Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

A cada dia uma Pérola

junho/2019

  • Uma página pascal: Jesus prepara uma refeição à beira do lago

    Disse-lhe Jesus: “Vinde comer” (Jo 21, 12)

    Não se deve falar da Páscoa somente no final da Semana Santa.  Páscoa é sempre. É dinamismo. Jesus apareceu aos apóstolos, sempre com certo mistério, também à beira do lago. Convida-os a comer. Há hesitações. Convida os seus para um momento de intimidade. Ali reconhecem o Senhor.

    A Pascoa de Jesus foi passagem pela morte para ressuscitar. Nossa vida é uma sequência de passagens que comportam escolhas e decisões a serem tomadas. Nenhum dos caminhos está traçado de antemão. Responder a um apelo é decisão que demanda confiança. É aceitar riscos e perigos. De passagem em passagem, de pascoa em páscoa, vamos atravessando os caminhos que nos são dados a percorrer.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Ela nos deixou entre rosas

    A mãe colhia singelos buquês de flores e sepultava aos pés de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Imagem de gesso, colada com grude de polvilho – de muito tombar na quina do quarto. Às vezes uma vela permanecia acesa, sem pecado para queimar-se. Comemorava-se uma graça ainda por chegar. Só as rosas não se intrometiam nesta indesvendável promessa. Desconheço o motivo. Se pavor do espinho ou da dor. Agora, com sua ferida cicatrizada, ela nos deixou entre rosas, já sem medo de espinhos, sem respirar o perfume, sem reparar suas cores.

    Vermelho Amargo, p.30-31
    Bartolomeu Campos de Queirós

  • O delicado tema da paz

    Deixo-vos a minha paz, a minha paz vos dou! (Jo 14, 27)

    Paz, palavra mágica, sonho nunca alcançado, desejo sempre protelado.

    Paz não quer dizer pacifismo, cômodo assentimento a tudo para viver bem com todos.

    Paz não é acomodação. Paz não é diplomacia sem ossatura. Não é estratégia.

    Há pequenas e não tão pequenas coisas que nos fazem perder a paz: esperar alguém que não chega e disse que ia chegar; a falta de dinheiro para cobrir as despesas necessárias para sobreviver; o desemprego que perdura e perdura sem terminar; a doença cruel de um ente querido que geme e chora.

    Tais situações fazem com que nosso rosto fique sério e nossa testa franzida. Há inquietação. Falta de paz.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • O que anda nos tirando a paz?

    Esse constante, macabro e tétrico girar em torno de nós mesmos, de nossos projetos, de nossos êxitos, de nossas coisas. Esse ensimesmamento venenoso a médio prazo.

    Esse medo do sucesso e do êxito dos outros, esses outros que ganham mais aplausos, que sobem na vida, que são prestigiados. Essa falta de transparência, essa vida meio dupla, meio mentirosa, quase falsa. Essa falta de carinho que deveríamos concedera quem nos amou, esses gestos que machucaram vidas e que não conseguimos reparar, essas páginas da vida rasgadas que não conseguimos colar nem costurar.

    Como a gente pode se salvar? Jogar-se no abismo daquele que nos tirou do nada, nos trouxe à vida e espera que para ele olhemos já que está na soleira da porta da casa do amor a nos aguardar…

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Sentir-se bem entre os pequenos

    Francisco – bem depressa seguido por Clara – abdica de todo poder, prestígio, ambições para escolher o caminho que desce socialmente. Sai de Assis e vai para a periferia, em sinal de seu desacordo com o sistema e em resposta ao amor do Filho de Deus que se esvazia de sua divindade para tornar-se pobre, servidor dos humildes e morrendo numa cruz, fora da cidade. Isso faz parte da descoberta de Deus por parte de Francisco: um Deus humilde, espelhado nos humildes da terra. Escolhe para sua fraternidade a designação de Frades Menores; e ensina que os irmãos devem lavar os pés uns dos outros e alegrar-se quando se encontram com pessoas insignificantes e desprezadas, entre pobres, fracos, enfermos, leprosos e os que mendigam pela rua. Aproxima-se das criaturas com um olhar não possessivo, por isso elas se lhe revelam como irmãs e aliadas. Até os lobos se pacificam à sua presença, diz a lenda, certamente os lobos que dormem dentro de nós. Francisco nos faz entender que o que salva o mundo não é o poder, mas o amor que se despoja e se volta para serviço das pessoas, estabelecendo com elas relações pessoais afetivas, não meramente ideológicas. Deve ter entendido essa mensagem de São Francisco aquele político brasileiro e cristãos (Plínio de Arruda Sampaio) e cristãos que asseverou: Diante da conjuntura atual o importante é ser franciscano.

