Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

A cada dia uma Pérola

outubro/2019

  • Francisco de Assis, de sempre

    Francisco de Assis, num crucial momento de sua vida, numa encruzilhada de caminhos, ouve uma voz que pede que volte de onde está, para Assis. A partir daquele momento tem uma única preocupação: procurar saber o que Deus espera dele.

    Com muita propriedade Éloi Leclerc assim escreve: “A partir daquele momento Francisco se retira voluntariamente para a solidão das pequenas igrejas abandonadas da aldeia de Assis. A capela de São Damião é um dos seus lugares preferidos. Lá, só na penumbra e no silêncio, ele passa horas rezando, contemplando o Cristo bizantino que orna o santuário. Este Cristo crucificado, mas irradiante de paz, fala-lhe ao coração: revela-lhe como é profundo o amor de Deus pelos humanos. É uma revelação impressionante. Francisco é arrebatado e comovido pelo esplendor deste amor. Através da humanidade de Cristo e de sua vida totalmente entregue, ele acaba de descobrir o olhar misericordioso de Deus sobre o homem”.

    O sol nasce em Assis, Vozes, p. 55.

  • Fazer silêncio

    Fazer silêncio, ser silencioso nos leva à oração e a poder dizer, “fala Senhor que o teu servo escuta”. O silêncio precede a oração e, de algum modo, já é oração. Há algo que precisa ser feito com silêncio mais ou menos alcançado: transformar o silêncio em oração. Passo que nem todos conseguem dar. Há os que são submersos no silêncio e não passam ao diálogo com os outros e com Deus. Não poucos ficam num solilóquio. O silêncio será proveitoso quando transformado em pedido, agradecimento, arrependimento louvor. Pode ser que nesse silêncio de nós mesmos e de ruídos o Senhor se manifeste. Nada mais alvissareiro.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • “O Senhor te dê a paz!”

    Eia algumas linhas de um documento da Cúria Geral da Ordem dos Menores.

    “Chamados pelo Senhor e movidos pelo Espírito Santo, somos enviados ao mundo inteiro para proclamar o Evangelho, a toda criatura para que todos possam conhecer a graça e o amor que Deus Pai nos revelou e ofereceu em Cristo Jesus. No Evangelho da graça e do amor estão contidas a paz e o bem que queremos oferecer a todos quantos encontrarmos em nossos caminhos. Mediante o Evangelho desejamos transmitir a todos a firme esperança de um mundo melhor. E esta a salvação que pedimos e desejamos para todos, ao dizer: O Senhor vos dê a paz”.

    Seguidores de Cristo
    para um mundo fraterno, p. 33

  • Lamento choroso pela partida de São Francisco

    Nada mais belo e encantador do que ler e saborear este texto de Fernando Félix Lopes sobre a saudade que deixou Francisco:

    Pai Francisco! Voou para o alto. Não voltará? Volta de novo a terra, ó Pai São Francisco. Andaste no trabalho ingente e doloroso de arredar os espinhos que escondem no coração do mundo o Reino dos céus; chagaste no trabalho os teus pés e mãos, teu peito estalou de cansaço num rasgão sangrento. E já os lobos amansavam suas gulas e sanhas e as andorinhas andavam presas no encanto de tua voz, e os homens deixavam os campos de batalha para correr através de ti em convívio fraterno, e até os infiéis enternecidos, escutavam teus cantares de Paz e Bem. Parece que já nos sorria o paraíso.

    O Poverello
    São Francisco de Assis
    Ed. Franciscana de Braga, p.493-494

  • Confissões de um monge

    Diante de meus olhos um texto de Thomas Merton. O grande trapista fala da experiência da proximidade de Deus. Há, com efeito, na vida das pessoas que procuram a pureza de coração, fugazes e indescritíveis experiências de proximidade de Deus:

