pela consciência cristã, uma vez que nenhuma atividade humana, nem  mesmo nas coisas temporais, pode ser subtraída ao domínio de Deus’ (LG 36).

“Assim todo leigo, em virtude dos próprios dons que lhe foram conferidos, é, ao mesmo tempo, testemunha e instrumento vivo da própria missão da Igreja na medida do dom de Cristo” (LG 33).

Pena que tudo isso esteja apenas no papel. Mas espero que possa servir de guia para bons agentes da Igreja, clérigos ou leigos.

Frei Hipólito Martendal, OFM.

TEXTO EM PDF PARA IMPRESSÃO

 
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