{"id":231374,"date":"2021-04-03T07:06:42","date_gmt":"2021-04-03T10:06:42","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/?p=231374"},"modified":"2021-04-03T07:07:09","modified_gmt":"2021-04-03T10:07:09","slug":"a-estetica-da-cruz-provoca-a-uma-decisao-radical-que-poe-o-nosso-corpo-a-servico-do-proximo-entrevista-especial-com-ademir-guedes-azevedo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/a-estetica-da-cruz-provoca-a-uma-decisao-radical-que-poe-o-nosso-corpo-a-servico-do-proximo-entrevista-especial-com-ademir-guedes-azevedo.html","title":{"rendered":"\u201cA est\u00e9tica da cruz provoca a uma decis\u00e3o radical que p\u00f5e o nosso corpo a servi\u00e7o do pr\u00f3ximo&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-231375\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/cruz_03.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"705\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/cruz_03.jpg 1200w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/cruz_03-450x264.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/cruz_03-1024x602.jpg 1024w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/cruz_03-768x451.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/cruz_03-150x88.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/p>\n<p>Entre todas as nossas fragilidades e car\u00eancias individuais e coletivas, que continuam expostas como uma ferida aberta durante\u00a0a pandemia de\u00a0<strong>Covid-19<\/strong>, crescem os diagn\u00f3sticos cl\u00ednicos e dados mundiais sobre o aumento da depress\u00e3o e dos transtornos mentais, que revelam, em maior ou menor grau &#8211; apesar de n\u00e3o serem reduzidas a ela -, uma das doen\u00e7as da nossa era:\u00a0a crise de sentido. Segundo\u00a0Ademir Guedes Azevedo, \u201ca falta de sentido que enfrentamos em nossa sociedade atual tem v\u00e1rias causas, e a\u00a0dor\u00a0que gera mais danos \u00e9 aquela do\u00a0vazio existencial\u201d. Mas no\u00a0<strong>Mist\u00e9rio Pascal<\/strong>, que \u00e9 \u201co centro de toda a vida crist\u00e3\u201d, \u201ca exist\u00eancia vem considerada em profundidade, pois tudo adquire sentido\u201d, diz o mission\u00e1rio passionista nesta entrevista concedida ao\u00a0<strong>Instituto Humanitas Unisinos &#8211; IHU<\/strong> <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/\">(http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/)<\/a>por e-mail.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-231376 size-full alignright\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/ademir.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"525\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/ademir.jpg 500w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/ademir-429x450.jpg 429w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/ademir-150x158.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/>Na avalia\u00e7\u00e3o dele, a dificuldade de lidarmos com o sofrimento, particularmente nos dias de hoje, \u201ctem uma raiz mais long\u00ednqua e reside nos efeitos nefastos que a chamada sociedade do desempenho fez conosco. O projeto da\u00a0<strong>modernidade<\/strong>\u00a0alcan\u00e7ou-nos por meio de um excesso de positividade. Falou-se no super-homem e nos esquecemos que somos fr\u00e1geis e vulner\u00e1veis. Foi-nos ensinado t\u00e9cnicas de efic\u00e1cia e desempenho para sermos talentosos e, assim, respondermos ao projeto moderno de progresso. Acabamos sendo o fruto leg\u00edtimo de nossas pr\u00f3prias m\u00e3os e esquecemos do transcendente e da espiritualidade\u201d e \u201cfoi justamente assim que fomos surpreendidos com a chegada de um v\u00edrus letal\u201d.<\/p>\n<p>Imersos na\u00a0<strong>pandemia global<\/strong>\u00a0e mergulhados na crise epocal, ressalta, \u201ctoda a armadura que criamos com a modernidade foi rachada, ficamos sem nenhuma prote\u00e7\u00e3o e diante de nossa pr\u00f3pria vulnerabilidade. O galho das nossas\u00a0antigas seguran\u00e7as\u00a0que nos davam a impress\u00e3o de sermos deuses, come\u00e7ou a estalar e \u00e9 justamente isso que rouba a nossa paz, deixando-nos em p\u00e2nico e vazios&#8221;.