    “Na vívida obscuridade de Deus que temos em nós, manifestam-se, por vezes, profundos transportes de amor que libertam completamente, durante um momento, do nosso velho fardo de egoísmo e nos incluem no número das criancinhas a quem pertencem o reino dos céus. E quando Deus determina que caíssem na desordem dos nossos desejos, juízos e tentações, trazemos uma cicatriz no lugar onde, durante um momento, tal alegria exultou, em nossos corações. Uma pungente cicatriz! A ferida em carne viva faz-nos sofrer e lembrar que voltamos a cair no que não somos e de que ainda não nos é permitido permanecer onde Deus quereria que estivéssemos. E suspiramos pelo lugar que ele nos destinou e desejamos, chorando, o tempo que essa pura pobreza nos empolgará, nos conservará presos na sua liberdade e não mais nos deixará partir, – o tempo em que nunca mais tornaremos a ser precipitados do paraíso dos simples e das criancinhas naquele fórum de prudência onde os avisados deste mundo se agitam na aflição e estendem suas armadilhas a uma felicidade que não pode existir”

    Sementes de Contemplação
    Tavares Martins p.291-220

  • Faz bem mergulhar em denso silêncio

    O silêncio é meio indispensável para a comunicação. Tal acontece quando a palavra como que atinge o seu limite e se torna diálogo quando as pessoas já não podem exprimir o que sentem. Há então a eloquência do silêncio. Esse tipo de silêncio-diálogo é aquele que se estabelece entre a mãe que amamenta o recém-nascido, o silêncio que vivem os esposos na entrega íntima e total de si mesmos, dos amigos que celebram sua amizade, dos idosos que fazem a memória calada de seu passado, de quem contempla a natureza cheio de admiração. Trata-se de um silêncio que é amor criativo e fecundo.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Estrela do mar

    Assim costumamos designar Nossa Senhora: Estrela do Mar. São Bernardo de Claraval gostava de assim designa-a. Os que já atravessaram oceanos e viveram o mistério do negrume da noite experimentam uma alegria quando vislumbra um ponto luminoso no horizonte. Parece que já não nos sentimos na terrível desorientação das trevas. Nós, pobres mortais, querendo ser discípulos de Jesus, experimentamos pavor na hora das tempestades. Não temos certeza de poder atravessar os perigos. Nesses momentos olhamos para Maria. “Quando se ergue o vento das tentações, quando fores arrastado para arrecifes, olha a estrela, invoca Maria. Se fores sacudido pelas ondas do orgulho, da ambição, da calúnia, da inveja, olha a estrela, invoca Maria. Se a cólera ou a avareza ou as ilusões da carne sacudirem a barqueta da tua alma, olha para Maria”.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • O importante é o encontro da alma com Deus

    Madeleine Delbrêl, leiga francesa, ativista social, mística no meio do mundo é figura emblemática da figura precisamente do laicato:

    “Pouco importa o que tenhamos a fazer: uma vassoura ou uma caneta entre os dedos, calar ou falar. Tudo isso nada mais é do que casca da esplêndida realidade: o encontro da alma com Deus”.

  • Francisco e Clara

    Fioretti 15

    Contam às legendas que Francisco e Clara de Assis tiveram um encontro celebrado com um refeição-ceia de simples pedaços de pão. E houve fogo, incêndio no ar enquanto eles falavam a respeito das coisas de Deus. Frei Godefroy Guillerm, frade menor, escreveu sobre o tema e assim conclui:

    “Clara e Francisco, Francisco e Clara… Mistério de um mesmo fogo, devorando entre eles toda fronteira humana de um amor humano; Só conseguiremos entender o mistério de sua vocação que queimando as asas da imaginação carnal e reduzindo a cinzas toda psicologia dita de profundidades que reduz o homem à mera dimensão humana, sem raízes nem destino divinos. Na Porciúncula, como na montanha do Horeb, estava no fogo e o fogo era Deus”

  • Irmãos menores

    Ser menores não consiste em viver para si mesmos, mas para os outros. As Fraternidades da Ordem dos Frades Menores são fraternidades viradas para o exterior, não grupos fechados em si mesmos. O nosso claustro é o mundo e a nossa missão é fazer conhecer o Reino de Deus. Esta missão os irmãos menores realizam-na, primeiramente, com a própria vida, e depois, com o testemunho de sua palavra.

    Documento
    Seguidores de Cristo
    Para um mundo fraterno, p. 33

  • Se me amas

    Se tu me amas por causa da beleza, então não me ames!
    Ama o Sol que tem cabelos dourados!
    Se tu amas por causa da juventude , então não me ames!
    Ama a primavera que fica nova todos os anos!
    Se tua amas por causa dos tesouros, então não me ames!
    Ama a Mulher do Mar: ela tem muitas pérolas claras!
    Se tua amas por causa da inteligência, então não me ames!
    Ama Isaac Newton: ele escreveu os
    Princípios Matemáticos da Filosofia Natural!
    Mas se tu me amas por causa do amor, então sim, ama-me!
    Ama-me sempre: amo-te para sempre!

