Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

A cada dia uma Pérola

agosto/2019

  • O mistério do outro

    O outro, aquele que chega no horizonte de nossa vida, costuma mexer com o trem de nossa existência, com nossos hábitos e costumes. Temos dificuldade de fazer lugar para esses tantos outros nos recantos de nosso interior, nos espaços de nossas casas e de nossas cidades. Temos preconceito quanto a ciganos irritantes, a estudantes baderneiros, os que têm a cor da pele diferente da nossa cor. Generalizamos. Não estamos dispostos a tentar vislumbrar seu mistério pessoal, escutar as batidas de seu coração tão parecidas com as batidas e nosso próprio coração. Temos medo do diferente,  receamos a competição, tememos que nos falte o pão para comer e o prestígio que parece nos enfeitar.  Medo da partilha. Preconceitos, fechamento, empobrecimento.  Homem algum é uma ilha.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Que Francisco e Clara nos ajudem

    Francisco e Clara nos interpelam a não esquecermos a partilha do pouco que somos e temos, a solidariedade dos pequenos gestos, que – se não são suficientes para afrontar a frieza do mundo e os abusos contra as criaturas, nem para debelar a complexidade das dissimetrias sociais e econômicas, a miséria da maioria e a violência das guerras declaradas ou não pelo menos poderão levar o conforto de uma presença e um raio de esperança aos humildes: a esperança de que, no chão da América Latina e do Caribe, as trevas não haverão de ser isentas de luz na noite de seus sofrimentos.

    Reviver o sonho de Francisco e Clara de Assis no chão da América Latina e do Caribe
    Documento CEFEPAL
    800 anos OFM, p. 35-36

  • O silêncio incomoda?

    Um dos nossos principais problemas é que nesta sociedade loquaz o silêncio se tornou algo bastante temeroso. Para a maioria das pessoas ele cria irritação e nervosismo. Muitos os experimentam não como algo pleno e rico, mas vazio e sem valor. Para eles, o silêncio é como um abismo escancarado que pode engoli-los. Assim que um ministro diz durante a missa: “Fiquemos em silêncio por um momento”, as pessoas tendem a se tornar inquietas e preocupadas com um só pensamento: “Quando isso chegará ao fim?”.

    Henri Nouwen

  • Respeito de Francisco de Assis pelos sacerdotes

    Deu-me o Senhor e me dá tanta fé nos sacerdotes que vivem segundo a norma da santa Igreja romana, pelas ordens que têm, que se alguém me perseguir quero recorrer a eles. E mesmo que eu tivesse tanta sabedoria quanta teve Salomão, se encontrasse os pobrezinhos sacerdotes deste mundo nas paróquias em que moram, não quereria aí pregar contra sua vontade. E a eles e a todos os demais sacerdotes quero temer, amar e honrar como a meus senhores. E não quero considerar neles pecado, porque neles vejo o Filho de Deus, e são meus senhores. E por isso o faço: porque não vejo alguma coisa corporalmente, neste mundo, daquele altíssimo Filho de Deus, senão o seu santíssimo Corpo e Sangue, que eles recebem e só eles aos outros administram. E estes santíssimos mistérios sobre todas as coisas quero que sejam honrados e reverenciados e colocados em lugares preciosos.

    Testamento de São Francisco, 6-11

  • No lugar em que Ele habita

    Entremos no lugar em que ele habita, adoremos ante o apoio de seus pés (Salmo 132,7)

    O Senhor, o Magnífico, o Esplendoroso não mora nos espaços siderais. Ele é um Mistério a ser buscado incessantemente. Não cabe em nossas categorias. Nossas demonstrações intelectuais são pobres e tacanhas. Ele precisa se manifestar para que possamos vislumbrar a fímbria de seu manto e perceber sua presença. Silêncio, introspecção, contemplação do belo que Ele anda inventando. Silenciosa meditação diante do Cristo Jesus na cruz e orientação de nosso olhar para a chaga do peito aberto. Deus é amor e deseja ser visto como amor. A chaga do peito nos envolve com o amor do Senhor.

