Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

A cada dia uma Pérola

abril/2019

  • Cuidar do criado

    O franciscanismo tem muito a dizer à civilização contemporânea, especialmente à dos países industrializados, apanhados pelo consumo e pouco atentos ao sofrimento de milhões de criaturas que morrem de fome; aos que, em vez de construir a paz, se armam para a guerra e que, em vez de defender a natureza, da qual Francisco foi o cantor sublime e puro, a contaminam até em convertê-la em inimiga do homem. Toca a vós franciscanos, em primeiro lugar e como tais, responder ao homem de hoje, educando-o a uma correta visão e um digno uso das coisas, colaborando com a formação das consciências segundo uma disposição interior luminosa e equilibrada. Vossa incisiva presença, em tal sentido, pode contribuir muito para a paz , para o progresso da humanidade e para a recuperação dos autênticos valores cristãos. Como filhos do santo da pobreza evangélica, do homem da paz, vós sois os melhores intérpretes da mensagem lançada por Francisco aos homens de seu tempo, mensagem sempre atual por sua força renovadora das consciências e da sociedade.

    João Paulo II
    Pronunciamento ao Capitulo Geral
    Dos Franciscanos Conventuais, 1989

  • Silêncio permite escutar a vida

    A espiritualidade cristã prestou sempre grande atenção ao silêncio, experiência vivida sobretudo pelos monges, que chegaram  mesmo a projetar e a realizar uma arquitetura do silêncio. Não por acaso os mosteiros atraíram sempre homens e mulheres de toda condição e oferecendo-lhes, como dom primeiro, espaços de silêncio em vista de uma comunicação autêntica com Deus e com os outros e em vista de uma liberdade espiritual purificada.

    Mas hoje se tornou tão difícil querer o silêncio, cria-lo, vive-lo… O silêncio é o grande ausente de nossas casas, de nosso corpo, de nossa vida, em suma. A modernidade significa também o triunfo do barulho. Impôs-nos uma condição durável de não-silêncio, de não-pausa  em todos os níveis, em todas as circunstâncias de nossa existência. Os efeitos dessa predominância do barulho ensurdecedor repercutem sobre as pessoas, sempre menos capazes de “viver conscientemente o tempo”, sempre menos dispostas a adquirir uma vida interior profunda e a exercer a comunicação através de todos os sentidos, mesmos espirituais. Teme-se o silêncio como se fosse um abismo vazio, a preencher a todo custo, com não importa qual barulho, enquanto o silêncio é, na realidade, aquilo que permite escutar “bem” a vida.

    Enzo Bianchi
    Dar sentido ao tempo
    Loyola, p.  42-43

  • Certas loucuras da mídia

    É o Papa Francisco que nos propõe a refletir sobre o tema:

    Pode acontecer que os cristãos façam parte de redes de violência verbal através da internet e vários fóruns ou espaços de intercâmbio digital.  Mesmo nos media católicos, é possível ultrapassar os limites, tolerando-se a difamação e a calúnia e parecendo     excluir qualquer ética e respeito pela fama alheia. Gera-se assim um dualismo perigoso, porque, nestas redes, dizem-se coisas que não seriam toleráveis na vida pública e procura-se compensar as próprias insatisfações descarregando furiosamente os desejos de vingança (…).  A firmeza interior, que é obra da graça, impede de nos deixarmos arrastar pela violência que invade a vida social, porque a graça aplaca a vaidade e torna possível a mansidão de coração. O santo não gasta suas energias a lamentar-se dos erros alheios, é capaz de guardar silêncio sobre os defeitos de seus irmãos e evita a violência verbal que destrói e maltrata, porque não se julga digno de ser duro com os outros, mas considera-os superiores a si próprios (Fl 2,3).

