{"id":160806,"date":"2020-09-28T06:41:12","date_gmt":"2020-09-28T09:41:12","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/quemsomos\/?p=160806"},"modified":"2020-09-28T06:45:25","modified_gmt":"2020-09-28T09:45:25","slug":"viver-e-seguir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/quemsomos\/viver-e-seguir\/","title":{"rendered":"Viver e seguir"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-160807\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/quemsomos\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/carta_2809.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"588\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/quemsomos\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/carta_2809.jpg 840w, https:\/\/franciscanos.org.br\/quemsomos\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/carta_2809-450x315.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/quemsomos\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/carta_2809-768x538.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/quemsomos\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/carta_2809-150x105.jpg 150w, https:\/\/franciscanos.org.br\/quemsomos\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/carta_2809-474x332.jpg 474w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><\/p>\n<p><strong>Carta dos Ministros Gerais Franciscanos<\/strong><\/p>\n<p>A todos os frades da Primeira Ordem, pela alegre ocasi\u00e3o dos oitocentos anos da Regra n\u00e3o bulada, n\u00f3s, Ministros Gerais, enviamos esta carta.<\/p>\n<p>Para fazer grata mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Para renovar com paix\u00e3o o nosso seguimento do Senhor Jesus na forma de vida de Frei Francisco para a Igreja e o mundo como frades menores.<\/p>\n<p>Para louvor de Deus, \u201cque \u00e9 todo bem, o bem inteiro, verdadeiro e sumo bem\u201d (RNB XXIII,9).<\/p>\n<p><strong>Para come\u00e7ar<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>Um outro anivers\u00e1rio&#8230; Que n\u00e3o seja a visita obrigat\u00f3ria a um museu!<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong>Em 1221 chegava ao t\u00e9rmino uma das tantas \u201chist\u00f3rias\u201d que, na tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, tiveram como \u00eaxito final um texto chamado \u201cregra\u201d. Qual \u00e9 o \u201cg\u00eanero liter\u00e1rio\u201d em quest\u00e3o? Para n\u00f3s, a palavra \u201cregra\u201d suscita, com muita probabilidade, um impulso interior de autodefesa, porque o apelo, mais ou menos consciente, \u00e9 a algo de fixo e esquem\u00e1tico, talvez at\u00e9 est\u00e9ril. Olhando bem, n\u00e3o \u00e9 assim. Lendo a <em>Regra n\u00e3o bulada<\/em>, de fato, tem-se a sensa\u00e7\u00e3o de horizontes que se abrem, de perspectivas que escancaram a alma e fazem entrar ar fresco no cora\u00e7\u00e3o: \u00e0 dist\u00e2ncia de 800 anos!<\/p>\n<p>Sim, 800 anos se passaram, e \u00e9 inevit\u00e1vel a celebra\u00e7\u00e3o de um \u201canivers\u00e1rio\u201d. E tamb\u00e9m aqui, de imediato, um outro lema \u2013 desta vez, de rebeli\u00e3o \u2013 surge de espreita em n\u00f3s: \u201cUm outro anivers\u00e1rio! Para que servir\u00e1?\u201d. Fa\u00e7amos uma tentativa: n\u00e3o respondamos de imediato a esta pergunta \u2013 \u201cpara que serve um anivers\u00e1rio?