    Documento de Família Franciscana
    Oitocentos anos da Ordem do Frades Menores
    1209- 2009

  • “Deixo-vos a paz!”

    A “cultura da paz” exige que se crie um clima de diálogo social promovendo atitudes de respeito e escuta de uns com os outros. Uma sociedade avança para a paz renunciando aos dogmatismos, buscando a aproximação de posturas e esclarecendo no diálogo as razões em confronto.

    A “cultura da paz” sempre se arraiga na verdade. Deforma-la ou manipulá-la a serviço de interesses partidaristas ou de estratégias obscuras não levará à verdadeira paz. Mentir e enganar o povo sempre geram violência.

    A “cultura da paz” só se assenta na sociedade quando as pessoas estão dispostas ao perdão sincero, renunciando à vingança e á revanche. O perdão liberta a violência do passado e gera novas energias para construir o futuro entre todos.

    No meio desta sociedade, nós cristãos temos que escutar de maneira nova as palavras de Jesus, “deixo-vos a paz, eu vos dou a minha paz”, e temos que perguntar-nos o que fizemos dessa paz que o mundo não pode dar, mas precisa conhecer.

    José Antonio Pagola
    O caminho aberto por Jesus
    João, p. 208-209

  • A videira e os ramos

    Videira, troco da videira e ramos. Comunicação de vida. Comunicação vital. Jesus e os seus. A videira e os ramos. Circulação de vida. Intimidade. Conivência. Cumplicidade. Aquele que vive quer que façamos caminhada com ele. Quer no revigorar, reverdecer.

    Estamos nele e ele está em nós. Jesus e os seus. Intimidade de vida. Vidas que se misturam e se entrelaçam. A minha vida e a vida do Senhor.

    Pode haver uma vida dita cristã sem viço e sem vigor. Uma vida marcada pela rotina e pela repetição sem alma. Um catolicismo de tradição, de ritos, de bênçãos. Pode ser que haja ramos que se dizem de Jesus onde não circula a vida. Onde circula a vida de Jesus há frutos de santidade.

    Como se dá, na verdade, essa circulação de vida?

    Há esse contato, diário com Jesus em sua palavra no Evangelho. A leitura serena dos evangelhos nos coloca em relação com ele. Uma leitura dos evangelhos como se suas páginas fossem uma carta do Senhor.
    De tanto ouvi-lo, lê-lo, suas palavras permanecem em nós. Ganhamos o jeito de Jesus.

    “A vida da Igreja se transformaria se os crentes, os casais cristãos, os presbíteros, as religiosas, os bispos, os educadores tivessem com livro de cabeceiras os evangelhos de Jesus” (Pagola)

    Há esse agir no mundo como ele agiu: uma tentativa de termos em nossos gestos, palavras e posturas o jeito de Jesus viver. Há uma mesma missão dele e nossa: construir mundo segundo o coração de Deus: recolher os jogados à beira do caminho, valorizar os pequenos e humildes, acolher os operários da ultima hora, não atirar pedra.

    Trata-se de unir-nos de modo particular ao dom de Cristo na Eucaristia, dar a vida pelos outros cada dia.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Deixe a porta destravada!

    Sei que em nossos tempos as pessoas precisam de senhas, códigos para entrar em seus prédios de apartamentos e em suas casas mesmo as mais modestas. É assim! Nossas portas estão devidamente travadas. Medo daqueles que podem nos “visitar”. Pode ser que as portas de nosso eu mais profundo e mais belo também estejam trancadas, com barras de ferro e não sei quantos ferrolhos. Pode ser que estejamos cheios de medo de acolher a novidade do outro. Pode ser que tenhamos esquecido as boas maneiras de receber visitas. Não é bom fecharmo-nos em nosso mundo. As visitas podem nos ajudar a vida e a descortinar horizontes que desconhecíamos.  E se deixássemos a porta do nosso interior destravada para os peregrinos que trazem riquezas em suas bolsas!

