{"id":98008,"date":"2015-11-10T23:00:11","date_gmt":"2015-11-11T01:00:11","guid":{"rendered":"http:\/\/franciscanos.org.br\/?p=98008"},"modified":"2020-01-28T09:30:21","modified_gmt":"2020-01-28T12:30:21","slug":"provocacoes-de-mauro-lopes-aos-comunicadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/provocacoes-de-mauro-lopes-aos-comunicadores.html","title":{"rendered":"Provoca\u00e7\u00f5es de Mauro Lopes aos comunicadores"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/alto_mauro_1.jpg\" alt=\"alto_mauro_1\" width=\"820\" height=\"355\" \/><\/p>\n<p><strong>Moacir Beggo e \u00c9rika Augusto (fotos)<\/strong><\/p>\n<p>Mais do que deixar pistas, o jornalista Mauro Lopes, convidado por Frei Gustavo Medella para assessorar o 3\u00ba Encontro da Frente de Evangeliza\u00e7\u00e3o da Comunica\u00e7\u00e3o, deixou muitas provoca\u00e7\u00f5es aos 40 profissionais de comunica\u00e7\u00e3o que participam deste primeiro dia (10\/11) do encontro na Fraternidade S\u00e3o Boaventura, em Rondinha (PR).<\/p>\n<p>Para refletir sobre o tema &#8220;Comunica\u00e7\u00e3o a servi\u00e7o de uma Igreja em sa\u00edda&#8221;, Frei Medella, que \u00e9 o coordenador da Frente de Comunica\u00e7\u00e3o da Prov\u00edncia da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o, convidou Lopes para falar do Pontificado do Papa Francisco e, dentro desse contexto da Igreja atual, indicar pistas para que ajudem a comunica\u00e7\u00e3o provincial ser mais eficiente e ter uma a\u00e7\u00e3o de mais qualidade na dire\u00e7\u00e3o do que prop\u00f5e o nosso querido Papa Francisco.<\/p>\n<p>Lopes, que \u00e9 tamb\u00e9m ministro da Palavra numa comunidade em Parais\u00f3polis, partiu de tr\u00eas momentos fortes do Pontificado do Papa Francisco para fundamentar sua palestra: a Enc\u00edlica &#8220;Laudato S\u00ed&#8221;, o pronunciamento que fez em Santa Cruz De La Sierra &#8211; a &#8220;Galileia dos tempos atuais&#8221; &#8211; no segundo encontro dos movimentos populares organizado pelo Vaticano (o primeiro foi em Roma), e a fala, que \u00e9 fundamental para entender o Papado de Francisco, \u00e0 C\u00faria Romana no Natal de 2014. Neste discurso est\u00e1 a sua vis\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja, e, portanto, a vis\u00e3o cr\u00edtica que ele projeta \u00e0 Igreja.<\/p>\n<p>Partindo deste momento vivido pela Igreja hoje, Lopes perguntou: &#8220;Em que medida o trabalho de comunica\u00e7\u00e3o que cada um faz dialoga com este projeto &#8211; projeto, sim, porque est\u00e1 sempre em processo &#8211; de Igreja do Papa Francisco, que n\u00e3o \u00e9 um projeto dele, mas \u00e9 a retomada do processo evang\u00e9lico da Igreja de Jesus Cristo?&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo o jornalista, o cristianismo \u00e9 reinoc\u00eantrico. &#8220;O centro da nossa vida \u00e9, portanto, a caminhada para o Reino. Assim como Jesus, os crist\u00e3os olham \u2013 ou deveriam olhar \u2013 para tudo a partir de uma l\u00f3gica reinoc\u00eantrica. O que contribui para a chegada do Reino (tempo e lugar de paz e amor, isento de sofrimento, de fome e de mis\u00e9rias) \u00e9 parte deste percurso. Tudo o que afasta o Reino \u00e9 trai\u00e7\u00e3o a este caminho. Pedro Casald\u00e1glia, um dos maiores l\u00edderes da Igreja, perseguido implacavelmente durante anos pela hierarquia romana e pela ditadura, e hoje doente de Parkinson em S\u00e3o F\u00e9lix do Araguaia, \u00e9 um dos que tornou esta vis\u00e3o essencial do cristianismo em prosa e poesia&#8221;.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Entrevista com o jornalista Mauro Lopes\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/KUf06Cv5B9U?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong>A quest\u00e3o-chave para pensar a comunica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Houve uma leitura, ao longo da hist\u00f3ria da Igreja, da experi\u00eancia mon\u00e1stica como &#8216;fuga do mundo&#8217;. Mas a caminhada reinoc\u00eantrica n\u00e3o \u00e9 uma caminhada que foge do mundo, mas acontece no mundo e \u00e9 orientada para que o mundo seja uma antecipa\u00e7\u00e3o do reino. Esta \u00e9 a ess\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o franciscana. Francisco traz essa dimens\u00e3o de que o reino acontece agora. O reino n\u00e3o \u00e9 algo para depois da morte. Ele acontece agora, neste mundo: no nosso fazer, no nosso cotidiano, no processo relacional, que em fun\u00e7\u00e3o deste projeto se estabelece&#8221;, continuou.<\/p>\n<p>&#8220;O Papa vai dizer logo na abertura da Enc\u00edlica que &#8216;nada neste mundo nos \u00e9 indiferente&#8217;. O reinocentrismo faz com que Francisco n\u00e3o aborde a religi\u00e3o como algo reservado \u00e0s sacristias, semin\u00e1rios e altares, mas como uma rela\u00e7\u00e3o do ser humano com ele mesmo, com o pr\u00f3ximo, com o planeta, com o universo e finalmente com Deus. \u00a0O reino \u00e9 a experi\u00eancia relacional que nos une e conforta neste processo relacional e essa \u00e9 uma quest\u00e3o-chave para pensar a comunica\u00e7\u00e3o&#8221;, disse Lopes.<\/p>\n<p>Segundo ele, h\u00e1 duas maneiras de conceber o ser humano basicamente. &#8220;Uma maneira vai estar presente na filosofia grega, a partir de Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles, com este n\u00facleo existencial que me conforma para o bem ou para o mal. N\u00e3o \u00e9 essa a formula\u00e7\u00e3o que a B\u00edblia vai nos oferecer e que o cristianismo vai estabelecer: o homem n\u00e3o \u00e9 definido pela sua ess\u00eancia. O homem \u00e9 definido pelo seu processo relacional. O que define quem n\u00f3s somos \u00e9 a biografia relacional que nos vamos estabelecer. \u00c9 esse caminho relacional, isso \u00e9 o reino&#8221;, frisou.