    Adília Lopes
    Citado por José Tolentino Mendonça
    Nenhum caminho será longo, Paulinas, p. 133

  • Maria de todos os dias

    Maria aberta aos convites do Senhor Deus,
    Maria que cantarola os salmos,
    Maria que carrega no seio o Menino visitando Isabel,
    Maria do Presépio, das faixas de panos,
    dos cuidados de todos os dias,
    Maria das coisas simples de Nazaré,
    Maria das Bodas de Caná,
    Maria das dores aos pés da cruz,
    Maria da Gloria, da Paz e da Misericórdia.
    Maria Aparecida!

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Pobreza, fraternidade e São Francisco

    Na primitivíssima fraternidade de São Francisco o bem querer era a terra prometida. Assim escreve Éloi Leclerc:

    “A fraternidade era a terra prometida. ‘E onde quer que estiverem e se encontrarem os irmãos mostrem-se afáveis entre si’. Cada um se via acolhido, saudado, amado como um irmão, fora de qualquer relação dominante-dominado. A fraternidade lhe oferecia um espaço de liberdade e de comunhão. A pobreza evangélica era vivida menos como um exercício ascético do que como um mistério de comunhão. Renunciando a possuir, renunciava-se a se elevar acima dos outros para estar com, para viver em comunhão com todas as pessoas, a exemplo do altíssimo filho de Deus, que se despojou de sua soberania para estar com os mais humildes. Os irmãos viviam, de fato, uma dupla fraternidade: uma fraternidade entre eles, é claro, mas também com todos aqueles e aquelas que encontravam na sociedade, e mais particularmente com os mais pobres e mais fracos. Nenhum irmão deveria exercer uma posição de mando e muito menos entre os irmãos. ‘Nunca devemos aspirar a sobrepor-nos aos outros, mas antes sejamos por amor de Deus os servos e súditos de toda criatura humana’”.

    Éloi Leclerc
    O sol nasce em Assis, Vozes, p. 60-61

  • Experiência cristã hoje

    O grande desafio com que o Cristianismo se vê hoje confrontado não é da sua sobrevivência, mas o da sua relevância. Como tornar relevante o Evangelho? Como tornar significativa a experiência cristã? Se esta é uma sua questão de sempre, mais ainda é em nossas sociedades democráticas e plurais. Aí o mercado das propostas de sentido inflacionou-se (…). O grande desafio do Cristianismo é, pois encontrar sua voz no concerto cultural atual. Daí que o rigor doutrinal, a exigência moral, a influência social ou a pureza litúrgica não podem ser as grandes questões da Igreja, hoje. Não que tais temas não tenham a sua importância. Têm-na. Todavia eles são subsidiários dessa questão maior, com alcance e impacto futuro: como (re) descobrir o Evangelho de Jesus como uma hermenêutica válida para a vida, como inspiração de um modo bom e belo, verdadeiro e justo de viver. Fazer com que a vida esteja à altura do Evangelho supõe, também, este sempre inconcluso trabalho de fazer com que o anúncio do Evangelho esteja à altura da vida.

    Alexandre Palma
    Prefácio ao livro
    Paciência com Deus
    Tomás Halik
    Paulinas, p. 13-14

  • Fraternidade

    Palavras do Papa Francisco aos participantes do Capítulo Geral da Ordem dos Frades Menores em maio de 2015.