    Papa Francisco
    Gaudete et Exsultate, 115-116

  • O jejum nos propicia uma experiência desértica

    Penetrando no deserto nesse tempo da Quaresma aproximamo-nos de nossa verdade:

    Na Quaresma, ousamos ir deserto adentro com Cristo. O jejum propicia nossa experiência desértica.  Ficamos privados de muitas coisas com as quais normalmente preenchemos o crescente vazio da vida, e assim nossas verdadeiras ânsias vêm à tona. Confrontamos nossa própria nudez e percebemos que não nos bastamos, que existe em nós um vácuo aberto, através do qual o nada nos observa.  Queremos nos proteger desse nada e, para tal, tentamos preencher aquele vácuo com comida e bebida.  Quando, no jejum, deixamos voluntariamente o vácuo aberto, os mais assustadores pensamentos, os mais reprimidos sentimentos, os medos, tudo isso emerge dos abismos da alma. Ficamos frente a frente com nossa verdade interior, o fato de sermos criação de Deus, seres cuja existência é mantida por Deus, seres que, sem Deus, afundam no nada.  Quem reconhece esta verdade torna-se interiormente livre, supera o medo e pode alegrar-se em seu próprio ser, com que Deus o presenteia a cada dia.

    O Ano Litúrgico como ritmo
    para um vida plena de sentido
    Anselm Grün e Michael Reepen
    Vozes, p.  50-51

  • Fazer jejum das palavras

    Senhor, ajuda-nos a fazer jejum das palavras.
    Das palavras desnecessárias, ruidosas, poluídas.
    Das palavras dúplices e opulentas,
    das palavras que atropelam, das palavras injustas,
    das palavras que divergem e atraiçoam,
    das palavras que separam.
    Ajuda-nos a jejuar das palavras que te escondem,
    das palavras em que o amor não emerge,
    das palavras confusas, ressentidas, atiradas como pedras,
    das palavras que muralham a comunicação,
    das palavras que nada mais permitem senão palavras.
    E que neste jejum, abramos mais o coração
    àquele silêncio no qual os encontros verdadeiros se insinuam.

    José Tolentino Mendonça
    Um Deus que dança
    Paulinas, p. 70

  • Diante das provações

    Elas chegam quando menos esperamos, essas provações. Fracassos afetivos, traições, doenças, perdas, dores do corpo e dores do espírito. Quando batem à nossa porta podemos ter reações de cólera ou de beata resignação. Por vezes mostramo-nos covardes ou então damos mostras de valente heroísmo sem muito fôlego e caímos prostrados.  Fato é que muitas vezes não sabemos mais nos colocar diante da vida no momento em que chegam ou passam as turbulências. Será preciso dar tempo ao tempo. Não reagir sob o impacto da dor, da violência e do choque.  Depois dessas duras decepções… Deixar a poeira assentar-se e suavemente olhar com lucidez e serenidade o horizonte do porvir. Temos o direito de perguntar ao Senhor as razões que ele nos dá para esse impasse e imediatamente descansar naquele que nos ama e que pode transformar pedras em pães. Em tuas mãos…

    Frei Almir Guimarães

  • Vida espiritual

    É vida vivida no dia a dia.  Não se trata de um segundo andar da existência, nem apenas um viver acima da matéria. Trata-se de uma vida no Espírito. Espírito, força, vento, óleo derramado nos que são de Cristo. Deus impregnando a vida.  Os ungidos passam a viver espiritualmente.  Vida interior.  Quando o homem caminha além dos computadores, quando nasce a si mesmo, quando tenta aproximar-se de sua verdade, quando se pergunta como levantar o peso de um viver por viver aí começa a vida espiritual.  Ou antes, quando começa a fazer perguntas em vista da vida.  Um autor de espiritualidade escreve: “Dever-se-ia procurar saber em que sentido abertura, itinerância, contemplação, celebração, esquecimento, imprudência tecem a vida espiritual. Um vida na vida de todos os dias. Nada mais.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • O tema do silêncio

    Nos acontecimentos transcendentais da vida, no nascimento e na morte, no sofrimento e alegria extremos, no amor e no desamor, na doença e no fracasso, o silêncio é um poderoso mecanismo de comunicação. O fato é que nos altos e baixos da vida o melhor que temos a fazer é guardar silêncio já que as palavras se fazem escassas para expressarmos os sentimentos e tudo quanto há dentro de nós.

