Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

A cada dia uma Pérola

janeiro/2020

  • Prece para um ano que começa

    Dois mil e vinte!

    Senhor, o tempo passa.
    Novo tempo, novo ano, novos dias!
    Que a vida viceje dentro de nós apesar da loucura do tempo.
    Meu coração continua batendo por vezes compassado, e outras vezes,  descompassado e agitadamente.
    Dá-me serenidade, coragem e criatividade para não empurrar a vida na mesmice e rotina.
    Venho agora, Senhor, pedir a graça de usar o tempo com sabedoria.
    Quero e preciso conviver desarmadamente com as pessoas.
    Quero tecer laços de bem querer nesse tempo novo que está a empurrar as portas da minha vida.
    Necessito de coragem para enfrentar os desafios da existência:
    o trabalho tantas vezes rotineiro e estafante;
    a impossibilidade de entabular um diálogo sem rupturas;
    as “novidades”  loucas do coração;
    convencer amorosamente aos filhos que abandonem  trilhas perigosas.  Que eu tenha coragem.
    Quero “ser para”… não posso ficar preocupado com essa minha pobre “vidinha”. Quero “ser para” e, ao mesmo tempo,  juntar-me sempre sem pressa junto dos que amo muito e pouco amo.  Viver suas alegrias e partilhar suas preocupações.
    Na quero estar perto deles e ter o meu coração não sei onde.
    Senhor, eu te dou graças pelo tempo da vida
    que passou e coloco em teu coração
    estes dias que estão chegando.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Passemos à outra margem

    Passar à outra margem não significa necessariamente uma deslocação para outra parte diferente daquela onde já nos encontramos. Às vezes tudo o que nos falta é habitar a nossa vida de outro modo. É simplesmente caminhar com outro passo pelos caminhos que já fazemos todos os dias. É abrir a quotidiana janela, mas devagar, tendo consciência de que a abrimos. É reaprender outra qualidade para um quotidiano talvez demasiado abandonado às rotinas e aos seus automatismos.

    José Tolentino Mendonça

  • Atenção aos mais frágeis

    Para os mais fragilizados os tempos são sempre difíceis. Pobres de verdade, desempregados, mancos, moradores de rua, colegas de trabalho que vivem o “inferno” em casa, gente dependente de tudo. Parece importante que nosso propósito de ano novo seja na linha da atenção a todos os mais frágeis, eles escondem, de modo particular, as feições do Senhor que se fez pobre e nem uma pedra tinha para reclinar a cabeça. O amanhã do mundo depende de pessoas que sejam humanas e construam humanidade à sua volta. Quando ela vai nascer a humanidade em nós.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Homens vieram de longe buscar a casa do Senhor

    Nesses tempos precisamos recordar novamente que ser crente é, sobretudo, perguntar apaixonadamente pelo sentido de nossa vida e estar abertos a uma resposta, mesmo quando não a vejamos de maneira clara e precisa. O relato dos Magos foi visto pelos Pais da Igreja como um exemplo de homens que, mesmo vivendo nas trevas do paganismo, foram capazes de responder fielmente à luz que os chamava para a fé. São homens que, com sua atuação, nos convidam a ouvir o chamado que nos solicita a caminhar de maneira fiel para Cristo.

    Com frequência nossa vida transcorre na crosta da existência. Trabalhos, contatos, problemas, encontros, ocupações diversas nos levam para cá e para lá; e nossa vida vai passando, enchendo cada instante com algo que precisamos fazer, dizer, ver ou planejar.

    Corremos assim o risco de perder nossa própria identidade, de transformar-nos numa coisa a mais entre outras coisas e de viver sem saber em que direção caminhar. Existe uma luz capaz de orientar nossa existência? Existe uma resposta aos nossos anseios e aspirações mais profundas? A partir da fé cristã, essa resposta existe. Essa luz já brilha na Criança nascida em Belém.

