{"id":99238,"date":"2015-12-03T00:29:53","date_gmt":"2015-12-03T02:29:53","guid":{"rendered":"http:\/\/franciscanos.org.br\/?p=99238"},"modified":"2020-02-17T12:29:34","modified_gmt":"2020-02-17T15:29:34","slug":"educacao-e-para-formar-pessoas-felizes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/educacao-e-para-formar-pessoas-felizes.html","title":{"rendered":"\u201cEduca\u00e7\u00e3o \u00e9 para formar pessoas felizes\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/betto_alto.jpg\" alt=\"betto_alto\" width=\"820\" height=\"386\" \/><\/p>\n<p><strong>Moacir Beggo<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0Curitiba (PR)<\/strong> &#8211; O te\u00f3logo e escritor Frei Betto, ou Carlos Alberto Lib\u00e2nio Christo, foi o palestrante desta quarta-feira, 2 de dezembro, no Congresso Internacional Franciscano, que termina nesta quinta-feira, em Curitiba.<\/p>\n<p>Assessor da Pastoral Oper\u00e1ria e de movimentos populares, Frei Betto trouxe muitas provoca\u00e7\u00f5es aos participantes do Congresso ao abordar o tema &#8220;Educa\u00e7\u00e3o: Esperan\u00e7a em uma humanidade nova em um contexto de mudan\u00e7a de \u00e9poca&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo o frade dominicano, estamos vivendo uma mudan\u00e7a de \u00e9poca. &#8220;E quando ocorre essa passagem, h\u00e1 uma enorme turbul\u00eancia. Tudo fica confuso. Porque os valores antigos s\u00e3o questionados e os novos valores ainda n\u00e3o foram afirmados&#8221;, explicou.<\/p>\n<p>Cr\u00edtico do sistema neoliberal, o mineiro Frei Betto acha que a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 para formar m\u00e3o de obra qualificada para o mercado. A educa\u00e7\u00e3o existe para formar pessoas felizes. &#8220;Esse deveria ser o prop\u00f3sito n\u00famero 1 da educa\u00e7\u00e3o. Pessoas felizes, capazes de amar e ser amadas&#8221;, ensina.<\/p>\n<h3>\u00a0VEJA A \u00cdNTEGRA DE SUA PALESTRA<\/h3>\n<p>Mudan\u00e7a de \u00e9poca \u00e9 algo que todos n\u00f3s aqui estamos vivendo. Momento de grande turbul\u00eancia global e se n\u00e3o entendermos isso, a gente n\u00e3o entender\u00e1 a crise de valores, dos conflitos, a dificuldade de as pessoas serem tolerantes. A gente acha que \u00e9 uma quest\u00e3o pessoal. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o pessoal, \u00e9 uma quest\u00e3o conjuntural. Por qu\u00ea? Porque n\u00f3s estamos vivendo o que nossos av\u00f3s n\u00e3o viveram. Eles viveram <strong>\u00e9poca de mudan\u00e7as<\/strong>, mas n\u00e3o viveram uma <strong>mudan\u00e7a de \u00e9poca<\/strong>.<\/p>\n<p>A \u00faltima gera\u00e7\u00e3o que viveu uma mudan\u00e7a de \u00e9poca era composta por essas pessoas que vou citar: Cop\u00e9rnico, Galileu, Michelangelo, Leonardo da Vinci, Jo\u00e3o da Cruz, Teresa D&#8217;\u00c1vila, Descartes, Pedro \u00c1lvares Cabral, Crist\u00f3v\u00e3o Colombo. Essas pessoas viveram o que n\u00f3s estamos vivendo 500 anos depois. Porque elas foram contempor\u00e2neas da passagem da \u00e9poca medieval, que durou mil anos, para a \u00e9poca moderna. E quando ocorre essa passagem, h\u00e1 uma enorme turbul\u00eancia. Tudo fica confuso. Porque os valores antigos s\u00e3o questionados e os novos valores ainda n\u00e3o foram afirmados.<\/p>\n<p>O que caracteriza uma \u00e9poca \u00e9 o seu<strong> paradigma<\/strong>. E o paradigma \u00e9 exatamente aquela haste central que sustenta a lona do circo. Se a gente retira a haste, o circo desaba.<\/p>\n<p>E como era o paradigma do per\u00edodo medieval que durou mil anos? A religi\u00e3o. Tudo girava em torno da f\u00e9. Os camponeses da Idade M\u00e9dia regavam a lavoura com \u00e1gua benta e depois chamavam o padre para celebrar uma missa agradecendo a Deus pela boa colheita. At\u00e9 que apareceu um sujeitinho, de barbicha e solid\u00e9u na cabe\u00e7a, vendendo um pozinho preto. E falou: &#8220;Este ano, voc\u00eas experimentam esse pozinho na lavoura. N\u00e3o experimentem a \u00e1gua benta dos padres, n\u00e3o!&#8221; E o tal do adubo deu muito mais resultado do que \u00e1gua benta dos padres. Foi uma crise de f\u00e9 generalizada na Europa. Ou seja, a hegemonia da religi\u00e3o era tamanha&#8230;<\/p>\n<p>Eu fui a \u00c9feso, na Turquia, onde Paulo esteve preso e escreveu a Carta aos Ef\u00e9sios. Tamb\u00e9m Jo\u00e3o teria morado ali e, segundo a lenda, Nossa Senhora tamb\u00e9m. Uma cidade-museu muito bem preservada, lind\u00edssima, e l\u00e1 tem &#8211; n\u00e3o era pintura, mas escultura gravada na pedra &#8211; o s\u00edmbolo da Nike. Mas eu vi outro detalhe e perguntei: por que a Fifa n\u00e3o adota como s\u00edmbolo o que resta da maior est\u00e1tua de \u00c9feso, que \u00e9 a do Imperador Trajano? \u00c9 do s\u00e9culo 3 da nossa era. Restou apenas o p\u00e9 direito dele com uma bola na ponta. Disse: &#8220;Olha que s\u00edmbolo bom para a Fifa!&#8221;. Mas n\u00e3o \u00e9 futebol. \u00c9 que Trajano, no s\u00e9culo 3, j\u00e1 tinha assimilado que os gregos, tr\u00eas s\u00e9culos antes de Cristo, tinham descoberto: que a Terra era redonda. Mas isso n\u00e3o convinha \u00e0 Igreja e por isso n\u00e3o vingou a teoria grega. O que vingou foi a cosmologia de Ptolomeu, que dizia que a terra era achatada. E obviamente, Deus n\u00e3o ia se encarnar num planetinha qualquer. A Terra \u00e9 o centro do Universo. Basta olhar o movimento do Sol. O Sol se declina ali, passa por debaixo dela, que fica escura \u00e0 noite, e depois volta.