\u201d \u2013 mas vamos deix\u00e1-la como pano de fundo. Melhor, tentemos evitar o risco de celebrar a recorr\u00eancia com uma inclina\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 de quem visita um museu sem ficar tocado, com uma vaga curiosidade tur\u00edstica, sem um m\u00ednimo desejo de ser interceptado ao vivo; talvez s\u00f3 porque \u201cse deve\u201d, porque \u201caquele museu \u00e9 famoso\u201d. Sejamos, ao inv\u00e9s, os \u201cturistas s\u00e9rios\u201d, que entram em um museu sabendo que as obras-primas contempladas n\u00e3o nos deixar\u00e3o, em seguida, tal como entramos. Estamos, portanto, diante da obra de arte que \u00e9 a <em>Regra n\u00e3o bulada<\/em>; uma obra, sem data e sem autor!<\/p>\n<p><strong>Em cont\u00ednua escuta&#8230; <\/strong><\/p>\n<p><strong>Passagens de vida segundo o Evangelho na <em>Regra n\u00e3o bulada<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Escrita diretamente, sem data e sem autor<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong>Bem assim! Estamos falando de uma obra que n\u00e3o tem uma data\u00e7\u00e3o pontual e precisa; ou melhor: seria preciso recordar tantas datas, datas diversas para trechos diversos do texto. O ano de 1221 \u00e9 o momento em que o processo termina, a \u201cdata \u00faltima\u201d, por assim dizer. E o autor \u00e9 S\u00e3o Francisco? Certamente, \u00e9 ele quem faz bater o cora\u00e7\u00e3o da <em>Regra<\/em>, quem injeta em seu tecido compositivo a linfa vital do Esp\u00edrito. Mas precisaria dizer melhor que se trata de uma \u201cregra de grupo\u201d, de uma obra pensada e redigida em di\u00e1logo com os <em>frades<\/em> e com os <em>fatos<\/em>. Em antecipa\u00e7\u00e3o aos tempos, Francisco de Assis foi daqueles que souberam dar voz a um dos mais eficazes princ\u00edpios do Papa Francisco: \u201cA realidade \u00e9 superior \u00e0 ideia\u201d (<em>Evangelii Gaudium,<\/em> nn. 231-233). N\u00e3o temos, de fato, um texto normativo redigido sobre uma escrivaninha, mas algo que nasceu em di\u00e1logo com a vida; \u00e9, antes de tudo, um \u201cpeda\u00e7o de vida\u201d, mais do que um \u201cpeda\u00e7o de papel\u201d. A palavra escrita busca, assim, dar resposta a perguntas nascidas da escuta continuativa da realidade concreta. Ali\u00e1s, reconhecemos na <em>Regra n\u00e3o bulada<\/em> a genialidade de quem soube interceptar \u201cao vivo\u201d interroga\u00e7\u00f5es reais e oferecer respostas eficazes. Sim, o g\u00eanio tantas vezes est\u00e1 nisso: em ter a capacidade de colher perguntas centrais, n\u00e3o abstratas, mas aquelas mais inflamadas e sentidas \u201cna pr\u00f3pria pele\u201d, em primeira pessoa; para dar respostas a tais perguntas capazes de convencer, e \u201cconvincentes\u201d n\u00e3o s\u00f3 porque \u201cjustas\u201d para aquele momento, mas tamb\u00e9m porque souberam convencer tantos outros, ao longo dos s\u00e9culos, a responder \u00e0 mesma maneira. Ap\u00f3s oitocentos anos, ainda estamos aqui, em busca de responder em sintonia com aquelas intui\u00e7\u00f5es, pois estamos \u201cconvictos\u201d de que valha a pena!<\/p>\n<p>O que toca, desta obra de arte que \u00e9 a <em>Regra n\u00e3o bulada<\/em>, \u00e9 sobretudo a \u00edndole apaixonada. Ao l\u00ea-la, entende-se de imediato que n\u00e3o d\u00e1 regras <em>para fazer coisas<\/em>, mas busca delinear coordenadas <em>para viver rela\u00e7\u00f5es<\/em>. N\u00e3o \u00e9 um texto <em>para escribas<\/em>, mas para <em>disc\u00edpulos<\/em> (cf. Mt 13,52). E a rela\u00e7\u00e3o focal que desencadeia e libera ao m\u00e1ximo as suas energias vitais \u00e9 aquela com o Senhor Jesus, saboreada verdadeiramente como tesouro para a pr\u00f3pria vida. Saboreada de verdade! Corpo e alma! N\u00f3s