{"id":242121,"date":"2007-03-03T19:14:27","date_gmt":"2007-03-03T22:14:27","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/?p=242121"},"modified":"2023-02-03T19:21:52","modified_gmt":"2023-02-03T22:21:52","slug":"entrevista-missao-de-angola-entra-para-a-historia-da-ordem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/entrevista-missao-de-angola-entra-para-a-historia-da-ordem.html","title":{"rendered":"Entrevista: Miss\u00e3o de Angola entra para a hist\u00f3ria da Ordem"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-242122 aligncenter\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/angola_2007.jpeg\" alt=\"\" width=\"582\" height=\"322\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/angola_2007.jpeg 582w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/angola_2007-450x249.jpeg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/angola_2007-150x83.jpeg 150w\" sizes=\"(max-width: 582px) 100vw, 582px\" \/><\/p>\n<p><b>Site Franciscanos \u2013 Como foi chegar \u00e0 Miss\u00e3o de Angola?\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>Frei Evaristo Spengler<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> &#8211; Quando cheguei na Miss\u00e3o, em maio de 2001, ainda era tempo de guerra. Malange, cidade no Interior de Angola, sofria ataques e tinha uma s\u00e9rie de restri\u00e7\u00f5es por parte da ONU, inclusive de hor\u00e1rios, nos locais onde se podia passar. N\u00e3o pod\u00edamos ir \u00e0s aldeias e ficar \u00e0 noite ou se deslocar muito cedo. Ent\u00e3o, s\u00f3 das 9 horas da manh\u00e3 at\u00e9 \u00e0s 17 horas era permitido transitar. Em outras \u00e1reas nem era permitido o acesso. A guerra terminou em abril de 2002. Foi quando n\u00f3s descobrimos o territ\u00f3rio onde estava a nossa Miss\u00e3o. Da sede, em Luanda, at\u00e9 o final, a dist\u00e2ncia \u00e9 de 500 quil\u00f4metros. Em 30 anos de guerra, as estradas de terra tinham sido destru\u00eddas, n\u00e3o houve manuten\u00e7\u00e3o, assim como as pontes, que foram destru\u00eddas enquanto o governo perseguia a Unita ou vice-versa. O cen\u00e1rio era de muita fome nas aldeias. O povo plantava, mas nunca chegava a colher porque tinham de fugir devido aos ataques. A comida ficava e se estragava. Isso causava muita fome, muita inseguran\u00e7a, pouca estabilidade. Mesmo em se tratando de evangeliza\u00e7\u00e3o, das pastorais, n\u00e3o se podia ter uma coisa muito organizada. Ent\u00e3o, com o fim da guerra \u00e9 que se come\u00e7ou a estruturar um pouco essa parte de evangeliza\u00e7\u00e3o com os catequistas das aldeias. A f\u00e9 do povo foi alimentada neste per\u00edodo pelos catequistas, mesmo sem informa\u00e7\u00f5es, sem material de liturgia, sem material de catequese. Havia um grupo muito grande que esperava, no final da guerra, ser batizado, fazer a primeira comunh\u00e3o, receber a Eucaristia. Voltar \u00e0s cidades do Interior foi sempre assim: busca pelos sacramentos e por forma\u00e7\u00e3o, para eles continuarem o trabalho que j\u00e1 vinham fazendo. O papel de um catequista, nas aldeias, \u00e9 fazer a ora\u00e7\u00e3o da manh\u00e3 com o povo, dar a catequese, fazer o culto dominical. \u00c9 ele que mant\u00e9m a vida crist\u00e3 na comunidade. Quando os mission\u00e1rios chegam, celebram a Eucaristia e ministram os sacramentos.<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Gustavo Medella \u2013 E esse modelo permanece at\u00e9 hoje?<\/b><\/p>\n<p><b><\/b><b>Frei Evaristo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Permanece at\u00e9 hoje. \u00c9 o modelo do catecumenato. Num per\u00edodo de quatro anos, eles preparam a pessoa que quer receber os sacramentos de inicia\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Site Franciscanos \u2013 Como foi o fim da guerra?<\/b><\/p>\n<p><b>Frei Evaristo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> &#8211; Com final da guerra, o povo voltou para as suas aldeias e come\u00e7ou a reconstruir as casas, refazer as ro\u00e7as e se criou, assim, uma certa estabilidade. Hoje, quando se pergunta se existe fome, a resposta \u00e9: n\u00e3o existe mais. Plantam aquele m\u00ednimo para a subsist\u00eancia, como mandioca, ab\u00f3bora, milho, batata, banana, abacate, mam\u00e3o e outras frutas, al\u00e9m de peixes. A terra \u00e9 f\u00e9rtil e boa. <\/span><\/p>\n<p><b>Frei Alexandre<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Tive que esperar seis meses para receber o visto de entrada no pa\u00eds. Quando cheguei, em julho de 2002, fiquei em Luanda e peguei um pouco deste controle que havia e que Frei Evaristo j\u00e1 falou, porque foi justamente alguns meses depois do final da guerra. Havia muito controle nas estradas, voc\u00ea n\u00e3o podia transitar com tanta liberdade, mas j\u00e1 viv\u00edamos outra expectativa. Morava numa par\u00f3quia em Luanda,\u00a0 coordenada por um sacerdote que n\u00e3o era franciscano. Muito rica, essa par\u00f3quia abrigava as pessoas que sa\u00edram do Interior, fugindo da guerra, e ficaram residindo na capital. Era interessante ver a mistura \u00e9tnica muito grande naquele bairro. Quando tivemos o Congresso Eucar\u00edstico Nacional, um ano depois, os cantos foram feitos em cinco, seis, sete idiomas, por causa desta diversidade. Mas tudo com uma rela\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima e fraterna.