    José Antonio Pagola

  • Esses benditos Magos!

    São belas e profundas as reflexões de São Pedro Crisólogo sobre o tema da Epifania:

    Hoje os Magos que procuravam Deus resplandecente nas estrelas, o encontram num berço. Hoje os Magos o veem claramente, envolvido em panos, aquele que há muito tempo procuravam de modo obscuro nos astros.
    Hoje os Magos contemplam maravilhados, no presépio, o céu na terra, a terra no céu, o homem em Deus, Deus no homem e, incluído no corpo pequenino de uma criança, aquele que o universo não pode conter. Vendo-o proclamam sua fé e não discutem, oferecendo-lhe místicos presentes: incenso a Deus, ouro ao rei e mirra ao que haveria de morrer.

    Lecionário Monástico I, p. 457

  • Sempre é tempo de mudar

    Tudo começa no mais íntimo de cada pessoa. Vivemos em turbulências, por fora e no interior de nosso coração. Mudar é preciso. Fundamental inventar o novo. A novidade começa dentro de cada um quando deixamos de nos prender a pequenas convicções, a aspectos laterais da realidade. Tudo começa quando tentamos ser bons, profundamente bons. Para tanto precisamos entrar num constante nascimento para o novo, num parto sem fim. Num processo de conversão. Francisco de Assis falava em metáfora: o doce se tornando amargo e o amaro, doce. Empreitada de corajosos, trabalho de domesticação de nosso ego. Aceitar de não fazer a vida sozinho. Mudar para mudar o mundo e mudar a Igreja. Não podemos ficar presos a um museu de lembranças.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Uma fé marcada pela alegria

    “O problema da fé é a falta de alegria” (Papa Francisco)

    Viver a fé só pode nos proporcionar alegria.  Fé no amor incondicional do Senhor, mesmo que a vida nem sempre nos sorria.  Fé na convicção que fomos “inventados” por Ele e que fomos feitos à sua imagem. Fé na pessoa de Jesus, vindo do Pai, sendo nosso irmão, hoje vivo e ressuscitado, manifestando-se nos sinais dos sacramentos, nesse pão branco que nos faz viver com ele, nos rostos que nos pedem  um olhar de carinho ou um copo de água.  Fé de nos encontrarmos em família diante dele na oração de um salmo. Fé-confiança que ele dará forças  ao nosso ente querido  gravemente doente. Fé em nossas reuniões aos domingos unidos, vivendo cada passo da missa. Não se admite um cristão que seja triste.  O Papa Francisco tem razão ao dizer que o problema da fé vem da falta de alegria de vivê-la.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Uma ausência ardente  

    Buscar o rosto de Deus é sempre uma aventura que demanda muito empenho, coragem, perseverança e decisão Podemos estar carregando a vida inteira caricaturas do Senhor. Os tempos e as gerações foram acumulando visões nem sempre autênticas e com elas forjando nossa imagem do Senhor Não podemos fazer dele um ídolo feito sob medida para justificar comportamentos e decisões. Será preciso silêncio diante do silêncio do Senhor.  Será preciso atravessar noites escuras e não perder a paciência.  Deus é uma Ausência que queima nossa garganta. O poeta   Rainer Maria Rilke assim se exprime: “Deus é uma ausência ardente”.  Coloca em nós uma sede dele para não pararmos no meio do caminho.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

     

     

  • Alguém nos amou por primeiro

    Somos viajantes no tempo da vida. Vamos tentando descobrir o sentido do existir. O tempo é dom e mistério. Temos imensa vontade de chegar a uma harmonia interior e viver com grande coerência. Por vezes temos até a sensação agradável de que conseguimos colocar gestos de bondade, de gostar de viver, de estar de bem com a vida. Parece que para isso existimos: límpidos, transparentes, bons. Outras vezes temos a impressão de que tomamos distância do Mistério do Altíssimo que nos envolve. Como Paulo já sentia, há uma dupla lei dentro de nós. Queremos o bem e é o mal que fazemos. Gritos loucos de um ser perdido no espaço e no tempo. Dilaceramento interior, desrespeito por nosso mistério pessoal e pelo mistério do outro. Vida apequenada, coberta de busca de pequenos interesses. Esquecemos aquele que nos amou por primeiro.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Celebração da fantasia