<\/p>\n<p>Para Mauro, se fosse ess\u00eancia, o homem poderia viver isolado numa ilha. &#8220;N\u00e3o existe homem isolado numa ilha. Mesmo l\u00e1 os nossos irm\u00e3os cartuchos, que s\u00e3o eremitas e vivem cada um na sua casinha isolado, re\u00fanem-se nas horas lit\u00fargicas para um momento da ora\u00e7\u00e3o, para estabelecer todo esse processo relacional&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Os pais e m\u00e3es t\u00eam essa percep\u00e7\u00e3o, mesmo que n\u00e3o tenham esse conhecimento. Quando os pais t\u00eam enorme preocupa\u00e7\u00e3o com a companhia dos filhos, \u00e9 porque sabem que essas companhias \u00e9 que v\u00e3o moldar os seus filhos. S\u00e3o as nossas companhias que moldam quem n\u00f3s somos. Esta teia relacional vai formando o que n\u00f3s somos. Por isso, o processo de ora\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental, por uma s\u00e9rie de coisas, mas porque o processo faz com que esse processo relacional esteja fundamentado por esta rela\u00e7\u00e3o com Deus&#8221;, acrescentou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A jornada como comunicadores<\/strong><\/p>\n<p>Segundo o palestrante, a caminhada para o Reino acontece neste mundo. &#8220;N\u00e3o \u00e9 apenas ajoelhar no banco da igreja, mesmo que seja fundamental, mas \u00e9 amassar barro cotidianamente no processo relacional que fazemos a caminhada para o reino, individualmente, como comunidade, e como Igreja&#8221;, detalhou.<\/p>\n<p>Lopes contou que n\u00e3o teve o privil\u00e9gio de conhecer o frade capuchinho Frei Prudente Nery, mas que quando leu um texto seu, se encantou por ele. &#8220;N\u00e3o o conheci. N\u00e3o tive esse privil\u00e9gio, mas me encantei por ele quando li um texto, &#8216;A vida consagrada \u00e0 luz do mist\u00e9rio trinit\u00e1rio&#8217;, publicado na revista &#8216;Converg\u00eancia'&#8221;, revelou. Ele diz assim:<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 ineg\u00e1vel: h\u00e1, no mundo de nossas experi\u00eancias, muitas palavras, pesadas como chumbo, que nos abatem e magoam; outras, afiadas como navalha, que nos rasgam a alma e outras tantas que apenas nos incomodam pelo seu vazio de sentido, apesar de toda turbul\u00eancia verbal. H\u00e1 coisas que nada nos dizem. H\u00e1 paisagens \u00e1ridas, encontros f\u00fateis e rela\u00e7\u00f5es que ligam nada a coisa alguma&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Para Mauro, isso \u00e9 parte do que o mundo nos oferece. &#8220;Quem conhece o mundo a partir da tela de televis\u00e3o sabe que \u00e9 um mundo pautado por isso. Em S\u00e3o Paulo, \u00e9 incr\u00edvel\u00a0 como as pessoas chegam a n\u00e3o sair de casa porque veem esses programas policiais e acham que se sa\u00edrem v\u00e3o ser mortas. Eu ando em Parais\u00f3polis h\u00e1 anos e nunca aconteceu nada. Claro que pode acontecer, como em qualquer cidade ou qualquer lugar. Essa \u00e9 uma oferta que o mundo nos faz. Mas Frei Prudente tamb\u00e9m diz:<\/p>\n<p>&#8220;Mas h\u00e1 tamb\u00e9m, neste mundo, alguns instantes, raros certamente, em que, descerrando quase o v\u00e9u de seu inviol\u00e1vel mist\u00e9rio, nos visita o absoluto sentido de todas as coisas. O instante e o lugar onde isto se der ser-nos-\u00e3o para sempre preciosos, como um peda\u00e7o do c\u00e9u, um reino de felicidades, por ter sido o lugar do encontro do que, apaixonadamente, tanto busc\u00e1vamos&#8221;.<\/p>\n<p>Mauro explica que \u00e9 como colocar gasolina no motor do carro. &#8220;\u00c9 esse momento de a gasolina ser colocada que nos faz rodar para esperar o pr\u00f3ximo encontro&#8221;. Ele exemplificou com os momentos de aridez que viveu Madre Teresa de Calcut\u00e1, s\u00f3 revelados nas cartas ao seu diretor espiritual. &#8220;A gente via aquela mulher pequenininha rezando bastante e n\u00e3o t\u00ednhamos ideia do sofrimento dela. Ela passou d\u00e9cadas alimentada por esse encontro que teve l\u00e1 na juventude e depois foi ter apenas l\u00e1 no final da vida&#8221;, disse.<\/p>\n<p>Continua Frei Prudente: &#8220;E a\u00ed saberemos: o mundo n\u00e3o \u00e9 apenas o irremedi\u00e1vel a\u00ed de nosso ser, ele \u00e9 tamb\u00e9m o lugar dos primeiros acenos e encontros de um eterno amor. Este mundo nunca deixar\u00e1 de ser finito, banal, profano e, em si mesmo, desimportante&#8230; tenda prec\u00e1ria, impr\u00f3pria e indigna para aquele que imaginamos nas alturas inalcan\u00e7\u00e1veis ou nas profundezas impenetr\u00e1veis, mas o \u00fanico lugar em que agora \u00e9 poss\u00edvel a Deus, ainda que humildemente retra\u00eddo estar junto dos homens e aos homens estarem perto de Deus\u201d.<\/p>\n<p>&#8220;A nossa jornada como homens, mulheres, como comunicadores, comunidade, Ordem, Igreja, \u00e9 a jornada de buscar esses momentos de encontro. De propiciar e vivermos esses momentos, sobretudo vivermos esses momentos de encontro. Se n\u00f3s somos definidos pela rela\u00e7\u00e3o que estabelecemos, ent\u00e3o n\u00f3s somos definidos pelo que n\u00f3s somos e pelo ambiente que est\u00e1 criado por n\u00f3s&#8221;, emendou Mauro.<\/p>\n<p>O jornalista lembrou que no final dos anos 80, come\u00e7o dos anos 90, falava-se muito em aura. &#8220;Ela tem uma raz\u00e3o de ser. Cada um de n\u00f3s, em fun\u00e7\u00e3o desse processo relacional, cria um ambiente. Ent\u00e3o, voc\u00ea encontra uma pessoa e diz: &#8216;Nossa que pessoa do bem; ou nossa que pessoa amarga&#8217;. Esse ambiente vai permeando as rela\u00e7\u00f5es, e naturalmente vaza para o nosso trabalho&#8221;, disse.<\/p>\n<p><strong>E mais uma vez ele provocou: &#8220;Se a nossa atividade, como comunicadores, consegue criar esse ambiente, ela \u00e9 uma atividade que nos coloca no caminho do reino&#8221;.<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/mauro_4.jpg\" alt=\"mauro_4\" width=\"820\" height=\"433\" \/><\/p>\n<p><strong>O n\u00facleo da Igreja<\/strong><\/p>\n<p>E \u00e9 por isso que Francisco vai fazer um movimento radical no seu Papado e coloca a Igreja numa trajet\u00f3ria no n\u00facleo de onde nunca deveria ter sa\u00eddo.