<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Gustavo \u2013 Isso \u00e9 em Malange?<\/b><\/p>\n<p><b>Frei Alexandre<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Em Luanda, que como S\u00e3o Paulo, \u00e9 o nome de uma cidade e de um estado. E no caso de Viana, ela pertence \u00e0 Prov\u00edncia de Luanda, mas j\u00e1 \u00e9 outra cidade, fazendo parte da Grande Luanda. E ali vivem numa casa de forma\u00e7\u00e3o junto com os frades professos tempor\u00e1rios e logo no ano seguinte eles puderam tamb\u00e9m come\u00e7ar a fazer a Filosofia e foi uma jun\u00e7\u00e3o de institutos religiosos, porque j\u00e1 havia Filosofia da diocese.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Site Franciscanos &#8211; Voc\u00ea \u00e9 mestre?<\/b><\/p>\n<p><b>Frei Alexandre<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> &#8211; Fui at\u00e9 um per\u00edodo. H\u00e1 um ano e meio fui para Malange. Os frades viveram o primeiro ano como Mestre dos postulantes e depois os frades vieram do Noviciado, que fizeram no Brasil. Neste primeiro ano que foram era um ano de est\u00e1gio pastoral. Come\u00e7ou-se logo a fazer o estudo filos\u00f3fico e teol\u00f3gico. E a\u00ed tivemos oportunidade de em 2003 ir a Malange. Ent\u00e3o, voc\u00ea se d\u00e1 conta que em 2003 j\u00e1 havia dois anos quase \u2013 um ano e meio &#8211; que a guerra j\u00e1 havia terminado. E quando chegamos a estas aldeias, fizemos um mutir\u00e3o mission\u00e1rio. Os frades estudantes, os frades de Viana, fomos todos a Malange para ir ao Interior. J\u00e1 havia 2 anos que a guerra havia terminado, uma coisa que nos marcou, ao chegar nestas aldeias, a festa com que nos acolheram. E eles disseram assim: \u201cAgora, n\u00f3s acreditamos que a guerra acabou\u201d. Os mission\u00e1rios estavam de volta. Fui um momento muito forte, de muitos testemunhos. Para fazer isso, tivemos de andar 250 quil\u00f4metros, sendo uma parte de carro e o resto de bicicleta ou moto e a p\u00e9.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Evaristo Spengler<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Para se ter uma id\u00e9ia, havia uma mulher gr\u00e1vida que veio para se casar. Ela, o marido catequista e alguns filhos. Esperaram todo o tempo da guerra para isso. Ela saiu na sexta-feira de manh\u00e3 e sexta-feira \u00e0 tarde sentiu dores do parto, parou numa aldeia, teve o beb\u00ea. No s\u00e1bado, o catequista colocou-a nas costas e carregava o beb\u00ea nos bra\u00e7os. Caminhou no s\u00e1bado inteiro, domingo todo e chegou na segunda. Para se casar.<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Alexandre<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> &#8211; Esse povo esperou esse per\u00edodo todo para receber os sacramentos. Foram os catequistas que alimentaram isso. A partir daquele momento havia uma press\u00e3o muito forte, numa cidade muito grande, de forma\u00e7\u00e3o e de atualiza\u00e7\u00e3o dos catequistas e junto \u00e0 press\u00e3o para que n\u00f3s ating\u00edssemos maior espa\u00e7o poss\u00edvel\u00a0 para responder \u00e0 necessidade sacramental que essas popula\u00e7\u00f5es tinham. Depois retornamos a Luanda. Foi uma experi\u00eancia que marcou os frades angolanos e agora estou em Malange h\u00e1 um ano e poucos meses. E nesse momento, a Igreja de Angola, foi pedido por parte do governo, que a Igreja o governo a reconstruir a rede de sa\u00fade e escolas. Hoje, existe um grande esfor\u00e7o dos mission\u00e1rios para investir nessas \u00e1reas. Da parte da Igreja, n\u00f3s temos o compromisso de reabilitar as escolas destru\u00eddas da Miss\u00e3o e reconstruir escolas novas. Ent\u00e3o, eles reconstroem essas estruturas e o Estado dever\u00e1 entrar com a coloca\u00e7\u00e3o dos professores e o material para equipamento destas salas. Existe este conv\u00eanio e as coisas est\u00e3o avan\u00e7ando assim. O que a Igreja de Angola tem feito ali \u00e9 uma coisa formid\u00e1vel. E claro, junto com isso, tem o desafio de formar os professores para superar algumas pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas, que muitas vezes ainda hoje acontecem, como palmat\u00f3ria, e a pouco fidelidade nas aulas. Todo um trabalho tem de ser refeito.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Site Franciscanos \u2013 Existe viol\u00eancia?<\/b><\/p>\n<p><b>Frei Alexandre<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> &#8211; Eu imaginava uma Angola mais violenta, do que no Rio de Janeiro. Eu esperava uma estrutura, mas surpreendentemente n\u00e3o encontrei. L\u00e1 n\u00e3o se ouve tiros. Coisa que nossas realidades aqui s\u00e3o muito mais violentas. Mas \u00e9 preciso um investimento muito grande em educa\u00e7\u00e3o para isso n\u00e3o acontecer.<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Gustavo &#8211; Em que momento se encontra a miss\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p><b>Frei Angelo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> &#8211; O trabalho na cidade, onde n\u00f3s estamos, \u00e9 tipicamente urbano. O bairro de Palankafaz parte da Grande Luanda, como Viana, onde o Frei Alexandre morou tamb\u00e9m \u00e9 um munic\u00edpio mas faz parte da Grande Luanda. E a Igreja ali tem caracter\u00edsticas de cidade. Os problemas que se t\u00eam numa cidade, como falta de hospitais, falta de escolas, de saneamento b\u00e1sico. Isso \u00e9 em toda Luanda, principalmente na periferia, onde n\u00f3s moramos. Na cidade h\u00e1 sinais de recupera\u00e7\u00e3o dessa infra-estrutura. Luz el\u00e9trica tem uma estabilidade regular.