    Foi na entrada da aldeia de Ollantaytambo, perto de Cuzco. Eu tinha me soltado de um grupo de turistas e estava sozinho, olhando de longe as ruínas de pedra, quando um menino do lugar, esquelético, esfarrapado chegou perto para me pedir que desse a ele de presente uma caneta. Eu não podia dar a caneta que tinha, porque estava usando-a para fazer sei lá que anotações, mas me ofereci para desenhar um porquinho em sua mão.
    Subitamente correu a notícia. E de repente me vi cercado por um enxame de meninos que exigiam aos berros, que eu desenhasse em suas mãozinhas rachadas de sujeira e de frio, pele de couro queimado: havia os que queriam um condor e uma serpente, outros preferiam periquitos e corujas e não faltava quem pedisse um fantasma ou um dragão.

    E então, no meio daquele alvoroço, um desamparadozinho que chegava a mais de um metro do chão mostrou-me um relógio desenhado com tinta negra em seu pulso:
    – Quem mandou o relógio foi um tio meu que mora em Lima – disse.
    – E funciona direito? – perguntei.
    – Atrasa um pouco- reconheceu.

    Eduardo Galeano
    O livro dos abraços
    L&PM Pocket, p.39

  • Tarde te amei

    Tarde Te amei. Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova.
    Tarde demais eu te amei!
    Eis que estavas dentro e eu fora – e fora Te buscava, e me lançava, disforme e nada belo perante a beleza de tudo e de todos que criaste.
    Estavas comigo e eu não estava contigo.
    Seguravam-me longe de ti as coisas que não existiriam
    se não fossem em Ti.
    Chamaste, clamaste por mim e rompeste minha surdez.
    Brilhaste resplandecente e a Tua luz afugentou a minha cegueira.
    Exalaste o teu perfume e, respirando-o, suspirei por Ti,
    Te desejei. Eu te provei, Te saboreei e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me e agora ardo em desejos por tua paz.

    Santo Agostinho
    Confissões

  • Amor de enamoramento

    Francisco de Assis se deleita na Presença do Senhor; isso é concreto. Desta presença nasce a alegria pura. Agostinho diz que a alma está mais presente onde ama do que no corpo que a anima. Olhem como é concreta esta linguagem. Na relação com o Senhor, dentro de cada um cria-se um espaço à escuta, à acolhida. A relação fundamental com o Senhor é a celebração jubilosa desta presença e deste diálogo, atitude típica do enamorado. Tudo isso é muito importante: é por isso que digo aos formadores que protejam o fogo interior e ajudem àqueles que lhes são confiados a encontrarem o centro de sua vida.

    Frei Giacomo Bini, OFM
    Ex-Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores

  • O Senhor que se esconde

    Deseja ser procurado. O Deus que ama não faz violência. Espera, bate, promete intimidade sugerida na Escritura pela imagem do banquete. O Amor, no entanto, se compraz em brincar de esconde-esconde. Deseja que o procurem.
    Vale meditar neste conto judaico transcrito por Martin Buber em uma de suas obras.

    O neto do rabino Baruch, o rapaz chamado Jehiel, certa vez brincava de esconde-esconde com um colega. Escondeu-se muito bem e esperou que o colega o descobrisse. Depois de esperar por muito tempo deixou o esconderijo. Não conseguida, no entanto, saber onde estava aquele que devia tê-lo procurado. Jehiel deu-se conta que o colega não se deu ao trabalho de procura-lo. Isso fez com que ele chorasse e correndo foi para o quarto do avô e queixou-se do mau comportamento de seu amigo.