<\/p>\n<p>Nesta\u00a0<strong>Semana Santa<\/strong>, em que os crist\u00e3os anunciam\u00a0a morte e proclamam a\u00a0ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo,\u00a0<strong>Azevedo<\/strong>\u00a0nos convida a fazer a \u201cexperi\u00eancia de sentir-se crucificado, pois \u00e9 nela que podemos\u00a0renascer para uma sabedoria mais profunda\u201d que pode nos \u201ctirar deste labirinto em que entramos\u201d. Ele explica: \u201cNa\u00a0<strong>cruz<\/strong>\u00a0vemos dor e solid\u00e3o, mas, por outro lado, um homem que confia, pois ele \u00e9 portador de uma intelig\u00eancia emocional que o faz forte, quando se sente fraco. O projeto moderno de vida v\u00ea o ser humano a partir do que ele tem e pode conquistar. Mas\u00a0na cruz o homem n\u00e3o tem nada, deve aprender a ressignificar-se a partir de sua impot\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>A seguir, o te\u00f3logo reflete sobre o\u00a0<strong>Mist\u00e9rio Pascal<\/strong>\u00a0e o sentido do cristianismo hoje, prop\u00f5e uma atualiza\u00e7\u00e3o da resposta crist\u00e3 para o\u00a0problema do mal\u00a0e explica a espiritualidade passionista, que faz do\u00a0<strong>Mist\u00e9rio Pascal<\/strong>\u00a0o centro da vida.<\/p>\n<p>Ademir Guedes Azevedo \u00e9 mission\u00e1rio passionista e mestre em Teologia Fundamental na Pontif\u00edcia Universidade Gregoriana. Ele tamb\u00e9m escreve para este <a href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/a-estetica-da-cruz\/#gsc.tab=0\"><strong>site Franciscanos<\/strong>.<\/a><\/p>\n<h3><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/h3>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como o senhor interpreta o Mist\u00e9rio Pascal? Que sentido ele pode dar \u00e0 nossa exist\u00eancia, especialmente em per\u00edodos como o que vivemos, imersos na trag\u00e9dia e no sofrimento gerados pela crise pand\u00eamica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ademir Guedes Azevedo &#8211;<\/strong>\u00a0O\u00a0Mist\u00e9rio Pascal\u00a0\u00e9 o centro de toda a vida crist\u00e3. Nele, a exist\u00eancia vem considerada em profundidade, pois tudo adquire sentido. A\u00a0Paix\u00e3o, Morte e Ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus\u00a0exprimem todo o desejo de Deus para a humanidade: \u201cEu vim para que tenham vida, e a tenham com abund\u00e2ncia\u201d (Jo 10,10). \u201cA gl\u00f3ria de Deus \u00e9 o homem vivente\u201d (<strong>Santo Irineu<\/strong>). A falta de sentido que enfrentamos em nossa sociedade atual tem v\u00e1rias causas, e a dor que gera mais danos \u00e9 aquela do vazio existencial. Se encontro metas e um porqu\u00ea (Esperan\u00e7a) que justifique o cansa\u00e7o do caminho, posso dar um significado mais profundo \u00e0 vida. Considero que Jesus encontrou um sentido maior que resume toda a sua miss\u00e3o: combater as cruzes impostas que aniquilam a vida. Apaixonado por Deus e fiel a um projeto de vida maior (Reino), Jesus abre um horizonte de sentido que devolve a luz aos olhos dos homens de todos os tempos.<\/p>\n<p>A pandemia que atravessamos poderemos super\u00e1-la com a rica contribui\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, mas tamb\u00e9m com a\u00a0for\u00e7a revitalizadora que encontramos no Mist\u00e9rio Pascal. Aqui nos damos conta de que h\u00e1 um Deus que nos ama loucamente e, por isso, devemos erguer-nos para assumir a vida com todos os seus dramas, inclusive com as pandemias.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; A humanidade vive um momento particular em fun\u00e7\u00e3o da pandemia de Covid-19, que tem n\u00e3o s\u00f3 evidenciado a fragilidade humana, mas tamb\u00e9m suscitado discuss\u00f5es sobre a presen\u00e7a do mal no mundo. Qual \u00e9, na sua interpreta\u00e7\u00e3o, a melhor resposta crist\u00e3 \u00e0 quest\u00e3o do mal?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ademir Guedes Azevedo &#8211;<\/strong>\u00a0Penso que um dos debates mais atuais em teologia est\u00e1 na teodiceia. Vejo que alguns grupos cat\u00f3licos perdem muito tempo tentando dar respostas aos problemas atuais com artigos da doutrina, muitas vezes descontextualizados e com uma linguagem apolog\u00e9tica metaf\u00edsica que, aos ouvidos de nossa sociedade p\u00f3s-moderna, soa estranho e at\u00e9 rid\u00edculo.