<\/p>\n<p>Pois bem, at\u00e9 que um astr\u00f4nomo polaco chamado Nicolau Cop\u00e9rnico leu Paulo Freire e resolveu p\u00f4r em pr\u00e1tica um de seus conselhos: <strong>se colocar no lugar do outro.<\/strong> Uma coisa \u00e9 eu ser diretora da escola, outra coisa \u00e9 eu me colocar no lugar da faxineira da escola; uma coisa \u00e9 eu ser o dono da casa, outra coisa eu me colocar no lugar da cozinheira da casa. Quando a gente se coloca no lugar do oprimido, muda o nosso lugar social, o nosso lugar epist\u00eamico, a maneira de ver e entender as coisas.<\/p>\n<p>E foi exatamente o que Cop\u00e9rnico fez. Ptolomeu mirou o sistema solar com os p\u00e9s na terra e Cop\u00e9rnico, virtualmente, colocou os p\u00e9s no sol e viu tudo diferente e, cientificamente, virou uma das leis absolutas da ci\u00eancia. Os nossos sentidos n\u00e3o s\u00e3o meios de verifica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, porque s\u00e3o enganosos. As apar\u00eancias enganam, diz o ditado popular.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de Cop\u00e9rnico &#8211; e \u00e9 preciso enfatizar isso hoje para evitar o preconceito -, gra\u00e7as aos mu\u00e7ulmanos, a matem\u00e1tica chegou \u00e0 Europa Ocidental. Voc\u00eas imaginam hoje ter que fazer um c\u00e1lculo com algarismos romanos? A Europa n\u00e3o conhecia o zero, mas foram eles que trouxeram. Eles tamb\u00e9m trouxeram todo o acervo cultural dos gregos que tinha desaparecido. S\u00f3crates, Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles, Descartes e tantos outros nos deram as bases da ci\u00eancia moderna.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, h\u00e1 a poderosa navega\u00e7\u00e3o mar\u00edtima da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, da qual n\u00f3s somos resultado. Conhecemos bem a hist\u00f3ria que Vasco da Gama tinha espalhado de que nas \u00cdndias tinha bons temperos&#8230;. Um dia a m\u00e3e de Pedro \u00c1lvares Cabral estava fazendo um arroz-doce e pediu a Vasco: &#8220;Filho, vai buscar um pouco de canela para mim&#8221;. O rapaz se perdeu no caminho e o resto da hist\u00f3ria n\u00f3s sabemos&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, v\u00e1rios fatores minaram as bases do per\u00edodo medieval. V\u00e1rios fatores fizeram com que o pensamento humano come\u00e7asse a questionar uma s\u00e9rie de princ\u00edpios garantidos como verdades eternas e, sobretudo, uma grande &#8211; que era pr\u00f3prio da \u00e9poca &#8211; confus\u00e3o entre religi\u00e3o e ci\u00eancia, como se a B\u00edblia tivesse inten\u00e7\u00e3o de ensinar ci\u00eancia. Da\u00ed a briga que a gente tem at\u00e9 hoje com os creacionistas porque tem gente que, literalmente, fala: &#8220;Ad\u00e3o e D. Eva existiram&#8221;, sem saber que <em>Ad\u00e3o<\/em>, em hebraico, significa <em>terra<\/em>, e <em>Eva<\/em>, significa <em>vida<\/em>. Mas, como o autor b\u00edblico nasceu em Minas, e na B\u00edblia toda n\u00e3o tem uma aula de teologia, gra\u00e7as a Deus, a B\u00edblia \u00e9 um livro popular, contada em causos, que at\u00e9 chamam de par\u00e1bolas. E ent\u00e3o, para nos passar o ensinamento religioso, cria-se o &#8220;causo de seu Ad\u00e3o e D. Eva&#8221;. &#8220;Tudo bem&#8221;, digo aos meus amigos creacionistas. Voc\u00eas acham que a gente veio desse casal e t\u00eam medo de admitir que os s\u00edmios s\u00e3o nossos av\u00f3s. Eu s\u00f3 estranho que voc\u00eas apoiem o incesto, porque Ad\u00e3o e Eva tiveram dois filhos homens. E como \u00e9 que n\u00f3s estamos aqui? A\u00ed eles se embananam. A\u00ed fica complicado&#8230; O incesto com a m\u00e3e \u00e9 mais grave ainda&#8230; Talvez seja por isso que o mundo est\u00e1 desse jeito. Resultado desse incesto, se \u00e9 que ele houve&#8230;<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que o per\u00edodo medieval termina e entra uma nova \u00e9poca, que \u00e9 a modernidade. Todos n\u00f3s, aqui, somos filhos da modernidade. E a modernidade tem, como toda \u00e9poca, um novo paradigma: a raz\u00e3o. Com duas filhas diletas: a ci\u00eancia e a tecnologia. E quando a modernidade se iniciou, houve um grande otimismo de que ela iria equacionar todos os problemas do mundo. N\u00e3o haveria mais guerras, pestes, intoler\u00e2ncia, reinados etc. Enfim, havia um grande otimismo de que a modernidade iria criar o melhor dos mundos. Enormes avan\u00e7os ocorreram hoje, pelo menos a gente n\u00e3o tem mais a escravid\u00e3o legalizada e leg\u00edtima. Hoje, temos uma democracia relativa, ainda muito med\u00edocre, mas pelo menos houve avan\u00e7o. Hoje, existe um pluralismo religioso, \u00a0a humanidade avan\u00e7ou na ci\u00eancia, na tecnologia temos o computador. Ali\u00e1s, ontem a internet fez 25 anos. Bodas de prata de um instrumento fant\u00e1stico para a comunica\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s. Mas n\u00f3s somos filhos da modernidade 500 anos depois e podemos olhar para tr\u00e1s e a\u00ed conferir tamb\u00e9m os erros graves que impediram a modernidade de ser um tempo de, pelo menos, criar condi\u00e7\u00f5es para que toda a humanidade vivesse com dignidade e felicidade.