  • Transfiguração

    Enquanto rezava o rosto de Jesus mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante (Lucas 9, 29)

    Montanha, lugar de manifestações de Deus. Montanha, lugar de silêncio e escuta dos mínimos ruídos, do farfalhar das folhas das árvores e de sons misteriosos e libertadores que até então tínhamos ouvido. Ele, esse Jesus de nossos dias, sobe a uma montanha. Senta-se num padra. Coloca as mãos no rosto. E entrega-se ao Pai e deixa-se envolver nesse amor indescritível. Os apóstolos ficam surpresos. Compreendem que é preciso ouvir a voz do Mestre. “Este é meu Filho Amado. Escutai-o”. Em nossa vida de oração há um momento de estar diante dele sem outra preocupação senão a da contemplação gratuita. Basta. Resultado da fé. Sinal do esplendor que está reservado para os que buscam o Senhor ou se deixam encontrar por ele.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Homens vestidos de silêncio

    Creio na influência de homens silenciosos e irradiantes e digo a mim mesmo que esses homens são raros. Entretanto eles dão sabor ao mundo… Nada estará perdido enquanto homens como esses continuarem a existir. Se há algo que devemos desejar em nossos dias é que possamos ver em nós mesmos os inícios da contemplação.

    Marius Grout

  • Quando Cristo bate a porta

    Belíssima esta página de Santo Ambrósio, Bispo de Milão (sec. IV):

    Nascido da Virgem Jesus, ele saiu do seio, irradiando luz para o mundo inteiro, refulgindo para todos. Os que desejam, acolhem a claridade inextinguível que noite alguma interrompe. Pois à do sol que vemos diariamente, sucede a noite escura; mas o sol da justiça jamais se põe, porque à sabedoria não sucede a maldade. Feliz aquele a cuja porta o Cristo bate. Nossa porta é a fé, que, quando sólida, defende a casa toda. Por esta porta Cristo entra. Daí dizer a Igreja no Cântico: A voz do meu irmão bate à porta. Escuta o que bate, escuta o que deseja entrar. Abre para mim, minha irmã, esposa, minha pomba, minha perfeita, porque tenho a cabeça coberta de orvalho, e meus cabelos, das gotas da noite.

    Liturgia das Horas III, p. 422-23

  • A construção da conjugalidade

    Seria tão bom que os que se casam se escolhessem bem. Que não se precipitassem em juntar calças e saias, blusas e camisas, escovas de dente e desodorantes. Escolher a partir da graça do corpo, do largo sorriso e dos ombros espadaúdos, mas também a partir de uma beleza e nobreza interior, de seres amáveis porque bons. Sim, a partir do mistério de cada um e levando em consideração nuvens que podem, eventualmente, cobrir a total claridade de seu semblante. Viver, conviver com o ser total do outro e da outra. Viver uma sexualidade forte, regular, bonita, respeitosa e extremamente satisfatória. Viver os dois num estado de construção da conjugalidade e os dois sempre com os olhos voltados para o Altíssimo sublime inventor do casal. Ah, seria tão bom!

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Num certo Domingo de Ramos

    Em Assis Clara de Favorone participava da missa na Catedral de São Rufino. Vejam que bela e poética da cena descreve Felix Timmermans.

    Era um lindo Domingo de Ramos. Durante a Missa Solene, o órgão tocava e o bispo abençoou os ramos de oliveira. Clara e seus parentes ajoelhados em almofadas, ocupavam a primeira fila. Seu pai era um homem altivo forte, de olhar desconfiado e obscuro, uma barba loura rente ao rosto avermelhado. Conversava sem parar com irmão Monaldo. Clara estava sentada entre a mãe e Inês a irmã mais nova. Atrás dela, magro e tímido, estava sentado o cavaleiro que lhe fora destinado ao casamento. Além de sua tia, ninguém mais saberia que naquela noite Clara iria fugir da casa de seus pais.