<\/p>\n<p>Por isso, o olhar de Francisco para o mundo se traduz numa leitura radicalmente anticapitalista, de cr\u00edtica ao imp\u00e9rio do dinheiro, da explora\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o dos homens e do planeta, tal como Jesus o formulou originalmente. Causou esc\u00e2ndalo entre os conservadores a afirma\u00e7\u00e3o de Francisco no encontro dos movimentos populares na Bol\u00edvia, quando ele qualificou o dinheiro como o \u201cesterco do diabo\u201d. Mas, como a opera\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica global \u00e9 sempre reduzir e simplificar para caber numa foto legenda, n\u00e3o se leu a afirma\u00e7\u00e3o toda do Papa, que \u00e9 muito mais violenta que a express\u00e3o: \u201cE por tr\u00e1s de tanto sofrimento, tanta morte e destrui\u00e7\u00e3o, sente-se o cheiro daquilo que Bas\u00edlio de Cesareia chamava \u2018o esterco do diabo\u2019: reina a ambi\u00e7\u00e3o desenfreada de dinheiro. O servi\u00e7o ao bem comum fica em segundo plano. Quando o capital se torna um \u00eddolo e dirige as op\u00e7\u00f5es dos seres humanos, quando a avidez do dinheiro domina todo o sistema socioecon\u00f4mico, arru\u00edna a sociedade, condena o homem, transforma-o em escravo, destr\u00f3i a fraternidade inter-humana, faz lutar povo contra povo e at\u00e9, como vemos, p\u00f5e em risco esta nossa casa comum.\u201d<\/p>\n<p>O Papa aqui (como em toda a sua prega\u00e7\u00e3o) nada mais fez que atualizar o ensinamento de Jesus Cristo: \u201cNingu\u00e9m pode servir a dois senhores. Com efeito, se odiar\u00e1 um e amar\u00e1 o outro, ou se apegar\u00e1 ao primeiro e desprezar\u00e1 o segundo. N\u00e3o se pode servir a Deus e ao Dinheiro\u201d (Mt 6,24). \u00c9 patente, em diversas passagens dos Evangelhos, a clarivid\u00eancia de Jesus quanto ao fato de que ou o dinheiro media as rela\u00e7\u00f5es humanas, e neste caso prevalece o interesse egocentrado de cada um, ou Deus, o Amor, \u00e9 este mediador, o que abre a possibilidade de rela\u00e7\u00f5es de solidariedade e partilha. Francisco vocaliza esta percep\u00e7\u00e3o original do cristianismo.<\/p>\n<p>Este caminho n\u00e3o se faz na avenida principal. Cristo n\u00e3o escolheu Roma, nem Jerusal\u00e9m. Sua jornada foi nas aldeias perdidas da Galileia, uma regi\u00e3o pobre e esquecida. \u00c9 esta compreens\u00e3o que fez o Papa escolher como um dos centros de sua mensagem o tema das \u201cperiferias existenciais\u201d. Jesus n\u00e3o procurou o centro \u2013 manteve-se nas margens. Sabia que se ocupasse o centro seria tragado e mo\u00eddo pela l\u00f3gica do sistema. Mas, paradoxalmente, mantendo-se \u00e0 margem, ocupou e ocupa o centro da hist\u00f3ria da humanidade. \u00c9 o que faz Francisco. Sua escolha \u00e9 estar entre os mais pobres, os deserdados. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que ele escolheu a Bol\u00edvia, uma Galileia na dimens\u00e3o do planeta, para algumas das afirma\u00e7\u00f5es cruciais de seu papado. O discurso de Francisco no encontro dos movimentos populares tem cheiro de Serm\u00e3o da Montanha, especialmente o trecho das bem-aventuran\u00e7as (Mt 5, 1-12).<\/p>\n<p>&#8220;Qual \u00e9 o lugar que voc\u00eas escolhem para os ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o de voc\u00eas, para a comunica\u00e7\u00e3o de voc\u00eas, para a mensagem que v\u00e3o levar e, sobretudo, para as rela\u00e7\u00f5es que voc\u00eas estabelecem?&#8221;, perguntou Mauro.<\/p>\n<p>Mauro prop\u00f4s uma leitura da &#8220;Laudato S\u00ed&#8221; e, a partir dessa leitura, pensar um processo comunicacional dos franciscanos a partir de 4 chaves de leitura:<\/p>\n<p><strong>1\u00aa A centralidade dos pobres<\/strong><\/p>\n<p><strong>2\u00aa A cr\u00edtica radical que o Papa faz ao antropocentrismo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>3\u00aa O deslocamento da Igreja do centro para a periferia (da c\u00e1tedra para a roda=di\u00e1logo) (a gente nunca v\u00ea Jesus pontificando. Ele est\u00e1 sempre conversando em roda. Os evangelhos s\u00e3o di\u00e1ologos o tempo todo)<\/strong><\/p>\n<p><strong>4\u00aa Qual \u00e9 o contexto da elabora\u00e7\u00e3o da Laudato S\u00ed?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/alto_5.jpg\" alt=\"alto_5\" width=\"820\" height=\"401\" \/><\/p>\n<p><strong>AS QUATRO CHAVES\u00a0DE LEITURA &#8211; \u00cdNTEGRA<\/strong><\/p>\n<p><strong>A centralidade dos pobres<\/strong><\/p>\n<p>O t\u00edtulo, a abertura e a \u201cinspira\u00e7\u00e3o po\u00e9tica\u201d da enc\u00edclica s\u00e3o tomadas emprestadas por Francisco daquele que se tornou o primeiro Francisco, o de Assis. O t\u00edtulo, Laudato Si, Louvado Sejas, \u00e9 o bord\u00e3o de uma das mais conhecidas obras do \u201cpobrezinho de Assis\u201d, o C\u00e2ntico das Criaturas.<\/p>\n<p>Logo no t\u00f3pico 1, o Papa, num gesto sem precedentes, como que convoca \u00e0 congrega\u00e7\u00e3o das vis\u00f5es da Terra como irm\u00e3 e m\u00e3e, reunindo espiritualidades de quadrantes distintos, convergidas s\u00e9culos atr\u00e1s pelo outro Francisco: \u201cLaudato s\u00ed, mi\u2019 Signore \u2013 Louvado sejas, meu Senhor, cantava S\u00e3o Francisco de Assis. Neste gracioso c\u00e2ntico, recordava-nos que a nossa casa comum se pode comparar ora a uma irm\u00e3, com quem partilhamos a exist\u00eancia, ora a uma boa m\u00e3e, que nos acolhe nos seus bra\u00e7os: \u2018Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irm\u00e3, a m\u00e3e terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras\u2019\u201d (1). Como n\u00e3o escutar aqui eco dos Andes peruanos e bolivianos, dos sert\u00f5es da Argentina e do Chile onde se reverencia a M\u00e3e (Mama) Terra (Pacha), a Pachamama quechua, sustentadora da vida, da fertilidade, da alegria?<\/p>\n<p>A seguir, no segundo t\u00f3pico, Francisco enterra a abordagem do planeta como objeto de uso e o elege como casa comum, de todos, e coloca os pobres no centro da quest\u00e3o ecol\u00f3gica ao afirmar a pr\u00f3pria Terra como uma pobre por excel\u00eancia: \u201cEntre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada\u201d (2).<\/p>\n<p>Ao longo de seu texto, Francisco menciona os pobres quase quarenta vezes, tornando-os o centro de sua reflex\u00e3o sobre o planeta, recuperando a elabora\u00e7\u00e3o original da Igreja, abandonada ao longo de s\u00e9culos. N\u00e3o \u00e9 uma novidade em se tratando do Papa, que vem afirmando esta centralidade desde o in\u00edcio, em fevereiro de 2013. A Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica <em>Evangelii Gaudium<\/em> (A alegria do Evangelho), seu primeiro texto mais abrangente e profundo, de novembro daquele ano, mergulhava neste mar de sentido que se elabora a partir de Jesus, da vida e da po\u00e9tica de S\u00e3o Francisco e do melhor da tradi\u00e7\u00e3o da Igreja e que se consagrou, no Conc\u00edlio Vaticano II, numa express\u00e3o que, com os ventos conservadores que gelam cora\u00e7\u00f5es e mentes, tornou-se um esc\u00e2ndalo: op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres. Escolha pelo cuidado com aquele ou aquela que \u00e9 fr\u00e1gil, que est\u00e1 posto \u00e0 margem, que sofre com a domina\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o do sistema.