o sabemos: o in\u00edcio da <em>Regra n\u00e3o bulada<\/em> declara sem meios-termos que regra e vida dos frades menores \u00e9 \u201cseguir a doutrina e os vest\u00edgios de nosso Senhor Jesus Cristo (RNB I,1)\u201d, viver o Evangelho. E, cap\u00edtulo ap\u00f3s cap\u00edtulo, segue-se toda uma s\u00e9rie de indica\u00e7\u00f5es \u2013 \u00e0s vezes sint\u00e9ticas, outras vezes, expressas como que com o cora\u00e7\u00e3o na m\u00e3o \u2013 para que este Evangelho seja vivido; e, para viv\u00ea-lo, S\u00e3o Francisco nos convida de tantos modos a dar tudo, a nos liberarmos do que nos amarra. Claro, mas somente se tivermos sido atingidos pela surpresa e pela consola\u00e7\u00e3o do Senhor Jesus presente em nossa vida, tem sentido viver \u201csem pr\u00f3prio\u201d (RNB I,1); do contr\u00e1rio, \u00e9 triste pauperismo. \u201cNada mais, portanto, desejemos, nada mais queiramos, nada mais nos agrade e deleite a n\u00e3o ser o Criador e Redentor e Salvador nosso, \u00fanico verdadeiro Deus, que \u00e9 o pleno bem, todo bem, o bem inteiro, verdadeiro e sumo bem, que s\u00f3 ele \u00e9 bom\u201d (RNB XXIII,9); seria triste, talvez S\u00e3o Francisco nos diria com seus primeiros frades, se quis\u00e9ssemos \u201cvender tudo\u201d sem termos sido antes conquistados pela alegria de um semelhante tesouro, que superou qualquer nossa expectativa, o tesouro que \u00e9 Jesus, o tesouro daquele olhar imensamente simp\u00e1tico que o Filho de Deus sempre dirige a cada um de n\u00f3s, suscitando comunh\u00e3o.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><strong><em>Espiritualidade e n\u00e3o espiritualismo<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Mas o esp\u00edrito do Senhor [&#8230;] se esfor\u00e7a pela humildade e paci\u00eancia e pura e simples e verdadeira paz de esp\u00edrito.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>(RNB XVII,14-15)<\/p>\n<p>Entre as \u201ccores\u201d e \u201ctonalidades\u201d mais fascinantes deste texto est\u00e1, sem d\u00favida, a sua simplicidade. Aten\u00e7\u00e3o: n\u00e3o a banalidade de uma simplifica\u00e7\u00e3o muito f\u00e1cil, mas a intelig\u00eancia cortante de quem descobriu um fio condutor capaz de dar liga, de manter unido. E, portanto, tudo o que mant\u00e9m unido o corpo da <em>Regra n\u00e3o bulada<\/em> parece ser justamente a centralidade unit\u00e1ria da vida no Esp\u00edrito. O que isso significa? Tamb\u00e9m aqui, quer dizer, em primeiro lugar, di\u00e1logo com a vida! Francisco de Assis n\u00e3o sabe de antem\u00e3o o que \u00e9 Esp\u00edrito Santo e como age, mas \u00e9 a terra \u00e1spera da viv\u00eancia di\u00e1ria que lhe faz reconhecer o timbre daquela que \u00e9 a voz do Esp\u00edrito. A voz do Esp\u00edrito tem um timbre pr\u00f3prio inconfund\u00edvel e delicad\u00edssimo, que S\u00e3o Francisco soube ouvir com uma aten\u00e7\u00e3o de m\u00e1xima f\u00e9! E fez de modo que a <em>Regra<\/em> pudesse guardar e entregar percursos bons para todos, para viver justamente assim, tendo o Esp\u00edrito do Senhor. Podemos assim dispor de algumas indica\u00e7\u00f5es fecundas tamb\u00e9m para n\u00f3s, ap\u00f3s oito s\u00e9culos; indica\u00e7\u00f5es n\u00e3o espiritual\u00edsticas, isto \u00e9, n\u00e3o estabelecidas de antem\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida, ideologicamente; mas espirituais, pois \u201ccapturadas\u201d das vibra\u00e7\u00f5es do sopro do Esp\u00edrito no ar respirado habitando em meio aos seres humanos. Quais s\u00e3o estas indica\u00e7\u00f5es