    Felix Timmermans
    A harpa de São Francisco
    Vozes, p. 169-170

  • Clara e Francisco

    Como é próprio de uma pessoa profundamente enamorada, Clara e Francisco identificam-se com Jesus, refletem-se nele, revestem-se dele e transformam-se nele. Seus corações foram seduzidos pelo Esposo, conquistados pelo Senhor. Ambos deixaram-se envolver pela luz que irradia do “espelho” do Pai. Esta é a experiência fundamental. A admiração, o silêncio habitado e a clausura, sobretudo a do coração, serão as consequências imediatas tanto para o Poverello como para Irmã Clara.

    Frei José Rodríguez Carballo, OFM

  • Meias mentiras

    Francesc Torralba, escritor espanhol, publicou um livro interessante sobre a transparência. No determinado momento de seu percurso fala das meias mentiras ou das meias verdades. Escreve sobre a mentira para não ofender o outro.

    A primeira ocorre para não ferir o outro, para não ofendê-lo, para não o frustrar, para não o desiludir. Esta mentira não tem como finalidade causar sofrimento, muito pelo contrário, é mentira que se exerce por piedade ou então por compaixão. O filho mais novo esforçou-se por fazer um desenho e me pergunto o que acho. Não passa, realmente, de um borrão, mas minto e digo-lhe que fez um belo trabalho. O amigo me pergunta se eu gostaria de ficar um pouco mais em sua casa; na verdade estou muito cansado, mas respondo que sim, para não frustrar sua ilusão.

    Francesc Torralba
    Quanta transparência podemos digerir?
    Vozes, p. 121

  • A quem pertencemos?

    A quem pertencemos? Não é tão fácil responder a esta pergunta. Com quem vivemos lado a lado é uma coisa. Bem outra responder a quem pertencemos. Pertencemos de verdade a quem nos ama e mostra como vive e como nos inclui em seu projeto de existir. Pertencemos à nossa família, aos amigos que nos cercam, aos vizinhos que fazem a aventura da vida perto de nós. Pertencemos ao lugar onde vivemos, à nossa língua, à nossa história pessoal e pátria. Pertencemos ao amor, à Igreja onde nascemos e crescemos, ao Senhor que nos inventou e nos chama para junto dele, sempre, agora e sempre.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Jovens com raízes

    Palavras encorajadoras do Papa Francisco ao jovens.

    Às vezes, tenho visto árvores jovens e bonitas que elevam seus ramos ao céu, buscando sempre mais, parecem um canto de esperança. Mais adiante depois de uma tempestade, encontrei-as caídas, sem vida. Porque tinham poucas raízes, tinham soltado seus ramos sem se enraizar bem na terra, e, assim, sucumbiram diante dos embates da natureza. Por isso me dói ver que alguns proponham aos jovens construir um futuro sem raízes como se o mundo começasse agora. Porque é impossível que alguém cresça se não tem raízes fortes que o ajudem a estar bem sustentado e agarrado à terra.

    Papa Francisco
    Christus vivit, n. 179

  • Vida de oração e contemplação

    Uma palavra dirigida aos religiosos e religiosas: busca de uma profunda amizade e intimidade com Cristo:

    Cada vocação à vida consagrada nasceu na contemplação, de momentos de intensa comunhão e de uma profunda amizade com Cristo, da beleza e da luz que viram brilhar em seu rosto. Daí amadureceu o desejo de estar sempre com o Senhor – “é bom ficarmos aqui” (Mt 17,4) – e de o seguir. Cada vocação deve constantemente amadurecer nesta intimidade com Cristo. “O vosso primeiro compromisso, portanto – recorda João Paulo às pessoas consagradas -, não pode não se situa na linha da contemplação. Toda a realidade da vida consagrada nasce e a cada dia regenera-se na contemplação incessante do rosto de Cristo”.

    Partir de Cristo, n 25
    Documento da Congregação para os Religiosos

  • Como era o olhar de Jesus?