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As popula\u00e7\u00f5es sa\u00edram das zonais rurais e vieram para a capital. O governo aceitou que as pessoas ocupassem a periferia de forma irregular. Ent\u00e3o, hoje, a periferia \u00e9 um mar de casinhas. Os bairros s\u00e3o irregulares.<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Evaristo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> &#8211; Praticamente um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o de Angola est\u00e1 em Luanda.<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Angelo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> &#8211; A Grande Luanda tem 5 milh\u00f5es de habitantes atualmente. E ali tamb\u00e9m temos falta de estruturas nas par\u00f3quias, nas comunidades, faltam salas de aula, para catequese, para reuni\u00f5es. H\u00e1 muitas matr\u00edculas de crian\u00e7as para a catequese, matr\u00edculas e matr\u00edculos. N\u00e3o temos condi\u00e7\u00f5es de acolher todo mundo. H\u00e1 essa procura, sem d\u00favida. A Igreja l\u00e1 na cidade tamb\u00e9m tem essa caracter\u00edstica de o pessoal ir \u00e0 procura dos sacramentos iniciais. Batismo, primeira comunh\u00e3o e crisma. Casamento \u00e9 outra hist\u00f3ria, pois tem a quest\u00e3o da bigamia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na cidade, n\u00f3s temos a prepara\u00e7\u00e3o das lideran\u00e7as, mas \u00e9 muito rotativa. N\u00e3o t\u00eam aquelas lideran\u00e7as fixas como h\u00e1 nas comunidades do interior. Na cidade, eles entram, depois arrumam empregos, arrumam uma escola para estudar, j\u00e1 n\u00e3o podem mais dar catequese. Tem que botar outro. Essa preocupa\u00e7\u00e3o a gente sempre tem. Essas preocupa\u00e7\u00f5es a gente sempre tem com os cursos de forma\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Site Franciscanos \u2013 Como \u00e9 a Igreja de Luanda?<\/b><\/p>\n<p><b>Frei Angelo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> &#8211; A Igreja de Luanda tipicamente assim, digamos, administrada, coordenada, n\u00e3o s\u00f3 Luanda, mas toda Angola, por mission\u00e1rios estrangeiros. Ent\u00e3o, n\u00e3o existe uma linha de pastoral minha definida, determinada. Porque cada um vem com sua experi\u00eancia pastoral do seu pa\u00eds.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Gustavo \u2013 \u00c9 mais ou menos por conta de cada p\u00e1roco?<\/b><\/p>\n<p><b>Frei Angelo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> &#8211; Cada grupo de irm\u00e3s que est\u00e1 junto tocando o projeto, cada um faz um pouco seu projeto, sua col\u00e9gios grandes. As congrega\u00e7\u00f5es fortes faz grandes col\u00e9gios, com 20, 30 salas e atende o povo.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Site Franciscanos \u2013 S\u00e3o particulares?<\/b><\/p>\n<p><b>Frei Angelo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> &#8211; N\u00e3o s\u00e3o bem col\u00e9gios particulares. S\u00e3o col\u00e9gios que o governo paga os professores, paga o diretor. A dire\u00e7\u00e3o fica por conta da congrega\u00e7\u00e3o das irm\u00e3s e as crian\u00e7as colaboram com uma mensalidade pequena para a manuten\u00e7\u00e3o di\u00e1ria da escola, lanches etc. E as Igrejas organizam muitas escolas de explica\u00e7\u00e3o. Temos muitas escolas de explica\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma escolinha para crian\u00e7as que n\u00e3o conseguem vaga na escola regular. E l\u00e1 \u00e9 assim o sistema: se a crian\u00e7a tem 6 anos, ela n\u00e3o conseguiu uma vaga para entrar na escola regular, ela n\u00e3o entra mais. S\u00f3 vai entrar com 12 anos, quando come\u00e7a a alfabetiza\u00e7\u00e3o de adultos. N\u00e3o \u00e9 como no Brasil. Ent\u00e3o, tem muita crian\u00e7a fora do sistema escolar. Ent\u00e3o, a Igreja monta salas e saletas.<\/span><\/p>\n<p><b>Site Franciscanos \u2013 E Angola \u00e9 um pa\u00eds jovem?<\/b><\/p>\n<p><b>Frei Angelo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> &#8211; Sim, 60% t\u00eam at\u00e9 18 anos. Ent\u00e3o, o pessoal busca aprender, participa. Na sede paroquial temos 17 grupos de jovens s\u00f3 de uma comunidade. Todas as comunidades t\u00eam v\u00e1rios grupos de jovens, grupos de catequeses, pastorais familiares, Jufra, OFS. Depois temos os trabalhos sociais que s\u00e3o as escolas. Na cidade, na Escola Santa Teresa, temos 1.600. Depois, uma tem 300, outra tem mais ou menos 500 crian\u00e7as. S\u00f3 na nossa par\u00f3quia, em Luanda. Temos tr\u00eas creches que est\u00e3o funcionando na Par\u00f3quia e o projeto Nossos Mi\u00fados, que \u00e9 um trabalho com menores abandonados. Frei M\u00e1rcio encontra eles na rua. As crian\u00e7as ficam perto daqueles dep\u00f3sitos de lixo, onde pegam pequenos objetos e se alimentam. Muitos n\u00e3o t\u00eam fam\u00edlia, outros t\u00eam. Ent\u00e3o, Frei M\u00e1rcio faz um trabalho de reintegra\u00e7\u00e3o na fam\u00edlia. Fica com eles, recupera, coloca na escola e cria uma auto-estima na crian\u00e7a. Uma vez por m\u00eas a crian\u00e7a tem de visitar a fam\u00edlia, nem que seja um tio, um av\u00f4, uma av\u00f3. Tem que visitar. Quando fazem 17 anos, eles passam para outra casa. Eles v\u00e3o morar sozinhos\u00a0 num quartinho, onde mora uma fam\u00edlia. Mas eles t\u00eam de come\u00e7ar a tocar a vida deles. Esse projeto \u201cNossos Mi\u00fados\u201d tamb\u00e9m tem uma padaria, onde fazem p\u00e3es, vendem os p\u00e3es todos os dias e\u00a0 ajudam no auto-sustento da casa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Site Franciscanos \u2013 Qual o limite de idade no projeto?