    O silêncio, por exemplo, em um momento de tristeza, fala muito mais do que as palavras. Quando perdemos um ente querido, frases de condolência são de completa impotência. Queremos confortar o outro com nossa ternura e delicadeza, mas nossas tentativas serão em vão.  No melhor dos casos expressarão gentileza e afeto pessoal, mas não terão o poder curativo que tem o silêncio.  Nestas horas um abraço silencioso diz mais do que qualquer protocolo ou fórmula praticados na presença do corpo daquele que se foi.

    Francesc Torralba
    O valor de ter valores
    Vozes, p.  84 e 85

  • Silêncio para ouvir a palavra

    Enquanto nosso coração e nossa cabeça estiverem cheios de nossas próprias palavras, não haverá espaço para a Palavra entrar no fundo de nosso coração e dar frutos. Em silêncio, e através dele, a Palavra de Deus vai da cabeça para o coração; aí nós podemos rumina-la, mastiga-la, digeri-la e permitir que ela se torne sangue e carne em nós.  Este é o significado da meditação. Sem o silêncio a Palavra não pode se tornar nosso guia interior; sem meditação ela não pode construir seu lar em nosso coração e conversar conosco de lá.
     
    Henri Nouwen
    A Formação Espiritual
    Vozes, p. 33

  • Quaresma, tempo de partilhar

    A Quaresma é ocasião de se refletir o que se possui, sobre o que é verdadeiramente necessário, sobre os bens que podem ser partilhados com aqueles têm necessidade.  Não se trata apenas de colocar gestos de “caridade” que se tornam quase naturais, pois o clima em que vivemos é de abundância, mas de nos colocar em verdade diante de Deus Pai e ao lado daqueles que, como nós, seus filhos e portanto nossos irmãos.  Sim o cristianismo é exigente e sempre colocou em evidência a conexão entre a caminhada na fé em seguimento do Senhor e o modo de se comportar com os bens do mundo.  Basílio Magno lembrava que o “casaco entregue às traças em teu armário não pertence a ti, mas ao pobre”.  E Gregório de Nissa advertia: “aquele que possui demais não é um irmão, mas um ladrão!”.

    Enzo Bianchi
    Dar sentido ao tempo
    Loyola, p. 61-62

  • Oração de um ancião

    Senhor, eu sou do número das pessoas
    que costumam ser designadas de “velhos”.
    Vivo o entardecer da minha vida:
    a noite não demora a chegar.
    Que tu não me deixes sozinho nos meus últimos passos.
    Minha vida foi plena…
    Trabalhei com garra e perseverança.
    Tudo, tudo mesmo, foi se perdendo nas brumas do passado.
    Peço que conserves longe de mim toda amargura,
    toda vontade de querer mostrar saber, erudição e poder.
    Livra-me da tentação de ficar dizendo a torto e a direito
    que antes, no “meu tempo”, tudo era melhor,
    que eu sempre tinha razão.
    Que eu não venha a endurecer o coração,
    não viva de ilusões, não ande atrás de falsas esperanças.
    Ajuda-me a não ficar fechado em meu mundo,
    que não alimente compaixão e pena de mim mesmo.
    Sinto-me protegido por teu amor.
    Senhor, ajuda-me a viver.

  • Se alguém quiser ser meu discípulo

    […] siga-me, coloque seus passos nos meus passos, aceite me dar a mão.

    […] abeire-se de todos os que estão jogados à beira do caminho, estenda-lhes as mãos, dirija-lhes o olhar, leve-os até a hospedaria e não se esqueçam de pagar as diárias.

    […] rejeite toda forma de opressão imposta aos fracos pelos prepotentes.

    […] procure estar perto dos doentes, dos que são “usados”, das mulheres espancadas pelos maridos.