    Quem procura responder a esta pergunta é José Antonio Pagola:

    Os evangelistas repetem sempre de novo que seu olhar é diferente. Não era como dos fariseus radicai que só viam no povo impiedade, ignorância da lei e indiferença religiosa. Não era como o Batista que via pecado, corrupção e inconsciência diante da imediata chegada de Deus.
    O olhar de Jesus estava sempre cheio de carinho, respeito e amor. “Ao ver as multidões, ele se compadecia delas, porque as pessoas estavam extenuadas e abandonadas como ovelhas em pastor”. Sofria ao ver tanta gente perdida e sem orientação. Doía-lhe o abandono em que encontravam tantas pessoas sós, casadas e maltratadas pela vida.

    José Antonio Pagola
    Mateus, p. 115

  • Sempre de novo o tema da Vida Consagrada

    Desta vez quem dirige a palavra aos consagrados é o Papa Emérito Bento XVI:

    Eu vos convido a uma fé que saiba reconhecer a sabedoria da fraqueza. Nas alegrias e aflições do tempo presente, quando a dureza e o peso da cruz são sentidos, não duvideis que a kénosis de Cristo é já vitória pascal. Precisamente no limite e na fraqueza humana somos chamados a viver a conformação com Cristo, numa tensão totalizadora que antecipa, na medida do possível, no tempo, a perfeição escatológica. Nas sociedades da eficiência e do sucesso, a vossa vida marcada pela “minoria” e pela fraqueza dos pequenos, pela empatia por aqueles que não têm voz, torna-se um evangelho de contradição.

    Bento XVI
    Homilia 2 de fev. 2013

  • Maria de todos os dias

    Assunção de Nossa Senhora

    Maria, minha mãe,
    quero saudar-te neste dia e em todos os dias de minha vida.
    O Senhor fez em ti maravilhas porque foste escolhida desde toda eternidade para seres a mães de Cristo Jesus, nossa esperança.
    Contemplo teu modo simples de viver.
    Tão simples e tão despojado foi teu interior que pudeste acolher plenamente e sem hesitação a santa vontade do Senhor.
    Pequena e pobre de coração tu deste um sim que teve tantas repercussões para tua e nossa vida.
    Tu me ensinas a abrir-me à vontade de Deus.
    Não quero viver para meus projetos tão pequenos, tão mesquinhas, tão egoístas.
    Quero viver para o Altíssimo que sempre olha para a baixe

  • Francisco de Assis, “missionário”

    Giacomo Bini, ex-ministro geral da Ordem dos Frades Menores, foi uma pessoa reconhecidamente santa. Eis o que ele escreve a respeito de São Francisco “missionário”:

    Todas as atividades missionárias estarão sempre sujeitas à lógica da semente que deve morrer para frutificar. A eficácia “missionária” de Francisco atinge o cume na última etapa de sua vida, a da assemelhação a Cristo no Alverne: depõe sua experiência espiritual no seio da Igreja, ao lado da cruz, restitui esta aventura evangélica ao Pai e oferece como um “dom” missionário a muitos irmãos e irmãs que o teriam seguido ao longo dos séculos, fascinados por seu exemplo. É uma liberdade reencontrada exatamente no tempo da grande prova quando já não se sabe o que fazer: então resolve restituir a Deus o projeto evangélico elaborado durante toda a vida e que agora descobre não ser seu; restituir os frades que não são seus, sua vida que não é sua…

    Giacomo Bini, OFM
    Clara de Assis, um hino de louvor
    FFB, p. 14-15

  • Tua paz, senhor

    Tua paz, não é a paz dos cemitérios,
    quando exprimimos nosso desejo de que
    os mortos descansem em paz.
    Ela não consiste na submissão
    do escravo ao seu senhor,
    nem perda a alma diante do poderoso.

    Tua paz, Senhor, é reconciliação, perdão, amor.
    Ela possibilita que o outro exista
    e exista em plenitude, seja ele quem for.
    Busca união sem submissão.
    É dom de teu coração, Senhor.
    Teu Espirito inspira a paz
    aos corações que a ti se abrem.

    A paz muda o olhar e faz que se ame a vida.