<\/p>\n<p>Por qu\u00ea? Porque o capitalismo se apropriou da ci\u00eancia e da tecnologia. Por exemplo, o setor da medicina. Me lembro que vi o vice-presidente na televis\u00e3o, Jos\u00e9 Alencar, falando que foi um aparelho &#8211; sei que agora tem uns dez no Brasil, mas naquela \u00e9poca s\u00f3 tinha um em S\u00e3o Paulo &#8211; que detectou todos os meus pontos cancer\u00edgenos. Quem dera que todo brasileiro pudesse passar por esse aparelho! Chama-se <em>Petscan.<\/em> Pensei que fosse <em>scanner<\/em> de cachorro. Parece?!<\/p>\n<p>Os avan\u00e7os existem, mas quem tem acesso? No caso do Brasil, mesmo quem tem plano privado de sa\u00fade, cuide-se para n\u00e3o ficar doente. Uma coisa \u00e9 o plano, outra coisa \u00e9 quando voc\u00ea precisa dele.<\/p>\n<p>Enfim, o ser humano colocou os p\u00e9s na face da lua. Mas n\u00e3o colocou ainda nutrientes essenciais na barriga de milh\u00f5es de crian\u00e7as na Am\u00e9rica Latina, na \u00c1frica e na \u00c1sia. Ent\u00e3o, a modernidade fracassou. A raz\u00e3o instrumental fracassou, principalmente porque criou um processo civilizat\u00f3rio que \u00e9 radicalmente contr\u00e1rio ao do Evangelho como o Papa Francisco tem enfatizado e que n\u00e3o tem nem vergonha de dizer o nome: <strong>capitalismo<\/strong>. Ou seja, os interesses do dinheiro est\u00e3o acima dos direitos humanos. E, se no Evangelho o valor n\u00famero um \u00e9 a solidariedade, nesse sistema \u00e9 a competitividade.<\/p>\n<p>E o mundo que vivemos, como \u00e9 hoje? Suponhamos que ele fosse reduzido a uma aldeia de 100 pessoas. Nessa aldeia haveria 57 asi\u00e1ticos, 21 europeus, 8 africanos e 4 americanos (do Alasca \u00e0 Patag\u00f4nia), 52 mulheres e 48 homens, 70 n\u00e3o seriam brancos. E veja a hegemonia dos brancos no Planeta: 30 seriam brancos, 70 n\u00e3o seriam crist\u00e3os. Detalhe: as maiores &#8211; isso \u00e9 para a gente p\u00f4r a m\u00e3o na consci\u00eancia mesmo &#8211; atrocidades cometidas ao longo da modernidade foram cometidas por pa\u00edses majoritariamente crist\u00e3os. As duas grandes guerras, as bombas de Hiroshima e Nagazaki, a Inquisi\u00e7\u00e3o, as guerras hoje no Oriente M\u00e9dio, a escravid\u00e3o, o colonialismo, o tr\u00e1fico de escravos, e a gente tem que se perguntar como isso foi poss\u00edvel em pa\u00edses que expressavam o nome de Jesus? Seis pessoas nessa aldeia de 100 habitantes teriam em m\u00e3os 59% de toda a riqueza e seis delas seriam estadunidenses. Das 100, 80 viveriam em condi\u00e7\u00f5es sub-humanas, 70 n\u00e3o saberiam ler, 50 sofreriam desnutri\u00e7\u00e3o, uma estaria a ponto de morrer, s\u00f3 uma pessoa teria educa\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria e tamb\u00e9m s\u00f3 uma teria computador.<\/p>\n<p>Agora, pense: se voc\u00ea acordou hoje com mais sa\u00fade, tem mais sorte que milh\u00f5es de pessoas que n\u00e3o v\u00e3o sobreviver at\u00e9 o pr\u00f3ximo domingo, se voc\u00ea nunca experimentou os perigos da guerra, a solid\u00e3o de estar preso, a agonia de ser torturado, a afli\u00e7\u00e3o de sentir fome, voc\u00ea \u00e9 mais feliz que 500 milh\u00f5es de pessoas que j\u00e1 passaram por alguma coisa dessa. Se voc\u00ea pode ir \u00e0 sua igreja sem medo de ser torturado, morto, voc\u00ea \u00e9 mais afortunado que 3 bilh\u00f5es de pessoas, mais da metade da popula\u00e7\u00e3o do planeta que n\u00e3o tem liberdade religiosa. Se voc\u00ea tem comida na geladeira, teto para proteger a cabe\u00e7a, um lugar para dormir, voc\u00ea \u00e9 mais feliz que 75% que a popula\u00e7\u00e3o mundial. Se voc\u00ea guarda dinheiro no banco, voc\u00ea est\u00e1 entre 8% mais ricos do mundo. E se seus pais est\u00e3o vivos e unidos, voc\u00ea \u00e9 uma pessoa rar\u00edssima.<\/p>\n<p>Pois bem, isso na nossa cabe\u00e7a n\u00e3o deveria significa um privil\u00e9gio, mas uma d\u00edvida social, por qu\u00ea? Porque nenhum de n\u00f3s escolheu a fam\u00edlia social que nasceu. E se n\u00f3s n\u00e3o nascemos entre os tr\u00eas bilh\u00f5es de pessoas, que segundo a ONU vive em condi\u00e7\u00f5es sub-humanas, foi por mero acaso da loteria biol\u00f3gica. Injusto \u00e9 existir a loteria biol\u00f3gica. Todos n\u00f3s dever\u00edamos nascer com direito \u00e0 dignidade e \u00e0 felicidade. Isso infelizmente n\u00e3o ocorre.<\/p>\n<p>Portanto, a modernidade agoniza. Os famosos valores da modernidade s\u00e3o todos questionados hoje. Que valores s\u00e3o esses que promoveram tantas guerras? Que valores s\u00e3o esses com uma acumula\u00e7\u00e3o absurda de riquezas nas m\u00e3os de poucas, em que o dinheiro tem livre circula\u00e7\u00e3o no planeta e as pessoas n\u00e3o? Que valores s\u00e3o esses se a democracia \u00e9 uma farsa, porque n\u00f3s votamos mas \u00e9 o poder econ\u00f4mico que elege? Que valores s\u00e3o esses se o Planeta agoniza, como disse o Papa nesse documento, que segundo Edgard Morin, \u00e9 o mais importante da hist\u00f3ria de toda a hist\u00f3ria da humanidade sobre a quest\u00e3o eco-social, o &#8220;Louvado Sejas&#8221;, em homenagem a S\u00e3o Francisco merecidamente, e que a gente espera que agora, na Confer\u00eancia de Paris, pelo menos pela primeira vez, os chefes de estado aceitem que salvar a Terra significa prejudicar minimamente o grande capital. N\u00e3o se concilia projeto de civiliza\u00e7\u00e3o nesse sistema t\u00e3o desigual com a preserva\u00e7\u00e3o do planeta. E, portanto, a modernidade faliu. N\u00f3s estamos entrando na p\u00f3s-modernidade. E os sintomas est\u00e3o a\u00ed, crise de valores, principalmente nas quatro institui\u00e7\u00f5es pilares da modernidade: <strong>a fam\u00edlia, a igreja, a escola e o estado<\/strong>. Quatro entidades em busca da sua nova identidade.