espirituais? Ao menos, as mais preciosas? Talvez poderiam ser sintetizadas em torno a alguns pontos nevr\u00e1lgicos:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u2666 <em>Concretude di\u00e1ria:<\/em> a Regra n\u00e3o bulada p\u00f5e as m\u00e3os na massa da exist\u00eancia, com os seus fermentos por vezes contradit\u00f3rios e, por vezes, promissores; em todo caso, n\u00e3o se perde na defini\u00e7\u00e3o de normas asc\u00e9ticas, e a sua maior preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 a de cuidar da vida, em todas as suas formas. Prioriza o caminho da vida! N\u00e3o a preserva\u00e7\u00e3o obstinada de estruturas. E tamb\u00e9m aqui se poderia citar: inicia processos, n\u00e3o se apropria de espa\u00e7os! (cf. EG 223)<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u2666 <em>Sem \u00e2nsias por aplausos:<\/em> de muitos modos \u2013 e, \u00e0s vezes, sobre isso, parece quase que S\u00e3o Francisco fale colocando-se de joelhos \u2013 somos exortados a prestar aten\u00e7\u00e3o, para que sejamos significativos; mas n\u00e3o presa de uma significatividade que seja exibicionismo. Bem sabia o nosso santo o quanto sutil e sorrateiro seja o limite: iludir-se de que \u201cse esteja vivendo o Evangelho\u201d porque se tem muito s\u00e9quito e muitos aplausos, muitas curtidas ou seguidores em nossas redes sociais. Necess\u00e1ria \u00e9 a humilde vigil\u00e2ncia, pois \u201co esp\u00edrito da carne quer e se esfor\u00e7a muito por ter palavras, mas pouco pelas obras, e busca n\u00e3o a religi\u00e3o e a santidade no esp\u00edrito interior, mas quer e deseja ter religi\u00e3o e santidade que apare\u00e7am fora para os homens\u201d (RNB XVII,11-12). \u00c0s vezes, talvez, o risco \u00e9 o de chamar de \u201cprofecia\u201d aquilo que \u00e9 apenas vitrine cintilante. Mas S\u00e3o Francisco o sabia: a profecia n\u00e3o \u00e9 palco, e pede muita humildade, muita trepida\u00e7\u00e3o&#8230; n\u00e3o por outra raz\u00e3o que os profetas, geralmente, t\u00eam um fim tr\u00e1gico.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u2666 <em>Uma grande perda de tempo<\/em>: \u00e9 superabundante a profus\u00e3o de palavras empregadas pela Regra n\u00e3o bulada para fazer com que os frades n\u00e3o sejam mesquinhos em dedicar tempo para a ora\u00e7\u00e3o: \u201cPor isso, irm\u00e3os todos, guardemo-nos muito, para que sob a apar\u00eancia de alguma merc\u00ea, ou obra ou ajuda, n\u00e3o percamos ou tiremos do Senhor nossa mente e cora\u00e7\u00e3o. Mas na santa caridade, que \u00e9 Deus, rogo todos os frades, tanto ministros como os outros, afastado todo impedimento e posposto todo cuidado e solicitude, no melhor modo que puderem, fa\u00e7am servir, amar, honrar e adorar o Senhor Deus de cora\u00e7\u00e3o limpo e mente pura, que ele busca acima de tudo, e sempre fa\u00e7amos a\u00ed habita\u00e7\u00e3o e morada para aquele que \u00e9 o Senhor Deus onipotente\u201d (RNB XXII,25-27). Convite este realmente espiritual: convite \u00e0 gratuidade, \u00e0 generosidade de passar tempos aparentemente est\u00e9reis, mas que, na realidade, nutrem a vida espiritual. Sem a obstina\u00e7\u00e3o desta fidelidade \u00e0 ora\u00e7\u00e3o, para S\u00e3o Francisco, tudo corre o risco de se tornar uma farsa, ou, na melhor das hip\u00f3teses, esfor\u00e7o voluntarista sem alegria.<\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>Em oposi\u00e7\u00e3o ao \u201cAntifrancisco\u201d. Apenas como irm\u00e3os!<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Portanto guardai vossas almas e as dos vossos frades<\/em><em>.