    A dimensão da fraternidade pertence de maneira essencial ao testemunho evangélico. Na Igreja das origens os cristãos viviam a comunhão fraterna a ponto de constituírem um sinal eloquente e atraente de unidade e de caridade. As pessoas se admiravam de ver os cristãos tão unidos no amor, tão disponíveis no dom e no perdão reciproco, tão solidários na misericórdia, na benevolência, na ajuda mútua, unânimes e, partilhar as alegrias, os sofrimentos e as experiências da vida. A família religiosa de vocês é chamada a expressar essa fraternidade concreta, mediante a recuperação da confiança recíproca – e friso isto: recuperação da confiança recíproca – nas relações interpessoais a fim de que o mundo veja e acredite, reconhecendo que o amor de Cristo cura as feridas e unifica.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Para buscar a fé será fundamental eliminar tantos ruídos

    Para que possamos chegar a uma fé transparente, vigorosa e substancial é preciso não valorizar devoções enganadoras. Será preciso limpar a casa de tantas estampas e flores de plástico e retornar à nudez do Éden, da cruz e da ressurreição, sem enfeites e somente com a crua pergunta da fé. Urgente livrar-nos de crenças tagarelas e fantasiosas que nos impedem de escutar o silêncio sem fim da verdadeira fé. Para tanto precisamos reaprender a amar nossa “solidão sonora” de que falava São João da Cruz. Não se fugirá dela, mas haver-se-á de busca-la como lugar do colóquio essencial, da intimidade consigo mesmo e com Deus, paradoxalmente “ausente”. Nada de temer o silêncio como se fosse prenúncio de morte. Urgente aprender novamente a estar só, para enraizar nossos relacionamentos, nossos afetos , nossas obras não na emotividade superficial, no protagonismo ansioso ou no afã de reconhecimento, mas na mais profunda e mais discreta liberdade do verdadeiro amor.

    Inspirado em texto de
    Simón Pedro Arnold, OSB

  • O que é a fé?

    A fé tem tudo a ver com o sentido último da vida.

    A fé não é apenas um sisuda determinação de se apegar a certa forma de palavras, aconteça o que acontecer – embora, devamos sem dúvida estar dispostos a defender o nosso credo com a própria vida. Acima de tudo, porém, a fé é a abertura dos olhos interiores, dos olhos do coração, para que se deixem pela presença da luz divina. Em última análise, a fé é a única chave do universo. O sentido ultimo da existência humana e as respostas às perguntas das quais depende a nossa felicidade não podem ser atingidos de nenhum outro modo.

    Thomas Merton
    Novas Sementes de contemplação, Vozes, p. 127.

  • A casa de Deus

    Nossas igrejas, nossas capelas, esplendorosas basílicas estão ai. Não somos a religião do “templo”. O Senhor que amamos e buscamos não se limita a se nos manifestar nas liturgias e rezas no templo. Ele não cabe em espaço algum. No entanto, queremos exprimir nosso carinho e nosso respeito amoroso pelos nossos templos de pedras ou de tijolos. Modestas capelinhas, igrejas grandes, monumentais basílicas…

    Nossas igrejas são locais de encontro, bonitos, limpos, com belos arranjos de flores e plantas que estão sempre a louvar o Senhor. Espaços de silêncio, de recolhimento. Respeitamos silêncio em nossos templos. Nada de conversas, de andanças desnecessárias. Há pessoas sofrendo e rezando, há pecadores suplicando o perdão, há pessoas que estão tendo entrevistas com o Senhor.

    Ao chegar o templo, com passo moderado, dirigimo-nos ao sacrário. “Nós vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo, a aqui e em todas as Igrejas pelo mundo inteiro, e vos bendizemos porque pela vossa santa cruz remistes o mundo”.

    Preparar o coração antes de começar qualquer prece, participar, cantar, responder, sempre com voz clara e tom moderado, não arrastando nem acelerando. Viver com o coração no templo.

    O templo de pedra é importante desde que não esqueçamos que o Senhor é maior que templo e nosso interior é templo do Senhor.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Modéstia no viver

    Nós todos precisamos aprender a arte de viver, a arte de saborear as coisas simples da vida.

    As pessoas preferem fazer dinheiro e ter cada vez mais coisas do que serem felizes. Não querem ver que, precisamente, viver como escravos de tantas coisas é o que mais impede de saborear a vida. Enquanto se afadigam refletindo sobre o último modelo que vão adquirir, com que artigo sofisticado irão surpreender-se, nem eles mesmos se dão conta de como vão se incapacitando para desfrutar de tudo o que de bom, grande e belo uma vida simples e modesta encerra. A felicidade não é algo que se alcança possuindo coisas, mas algo que começamos a intuir e experimentar quando o nosso coração vai se libertando de tantas ataduras e escravidões.