<\/p>\n<p>E a gente fica se perguntando: qual ser\u00e1 o paradigma da p\u00f3s-modernidade se na medieval foi a religi\u00e3o, se no moderno foi a raz\u00e3o? O Papa Jo\u00e3o Paulo II fez uma proposta, e queira Deus que ela vingue: <strong>a globaliza\u00e7\u00e3o da solidariedade<\/strong>. O que existe a\u00ed \u00e9 <em>globocoloniza\u00e7\u00e3o<\/em>. \u00c9 a imposi\u00e7\u00e3o ao Planeta de um modelo hedonista, consumista de sociedade. Essa proposta de Jo\u00e3o Paulo II \u00e9 refor\u00e7ada hoje por Francisco. Mas o que o sistema neoliberal quer impor \u00e9 exatamente um antivalor e o meu medo \u00e9 que ele venha prevalecer: o mercado, a mercantiliza\u00e7\u00e3o de todos os aspectos da natureza e da vida humana.<\/p>\n<p>A EDUCA\u00c7\u00c3O TEM TUDO A VER COM ISSO&#8230;.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o na fam\u00edlia, na escola e na igreja, em tese, pretende formar cidad\u00e3os. O sistema que n\u00f3s vivemos, que tem um aparato deseducativo poderos\u00edssimo &#8211; a internet, a TV, a publicidade etc &#8211; pretende formar consumistas. Esse \u00e9 o choque, o conflito. Por qu\u00ea? Porque o cidad\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m que \u00e9 dotado de valores enraizados na subjetividade. Nessa subjetividade, a pessoa encontra a sua autoestima, mas isso n\u00e3o interessa ao sistema porque s\u00f3 existe consumismo se a pessoa se move pelos valores &#8220;objetivos&#8221;. Em outras palavras: se eu chego na sua casa a p\u00e9, eu tenho valor <strong>z<\/strong>; se eu chego no \u00faltimo modelo de Mercedes Benz, eu tenho valor<strong> a<\/strong>. Eu sou a mesma pessoa, mas \u00e9 a mercadoria que me reveste, que agrega mais ou menos valor aos olhos dos demais. E como \u00e9 que voc\u00ea vai querer que a televis\u00e3o &#8211; que \u00e9 a \u00fanica coisa socialista no Brasil -, que o dia inteiro fica dizendo na propaganda &#8211; e tamb\u00e9m na propaganda embutida nos programas -, que se voc\u00ea n\u00e3o veste essa roupa, n\u00e3o usa esse t\u00eanis, n\u00e3o tem esse carro, n\u00e3o faz essa viagem, n\u00e3o toma essa bebida, n\u00e3o usa esse perfume, voc\u00ea \u00e9 um MERDA.<\/p>\n<p>E a autoestima do sujeito vai, cada vez mais, l\u00e1 embaixo&#8230; Voc\u00ea s\u00f3 ser\u00e1 feliz se tiver esses bens. Como \u00e9 que voc\u00ea vai segurar o garoto da favela que v\u00ea o pai desempregado, que v\u00ea a m\u00e3e saindo cedo para cozinhar na casa de algu\u00e9m, lavar roupa? Como \u00e9 que voc\u00ea resolve a autoestima desse garoto? E como \u00e9 que a gente vai conden\u00e1-lo se ele quer resolver atrav\u00e9s da viol\u00eancia, porque ele tamb\u00e9m est\u00e1 sendo massacrado pela publicidade para ter aquele t\u00eanis, aquela roupa, para poder entrar no shopping etc.<\/p>\n<p>A publicidade n\u00e3o faz distin\u00e7\u00e3o de classe. E a\u00ed, como \u00e9 que faz?\u00a0 Basta reduzir a maioridade penal? Se isso desse resultado, os pa\u00edses que fizeram estariam comemorando. N\u00e3o deu resultado! O pa\u00eds mais rico do mundo, os Estados Unidos, \u00e9 o que tem mais gente na cadeia. Tem 2 milh\u00f5es de detentos. A china, que tem uma popula\u00e7\u00e3o cinco vezes maior que os Estados Unidos, tem 1 milh\u00e3o de presos; a R\u00fassia tem quase 1 milh\u00e3o e o Brasil \u00e9 o quarto, com 750 mil prisioneiros.<\/p>\n<p>Ora, se esse sistema faz esse tipo de <em>deseduca\u00e7\u00e3o<\/em>, criando conflito, a gente precisa pensar: <strong>qual \u00e9 o projeto pol\u00edtico-pedag\u00f3gico da escola?<\/strong> A escola \u00e9 sim, aristotelicamente, um espa\u00e7o pol\u00edtico. A quest\u00e3o \u00e9 saber se ela tem uma <strong>proposta pol\u00edtico-pedag\u00f3gica<\/strong>. Ela quer formar o qu\u00ea? Ou cada professor tem a sua cabe\u00e7a e dane-se confundir nas cabe\u00e7as dos alunos&#8230;.<\/p>\n<p>Eu tenho dois col\u00e9gios vizinhos em S\u00e3o Paulo: o Judaico e o Batista. Quando voc\u00ea entra l\u00e1, vai matricular o filho, a regra do jogo \u00e9 colocada claramente:&#8221;Ah, mas isso eu n\u00e3o quero que meu filho participe!&#8221; &#8211; &#8220;Busque outra escola!&#8221; Se sua fam\u00edlia \u00e9 cat\u00f3lica, seu filho \u00e9 cat\u00f3lico, vai ter de participar de dois, tr\u00eas retiros por ano. &#8220;Ah, mas eu n\u00e3o gosto! Procure outra escola&#8221;. Vai ter que participar da catequese, vai ter que participar disso e daquilo&#8230;<\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o podemos ter vergonha da f\u00e9 que professamos, dos valores que encarnamos. Aqui n\u00e3o temos preconceitos de homofobia, de racismo, disso ou daquilo. Aqui n\u00e3o ensinamos que mu\u00e7ulmano \u00e9 terrorista. \u00a0Porque n\u00f3s, crist\u00e3os, que carregamos tamb\u00e9m a mesma culpa por ter feito a Inquisi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o gostamos de ser confundido com ela. Ali\u00e1s, o que o Estado Isl\u00e2mico est\u00e1 fazendo, a Inquisi\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixou de fazer e at\u00e9 fez muito mais durante muito tempo, diga-se de passagem, pois espero que isso acabe logo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, n\u00f3s temos que pensar, diante desse sistema, o que fazer. \u00a0Vamos