  • A perda da fé

    Para pensar filosoficamente:

    A perda moderna da fé, que não diz respeito apenas a Deus e ao além, mas à própria realidade, torna a vida humana radicalmente transitória. Jamais foi tão transitória como hoje. Radicalmente transitória não é somente a vida humana, mas igualmente o mundo como tal. Nada promete duração e subsistência.

    Byung-Chul Han

  • Uma proposta ousada: Sair da “sala superior”

    Joan Chittister, beneditina, escreveu obras muito profundas a respeito da vida de consagração dos religiosos e religiosas. O que é necessário para que a vida religiosa se torne autêntica? A que compromisso estamos sendo convocados?

    Para a vida religiosa ser novamente autêntica, é imperativo que a nossa geração entenda que o primeiro templo da vida religiosa – o modelo anterior ao Vaticano II – acabou e que o segundo templo – o atual – está profundamente abalado. É imperativo compreender que estamos sendo convocados para um compromisso novo e ainda mais radical do que o anterior; que estamos sendo convocados para sair do isolamento do mundo católico para nos dirigir à casa completa de Deus; da piedade e da perfeição pessoal para uma oração profunda e para as implicações da visão dos salmos; da sala superior em que grandes, corajosos e audaciosos apóstolos se esconderam, chamando isso de apostolado, de volta aos pés da cruz.

    João Chittister, OSB
    Fogo sob as cinzas
    Paulinas, p. 177

  • Quase na hora do desfecho

    Ninguém pode ensinar ninguém a morrer. E há muitos meios e modos de morrer. Costuma-se dizer que as pessoas morrem exatamente do jeito como viveram. Há aqueles que são ceifados da vida inopinada e inesperadamente por um violento enfarto do miocárdio ou caindo no poço do elevador. Há pessoas que ficam poucas semanas de cama antes do final. Outras chegam a um hospital, são levadas a uma unidade terapia intensa e morrem entubadas e inconscientes. O que se passa na cabeça de uma pessoa lúcida numa unidade de tratamento intensivo? Angústia? Esperança? Vontade de se entregar nos braços de Deus? Que palavras encontrar para dizer a um ente querido que o fim está próximo?

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Companheiros da travessia

    Quase sempre queremos corresponder à imagem que os outros têm de nós. Mas somos algo mais do que estas imagens. Não somos aquilo que os outros pensam de nós. Não somos aquilo que a ciência espera de nós. Somos esperança, desejo, carência. Queremos viver, mas viver com desejo de plenitude. Somos caminhantes com o peito ofegante. Cajado à mão queremos companheiros para a viagem da vida. Queremos viver com e para os outros. Queremos chamar a esses todos nossos queridos companheiros da travessia.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • A árvore da cruz

    O franciscano Boaventura de Bagnorégio foi místico e sábio. Dele esta reflexão sobre a cruz:

    Existe uma árvore que pode levar o homem à vida verdejante, da morte à vida. É a árvore da cruz. Por que o Filho de Deus enfrentou a sua paixão pelos homens e não pelos anjos? Porque o homem e não o anjo é capaz de fazer penitência. O homem é aquela árvore que começa a germinar quando sente a umidade da água, que significa a graça da penitência. Se, pois, a cruz é a árvore da graça que nos dá a vida, e se nós, que tantas vezes estamos mortos por causa de nossos pecados, desejamos esta árvore, precisamos sofrer com o Cristo.

    São Boaventura
    Próprio da Família Franciscana, p 49

  • Um coração que quer ver

    Assim será sempre o coração do cristão: deseja ter os olhos voltados para quem e tudo que o cerca. E o coração quer ver:

    Somente o amor é capaz de olhar para aquilo que está escondido; somos convidados a tal sabedoria do coração que não separa o amor de Deus do amor para com os outros, particularmente para os pobres, os últimos, “carne de Cristo” (Papa Francisco), rosto do Senhor crucificado. O cristão coerente vive o encontro com a atenção do coração, por isso, ao lado da competência profissional e das programações é preciso uma formação do coração para que a fé se torne atuante no amor.