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Dá-nos teu Espírito, Senhor!

    Penso nos vários sentidos que a palavra Espírito tem no texto bíblico: sopro, hálito vital, vento…E é isso que me apetece rezar nesta manhã, Senhor. Sopra sobre o indeciso, venha o sussurro do teu alento íntimo renovar o hesitante, a ventania de Deus nos mova. Parecemo-nos tanto a embarcações travadas, velas erguidas sem a energia de novas praias, de intactos e aventurosos cabos… Os nossos barcos rodam apenas em torno de si próprios. Manda, Senhor, a pulsão do Espírito, o ânimo criador que incessantemente nos coloca ao encontro da novidade e da beleza de teu Reino.

    José Tolentino Mendonça
    Um Deus que dança
    Paulinas, p. 80

  • O que importa é a vida

    Não há dúvida. O que importa é viver. Mas viver com os olhos abertos voltados para as expressões de vida à nossa volta.

    Esse respirar tranquilo ou ofegante da criança que dorme, o sorriso da mãe que acolhe em seus braços o menino que corre ao seu encontro, o homem de idade madura que, antes de trabalhar, passa cinco minutos diante do Santíssimo, a mulher idosa que ainda trabalha com a cabeça e os dedos fazendo uma toalha de crochê para a neta que vai casar.

    Vida que explode no canteiro de rosas, no pé de manacá da serra e nas orquídeas que enfeitam a capela do Santíssimo. Vidas que médicos e enfermeiros cercam de toda a atenção e carinho numa unidade de tratamento intensivo.

    Vida, sim o que importa não são ritos, palavras, coisas cerebrais, mas o borbulhar da vida. Necessário se faz ver a vida viver.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Disposições para uma boa oração

    A pessoa que deseja rezar forçosamente haverá de recolher-se. Somente a atenção interior permite o encontro com o Senhor. Nem mesmo Deus tem condições de comunicar-se com uma pessoa completamente distraída. As coisas da vida costumam nos tirar de nós mesmos, roubar-nos de nós mesmos. Trabalhos, atividades, lazeres reclamam constantemente nossa atenção. Atraídos por tantas solicitações e dispersões pode acontecer que vivamos distanciados de nosso “centro” impedindo que o Senhor e seu amor se derramem em nosso interior. Vale sempre o dito de Santo Agostinho: “Irrequieto é nosso coração enquanto não descansar em Deus.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Dia dos que se enamoram

    Na véspera da festa de Santo Antônio comemora-se o dia dos namorados. Penso, de fato, nos namorados. O verbo namorar, de alguma forma, perdeu seu sentido primeiro. Dizia-se, há tempos atrás, que namorar era um período da vida, uma situação existencial em que um homem e uma mulher, um moço e uma moça, se encontravam. Um momento de olhos dos olhos, um sorriso diferente, uma graça toda graciosa que enchia o olhar de um e de outro. Esses dois começavam a se encontrar, a trocar ideias e a viver carinhos. A vida ganhava um colorido. Um homem e uma mulher. Mas ainda muito cedo para dizer um sim, um sim de verdade, um sim para além do choque exterior, do impacto. As coisas precisavam assentar até o dia em que um e outro dissessem: “Esse moço, essa moça não saem de minhas retidas. Haverei de consagrar-lhe o melhor de mim mesmo e faremos juntos a aventura da vida”. É isso ou não é? O que é namorar?

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Santo Antônio do mundo inteiro

    Se milagres tu procuras,
    pede-os logo a Santo Antônio;
    fogem dele as desventuras,
    o erro, os males e o demônio.

    Torna manso o iroso mar;
    da prisão quebra as correntes,
    bens perdidos faz achar;
    e dá saúde aos doentes.

    Em qualquer necessidade,
    presta auxílios soberanos,
    de sua alta caridade,
    fale a voz dos paduanos.