    Os olhos do rabino Baruch se encheram de lágrimas e disse: “Assim diz Deus: escondo-me e vejo que ninguém quer procurar”. Deus que está sempre à procura do homem, espera, por sua vez, ser também buscado.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • O Senhor nossa luz

    Senhor, tu és nossa luz.
    Senhor, tu és a verdade.
    Senhor, tu és nossa paz.
    Querendo caminhar ao nosso lado
    tu te fizeste um peregrino.
    Compartilhas nossa vida,
    mostra-nos o caminho.
    Não basta rezar a ti,
    dizendo que te amamos;
    devemos imitar-te,
    amar-te nos irmãos.
    Pedes que tenhamos
    humilde confiança;
    teu amor saberá encher-nos
    de vida e de esperança.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Uma declaração de amor de uma mãe!

    Senhor, olha esse menininho que dorme em paz
    nesse quarto limpo, bonito que para ele foi preparado.
    Fiz questão de colocar ali, perto da cabeceira de Rodrigo,
    a imagem de teu Filho, Bom Pastor.
    Do alto da cruz ele olhou o mundo inteiro com um amor sem medidas
    e espero que dos céus olhe por meu querido Rodrigo.
    Tu me deste de presente este menino.
    Veio com saúde, mama com avidez e será um rapaz forte.
    O que será dele na realidade?
    Não sei, não posso saber, ninguém sabe.
    Espero poder fazer-me presente no seu caminhar
    até que ele tenha asas fortes para voar rumo ao azul do céu.
    Quero ser mãe, sem ser mãezona.
    Tenho certeza, quase certeza que meu marido,
    pai de Rodrigo, vai estar perto dele…embora, por vezes, ele,
    esse meu marido, tenha umas fantasias:
    ganhar mais dinheiro, comprar isso e aquilo, subir…
    que ele não deixe de se fazer presente na vida de Rodrigo.
    Rodrigo é fruto de nosso amor, de nosso bem-querer de tantos anos,
    sinal externo de nosso amor.
    Rodrigo é materialização desse bem-querer.
    Venho te pedir duas graças para meu filho:
    discernimento e bondade.
    Viver é escolher. Nossas escolhas nos levam para as estrelas
    ou nos chafurdam na lama.
    Que meu menino saiba escolher
    Viver é conviver, querer bem às pessoas,
    sair de si, procurar o outro, se bom,
    chegando mesmo a perdoar. Que ele seja bom. Amém.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Quando a alegria morre

    Há pessoas que vivem uma vida na qual a alegria, o gozo e o mistério morreram. Para elas tudo é cinzento e penoso. O fogo da vida apagou-se. Elas já não têm grandes aspirações. Contentam-se por não pensar demais, não esperar demais. São incapazes de viver de forma gozosa. Suas vidas transcorrem de modo banal e cansativo.

    Qual a origem desse cansaço e dessa tristeza? Em primeiro lugar, pequenas causas: trabalho demais, insegurança, medo de adoecer, decepções, desejos irrealizáveis. A vida está repleta de problemas, frustrações e contrariedades que quebram nossa segurança e nossa pequena felicidade.

    Mas se tentarmos aprofundar-nos mais na verdadeira raiz dessa tristeza que parece cercar e permear muitas existências descobriremos que dentro dessas vidas há solidão e vazio.

    José Antonio Pagola
    A Boa Notícia de Jesus
    Vozes, p.191

  • Família: espaço de humanização

    A família é o lugar  humano por excelência, berço do homem,  espaço onde cresce o amor dos esposos, modelo dos relacionamentos éticos, espaços de alegres responsabilidades dos pais para com os filhos e dos filhos para com os pais. Experiência humana inultrapassável porque enraizada em laços humanos.