    […] compreenda que nem sempre o último lugar é o pior e que muitas vezes seus ocupantes têm no semblante traços parecidos com os meus.

    […] procure caminhar dois mil passos com quem pede nada mais do que mil.

    […] imite a corrida de Zaqueu para me receber em sua casa, derrame as lágrimas de Pedro depois da negação, e imitem a pressa da mulher que se dirigiu ao meu sepulcro na manhã da Páscoa.

    Isto se alguém quiser ser meu discípulos […]

  • Criar espaço interior

    Nunca foi fácil a criação de um espaço interior em cada um de nós, em sintonia e bem integrado com o exterior.  Nunca foi fácil percorrer o caminho para autenticidade, que nada tem a ver com uma vida sossegada que foge do mundo, mas que possa ser uma existência laboriosa que aposta na profundidade pessoal e na coragem de assumir compromissos. Ai está o primeiro passo para a conversão em nossos dias: conseguir, apesar de tudo, a autenticidade de quem vive em profundidade, sabe o que sente e age em consonância com o que vislumbrou.  Não tem fim o processo espiritual da construção de uma interioridade.

    Luis López-Yarto Elizalde, SJ

  • Domingo do Ramos

    Lá vem ele, o Senhor,
    montado num burrico entrando em Jerusalém,
    na cidade santa.
    Cidade sonhada por todos os judeus.
    Para lá sobem a tribos, as tribos todas de Israel…
    Que alegria quando os judeus vinham em caravanas
    esperando chegar à curva em que divisavam Jerusalém.

    Lá vem ele, o Senhor, mesmo de condição divina,
    montado num burrico.
    Antes ele já havia percorrido praças de Jerusalém
    e sobretudo tudo frequentado o templo.
    Chegou mesmo a ter muita tristeza
    e chorou sobre a cidade porque ela
    não conhecera ou não queria conhecer a hora de sua visitação.

    Naquela manha houve gritos de alegria
    e ele entrou no lombo de um burrico
    que pisava nas folhas que haviam atapetado o chão.
    Um rei montado num animal,
    um rei que vinha do Infinito, um rei de amor,
    Cristo, nosso Rei.

  • A casa encheu-se daquele perfume

    Seis dias antes da Páscoa Jesus foi a Betânia…

    João fala de uma ceia oferecida a Jesus na casa de Lázaro, Marta e Maria.  Estariam todos sabendo que era o momento da despedida?   Naquele momento de medos e sobressaltos, Jesus tinha necessidade de estar com pessoas que o amavam. O frio começava a tomar conta dos cantos de seu coração.  O que, de fato, estava para vir? Maria derrama perfume nos pés do hóspede.  Gesto de delicadeza. Gesto de apreço pelo hóspede (e que hóspede!). O perfume se espalha e inebria.  As apreensões do coração se misturam com o sacramento do carinho que era representava aquele perfume.

  • Não podemos nos fixar na Sexta-feira da Paixão

    Normal que se celebre com unção e compunção a semana da paixão do Senhor. Compreende-se que tenhamos um semblante grave quando ouvimos textos que falam do abandono do Mestre. Compreende-se.  Não podemos, no entanto, esquecer que Jesus é o Ressuscitado, que o Domingo emerge na Sexta-feira, no cotidiano como uma luz fraca, mas claridade, presença amorosa que nos abraça no silêncio, no rosto de um irmão que vem a nosso encontro e diz que existimos.

  • Nada de desânimo

    Temos que anunciar Cristo, a vitória de Cristo, mesmo quando envolvidos pelo sofrimento e, quem sabe, traindo e sendo traídos.  Não podemos perder a esperança diante da dor de tantos homens e diante de situações existenciais desesperadoras.  Consagramos nossa vida ao Reino. Temos confiança de que com nossa voz, nossos empenhos comunitários, nossa limpidez poderemos injetar ânimo e coragem.  Jesus, nosso mestre e nosso tudo, precisa de nossa coragem.  Nada de desânimo.