pegar o exemplo da crian\u00e7a. Eu participo de um projeto, o Instituto Alana (www.alana.org.br ), que tem uma luta dif\u00edcil, mas a gente n\u00e3o desistiu. Proibir qualquer publicidade destinada ao p\u00fablico infantil ou uso de uma crian\u00e7a numa publicidade destinada a adultos. Atualmente, a maioria das publicidades de carro \u00e9 um produto adulto e tem uma crian\u00e7a na pe\u00e7a publicit\u00e1ria. O que acontece hoje com as crian\u00e7as? Elas ficam demasiadamente expostas \u00e0 televis\u00e3o e \u00e0 internet. O problema j\u00e1 come\u00e7a pela obesidade precoce. Eles n\u00e3o se movem, n\u00e3o brincam, n\u00e3o andam. S\u00f3 no sof\u00e1 e na cama. E essas crian\u00e7as transferem a fantasia &#8211; que \u00e9 algo fundamental para uma inf\u00e2ncia sadia &#8211; para o filminho da televis\u00e3o, para o filminho da internet. N\u00e3o sou eu que brinco de casinha, que brinco de guerra, que brinco de pal\u00e1cio, que brinco de princesa. N\u00e3o, eu vejo algu\u00e9m brincar por mim no monitor da TV ou do computador.<\/p>\n<p>E essa crian\u00e7a, muitas vezes, \u00e9 induzida pelo consumismo, porque o sistema quer raptar a crian\u00e7a desde cedo. A crian\u00e7a como consumista tem duas vantagens. N\u00e3o tem discernimento de valor. Um papel e um carro \u00e9 a mesma coisa. Quando ela quer alguma coisa, apela para o choro. Ela tem uma capacidade e tanto para induzir o adulto \u00e0 compra. Ent\u00e3o, por isso que se usa tanta crian\u00e7a na publicidade. E essa crian\u00e7a demasiadamente exposta \u00e0 publicidade e sem forma\u00e7\u00e3o de discernimento pol\u00edtico, vai virando um ser esquizofr\u00eanico. Ela passa a ter vocabul\u00e1rio de adulto, trejeito de adulto, roupa de adulto, e tem m\u00e3e que acha uma gracinha levar a filha no cabeleireiro, pintar as unhas. \u00c9 uma miniadulta. Ela n\u00e3o curtiu o seu universo on\u00edrico na idade adequada, porque ela fez a transfer\u00eancia pela m\u00eddia, ela n\u00e3o curtiu o afeto familiar, porque os pais ou estavam ligados na m\u00eddia ou no celular. Hoje j\u00e1 \u00e9 uma doen\u00e7a diagnosticada pela medicina, chama-se <strong>nomofobia<\/strong>, depend\u00eancia excessiva do celular. Ent\u00e3o, deixa-se de dialogar para ficar no celular e a crian\u00e7a fica de escanteio.<\/p>\n<p>Hoje, quando as crian\u00e7as passam para a adolesc\u00eancia,\u00a0sentem mais inseguran\u00e7a que a minha gera\u00e7\u00e3o. Portanto, s\u00e3o mais vulner\u00e1veis \u00a0a um perverso profissional exatamente nesse momento, que percebem o medo do real desta crian\u00e7a, e lhe oferece droga. Como quem diz: voltar para a inf\u00e2ncia, n\u00e3o d\u00e1, mas a fantasia agora vem pela qu\u00edmica. Voc\u00ea vai poder flutuar numa boa. Eu estou convencido disso. A incid\u00eancia de drogas hoje se deve a \u00a0fatores como: a excessiva exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 publicidade, autoestima l\u00e1 embaixo, ambi\u00e7\u00f5es desmedidas de consumismo, frustra\u00e7\u00e3o por n\u00e3o poder faz\u00ea-lo. Na minha gera\u00e7\u00e3o havia droga, mas n\u00e3o havia drogado. Sabe por qu\u00ea? Porque \u00e9ramos viciados em utopia. A gente n\u00e3o queria mudar o cabelo, a gente queria mudar o mundo. A gente queria mudar o Brasil. Sabe, a gente foi lutar contra a ditadura, foi lutar por um mundo novo. A gente realmente era viciado em utopia. Quanto menos utopia mais drogas, quanto mais utopia menos droga. O que n\u00e3o d\u00e1 \u00e9 viver sem um sentido de vida.<\/p>\n<p>Agora, para ter um sentido de vida, \u00e9 preciso a gente estabelecer v\u00ednculos sociais que permitam aos educandos descobrir o mundo do outro. Vou dar dois exemplos. Uma escola em S\u00e3o Paulo que trabalha o discernimento diante das m\u00eddias. Numa escola de classe m\u00e9dia alta, os alunos gravam pe\u00e7as publicit\u00e1rias, cap\u00edtulos de novela, depois debatem em sala de aula. Tinha um an\u00fancio &#8211; n\u00e3o tem mais &#8211; em que as crian\u00e7as brincavam no quintal da casa, muito sujas, e a m\u00e3e prepara o lanche na copa-cozinha e chama as crian\u00e7as. Quando elas entram, tem uma por\u00e7\u00e3o de copinhos de iogurtes e quando elas tomam os iogurtes, imediatamente ficam limpinhas, maravilhosas e saud\u00e1veis. Compraram o produto, tiraram de dentro do pote e mandaram para o laborat\u00f3rio para an\u00e1lise. Na volta constataram que o dizia o r\u00f3tulo n\u00e3o conferia com o resultado do laborat\u00f3rio. Nesse dia, essas crian\u00e7as aprenderam o que \u00e9 propaganda enganosa. A diretora depois ligou para a empresa &#8211; que tem l\u00e1 o Servi\u00e7o de Atendimento ao Consumidor- dizendo que eles tinham feito essa medi\u00e7\u00e3o e a empresa mandou um \u00f4nibus para levar os alunos \u00e0 f\u00e1brica e pediu desculpas pelo erro que houve naquele lote. Sabe aquela conversa&#8230; Assim como a Samarco, Vale do Rio Doce, que falavam que eram muito ecol\u00f3gicas&#8230; Triste do Rio Doce, que agora virou rio amargo. Eu falei para a diretora: o erro de voc\u00eas foi n\u00e3o ter ligado para a imprensa, porque isso \u00e9 um fato para ser denunciado.