<\/p>\n<p>Desconfio que a f\u00e9 crist\u00e3 tornar-se-\u00e1 cred\u00edvel no mundo de hoje s\u00f3 se a teologia conseguir refletir de modo l\u00facido sobre\u00a0a quest\u00e3o do mal, buscando uma resposta convincente ao mesmo. Neste sentido, a melhor justifica\u00e7\u00e3o deste problema n\u00e3o \u00e9 um discurso sobre a doutrina do mal, mas uma tomada de decis\u00e3o que me encaminhe para a solidariedade com as v\u00edtimas do mal. Ent\u00e3o a quest\u00e3o \u00e9 a seguinte: onde est\u00e3o os crist\u00e3os diante dos dramas causados pelo mal? Aqui estou tentando reproduzir um argumento do te\u00f3logo alem\u00e3o\u00a0Johan B. Metz\u00a0que, em minha opini\u00e3o, foi quem melhor refletiu sobre este debate em sua obra\u00a0<strong>Memoria Passionis<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Metz<\/strong>\u00a0critica\u00a0<strong>Agostinho<\/strong>\u00a0quando este concentra todo o problema do mal no pecado original. Isso criou uma tradi\u00e7\u00e3o obcecada apenas na reden\u00e7\u00e3o dos pecados, esquecendo-se das condi\u00e7\u00f5es concretas do pecador. Por isso, fala-se tanto de repara\u00e7\u00e3o dos pecados, expia\u00e7\u00e3o, penit\u00eancias e tantas outras pr\u00e1ticas rituais externas. Esse modo de enxergar situa-nos numa vis\u00e3o eclesial ritualista e individualista. Por\u00e9m, o que\u00a0<strong>Metz<\/strong>\u00a0pretende \u00e9 outra coisa: somos colaboradores de Deus em seu Reino e, por isso, temos que retomar a sua pr\u00e1tica, por meio da mem\u00f3ria de seus gestos e a\u00e7\u00f5es, os quais rompem com os falsos mitos que pretendem justificar um futuro no qual tem espa\u00e7o apenas uma elite religiosa. Retomar a\u00a0<em><strong>Memoria Passionis<\/strong><\/em>\u00a0por meio da nossa pr\u00e1tica solid\u00e1ria significa instaurar um estilo de vida subversivo e perigoso, visto que a retomada da\u00a0pr\u00e1xis de Jesus\u00a0pretende um futuro messi\u00e2nico, no qual todas as v\u00edtimas do mal da hist\u00f3ria s\u00e3o tratadas n\u00e3o como n\u00famero, mas a partir de seus rostos e hist\u00f3rias concretas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o<strong>\u00a0problema do mal<\/strong>\u00a0\u00e9 enfrentado dentro de uma f\u00e9 pr\u00e1tica que convoca a cada um a ser solid\u00e1rio. Esta\u00a0m\u00edstica de olhos abertos\u00a0n\u00e3o esquece dos sofredores, mas se empenha para uma pr\u00e1tica libertadora, assim como o pr\u00f3prio Jesus viveu a sua miss\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Durante a pandemia, aumentaram os relatos de casos de depress\u00e3o, ang\u00fastia, falta de esperan\u00e7a, medo e problemas ps\u00edquicos em geral. Como o senhor interpreta esse fen\u00f4meno do ponto de vista teol\u00f3gico? A sociedade est\u00e1 desaprendendo a lidar com o sofrimento? Ou n\u00e3o encontra mais em Deus uma fonte para vivenciar e superar o sofrimento?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ademir Guedes Azevedo &#8211;<\/strong>\u00a0Este cen\u00e1rio tem uma raiz mais long\u00ednqua e reside nos efeitos nefastos que a chamada\u00a0<strong>sociedade do desempenho<\/strong>\u00a0fez conosco. O\u00a0projeto da modernidade\u00a0alcan\u00e7ou-nos por meio de um excesso de positividade. Falou-se no super-homem e nos esquecemos que somos fr\u00e1geis e vulner\u00e1veis. Foi-nos ensinado t\u00e9cnicas de efic\u00e1cia e desempenho para sermos talentosos e, assim, respondermos ao projeto moderno de progresso. Acabamos sendo o fruto leg\u00edtimo de nossas pr\u00f3prias m\u00e3os e esquecemos do transcendente e da espiritualidade. Foi justamente assim que fomos\u00a0surpreendidos com a chegada de um v\u00edrus letal. Agora toda a armadura que criamos com a modernidade foi rachada, ficamos sem nenhuma prote\u00e7\u00e3o e diante de nossa pr\u00f3pria vulnerabilidade. O galho das nossas antigas seguran\u00e7as que nos davam a impress\u00e3o de sermos deuses, come\u00e7ou a estalar e \u00e9 justamente isso que rouba a nossa paz, deixando-nos em p\u00e2nico e vazios.