<\/em><\/p>\n<p><em>Todos os frades n\u00e3o tenham nisso poder ou dom\u00ednio entre si<\/em><\/p>\n<p>(RNB V,1.9)<\/p>\n<p>Assim como h\u00e1 um \u201cAnticristo\u201d (cf. 1Jo 2,18), assim tamb\u00e9m um \u201cAntifrancisco\u201d. \u00c9 a dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 qualidade da vida fraterna o crit\u00e9rio discriminante? N\u00e3o s\u00f3 a vida fraterna, mas, certamente, o cuidado ou, ao contr\u00e1rio, o desinteresse em viv\u00ea-la p\u00f5e uma diferen\u00e7a. A <em>Regra n\u00e3o bulada<\/em> n\u00e3o poupa exorta\u00e7\u00f5es para que o seguimento de Jesus seja vivido como irm\u00e3os. E, quase como uma esp\u00e9cie de \u201cdogma\u201d, de condensado palp\u00e1vel entre as linhas do texto, poder-se-ia arriscar assim: nada \u00e9 t\u00e3o \u201cantifranciscano\u201d (mas, seria preciso dizer, anticrist\u00e3o) quanto um estilo de vida que se fundamente fora de uma paix\u00e3o pelos v\u00ednculos fraternos, a alma-vida dos quais deve ser salvaguardada!<\/p>\n<p>Francisco parece justamente intencionado em fazer nascer em n\u00f3s um s\u00e3o horror por toda forma de indiferen\u00e7a para com o outro; e tra\u00e7a in\u00fameros convites, tamb\u00e9m estes colhidos das estradas da vida, para que se possa manter acesa no cora\u00e7\u00e3o a persuas\u00e3o de que o outro \u00e9 sempre para n\u00f3s uma \u201cd\u00edvida\u201d, uma voz que nos chama, algu\u00e9m a quem n\u00e3o podemos n\u00e3o dedicar aten\u00e7\u00e3o. De in\u00fameras formas! Algumas delas, ap\u00f3s s\u00e9culos, mant\u00eam-se luminosamente todo o seu encanto:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u2666 Amabilidade sem fingimento: um inimigo a ser combatido s\u00e3o as \u201ccaras feias\u201d, dos fechamentos obstinados, das poses falsamente humildes (mas tediosas e oprimentes)! \u201cE cuidem de n\u00e3o se mostrar tristes por fora e sombrios hip\u00f3critas; mas se mostrem alegres no Senhor e bem-humorados e convenientemente am\u00e1veis\u201d (RNB VII,16). Mas, assim, \u00e9 preciso sorrir sempre? N\u00e3o \u00e9 este o ponto! N\u00e3o se trata de nos tornarmos peritos no fingimento de belos sorrisos exibidos para todos os lados; mas ser\u00e1 fundamental n\u00e3o se deixar levar pelos pesos do pr\u00f3prio sentir, sempre m\u00f3vel e inquieto. Nosso cora\u00e7\u00e3o ser\u00e1 escutado tamb\u00e9m quando estiver triste, claro, mas sem que se deva jogar no rosto do outro o nosso mau humor.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u2666 Anestesia em rela\u00e7\u00e3o ao \u201cmuito sens\u00edvel\u201d: tantas vezes h\u00e1 \u201cleprosos\u201d para encontrar, proximidades \u00e1speras e dif\u00edceis para visitar. Tamb\u00e9m aqui: a Regra n\u00e3o bulada p\u00f5e em alerta e nos convida a \u201canestesiar\u201d, a calar aquelas vozes em n\u00f3s que nos levariam a fugir para longe, a tomar dist\u00e2ncia. O convite dirigido aos frades, ao contr\u00e1rio, \u00e9 a \u201calegrar-se quando convivem com pessoas vis e desprezadas, com pobres e fracos e doentes e leprosos e os que mendigam \u00e0 beira da estrada\u201d (RNB IX,2). A tarefa, certamente, torna-se mais dif\u00edcil quando o irm\u00e3o do qual n\u00e3o se deve fugir \u00e9 o pobre: \u00e9 a voz que destoa das minhas vestes, \u00e9 a m\u00e3o que me obriga a criar vias in\u00e9ditas de comunh\u00e3o, s\u00e3o as feridas que n\u00e3o se gostaria de olhar e que convidam a assumir uma nova sensibilidade (nada para anestesiar, desta vez!): a do cora\u00e7\u00e3o compassivo de Jesus.