<\/p>\n<p>Outro exemplo: a escola tem que estar associada ao <strong>contexto<\/strong>. Como \u00e9 que uma escola, mesmo uma escola cat\u00f3lica, nunca chama um sheik para falar o que \u00e9 mu\u00e7ulmano, um rabino para falar do que \u00e9 juda\u00edsmo, um pai-de-santo, uma m\u00e3e-de-santo, para falar o que \u00e9 candombl\u00e9, por mais que uma religiosa queira explicar isso, passa uma coisa de preconceito e n\u00f3s vivemos num pa\u00eds de pluralismo religioso e \u00e9 preciso que as pessoas conhe\u00e7am isso.<\/p>\n<p>Na escola p\u00fablica, eu defendo que n\u00e3o pode ter ensino religioso, porque ela \u00e9 laica. Mas tem que ter ensino das religi\u00f5es. Ningu\u00e9m pode ser educado no Brasil sem saber o que \u00e9 B\u00edblia, Alcor\u00e3o, Tor\u00e1, espiritismo, candombl\u00e9, umbanda; isso faz parte da cultura.<\/p>\n<p>Agora, muitas vezes quando estava no Fome Zero, chegava nas escolas e perguntava: &#8220;Como \u00e9 que \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o nutricional aqui?&#8221; A\u00ed, ficava aquele sil\u00eancio. &#8220;O que os alunos comem aqui?&#8221; Respondiam: &#8220;Ah, tem uma cantina aqui&#8221;. Disse: &#8220;Vamos l\u00e1&#8230;&#8221; A mesma porcariada que o camel\u00f4 vende na esquina, a cantina vende l\u00e1 dentro. Eles n\u00e3o sabem como mastigar, n\u00e3o sabem para que servem os dentes. Excesso de gordura saturada, excesso de a\u00e7\u00facares. Muitos t\u00eam horror \u00e0 verdura e, \u00e0s vezes, a escola tem espa\u00e7o para ensinar a crian\u00e7a a plantar uma horta. E isso \u00e9 uma experi\u00eancia que tive em fam\u00edlia. Crian\u00e7a que planta uma horta, a hora que colhe uma alface, tem a autoestima l\u00e1 no teto. Ela nunca mais vai ter preconceito contra a verdura.<\/p>\n<p>Como \u00e9 que a gente quer formar uma sociedade sadia sem o que tem de mais b\u00e1sico numa sociedade, que \u00e9 ato de alimentar-se. A gente pode viver sem tudo, sem casa, sem emprego, sem roupa, sem pai, mas ainda n\u00e3o d\u00e1 para viver sem comida e bebida. Eu conhe\u00e7o um faquir amigo meu que faltavam tr\u00eas dias para conseguir o seu objetivo, mas morreu antes. N\u00e3o d\u00e1 para ningu\u00e9m viver sem comida. Acho que n\u00e3o foi \u00e0 toa que Jesus pegou o que h\u00e1 de mais b\u00e1sico na vida humana, a comida e a bebida, e transformou isso em sacramento. Acho maravilhoso isso. Gostaria muito que o s\u00edmbolo do cristianismo fosse o p\u00e3o e n\u00e3o a cruz. Porque a cruz \u00e9 instrumento de morte, e Jesus disse: &#8220;Eu sou o p\u00e3o da vida. Eu vim partilhar o p\u00e3o&#8221;. O p\u00e3o \u00e9 ora\u00e7\u00e3o que Jesus nos ensina em dois refr\u00e3os:<strong> o Pai Nosso e o P\u00e3o Nosso<\/strong>. O p\u00e3o simboliza todos os bens da vida. Eu s\u00f3 tenho direito de chamar o Pai Nosso se eu luto para que os bens da vida, para que o p\u00e3o n\u00e3o seja s\u00f3 meu, seja de todos. Fora disso, a ora\u00e7\u00e3o \u00e9 vazia.<\/p>\n<p>E a segunda pergunta que eu fazia nas escolas: &#8220;E como \u00e9 que \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o sexual?&#8221; A resposta: &#8220;Ah tem um professor aqui que \u00e9 \u00f3timo. Vou cham\u00e1-lo&#8221;. A\u00ed, ele vinha e fazia toda uma descri\u00e7\u00e3o. &#8220;Voc\u00ea vai me desculpar. Pelo que disse, isso n\u00e3o \u00e9 aula de educa\u00e7\u00e3o sexual. Isso \u00e9 aula de higiene corporal para evitar doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis&#8221;. O que eu mais estranhei \u00e9 que n\u00e3o falou duas palavrinhas que para mim s\u00e3o essenciais: afeto e amor. A educa\u00e7\u00e3o tem que ser para o amor.<\/p>\n<p>E por isso que hoje, no Brasil, a durabilidade conjugal \u00e9 de sete anos. Ali\u00e1s, quem \u00e9 casado aqui e j\u00e1 passou disso, pode abrir um vinhozinho hoje \u00e0 noite e comemorar: est\u00e1 no lucro! O Brasil est\u00e1 quase no limite de ter mais separa\u00e7\u00f5es por ano do que casamentos. Falo de casamentos oficiais, porque tem muita gente que se junta a\u00ed e a estat\u00edstica n\u00e3o fica sabendo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o nosso desafio diante da p\u00f3s-modernidade \u00e9 como evitar a mercantiliza\u00e7\u00e3o da vida e da natureza. \u00c9 um desafio pol\u00edtico. Agora, n\u00f3s vamos entrar num ano eleitoral, a escola n\u00e3o pode ficar indiferente. N\u00e3o que a escola vai partidarizar. Mas no dia da matr\u00edcula voc\u00ea diga para os pais que em \u00e9poca de elei\u00e7\u00e3o a gente manda convites para todos os partidos enviarem representantes para apresentarem suas propostas, debater com os alunos.\u00a0 Se veio s\u00f3 um partido, que ningu\u00e9m acuse, porque existe a prova de que todos os partidos foram convidados.<\/p>\n<p>Assim se faz educa\u00e7\u00e3o. Professores falam: &#8220;Eu ensino qu\u00edmica, mas os alunos n\u00e3o se interessam&#8221;. Eu digo: &#8220;Voc\u00ea j\u00e1 experimentou usar o grafite de rua?&#8221;. &#8220;Ah, eu ensino f\u00edsica&#8230;&#8221;. Voc\u00ea j\u00e1 experimentou colocar corrida de f\u00f3rmula 1 como gancho na sua aula de f\u00edsica?\u00a0 &#8220;Ah, ensino matem\u00e1tica&#8230;&#8221;, Usou em aula o pre\u00e7o da feira, do supermercado. Enfim, a gente tem que p\u00f4r o p\u00e9 no ch\u00e3o, na conjuntura dessas realidades.<\/p>\n<p>O ensino n\u00e3o pode ser uma coisa abstrata. O ensino n\u00e3o pode ser algo cartesiano, no mal sentido da palavra. \u00c0s vezes eu imagino que a escola \u00e9 algo que a gente s\u00f3 tem necessidade do pesco\u00e7o para cima. O resto pode ficar em casa. At\u00e9 porque incomoda levantar para ir ao banheiro, fazer a \u00a0merenda&#8230; O ideal seria que s\u00f3 as cabe\u00e7as fossem para as escolas. Isso \u00e9 a proposta cartesiana. Por qu\u00ea?