<\/p>\n<h3>A experi\u00eancia de sentir-se crucificado<\/h3>\n<p>Quero aprofundar um pouco mais esta quest\u00e3o. Tamb\u00e9m n\u00f3s crist\u00e3os pouco sabemos\u00a0o que fazer diante do sofrimento, pois tentamos enfrentar este drama com uma f\u00e9 que recebemos de um mundo pr\u00e9-moderno, mas hoje o sujeito tem uma sensibilidade e vis\u00e3o de mundo diferente. Neste ponto, a Igreja n\u00e3o acompanhou o desenvolvimento dos v\u00e1rios contextos e tratou de maneira homog\u00eanea a referida quest\u00e3o, com repeti\u00e7\u00e3o de respostas que pouco atingem as novas sensibilidades. Isso \u00e9 t\u00e3o evidente, que muitos l\u00edderes religiosos tamb\u00e9m est\u00e3o imersos nos mais diversos problemas ps\u00edquicos. Ou seja, as respostas prontas que damos aos outros tamb\u00e9m n\u00e3o servem para n\u00f3s, visto que n\u00e3o geram efeito algum em n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Eu considero que h\u00e1 um caminho que pode nos tirar deste labirinto em que entramos. \u00c9 a experi\u00eancia de sentir-se crucificado, pois \u00e9 nela que podemos renascer para uma sabedoria mais profunda. Na cruz vemos dor e solid\u00e3o, mas, por outro lado, um homem que confia, pois ele \u00e9 portador de uma intelig\u00eancia emocional que\u00a0o faz forte, quando se sente fraco. O projeto moderno de vida v\u00ea o ser humano a partir do que ele tem e pode conquistar. Mas na cruz o homem n\u00e3o tem nada, deve aprender a ressignificar-se a partir de sua impot\u00eancia.<\/p>\n<p>Sentir-se crucificado por uma pandemia n\u00e3o significa que estamos derrotados, mas se trata de uma oportunidade para olharmos para o que restou depois de sermos privados do aparato de coisas e situa\u00e7\u00f5es que o mundo moderno inventou. E aquilo que resta \u00e9 o encontro com o nosso pr\u00f3prio \u201ceu\u201d, com o n\u00facleo da nossa exist\u00eancia que nada e ningu\u00e9m nos podem roubar. Essa pode ser uma via que nos ajuda a enfrentarmos o sofrimento com a cabe\u00e7a erguida. \u00c9 urgente aprendermos a conviver com a nossa pr\u00f3pria imagem, depois de nossas longas fugas e buscas por felicidade exterior. Por isso, creio que a espiritualidade como viagem ao mais profundo do nosso ser poder\u00e1 ajudar-nos a refazer uma nova cria\u00e7\u00e3o em n\u00f3s a partir dos cacos que ainda sobraram das nossas frustra\u00e7\u00f5es. Assim, poderemos reerguer-nos e recome\u00e7ar tudo de novo de um modo completamente diferente.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; O \u00faltimo ano foi marcado por in\u00fameras a\u00e7\u00f5es de solidariedade, mas tamb\u00e9m por sentimentos de desamparo e perda da esperan\u00e7a. Como a Paz de Cristo, oferecida aos ap\u00f3stolos e a todos n\u00f3s, pode alterar o estado de \u00e2nimo do ser humano imerso na incerteza e na falta de esperan\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ademir Guedes Azevedo &#8211;<\/strong>\u00a0A\u00a0<strong>Paz de Cristo<\/strong>, oferecida como prim\u00edcia de sua\u00a0<strong>ressurrei\u00e7\u00e3o<\/strong>, \u00e9 algo impactante. N\u00e3o se trata de uma paz dos cemit\u00e9rios, como bem insistia nosso querido Dom\u00a0<strong>Pedro Casald\u00e1liga<\/strong>. \u00c9 paz inquietante, pois nos empurra para gestos concretos. \u00c9 tamb\u00e9m uma paz muito perigosa, porque \u00e9 dada por um homem ferido, ou seja, por algu\u00e9m que se sujou com os dramas da vida humana.<\/p>\n<p>O te\u00f3logo tcheco\u00a0Tom\u00e1s Hal\u00edk\u00a0diz que num mundo t\u00e3o quebrado como o nosso, s\u00f3 resta-nos crer num Deus ferido. Realmente, aquela paz oferecida aos ap\u00f3stolos e \u00e0s gera\u00e7\u00f5es de todos os tempos, s\u00f3 tem efeito se for capaz de fazer uma car\u00edcia em nossas feridas. \u00c9 justo isso, usando a nossa imagina\u00e7\u00e3o, que exige\u00a0<strong>Tom\u00e9<\/strong>\u00a0aos disc\u00edpulos: eu s\u00f3 acredito nesse ressuscitado de quem voc\u00eas est\u00e3o me falando se ele estiver ferido, pois \u00e9 s\u00f3 assim que ele saber\u00e1 a dose certa do rem\u00e9dio para sanar a minha ferida. Mais do que nunca, desejar a paz de Cristo, em nossa cultura fr\u00e1gil e vulner\u00e1vel, \u00e9 ser capaz de arriscar-se pelos outros e de envolver-se na dor alheia. Sem essa experi\u00eancia n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel falar de\u00a0<strong>Ressurrei\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Qual \u00e9 o cerne da espiritualidade passionista e como ela nos ajuda a encontrar na Paix\u00e3o de Jesus o rem\u00e9dio para os males do mundo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ademir Guedes Azevedo &#8211;<\/strong>\u00a0N\u00f3s, passionistas, fazemos do\u00a0<strong>Mist\u00e9rio Pascal<\/strong>\u00a0o centro de nossas vidas. O cerne da\u00a0espiritualidade passionista\u00a0consiste no ser e fazer a Mem\u00f3ria da Paix\u00e3o por palavras e obras, assim todo passionista \u00e9 um \u2018homem mem\u00f3ria\u2019, pois atualiza com a vida o significado do evento da\u00a0<strong>Paix\u00e3o<\/strong>\u00a0para o hoje da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Considero tr\u00eas aspectos importantes da espiritualidade passionista:<\/p>\n<p><strong>1.<\/strong>\u00a0H\u00e1 um lugar espec\u00edfico que devemos sempre frequentar;<\/p>\n<p><strong>2.<\/strong>\u00a0Uma experi\u00eancia a ser nutrida; e<\/p>\n<p><strong>3.<\/strong>\u00a0Uma miss\u00e3o a cumprir.<\/p>\n<p>Vejamos:<\/p>\n<h3>O lugar<\/h3>\n<p>O lugar que devemos frequentar \u00e9 o\u00a0<strong>Calv\u00e1rio<\/strong>. Jesus morre fora da religi\u00e3o e dos muros sagrados de Jerusal\u00e9m. Ele, inclusive em sua\u00a0<strong>Paix\u00e3o e morte<\/strong>, est\u00e1 com os malfeitores, gente moralmente indigna e sem lugar na sociedade (aqui est\u00e1 a dimens\u00e3o prof\u00e9tica do carisma). O passionista sobe ao calv\u00e1rio, ou seja, frequenta os por\u00f5es da humanidade,\u00a0deve estar onde ningu\u00e9m deseja frequentar. Os passionistas fazem dos calv\u00e1rios atuais o seu\u00a0hospital de campanha\u00a0(<strong>Papa Francisco<\/strong>), onde devem curar as feridas dos corpos crucificados, chamando-os \u00e0 vida.<\/p>\n<h3>A experi\u00eancia<\/h3>\n<p>Estando no calv\u00e1rio, atualizam o significado da Paix\u00e3o em suas vidas e o fazem ao descobrirem que s\u00e3o amados por Deus. Tal descoberta reside quando se tornam objeto de\u00a0contempla\u00e7\u00e3o do Crucificado. Ao inv\u00e9s de contemplarem o Crucificado, ocorre justo o contr\u00e1rio: \u00e9 o Crucificado que se torna sujeito e n\u00f3s objetos de seu olhar, pois nos deixamos ser contemplados pelo Cristo da cruz. Justo aqui est\u00e1 a descoberta: aquele olhar que emana da cruz me diz que sou amado. Exatamente isso \u00e9 o que significa fazer\u00a0<strong>Mem\u00f3ria da Paix\u00e3o<\/strong>, pois se atualiza o seu significado na vida pessoal, tornando-se uma experi\u00eancia que marca toda a exist\u00eancia.<\/p>\n<h3>A miss\u00e3o<\/h3>\n<p>Da descoberta de que \u00e9 amado por Deus, independentemente de ser digno ou n\u00e3o, o passionista torna-se disc\u00edpulo e sai para anunciar a\u00a0<strong>Palavra da Cruz<\/strong>\u00a0(Deus ama a todos) sem medir esfor\u00e7os, contando apenas com a Gra\u00e7a de Deus. Esta \u00e9 a miss\u00e3o do passionista: anunciar que Deus ama a humanidade. Foi justo o esquecimento dessa boa not\u00edcia que gerou os males do mundo, segundo\u00a0<strong>S\u00e3o Paulo da Cruz<\/strong>\u00a0(1694-1775). Por isso, o rem\u00e9dio para as feridas do mundo reside na Mem\u00f3ria daquele evento que se descobre a partir do olhar envolvente do Crucificado que est\u00e1 nos calv\u00e1rios da humanidade. Enfim, o carisma passionista n\u00e3o \u00e9 uma teoria, mas uma experi\u00eancia de amor divino aberta a todos.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\"><strong>IHU On-Line &#8211; Em seu artigo recente <a href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/vidacrista\/a-estetica-da-cruz\/#gsc.tab=0\">sobre a est\u00e9tica da cruz<\/a>, o senhor cita o fil\u00f3sofo alem\u00e3o Alexander Baumgarten, que, em sua obra, Est\u00e9tica: a l\u00f3gica da arte e do poema, inverteu o modo grego de conceber o belo, colocando-o no reino da percep\u00e7\u00e3o sens\u00edvel. Como esse modo de conceber o belo e a verdade, no \u00e2mbito do sentir, nos aproxima de Cristo e nos ajuda a compreend\u00ea-lo e a segui-lo a partir da sua cruz?