{"id":34171,"date":"2013-03-18T08:01:49","date_gmt":"2013-03-18T11:01:49","guid":{"rendered":"http:\/\/new.franciscanos.org.br\/?p=34171"},"modified":"2020-06-22T16:45:29","modified_gmt":"2020-06-22T19:45:29","slug":"ha-vida-apos-o-luto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/ha-vida-apos-o-luto.html","title":{"rendered":"\u201cH\u00e1 vida ap\u00f3s o luto\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" title=\"medela_certo\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/medela_certo.jpg\" alt=\"\" width=\"830\" height=\"350\" \/><\/p>\n<p><strong>Por Moacir Beggo<\/strong><\/p>\n<p><em>Mais cedo ou mais tarde, o luto ser\u00e1 uma realidade em nossas vidas. Mas a verdade \u00e9 que nunca estamos preparados para enfrentar o luto. Neste primeiro livro de Frei Gustavo Wayand Medella, &#8220;H\u00e1 vida ap\u00f3s o luto&#8221; (Livraria Santu\u00e1rio), ele confessa que aprendeu a lidar com essa situa\u00e7\u00e3o na pr\u00e1tica, quando ainda era estudante de Teologia em Petr\u00f3polis e tinha entre outras fun\u00e7\u00f5es atuar no Minist\u00e9rio da Esperan\u00e7a, ou seja, ir celebrar junto \u00e0s fam\u00edlias a partida de um ente querido. &#8220;Depois de cada celebra\u00e7\u00e3o, voltava para casa, sentindo um misto de emo\u00e7\u00e3o, ang\u00fastia e tamb\u00e9m uma forte esperan\u00e7a de que a vida vai para al\u00e9m dos limites que conhecemos&#8221;, revela Frei Gustavo, que se ordenou sacerdote no dia 3 de julho de 2011 e hoje est\u00e1 na coordena\u00e7\u00e3o da Frente de Evangeliza\u00e7\u00e3o da Comunica\u00e7\u00e3o na Prov\u00edncia Franciscana da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>Segundo Frei Medella, foi assim que nasceu este livro. &#8220;N\u00e3o pretendo, de forma alguma, oferecer respostas a estas d\u00favidas t\u00e3o insond\u00e1veis. O que desejo \u00e9, \u00e0 luz da f\u00e9, partilhar com voc\u00ea algumas reflex\u00f5es que trago no cora\u00e7\u00e3o&#8221;, explica este frade petropolitano.\u00a0 A partir de trechos da Sagrada Escritura e tamb\u00e9m por obras inspiradas de poetas, m\u00fasicos, pensadores, Frei Medella oferece &#8220;luzes que possam iluminar nosso caminho neste \u00e1rduo momento de travessia&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><em>Apaixonado por comunica\u00e7\u00e3o, em especial pelo r\u00e1dio, formou-se em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora, MG, em 2000 e trabalhou em diferentes ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o daquela cidade mineira. Ingressou na vida franciscana em 2002, percorrendo todas as etapas de forma\u00e7\u00e3o, incluindo os cursos de Filosofia e Teologia. Especializou-se em Comunica\u00e7\u00e3o pelo SEPAC\/Puc-S\u00e3o Paulo\/SP em 2010. Atualmente reside em S\u00e3o Paulo, no Convento S\u00e3o Francisco, bem no centro da capital paulista. Acompanhe a entrevista!<\/em><\/p>\n<p><strong>Site Franciscanos &#8211; Como nasceu este livro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Frei Gustavo<\/strong> &#8211; Nasceu a partir do servi\u00e7o que eu prestava, junto com os outros confrades, na nossa Par\u00f3quia do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, em Petr\u00f3polis, a chamada Pastoral da Esperan\u00e7a. Alguns dias por semana, \u00e9ramos escalados para celebrar a encomenda\u00e7\u00e3o dos falecidos, numa celebra\u00e7\u00e3o de despedida com a fam\u00edlia e os amigos daquele que partiu. Estas celebra\u00e7\u00f5es sempre mexeram muito comigo. Percebia naquela ocasi\u00e3o uma rica oportunidade de marcar a presen\u00e7a de uma Igreja serva, companheira no sofrimento, portadora de esperan\u00e7a. E ent\u00e3o fui amadurecendo a ideia de preparar mensagens que pudessem servir, a partir da f\u00e9, de conforto para quem passa por esta dura experi\u00eancia da perda de uma pessoa amada. Busquei apoio na Sagrada Escritura e tamb\u00e9m em pe\u00e7as da nossa m\u00fasica e da nossa literatura, sempre na perspectiva de encontrar as sementes de esperan\u00e7a espalhadas em cada acontecimento da vida.<\/p>\n<p><strong>Site &#8211; \u00c9 poss\u00edvel confortar uma pessoa que perdeu um ente querido de surpresa? Como dizer a ela que h\u00e1 vida no luto?