<\/b><\/p>\n<p><b>Frei Angelo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Eles ficam at\u00e9 os 17 anos e depois s\u00e3o encaminhados para outro projeto.<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Alexandre<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0 &#8211; O Frei M\u00e1rcio conseguiu resultado de retorno \u00e0 fam\u00edlia muito grande.\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Frei Angelo &#8211; A cidade est\u00e1 com esta campanha de adquirir pequenas m\u00e1quinas para a gera\u00e7\u00e3o de renda. A gente est\u00e1 criando uma consci\u00eancia de que passou esta fase da guerra, do dar, de distribuir comida, roupa, enfim, uma fase mais assistencialista. Foi necess\u00e1rio isso. O povo ainda tem um pouco disso, de que temos de levar comida etc.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Evaristo Spengler<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Porque naquela\u00a0 \u00e9poca da guerra tinha os caminh\u00f5es de alimenta\u00e7\u00e3o da ONU, que passavam a comida para a C\u00e1ritas e eles distribu\u00edam para as miss\u00f5es. Na miss\u00e3o de Malange, com 1.500 a 2 mil pessoas almo\u00e7avam diariamente l\u00e1. Era um trabalho de socorro imediato. E hoje o trabalho \u00e9 de estrutura\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><b>Frei \u00c2ngelo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> &#8211; Pequenas cooperativas para a gera\u00e7\u00e3o de renda, junto com as mulheres que s\u00e3o agentes de sa\u00fade da Pastoral da Crian\u00e7a. Ent\u00e3o, para que elas tenham uma forma de ganhar dinheiro para ajudar no sustento da fam\u00edlia e tamb\u00e9m atender a Pastoral da Crian\u00e7a. Estamos adquirindo pequenas m\u00e1quinas para fazer fraldas, sacolas de pl\u00e1sticos, sacos de lixo. Essa mat\u00e9ria-prima tem l\u00e1, porque existe uma f\u00e1brica de pl\u00e1stico. Isso facilitaria.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Evaristo Spengler<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> &#8211; Na \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o, em Malange, durante a guerra ainda, come\u00e7ou um trabalho de alfabetiza\u00e7\u00e3o de adultos nas aldeias, porque nelas os catequistas l\u00eaem muito mal e quase ningu\u00e9m mais. Conseguir lideran\u00e7as que possam estudar e ensinar \u00e9 muito dif\u00edcil. Ent\u00e3o, come\u00e7ou-se com um grupo de 13 alfabetizadores volunt\u00e1rios. No in\u00edcio, n\u00e3o recebiam nada pelo trabalho que faziam e depois conseguiu-se a contrata\u00e7\u00e3o deles. Hoje s\u00e3o 23 professores e a\u00ed temos uns 500 jovens e adultos que fazem essa alfabetiza\u00e7\u00e3o em rodeios.<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Alexandre <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Depois, no final da guerra, acontece um trabalho de prepara\u00e7\u00e3o das lavras, de prepara\u00e7\u00e3o das terras. As pessoas se organizam em cooperativas e os frades gerenciam tr\u00eas tratores da Diocese para preparar os funcion\u00e1rios que v\u00e3o fazer este tipo de trabalho. E com isso existe um aumento consider\u00e1vel na prepara\u00e7\u00e3o e na produ\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Evaristo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> &#8211; No in\u00edcio, eles recebiam a terra e preparavam, recebiam a semente, tudo na m\u00e3o. Com o passar dos anos, foram se tornando cooperativas. Cada ano, eles guardam uma parte que colheram para vender e para pagar a colheita seguinte e comprar a semente. Hoje tem v\u00e1rias pequenas cooperativas organizadas, que plantam mandioca, milho, feij\u00e3o, batata doce, batata.<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Angelo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Quando Frei Wilson estava l\u00e1, enchia o caminh\u00e3o de abacaxi e numa tarde, encosta o caminh\u00e3o na feira, e as mam\u00e1s compram tudo para revender. Mandioca, carv\u00e3o&#8230; S\u00f3 que isso n\u00e3o \u00e9 bem o nosso trabalho l\u00e1. Mas teria que ter algu\u00e9m para se dedicar a isso. Ajuda no sustento da miss\u00e3o? Claro que ajuda. Poder\u00edamos aliviar em muita coisa.Frei Samuel, com o caminh\u00e3o, ajudava aliviar quando estamos em crise financeira.\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Site Franciscanos \u2013 Como um empres\u00e1rio, por exemplo, pode ajudar a miss\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p><b>Frei Angelo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Se ele tem como declarar o que ele est\u00e1 doando, ele pode mandar. N\u00f3s n\u00e3o precisamos declarar o que ganhamos. <\/span><\/p>\n<p><b>Frei Gustavo \u2013 Como est\u00e1 sendo a experi\u00eancia de Noviciado no Brasil?