  • Ele depôs o manto…

    O evangelista João faz a Paixão de Jesus ser precedida da instituição da eucaristia e do lava-pés. Numa tarde do mundo, os apóstolos chegam, se assentam, são acolhidos. De repente, o Mestre se ergue, tira o manto. Curva-se até o chão e lava os pés dos seus.  Era seu testamento não registrado em cartório mas nas retinas de uns poucos pescadores. Uma palavra forte em gestos.  Serviço e amor, humildade e ternura.

    Jesus lava os pés de todos, um após outro.  Serviço amoroso.  Ele, sendo de condição divina não hesitou em servir, em percorrer os caminhos dos homens, comer à mesa deles, sujeitar-se a tudo.  Ele, o servo.  Deixou o manto da divindade e vestiu-se da pobreza do servo. Eloquência do texto. Ele tinha dado o exemplo. Que os seus fizessem o mesmo.  Terminado o gesto Jesus retoma o manto.  Terminada sua paixão e vencida a morte ele, vivo, se junta ao Pai.

    Depois ele retomou o manto…

  • O poder do Sangue de Cristo

    São João Crisóstomo, em suas Catequeses, nos leva ao mistério adorável da paixão do Senhor, do peito aberto no alto da cruz.

    Queres compreender mais profundamente o poder desse sangue? Repara de onde começou a correr e de que fonte brotou.  Começou a brotar da própria cruz, e a sua origem foi o lado do Senhor.  Estando Jesus já morto e ainda pregado na cruz, diz o evangelista, um soldado aproximou-se, feriu-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu água e sangue: a água como símbolo do batismo; o sangue como símbolo da eucaristia.  O soldado, traspassando-lhe o lado abriu uma brecha na parede do templo santo, e eu, encontrando um enorme tesouro, alegro-me por ter achado riquezas extraordinárias.  Assim aconteceu com esse cordeiro. Os judeus mataram um cordeiro, e eu recebi o fruto do sacrifício.

    Lecionário Monástico II, p. 579-580

  • Desperta, adão que dormes

    Cristo está na cruz: aproxime-nos dele, participemos de seus sofrimentos para ter parte também em sua glória.  Cristo jaz entre os mortos:  morramos ao pecado a fim de viver para a justiça.  Cristo repousa num túmulo novo; purifiquemo-nos do velho fermento, tornemo-nos uma massa nova e sejamos para ele lugar de repouso.  Cristo desce à mansão dos mortos: desçamos também com ele pela humilhação que exalta, a fim de ressuscitarmos, sermos exaltados e glorificados com ele… Vós que sois do mundo, sede livres;   vós que estais amarrados, saí;   vós que estais nas trevas, abri os olhos para a luz;  vós que estais no cativeiro, libertai-vos;  cegos, levantai os olhos. Desperta, Adão que dormes, levanta-te entre os mortos, pois Cristo, nossa ressurreição apareceu!

    Das Homilias de São João Damasceno
    Lecionário Monástico II, p. 621 

  • Assim fala o Ressuscitado

    Vinde todas as nações da terra oprimidas pelo pecado e recebei o perdão.

    Eu sou vosso perdão, vossa páscoa de salvação, o cordeiro por vós imolado, a água que vos purifica, a vossa vida, a vossa ressurreição, a vossa luz, a vossa salvação, o vosso rei.

    Eu vos conduzirei às alturas, vos ressuscitarei e vos mostrarei o Pai que está nos céus; e vos levantarei com minha mão direita.

    Melitão de Sardes
    Lecionário Monástico III, p. 18

  • Oração da manhã de páscoa

    Originalíssimas essas linhas de Tolentino Mendonça!  Páscoa é, na verdade, um recomeço.

    Dá-nos, Senhor a coragem dos recomeços. Mesmo nos dias quebrados, faz-nos descobrir limiares límpidos. Não nos deixes acomodar ao saber daquilo que foi: dá-nos largueza de coração para abraçar aquilo que é.