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Frei Gustavo<\/strong> &#8211; Realmente \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o muit\u00edssimo delicada. Penso que humanamente \u00e9 muito dif\u00edcil confortar algu\u00e9m que passa por uma situa\u00e7\u00e3o assim. Pela f\u00e9, precisamos acreditar que toda for\u00e7a, todo conforto, vem de Deus e n\u00f3s, na medida de nossas possibilidades, podemos oferecer um abra\u00e7o, um momento de nossa aten\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo nossas lagrimas para chorar juntos. Na lida com este tipo de perda, cada pessoa reage a seu modo. Uns ficam mais introspectivos, outros procuram se distrair e h\u00e1 tamb\u00e9m aqueles capazes de transformar a dor em arte. No livro, inclusive, cito a hist\u00f3ria do compositor e cantor Eric Clapton. Ele perdeu, seu filho de 4 anos, Conor, num terr\u00edvel acidente, em 1991, quando o menino caiu da janela de um pr\u00e9dio em Nova York: uma dor inimagin\u00e1vel que Clapton transformou na c\u00e9lebre can\u00e7\u00e3o \u201cTears in heaven\u201d (L\u00e1grimas no c\u00e9u). Tenho certeza de que aquela dor ele carrega at\u00e9 hoje, mas tamb\u00e9m creio firmemente que, atrav\u00e9s de m\u00fasica, Clapton conseguiu dar certa vaz\u00e3o \u00e0 sua dor e tamb\u00e9m semeou muita luz e esperan\u00e7a na vida de pessoas que passaram por situa\u00e7\u00f5es parecidas e encontraram nesta composi\u00e7\u00e3o um alento e a\u00ed, mesmo com o cora\u00e7\u00e3o ferido e apertado, Clapton revelou que existe vida ap\u00f3s o luto.<\/p>\n<p><strong>Site &#8211; H\u00e1 uma etiqueta para o luto? Voc\u00ea concorda que frases como &#8220;Voc\u00ea precisa ser forte&#8221;, &#8220;Deus sabe o que faz&#8221;, &#8220;Foi melhor para ele (a)!&#8221;, &#8220;O tempo cura todas as feridas&#8221; &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o pode chorar, ele (a) n\u00e3o ir\u00e1 ficar em paz&#8221; mais prejudicam do que ajudam?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Frei Gustavo<\/strong> &#8211; Eu n\u00e3o condeno o uso de jarg\u00f5es ou lugares comuns deste tipo. Muitas vezes restam como \u00fanico recurso a quem deseja manifestar sua solidariedade e n\u00e3o sabe como, n\u00e3o encontra palavras. Mas \u00e9 preciso que se tome cuidado para a palavra dita, em vez de confortar, n\u00e3o leve a pessoa a uma autocobran\u00e7a desnecess\u00e1ria (Voc\u00ea tem que ser forte!) ou apresente a ela uma vis\u00e3o equivocada de Deus (Foi Deus quem quis assim!).<\/p>\n<p><strong>Site &#8211; Quando se encontra uma pessoa de luto \u00e9 preciso dizer alguma coisa? N\u00e3o \u00e9 melhor seguir a tradi\u00e7\u00e3o judaica: &#8220;N\u00e3o fale com enlutados at\u00e9 que eles falem primeiro com voc\u00ea&#8221;?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Frei Gustavo<\/strong> &#8211; Esta recomenda\u00e7\u00e3o traz em si muita sabedoria. O bom sil\u00eancio remete ao respeito, \u00e0 rever\u00eancia diante de um mist\u00e9rio t\u00e3o insond\u00e1vel quanto a morte. Estar junto, oferecer o carinho, o conv\u00edvio, a amizade e o abra\u00e7o em uma ocasi\u00e3o como esta pode comunicar mais do que o uso de muitas palavras. Penso que, nestas ocasi\u00f5es, mais do que buscar raz\u00f5es para o acontecido ou tentar encontrar explica\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas, \u00e9 deixar que o cora\u00e7\u00e3o fale e este, por muitas vezes, pode se manifestar em um sil\u00eancio eloquente e emocionado.<\/p>\n<p><strong>Site &#8211; Todos temos uma certeza absoluta: vamos morrer. Mas, por que, em nossa sociedade a morte \u00e9 vista como algo a ser evitado, postergado?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Frei Gustavo<\/strong> &#8211; Creio que vivemos em um ambiente que nos convida ao imediatismo, ao consumo r\u00e1pido e intenso dos prazeres e experi\u00eancias que a vida nos coloca \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. \u00c9 o sistema capitalista, pautado na superprodu\u00e7\u00e3o e no hiperconsumo. Com o fim de nossa vida terrena, vai-se junto nossa condi\u00e7\u00e3o de consumidores: deixamos de consumir para sermos consumidos pela terra e a\u00ed est\u00e1 o grande drama, encontra-se o germe do pavor que a morte exerce sobre a consci\u00eancia de muitas pessoas. No entanto, a proposta crist\u00e3 nos convida a olhar al\u00e9m, a perceber no transcendente a harmonia que nos reintegra a Deus, naquilo que vai para al\u00e9m do material, do palp\u00e1vel e do presente. Em Cristo, temos a certeza de que a morte tem a \u00faltima palavra sobre nossa exist\u00eancia, mas a vida que se perpetua no bem que fizemos, no amor que espelhamos, na solidariedade que cultivamos, tudo isto inspirado pelo pr\u00f3prio Jesus Cristo, que fez de sua vida uma doa\u00e7\u00e3o incondicional e total em favor da humanidade.