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Frei Alexandre \u2013<\/strong> Inicialmente j\u00e1 tivemos aqui tr\u00eas grupos. Eles sa\u00edram muito satisfeitos pela acolhida da Prov\u00edncia. Os que v\u00eam para c\u00e1 voltam encantados do Brasil. O estrangeiro que tem a possibilidade de conhecer nosso pa\u00eds, volta encantando com a cordialidade do brasileiro. N\u00e3o foi diferente com os nossos frades. Eles guardam muitas recorda\u00e7\u00f5es. A id\u00e9ia \u00e9 que os frades viessem para c\u00e1 fazer o noviciado at\u00e9 que tenhamos a possibilidade de montar o Noviciado l\u00e1, o que seria ideal.<\/span><\/p>\n<p><b>Site Franciscanos \u2013 O que muda na Miss\u00e3o depois do Capitulo Provincial de 2006?<\/b><\/p>\n<p><b>Frei Evaristo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 O Cap\u00edtulo Provincial (em novembro de 2006) assumiu oficialmente a Miss\u00e3o e, neste sentido, ela entra na estrutura global da Ordem Franciscana. E vai fazer com que mais Prov\u00edncias enviem frades para l\u00e1. Conseguiu-se tamb\u00e9m um n\u00famero maior de frades para Angola visando estruturar todas as fases da forma\u00e7\u00e3o, de modo especial a reestrutura\u00e7\u00e3o do Postulantado e em vista de ter um Noviciado na Miss\u00e3o. Com isso, os candidatos n\u00e3o precisariam mais sair de Angola para fazerem este ano de experi\u00eancia no Brasil. Ficariam dentro da pr\u00f3pria cultura, ou seja, da pr\u00f3pria realidade deles. Na verdade, a Confer\u00eancia dos Bispos aconselha que a forma\u00e7\u00e3o inicial seja toda feita em Angola.<\/span><\/p>\n<p><b>Frei \u00c2ngelo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Acredito que um outro desafio que o Cap\u00edtulo trouxe para n\u00f3s e uma expectativa \u00e9 que o que era no passado. A Funda\u00e7\u00e3o vivia no anonimato e era conversa de poucos. Hoje a gente sentiu neste Cap\u00edtulo que \u00e9 um assunto que todos falam, todos comentam, perguntam. H\u00e1 um interesse maior dos frades. Acho que este Cap\u00edtulo, ele possibilitou isso. Podemos dizer que a Funda\u00e7\u00e3o saiu do anonimato, do sonho, da paix\u00e3o de um pequeno grupo que estava l\u00e1 levando a coisa adiante e volunt\u00e1rios \u2013 voc\u00eas est\u00e3o l\u00e1 porque voc\u00eas querem \u2013 e come\u00e7ou a ficar mais na boca do povo, como se diz. Isso mostra que a Prov\u00edncia est\u00e1 assumindo. Este Cap\u00edtulo deixou isso bem claro para n\u00f3s.<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Alexandre<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 O Cap\u00edtulo tamb\u00e9m assinalou que a iniciativa de ir para a Miss\u00e3o n\u00e3o passa s\u00f3 pelos frades, mas pelo pr\u00f3prio governo da Prov\u00edncia. A gente v\u00ea realmente que a Missa \u00e9 de todos e o carisma mission\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o para alguns. Mas \u00e9 um carisma do franciscanismo. \u00c9 um momento belo que se vive neste contexto. N\u00e3o sou interno da expectativa que Angola vive, mas da Prov\u00edncia em rela\u00e7\u00e3o a nossa Miss\u00e3o est\u00e1 muito envolvida.<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Evaristo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Talvez neste sentido o que se falou da evangeliza\u00e7\u00e3o da Ordem Frei Nestor. Se faz miss\u00e3o n\u00e3o por necessidade l\u00e1. Necessidade aqui n\u00f3s tamb\u00e9m temos. Alguns perguntam por que ir a Angola, se n\u00f3s temos tamb\u00e9m uma \u00c1frica dentro do Brasil, ou n\u00f3s temos pobreza no Brasil. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9\u00a0 a necessidade l\u00e1 porque temos tamb\u00e9m aqui. Porque a Igreja nasceu mission\u00e1ria. E a Ordem Franciscana tamb\u00e9m nasceu mission\u00e1ria. Ou n\u00f3s somos mission\u00e1rios ou n\u00f3s somos franciscanos. Quer dizer, na Igreja h\u00e1 v\u00e1rias formas de sermos mission\u00e1rios, mas este mission\u00e1rio \u2018ad gentes\u2019 \u00e9 uma caracter\u00edstica essencial da Ordem Franciscana.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Site Franciscanos \u2013 Qual o principal desafio da Miss\u00e3o hoje?<\/b><\/p>\n<p><b>Frei \u00c2ngelo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Eu vejo assim que um dos grandes desafios \u2013 n\u00f3s estamos l\u00e1 com um objetivo: semear a Ordem Franciscana \u2013 agora, os grandes desafios nossos hoje \u00e9 como n\u00f3s vamos dar esse testemunho l\u00e1 em Angola, um pa\u00eds em que est\u00e1 em ebuli\u00e7\u00e3o, mudan\u00e7as, e transforma\u00e7\u00f5es profundas, culturais, tudo est\u00e1 mudando, se transformando, se contaminando e perdendo a cultura. E n\u00e3o \u00e9 um processo, assim,\u00a0 lento como em outros pa\u00edses viveram. \u00c9 uma coisa violenta, r\u00e1pida, do dia para a noite voc\u00ea tem tantas coisas. Todo mundo est\u00e1 vivendo isso. Se a gente n\u00e3o se cuidar, tamb\u00e9m vai entrar um pouco dentro deste ritmo e corre-se o risco de se descaracterizar como frades, como Ordem Franciscana. Ent\u00e3o, acho que um dos grandes desafios \u00e9 como que a gente vai estar diante de tudo isso. Como que a gente vai viver junto com o povo essa transforma\u00e7\u00e3o, como a gente vai prepar\u00e1-los e vai tamb\u00e9m, junto, se preparar para poder n\u00e3o ser engolido por esse progresso ilus\u00f3rio, por essa reconstru\u00e7\u00e3o, que no fundo traz benef\u00edcios, sim, mas para um grupo de privilegiados. <\/span><\/p>\n<p><b>Site Franciscanos \u2013 De qualquer forma, voc\u00eas j\u00e1 t\u00eam uma boa base em 16 anos?