<\/p>\n<p>Na Enc\u00edclica, Francisco apoia-se em sua exorta\u00e7\u00e3o de quase tr\u00eas anos atr\u00e1s: \u201cNas condi\u00e7\u00f5es atuais da sociedade mundial, onde h\u00e1 tantas desigualdades e s\u00e3o cada vez mais numerosas as pessoas descartadas, privadas dos direitos humanos fundamentais, o princ\u00edpio do bem comum torna-se imediatamente, como consequ\u00eancia l\u00f3gica e inevit\u00e1vel, um apelo \u00e0 solidariedade e uma op\u00e7\u00e3o preferencial pelos mais pobres. Esta op\u00e7\u00e3o implica tirar as consequ\u00eancias do destino comum dos bens da terra, mas \u2013 como procurei mostrar na exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica <em>Evangelii Gaudium<\/em> \u2013 exige acima de tudo contemplar a imensa dignidade do pobre \u00e0 luz das mais profundas convic\u00e7\u00f5es de f\u00e9. Basta observar a realidade para compreender que, hoje, esta op\u00e7\u00e3o \u00e9 uma exig\u00eancia \u00e9tica fundamental para a efetiva realiza\u00e7\u00e3o do bem comum.\u201d (158)<\/p>\n<p>A absoluta centralidade dos pobres foi reafirmada de maneira ainda mais radical no discurso de Francisco no encerramento do II Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em La Paz, quando o Papa afirma-os como os \u00fanicos protagonistas poss\u00edveis da mudan\u00e7a: \u201cAtrevo-me a dizer que o futuro da humanidade est\u00e1, em grande medida, nas vossas m\u00e3os, na vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas na busca di\u00e1ria dos \u201c3 T\u201d (trabalho, teto, terra), e tamb\u00e9m na vossa participa\u00e7\u00e3o como protagonistas nos grandes processos de mudan\u00e7a nacionais, regionais e mundiais. N\u00e3o se acanhem!\u201d<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/mauro_2.jpg\" alt=\"mauro_2\" width=\"820\" height=\"422\" \/><\/p>\n<p><strong>A cr\u00edtica do antropocentrismo moderno<\/strong><\/p>\n<p>O Papa faz na Enc\u00edclica uma cr\u00edtica \u00e1cida do antropocentrismo moderno que acabou por deslocar o ser humano do centro, pois o colocou acima de tudo \u2013 at\u00e9 dele mesmo, afirmando \u201ca raz\u00e3o t\u00e9cnica acima da realidade\u201d (115), ou seja: o duplo dinheiro + tecnologia assumiu o cora\u00e7\u00e3o do mundo desenhado pelos sistemas dominantes. Na verdade, houve uma opera\u00e7\u00e3o no interior do capitalismo na qual o antropocentrismo moderno lan\u00e7ou o homem \u00e0s margens e, ao colocar a tecnologia e o dinheiro no centro, recentralizou o homem, mas n\u00e3o todos, apenas os que dominam a tecnologia, o poder o dinheiro (o <em>homus economicus<\/em>). Esta consci\u00eancia aguda fez com que o Papa, na Bol\u00edvia, qualificasse o capitalismo de \u201cditadura sutil\u201d.<\/p>\n<p>Na enc\u00edclica, Francisco p\u00f5e o dedo na ferida e n\u00e3o isenta a Igreja de sua responsabilidade: \u201cNos tempos modernos, verificou-se um not\u00e1vel excesso antropoc\u00eantrico, que hoje, com outra roupagem, continua a minar toda a refer\u00eancia a algo de comum e qualquer tentativa de refor\u00e7ar os la\u00e7os sociais. (\u2026) Uma apresenta\u00e7\u00e3o inadequada da antropologia crist\u00e3 acabou por promover uma concep\u00e7\u00e3o errada da rela\u00e7\u00e3o do ser humano com o mundo. Muitas vezes foi transmitido um sonho prometeico de dom\u00ednio sobre o mundo, que provocou a impress\u00e3o de que o cuidado da natureza fosse atividade de fracos. Mas a interpreta\u00e7\u00e3o correta do conceito de ser humano como senhor do universo \u00e9 entend\u00ea-lo no sentido de administrador respons\u00e1vel\u201d (116). Ou seja, o homem \u00e9 mais o cuidador do jardim que o seu dono. Este \u00e9 um dos cernes da enc\u00edclica ao apontar o \u201ccuidado com a casa comum\u201d como principal atividade da humanidade na rela\u00e7\u00e3o com o planeta.<\/p>\n<p>Este novo olhar para o homem e sua rela\u00e7\u00e3o com o planeta (a cria\u00e7\u00e3o, para n\u00f3s crist\u00e3os), fez com que o Papa apresentasse, na enc\u00edclica a vis\u00e3o de uma Ecologia Integral. Todo o cap\u00edtulo 4 da Laudato S\u00ed \u00e9 dedicado a esta articula\u00e7\u00e3o: \u201cDado que tudo est\u00e1 intimamente relacionado e que os problemas atuais requerem um olhar que tenha em conta todos os aspectos da crise mundial, proponho que nos detenhamos agora a refletir sobre os diferentes elementos duma ecologia integral, que inclua claramente as dimens\u00f5es humanas e sociais.\u201d (137)<\/p>\n<p>A ideia de uma ecologia integral abrangente e generosa \u00e9, na vis\u00e3o de Leonardo Boff, uma das principais fontes de Francisco: \u201cN\u00e3o h\u00e1 verdadeira ecologia, de express\u00e3o nenhuma, seja ambiental, social, mental e seja integral, caso n\u00e3o resgate a humanidade humilhada dos milh\u00f5es de empobrecidos de nossa hist\u00f3ria, naqueles nos quais a Terra como m\u00e3e \u00e9 mais agredida e ofendida. O Papa Francisco comparece como zeloso cuidador da Casa Comum. Mostra-se extremamente coerente com a marca registrada da Igreja da liberta\u00e7\u00e3o latino-americana com sua correspondente teologia que \u00e9 a op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres, contra a pobreza e a favor da justi\u00e7a social e de sua liberta\u00e7\u00e3o. O oposto da pobreza n\u00e3o \u00e9 a riqueza. \u00c9 a justi\u00e7a social de propor\u00e7\u00f5es estruturais e mundiais. A forma mais adequada para enfrentar esta pobreza \u00e9 a ecologia integral que articula \u2018tanto o grito da Terra quanto o grito do pobre\u2019(n.49)\u201d, escreveu o te\u00f3logo em seu blog dia 05 de julho.