    Lugar onde o ser humano é colocado no mundo, cuidado, protegido, amado e amparado em sua fragilidade. Ali são ensinados e vividos os valores próprios da pessoa: reconhecimento, gratuidade, dom, comunhão.

    A família  não pode ser uma camisa de força sufocante, mas espaço  em que cada um pode se exprimir sem receios ou temores, desfrutando de certa independência  dando e recebendo o afeto que merecem e devem.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • O homem, espaço privilegiado de esperança

    A pessoa se experimenta como um ser incompleto, em constante tensão para o melhor, orientada para o futuro. Isto vale para a pessoa tomada singularmente, como para a humanidade considerada em seu todo. Trata-se de um movimento no qual o ser humano se auto-transcende, superando aquilo que é, que já adquiriu, o que pensa, o que deseja e o que tem planos de realizar. À base desse dinamismo, essa tensão entre o que já é e o que ainda não é, situa-se a esperança de um mundo melhor. Trata-se de um futuro, de alguma forma já inscrito e em germe na interioridade da pessoa, em sua estrutura mais profunda. O homem é, de alguma forma, em si mesmo, um futuro. É como se o futuro já lhe tivesse sido dado e que precisa ser desenvolvido no tempo da vida. Inquieto o homem busca em si e à sua volta as razões da própria esperança. Será, pois, preciso aprender a esperar.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Preciso de sua mão

    Olá, meus amigos! Nem sempre os relacionamentos entre pais e filhos são carinhosos. Há temperamentos  mais secos na parte dos pais e dos  filhos.   Há carência de gestos afetuosos de parte a parte.   Nunca se deveria negar gestos de ternura para os filhos.  O escritor Antônio Alçada Batista conta esta  história  que nos leva a pensar:

    “Uma vez eu fui operado e estava só no hospital com meu pai.  Tinha uma dor pegada, das unhas às pontas dos cabelos, e meu pai estava ao pé de mim.  Eu tinha já 19 anos,  mas apeteceu-me a sua  mão humana e paterna e disse-lhe:

    – Deixe-me ver a sua mão.

    – Para que?

    – Preciso de sua mão.  Ele sorriu e deu-ma, mas imediatamente começava a funcionar dentro de si  as pesadas estruturas marialvas e acadêmicas  que recusam a um filho de 19 anos a mão terna de um pai.  E disfarçadamente  começou a retirar até que a minha continuou pedinte, mas o e unilateral”.

    Por que um pai não pode dar a mão a seu filho de  dezenove anos?

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

     

     

  • Construindo a pessoa

    Leva tempo a construção da pessoa!  Estamos a nascer a cada  dia.  Uma parte do edifício de nossa vida desmorona,  recomeçamos  o trabalho de construção com  a experiência que foi sendo adquirida com os sucessos e insucessos.  Vamos aceitando os desafios         que a vida põe diante de nossos olhos.

    A pessoa precisa encontrar-se consigo mesma, ser capaz de narrar a sua história e de interpreta-la.  Pessoa em processo de amadurecimento é aquela que é capaz de assumir com responsabilidade a liberdade e o amor  como dois  componentes essenciais de sua realização  pessoal.  Capaz de ter conseguido ocupar um lugar na vida, na sociedade, na fé.   Madura é aquela pessoa que conseguir sair de seu pequeno mundo de interesses menores.

    Na construção da pessoa não se pode esquecer que muito se aprende com  as faltas e os erros.

    Bela será a construção da pessoa  quando esta for capaz de misericórdia, perdão  e compaixão.

    Não se esquecer de  adotar sábia flexibilidade.  Nada de rigidez esterilizante.  Na construção do ser  humano e do cristão  nunca haver-se-á de esquecer seu  conteúdo de fato humano e vital.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • O céu está dentro de nós

    Os místicos cristãos estão a nos dizer que o céu está dentro de nós. Não adianta procura-lo em outro lugar. Se assim for, nunca o encontraremos.