<\/strong><\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Ademir Guedes Azevedo &#8211;<\/strong>\u00a0Minha inten\u00e7\u00e3o ao escrever sobre a\u00a0<strong>est\u00e9tica da cruz<\/strong>\u00a0era dialogar com a sociedade p\u00f3s-moderna. O fil\u00f3sofo franc\u00eas\u00a0<strong>Jean-Fran\u00e7ois Lyotard<\/strong>\u00a0denunciou a crise dos metarrelatos e a insufici\u00eancia dos elaborados discursos metaf\u00edsicos em interpretar as novas subjetividades e sensibilidades, por isso dou-me conta de que tudo aquilo que ocorre na cruz pode, se acolhermos a partir de uma outra racionalidade, tornar-se algo proveitoso para o homem de hoje. Na\u00a0<strong>cruz<\/strong>\u00a0est\u00e1 um Deus que aceita renunciar as suas categorias de poder para envolver-se com a hist\u00f3ria de um homem rejeitado.<\/p>\n<h3>Intelig\u00eancia espiritual d\u00e1 cidadania \u00e0s emo\u00e7\u00f5es<\/h3>\n<p>Esta nova racionalidade eu a encontro no \u00e2mbito dos sentimentos. Por isso, a percep\u00e7\u00e3o sens\u00edvel se trata de uma l\u00f3gica menor que denuncia a homogeneidade de uma raz\u00e3o totalit\u00e1ria que desconsidera os sentidos em seu modo de apreender a realidade. Portanto, h\u00e1 uma outra raz\u00e3o ou conhecimento para experimentarmos o amor de Deus. O Papa\u00a0Francisco a chama de ternura. A intelig\u00eancia espiritual d\u00e1 cidadania \u00e0s emo\u00e7\u00f5es e aos comportamentos que destas decorrem, como a empatia e a compaix\u00e3o.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">Seja qual for a nomenclatura, noto que uma est\u00e9tica da cruz nos p\u00f5e no cora\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Deus, pois a sua beleza, que s\u00f3 podemos descobri-la no \u00e2mbito do sentir, \u00e9 provocante e comprometedora com a vida de todos os crucificados de hoje. \u00c9 este modo de sentir e de captar a beleza que brilha na cruz que deveria motivar-nos a assumir um estilo de vida mais concreto, sem falsas apar\u00eancias. A est\u00e9tica da cruz\u00a0provoca a uma decis\u00e3o radical que p\u00f5e o nosso corpo a servi\u00e7o do pr\u00f3ximo. Na cruz,\u00a0<strong>Jesus<\/strong>\u00a0conclui sua miss\u00e3o todo desfigurado, sem apar\u00eancia humana, como diz o profeta Isa\u00edas. No entanto, ele est\u00e1 pleno de beleza, porque repleto de sentimentos nobres. \u00c0s vezes, n\u00f3s pensamos mais em nossa pr\u00f3pria apar\u00eancia e calculamos as nossas a\u00e7\u00f5es em benef\u00edcio pr\u00f3prio. Esta sociedade que vive para si mesma est\u00e1 com os dias contados, pois ou nos unimos pelo bem do pr\u00f3ximo ou infartaremos com o excesso de espelhos que refletem a nossa pr\u00f3pria imagem.<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Por que o cristianismo \u00e9 in\u00fatil sem a cruz?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ademir Guedes Azevedo &#8211;<\/strong>\u00a0Porque seria algo irreal. Seria um tipo de experi\u00eancia meramente espiritualista, desenraizada do solo onde a vida se passa. A\u00a0cruz\u00a0\u00e9 a s\u00edntese de toda a miss\u00e3o de\u00a0<strong>Jesus<\/strong>. Ela est\u00e1 fincada na terra e nos tira das ilus\u00f5es e dos discursos que prometem um futuro que n\u00e3o poder\u00e1 jamais existir.<\/p>\n<p>Se o cristianismo \u00e9 o seguimento \u00e0 pessoa de\u00a0<strong>Jesus de Nazar\u00e9<\/strong>, ent\u00e3o a cruz revela que este homem se preocupa com a vida do ser humano, com o seu sofrimento e com seus dramas. H\u00e1 uma tend\u00eancia em alguns espa\u00e7os eclesiais em ressaltar um seguimento sem a cruz, ou seja, sem solidariedade com o pr\u00f3ximo. Imagine um cristianismo sem a cruz: ser\u00edamos insens\u00edveis \u00e0 dor humana. Por outro lado, como poder\u00edamos viver o dom de si? Se a\u00a0<strong>cruz<\/strong>\u00a0vem retirada, ser\u00edamos como lobos ferozes, viver\u00edamos para n\u00f3s mesmos, o que seria um verdadeiro inferno.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">No caminho para o calv\u00e1rio, <strong>Jesus<\/strong>\u00a0dirige uma palavra \u00e0s\u00a0<strong>mulheres<\/strong>\u00a0que deveria ser repetida por toda comunidade crist\u00e3: \u201cFilhas de Jerusal\u00e9m, n\u00e3o choreis por mim, antes, chorai por v\u00f3s mesmas e por vossos filhos\u201d (Lc 23,28). Ou seja, assumam a vossa cruz, pois a minha devo abra\u00e7\u00e1-la at\u00e9 o fim por amor a voc\u00eas.