    Afasta-nos do repetido, do juízo mecânico que banaliza a história, pois a desventra de qualquer surpresa e esperança. Torna-nos atônitos como seres que florescem. Torna-nos livres, deslumbrantemente insubmissos.

    Torna-nos inacabados com quem deseja e de desejo vive. Torna-nos confiantes como os que se atrevem a olhar tudo, a si mesmos, uma primeira vez.

    José Tolentino Mendonça
    Um Deus que dança
    Itinerários para a oração
    Paulinas, p. 77

  • As árvores e os rios

    Até que ponto sabemos conviver com a natureza?   Como conseguir fraternizar com árvores, mar e rios?

    Quando nos relacionamos com as árvores, os rios, as montanhas, os prados e os oceanos como se fossem objetos que podemos usar para suprir nossas necessidades reais ou inventadas, a natureza é opaca e não nos revela o seu verdadeiro ser. Quando a árvore nada mais do que uma cadeira em potencial, ela cessa de nos contar sobre o crescimento; quando o rio nada mais é do que uma lixeira para dejetos industriais, ele cessa de nos falar sobre o movimento; e quando a flor nada mais é do que um modelo para uma versão plástica de decoração, ela não diz muito sobre a beleza da vida. Nossos rios imundos, céus cheios de fumaça, colinas assoladas por minas e florestas devastadas são manchas opacas em nossa sociedade; elas se manifestam pela poluição e desastre ecológico e revelam um falso relacionamento para com a natureza.

    A Formação Espiritual
    Henri Nouwen
    Vozes, p. 48

  • Quando se tem filhos

    Os filhos chegam para os pais e, depois de pouco tempo, aprendem a voar e a dizer “até logo” ou “adeus”.

    O tempo adquire uma nova dimensão quando a gente tem filhos.  Nada se compara ao assombro de parir um ser humano – uma nova pessoa existindo. Tem nome, tem vida, tem futuro, tem todo um tempo penetrável à frente.  A responsabilidade, os cuidados; a impotência diante de seu destino; o amor desmesurado que tonteia, delicado, intenso, feroz na defesa, mágico nas intuições. Criança morninha vindo para a cama de madrugada, nunca foi tão doce perder o sono; adolescente mais alto que a gente mudando de voz; menina lindíssima saindo com o primeiro namorado; e o futuro no qual não estaremos sempre aí na ilusão de que estamos protegendo.

    Quanto mais dividida nesses cuidados, mais inteira fica a nossa vida.

    E o tempo de despedir, de deixar que se vá para viver o seu tempo, esse filho, essa filha: esta dádiva que o tempo não faz empalidecer mas perdura quando quase o resto de esvai.

    Lya Luft
    O tempo é um rio que corre
    Editora Recorde  p. 68

  • Francisco de Assis e o Santíssimo Sacramento

    Francisco de Assis  deixou-se seduzir por Cristo. Tudo o que se referia a ele  tocava suas mais íntimas fibras.

    São Francisco ardia de amor em todas as fibras de seu ser para com o Sacramento do Corpo do Senhor, não acabando de se maravilhar com tão amorosa condescendência e generosíssima caridade.  Considerava um grave desprezo  não ouvir todos os dias ao menos uma missa, desde que tal ensejo fosse oferecido.  Comungava com frequência e com tal devoção, que tornava devoto os que o viam.  Como tinha  em grande veneração tão augusto sacramento, oferecia nele o sacrifício de toda a sua pessoa e, ao receber o cordeiro imolado, imolava também a alma no fogo que lhe ardia incessantemente no altar do coração.

    Tomás de Celano
    Vida Segunda, 201

  • No outono do viver

    Os que estão com os pés cansados da caminhada e cantarolam  pequena ou grande ladainha de dores  precisam saber viver a velhice.