    Oração do Responsório de Santo Antônio

  • Quando é que esse homem vai conseguir dormir?

    Ele está envelhecido, desalentado, desanimado e bem adoentado. Passa praticamente o tempo todo em cadeira de rodas. Janta cedo. O jantar, aliás, é sempre muito cedo nesses “lares” de gente idosa. Os funcionários precisam ir embora depois das marcadas horas de trabalho, cuidar de suas famílias e de suas vidas. Na realidade não trata de uma verdadeira janta. O homem toma uma sopa quase sem sal ou então um chá com torradas, isso todos os dias. Acontece que uma vez ou outra as moças trazem gelatina de todas as cores. Depois de comer o homem idoso a enfermeira ou atendente, lá sei eu, prepara-lhe a cama. Dobra a colcha, coloca os travesseies, acende a luz do abajur, desdobra o cobertor antes do final de seu horário de trabalho.

    Não é essa a vida que a gente leva?

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • A reciprocidade das diferenças

    Palavras simples do Papa Francisco que gosta de nos visitar em nossas casas. Em Audiência Geral dirigiu estas palavras aos casados que estavam entre seus ouvintes.

    Esta é a tarefa de vocês: “Amo você e por isso a faço mais mulher” – “Amo você, e por isso o faço mais homem”. É a reciprocidade das diferenças. Não se trata de um caminho plano, sem conflitos. Não, pois não seria humano. É uma viagem exigente, muitas vezes difícil, até mesmo conflituosa, mas é assim a vida! (…). É normal que o casal discuta, é normal. Sempre acontece. Mas os aconselho: nunca deixe o dia terminar sem fazer as pazes. Nunca. É suficiente um pequeno gesto. E assim se continua a caminhar. O matrimônio é símbolo da vida, da vida real, não é uma ficção. É sacramento do amor de Cristo e da Igreja, um amor que encontra na cruz a sua prova e sua garantia. Desejo a todos vocês um belo caminho: um caminho fecundo; que o amor cresça. Desejo-lhes felicidade. Haverá cruzes, sim. Mas o Senhor sempre estará ali para ajuda-los a seguir em frente.

    Papa Francisco
    Homilia, 14 de setembro de 2014

  • Francisco, fascinado pelo mistério do Altíssimo

    Uma vez sozinho e deixado em paz, o homem de Deus quebrava com seus gemidos o silêncio das florestas, inundava a terra com lágrimas, batia no peito com as mãos; ou então, se encontrava algum recanto mais discreto e mais oculto, punha-se a conversar com o seu Senhor: respondia ao Juiz, suplicava ao Pai, cavaqueava com o Amigo. Em situações destas o viram às vezes alguns irmãos que os espiavam piedosamente: a interpelar a clemência divina em favor dos pecadores, com clamorosos gemidos, ou ao chorar em altos brados a Paixão do Senhor, como se tivesse a se desenrolar diante de seus olhos. Na solidão o viram uma vez de noite a orar, os braços abertos em cruz e o corpo erguido da terra e circundado dum halo brilhante, ostentando exteriormente a luz admirável que lhe inundava o espírito.

    Legenda Maior 10, 4
    São Boaventura

  • Prece de ação de graças

    Um dia desses encontrei esta oração de ação de graças pelos 80 anos de um homem de nome Augusto.

    Augusto,
    na Ação de Graças
    pela tua fidelidade
    e companheirismo de esposo;
    por teu carinho e dedicação
    de pai, sogro e avô;
    pela tua lealdade, colaboração e solidariedade
    com parentes e amigos.
    Por tudo o que és e realizaste
    nestes 80 ANOS de vida saudável e feliz,
    rendemos graças ao Senhor da vida.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • “Quanto falatório temos nas paróquias!”

    Mais um vez damos a palavra ao Papa Francisco. Ele fala do desagradável costume dos falatórios em nossas paróquias.