<\/div>\n<\/div>\n<p>Aqui est\u00e1 a chave: n\u00e3o posso fugir da minha cruz e \u00e0 medida que me dou conta de que devo carreg\u00e1-la, acabo encorajando os outros a n\u00e3o desistirem nunca de caminhar. O querido\u00a0Dom Luciano Mendes de Almeida\u00a0costumava dizer que se fosse construir uma igreja a faria com tr\u00eas cruzes, pois no calv\u00e1rio Jesus est\u00e1 em meio a dois condenados. Mas estando ali com a sua cruz, torna-se solid\u00e1rio com aqueles que comungam da mesma sina dele. Um cristianismo com a cruz diz que todos devem se empenhar, pessoal e comunitariamente, para destruir as cruzes impostas e injustas.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\"><strong>IHU On-Line &#8211; Os evangelhos de Mateus e Marcos narram o grito de Jesus na cruz do seguinte modo: \u201cMeu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?\u201d. O evangelho de Lucas, de outro lado, destaca as seguintes palavras: \u201cPai, em tuas m\u00e3os entrego o meu esp\u00edrito\u201d. Como o senhor interpreta as palavras finais de Jesus? O que a entrega ao abandono completo de Deus significa e como essa entrega total pode dar sentido \u00e0 nossa vida?<\/strong><\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Ademir Guedes Azevedo &#8211;<\/strong>\u00a0Quero responder esta pergunta inspirando-me em dois te\u00f3logos que aprecio muito,\u00a0Johan B. Metz\u00a0e\u00a0Jon Sobrino. A tradi\u00e7\u00e3o lucana apresenta um Jesus totalmente abandonado nas m\u00e3os do Pai, confiante de ter cumprido at\u00e9 as \u00faltimas consequ\u00eancias a vontade daquele a quem se entregou durante toda a sua vida. Esta confian\u00e7a \u00e9 t\u00e3o relevante que as causas de Jesus, o Reino de Deus e a fidelidade ao seu Paizinho (<em><strong>Abb\u00e1<\/strong><\/em>), n\u00e3o podem desaparecer jamais, mesmo com a sua morte. Ao contr\u00e1rio, esta morte \u00e9 apenas o desabrochar de um projeto que alcan\u00e7a todas as gera\u00e7\u00f5es.\u00a0Dom Pedro Casald\u00e1liga\u00a0dizia: \u201cAs minhas causas valem mais do que a minha vida\u201d.<\/p>\n<h3>A f\u00e9 de Jesus<\/h3>\n<p>Sobre este aspecto de confian\u00e7a e fidelidade a Deus, narradas por\u00a0<strong>S\u00e3o Lucas<\/strong>,\u00a0<strong>Metz<\/strong>\u00a0nos emociona quando fala da f\u00e9 de Jesus no Pai. Fomos educados a nutrir a f\u00e9 em Jesus, mas pouco nos ensinaram sobre a f\u00e9 de Jesus. Agonizante na cruz, o Filho grita ao Pai e, aparentemente, n\u00e3o obt\u00e9m resposta alguma. Parece morrer no sil\u00eancio. No entanto, enfatiza\u00a0<strong>Metz<\/strong>, mesmo que o Pai pare\u00e7a abandonar o Filho, o Filho por sua vez n\u00e3o abandona jamais ao seu Pai, morre confiante nele, apaixonado por Ele. Aqui est\u00e1 a f\u00e9 de Jesus!<\/p>\n<p>J\u00e1\u00a0<strong>Sobrino<\/strong>\u00a0interpreta este grito em perspectiva de encarna\u00e7\u00e3o. A tradi\u00e7\u00e3o de\u00a0<strong>Marcos<\/strong>\u00a0cr\u00ea que aquilo que ocorre na cruz n\u00e3o d\u00e1 continuidade ao minist\u00e9rio de Jesus, pois l\u00e1 onde ele est\u00e1 suspenso no madeiro, parece n\u00e3o se realizar nem o Reino nem t\u00e3o pouco a a\u00e7\u00e3o do Pai. Na cruz, aparentemente triunfa o anti-Reino, pois n\u00e3o se veem os cativos libertos, os coxos andarem, os cegos enxergarem, nada disso acontece. Da mesma forma, aquele Paizinho do c\u00e9u que foi sempre a energia vital do Filho n\u00e3o diz nada, faz sil\u00eancio total ao grito de Jesus. No entanto, \u00e9 justo aqui que se realize uma nova revela\u00e7\u00e3o: o Pai n\u00e3o pode fazer nada pelo Filho porque ainda lhe falta encarnar-se na realidade humana do sofrimento, precisa experimentar a dor. Ele fica em sil\u00eancio porque est\u00e1\u00a0imerso no sofrimento da cruz de seu Filho, chorando a dor dele. \u00c9 assim que o Pai manifesta a sua solidariedade com todas as v\u00edtimas da hist\u00f3ria que padecem injusti\u00e7as e persegui\u00e7\u00f5es. O amor vence, mas n\u00e3o com a for\u00e7a e sim com a compaix\u00e3o que assume o sofrimento dos inocentes.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; H\u00e1 muita literatura sobre a crise da Igreja e do cristianismo, e o pr\u00f3prio Papa Francisco j\u00e1 declarou que \u201choje j\u00e1 n\u00e3o somos mais os \u00fanicos que produzem cultura, nem os primeiros nem os mais ouvidos\u201d. Qual \u00e9 o sentido do cristianismo hoje? Ele continua a ser sal da terra e luz do mundo? Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ademir Guedes Azevedo &#8211;<\/strong>\u00a0Este\u00a0<strong>pronunciamento do Papa Francisco<\/strong>\u00a0que voc\u00ea acabou de citar foi dirigido \u00e0 C\u00faria Romana por ocasi\u00e3o de um dos encontros anuais com os cardeais, realizado sempre \u00e0s v\u00e9speras do Natal.\u00a0<strong>Francisco<\/strong>\u00a0insiste que o\u00a0<strong>cristianismo<\/strong>\u00a0deve ser experimentado por atra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o por proselitismo, pois j\u00e1 se passaram aqueles tempos de ser crist\u00e3o por conveni\u00eancia ou por mera tradi\u00e7\u00e3o familiar. Este pontificado ensina-nos que o cristianismo se trata de um forte testemunho de vida, pois \u201ca linguagem \u00e9 viva quando falam as obras. Cessem, portanto, as palavras e falem as obras\u201d (Santo Ant\u00f4nio).<\/p>\n<p>Numa sociedade pr\u00e9-moderna, era a Igreja que determinava os ritmos da vida. Predominava uma forte atmosfera religiosa. Mas gra\u00e7as ao projeto da modernidade \u2013 agora passo a abordar a modernidade em seus aspectos positivos, como igualdade, respeito aos direitos humanos, avan\u00e7o da ci\u00eancia para o bem de todos, a democracia etc. \u2013 o\u00a0<strong>cristianismo<\/strong>\u00a0come\u00e7a a redescobrir um estilo te\u00f4nomo, onde se respeitam as realidades seculares e o mundo, como casa comum, passa a ser visto com bons olhos pela pr\u00f3pria reflex\u00e3o teol\u00f3gica.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">A <strong>credibilidade do cristianismo<\/strong>\u00a0est\u00e1, portanto, no empreender processos e n\u00e3o no ocupar espa\u00e7os, segundo o\u00a0<strong>Papa<\/strong>. O processo \u00e9 din\u00e2mico e necessita de muito di\u00e1logo, escuta e discernimento. Ocupar espa\u00e7os, ao contr\u00e1rio, parte de a\u00e7\u00f5es intransigentes, sem conhecimento da realidade e rela\u00e7\u00f5es interpessoais.<\/div>\n<\/div>\n<h3>Ser sal e luz do mundo<\/h3>\n<p>Romano Guardini\u00a0afirmava que a ess\u00eancia do\u00a0<strong>cristianismo<\/strong>\u00a0\u00e9 uma pessoa, Jesus Cristo, n\u00e3o um conjunto de doutrinas e ensinamentos a transmitir. Ser sal e luz no mundo de hoje \u00e9 testemunhar que esta pessoa acolhe a todos, sem promover terrorismo religioso e discursos excludentes. Em nosso pa\u00eds, assistimos a verdadeiras guerras religiosas, em que o mais importante \u00e9 defender um passado que n\u00e3o volta mais. O cristianismo ser\u00e1 sal e luz neste mundo dividido se buscarmos viver o amor, a toler\u00e2ncia, a igualdade e o respeito ao pr\u00f3ximo, sem esquecermos nunca de acariciar as feridas dos mais vulner\u00e1veis. Deus ama a todos e esse \u00e9 o dogma de f\u00e9 que nunca devemos esquecer.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Deseja acrescentar algo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ademir Guedes Azevedo &#8211;<\/strong>\u00a0Agrade\u00e7o pelo convite da entrevista. Parabenizo o\u00a0<strong>IHU<\/strong>\u00a0pela excel\u00eancia dos conte\u00fados e por ser uma presen\u00e7a do Reino no espa\u00e7o virtual.\u00a0<strong>Feliz P\u00e1scoa<\/strong>\u00a0a todos!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com \u00a0Ademir Guedes Azevedo<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":231377,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[758],"tags":[1836],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>\u201cA est\u00e9tica da cruz provoca a uma decis\u00e3o radical que p\u00f5e o nosso corpo a servi\u00e7o do pr\u00f3ximo&quot; - Not\u00edcias - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/a-estetica-da-cruz-provoca-a-uma-decisao-radical-que-poe-o-nosso-corpo-a-servico-do-proximo-entrevista-especial-com-ademir-guedes-azevedo.html\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"\u201cA est\u00e9tica da cruz provoca a uma decis\u00e3o radical que p\u00f5e o nosso corpo a servi\u00e7o do pr\u00f3ximo&quot; - 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