<\/p>\n<p>A ideia de uma ecologia integral reabre o tempo para um novo antropocentrismo no qual o homem est\u00e1 no centro a partir de uma teia de rela\u00e7\u00f5es consigo pr\u00f3prio, com Deus, com o pr\u00f3ximo, o planeta e o universo, numa din\u00e2mica de luz e mist\u00e9rio. Isto implica uma mudan\u00e7a radical de perspectiva, o que na Igreja qualifica-se de convers\u00e3o: \u201cRecordemos o modelo de S\u00e3o Francisco de Assis, para propor uma s\u00e3 rela\u00e7\u00e3o com a cria\u00e7\u00e3o como dimens\u00e3o da convers\u00e3o integral da pessoa. Isto exige tamb\u00e9m reconhecer os pr\u00f3prios erros, pecados, v\u00edcios ou neglig\u00eancias, e arrepender-se de cora\u00e7\u00e3o, mudar a partir de dentro\u201d (218). Esta ideia de uma convers\u00e3o que reconcilia o homem consigo pr\u00f3prio e com o universo est\u00e1 presente na formula\u00e7\u00e3o original de Jesus e foi captada de maneira bela por S\u00e3o Paulo, na sua Cara aos Colossenses (Cl 5, 19-20): \u201cPorque Deus, a Plenitude total, quis n\u2019Ele habitar, para, por meio d\u2019Ele, reconciliar consigo todas as coisas, tanto as terrestres como as celestes, estabelecendo a paz pelo seu sangue derramado na cruz\u201d \u2013 o catolicismo romanos, que durante s\u00e9culos pretendeu ser o centro do universo, em Francisco retoma a trajet\u00f3ria original para ser express\u00e3o de di\u00e1logo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/alto_6.jpg\" alt=\"alto_6\" width=\"820\" height=\"322\" \/><\/p>\n<p><strong>O deslocamento da Igreja para a periferia<\/strong><\/p>\n<p>A vis\u00e3o imperial da Igreja cultivada por s\u00e9culos fez com que a institui\u00e7\u00e3o roubasse para si a centralidade do cristianismo e passasse a se entender como hierarquia. Ou seja, ao longo de s\u00e9culos, cristalizou-se a vis\u00e3o de que a Igreja seria sua hierarquia, Papa, cardeais, bispos, padres. Apenas no Conc\u00edlio Vaticano II, no in\u00edcio dos anos 1960, sob a lideran\u00e7a de outro Papa alegre e amoroso, Jo\u00e3o XXIII, \u00e9 que a ideia foi combatida e assumiu-se o conceito de Igreja com Povo de Deus. Entretanto, nem sequer estava encerrado o Conc\u00edlio, e a c\u00fapula da C\u00faria Romana j\u00e1 combatia a nova vis\u00e3o, asfixiando-a no jogos de poder palacianos. O embate entre as duas vis\u00f5es de Igreja, analisado por Leonardo Boff em seu \u201cIgreja, Carisma e Poder\u201d, levaram-no, nos anos 1980, a ser censurado, condenado ao sil\u00eancio, suspenso nas atividades acad\u00eamicas e editorias at\u00e9 que, em 1991, na imin\u00eancia de novas san\u00e7\u00f5es, ele desligou-se do sacerd\u00f3cio, sem nunca ter sa\u00eddo da Igreja ou perdido a alma franciscana.<\/p>\n<p>Francisco assumiu a vis\u00e3o do Conc\u00edlio e, na enc\u00edclica, uma das express\u00f5es mais relevantes desta escolha est\u00e1\u2026 nas notas de rodap\u00e9! Pode parecer irrelevante, mas as notas de rodap\u00e9, a bibliografia de um texto s\u00e3o sempre reveladoras das fontes e do percurso e, portanto, ajudam a saber o caminho do autor e iluminam a pergunta inicial deste artigo: at\u00e9 onde? H\u00e1 dois artigos que chamam a aten\u00e7\u00e3o para este tema, do vaticanista John Allen Jr, publicado originalmente no jornal cat\u00f3lico Crux\u00a0 e do te\u00f3logo americano Kevin Ahem, publicado no site America.<\/p>\n<p>Os dois antecessores de Francisco, Bento XVI e Jo\u00e3o Paulo II, em suas enc\u00edclicas sociais referiram-se basicamente aos seus pr\u00f3prios ensinamentos ou de outros Papas, com algumas cita\u00e7\u00f5es de santos\/te\u00f3logos relevantes ou no dicast\u00e9rios romanos (algo como os minist\u00e9rios da C\u00faria Romana); n\u00e3o h\u00e1 registro de fontes n\u00e3o cat\u00f3licas. Na enc\u00edclica de Francisco, tudo mudou: 21 das 172 notas de rodap\u00e9 s\u00e3o in\u00e9ditas cita\u00e7\u00f5es de documentos das confer\u00eancias (e conselhos) episcopais de todo o mundo, o que materializa o pensamento de Francisco como bispo de Roma ao lado dos demais bispos do mundo e n\u00e3o como imperador do centro da cristandade, na vis\u00e3o conservadora. Algumas outras cita\u00e7\u00f5es que s\u00e3o singulares, impens\u00e1veis at\u00e9 agora: o mestre sufi Ali Al-Khawwas (cita\u00e7\u00e3o totalmente sem precedentes); o padre franc\u00eas, cientista e m\u00edstico Teilhard de Chardin, outro censurado e perseguido por anos a fio pela hierarquia cat\u00f3lica e at\u00e9 hoje olhado com desconfian\u00e7a pela C\u00faria: o fil\u00f3sofo protestante Paul Ricoeur; o te\u00f3logo da liberta\u00e7\u00e3o Juan Carlos Scannone, professor do papa Francisco; o fil\u00f3sofo brasileiro Marcelo Perini; e a Carta da Terra, um documento de converg\u00eancia, que envolveu mais de 100 mil pessoas de 46 pessoas e foi aprovado pela ONU em mar\u00e7o de 2000.<\/p>\n<p>A este deslocamento intelectual corresponde outro, o de arrancar a Igreja Cat\u00f3lica de um caminho imperial, de soberba e arrog\u00e2ncia, e recoloc\u00e1-la numa trilha de humildade e comunh\u00e3o com a humanidade, de volta \u00e0s origens.<\/p>\n<p>Uma express\u00e3o radical deste retorno foi um dos momentos de maior impacto no encontro da Bol\u00edvia, quando o Papa pediu desculpas pelos crimes cometidos pela Igreja contra os povos da Am\u00e9rica: \u201cAqui quero deter-me num tema importante. \u00c9 que algu\u00e9m poder\u00e1, com direito, dizer: \u2018Quando o Papa fala de colonialismo, esquece-se de certas a\u00e7\u00f5es da Igreja\u2019. Com pesar, digo: cometeram-se muitos e graves pecados contra os povos nativos da Am\u00e9rica, em nome de Deus. Reconheceram-no os meus antecessores, afirmou-o o CELAM e quero reafirm\u00e1-lo eu tamb\u00e9m. Como S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, pe\u00e7o que a Igreja \u2018se ajoelhe diante de Deus e implore o perd\u00e3o para os pecados passados e presentes dos seus filhos\u2019.\u00a0 E eu quero dizer-vos, quero ser muito claro, como foi S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II: Pe\u00e7o humildemente perd\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 para as ofensas da pr\u00f3pria Igreja, mas tamb\u00e9m para os crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da Am\u00e9rica\u201d.