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u2666 Um atrevimento para se recuperar: aprender do sofrer. Que a vida fraterna n\u00e3o seja um passeio leve e rom\u00e2ntico \u00e9 uma consci\u00eancia bem presente na Regra. O que toca, a prop\u00f3sito de vida fraterna, \u00e9 que as dificuldades experimentadas, \u00e0s vezes agudas, s\u00e3o para Francisco tamb\u00e9m elas acolhidas como oportunidade; ele diria at\u00e9 mesmo \u201cuma gra\u00e7a\u201d! O desafio (e, desta vez, \u00e9 realmente assim!) \u00e9 se deixar tocar pelas pessoas que mais se teme ou que mais incomodam, sem ter sempre que fugir; pode ser que se consiga aprender algo novo, ao menos, uma pitada daquela liberdade que se saboreia quando, talvez gaguejando, conseguimos \u201cmorrer para renascer\u201d.<\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>Menos de quem conta menos. Para falar de \u201cminoridade\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>E nenhum se chame prior, mas em geral todos se chamem frades menores<\/em><\/p>\n<p>(RNB VI,3)<\/p>\n<p>Frades menores. Eis o nome de batismo que S\u00e3o Francisco quer dar \u00e0queles que escolhem se confiar e viver segundo esta Regra. Minoridade! Palavra de in\u00fameros significados e facetas inimagin\u00e1veis. \u00c9 poss\u00edvel encontrar uma f\u00f3rmula sint\u00e9tica que abranja todos? Muitas e eficazes s\u00e3o as tentativas feitas para este esfor\u00e7o de s\u00edntese. E, sem pretens\u00e3o de exaustividade, provavelmente se poderia supor que \u201cminoridade\u201d seja a escolha de querer contar \u201cmenos de quem conta menos\u201d. Isto, sim, \u00e9 profecia! Isto, sim, \u00e9 um n\u00facleo quase imposs\u00edvel de viver, mas que mant\u00e9m intacta a sua capacidade de nos p\u00f4r em alerta diante de todo risco de grandiosidade ou de posse. Trata-se de uma virtude?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u2666 Mais justamente, talvez se deveria dizer que minoridade n\u00e3o \u00e9 tanto uma atitude asc\u00e9tica solit\u00e1ria, ou seja, um conjunto de op\u00e7\u00f5es comportamentais \u2013 com o risco de que sejam mortificantes e redutivas; escolhas pr\u00f3prias, quase que em busca de uma \u201cperfei\u00e7\u00e3o pessoal interior\u201d. \u00c9 mais um modo de estar na vida; e, neste sentido, \u00e9 um modo de estar em rela\u00e7\u00e3o: com as pessoas, com a cria\u00e7\u00e3o, com Deus. Menor \u00e9 quem jamais se cansa de reconhecer, plenamente, que tudo o que \u00e9 prov\u00e9m de Deus e, portanto, n\u00e3o pode deixar de viver em \u201cestado de gratid\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u2666 Sinodalidade, discernimento comunit\u00e1rio: talvez estejam entre as express\u00f5es mais recorrentes na Igreja hoje. N\u00f3s sabemos: quando muito se fala de algo, \u00e9 porque provavelmente se sente sua falta, sua urg\u00eancia. Ou ent\u00e3o porque temos medo de ser realmente sinodais ou tememos o fato de que, fazendo discernimento juntos, sempre devemos perder algo de n\u00f3s mesmos. Os termos em quest\u00e3o s\u00e3o modernos; S\u00e3o Francisco n\u00e3o os conheceu ou usou, contudo, os frequent\u00edssimos apelos \u00e0s v\u00e1rias formas de obedi\u00eancia encontram espa\u00e7o na Regra n\u00e3o bulada em um contexto de escuta e servi\u00e7o rec\u00edprocos: \u201cantes, pela caridade do esp\u00edrito, sirvam e obede\u00e7am uns aos outros\u201d (RNB V,14). Minoridade \u00e9 tamb\u00e9m isto: n\u00e3o