    Quanto falatório nas paróquias! Isso não é bom. Por exemplo, alguém é eleito presidente de uma associação, se fala mal dele. Uma é eleita presidente da catequese, as demais começam a falar contra ela. Isso não é a Igreja! Isso não se deve fazer, não devemos ser assim. Precisamos pedir ao Senhor a graça de não fazer isso. Isso acontece quando miramos os primeiros lugares, quando colocamos no centro a nós mesmos, com nossas ambições pessoais e nosso modo de ver as coisas, e julgamos os outros; quando damos mais peso àquilo que nos divide do que àquilo que temos em comum.
    Uma vez na diocese em que eu trabalhava antes, ouvi um comentário interessante e belo. Falava-se de uma idosa que havia trabalhado a vida toda na paróquia, e uma pessoa que a conhecia bem disse: “Essa mulher nunca falou mal de ninguém, nunca fez fofoca, e estava sempre sorrindo” Uma mulher assim pode ser canonizada amanhã”.

    Papa Francisco
    Audiência Geral, 27 de agosto de 2014

  • Sempre de novo o tema da oração

    O tema é sempre sério. Não se vive humana e cristãmente sem oração. Não se brinca com o tema da oração.

    A qualidade da vida cristã e da vida consagrada depende da qualidade da oração. A pessoa que reza “em espírito e verdade” coloca-se diante da verdade de Deus na verdade de si mesma para captar, na verdade de Deus, também a própria verdade pessoal chegando mesmo a desejar segundo os desejos de Deus. O cristão ou o consagrado que não satisfazem esta necessidade básica de sua vida tende a ser imaturo e neurótico, porque cai numa contradição entre o próprio modo de viver e a vocação que, pensamos, escolheu livremente. Sua vida pode se tornar uma máscara. A vida espiritual de um consagrado é alimentada pela oração, em duas vertentes básicas: a oração comunitária e a oração pessoal.

    Frei Sérgio M. Dal Moro, OFM Capuchinho

  • Somos um ateliê para a esperança

    Vamos dar a palavra, nesse tema da fascinante arte de viver, uma vez ainda, a José Tolentino Mendonça. Ele diz que a família pode ser um laboratório para a alegria.

    É fundamental que a família coloque os olhos no horizonte e sinta que é para alegria que ela é chamada. É para a roda dos eleitos. E, por isso, desloca infatigavelmente o seu coração do peso da sombra para a leveza da luz. Na verdade, somos atravessados, somos conduzidos, somos levados pela mão de uma promessa, e essa promessa é a alegria. A alegria é sempre um dom. A alegria nasce quando eu aceito construir a minha vida numa cultura da hospitalidade. Se insonorizo o meu espaço vital, a alegria não me visita.

    Em vez de crescermos na severidade, na intransigência, na indiferença, no sarcasmo, na maledicência, no lamento, caminhemos esperançosamente no sentido contrário. Cresçamos na simplicidade, na gratidão, no despojamento e na confiança. A alegria tem a ver com uma essencialidade que só na pobreza espiritual se pode acolher.

    Bem-aventuradas as famílias que dizem de si mesmas: “Somos um laboratório para a alegria!”; “Somos um ateliê para a esperança”; Somos uma fábrica para o abraço e para a dança”.

    José Tolentino Mendonça
    Libertar o tempo, Paulinas, p. 92-93

  • Essa sabedoria tão pura de Francisco

    Francisco de Assis reescreve o Evangelho com sua vida e seus ditos. Nesta “exortação” ensina o modo como os que são superiores precisam agir.

    “Eu não vim para ser servido, mas para servir, diz o Senhor” (Mt 20, 28).

    Os que receberam o ofício de mandar nos outros, tanto se gloriem desse ofício, quanto se gloriariam se fossem encarregados de lavar os pés dos irmãos. E sentirem-se, quando os dispensam do ofício, mais do que se sentiram se houvesse dispensado de lavar os pés dos irmãos, sinal seria de que se entesouravam para si riquezas, que são um perigo para a alma.

    Exortação de São Francisco, n. 4

  • A Virgem do meio-dia

    Como é doce viver na companhia de Maria, a mãe de Jesus e nossa mãe. Os que se consagram a Maria atravessam seus dias com um ar de alegria e de confiança no semblante.