\u00a0 Porque escola, como eu escrevo na minha autobiografia escolar, ignorava o corpo, era uma escola que n\u00e3o dan\u00e7ava, n\u00e3o ensinava pintura, m\u00fasica, era uma escola que achava que trabalho manual era para quem n\u00e3o foi \u00e0 escola. Eu passei 22 anos nos bancos escolares e sai sem saber fazer um reparo simples na eletricidade de casa. Entendi minimamente de mec\u00e2nica, cozinhar, costurar um bot\u00e3o na camisa, lavar um banheiro. Por qu\u00ea? Porque \u00e9 uma escola maneta. Voc\u00ea n\u00e3o precisa levar as m\u00e3os. Basta ir de cabe\u00e7a. At\u00e9 pensei num cineminha de charges assim: <em>Um \u00f4nibus escolar para na rua para pegar os alunos, saem as cabecinhas todas clicando, entram no \u00f4nibus e seguem&#8230; O resto do corpo fica em casa, dormindo etc<\/em>. Eles n\u00e3o sabem o que fazer com o corpo.<\/p>\n<p>A escola que conhece o contexto. Esse \u00e9 um tri\u00e2ngulo geom\u00e9trico pedag\u00f3gico: <strong>texto, contexto, pretexto<\/strong>. A escola \u00e9 um quadrado. Tem quatro \u00e2ngulos: professores, alunos, funcion\u00e1rios e pais. Mas \u00e9 rodeada por um c\u00edrculo: o <strong>contexto social<\/strong> e cultural em que ela est\u00e1 inserida. Uma escola que \u00e9 vizinha de um acampamento de sem-terra n\u00e3o pode ignor\u00e1-lo, uma escola que \u00e9 vizinha de um sindicato, n\u00e3o pode ignor\u00e1-lo, uma escola que \u00e9 vizinha de alguma favela, n\u00e3o pode fazer de conta que ela n\u00e3o existe. A escola tem que trazer o contexto a\u00ed para dentro e saber como estabelecer v\u00ednculos de solidariedade.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, uma escola &#8211; eu falo muito de S\u00e3o Paulo porque moro l\u00e1 &#8211; no fim de semana, pais e alunos fazem oficinas para faxineiras, cozinheiras, porteiros de pr\u00e9dios aprenderem um pouco mais de portugu\u00eas, matem\u00e1tica, culin\u00e1ria, corte e costura, uso de produtos qu\u00edmicos e por a\u00ed vai&#8230; Uma crian\u00e7a que participa disso, o valor dela, o olhar dela, \u00e9 outro. Porque esse \u00e9 um princ\u00edpio pedag\u00f3gico absoluto:<strong> a cabe\u00e7a pensa onde os p\u00e9s pisam.<\/strong> Se os meus p\u00e9s nunca foram aos pobres, como \u00e9 que eu vou ter sensibilidade para com eles? Como ser solid\u00e1rio a eles como Jesus era?<\/p>\n<p>Mas o meu mundo \u00e9 um mundo em que agrade\u00e7o a Deus por n\u00e3o ser como eles. Sem nenhuma consci\u00eancia disso \u00e9 um enorme preconceito. Ent\u00e3o, temos que nos perguntar isso: como \u00e9 que a nossa educa\u00e7\u00e3o se prepara para lidar com o <em>tsunami<\/em> hedonista e consumista da p\u00f3s-modernidade? Como \u00e9 que vamos formar cidad\u00e3os?<\/p>\n<p>No nosso caso de escola cat\u00f3lica, como \u00e9 que n\u00f3s vamos formar disc\u00edpulos de Jesus? N\u00e3o que tenham f\u00e9 em Jesus. O Bush tamb\u00e9m tem f\u00e9 em Jesus, o Hitler tinha f\u00e9 em Jesus, o Pinochet tinha f\u00e9 em Jesus. N\u00e3o \u00e9 isso que importa. <strong>\u00c9 ter a f\u00e9 de Jesus.<\/strong> Isso muda tudo. Que \u00e9 uma f\u00e9 onde descaradamente Deus tem uma op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres. E n\u00e3o porque os pobres sejam melhores do que os ricos, porque ele criou uma humanidade onde n\u00e3o deveria haver pessoas privadas de bens essenciais da vida. N\u00f3s \u00e9 que deturpamos o projeto inicial e n\u00f3s temos que recuper\u00e1-lo, porque Deus \u00e9 Pai mas n\u00e3o \u00e9 paternalista. Se a gente estragou, a gente vai ter que consertar. Como? Jesus j\u00e1 veio ensinar o caminho.<\/p>\n<p>Tem muita gente que me pergunta por que voc\u00ea se mete em pol\u00edtica. Tem duas coisas que muita gente pensa a meu respeito, que n\u00e3o s\u00e3o verdadeiras, mas enfim&#8230;.os boatos correm. Eu nunca fui filiado a partido nenhum e n\u00e3o sou padre. Eu sou frade sem ser padre. A\u00ed me perguntam: qual a diferen\u00e7a? Eu sou que nem freira. Tudo que freira pode, eu posso, tudo que freira n\u00e3o pode, eu n\u00e3o posso. A\u00ed me entendem.\u00a0 Por op\u00e7\u00e3o, o dominicano pode ser irm\u00e3o ou sacerdote. Mas o que eu queria dizer \u00e9 isso: n\u00f3s estamos vivendo um momento em que o principal problema filos\u00f3fico do neoliberalismo \u00e9 a \u201cdesestoriza\u00e7\u00e3o\u201d \u00a0do tempo. N\u00f3s fomos educados na percep\u00e7\u00e3o do tempo como hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>E \u00e9 curioso porque a primeira p\u00e1gina da B\u00edblia revela que at\u00e9 antes do aparecimento do ser humano existe uma historicidade. Que s\u00e3o os cinco primeiros dias da cria\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que S\u00e3o Paulo dizia que a nossa f\u00e9 \u00e9 esc\u00e2ndalo para os gregos. Porque os gregos, quando olhavam a Tor\u00e1, diziam que esses judeus eram malucos. Como \u00e9 que a gente vai acreditar em Jav\u00e9 se para criar o mundo ele precisou de seis dias. Um verdadeiro Deus, \u00e9 onipotente, cria que nem &#8216;nescaf\u00e9&#8217;, instant\u00e2neo. O que os gregos n\u00e3o perceberam \u00e9 que a nossa f\u00e9 \u00e9 visceralmente hist\u00f3rica. No mundo polite\u00edsta, como era o mundo da B\u00edblia, como \u00e9 que se distinguia o Deus dos hebreus? Eu creio em Jav\u00e9, no Deus de Abra\u00e3o, de Isaac e de Jac\u00f3. Um deus que tem hist\u00f3ria. E o neoliberalismo percebeu que consci\u00eancia hist\u00f3rica, percep\u00e7\u00e3o do tempo como hist\u00f3ria, \u00e9 um fator filos\u00f3fico que n\u00e3o me interessa, \u00e9 seu inimigo. A\u00ed vem um imbecil \u00a0nipo-americano, Francis Fukuyama, que \u00e9 um dos fil\u00f3sofos do neoliberalismo, dizer que a hist\u00f3ria acabou.