\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>Frei Angelo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> &#8211; Nestes 16 anos, a gente\u00a0 j\u00e1 tem uma presen\u00e7a e j\u00e1 come\u00e7a a criar um jeito franciscano de estar, fazer, de coordenar, de viver l\u00e1 com eles. Aos poucos, a gente vai criando estas caracter\u00edsticas, essa maneira de ser nossa. Agora, em 16 anos, contudo, temos uma miss\u00e3o \u201cadolescente\u201d, ent\u00e3o, adolescente sonha muito, \u00e0s vezes, comete certas irresponsabilidades at\u00e9, n\u00e3o tem muita responsabilidade, a gente conhece como \u00e9 um adolescente. Ent\u00e3o, a Funda\u00e7\u00e3o em 16 anos ela est\u00e1 passando para uma fase mais adulta na reflex\u00e3o. Esses grandes desafios que a gente tem.<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Evaristo Spengler &#8211; <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">A busca n\u00e3o \u00e9 de dar rumo ao povo, mas de estarmos juntos com o povo e sermos menores e servidores entre eles. Assim, como Francisco, anunciando a paz e o bem. Assim, buscando fomentar os valores do Evangelho no meio da cultura.<\/span><\/p>\n<p><b>Site Franciscanos &#8211; Quanto tempo ser\u00e1 necess\u00e1rio para a miss\u00e3o de Angola ser independente?<\/b><\/p>\n<p><b>Frei Evaristo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Para voc\u00ea ter uma id\u00e9ia, os franciscanos do Egito \u00e9 muito antigo e agora est\u00e3o abrindo uma miss\u00e3o no Sud\u00e3o. Na \u00c1frica do Sul tem uma Prov\u00edncia estruturada h\u00e1 muito tempo, eles est\u00e3o abrindo uma miss\u00e3o na Nam\u00edbia. A Ordem refor\u00e7ou uma frente mission\u00e1ria no Qu\u00eania, que a Prov\u00edncia de l\u00e1 abrange dez pa\u00edses. Ent\u00e3o, n\u00e3o temos a pretens\u00e3o de logo ir para fora, mas de fato estruturar o franciscanismo e a Ordem dentro de Angola neste momento. \u201cPartir em miss\u00e3o\u201d \u00e9 uma coisa para o futuro, n\u00e3o \u00e9 o pensamento de agora. O pensamento de agora \u00e9 \u201cir em miss\u00e3o para l\u00e1\u201d. Quer dizer, no futuro, eles l\u00e1 v\u00e3o dar um passo de chegar a um outro pa\u00eds. A Ordem j\u00e1 tem presen\u00e7a mission\u00e1ria em mais de metade dos pa\u00edses da \u00c1frica, e essa presen\u00e7a \u00e9 uma presen\u00e7a crescente porque tem voca\u00e7\u00f5es, em toda a \u00c1frica subsaariana. A dificuldade de voca\u00e7\u00f5es \u00e9 no Norte da \u00c1frica, onde a maioria \u00e9 mul\u00e7umana. O Congo democr\u00e1tico tem a maior prov\u00edncia da \u00c1frica: tem praticamente 200 frades num pa\u00eds. Em todos os pa\u00edses da \u00c1frica subsaariana as voca\u00e7\u00f5es s\u00e3o florescentes. Ent\u00e3o, se espera num futuro que todos os pa\u00edses da \u00c1frica possam ter mission\u00e1rios a partir das miss\u00f5es africanas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Alexandre<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> &#8211; Talvez um dos desafios que passamos \u00e9 que n\u00e3o t\u00ednhamos, at\u00e9 o presente momento, um Cap\u00edtulo. Agora, a partir daqui temos uma expectativa diferenciada. N\u00e3o t\u00ednhamos formadores suficientes para colher um n\u00famero maior de vocacionados e ter todas as etapas de forma\u00e7\u00e3o l\u00e1. No momento, vivemos uma expectativa positiva. Creio que mais irm\u00e3os ir\u00e3o para o acompanhamento em Angola e de modo particular na forma\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, em outros pa\u00edses n\u00f3s verificamos que antes de 50 anos essa autonomia n\u00e3o aconteceu. Ent\u00e3o, acho que a gente n\u00e3o pode criar falsas expectativas achando que daqui a 20, 30 anos. Acho que s\u00f3 depois dos 50 anos. E claro um pedido que existe da Ordem \u00e9 que nesse per\u00edodo at\u00e9 a busca da autonomia, digamos vocacional, independ\u00eancia, que as institui\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m criem uma estrutura para manuten\u00e7\u00e3o, que \u00e9 outro desafio. Porque at\u00e9 bem pouco tempo atr\u00e1s, a \u00c1frica vivia da ajuda externa. Drasticamente essa ajuda est\u00e1 caindo. N\u00f3s devemos criar uma estrutura que possibilite que os frades depois consigam, com os recursos locais, n\u00e3o s\u00f3 vocacionalmente mas materialmente, conseguir levar essa Funda\u00e7\u00e3o adiante.