<\/p>\n<p>De fato, Jo\u00e3o Paulo II havia pedido perd\u00e3o, e n\u00e3o apenas pelos crimes na Am\u00e9rica, mas igualmente o havia feito pelo crime de apoio \u00e0 escravid\u00e3o dos povos na \u00c1frica, mas no contexto de um papado ainda mergulhado numa vis\u00e3o \u201ceclesioc\u00eantrica\u201d (a Igreja no centro) e n\u00e3o reinoc\u00eantrica (a mensagem de Jesus do Reino de Deus no centro).<\/p>\n<p>Outro pedido de desculpas do Papa Francisco aconteceu semanas atr\u00e1s, em Turim, na It\u00e1lia, e foi de uma contund\u00eancia \u00edmpar: \u201cPor parte da Igreja Cat\u00f3lica, eu lhes pe\u00e7o perd\u00e3o pelas atitudes e os comportamentos n\u00e3o crist\u00e3os, at\u00e9 mesmo n\u00e3o humanos que, na hist\u00f3ria, tivemos contra voc\u00eas. Em nome do Senhor Jesus Cristo, perdoem-nos!\u201d. Os n\u00e3o cat\u00f3licos talvez n\u00e3o tenham dimens\u00e3o do que significa um papa apontar atos criminosos da Igreja e qualific\u00e1-los como n\u00e3o crist\u00e3os e mesmo n\u00e3o humanos. Significa enterrar o mito de que a Igreja \u00e9 isenta de pecado, de falhas, que faz com que at\u00e9 hoje entre cat\u00f3licos qualquer cr\u00edtica seja vista como dissen\u00e7\u00e3o, agress\u00e3o. At\u00e9 o papado de Francisco esta vis\u00e3o da infalibilidade e da \u201ccastidade\u201d da Igreja era dogma oficial, ou oficialiesco, pois o assunto sempre foi empurrado para baixo dos tapetes dos pal\u00e1cios eclesiais.<\/p>\n<p>Agora acabou. No caso, aqui, trata-se da odiosa persegui\u00e7\u00e3o aos valdenses, um movimento religioso liderado por Pedro Valdo, um comerciante de Lyon, em 1174. Seu crime? Mandou traduzir a B\u00edblia para a linguagem corrente e distribuiu-a \u00e0s pessoas na cidade, num tempo em que era proibido circular o texto sagrado em qualquer l\u00edngua que n\u00e3o fosse o latim e no qual a B\u00edblia era praticamente propriedade da hierarquia eclesial. No Conc\u00edlio Vaticano II, em pleno s\u00e9culo 20, a proibi\u00e7\u00e3o do uso da l\u00edngua vern\u00e1cula e do uso da B\u00edblia pelos fi\u00e9is cairia de vez, depois de ir desmoronando por anos a fio. A ousadia de Valdo, que vendeu todos os seus bens e os distribuiu aos pobres, rendeu-lhe anos de persegui\u00e7\u00f5es, que se tornaram s\u00e9culos, a seus seguidores.<\/p>\n<p>Mas nada se compara ao emocionado pedido de desculpas a jovens v\u00edtimas de abuso sexual por parte do clero, numa missa privada na capela da Casa Santa Marta, em 7 de julho de 2014. Na ocasi\u00e3o, Francisco qualificou a onda de crimes cometidos por padres, bispos e cardeais, com acobertamento c\u00famplice de seus pares como \u201cuma terr\u00edvel obscuridade na vida da Igreja\u201d.<\/p>\n<p>Esta peregrina\u00e7\u00e3o rumo \u00e0 humildade j\u00e1 podia ser intu\u00edda quando Bergoglio foi apresentado como Papa Francisco, em 19 de mar\u00e7o de 2013. Ele apareceu ao povo num balc\u00e3o do Vaticano de roupa branca, simples, com uma cruz de lat\u00e3o, e n\u00e3o de ouro. E, num gesto cujo simbolismo s\u00f3 hoje pode ser dimensionado, inclinou-se, reverente, para a multid\u00e3o que o aclamava e imediatamente emudeceu. Rever o v\u00eddeo permite entender melhor o significado daquele dia, quando todos ainda estavam perplexos e desconfiados.<\/p>\n<p>Mais uma vez, os n\u00e3o cat\u00f3licos talvez tenham dificuldade para avaliar a import\u00e2ncia simb\u00f3lica dos gestos do Papa, mas ele aparecer numa missa em Kosovo (em 6 e junho \u00faltimo) com a f\u00e9rula (bast\u00e3o papal) remendado com fita crepe \u00e9 algo inimagin\u00e1vel e que deixa os conservadores babando de \u00f3dio. Francisco, humildemente, sinaliza que sua autoridade nasce na mesma fonte de onde nascia a do outro Francisco e a de Jesus. A foto \u00e9 impactante (ao lado):<\/p>\n<p>Ir \u00e0s \u201cperiferias existenciais\u201d \u00e9, para a Igreja, ajoelhar-se diante da humanidade. Em 16 de maio, Francisco tuitou: \u201c\u00c9 melhor uma Igreja ferida, mas pela estrada, que uma Igreja doente porque fechada em si mesma.\u201d<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/mauro_5.jpg\" alt=\"mauro_5\" width=\"820\" height=\"404\" \/><\/p>\n<p><strong>\u00c9 no contexto desta Igreja ferida que se explica o evento Francisco<\/strong><\/p>\n<p>A enc\u00edclica e sua elabora\u00e7\u00e3o no contexto do papado de Francisco e dos movimentos no interior da Igreja \u2013 como o Papa est\u00e1 colocando a Igreja em rota de colis\u00e3o com o capitalismo<\/p>\n<p>Por fim, Laudato S\u00ed e a trajet\u00f3ria do Papa devem ser vistas \u00e0 luz do dos movimentos no interior da Igreja e do caminho de convers\u00e3o do pr\u00f3prio Francisco.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria de Jorge Maria Bergoglio guarda espantosa semelhan\u00e7a com a do arcebispo de San Salvador, dom Oscar Romero. A beatifica\u00e7\u00e3o de Romero, desde 23 de maio \u00faltimo, agora santo padroeiro dos pobres da Am\u00e9rica Latina, ficou obstru\u00edda por quase 20 anos pela C\u00faria Romana, at\u00e9 que o pr\u00f3prio Francisco desse ordem direta para a retomada do processo. Os cat\u00f3licos conservadores sempre viram em Romero um s\u00edmbolo da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, a quem moveram persegui\u00e7\u00e3o sem tr\u00e9guas desde os anos 70. O pr\u00f3prio arcebispo, sucessivamente amea\u00e7ado de morte pelos esquadr\u00f5es paramilitares em El Salvador, foi praticamente abandonado por Jo\u00e3o Paulo II. Em 24 de mar\u00e7o de 1980 foi assassinado por um atirador de elite do ex\u00e9rcito enquanto celebrava missa na capela de um hospital.<\/p>\n<p>Romero, como Francisco, come\u00e7ou sua trajet\u00f3ria como um padre conservador. Namorava a elite salvadorenha e tinha uma rela\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria com os leigos e, depois, com seus colegas padres, na medida em que foi ascendendo inicialmente na hierarquia.