    “Senhor, por vezes a nossa oração é apenas a necessidade da tua mão, a absoluta necessidade de sentir a tua mão funda, capaz de nos acolher tal qual somos dentro do teu silêncio; é apenas o desejo de sentir o roçar, mesmo que leve, de tua imensidão no precipitado, no precário, no incerto das nossas cotidianas rotas; é apenas esta necessidade de reconhecer que tu, estando, recebes esta espécie de fome e de desejo que somos”.

    José Tolentino Mendonça
    Pai nosso que estias na terra
    Paulinas, p.54

  • Uma sociedade sadia

    Uma sociedade é sã na medida em que favorece o desenvolvimento salutar das pessoas. Quando, ao contrário ela provoca o esvaziamento interior, a fragmentação, a coisificação ou a dissolução dessas pessoas como seres humanos, devemos dizer que essa sociedade é patógena, pelo menos em parte. Portanto, é preciso que sejamos lúcidos o bastante para nos perguntarmos se não estamos caindo em neuroses coletivas e condutas pouco sadias sem sequer perceber. O que é mais sadio, deixar-se levar por uma vida de conforto, comodidade e excesso que entorpece o espírito e diminui a criatividade da pessoa ou viver com sobriedade e moderação, sem cair na patologia da abundância?

    José Antonio Pagola
    A boa notícia de Jesus
    Vozes, p. 195

  • Diante da televisão

    Rosa Maria Mateo, uma das figuras mais populares da televisão espanhola, me contou essa história. Uma mulher tinha escrito uma carta para ela, de algum lugarzinho perdido, pedindo que por favor contasse a verdade:
    – Quando eu olho para a senhora, a senhora está olhando para mim?

    Rosa Maria me contou e disse que não sabia o que responder.

    Eduardo Galeano
    O livro dos abraços
    L&PM Pochet, p. 154

  • Agentes de pastoral da saúde

    José Antonio Pagola enumera, em poucas linhas, a missão dos agentes da pastoral da saúde:

    Trata-se, concretamente, de tornar presente o Evangelho de Jesus Cristo de muitas formas: defendendo a saúde e o bem do enfermo; promovendo a luta contra a doença, as suas causas e consequências; colaborando na ação integral à pessoa doente em todas as suas necessidades; estando próximo da família e dos que sofrem as consequências daquela enfermidade; colaborando para que as estruturas, as instituições, as técnicas estejam a serviço do doente e não de outros interesses; reagindo perante injustiças, abusos ou discriminações no mundo da saúde; defendendo os direitos da pessoa doente, humanizando cada vez mais o processo de cura ou a fase terminal dos enfermos.

    José Antonio Pagola
    Evangelizar o mundo da saúde e da doença
    Paulus, Portugal, p. 170

  • E o que importa é viver

    A impressão que temos é que deu a louca no tempo, que os relógios meio escondidamente brincam fazendo saltar os números do mostrador, numa tal pressa que nos transformamos em pessoas pasmas, paradas, paralisadas. Não há tempo! O tempo fugiu e na louca pressa a vida vai escapando de nosso controle. Mas o tempo é o mesmo. O frenesi dos tempos modernos é que foram entupindo as agendas de nossas vidas de tantos compromissos, responsabilidades, como também de ninharias, futilidades a tal ponto que não dispomos de tempo para viver de verdade. E o que importa é viver. Sentir o corpo. Levantar os olhos. Envolver-se com Deus. Amar sem ver a quem. “Espantar-se” diante do esplendor de uma flor ou da mão trêmula do vô que acaricia o nosso rosto. Temos tempo para mandar mensagens balofas, bobas e sem vergonha e não nos detemos diante das coisas simples da vida. Tudo igual, banal, na mortal mesmice.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • A história dos sofredores