<\/span><\/p>\n<p><b>Site Franciscanos &#8211; Por qual motivo optou-se pela forma\u00e7\u00e3o inicial em Angola<\/b><\/p>\n<p><b>Frei Alexandre<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 A pr\u00f3pria Confer\u00eancia Episcopal nos pediu isso. E a primeira situa\u00e7\u00e3o a gente sabe, que o ideal \u00e9 que n\u00f3s recebamos os valores do Evangelho e os valores do franciscanismo dentro da nossa cultura. Ent\u00e3o, todos estes primeiros grupos agora. Porque a s\u00edntese quem faz n\u00e3o \u00e9 o estrangeiro que est\u00e1 l\u00e1, mas quem vai fazer \u00e9 cada um em contato da sua cultura com o Evangelho ao movo de vida franciscana. E o melhor espa\u00e7o para se fazer isso \u00e9 dentro do pr\u00f3prio pa\u00eds de origem, porque quando voc\u00ea recebe os valores j\u00e1 por quem faz a media\u00e7\u00e3o j\u00e1 s\u00e3o os estrangeiros. E ainda em terra estrangeira, ent\u00e3o, essa media\u00e7\u00e3o se torna, me parece, ainda mais complicada. Ent\u00e3o, estando na sua terra, at\u00e9 o processo contr\u00e1rio, desses irm\u00e3os compreenderem um pouco a cultura, estarem ali e partir dali ajud\u00e1-los nesta assimila\u00e7\u00e3o, para que cada um possa colher esta s\u00edntese. O local ideal \u00e9 sempre na realidade. J\u00e1 na Teologia a gente refletia que a gente pensa a partir de onde nossos p\u00e9s pisam. Ent\u00e3o, estar naquela realidade, a forma\u00e7\u00e3o acontecer l\u00e1 parece mais legal. Por\u00e9m, nem todas as etapas fazemos l\u00e1, como o Noviciado, por causa da impossibilidade num\u00e9rica de formadores. Se tiv\u00e9ssemos formadores suficientes, o Noviciado seria l\u00e1. Por\u00e9m sonhamos que em outras etapas, depois da Teologia, na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, \u00e9 importante que o formando, que o frade, v\u00e1 a outros pa\u00edses, abra os horizontes, como n\u00f3s fazemos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Angelo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 A quest\u00e3o cultural est\u00e1 por tr\u00e1s de tudo isso. S\u00e3o jovens e tir\u00e1-los simplesmente do Continente, traz\u00ea-los para o semin\u00e1rio onde tem mais estrutura. Tudo isso j\u00e1 foi feito algumas experi\u00eancias mas n\u00e3o deram certo. Levamos uma vez o grupo para a Z\u00e2mbia, onde foram fazer o estudo de Filosofia. N\u00e3o deu certo. L\u00e1 tem\u00a0 um instituto da Ordem. Tivemos realmente que voltar atr\u00e1s, a fazer o nosso ato penitencial. Tem todos esses fatores que nos levam a gente a criar um esfor\u00e7o grande. E depois a forma\u00e7\u00e3o inicial estar l\u00e1 junto com a gente \u00e9 um pouquinho dos nossos frutos, n\u00e9? Do esfor\u00e7o, da presen\u00e7a, do testemunho nosso l\u00e1, voc\u00ea vendo outros atr\u00e1s e est\u00e3o querendo seguir esta proposta de vida. Acho que isso estimula o mission\u00e1rio. S\u00e3o filhos espirituais e est\u00e3o a\u00ed, mais tarde a gente pensar: olha, s\u00e3o eles que v\u00e3o tocar isso aqui. Ent\u00e3o, para os mission\u00e1rios que moram l\u00e1 , que est\u00e3o no pa\u00eds, a quest\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o inicial,\u00a0 em quase todas as congrega\u00e7\u00f5es, tem a sua forma\u00e7\u00e3o l\u00e1. Isso \u00e9 um est\u00edmulo porque \u00e9 o fruto de seu testemunho.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Evaristo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 A gente falava que \u00e9 uma orienta\u00e7\u00e3o dos bispos, mas \u00e9 tamb\u00e9m uma orienta\u00e7\u00e3o da Ordem Franciscana.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Alexandre<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 \u00c9 tamb\u00e9m uma fun\u00e7\u00e3o de m\u00e3o dupla. Porque neste encontro do dia-a-dia, a partir do mata-bicho, a partir daquilo que se faz, do tipo de comida, ent\u00e3o, tamb\u00e9m somos formados por eles. Porque a gente convive nesta troca e realmente existe um encontro de culturas. Uma coisa \u00e9 pregar para fora. Ent\u00e3o, n\u00f3s vamos sendo mais africanos, angolanos tamb\u00e9m, por estar com eles, conviver com eles.<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Evaristo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Assimilamos mais a linguagem deles, os costumes, as comidas, na pr\u00e1tica do dia-a-dia.<\/span><\/p>\n<p><b>Site Franciscanos \u2013 Onde \u00e9 feito o estudo de Filosofia?<\/b><\/p>\n<p><b>Frei Angelo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Eles atualmente estudam com os salesianos, que t\u00eam um Instituto Superior. Durante tr\u00eas anos, eles cursam Filosofia com os salesianos e, neste ano, a fazem Teologia no Semin\u00e1rio Maior da Arquidiocese de Luanda.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Frei Alexandre \u2013<\/strong> E os salesianos pediram o apoio de outras congrega\u00e7\u00f5es porque eles sozinhos n\u00e3o tocariam. Ent\u00e3o, pediram professores, quadros de outras congrega\u00e7\u00f5es para assumirem juntas esta iniciativa. Ent\u00e3o, inclusive, \u00e9 uma d\u00edvida que no momento n\u00f3s temos. N\u00e3o temos no momento professores no Instituto. Mas esperamos que com este novo refor\u00e7o tamb\u00e9m podermos ter frades que possam participar tamb\u00e9m deste instituto como coordenadores.\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><strong>Site Franciscanos \u2013 Momento atual da Fimda? \u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><b>Frei Angelo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 A gente tem expectativas, est\u00e1 otimista junto com o povo. Tamb\u00e9m est\u00e1 contaminado com esta ebuli\u00e7\u00e3o em Angola. A gente espera que fa\u00e7am estradas, que as coisas melhorem, porque da\u00ed as dist\u00e2ncias ficam menores. Por exemplo, de Luanda a Malange s\u00e3o 450 quil\u00f4metros e com asfalto d\u00e1 para ir e voltar no mesmo dia. \u00c9 claro que o povo tem outras necessidades tamb\u00e9m. Mas \u00e9 uma estrutura necess\u00e1ria para se viver, para o povo ir e voltar, para a agricultura escoar sua produ\u00e7\u00e3o para a cidade. Tem lugares que o amendoim apodrece porque n\u00e3o tem como trazer. Via mar n\u00e3o d\u00e1, via rio n\u00e3o d\u00e1. Ent\u00e3o, a gente vive esse momento. A Fimda tamb\u00e9m.