<\/p>\n<p><strong>Site &#8211; Como \u00e9 a morte na vis\u00e3o franciscana?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Frei Gustavo &#8211;<\/strong> S\u00e3o Francisco encarou a morte com total esperan\u00e7a e chegou a cham\u00e1-la de novo nascimento, o nascimento definitivo para Deus. No C\u00e2ntico das Criaturas, em que o santo louva a Deus por todos os bens da natureza, por seus irm\u00e3os e irm\u00e3s, pelo perd\u00e3o e pela paz, Francisco tamb\u00e9m reserva um espa\u00e7o para louvar ao Criador pela Irm\u00e3 Morte. No chamado Tr\u00e2nsito de S\u00e3o Francisco, celebrado sempre na noite do dia 3 de outubro, os franciscanos e franciscanas do mundo todo fazem mem\u00f3ria da passagem de S\u00e3o Francisco para vida eterna, onde, nu sobre a terra nua, o Santo de Assis se entrega com confian\u00e7a aos bra\u00e7os amorosos de Deus. Portanto, a morte, na vis\u00e3o franciscana, n\u00e3o tem nada que remeta ao medo, ao pavor, mas \u00e9 compreendida como o coroamento de toda uma vida consagrada a Deus, \u00e0s pessoas e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o. Curioso ressaltar que, ainda hoje, entre os franciscanos, h\u00e1 o costume de se celebrar o recreio (festa de confraterniza\u00e7\u00e3o com comida e bebida) entre os frades quando um irm\u00e3o parte desta vida para o encontro final com Deus.<\/p>\n<p><strong>\u00a0Site &#8211; Voc\u00ea tem medo da morte?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Frei Gustavo<\/strong> &#8211; Pergunta embara\u00e7osa&#8230; Nunca parei para pensar se tenho medo ou n\u00e3o. Tamb\u00e9m n\u00e3o fa\u00e7o ideia de como reagirei quando, porventura, imaginar que ela esteja pr\u00f3xima. No entanto, em meu dia a dia, tento cultivar a f\u00e9 e a confian\u00e7a de que, ap\u00f3s esta breve passagem por este mundo, uma vida maravilhosa nos espera. Isso me enche de conforto e esperan\u00e7a, mas tamb\u00e9m n\u00e3o me exime de trabalhar firme e com garra para buscar construir, no aqui e agora, o mundo de paz e justi\u00e7a sonhado por Deus. Se tenho medo de morrer, n\u00e3o sei, mas tenho certeza de que gosto muito de viver!<\/p>\n<p><strong>Site &#8211; Como os padres e te\u00f3logos se preparam para dar a \u00faltima b\u00ean\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Frei Gustavo<\/strong> &#8211; Acredito que a \u00eanfase preparat\u00f3ria seja concentrada em duas dimens\u00f5es: a filos\u00f3fico-teol\u00f3gica e a pastoral. Na primeira dimens\u00e3o, tanto no curso de Filosofia quanto no de Teologia, aqueles que se preparam para exercer o minist\u00e9rio ordenado s\u00e3o provocados a refletir profundamente sobre muitos conceitos pr\u00f3prios da vida humana, como a finitude, o sofrimento, o mist\u00e9rio do ser, o sentido da vida, o fim dos tempos e diversos outros temas tratados pela Filosofia e a Teologia. O segundo aspecto seria a aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica de tais conceitos, na lida com as pessoas que sofrem com a morte de algu\u00e9m pr\u00f3ximo, no conv\u00edvio com as pr\u00f3prias experi\u00eancias de perda e nas muitas solicita\u00e7\u00f5es que aparecem no decorrer do exerc\u00edcio da miss\u00e3o. E tenho convic\u00e7\u00e3o de que a lida neste exerc\u00edcio precisa ser necessariamente marcada num profundo aprendizado constante e di\u00e1rio, na acolhida, na escuta, no di\u00e1logo, com as pessoas que vivem a dor de perder algu\u00e9m que amam. A conjuga\u00e7\u00e3o harmoniosa destes dois aspectos, penso eu, vai levar o padre, di\u00e1cono ou ministro leigo a oferecer uma assist\u00eancia qualificada e evang\u00e9lica \u00e0queles que sofrem com a morte de um ente querido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista: Frei Gustavo W. 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