    É meio dia.
    Vejo a igreja aberta e entro.
    Mãe de Jesus Cristo, não venho rezar.
    Venho simplesmente para contemplar teu rosto.
    Olhar-te e chorar de felicidade,
    tomar consciência de que sou teu filho
    e que tu estás perto.
    Desejo passar um instante contigo nesse meio do dia
    quando tudo parece parar.
    É meio dia.
    Desejo estar diante de ti, Maria,
    nesse lugar em que estás.
    Nada dizer, simplesmente
    olhar teu semblante, deixar o coração cantar
    sua própria linguagem.
    Nada dizer, mas somente cantar
    porque o coração está repleto de júbilo,
    cantar como o melro que exprime sua alegria
    em versos improvisados.
    Venho aqui simplesmente
    porque é meio dia
    e porque hoje é esse dia de hoje.

    Paul Claudel

  • A espiritualidade da “pausa”

    Corrida, louca corrida, sem tempo, sempre sem tempo. E vida vai passando. Segundo alguns pensadores, meio filósofos, nós cristãos, precisamos cultivar a “espiritualidade da pausa” para dizer a todos que é possível viver o tempo de outra maneira. A “espiritualidade da pausa” consiste em saber que para saborear a vida intensamente é preciso parar e compreender que o viver humano é chamado a ser tranquilidade e paz amorosa. Somente com esta atitude vital é que poderemos encontrar o Deus altíssimo que descansou no sétimo dia para apreciar a maravilha de suas criaturas e contemplar extasiado seu crescimento. A pausa é a única realidade que pode nos abrir para a profundidade do presente. Não se pode viver inconscientemente. Pausa que é reflexão, oração, “ócio”, espaço de gratuidade.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Apresentar-se a Deus tal qual se é

    Poucas vezes uma pessoa pronuncia um “eu” tão verdadeiro como quando “fala” com Deus. A oração exige que eu me apresente a Deus tal qual sou. Não posso estar diante dele como um personagem que fabrico que costuma acontecer quando me encontro com os outros, ao menos, com certas pessoas. Ser eu mesmo. Preciso libertar-me de toda superficialidade na qual andei me instalando. Forçoso aprofundar-me na minha verdade. Buscar o essencial. O olhar do Senhor me penetra. Como diz o salmo, ele conhece o mais profundo de minhas profundidades.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Da conversação

    Eis aqui alguns vícios da conversação. Existe uma arte de conversar. Ou não? Sabemos conversar?

    O que precisa ser evitado:

    1. Desatenção;
    2. Hábito de interromper o outro ou vários falando ao mesmo tempo;
    3. O afã exagerado de mostrar um certo “brilho”;
    4. O egoísmo;
    5. O espírito de dominação;
    6. O pedantismo;
    7. A falta de continuidade na conversação;
    8. Pilhérias a todo instante;
    9. Espírito de “contradição” (ser sempre do contra);
    10. A disputa;
    11. Conversas paralelas.

    Fonte de inspiração:
    A arte de conversar
    Morellet e outros
    Martins Fontes, p. 133-134

  • Uma mulher toda de Deus

    Maria, Maria do Rosário, desde muito jovem, teve uma vida interior, espiritual e cristã muito intensa. Durante anos pertenceu a um grupo de oração sério, realista, tendendo a uma oração marcada pela entrega. Hoje, casada há anos, tem família, trabalha fora de casa, tem filhos. Levanta-se cedo. Tem o hábito de consagrar momentos, antes de sair do quarto, para uma oração meio meditativa e de intimidade com o Senhor. Aprecia os salmos. Uma vez ou outra os cantarola baixinho. Assim, ainda em casa, procura ter uma audiência com o Senhor. Com isso toda sua vida é feita de leveza e de uma suave alegria. A alegria de viver e de ser do Senhor.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • “O dia da fraternidade”

    Depoimento de um frade capuchinho:

    Lembro-me com saudades algumas experiências muito positivas que vivi em fraternidade, em minha vida. Por exemplo, aquela formativa, constituída de nove frades: três presbíteros e seis pós noviços, estudantes de teologia. Os presbíteros éramos dois professores de teologia e um pároco. Toda semana tínhamos “o dia da fraternidade” com tempo de formação, trabalhos domésticos (horta incluída), esporte e janta “festiva”. Normalmente todos estávamos presentes, com gosto de estar juntos. Desde o início do ano, éramos avisados que este dia era reservado para a “família. Inclusive o povo sabia disso. Lembro como as pessoas que, eventualmente, tinham de ir falar com algum frade, pediam mil desculpas, o faziam com brevidade e partiam. Se algum frade, por motivo especial, não pudesse estar nesse dia, já pela manhã informava os demais. E todos sorriam benevolamente como a dizer: “Bem, por esta vez, concordamos com sua ausência”.