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Evaristo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 E a Miss\u00e3o tanto em Luanda como em Malange est\u00e1 investindo muito em educa\u00e7\u00e3o. J\u00e1 foi falado um pouco sobre isso, mas a reconstru\u00e7\u00e3o de escolas que foram destru\u00eddas e a constru\u00e7\u00e3o de novas escolas. O grande desafio agora \u00e9 preparar bem estes professores, para que d\u00eaem um ensino de qualidade. Parece que pela educa\u00e7\u00e3o que vai passar tamb\u00e9m muito da reconstru\u00e7\u00e3o\u00a0 humana do pa\u00eds. Neste sentido, tem dois aspectos importantes: a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o. L\u00e1 ainda existe muito paludismo. L\u00e1, o animal que mais mata no mundo \u00e9 um mosquito. Ent\u00e3o, por falta de saneamento e condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de sa\u00fade, muitas miss\u00f5es est\u00e3o envolvidas neste trabalho de sa\u00fade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Todo estrutura de saneamento em Luanda \u00e9 de quarenta anos atr\u00e1s. O encanamento de \u00e1gua n\u00e3o tem mapas. O que os chineses fazem hoje? Eles botam press\u00e3o nas bombas e deixam estourar e sabem localizar onde est\u00e1 passando as condutas de \u00e1gua. A partir dali eles come\u00e7am a consertar. Porque n\u00e3o se tem um mapa onde passa a luz el\u00e9trica, a \u00e1gua, o g\u00e1s. Tudo foi perdido. O saneamento est\u00e1 todo comprometido. <\/span><\/p>\n<p><b>Frei Alexandre<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Muita coisa j\u00e1 feita. N\u00f3s, o povo, vivemos a expectativa. Podemos colocar a situa\u00e7\u00e3o interna da Funda\u00e7\u00e3o. N\u00f3s vivemos um momento muito feliz, tamb\u00e9m nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais.<\/span><\/p>\n<p><b>Site Franciscanos \u2013 Como voc\u00ea sente o apoio da Prov\u00edncia?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Frei Evaristo \u2013<\/strong> Desde o in\u00edcio, quando os frades foram daqui, tinham uma certeza no cora\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o estavam indo sozinhos. Estavam indo em nome da Prov\u00edncia e com o respaldo da Prov\u00edncia. Foi sempre a Prov\u00edncia que nos sustentou, a Prov\u00edncia que nos socorreu no momento de doen\u00e7a, e a Prov\u00edncia reza muito e faz campanhas pelas Miss\u00f5es. Por exemplo, no ano passado, houve uma campanha grande para que se pudesse colocar uma B\u00edblia na m\u00e3o de todos os catequistas e crist\u00e3os que s\u00e3o lideran\u00e7as nas comunidades. E at\u00e9 tenho que fazer um agradecimento muito grande a todas as pessoas que colaboraram nesta campanha. E a outra parte da campanha foi para kits escolares para ajudar as crian\u00e7as que n\u00e3o podem comprar o material escolar. Este ano est\u00e1 sendo feita uma nova campanha.<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Angelo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Este ano na Assembl\u00e9ia decidiu pedir \u00e0 Prov\u00edncia que fizesse a campanha de pequenas m\u00e1quinas, pequenos aparelhos, de fazer estas sacolas pl\u00e1sticas que a gente recebe nos mercados. A gente tem a mat\u00e9ria-prima l\u00e1 e porque isso? Fazer pequenas cooperativas de gera\u00e7\u00e3o de renda para que eles possam ganhar o seu dinheiro e cuidar um pouco mais de suas vidas e tamb\u00e9m prestar um servi\u00e7o volunt\u00e1rio, principalmente\u00a0 Pastoral da Crian\u00e7a. S\u00e3o mulheres volunt\u00e1rias que v\u00e3o visitar as mulheres gr\u00e1vidas. Se a gente cria uma pequena cooperativa de gera\u00e7\u00e3o de renda, ela vai trabalhar quatro, cinco dias para o seu sustento e, um dia, ela vai se dedicar \u00e0 Pastoral da Crian\u00e7a. \u00c9 um ganho. Ela vai ajudar no sustento da fam\u00edlia e vai deixar um pouco dessa renda para o projeto e uma parte vai ficar para ela. Por isso, neste ano, nosso foco est\u00e1 nisso. Aquelas m\u00e1quinas de fazer fraldas, tijolos, telas, s\u00e3o coisas que a gente pode organizar em pequenos grupos. A gente sempre recebeu apoio da Prov\u00edncia e agora v\u00ea que a Prov\u00edncia come\u00e7a a se envolver tamb\u00e9m no apoio \u00e0 Evangeliza\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Evaristo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 E dar forma\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Alexandre<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Cada dia, cada noite, as nossas ora\u00e7\u00f5es e nossos agradecimentos na inten\u00e7\u00e3o da Prov\u00edncia e de nossos benfeitores.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Frei Evaristo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2013 Nem todo mundo pode ser mission\u00e1rio mas todo mundo pode rezar pelas miss\u00f5es, apoiar as voca\u00e7\u00f5es para as miss\u00f5es.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":242122,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[758],"tags":[1379,195,1277,2100,361],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.2 - 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