    Existem muitas maneiras de viver a velhice, assim como de viver a juventude  ou a idade adulta, mas, para além dessa pluralidade, é possível entrever algumas constantes que se repetem  em todas as épocas e em todos os contextos sociais, culturais e religiosos. No última etapa da vida se compreendem as verdades essenciais da existência, aquelas que não se aprendem nos livros didáticos, nem nas enciclopédias, mas ao  longo da própria  vida. É nesta etapa que a pessoa já adquiriu a capacidade de dar conselhos, de ensinar aos outros a arte de  viver bem, de orientá-los na existência.  A frase clássica  dos pensadores latinos  é evidente por si só:  Primum vivere deinde philosophare  ( Primeiro viver, depois filosofar). É preciso ter passado por muitos verões e muitos invernos para compreender  o  ciclo da vida e o eterno retorno das coisas.  É preciso ter vivido muitos amores e desamores, muitas alegrias e tristezas, esperanças e desesperanças para ser capaz de formular alguma sentença sensata sobre o coração humano.  É preciso ter sofrido todo tipo de sobressaltos, de contrariedades e de desventuras para se dar conta da insustentável leveza da condição humana, da nossa irrelevância cósmica.

    Francesc Torralba
    Quanta transparência podemos digerir?
    Vozes,  p. 143-144

  • Gratidão

    Pequeno elogio  à gratidão!

    Gratidão é o pensamento do coração.  A pessoa grata pensa com o coração. O ingrato não é uma pessoa, no sentido exato da palavra.  Não pensa no que sua vida significa de fato. Na verdade, esquece-se disto. É nesse sentido que o filósofo romano Cícero definiu a ingratidão como esquecimento. E muitos pensadores consideram a ingratidão  como um dos pecados mais básicos. O Talmud judaico diz que ser ingrato é pior  do roubar  (…). Pessoas ingratas são  pessoas desagradáveis . Com elas é preferível não ter nada a tratar. Quando estamos perto delas  nos sentimos mal; temos a sensação de que com elas nada pode dar certo. Assim, tendemos a manter distância, pois delas emana um estado de espírito negativo e destrutivo.

    Anselm Grün
    O segredo do encontro
    Vozes, p. 34-35

  • O mal terrível da inveja

    A inveja é o sentimento diruptivo em relação  à outra pessoa que possui ou desfruta de algo desejável – e o impulso do invejoso é eliminar ou estragar o que pensa ser  a fonte daquela alegria. O outro deixa de ser um parceiro e torna-se um rival.  Deixa de ser uma existência autônoma e diferenciada para andar, na maior parte dos casos sem saber, enredado nos dramas, ficções e combates fantasmagóricos do eu.  Deixa de constituir a possibilidade criativa de um encontro, para viver capturado num ressentimento que alaga tudo de mesquinhez e sombra.

    José  Tolentino  Mendonça
    Elogio da sede
    Paulinas, p. 117

  • Quando já se percorreu boa parte da  vida 

    Quando se se viveu tantas experiências!

    A gente se torna (ou acha que se torna) um pouco mais senhor de si, de seus limites, e até faz algumas escolhas acertadas.  Este é um dos dons da maturidade. Com sorte e sabedoria  mais tarde poderemos descobrir que também faz parte do envelhecer.

    O tempo não é mais apenas o futuro, quando vou crescer, quando vou ser independente, quando vou transar, casar, ter filhos, viajar, quando?  Agora existe um passado:  quando eu era criança, quando fiz vestibular, quando transei, quando me casei, quando comecei a trabalhar… e nos damos conta de que estamos no auge da juventude, a maturidade logo ali, e tantos compromissos, tanto desejo, já tanta frustração.

    Lya Luft
    O tempo é rio que corre
    Editora Record, p. 66

  • A arte da aceitação

    Todos nós temos grande necessidade da arte da aceitação. Ela nos liberta de uma vez por todas de  nossas ideias preconcebidas;  assim ela nos abre os olhos para que percebamos o  que há de belo e bom em nós e nos outros. Assim nos tornamos capazes de  aceitarmos a nós próprios e aos outros, reciprocamente,  e ficamos gratos pelos sinais que a atitude de aceitação  nos faz ver cada vez mais.

    Anselm Grün
    O segredo do encontro
    Vozes, p. 23