<\/p>\n<p>Ler o depoimento reflexivo do Papa Francisco \u00e0 revista jesu\u00edta &#8220;La Civilt\u00e0 Cattolica&#8221;, posteriormente publicada por uma rede de publica\u00e7\u00f5es da ordem e por &#8220;L\u2019Osservatore Romano&#8221;, em setembro de 2013, \u00e9 revelador deste percurso: \u201cO meu governo como jesu\u00edta no in\u00edcio tinha muitos defeitos. Est\u00e1vamos num tempo dif\u00edcil para a Companhia: tinha desaparecido uma inteira gera\u00e7\u00e3o de jesu\u00edtas. Por isto, vi-me nomeado Provincial ainda muito jovem. Tinha 36 anos: uma loucura. Era preciso enfrentar situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis e eu tomava as decis\u00f5es de modo brusco e individualista. Sim, devo acrescentar, no entanto, uma coisa: quando entrego uma coisa a uma pessoa, confio totalmente nessa pessoa. Ter\u00e1 que cometer um erro verdadeiramente grande para que eu a repreenda. Mas, apesar disto, as pessoas acabam por se cansar do autoritarismo. O meu modo autorit\u00e1rio e r\u00e1pido de tomar decis\u00f5es levou-me a ter s\u00e9rios problemas e a ser acusado de ser ultraconservador. Vivi um tempo de grande crise interior quando estava em C\u00f3rdoba. Claro, n\u00e3o, n\u00e3o sou certamente como a Beata Imelda, mas nunca fui de direita. Foi o meu modo autorit\u00e1rio de tomar decis\u00f5es que criou problemas\u201d.<\/p>\n<p>Por isso, a elei\u00e7\u00e3o de Bergoglio surpreendeu tanto e gerou expectativas desencontradas e uma onda inicial de desconfian\u00e7a ao lado de esperan\u00e7as que pareciam sem fundamento qualquer h\u00e1 dois anos e meio. Conheci no fim de 2014 um grupo de freiras que conviveram com Bergoglio no per\u00edodo que ele menciona na entrevista, quando era superior dos jesu\u00edtas (inicio\/meados dos anos 1970). Elas queixaram-se amargamente da rela\u00e7\u00e3o com ele, de seu autoritarismo e conservadorismo. Guardaram m\u00e1goas profundas. Relataram ter ouvido falar que ele havia suavizado ao longo dos anos, mas o que viveram na rela\u00e7\u00e3o com ele fora t\u00e3o dram\u00e1tico que nunca deram cr\u00e9dito \u00e0s hist\u00f3rias. Quando viram na TV o an\u00fancio de seu nome como Papa ficaram estupefatas e descrentes, certas de que seria um desastre para a Igreja. Somente ao fim do primeiro ano do papado de Bergoglio come\u00e7aram a acreditar em sua convers\u00e3o e conseguiram ent\u00e3o escrever ao Papa uma carta de perd\u00e3o.<\/p>\n<p>Romero foi nomeado arcebispo pela confian\u00e7a que inspirava na elite de seu pa\u00eds. Francisco foi eleito Papa talvez pela convic\u00e7\u00e3o da maioria dos cardeais de que seria necess\u00e1rio uma \u201cmudan\u00e7a controlada\u201d para salvar a Igreja da crise em que estava \u2013e ainda est\u00e1- metida.<\/p>\n<p>Mas nenhum dos dois cumpriu o script previamente desenhado.<\/p>\n<p>Um dos assentamentos b\u00e1sicos do cristianismo \u00e9 que o caminho mais curto para subir \u00e9 descer. Jesus falou explicitamente sobre isso a seus amigos: se voc\u00ea quer ser o primeiro, seja o \u00faltimo, seja servidor de todos (Mc 9,35). Quem n\u00e3o entender que a humildade, o servi\u00e7o humilde aos demais \u00e9 basilar no cristianismo n\u00e3o entendeu nada. Com Romero aconteceu algo que agora se repete ao vivo com Francisco: ambos realizaram paradoxalmente o caminho da descida quanto mais alto chegaram na hierarquia. \u00c9 raro, mas acontece: desceram quando chegaram ao topo.<\/p>\n<p>Portanto, a pergunta inicial deste artigo -\u201cAt\u00e9 onde vai o Papa?\u201d- seria imposs\u00edvel de responder em mar\u00e7o de 2013, quando de sua elei\u00e7\u00e3o e, mesmo hoje, ainda \u00e9 cercada de boas interroga\u00e7\u00f5es. At\u00e9 onde este processo de descida levar\u00e1 o homem-papa na sua rela\u00e7\u00e3o com si pr\u00f3prio, a Igreja, a humanidade, com o Mist\u00e9rio?<\/p>\n<p>H\u00e1, entretanto, uma linearidade, um sentido para esta trajet\u00f3ria: cada vez mais para baixo, cada vez mais identificada com os pobres. A partir deste locus, Francisco tem dinamizado seu papado.<\/p>\n<p>Bergoglio escolheu nome de Francisco para simbolizar esta escolha. Entretanto, ele \u00e9 um jesu\u00edta de corpo e alma, e isso n\u00e3o pode ser esquecido. Os jesu\u00edtas s\u00e3o estrategistas, entendem as l\u00f3gicas e os jogos do poder. O Papa operar neste \u201cduplo comando\u201d franciscano e jesu\u00edta.<\/p>\n<p>Logo que assumiu, sinalizou ao mundo o que viria, com gestos prosaicos, mas que repercutiram largamente. Pagou a conta do hotel em que esteve hospedado durante o conclave de sua elei\u00e7\u00e3o; abriu m\u00e3o das limusines para andar num carro \u201cnormal\u201d, um Ford Focus; abriu m\u00e3o de morar na Casa Santa Marta, simples e despojada, em vez do apartamento papal.<\/p>\n<p>Com outros gestos mais concretos deixou claro \u00e0 C\u00faria e \u00e0 burocracia vaticana logo nos primeiros dias como seria seu papado. O relato \u00e9 de Elisabetta Piqu\u00e9, jornalista argentina, a mais pr\u00f3xima de Francisco, de seu livro Papa Francisco, Vida e Revolu\u00e7\u00e3o (Leya, S\u00e3o Paulo, 2014): \u201cO Papa \u2018da favela\u2019 decide abolir, de uma penada, o b\u00f4nus extra que costumam receber, em uma transi\u00e7\u00e3o papal, os 3 mil funcion\u00e1rios do Vaticano, o menor Estado do mundo, com apenas 44 hectares. Ap\u00f3s o interregno, era normal receber um pagamento por horas extras trabalhadas fora da jornada e por terem realizado um esfor\u00e7o maior. Em 2005, por exemplo, com a morte de Jo\u00e3o Paulo II, os empregados do Vaticano tinham recebido mil euros cada um e, junto com isso, um cheque de quinhentos euros pela elei\u00e7\u00e3o de Bento XVI. Francisco decide dedicar essa quantia, uns 6 milh\u00f5es de euros, \u00e0s obras de caridade destinadas aos mais necessitados\u201d (pp. 213-214).<\/p>\n<p>Por sinal, quem quiser acompanhar de perto o papado de Francisco deve ler Piqu\u00e9 no \u201cLa Nacion\u201d ou segui-la nas redes.<\/p>\n<p>Da mesma maneira logo nos primeiros meses, interviu no IOR, o Banco do Vaticano com uma hist\u00f3ria marcada por malversa\u00e7\u00f5es e desvios. O Papa est\u00e1 empobrecendo a Igreja, sem que a m\u00eddia do s\u00e9culo passado se d\u00ea conta disso ou tenha \u00e2nimo para registrar.<\/p>\n<p>Como fazer tudo isso se o Papa \u00e9 evidente minoria no contexto da C\u00faria Romana e desagrada cada dia mais a elite tradicionalista da Igreja? Francisco tem operado mudan\u00e7as profundas silenciosamente, ao mesmo tempo em que protagoniza uma lideran\u00e7a de repercuss\u00e3o sem precedentes. O foco da articula\u00e7\u00e3o contra Francisco \u00e9 exatamente a C\u00faria romana, ninho hist\u00f3rico da constru\u00e7\u00e3o de um catolicismo acomodado ao poder e ao capitalismo e hostil aos crist\u00e3os cat\u00f3licos aderidos ao caminho de Jesus. Nem sequer estava encerrado o Conc\u00edlio Vaticano II e a hierarquia cat\u00f3lica, que desde ent\u00e3o controla a C\u00faria, j\u00e1 tratava de sufocar as delibera\u00e7\u00f5es conciliares &#8211; no que obteve not\u00e1vel sucesso ao longo dos anos.<\/p>\n<p>Um momento crucial do enfrentamento do Papa ao poder estabelecido na Igreja aconteceu em 22 de dezembro de 2014, no tradicional encontro de Natal entre o Papa e a c\u00fapula da Igreja. Tradicionalmente, tais encontros s\u00e3o regados a discursos congratulat\u00f3rios e amenos. Mas Francisco produziu um discurso sem precedentes na hist\u00f3ria da Igreja. O que ele fez em Santa Cruz De La Sierra em rela\u00e7\u00e3o ao planeta, o fez antes, em 2014 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hierarquia da Igreja. Nem no contexto do Vaticano II houve algo similar e n\u00e3o h\u00e1 registro de um discurso desta envergadura de nenhum outro Papa. Mas \u00e9 evidente o eco \u00e0s afirma\u00e7\u00f5es de Jesus nos Evangelhos, quando criticava o poder religioso reunido em torno do Templo em Jerusal\u00e9m. O cenho franzido e carrancudo de muitos dos presentes foi not\u00e1vel. O discurso \u00e9 um hino ao amor de Jesus pelo mundo e pelas pessoas e a afirma\u00e7\u00e3o de ser esta a \u00fanica r\u00e9gua que deve medir a a\u00e7\u00e3o da Igreja e dos cat\u00f3licos. Nele, Francisco enumerou o que qualificou como \u201cas 15 enfermidades\u201d da C\u00faria. Quem atua em qualquer organiza\u00e7\u00e3o humana controlada por hierarquias e burocracias n\u00e3o pode deixar de ler. Uma das doen\u00e7as da C\u00faria, segundo o Papa: \u201c\u00c9 perigoso perder a capacidade de chorar com os que choram e se alegrar com os que se alegram. \u00c9 a enfermidade dos que perdem os \u2018sentimentos de Jesus\u2019, porque o seu cora\u00e7\u00e3o, com o passar do tempo, endurece-se e torna-se incapaz de amar incondicionalmente o Pai e o pr\u00f3ximo\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/medella.jpg\" alt=\"medella\" width=\"820\" height=\"414\" \/><\/p>\n<p>Logo que assumiu, o Papa nomeou nove cardeais (o C9), encarregando-os de reformar a C\u00faria \u2013 sabe que sem isso, seu papado morrer\u00e1 estrangulado. O novo desenho do governo da Igreja ser\u00e1 anunciado em 2016, e o Papa participa ao menos de uma sess\u00e3o das reuni\u00f5es mensais do comit\u00ea.<\/p>\n<p>O coordenador do C9, o cardeal de Tegucigalpa, \u00d3scar Andr\u00e9s Rodriguez Maradiaga \u00e9 um dos principais interlocutores de Francisco. Ele foi at\u00e9 meses atr\u00e1s, o presidente da C\u00e1ritas Internacional, organismo de a\u00e7\u00e3o da Igreja com os mais pobres ao redor do planeta, deixando o cargo para assumir o novo dicast\u00e9rio (algo como um minist\u00e9rio) de Justi\u00e7a e Caridade da Igreja.<\/p>\n<p>Maradiaga fez quest\u00e3o de tornar a Assembleia da C\u00e1ritas Internacional, em maio passado, num ato de desagravo a um dos fundadores da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, o sacerdote dominicano Gustavo Gutierrez. Inimagin\u00e1vel antes de Francisco e seus cardeais que Gutierrez fosse recebido num sal\u00e3o do Vaticano. Para ele, at\u00e9 ent\u00e3o, estavam reservados apenas os sal\u00f5es do Santo Of\u00edcio. Na entrevista de abertura da Assembleia, o te\u00f3logo peruano, um dos que mais escreveu sobre o olhar da Igreja aos pobres e mais formulou a partir da realidade de mis\u00e9ria e exclus\u00e3o da Am\u00e9rica Latina, afirmou: \u201cEstamos na \u00e9poca p\u00f3s-socialista, p\u00f3s-capitalista, p\u00f3s-industrial. As pessoas gostam de dizer que estamos na \u00e9poca \u2018p\u00f3s\u2019. Mas n\u00e3o estamos na \u00e9poca p\u00f3s-pobreza\u201d.<\/p>\n<p>Quem se espantou com o discurso de Francisco na Bol\u00edvia com certeza n\u00e3o sabia do que vinha falando o coordenador do C9. Ele tem sido ainda mais expl\u00edcito que o Papa, posto que relativamente \u201cprotegido\u201d dos olhares da m\u00eddia capitalista e conservadora que agora come\u00e7a a declarar guerra a Francisco. Em 10 de abril, no F\u00f3rum da Nova Economia, em Madri, Maradiaga foi taxativo: o capitalismo \u00e9 \u201cum sistema econ\u00f4mico que mata\u201d. Mais ainda: \u201co capitalismo liberal n\u00e3o cumpre as regras, sequer as suas\u201d. O capitalismo \u00e9 essencialmente anti-humano, na vis\u00e3o do cardeal: \u201cOs entes econ\u00f4micos mundiais manejam cifras e se despreocupam com a dignidade de cada ser humano, e se referem a este como um meio para se chegar a um fim; como um recurso renov\u00e1vel, n\u00e3o como pessoa.\u201d Maradiaga antecipou com express\u00e3o mais contundente a afirmativa de Francisco aos movimentos populares de que \u201ceste sistema \u00e9 insuport\u00e1vel\u201d. Para o cardeal, o capitalismo \u00e9 insuport\u00e1vel e n\u00e3o tem reforma poss\u00edvel: \u201cQuando critico o modelo atual, estou convencido que uma simples reforma n\u00e3o \u00e9 suficiente\u201d. H\u00e1 um novo projeto em gesta\u00e7\u00e3o na c\u00fapula da Igreja, de matiz anticapitalista, como Maradiaga apontou: \u201cEste discurso otimista e positivo, teoricamente puro, de uma economia de mercado neoliberal, \u00e9 como uma terra m\u00edtica, onde poderia nascer <em>o \u2018Homo Economicus<\/em>\u2019. Existe outro cen\u00e1rio, com um ambiente humanizado fundado sobre a \u00e9tica, que promova o desenvolvimento integral dos povos e das pessoas, baseado sobre o humanismo econ\u00f4mico, onde possa crescer um her\u00f3i vitorioso: o \u2018Homo Rec\u00edproca\u2019. \u00c9 um cen\u00e1rio ideal, mas \u00e9 uma meta alcan\u00e7\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p><strong>No final de sua palestra, Mauro Lopes foi decisivo: A comunica\u00e7\u00e3o franciscana precisa estar simbolizada por todos os sinais do Papa. \u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frente da Comunica\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":216510,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Provoca\u00e7\u00f5es de Mauro Lopes aos comunicadores - 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