    Contemplai, n.59
    Congregação para os Institutos de Vida Consagrada

  • Tomás Merton fala da oração

    Na verdadeira oração, se bem que cada momento silencioso permaneça o mesmo, cada momento é uma nova descoberta de um novo silêncio, um novo mergulho naquela eternidade em que todas as coisas são novas. Sabemos por uma espontânea descoberta, a profunda realidade que constitui nossa existência concreta aqui e agora, e nas profundezas dessa realidade, recebemos do Pai luz, verdade, sabedoria e paz, que são o reflexo de Deus em nossas almas, feitas à sua imagem e semelhança.

    Thomas Merton
    Na liberdade da solidão
    Vozes, p. 77

  • Um Deus que dança

    Eis uma prece que pode ser de todos nós:

    Dá, Senhor, à nossa vida a sabedoria da paz.
    Que nosso coração não naufrague na lógica
    de tanta violência disseminada ao nosso redor.
    Que os sentimentos de dor ou de despeito não sufoquem
    a necessidade dos gesto de reconciliação,
    a urgência de uma palavra amável
    que rompa as paredes do silêncio,
    o reencontro dos olhares que se desviam.
    Dá-nos a força de insinuar no inverno gelado
    em que, por vezes vivemos,
    o ramo verde,
    a inesperada flor,
    a claridade que esta irreprimível e pascal
    vontade de recomeçar.

    José Tolentino Mendonça
    Um Deus que dança
    Paulinas, p. 95

  • Curai, redentor nosso

    Depois da Unção dos Enfermos, administrada pelo sacerdote, o Ritual deste sacramento, pede que seja proferida esta bela oração:

    Curai, Redentor nosso,
    pela graça do Espírito Santo,
    os sofrimentos deste enfermo.
    Sarai suas feridas, perdoai seus pecados,
    e expulsai para longe dele
    todos os sofrimentos espirituais e corporais.
    Concedei-lhe plena saúde de corpo de alma e de corpo
    a fim de que,
    restabelecido por vossa misericórdia
    possa retomar suas atividades.

    Ritual da Unção dos Enfermos, n. 77

  • Paz no fundo do ser

    Thomas Merton fala da paz interior:

    O segredo da paz interior está no desapego. O recolhimento não é possível a alguém dominado por todos os desejos confusos e instáveis de sua vontade. E mesmo se esses desejos dizem respeito às coisas boas da vida interior – recolhimento, paz, consolações na oração -, se não forem mais do que desejos egoístas e naturais, dificultarão, ou até mesmo impedirão, o recolhimento.

    Jamais se alcançará a perfeita paz interior e o recolhimento sem o desapego até do desejo de paz e recolhimento. Jamais será possível orar perfeitamente sem o desapego das consolações da oração.

    Se você renunciar a todos esses desejos e buscar uma só coisa – a vontade de Deus – Ele há de dar-lhe paz e recolhimento em meio ao trabalho, ao conflito e à provação.

    Thomas Merton
    Novas sementes de contemplação
    Vozes, p. 193

  • Crônica do cotidiano

    Apesar de todos os desafios e provocações na vida será preciso não desanimar. Ter coragem. Agir com serenidade. Principalmente em questões e assuntos familiares. Reações precipitadas podem ser desastrosas. Uma mulher poderia dizer: “Meu marido chegou mais uma vez completamente embriagado. Minha vontade era dizer-lhe que não entrasse em casa, que fosse embora, não sei para onde, que colocasse suas coisas em bolsas, buscasse algum parente e nos deixasse em paz. Estou perdendo o gosto de viver”. Será que já foram feitas todas as tentativas? Como essa mulher pode ainda de revestir de calma? Ela parece no limite de suas forças.

    Como a vida é complicada! Mesmo em momentos de provocação agir-se-á com serenidade e calma. Ninguém, no entanto, pode deixar que seja aviltado por quem quer que seja, mesmo e principalmente, por uma pessoa de nossa intimidade… Não se pode perder o gosto de viver.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães