{"id":160661,"date":"2019-07-10T17:20:28","date_gmt":"2019-07-10T20:20:28","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/quemsomos\/?p=160661"},"modified":"2019-07-12T17:24:51","modified_gmt":"2019-07-12T20:24:51","slug":"palestra-do-ministro-geral-no-capitulo-das-esteiras-under-ten","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/quemsomos\/palestra-do-ministro-geral-no-capitulo-das-esteiras-under-ten\/","title":{"rendered":"Palestra do Ministro Geral no Cap\u00edtulo das Esteiras Under Ten"},"content":{"rendered":"<h3><strong>A voca\u00e7\u00e3o para a Fraternidade: o di\u00e1logo na vida de um frade menor <\/strong><\/h3>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>\u201cA exist\u00eancia humana se baseia em tr\u00eas rela\u00e7\u00f5es fundamentais intimamente ligadas: a rela\u00e7\u00e3o com Deus, com o pr\u00f3ximo e com a terra\u201d. (Papa Francisco, Laudato Si\u2019 n\u00ba 66).<\/em><\/p>\n<p>Queridos irm\u00e3os, \u00e9 maravilhoso estarmos aqui reunidos em fraternidade, em um lugar onde jovens e velhos, crist\u00e3os, seguidores de outras tradi\u00e7\u00f5es religiosas e n\u00e3o crentes se re\u00fanem para experimentar a fraternidade e a solidariedade humanas, e para escutar o grande relato do inesgot\u00e1vel amor de Deus por toda humanidade e por toda a cria\u00e7\u00e3o. Os que v\u00eam a Taiz\u00e9 n\u00e3o s\u00e3o simplesmente consumidores passivos de uma espiritualidade de hospitalidade e de aceita\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a. Quem vem a Taiz\u00e9, como cada um de n\u00f3s, faze-o para compartilhar seu pr\u00f3prio caminho de vida, f\u00e9, decep\u00e7\u00f5es, perd\u00e3o, esperan\u00e7a e transforma\u00e7\u00e3o. Vem em busca de algo, ainda quando este \u201calgo\u201d n\u00e3o \u00e9 suficientemente claro no momento da chegada, e provavelmente n\u00e3o seja claro no momento da partida. Vir a Taiz\u00e9 significa empreender uma viagem que pode fazer toda a diferen\u00e7a, que pode dar o valor de sair de si mesmo, da zona de conforto, e entrar num espa\u00e7o sobre o qual teremos pouco poder de controle. Isso n\u00e3o quer dizer que Taiz\u00e9 seja um lugar para um encontro que se torne incontrol\u00e1vel. Digo isso com todo o respeito que merece o irm\u00e3o Alois, prior, e os irm\u00e3os da Comunidade. De qualquer forma, o que a Comunidade Taiz\u00e9 oferece a todos os que v\u00eam, e particularmente a este grupo de frades que comp\u00f5em a peregrina\u00e7\u00e3o Under Ten OFM, e alguns de n\u00f3s com mais de dez anos de vida religiosa, \u00e9 uma oportunidade para experimentar o abundante e ilimitado amor misericordioso de Deus.<\/p>\n<p>Por esta raz\u00e3o, desejo expressar publicamente minha gratid\u00e3o ao irm\u00e3o Alois e a todos os irm\u00e3os da Comunidade pela hospitalidade fraterna que nos oferecem nestes dias. Nossos caminhos, da Comunidade Taiz\u00e9 e da Ordem dos Frades Menores, providencialmente coincidiram em mais de uma ocasi\u00e3o, talvez porque cada um de n\u00f3s est\u00e1 buscando seguir o chamado de estar abertos ao Esp\u00edrito de Deus que se comunica com n\u00f3s de diversos modos, atrav\u00e9s de diferentes vozes, convidando-nos a compartilhar o sonho de Deus por um mundo que pode ser novo. Talvez isso seja o que viemos fazer aqui, meus queridos frades <em>Under Ten<\/em>, e os que temos pouco mais de dez anos: permitir que a vis\u00e3o de Deus de um mundo novo se revele atrav\u00e9s de um sonho. Entretanto, como acontece com todos os sonhos, eles se constroem atrav\u00e9s do di\u00e1logo cont\u00ednuo com Deus, e entre aqueles que est\u00e3o dispostos a abrir suas mentes e cora\u00e7\u00f5es \u00e0 obra prodigiosa de Deus, que n\u00e3o pode ser contida e restrita em caixas bem organizadas, em n\u00edvel doutrinal, lit\u00fargico, ou em outras formas. Este encontro de frades <em>Under Ten<\/em> nos oferece uma nova oportunidade para nos encontrarmos com Deus como Ele desejaria, ou seja, no mist\u00e9rio do encontro com Ele, com os que est\u00e3o estes dias em Taiz\u00e9, com os irm\u00e3os que fazem parte desta Comunidade e, naturalmente, com os pr\u00f3prios frades da Ordem, que s\u00e3o um presente de Deus para n\u00f3s.<\/p>\n<p>Quero retomar as palavras do Papa Francisco em sua primeira enc\u00edclica, <em>Laudato S\u00ed\u2019<\/em>: \u201cA exist\u00eancia humana se baseia em tr\u00eas rela\u00e7\u00f5es fundamentais intimamente ligadas: a rela\u00e7\u00e3o com Deus, com o pr\u00f3ximo e com a terra\u201d (66). O ponto de partida, o m\u00e9todo e o objetivo em todos os processos de di\u00e1logo \u00e9 o cultivo de um conjunto de rela\u00e7\u00f5es interconectadas que, segundo nossa Teologia cat\u00f3lica sobre a Trindade, conduzem-nos ao reconhecimento de que somos parte de um vasto tecido de intersec\u00e7\u00f5es e fios entrela\u00e7ados. Cada fio tem sua particularidade que o faz \u00fanico; cada um existe separado do outro. E, entretanto, cada um foi criado precisamente para interconectar-se com o outro. Cada um depende do outro, compartilhando uma interdepend\u00eancia comum que, se \u00e9 tecida com cuidado, permite que cada um retenha sua singularidade, uma singularidade que s\u00f3 pode ser revelada e compreendida completamente quando se conecta com os outros fios. Esta interdepend\u00eancia n\u00e3o anula nem nega a beleza e a individualidade espec\u00edficas de cada fibra do fio, mas permite que cada um se relacione com o outro de modo que nem o indiv\u00edduo nem o todo possam existir sem um e sem o outro. Ent\u00e3o, algo que se aproxime \u00e0 verdade, \u00e0 harmonia, \u00e0 solidariedade (n\u00f3s, franciscanos, falamos de fraternidade), e \u00e0 comunh\u00e3o pode chegar a ser percebido, recebido e compartilhado somente atrav\u00e9s desta intera\u00e7\u00e3o din\u00e2mica. Duns Scotus chama de <em>hecceidade<\/em>, ou o que eu chamaria de \u201csingularidade racional\u201d. Deus criou as pessoas livres por amor, desejando receber seu amor em troca. Deus tamb\u00e9m colocou dentro de cada pessoa a possibilidade ou, melhor ainda, o desejo de reciprocidade, a liberdade de entrar em rela\u00e7\u00e3o com Deus e os demais. O desejo de Deus \u00e9 que cada criatura humana ame a Deus o mais completamente poss\u00edvel, e este processo n\u00e3o se det\u00e9m com a Encarna\u00e7\u00e3o. Continuando com o pensamento de Duns Scotus, Deus quis que todos f\u00f4ssemos co-amados (<em>condilecti<\/em>) e co-amantes (<em>condiligentes<\/em>) com Cristo. Aqui podemos falar do di\u00e1logo como um processo de convers\u00e3o; este tipo de convers\u00e3o est\u00e1 relacionada com a transforma\u00e7\u00e3o e n\u00e3o se deve ser igualada ao proselitismo, de converter o outro \u00e0 minha posi\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 uma convers\u00e3o \u00e0 converg\u00eancia, ao autodescobrimento m\u00fatuo e \u00e0 abertura de si mesmo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-180377\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/geral_120719.jpg\" alt=\"\" width=\"890\" height=\"570\" \/><\/p>\n<p><strong>Toda exist\u00eancia est\u00e1 relacionada (<em>relacionalidade<\/em>)<\/strong><\/p>\n<p>Um dos cap\u00edtulos mais esclarecedores da Enc\u00edclica <em>Laudato Si<\/em>\u2019 \u00e9 o quarto, onde nos tra\u00e7a um caminho para ajudar aos seres humanos a redescobrir a interconex\u00e3o de todos os seres vivos, de toda a cria\u00e7\u00e3o. Baseando-se na sabedoria da f\u00e9 apresentada no Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, o Papa Francisco nos recorda:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cA interdepend\u00eancia das criaturas \u00e9 querida por Deus. O sol e a lua, o cedro e a florzinha, a \u00e1guia e o pardal: o espet\u00e1culo das suas incont\u00e1veis diversidades e desigualdades significa que nenhuma criatura se basta a si mesma. Elas s\u00f3 existem na depend\u00eancia umas das outras, para se completarem mutuamente no servi\u00e7o umas das outras.\u201d (Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica 340; <em>Laudato Si\u2019<\/em> 86).<\/p>\n<p>\u201cAs criaturas s\u00f3 existem na depend\u00eancia umas das outras, para se completarem mutuamente no servi\u00e7o umas das outras\u201d. Irm\u00e3os, minha inten\u00e7\u00e3o \u00e9 falar da interconex\u00e3o, que creio fazer parte do DNA da exist\u00eancia humana, est\u00e1 presente no DNA de todos os seres vivos em qualquer forma que existam, n\u00e3o \u00e9 dar asas \u00e0 minha imagina\u00e7\u00e3o. O que pretendo \u00e9 viajar com voc\u00eas at\u00e9 o centro, o lugar onde tudo est\u00e1 conectado em \u00edntima rela\u00e7\u00e3o. Creio que isto \u00e9 o que o Papa Francisco est\u00e1 falando para n\u00f3s na<em> Laudato Si\u2019<\/em>, uma mensagem que n\u00e3o difere do que S\u00e3o Francisco de Assis recebeu de Deus e transmitiu a seus irm\u00e3os e ao mundo atrav\u00e9s do C\u00e2ntico das Criaturas. Ao chamar de irm\u00e3o e irm\u00e3 o sol e a lua, S\u00e3o Francisco reconhece a dignidade de cada criatura, um reflexo de amor e da beleza que Deus coloca em todos os seres vivos; todos est\u00e3o chamados a compartilhar a fraternidade que Deus prop\u00f5e.<\/p>\n<p>Dirijamos agora nossa aten\u00e7\u00e3o a uma breve an\u00e1lise sobre a compreens\u00e3o do di\u00e1logo entre S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II e o Papa Francisco, seu papel na constru\u00e7\u00e3o de pontes entre povos e com o universo criado, e a centralidade do di\u00e1logo como seres humanos, como disc\u00edpulos de Cristo e como frades menores.<\/p>\n<p>Vivemos numa \u00e9poca de fluxo constante de informa\u00e7\u00e3o, que conecta nossas realidades pessoais e locais \u00e0 rede global, atrav\u00e9s do <em>Facebook, Google, Amazon, WhatsApp, WeChat, Instagram<\/em> e uma ampla gama de instrumentos presentes no mundo virtual. Todas estas ferramentas promovem possibilidades aparentemente ilimitadas para unir as pessoas e proporcionar o\u00e1sis virtuais ou eletr\u00f4nicos para o di\u00e1logo. Algumas pessoas est\u00e3o convencidas de que estes avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos est\u00e3o ajudando a melhorar a comunica\u00e7\u00e3o entre as pessoas, abrindo-nos a novas vias para o di\u00e1logo, ultrapassando qualquer forma de fronteiras internacionais, interculturais, subculturais, inter-religiosas e outros limites que nem sequer conhecemos. Alguns, inclusive, sugerem que estas ferramentas tecnol\u00f3gicas, se bem entendidas e empregadas adequadamente, poderiam ajudar a criar uma progressiva interdepend\u00eancia e a possibilidade de que os seres humanos tenham uma vis\u00e3o compartilhada do \u201cbem comum\u201d e a \u201csolidariedade\u201d como um modo de propor uma ideia expandida da identidade humana e social.<\/p>\n<p>Esta ideia de um bem comum e um compromisso com uma nova solidariedade entre os povos e as na\u00e7\u00f5es tem ra\u00edzes profundas na Doutrina Social da Igreja (DSI) (<a href=\"http:\/\/www.usccb.org\/beliefs-and-teachings\/what-we-believe\/catholic-social-teaching\/solidarity.cfm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/www.usccb.org\/beliefs-and-teachings\/what-we-believe\/catholic-social-teaching\/solidarity.cfm<\/a>) . O bem comum tamb\u00e9m implica necessariamente uma convic\u00e7\u00e3o compartilhada em nossa origem e destino comuns; tal convic\u00e7\u00e3o nos proporciona um instrumento para superar as desigualdades sociais e estabelecer as condi\u00e7\u00f5es para um tipo de di\u00e1logo que ajude a gerar as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para o desenvolvimento humano aut\u00eantico e de paz duradoura. S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II acreditava que, na medida em que recuperemos nossa verdadeira identidade como seres sociais conectados por uma vasta rede de interdepend\u00eancia, sustentada e aprofundada atrav\u00e9s da pr\u00e1tica da justi\u00e7a e da caridade, baseada na solidariedade, a humanidade poder\u00e1 combater o ego\u00edsmo e o pecado, que desviaram e orientaram os sistemas sociais, econ\u00f4micos e pol\u00edticos da sociedade, da economia, da pol\u00edtica e a cultura at\u00e9 o escandaloso aumento da exclus\u00e3o e desigualdade. (Sollicitudo Rei Socialis, 30 de dezembro de 1987).<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-180378\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/geral_120719-2.jpg\" alt=\"\" width=\"890\" height=\"610\" \/><\/p>\n<p>O di\u00e1logo exerce um papel essencial na promo\u00e7\u00e3o de uma espiritualidade de interconex\u00e3o e solidariedade. Mas o di\u00e1logo \u00e9 mais do que um simples interc\u00e2mbio de ideias e preocupa\u00e7\u00f5es, mais que a express\u00e3o de preocupa\u00e7\u00e3o e simpatia pelo outro. Em seu discurso dirigido ao Conselho Pontif\u00edcio para o Di\u00e1logo Inter-Religioso em 1995, S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II convidava-nos a exercitar um \u201cdi\u00e1logo de espiritualidade\u201d, uma \u201cvoca\u00e7\u00e3o universal\u201d que conduza \u00e0 santidade, que seja um componente vital para ajudar a comunidade de na\u00e7\u00f5es a enfrentar cara a cara os desafios mais \u00e1rduos de nosso tempo. O futuro da vida humana e do planeta est\u00e1 em jogo! A promo\u00e7\u00e3o da interdepend\u00eancia e da solidariedade possui a capacidade de promover a transforma\u00e7\u00e3o social (e espiritual). Interdepend\u00eancia, solidariedade, transforma\u00e7\u00e3o social: estes s\u00e3o os objetivos do di\u00e1logo e para onde todo esfor\u00e7o de di\u00e1logo deve dirigir-se (cf. Sollicitud rei socialis, 1986, 17- 38). Talvez foi com este esp\u00edrito, e em busca da paz para toda a humanidade, que S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II convidou doze l\u00edderes religiosos a reunirem-se em Assis em 27 de outubro de 1986, com a esperan\u00e7a de que estes mesmos l\u00edderes religiosos pudessem converter-se em valentes promotores da paz mundial. (cf. <a href=\"https:\/\/w2.vatican.va\/content\/john-paul-ii\/it\/speeches\/1986\/october\/documents\/hf_jp-ii_spe_19861027_prayer-peace-assisi.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/w2.vatican.va\/content\/john-paul-ii\/it\/speeches\/1986\/october\/documents\/hf_jp-ii_spe_19861027_prayer-peace-assisi.html<\/a>). O di\u00e1logo tamb\u00e9m foi visto por Jo\u00e3o Paulo II como um instrumento para a proclama\u00e7\u00e3o do Evangelho.<\/p>\n<p>Quando o Papa Francisco fala de interdepend\u00eancia, solidariedade e transforma\u00e7\u00e3o social, une-os sob a bandeira da \u201cfraternidade\u201d, um tema central em seus ensinamentos. Francisco chega ao extremo de falar sobre a \u201cvoca\u00e7\u00e3o da fraternidade\u201d humana e crist\u00e3. Por nossa pr\u00f3pria natureza, somos seres sociais que desenvolvem nossas identidades e capacidades n\u00e3o de maneira isolada, mas atrav\u00e9s da intera\u00e7\u00e3o, que inclui o transcendental\/ espiritual e interpessoal\/ relacional. Mas o di\u00e1logo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 sobre o crescimento interior da pessoa; o di\u00e1logo implica necessariamente colocar-se a servi\u00e7o da humanidade e do entorno natural, nossa Casa comum. O di\u00e1logo cria condi\u00e7\u00f5es potenciais para experimentar a fraternidade. A fraternidade cria condi\u00e7\u00f5es para a promo\u00e7\u00e3o da paz, o cuidado dos pobres e exclu\u00eddos e o cuidado com o meio ambiente. Deste modo, o objetivo do di\u00e1logo \u00e9 a promo\u00e7\u00e3o de uma fraternidade baseada em uma ecologia integral e integradora.<\/p>\n<p>Em sua mensagem durante a Jornada Mundial da Paz de 2014, o Papa Francisco chama a aten\u00e7\u00e3o sobre o \u201cn\u00famero cada vez maior de interconex\u00f5es e comunica\u00e7\u00f5es no mundo de hoje\u201d. Isto poderia parecer muito \u00f3bvio, a crescente proximidade de todos os lugares do mundo e a crescente interdepend\u00eancia entre povos e na\u00e7\u00f5es. Esta crescente interdepend\u00eancia oferece aos seres humanos a possibilidade de descobrir e promover uma vis\u00e3o de bem comum, uma sensa\u00e7\u00e3o de que todos somos respons\u00e1veis de todos os demais. Claramente, isto est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o dos escritos do Papa Francisco, mas tamb\u00e9m est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o de suas viagens e reuni\u00f5es com l\u00edderes de outras comunidades eclesiais crist\u00e3s, com judeus, mu\u00e7ulmanos, com outros l\u00edderes religiosos e tamb\u00e9m com os n\u00e3o-crentes. Diante do que o Papa Francisco chama de \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o da indiferen\u00e7a\u201d, prop\u00f5e uma alternativa poderosa: a \u201cvoca\u00e7\u00e3o \u00e0 fraternidade\u201d.<\/p>\n<p>O Papa Francisco, baseando-se nas ideias teol\u00f3gicas de nosso pr\u00f3prio S\u00e3o Boaventura, nos recorda que Deus vive na \u201ccomunh\u00e3o trinit\u00e1ria\u201d e comunica esta comunh\u00e3o em todas as criaturas viventes, especialmente nos seres humanos. Isto significa que somos criados \u00e0 \u201cimagem\u201d desta comunh\u00e3o. Nossas vidas est\u00e3o orientadas para a participa\u00e7\u00e3o no dinamismo trinit\u00e1rio da \u201crelacionalidade\u201d, que se define pela fraternidade e comunh\u00e3o. Chegamos a ser completamente humanos, completamente vivos, somente quando sa\u00edmos de n\u00f3s mesmos para viver em comunh\u00e3o com Deus, com os demais e com as criaturas. Mas n\u00e3o \u00e9 isto o que n\u00f3s, os franciscanos, acreditamos, cremos e compartilhamos com uma mente e cora\u00e7\u00e3o abertos?<\/p>\n<p>Se o Papa Francisco n\u00e3o faz refer\u00eancia expl\u00edcita ao Evangelho de Jo\u00e3o como fonte de inspira\u00e7\u00e3o para esta \u201cvoca\u00e7\u00e3o \u00e0 fraternidade\u201d, baseada numa rela\u00e7\u00e3o trinit\u00e1ria, n\u00e3o posso deixar de pensar no \u201cdiscurso de despedida\u201d do evangelho de Jo\u00e3o (13, 17), onde Jesus est\u00e1 em constante di\u00e1logo com o Pai sobre a natureza de sua voca\u00e7\u00e3o, o significado da encarna\u00e7\u00e3o, a vis\u00e3o de um final cruel em sua vida e sua miss\u00e3o, e o convite aos disc\u00edpulos a formar parte deste di\u00e1logo, desta din\u00e2mica. Rela\u00e7\u00e3o que d\u00e1 fruto, o dom da paz e da salva\u00e7\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>Nossa \u201cvoca\u00e7\u00e3o \u00e0 fraternidade\u201d requer que aprofundemos nossa capacidade e compromisso em dialogar em todas suas formas poss\u00edveis. Para o Papa Francisco, o di\u00e1logo \u00e9 a chave para a convers\u00e3o moral e espiritual. O di\u00e1logo \u00e9 a chave para reorientar a inten\u00e7\u00e3o e a a\u00e7\u00e3o humana, e assim unir as pessoas onde possam encontrar o outro, escutar e compartilhar, com muito esfor\u00e7o e gra\u00e7a de Deus, permitir que suas vidas se transformem. O di\u00e1logo n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o somente de se reunir e falar. Seu objetivo ou inten\u00e7\u00e3o final \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o espiritual e humana. Esta transforma\u00e7\u00e3o toma a forma do que o Papa Francisco chama de \u201cconvers\u00e3o ecol\u00f3gica\u201d (cf. <em>Laudato Si<\/em>\u2019). O caminho e o instrumento para esta convers\u00e3o ecol\u00f3gica \u00e9 feito atrav\u00e9s de um di\u00e1logo baseado na humildade, na mansid\u00e3o e em \u201cconverter-se em tudo para todos\u201d (cf. <em>Evangelii gaudium<\/em>). Estas palavras fazem eco na pr\u00e1tica do di\u00e1logo na vida de S\u00e3o Francisco, algo que Frei Cesare Vaiani nos explicou em sua apresenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O di\u00e1logo tamb\u00e9m tem lugar fundamental na compreens\u00e3o da evangeliza\u00e7\u00e3o de Francisco (cf. homilia, 8 de maio de 2014). Na Exorta\u00e7\u00e3o <em>Evangelii gaudium<\/em>, o Papa Francisco afirma que nossa voca\u00e7\u00e3o \u00e9 a fraternidade e assegura que esta qualidade fundamental nos ajuda a lutar contra o individualismo ego\u00edsta que atualmente domina grande parte da intera\u00e7\u00e3o social. Abra\u00e7ar nossa voca\u00e7\u00e3o \u00e0 fraternidade \u00e9 abra\u00e7ar a convic\u00e7\u00e3o de que cada pessoa, cada criatura, tem uma dignidade e um valor inerentes, que estamos interconectados e somos interdependentes; e que cada pessoa, cada ser vivo, tem algo que dizer, compartilhar, contribuir. O di\u00e1logo \u00e9 o lugar onde se celebra a dignidade e a diversidade e onde se aprofunda nossa pr\u00f3pria identidade atrav\u00e9s de uma explora\u00e7\u00e3o da dignidade e da diversidade do \u201coutro\u201d. Entrar em um di\u00e1logo com um mu\u00e7ulmano, um judeu, um budista, um hindu, inclusive um n\u00e3o-crente \u00e9, em si, um esfor\u00e7o nobre, porque neste caso nos \u00e9 apresentada a oportunidade de perceber e compartilhar o mundo do outro. Ao mesmo tempo, o encontro nos brinda a oportunidade de abrirmo-nos a um aprofundamento de nossa pr\u00f3pria compreens\u00e3o da vida, da f\u00e9 e de nosso lugar no universo criado. \u00c9 nossa experi\u00eancia de f\u00e9 que nos leva a perceber a presen\u00e7a de Deus em todas as coisas, uma presen\u00e7a que provoca o compromisso, interc\u00e2mbio, a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das oportunidades que o di\u00e1logo nos oferece para obter uma vis\u00e3o do mundo do outro e de nosso pr\u00f3prio mundo, o Papa Francisco sustenta que h\u00e1 outra raz\u00e3o convincente para comprometer-se com uma voca\u00e7\u00e3o n\u00e3o somente em vista da fraternidade, mas tamb\u00e9m do di\u00e1logo. A menos que sa\u00edamos de n\u00f3s mesmos ao encontro do outro, o paradigma tecnocr\u00e1tico atual continuar\u00e1 sem cessar, conduzindo a aniquila\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o e da sociedade humana. Se desejamos ver como seria um mundo assim, um mundo dominado pela tecnologia, onde toda refer\u00eancia ao transcendental, a Deus, e a intera\u00e7\u00e3o e interdepend\u00eancia humanas, torna-se completamente irrelevante, onde todos se reduzem a algoritmos, convido-os a desfrutar as noites de ins\u00f4nia lendo o livro \u201cHomo Deus\u201d, de Yuval Harari (2016). Isto, claramente, n\u00e3o \u00e9 o que o Papa Francisco prev\u00ea na <em>Laudato Si<\/em>\u2019. Ele segue sendo otimista de que a humanidade encontrar\u00e1 seu caminho de volta \u00e0 sua pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o de fraternidade; mas isso n\u00e3o vir\u00e1 facilmente, nem sem resist\u00eancia e sofrimento.<\/p>\n<p>Outra dimens\u00e3o do di\u00e1logo que aparece repetidamente nos escritos do Papa Francisco \u00e9 a de uma compreens\u00e3o e aprecia\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel da diversidade. Nenhuma vis\u00e3o \u00fanica do mundo (religiosa, pol\u00edtica, econ\u00f4mica, cultural, etc) oferece todas as respostas a todas as perguntas espec\u00edficas, concretas e emergentes. O encontro, o di\u00e1logo, o discernimento, o debate honesto e a capacidade de aprender uns com os outros s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias para empreender o caminho do di\u00e1logo. Foi isso, talvez, que aconteceu na vida de S\u00e3o Francisco em seu encontro com o leproso que, aparentemente, ajudou-o a chegar a um entendimento mais amplo de Deus, da dignidade da pessoa humana e da voca\u00e7\u00e3o? Da fraternidade? Ou quando S\u00e3o Francisco se encontrou com a amabilidade, a hospitalidade e o reconhecimento de um ser humano na pessoa do Sult\u00e3o em Damieta? Ou na vida cotidiana da fraternidade de S\u00e3o Francisco e seus primeiros companheiros, aprendendo uns com os outros, desafiando-se, abra\u00e7ando a diferen\u00e7a, perdoando-se mutuamente? O Papa Francisco insiste que, respeitando estas vozes alternativas, \u00e0s vezes contradit\u00f3rias, inclusive dentro da Igreja e da Ordem, na realidade estamos construindo as bases para cumprir nossa voca\u00e7\u00e3o de fraternidade. Mas para cumprir com esta grande voca\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 exigida de n\u00f3s demonstra\u00e7\u00f5es de paci\u00eancia, autodisciplina e generosidade (cf. <em>Laudato Si\u2019<\/em>).<\/p>\n<p>Mas como poder\u00edamos cumprir tal atitude proposta pelo Papa Francisco, mais que atitude, uma espiritualidade de di\u00e1logo, fraternidade, compromisso com a busca de condi\u00e7\u00f5es para o bem-estar de cada pessoa humana e para toda a cria\u00e7\u00e3o, bem-comum? Voltando ao exemplo de S\u00e3o Francisco de Assis, o Papa Francisco percebe que o caminho para a aut\u00eantica fraternidade somente pode acontecer se estivermos dispostos a converter-nos em m\u00edsticos. O tipo de m\u00edstica proposta pelo Papa Francisco n\u00e3o \u00e9 a promo\u00e7\u00e3o de algum tipo de <em>fugit mundi<\/em> ou a fuga para algum mundo espiritualizado sem humanidade nem cria\u00e7\u00e3o. Existem muitas vozes na Igreja e no mundo &#8211; e poderia agregar na Ordem &#8211; que buscam promover este tipo de espiritualidade, negando-se a olhar profundamente o abismo da exclus\u00e3o e da destrui\u00e7\u00e3o que afligem a humanidade e o planeta. A voca\u00e7\u00e3o ao di\u00e1logo e \u00e0 fraternidade, segundo o Papa Francisco, somente pode ser verdadeiramente aceita atrav\u00e9s da ado\u00e7\u00e3o de uma atitude contemplativa para a realidade humana e todo o universo criado.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cFalamos aqui duma atitude do cora\u00e7\u00e3o, que vive tudo com serena aten\u00e7\u00e3o, que sabe manter-se plenamente presente diante duma pessoa sem estar a pensar no que vir\u00e1 depois, que se entrega a cada momento como um dom divino que se deve viver em plenitude. Jesus ensinou- -nos esta atitude, quando nos convidava a olhar os l\u00edrios do campo e as aves do c\u00e9u, ou quando, na presen\u00e7a dum homem inquieto, \u2018fitando nele o olhar, sentiu afei\u00e7\u00e3o por ele\u2019. (cf. <em>Laudato S\u00ed,<\/em> 226).<\/p>\n<p>No entanto, para adotar o itiner\u00e1rio do m\u00edstico, a pessoa deve estar disposta a abra\u00e7ar a todos os que Deus abra\u00e7a, especialmente aos pobres, exclu\u00eddos, aqueles a que s\u00e3o negados os direitos, aqueles que buscam um lugar onde possam viver em paz, livres do medo, da viol\u00eancia, um lugar onde possam dar sua contribui\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento de suas pr\u00f3prias vidas e a vida dos demais, um lugar onde possam encontrar-se frente a frente com o autor da vida, Deus. A m\u00edstica entendida a partir desta perspectiva abre caminhos para uma fraternidade aut\u00eantica, libertadora e geradora da vida.