somos n\u00f3s que produzimos como pr\u00f3pria a \u201cverdade\u201d, mas ela nos \u00e9 sempre doada \u201cde fora\u201d, da escuta rec\u00edproca \u201cpela caridade do esp\u00edrito\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u2666 A s\u00edntese vital e efetiva da minoridade talvez deveria ser reconhecida na l\u00f3gica da expropria\u00e7\u00e3o, que na <em>Regra n\u00e3o bulada<\/em> aparece declinada segundo perspectivas m\u00faltiplas e complementares, todas a qualificar a postura de uma pessoa que, para si, n\u00e3o det\u00e9m nada: restituir, doar, servir, louvar, agradecer, bendizer (cf. RNB XXIII).<\/p>\n<p><strong><em>Em santa extrovers\u00e3o. Ir pelo mundo<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Quando <\/em><em>virem que agrada ao Senhor, anunciem a palavra de Deus<\/em><\/p>\n<p>(RNB XVI,7)<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Sermos doados ao Senhor, melhor, sermos abandonados inteiramente a Ele \u2013 \u201cE todos os frades, onde quer que est\u00e3o, lembrem que se deram e cederam seus corpos ao Senhor Jesus Cristo\u201d (RNB XVI,10) \u2013 representa um movimento constitutivo na vida dos menores, chamados a se alegrar com sua perten\u00e7a ao Senhor n\u00e3o singularmente ou buscando comunh\u00f5es de esp\u00edrito apenas intracomunit\u00e1rias (sempre prec\u00e1rias); mas atendendo ao convite do Senhor a sermos mission\u00e1rios, a percorrermos as estradas do mundo para anunciar a palavra de Deus. Na <em>Regra n\u00e3o bulada<\/em> n\u00e3o se encontram tantas palavras que digam em que consista a prega\u00e7\u00e3o; n\u00e3o h\u00e1 instru\u00e7\u00f5es anal\u00edticas sobre as \u201ccoisas\u201d para dizer. Contudo, podemos estar certos de que, nas inten\u00e7\u00f5es de S\u00e3o Francisco, haja o desejo de favorecer uma prega\u00e7\u00e3o feita com as obras; antes de tudo, mediante a ren\u00fancia a toda forma de reivindica\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0queles que encontrarmos. O an\u00fancio expl\u00edcito da palavra de Deus permanece importante, mas na consci\u00eancia da responsabilidade de n\u00e3o trair, mediante o estilo das pr\u00f3prias rela\u00e7\u00f5es, o Evangelho proclamado verbalmente.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, ainda mais radicalmente, talvez n\u00e3o estejamos longe da verdade se evidenciarmos na <em>Regra n\u00e3o bulada<\/em> um fato, por si s\u00f3, libertador e surpreendente: muitas vezes anunciamos o Evangelho sem dizer ou fazer, mas acolhendo sem amargura a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de pobres, todos chamados primeiramente a receber. Anunciamos a mensagem da salva\u00e7\u00e3o mostrando, na pr\u00f3pria carne, a condi\u00e7\u00e3o radical de limita\u00e7\u00e3o, sempre necessitada de miseric\u00f3rdia: \u201cE porque todos n\u00f3s, miser\u00e1veis e pecadores, n\u00e3o somos dignos de te nomear, imploramos suplicantes que nosso Senhor Jesus Cristo, teu Filho dileto, em quem bem te comprouveste, junto com o Esp\u00edrito Santo Par\u00e1clito te d\u00ea gra\u00e7as\u201d (RNB XXIII,5).