    Se a escuta empática é o lugar e o exercício prático da hospitalidade, há também, – na linha pastoral – uma necessidade vital de trazermos à luz e à reflexão as histórias dos sofredores. A teologia precisa se tornar mais narrativa e menos discursiva não só para se tornar pertinente ao homem contemporâneo mas também porque “é praticamente impossível sobreviver a uma situação de sofrimento se não formos capazes de conseguir contar uma história articulada sobre a mesma, pelo menos a nos próprios. Numa outra perspectiva e recorrendo a Doris Salcedo, artista colombiana, importa contar a história do vencido, a história do vencedor já está contada. Regatar o sofredor ao anonimato contando a sua história – salvaguardando a deontológica confidencialidade – torna-se por isso dádiva de autoridade ao que sofre e restituição de um lugar no interior da comunidade crente ou civil. A não indiferença do nome e do que ele significa pode se a diferença da teologia pastoral. A Igreja precisa, desde sempre, ser resgatada pelos crucificados.

    Jorge Villaça
    Segurar o fio tenso das questões
    Acompanhar pastoralmente quem sofre
    Revista Igreja e Missão, maio-agosto 2013, p. 219

  • Contemplar

    Se tiramos da vida todo elemento contemplativo ela vai conhecer uma hiperatividade mortal. O homem se sufoca com seus próprio fazer. Uma revitalização da vida contemplativa é necessária para abrir espaços de respiração.

    Byung-Chul Han

  • Oração, bem para além de nossas palavras

    A oração é luta e entrega ao mesmo tempo. É também a espera – espera pela sinalização de uma passagem, espera pela queda dos muros das resistências interiores. Assim como nós, Cristo também conheceu esta paciência com profundo desejo em sua vida terrena.

    A oração é também algo assustador. Ela nos projeta para fora de nós mesmos e para dentro de outro lugar. Apesar de reconhecermos Cristo no próximo e ele sempre viver dentro de nós – ao mesmo tempo ele está fora de nós, é nosso espelho.

    A oração é sempre pobre, pois é vivida por nós, servos inúteis, até o fim. Ela sempre superará o homem. As palavras não são capazes de descrevê-la.

    Na oração existe algo além de tudo o que somos, algo além de nossas próprias palavras.

    Irmão Roger de Taizé

  • Acolher as surpresas

    Aceita
    as surpresas
    que transformam teus planos,
    derrubam teus sonhos,
    dão rumo
    totalmente contrário
    ao teu dia
    e, quem sabe,
    à tua vida.
    Não há acaso.
    Dá liberdade ao Pai
    para que Ele próprio,
    conduza a trama dos teus dias.

    Dom Helder Câmara

  • Chorar

    Foi na selva da Amazônia equatoriana. Os índios shuar estavam chorando a avó moribunda. Choravam sentados, na margem de sua agonia. Um pessoa, vinda de outros mundos, perguntou:
    – Por que choram na frente dela, se ela ainda está viva?
    E os que choraram responderam:
    – Para que ela saiba que gostamos muito dela.

    Eduardo Galeano
    O livro dos abraços
    L&PM Pocket, p. 214

  • Ama-me como és

    Ama-me como tu és,
    a cada instante e na posição em que te encontras,
    no fervor ou na secura, na fidelidade ou infidelidade.
    Se primeiro tu esperas ser perfeito para só então
    começares a me amar, não me amarás nunca.
    Eu só não te permito uma coisa, que não me ames.
    Ama-me tal como és.
    Eu quero o teu coração esfarrapado,
    o teu olhar indigente, as tuas mãos vazias e pobres.
    Eu te amo até o fundo de tua fraqueza.
    Eu amo o amor dos pobres.
    Eu quero ver crescer, no fundo de tua miséria, o Amor e só o Amor.
    Se para me amares tu esperas ser perfeito, nunca me amarás.
    Ama-me como és.

    Transcrito em
    José Tolentino Mendonça
    Pai nosso que estais na terra
    Paulinas, p. 87.