<\/p>\n<p>Meus queridos confrades, o Papa Francisco nos convida a abrir os olhos de nossos cora\u00e7\u00f5es e mentes para a grande voca\u00e7\u00e3o do di\u00e1logo e da fraternidade. Esta voca\u00e7\u00e3o n\u00e3o se limita aos crist\u00e3os, est\u00e1 aberta \u00e0 humanidade. Ao mesmo tempo, os crentes t\u00eam a responsabilidade especial de abra\u00e7ar esta voca\u00e7\u00e3o. Isto se torna mais evidente no documento hist\u00f3rico de 4 de fevereiro de 2019, \u201cFraternidade Humana para a Paz Mundial e a Conviv\u00eancia Comum\u201d, assinado conjuntamente pelo Papa Francisco e o im\u00e3 Ahmed el Tayeb em Abu Dhabi. \u201cO di\u00e1logo entre crentes consiste em se encontrar no vasto espa\u00e7o dos valores espirituais, humanos e sociais comuns, e investir isto na propaga\u00e7\u00e3o das mais altas virtudes morais que as religi\u00f5es solicitam\u201d.<\/p>\n<p>Recordemos mutualmente que o di\u00e1logo n\u00e3o se trata de convencer ou estrategicamente \u201cganhar\u201d algu\u00e9m com minhas ideias, inclusive sob minha perspectiva religiosa. O di\u00e1logo n\u00e3o exclui a possibilidade de compartilhar as convic\u00e7\u00f5es sobre a f\u00e9. O di\u00e1logo pode incluir a proclama\u00e7\u00e3o, mas s\u00f3 de acordo com nossas Regras e Vida Franciscana (RNB, RB), se reflete uma profunda humildade e um profundo respeito pelas cren\u00e7as religiosas e as perspectivas mundiais dos demais. O di\u00e1logo consiste em descobrir a verdade mais profunda de quem somos, individual e coletivamente, aprendendo de quem viemos e para onde vamos: tudo est\u00e1 conectado com o Criador, com Deus que \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o (Trindade). O di\u00e1logo consiste em chegar a esta consci\u00eancia da verdade de que todas as coisas est\u00e3o interconectadas, todas est\u00e3o relacionadas, todas est\u00e3o destinadas a colaborar com o plano de Deus para a paz e a harmonia universal. Por esta raz\u00e3o, o di\u00e1logo \u00e9 vital para a miss\u00e3o evangelizadora da Igreja.<\/p>\n<p>Recordo a todos que Frei Cesare Vaiani compartilhou conosco no in\u00edcio desta semana a natureza e a forma de di\u00e1logo que surgem da vida e os escritos de S\u00e3o Francisco de Assis. Deus fala, molda para n\u00f3s a natureza da identidade social humana e o caminho at\u00e9 o pleno crescimento como seres humanos e espirituais, criados e destinados a participar na \u201cfraternidade de Deus\u201d, a Trindade. Este di\u00e1logo \u00e9 de amor, um amor que se origina em Deus, na Trindade, e se manifesta tamb\u00e9m em toda cria\u00e7\u00e3o. Deus p\u00f5e o mundo em movimento, Deus inicia o di\u00e1logo com os seres humanos e com o universo criado, um ato de amor puro. Este di\u00e1logo continua atrav\u00e9s do envio de seu Filho Amado, Jesus, atrav\u00e9s da Encarna\u00e7\u00e3o. E continua tamb\u00e9m agora, atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, algo que se reflete na pr\u00e1tica da vida, na prega\u00e7\u00e3o e nos escritos de S\u00e3o Francisco de Assis, e na pr\u00e1tica da vida, na prega\u00e7\u00e3o e nos escritos do Papa Francisco.<\/p>\n<p>Irm\u00e3os, comecemos&#8230;<\/p>\n<p><strong>Cap\u00edtulo das Esteiras Under Ten<\/strong><br \/>\n<strong>Taiz\u00e9, Fran\u00e7a, 14 de julho de 2019.<\/strong><br \/>\n<strong>Frei Michael A. Perry, OFM<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A voca\u00e7\u00e3o para a Fraternidade: o di\u00e1logo na vida de um frade menor<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":160662,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[39],"tags":[76,61],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v21.0 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Palestra do Ministro Geral no Cap\u00edtulo das Esteiras Under Ten - Quem Somos - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/quemsomos\/palestra-do-ministro-geral-no-capitulo-das-esteiras-under-ten\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Palestra do Ministro Geral no Cap\u00edtulo das Esteiras Under Ten - 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