<\/p>\n<p><strong>Para concluir<\/strong><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><strong><em>Um selo jamais posto<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><em>N\u00e3o bulada<\/em>: a express\u00e3o serve para precisar que nos encontramos diante de um texto que jamais recebeu o selo de uma aprova\u00e7\u00e3o oficial, mediante bula papal; por v\u00e1rias raz\u00f5es. Talvez valha a pena aproveitar de tal falta de bula para lembr\u00e1-la n\u00e3o apenas pelo dado formal e jur\u00eddico, mas tamb\u00e9m para valorizar seu alcance existencial. Queremos, assim, dar gra\u00e7as ao Senhor pelo dom de um testemunho \u2013 mais do que de um texto \u2013 que permanece \u201csem limites\u201d, ainda aberto e \u201cgenerativo\u201d. No papel, a <em>Regra n\u00e3o bulada<\/em> n\u00e3o pode ser seguida, mas pode s\u00ea-lo na exist\u00eancia de quem acolhe, por \u201cinspira\u00e7\u00e3o divina\u201d (RNB II,1), o convite a viver a pr\u00f3pria f\u00e9 em sintonia com a genialidade de S\u00e3o Francisco.<\/p>\n<p>Em meio a tantas labutas do nosso tempo, participantes das \u00e2nsias de tantos homens e mulheres nas mais diversas partes do mundo, contudo, todavia, desejamos manter acesa a chama otim\u00edstica da esperan\u00e7a crist\u00e3, acolhendo de cora\u00e7\u00e3o o grato \u00edmpeto de S\u00e3o Francisco que, entre as mis\u00e9rias do mundo, jamais renuncia a bendizer o Senhor, \u201cque s\u00f3 ele \u00e9 bom, manso, suave e doce, que s\u00f3 ele \u00e9 santo, justo, verdadeiro, santo e reto, que s\u00f3 ele \u00e9 benigno, inocente, puro; de quem e por quem e em quem \u00e9 todo perd\u00e3o, toda gra\u00e7a, toda gl\u00f3ria\u201d (RNB XXIII,9).<\/p>\n<p>Convidamos todos os membros da Fam\u00edlia Franciscana a se unirem a n\u00f3s para comemorar o convite de S\u00e3o Francesco, expresso claramente na Regra n\u00e3o bulada, a viverem uma vida guiada pelo Esp\u00edrito de Deus, enraizada na experi\u00eancia humana e aberta ao amor e proximidade surpreendentes que Deus oferece \u00e0queles que est\u00e3o dispostos a permitir-Lhe que esteja no centro de toda a vida.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Onipotente, sant\u00edssimo, alt\u00edssimo e sumo Deus,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Pai santo e justo,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Senhor rei do c\u00e9u e da terra,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">por ti mesmo te damos gra\u00e7as! (RNB XXIII,1)<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>Roma, 4 de outubro de 2020, Solenidade de S\u00e3o Francisco de Assis<\/em><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em>Fr. Michael A. Perry<\/strong><br \/>\n<em>Minister generalis OFM<\/em><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em>Fr. Roberto Genuin<\/strong><br \/>\n<em>Minister generalis OFMCap<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>Fr. Carlos A. Trovarelli<\/strong><br \/>\n<em>Minister generalis OFMConv<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong><em>Rogo a todos os meus frades que aprendam o teor e o sentido das coisas que est\u00e3o escritas nesta vida para salva\u00e7\u00e3o de nossa alma e que frequentemente as tragam \u00e0 mem\u00f3ria<\/em><\/strong><strong><em> (<\/em><\/strong><strong>RNB XXIV,1<em>)<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Prot. 009\/2020<\/p>\n<p><strong>Imagem:<\/strong> Giotto, <em>Papa Inoc\u00eancio III confirma a Regra franciscana<\/em>, Bas\u00edlica Superior de Assis<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carta dos Ministros Gerais da Ordem Franciscana<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":160808,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[39],"tags":[61],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v21.0 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Viver e seguir - 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