    Frei Sérgio M. Dal Moro
    Com coração e inteligência
    Formação para a vida consagrada
    Família Franciscana do Brasil, 2006, p. 143

  • Plataforma jovem

    Jovens, detentores das chaves do amanhã? Esboços do futuro? Inventores do novo? Quem são eles? Vivem quase sempre em bandos, uns ao lado dos outros, correndo para cá e para lá, antenados, quase sempre antenados, muitas vezes tatuados. Frequentam as baladas da noite. Fazem parte de grupos que animam as missas de domingo. Há os que amam a natureza e curtem caminhadas por trilhas. Gostam de escalar montanhas e nadar em rios límpidos ou em águas de praias desertas. Há os que surfam e outros que estão sempre cansados, muito cansados. Frequentam aulas de faculdades ou então já deixaram os livros há muito tempo e andam “metidos” até mesmo no tráfico. Alguns deles vivem em casas de reeducação. Alguns muito certamente andam se perguntando: “Como fazer que minha vida tenha algum significado?” Francisco de Assis, jovem, cavalheiresco tinha também seus sonhos. Com seu jeito de ser e com as visitas do alto abriu belas sendas que continuam abertas. Enamorou-se de Deus e tudo o que é pequeno e cheio de necessidades.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Esse Francisco encantador

    Francisco, aqui pensamos no Francisco de Assis encantou e continua encantando. Jacques Le Goff, historiador francês de gabarito, escreve a seu respeito: “Amigo de todas as criaturas e de toda a criação, Francisco espalhou tanta solicitude, compreensão fraternal a todos, caridade no sentido mais elevado, quer dizer amor, que a história, como que lhe deu em troca a mesma simpatia e admiração afetuosa e geral. Todos os que falaram dele ou sobre ele escreveram – católicos, protestantes, não cristãos, incréus – foram tocados e frequentemente fascinados por seu encontro”.

    George Duby, outro historiador francês, afirmou: “De parceria com Cristo, Francisco foi o grande herói da história cristã. Pode-se afirmar, sem exagero, que o que hoje resta vivo no cristianismo provém dele”.

    Francisco encontrou o amor. Por isso a todos encanta. Jovens e pessoas maduras que sentem necessidade de buscar as estrelas, que não se contentam com uma vida medíocre, que não querem ser apenas católicos por terem sido batizados e feito a primeira comunhão, os que estão desperto ou foram acordados pelo Mistério sentem necessidade de amar. Querem “gastar” o tempo da sua vida com os outros, saindo à sua procura, recebendo-os no caminhar de sua vida para olharem juntos o amanhã.

    Francisco encontrou o amor feito carne, feito presépio, feito cruz, feito pão, feito irmão, feito servo. Chorando, o Poverello dirá que o amor precisa ser amado. Sua vida tão curta não foi vazia, mas uma fogueira de amor pelo Amor e por todos os vestígios do amor pelo mundo, nas pessoas, no leproso, no céu, na lua e no sol. Um homem plenamente realizado.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Confiar sem medo

    José Antonio Pagola nos convida a sermos corajosos!

    A superação do medo não é só nem principalmente, uma questão de boa vontade. O ser humano precisa encontrar uma esperança definitiva e uma força que dê sentido à sua luta diária. Precisa descobrir uma razão para viver e uma confiança para morrer.

    A fé é, talvez, antes de tudo força contra todo o medo e coragem para continuar crendo no futuro do ser humano, a partir de um compromisso humilde e de uma confiança ilimitada no Pai de todos. A isso nos convida permanentemente o apelo de Jesus: Não tenhais medo.

    José Antonio Pagola
    Caminho aberto por Jesus
    Mateus, Vozes, p. 125