<\/p>\n<p>O crist\u00e3o que minimamente aceita as tr\u00eas virtudes teologais, entre elas a esperan\u00e7a, nunca pode aceitar isso: a hist\u00f3ria acabou. Mas isso entra cada vez mais na ideologia neoliberal atrav\u00e9s da m\u00eddia. Tudo aqui e agora. Sabe, tanto faz como tanto fez. Hoje, voc\u00ea pode achar que o Hitler \u00e9 o m\u00e1ximo, amanh\u00e3 voc\u00ea pode achar que \u00e9 o Che Guevara, n\u00e3o importa. Da\u00ed, a dificuldade das pessoas terem debates pol\u00edticos racionais. Logo resvala para o emocional, por falta de consci\u00eancia hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>E quando a gente n\u00e3o tem a percep\u00e7\u00e3o do tempo como hist\u00f3ria, a gente n\u00e3o sabe <strong>fazer projetos<\/strong>. Nem na vida pessoal, nem na vida art\u00edstica, nem na vida religiosa. E quem n\u00e3o tem projetos n\u00e3o consegue ter <strong>valores<\/strong>. E o projeto \u00e9 o varal onde a gente dependura os valores. Eu me lembro meus pais, que at\u00e9 um deles morrer, viveram juntos 62 anos, n\u00e3o porque era um casal exemplar &#8211; passaram por todos problemas de qualquer casal -, mas porque tinham em fam\u00edlia um projeto. E quando a gente tem um projeto, passa por dificuldades, sofrimentos, \u00a0por exemplo, uma tese de doutorado, mas continua firme porque tem um projeto.<\/p>\n<p>O neoliberalismo est\u00e1 tirando isso. Simplesmente estamos vivendo na ideologia da &#8220;desestoriza\u00e7\u00e3o&#8221; do tempo. Estamos voltando ao tempo c\u00edclico dos gregos. Que \u00e9 anti-b\u00edblico, \u00e9 anti-judaico, \u00e9 anti-crist\u00e3o, eu diria, que \u00e9 anti-natural. Porque tudo tem hist\u00f3ria. A natureza tem hist\u00f3ria. N\u00f3s temos hist\u00f3ria. O universo tem uma hist\u00f3ria. As mulheres que n\u00e3o gostam de dizer a idade, podem dizer sem mentir: eu tenho 13,7 bilh\u00f5es, porque \u00e9 exatamente a idade de cada um de n\u00f3s. O nossos \u00e1tomos, as nossas mol\u00e9culas foram recicladas ao longo de 13,7 bilh\u00f5es de anos. N\u00e3o pense que voc\u00ea \u00e9 pouca coisa. Voc\u00ea \u00e9 e j\u00e1 foi muita coisa. N\u00f3s somos agrega\u00e7\u00e3o daquela primeira explos\u00e3o que produziu apenas 92 ingredientes para fazer tudo que existe no universo. Desde a nossa pele, aos nossos \u00f3culos, a madeira desse p\u00falpito, as estrelas, que \u00e9 tabela peri\u00f3dica, os 92 \u00e1tomos. Voc\u00ea v\u00ea que para criar o universo n\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil, \u00e9 s\u00f3 mensurar bem esses ingredientes. Mas para isso \u00e9 preciso ter m\u00e3os divinas.<\/p>\n<p>Termino com uma par\u00e1bola.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 para formar m\u00e3o de obra qualificada para o mercado; <strong>educa\u00e7\u00e3o \u00e9 para formar pessoas felize<\/strong>s. Esse deveria ser o prop\u00f3sito <strong>n\u00famero 1<\/strong> da educa\u00e7\u00e3o. Pessoas felizes, capazes de amar e ser amadas.<\/p>\n<p>Ora, havia na feira-livre de Calcut\u00e1, uma velhinha, no meio daquelas milhares de barracas, naquele ch\u00e3o imundo, olhando para o ch\u00e3o e procurando alguma coisa. Se voc\u00ea parar numa rua de Curitiba e come\u00e7ar a olhar para o ch\u00e3o, eu garanto que meia d\u00fazia vai parar e achar que voc\u00ea perdeu dinheiro, joia etc. E as pessoas come\u00e7aram a parar at\u00e9 que um rapaz perguntou: &#8220;O que a sra. est\u00e1 procurando?&#8221;. Ela respondeu: &#8220;Uma agulha&#8221;. Ele retrucou: &#8220;A sra. \u00e9 doida. Tem quinhentas barracas aqui que vendem desde agulha para vestidos de noiva at\u00e9 agulha para lona que cobre navio, e a sra. est\u00e1 procurando nessa imund\u00edcie essa agulha?&#8221;. As pessoas, ent\u00e3o, come\u00e7aram a sair. A\u00ed, a sra respondeu: &#8220;Mas \u00e9 uma agulha de ouro&#8221;. As pessoas, ent\u00e3o, voltaram. E Voltaram a procurar, olhavam, olhavam, at\u00e9 que o rapaz novamente perguntou: &#8220;A sra. n\u00e3o tem mais ou menos ideia de onde perdeu a agulha?&#8221;. Ela respondeu: &#8220;Tenho, a cinco quarteir\u00f5es daqui&#8221;. O rapaz respondeu: &#8220;A sra. \u00e9 maluca mesmo! Perdeu uma agulha em casa e est\u00e1 procurando aqui?&#8221;. A velhinha simplesmente disse: &#8220;Exatamente como voc\u00eas fazem. <strong>A felicidade est\u00e1 dentro, mas voc\u00eas procuram fora&#8221;.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Congresso Franciscano<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":221118,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>\u201cEduca\u00e7\u00e3o \u00e9 para formar pessoas felizes\u201d - Not\u00edcias - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/educacao-e-para-formar-pessoas-felizes.html\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"\u201cEduca\u00e7\u00e3o \u00e9 para formar pessoas felizes\u201d - 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