    José Antonio Pagola
    Lucas, Vozes, p. 269

  • Ir pelo mundo afora

    Constantemente ouvimos dizer precisamos viver em pequenos grupos, comunidades de oração, laboratórios do amanhã, pessoas que se conhecem e se estimam, que se apoiam, que inventam o novo. Certo também que precisamos ir pelo mundo afora, sem medo, sem receios, bastão na mão, sacola da vida com muito pouco peso, apenas o necessário para viver e sorrir, leves, sempre adiante, senão geograficamente, ao menos um andar interior, um buscar interior de novas metas. Nada mais tétrico do que um marcar passos ou parar no meio da caminhada. “Saber que nosso ir pelo mundo, na cota de dedicação ao Reino, depende de nossa decisão, mas que, de outro lado, “se o Senhor não construir a casa em vão trabalham os operários”. Caminhamos, rezamos, sorrimos, aproximamo-nos dos mais desesperançados, dos rotineiros e dos satisfeitos com o que dizem ter conseguido o que queriam, depois de termos saboreado a doçura do contato com o Senhor numa oração revigorante. Se o Senhor não construir a casa. Somos extensão dele!

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Casamento e família nunca estão prontos

    Estão sempre em construção. Há correções da rota, perdão a ser buscado e a ser concedido. Há recomeços salpicados de esperança. Surpresas que irrompem sem terem sido imaginadas. As crianças se tornam adolescentes. Os jovens se formam numa escola técnica ou numa faculdade. Muitas vezes não têm emprego. A mulher começa a trabalhar fora de casa. Um dia se diz extenuada. Outro dia enfeita toda bonita e está de bem com a vida. O marido revela possibilidades maravilhosas que estavam dentro dele até então nunca dispensadas. Escutar, espiar, pacientar-se, dar tempo ao tempo, enxugar as lágrimas, levantar a cabeça e começar tudo de novo. Casamento e família nunca estão prontos.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Uma espiritualidade do olhar

    A espiritualidade franciscana é uma espiritualidade do olhar, do deter-se. Francisco convida a contemplar os outros, o mundo e todas as criaturas com o olhar que o próprio Deus lança sobre eles. Ensina-nos a descobrir a beleza, admirar tudo e todos e a todos amar. A qualidade do ser fraterno depende estreitamente da qualidade do olhar. Não é possível amar o próximo sem olha-lo. Nada de ver do alto. Francisco soube enxergar os leprosos e, para além de suas feridas purulentas, foi capaz de ver neles os irmãos cristãos. Soube olhar a Al-Malik Al-Kâmil e para além do inimigo e sultão conseguiu divisar um irmão sábio e benevolente. Os franciscanos gostam de olhar e o olhar os encanta.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Rugas

    Pensamento publicado no Daily News, a 10 de janeiro de 1961.

    As rugas são as rugas; para alguns representam a perda do atrativo, da potência sexual; para os outros são os galardões que foram obtidos ao longo da dura campanha da vida. Um rosto enrugado é um rosto firme, estável, seguro. As rugas são as recordações cheias de saudade de um milhão de risos. São fendas e suportes do semblante liso da vida nos quais outras pessoas podem se apoiar e conseguir consolo e segurança.

  • Homens interiorizados

    Creio na influência de homens silenciosos e irradiantes e digo a mim mesmo que esses homens são raros. Entretanto, eles dão sabor ao mundo. Nada estará perdido enquanto homens como esses continuarem a existir. Se há algo que devemos desejar em nossos dias é que possamos ver em nós mesmos os inícios da contemplação.

    Marius Grout

  • Uma idosa majestosamente bela

    Cena bonita e tocante, delicada e terna, é ver uma senhora idosa majestosamente bela em seus avançados anos, passeando de bengala com a neta já feita mulher. As duas conversam, caminham lentamente, depois entram numa loja e tomam uma xícara de chocolate. A velha senhora, de quando em vez, discretamente levanta os olhos, olha a neta, bonita, jovem, instruída e educada, filha de sua filha, sangue de seu sangue, sonho de seus sonhos.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • A presença de Deus no cotidiano

    Cotidiano, dia a dia, mística das coisas de todos os dias. A graça e o amor de Deus não se veiculam apenas pelos canais dos sacramentos. Nossa inteira existência está inscrita na ordem da graça. É no cotidiano da vida que se realiza e se concretiza a vocação cristã à santidade. Santidade que pode ser vivida sem deixar nosso compromisso com a sociedade e na companhia de homens e mulheres que se empenham em anunciar e batalhar pela vinda de um mundo novo que se chama Reino, homens e mulheres livres de si mesmos, quer dizer de seus interesses pequenos. Todo homem é, de alguma forma, uma história sagrada. E a graça está no modo de viver, de casar, de amar, de viver os conflitos, de gastar o tempo da vida.

  • Recolhimento

    A pessoa que deseja rezar forçosamente deverá se recolher. Somente a intenção interior possibilita o encontro com o Senhor. As coisas, as novidades, o que brilha, o que aborrece tudo isso tem o pendor de nos tirar de nós mesmos. As atividades reclamam constantemente nossa atenção. Atraídos por impressões e dispersos com tantas atividades pode acontecer que vivamos distanciados de nosso “centro” sem permitir que Deus se faça presente em nós. O emaranhado de vivências impedem que brotem questionamentos últimos. Nada acende em nós uma esperança definitiva. Vale sempre a experiência de Agostinho: o coração não tem sossego enquanto não descansar em Deus.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Reforçar os valores

    Em nossos tempos há urgência em reforçar os valores, também no seio da Igreja. Egoísmo, egocentrismo, a ideia de sempre querer realizar as coisas à nossa maneira, o mau uso do poder, do dinheiro, a sede do prestígio, intransigência e intolerância são alguns de nossos desvalores. Esses sintomas de enfermidade espiritual que ocorrem na sociedade podem ser verificados mesmo nos que querem ser discípulos do Senhor. E os valores a serem vividos e anunciados: respeito pela vida em todas as suas manifestações, generosidade e não avareza, gratuidade e não busca de interesses mesquinhos, desejo de que todos tenham uma generosa fatia do bolo, bondade e compreensão misericordiosa, aceitar o diferente, tolerância.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Um olhar positivo sobre o outro

    O Papa Francisco escreve belamente sobre coisas da vida em família.

    “A fim de se predispor para um verdadeiro encontro com o outro, requer-se um olhar amável pousado nele. Isto não é possível quando reina um pessimismo que põe em evidência os defeitos e erros alheios, talvez para compensar os próprios complexos. Um olhar amável faz com que nos detenhamos menos nos limites do outro, podendo assim tolerar e unirmo-nos em um projeto comum, apesar de sermos diferentes. O amor amável gera vínculos, cultiva laços, cria novas redes de integração, constrói um tecido social firme”.

    Papa Francisco
    A alegria do amor, n. 100

  • Hospitalidade

    Há muitos modos de se exercer a hospitalidade. Há parentes e amigos que chegam para passar um dia ou um tempo maior em nossa casa. Mesmo na exiguidade de nossas casas e apartamentos fazemos o possível para que as possam se sentir bem, como se estivessem em sua casa. Por vezes é uma tia idosa da mãe ou do pai que vem à cidade fazer um tratamento médico especializado. Há essa decisão de acolher o pai/sogro idoso em casa o que faz mudar completamente o ritmo de vida de uma família. Importante é o sagrado dever da hospitalidade. Por vezes visitamos um amigo ou conhecido. Somos bem recebidos à porta, mas a televisão e os celulares estão a pleno vapor e sentimos que estamos como que sobrando. Encurtamos a visita. Inventamos um pretexto e ficamos pouco tempo. São coisas que acontecem. Repito: a hospitalidade é um dever sagrado.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Acolher a Deus

    A presença de Deus não é uma presença entre muitas outras. Sua aproximação não pode ser acolhida como uma a mais. Trata-se de fazer espaço para um Tu que supera tudo o que podemos imaginar e, ao mesmo tempo, está muito perto de nós. Chega misteriosa e discretamente. Ou abrimos-lhe a porta ou deixamos que ele siga seu caminho. Quando o acolhemos reconhecemos nossa grandeza e nossa pequenez, nosso anelo pelo infinito e nossa miséria. Sua proximidade leva-nos a descobrir nossa interioridade, no começo com certo receio e, depois com imensa confiança naquele que me ama ilimitadamente. Sabemos que ele não abandona aos que o buscam. Somos catadores das estrelas com os pés na lama.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães