{"id":231340,"date":"2021-04-01T08:15:50","date_gmt":"2021-04-01T11:15:50","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/?p=231340"},"modified":"2021-04-01T08:16:55","modified_gmt":"2021-04-01T11:16:55","slug":"papa-a-forca-da-vitoria-de-cristo-vence-o-mal-e-nos-liberta-do-maligno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/papa-a-forca-da-vitoria-de-cristo-vence-o-mal-e-nos-liberta-do-maligno.html","title":{"rendered":"Papa: a for\u00e7a da vit\u00f3ria de Cristo vence o mal e nos liberta do maligno"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_231342\" style=\"width: 1210px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-231342\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-231342 size-full\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/ceia_01.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"701\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/ceia_01.jpg 1200w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/ceia_01-450x263.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/ceia_01-1024x598.jpg 1024w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/ceia_01-768x449.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/ceia_01-150x88.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><p id=\"caption-attachment-231342\" class=\"wp-caption-text\"><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Imagem: Vatican Media<\/em><\/p><\/div>\n<p>O Papa Francisco presidiu a Missa do Crisma, com os sacerdotes de Roma, na Bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro, na manh\u00e3 desta Quinta-feira Santa (01\/04).<\/p>\n<p>&#8220;No Evangelho, vemos uma mudan\u00e7a de sentimentos nas pessoas que escutavam o Senhor. \u00c9 uma mudan\u00e7a dram\u00e1tica que nos mostra qu\u00e3o ligadas est\u00e3o a persegui\u00e7\u00e3o e a cruz ao an\u00fancio do Evangelho. Uma frase que algu\u00e9m murmurou em voz baixa tornou-se insidiosamente \u00abviral\u00bb: \u00abN\u00e3o \u00e9 este o filho de Jos\u00e9?\u00bb&#8221;, disse o Pont\u00edfice.<\/p>\n<p>Segundo o Papa, &#8220;trata-se de uma daquelas frases amb\u00edguas que se dizem por dizer. Uma pessoa pode us\u00e1-la para exprimir alegria: \u00abQue maravilha ver algu\u00e9m de origens t\u00e3o humildes falar com esta autoridade!\u00bb Mas outra pode us\u00e1-la com desd\u00e9m: \u00abE isto, donde lhe veio? Que pensa ser?\u00bb Se notarmos bem, o caso repete-se quando os Ap\u00f3stolos, no dia de Pentecostes, cheios do Esp\u00edrito Santo, come\u00e7am a pregar o Evangelho. Algu\u00e9m disse: \u00abEsses que est\u00e3o a falar, n\u00e3o s\u00e3o todos galileus?\u00bb E enquanto alguns acolheram a Palavra, outros consideraram-nos b\u00eabados&#8221;.<\/p>\n<p>Como sempre faz, o Senhor n\u00e3o dialoga com o esp\u00edrito maligno; responde apenas com a Sagrada Escritura. Nem mesmo os profetas Elias e Eliseu foram aceitos pelos seus compatriotas, mas foram-no por uma vi\u00fava fen\u00edcia e um s\u00edrio leproso: dois estrangeiros, duas pessoas doutra religi\u00e3o. Os fatos s\u00e3o contundentes e provocam o efeito que profetizara aquele idoso carism\u00e1tico do Sime\u00e3o: Jesus seria \u00absinal de contradi\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>&#8220;A palavra de Jesus tem o poder de trazer \u00e0 luz aquilo que uma pessoa guarda no cora\u00e7\u00e3o, sendo habitualmente uma mistura de coisas como o trigo e o joio. E isto provoca luta espiritual&#8221;, sublinhou Francisco.<\/p>\n<p>&#8220;A rapidez com que se desencadeou a f\u00faria e a brutalidade do encarni\u00e7amento, capaz de matar o Senhor naquele preciso momento, nos mostra que \u00e9 sempre a hora&#8221;, disse o Papa aos sacerdotes, ressaltando que &#8220;andam juntas a hora do an\u00fancio jubiloso e a hora da persegui\u00e7\u00e3o e da cruz&#8221;. &#8220;A proclama\u00e7\u00e3o do Evangelho est\u00e1 sempre ligada ao abra\u00e7o duma cruz concreta. A luz suave da Palavra gera clareza nos cora\u00e7\u00f5es bem-dispostos, e confus\u00e3o e rejei\u00e7\u00e3o naqueles que o n\u00e3o est\u00e3o. Vemos isto constantemente no Evangelho&#8221;, frisou o Papa.<\/p>\n<p>&#8220;Ora, a fim de \u00abtirar algum proveito\u00bb para a nossa vida sacerdotal, que reflex\u00e3o poderemos fazer ao contemplar esta presen\u00e7a precoce da cruz (da incompreens\u00e3o, da rejei\u00e7\u00e3o, da persegui\u00e7\u00e3o) no in\u00edcio e no meio da prega\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica? V\u00eam-me \u00e0 mente duas reflex\u00f5es&#8221;, disse ainda Francisco.<\/p>\n<p>&#8220;A primeira: n\u00e3o nos deve maravilhar a constata\u00e7\u00e3o de estar presente a cruz na vida do Senhor no in\u00edcio de seu minist\u00e9rio, pois estava j\u00e1 antes do seu nascimento: j\u00e1 est\u00e1 presente no primeiro turbamento de Maria ao ouvir o an\u00fancio do Anjo; est\u00e1 presente nas ins\u00f3nias de Jos\u00e9, sentindo-se obrigado a abandonar a sua esposa prometida; est\u00e1 presente na persegui\u00e7\u00e3o de Herodes e nas agruras sofridas pela Sagrada Fam\u00edlia, iguais \u00e0s de tantas fam\u00edlias que t\u00eam de exilar-se da sua p\u00e1tria.&#8221;<\/p>\n<p>Esta realidade nos abre ao mist\u00e9rio da cruz experimentada antes. Faz-nos compreender que a cruz n\u00e3o \u00e9 um fato indutivo, ocasional produzido por uma conjuntura na vida do Senhor. \u00c9 verdade que todos os crucificadores da hist\u00f3ria fazem aparecer a cruz como um dano colateral, mas n\u00e3o \u00e9 assim: a cruz n\u00e3o depende das circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>&#8220;Por que o Senhor abra\u00e7ou a cruz em toda a sua integridade? Por que Jesus abra\u00e7ou a paix\u00e3o inteira: abra\u00e7ou a trai\u00e7\u00e3o e o abandono dos seus amigos j\u00e1 desde a \u00daltima Ceia, aceitou a pris\u00e3o ilegal, o julgamento sum\u00e1rio, a senten\u00e7a desproporcionada, a malvadez sem motivo das bofetadas e cuspidelas? perguntou o Papa. &#8220;Se as circunst\u00e2ncias determinassem o poder salv\u00edfico da cruz, o Senhor n\u00e3o teria abra\u00e7ado tudo. Mas quando chegou a sua hora, abra\u00e7ou a cruz inteira. Porque a cruz n\u00e3o tolera ambiguidade; com a cruz, n\u00e3o se regateia!&#8221;, disse ele.<\/p>\n<p>A segunda reflex\u00e3o do Papa diz o seguinte: &#8220;\u00c9 verdade que h\u00e1 algo na cruz que \u00e9 parte integrante da nossa condi\u00e7\u00e3o humana, com os seus limites e fragilidades. Mas \u00e9 verdade tamb\u00e9m que, daquilo que acontece na cruz, h\u00e1 algo que n\u00e3o \u00e9 inerente \u00e0 nossa fragilidade, mas \u00e9 a mordida da serpente que, vendo o Crucificado indefeso, morde-O e tenta envenenar e desacreditar toda a sua obra. Mordida, que procura escandalizar, imobilizar e tornar est\u00e9ril e insignificante todo o servi\u00e7o e sacrif\u00edcio de amor pelos outros. \u00c9 o veneno do maligno que continua a insistir: salva-te a ti mesmo. Nesta mordida, cruel e dolorosa, que pretende ser mortal, aparece finalmente o triunfo de Deus.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Pe\u00e7amos ao Senhor a gra\u00e7a de tirar proveito destes ensinamentos: \u00e9 verdade que, no an\u00fancio do Evangelho, h\u00e1 cruz; mas \u00e9 uma cruz que salva. Pacificada com o Sangue de Jesus, \u00e9 uma cruz com a for\u00e7a da vit\u00f3ria de Cristo que vence o mal e nos liberta do maligno. Abra\u00e7\u00e1-la com Jesus e como Ele, nos permite discernir e repelir o veneno do esc\u00e2ndalo com que o dem\u00f4nio procurar\u00e1 envenenar-nos quando chegar inesperadamente uma cruz na nossa vida&#8221;, frisou o Pont\u00edfice.<\/p>\n<p>O Papa concluiu sua homilia, partilhando uma lembran\u00e7a de momento muito escuro de sua vida. Eu pedia ao Senhor a gra\u00e7a de me libertar daquela situa\u00e7\u00e3o dura e dif\u00edcil. Uma vez, fui pregar o Retiro a algumas religiosas, que, no \u00faltimo dia \u2013 como era costume ent\u00e3o \u2013, se confessaram. Veio uma irm\u00e3 muito idosa, com olhos l\u00edmpidos, mesmo luminosos. Era uma mulher de Deus. No fim, senti vontade de lhe pedir que rezasse por mim, dizendo-lhe: \u00abIrm\u00e3, como penit\u00eancia reze por mim, porque preciso duma gra\u00e7a. Se for a Irm\u00e3 a pedi-la, com certeza o Senhor me la dar\u00e1\u00bb. Ela parou um bom bocado, como se estivesse a rezar, e depois disse-me: \u00abCertamente o Senhor lhe conceder\u00e1 a gra\u00e7a, mas n\u00e3o se engane: ele a dar\u00e1 segundo o seu modo divino\u00bb. Isto fez-me muito bem: ouvir que o Senhor nos d\u00e1 sempre o que lhe pedimos, mas o faz \u00e0 sua maneira divina. Esta maneira envolve a cruz. N\u00e3o por masoquismo, mas por amor, por amor at\u00e9 o fim&#8221;.<\/p>\n<hr \/>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-231341 size-full\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/ceia_02.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/ceia_02.jpg 1200w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/ceia_02-450x300.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/ceia_02-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/ceia_02-768x512.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/ceia_02-150x100.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/p>\n<p>\u00cdNTEGRA DA HOMILIA<\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"color: #663300;\"><a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/news_services\/liturgy\/libretti\/2021\/20210401-libretto-messa-crismale.pdf\">SANTA MISSA CRISMAL<\/a><\/span><\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"color: #663300; font-size: large;\"><b><i>HOMILIA DO PAPA FRANCISCO<\/i><\/b><\/span><\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"color: #663300;\"><i>Bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro<br \/>\nQuinta-feira Santa, 1 de abril de 2021<\/i><\/span><\/p>\n<p>No Evangelho, vemos\u00a0uma mudan\u00e7a de sentimentos nas pessoas que estavam a escutar o Senhor. \u00c9 uma mudan\u00e7a dram\u00e1tica que nos mostra qu\u00e3o ligadas est\u00e3o a persegui\u00e7\u00e3o e a cruz ao an\u00fancio do Evangelho. A admira\u00e7\u00e3o suscitada pelas palavras repletas de gra\u00e7a que sa\u00edam da boca de Jesus durou pouco no esp\u00edrito do povo de Nazar\u00e9. Uma frase que algu\u00e9m murmurou em voz baixa: \u00abMas este, quem \u00e9? O filho de Jos\u00e9?\u00bb (cf.\u00a0<i>Lc<\/i>\u00a04, 22). Aquela frase tornou-se insidiosamente \u00abviral\u00bb: \u00abMas, quem \u00e9 este? N\u00e3o \u00e9 o filho de Jos\u00e9?\u00bb<\/p>\n<p>Trata-se de uma daquelas frases amb\u00edguas que se dizem por dizer. Uma pessoa pode us\u00e1-la para exprimir alegria: \u00abQue maravilha ver algu\u00e9m de origens t\u00e3o humildes falar com esta autoridade!\u00bb Mas outra pode us\u00e1-la com desd\u00e9m: \u00abE isto, donde lhe veio? Que pensa ser?\u00bb Se notarmos bem, o caso repete-se quando os Ap\u00f3stolos, no dia de Pentecostes, cheios do Esp\u00edrito Santo, come\u00e7am a pregar o Evangelho. Algu\u00e9m disse: \u00abEsses que est\u00e3o a falar, n\u00e3o s\u00e3o todos galileus?\u00bb (<i>At<\/i>\u00a02, 7). E enquanto alguns acolheram a Palavra, outros consideraram-nos b\u00eabados.<\/p>\n<p>Formalmente, parecia que se deixava em aberto uma escolha; mas, se considerarmos os frutos, naquele contexto concreto tais palavras continham um germe de viol\u00eancia que se desencadeou contra Jesus.<\/p>\n<p>\u00c9 uma \u00abfrase motivadora\u00bb,<a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/homilies\/2021\/documents\/papa-francesco_20210401_omelia-crisma.html#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>\u00a0como quando se diz: \u00abIsto \u00e9 demais!\u00bb e agride o outro ou deixa-o e vai-se embora.<\/p>\n<p>O Senhor, que \u00e0s vezes ficava calado ou passava \u00e0 outra margem, aqui n\u00e3o renunciou a comentar, desmascarando a l\u00f3gica maligna que se escondia sob a apar\u00eancia duma simples bisbilhotice de aldeia. \u00abCertamente ides citar-me o prov\u00e9rbio: \u201cM\u00e9dico, cura-te a ti mesmo\u201d. Tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum, f\u00e1-lo tamb\u00e9m aqui na tua terra\u00bb (<i>Lc<\/i>\u00a04, 23). \u00abCura-te a ti mesmo\u2026\u00bb<\/p>\n<p>\u00abSalve-se a si mesmo\u00bb. Aqui est\u00e1 o veneno! \u00c9 a mesma frase que acompanhar\u00e1 o Senhor at\u00e9 \u00e0 cruz: \u00abSalvou os outros; salve-Se a Si mesmo\u00bb (<i>Lc<\/i>\u00a023, 35); \u00abe \u2013 acrescentar\u00e1 um dos dois ladr\u00f5es \u2013 salve a n\u00f3s tamb\u00e9m\u00bb (23, 39).<\/p>\n<p>Como sempre faz, o Senhor n\u00e3o dialoga com o esp\u00edrito maligno; responde apenas com a Sagrada Escritura. Nem mesmo os profetas Elias e Eliseu foram aceites pelos seus compatriotas, mas foram-no por uma vi\u00fava fen\u00edcia e um s\u00edrio leproso: dois estrangeiros, duas pessoas doutra religi\u00e3o. Os factos s\u00e3o contundentes e provocam o efeito que profetizara aquele idoso carism\u00e1tico do Sime\u00e3o: Jesus seria \u00absinal de contradi\u00e7\u00e3o\u00bb (<i>Lc<\/i>\u00a02, 34;\u00a0<i>semeion antilegomenon<\/i><a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/homilies\/2021\/documents\/papa-francesco_20210401_omelia-crisma.html#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>).<\/p>\n<p>A palavra de Jesus tem o poder de trazer \u00e0 luz aquilo que uma pessoa guarda no cora\u00e7\u00e3o, sendo habitualmente uma mistura de coisas como o trigo e o joio. E isto provoca luta espiritual. Ao ver os gestos de superabundante miseric\u00f3rdia do Senhor e ao ouvir as suas bem-aventuran\u00e7as seguidas das invetivas \u00abai de v\u00f3s!\u00bb no Evangelho, a pessoa v\u00ea-se obrigada a discernir e escolher. Neste caso, a sua palavra n\u00e3o foi acolhida, acabando a multid\u00e3o, enfurecida, por tentar tirar-Lhe a vida. Mas ainda n\u00e3o era \u00aba hora\u00bb; e o Senhor \u2013 diz-nos o Evangelho \u2013, \u00abpassando pelo meio deles, seguiu o seu caminho\u00bb\u00a0(<i>Lc<\/i>\u00a04, 30).<\/p>\n<p>N\u00e3o era a hora, mas a rapidez com que se desencadeou a f\u00faria e a brutalidade do encarni\u00e7amento, capaz de matar o Senhor naquele preciso momento, mostra-nos que \u00e9 sempre a hora. E isto mesmo \u00e9 o que desejo partilhar hoje convosco, queridos sacerdotes:\u00a0<i>andam juntas a hora do an\u00fancio jubiloso e a hora da persegui\u00e7\u00e3o e da cruz<\/i>.<\/p>\n<p>A proclama\u00e7\u00e3o do Evangelho est\u00e1 sempre ligada ao abra\u00e7o duma cruz concreta. A luz suave da Palavra gera clareza nos cora\u00e7\u00f5es bem-dispostos, e confus\u00e3o e rejei\u00e7\u00e3o naqueles que o n\u00e3o est\u00e3o. Vemos isto constantemente no Evangelho.<\/p>\n<p>A boa semente lan\u00e7ada no campo d\u00e1 fruto \u2013 cento, sessenta, trinta por um \u2013, mas desperta tamb\u00e9m a inveja do inimigo que obsessivamente come\u00e7a a semear joio durante a noite (cf.\u00a0<i>Mt<\/i>\u00a013, 24-30.36-43).<\/p>\n<p>A ternura do pai misericordioso atrai irresistivelmente o filho pr\u00f3digo para que regresse a casa, mas suscita tamb\u00e9m a indigna\u00e7\u00e3o e o ressentimento do filho mais velho (cf.\u00a0<i>Lc<\/i>\u00a015, 11-32).<\/p>\n<p>A generosidade do dono da vinha \u00e9 motivo de gratid\u00e3o nos trabalhadores da \u00faltima hora, mas \u00e9 motivo tamb\u00e9m de coment\u00e1rios azedos nos primeiros, que se sentem ofendidos porque o dono \u00e9 bom (cf.\u00a0<i>Mt<\/i>\u00a020, 1-16).<\/p>\n<p>A proximidade de Jesus, que vai comer com os pecadores, ganha cora\u00e7\u00f5es como o de Zaqueu, o de Mateus, o da Samaritana&#8230;, mas provoca tamb\u00e9m sentimentos de desprezo naqueles que se consideram justos.<\/p>\n<p>A magnanimidade daquele homem que manda o seu filho pensando que seria respeitado pelos vinhateiros, desencadeia todavia neles uma brutalidade sem medida: estamos perante o mist\u00e9rio da iniquidade, que leva a matar o Justo (cf.\u00a0<i>Mt<\/i>\u00a021, 33-46).<\/p>\n<p>Tudo isto, queridos irm\u00e3os sacerdotes, nos mostra que a proclama\u00e7\u00e3o da Boa Nova est\u00e1 misteriosamente ligada \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o e \u00e0 cruz.<\/p>\n<p>Santo In\u00e1cio de Loyola, na contempla\u00e7\u00e3o do Pres\u00e9pio (desculpai-me a publicidade de fam\u00edlia!), naquela contempla\u00e7\u00e3o do Pres\u00e9pio, exprime esta verdade evang\u00e9lica quando nos faz observar e considerar o que fazem S\u00e3o Jos\u00e9 e Nossa Senhora, como, \u00abpor exemplo, caminham e trabalham porque o Senhor nasce na extrema pobreza e, no final de tantos trabalhos, de fome e sede, de calor e frio, de inj\u00farias e afrontas, morre na cruz. E tudo isto por mim. Depois \u2013 acrescenta In\u00e1cio \u2013, refletindo, tira algum proveito espiritual\u00bb (<i>Exerc\u00edcios espirituais<\/i>, 116). A alegria pelo nascimento do Senhor, o sofrimento da Cruz, a persegui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ora, a fim de \u00abtirar algum proveito\u00bb para a nossa vida sacerdotal, que reflex\u00e3o poderemos fazer ao contemplar esta presen\u00e7a precoce da cruz (da incompreens\u00e3o, da rejei\u00e7\u00e3o, da persegui\u00e7\u00e3o) no in\u00edcio e no meio da prega\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica? V\u00eam-me \u00e0 mente duas reflex\u00f5es.<\/p>\n<p>A primeira: n\u00e3o nos deve maravilhar a constata\u00e7\u00e3o de estar presente a cruz na vida do Senhor no in\u00edcio de seu minist\u00e9rio, pois estava j\u00e1 antes do seu nascimento: j\u00e1 est\u00e1 presente no primeiro turbamento de Maria ao ouvir o an\u00fancio do Anjo; est\u00e1 presente nas ins\u00f3nias de Jos\u00e9, sentindo-se obrigado a abandonar a sua esposa prometida; est\u00e1 presente na persegui\u00e7\u00e3o de Herodes e nas agruras sofridas pela Sagrada Fam\u00edlia, iguais \u00e0s de tantas fam\u00edlias que t\u00eam de exilar-se da sua p\u00e1tria.<\/p>\n<p>Esta realidade abre-nos ao mist\u00e9rio da cruz experimentada antes. Faz-nos compreender que a cruz n\u00e3o \u00e9 um facto indutivo, um facto ocasional produzido por uma conjuntura na vida do Senhor. \u00c9 verdade que todos os crucificadores da hist\u00f3ria fazem aparecer a cruz como um dano colateral, mas n\u00e3o \u00e9 assim: a cruz n\u00e3o depende das circunst\u00e2ncias. As grandes cruzes da humanidade e as pequenas \u2013 digamos assim! \u2013 cruzes nossas, de cada um de n\u00f3s n\u00e3o dependem das circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Porque \u00e9 que o Senhor abra\u00e7ou a cruz em toda a sua integridade? Porque \u00e9 que Jesus abra\u00e7ou a paix\u00e3o inteira: abra\u00e7ou a trai\u00e7\u00e3o e o abandono dos seus amigos j\u00e1 desde a \u00daltima Ceia, aceitou a pris\u00e3o ilegal, o julgamento sum\u00e1rio, a senten\u00e7a desproporcionada, a malvadez sem motivo das bofetadas e cuspidelas? Se as circunst\u00e2ncias determinassem o poder salv\u00edfico da cruz, o Senhor n\u00e3o teria abra\u00e7ado tudo. Mas quando chegou a sua hora, abra\u00e7ou a cruz inteira. Porque a cruz n\u00e3o tolera ambiguidade; com a cruz, n\u00e3o se regateia!<\/p>\n<p>E a segunda reflex\u00e3o \u00e9 esta. \u00c9 verdade que h\u00e1 algo na cruz que \u00e9 parte integrante da nossa condi\u00e7\u00e3o humana, com os seus limites e fragilidades. Mas \u00e9 verdade tamb\u00e9m que, daquilo que acontece na cruz, h\u00e1 algo que n\u00e3o \u00e9 inerente \u00e0 nossa fragilidade, mas \u00e9 a mordedura da serpente que, vendo o Crucificado indefeso, morde-O e tenta envenenar e desacreditar toda a sua obra. Mordedura, que procura escandalizar \u2013 esta \u00e9 uma \u00e9poca dos esc\u00e2ndalos \u2013, mordedura que procura imobilizar e tornar est\u00e9ril e insignificante todo o servi\u00e7o e sacrif\u00edcio de amor pelos outros. \u00c9 o veneno do maligno que continua a insistir: salva-te a ti mesmo.<\/p>\n<p>E nesta mordedura, cruel e dolorosa, que pretende ser mortal, aparece finalmente o triunfo de Deus. S\u00e3o M\u00e1ximo, o Confessor, fez-nos ver que a situa\u00e7\u00e3o se inverteu com Jesus crucificado: ao morder a carne do Senhor, o dem\u00f3nio n\u00e3o O envenenou \u2013 n\u2019Ele, s\u00f3 encontrou mansid\u00e3o infinita e obedi\u00eancia \u00e0 vontade do Pai \u2013 antes, pelo contr\u00e1rio, unida ao anzol da cruz engoliu a carne do Senhor, que foi veneno para ele e tornou-se para n\u00f3s o ant\u00eddoto que neutraliza o poder do maligno.<a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/homilies\/2021\/documents\/papa-francesco_20210401_omelia-crisma.html#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>Estas s\u00e3o as reflex\u00f5es que me vieram \u00e0 mente. Pe\u00e7amos ao Senhor a gra\u00e7a de tirar proveito destes ensinamentos: \u00e9 verdade que, no an\u00fancio do Evangelho, h\u00e1 cruz; mas \u00e9 uma cruz que salva. Pacificada com o Sangue de Jesus, \u00e9 uma cruz com a for\u00e7a da vit\u00f3ria de Cristo que vence o mal e liberta-nos do maligno. Abra\u00e7\u00e1-la com Jesus e como Ele, desde \u00abantes\u00bb de ir pregar, permite-nos discernir e repelir o veneno do esc\u00e2ndalo com que o dem\u00f3nio procurar\u00e1 envenenar-nos quando chegar inesperadamente uma cruz na nossa vida.<\/p>\n<p>\u00abN\u00f3s, por\u00e9m, n\u00e3o somos daqueles que voltam atr\u00e1s (<i>hypostolos<\/i>)\u00bb: diz o autor da Carta aos Hebreus (10, 39). \u00abN\u00f3s, por\u00e9m, n\u00e3o somos daqueles que voltam atr\u00e1s\u00bb, \u00e9 o conselho que nos d\u00e1: n\u00f3s n\u00e3o nos escandalizamos, porque Jesus n\u00e3o Se escandalizou ao ver que o seu jubiloso an\u00fancio de salva\u00e7\u00e3o aos pobres n\u00e3o ressoava puro, mas no meio dos gritos e amea\u00e7as de quem n\u00e3o queria ouvir a sua Palavra ou queria reduzi-la a legalismos (moralistas, clericalistas\u2026).<\/p>\n<p>N\u00e3o nos escandalizamos porque Jesus n\u00e3o Se escandalizou por ter de curar doentes e libertar prisioneiros no meio das discuss\u00f5es e controv\u00e9rsias moralistas, legalistas e clericais que suscitava sempre que fazia o bem.<\/p>\n<p>N\u00e3o nos escandalizamos porque Jesus n\u00e3o Se escandalizou por ter de dar a vista a cegos no meio de gente que fechava os olhos para n\u00e3o ver ou olhava para o lado.<\/p>\n<p>N\u00e3o nos escandalizamos porque Jesus n\u00e3o Se escandalizou pelo facto da sua proclama\u00e7\u00e3o do ano de gra\u00e7a do Senhor \u2013 um ano que \u00e9 a hist\u00f3ria inteira \u2013 ter provocado um esc\u00e2ndalo p\u00fablico que hoje ocuparia apenas a terceira p\u00e1gina dum jornal de prov\u00edncia.<\/p>\n<p>E n\u00e3o nos escandalizamos porque o an\u00fancio do Evangelho n\u00e3o recebe a sua efic\u00e1cia das nossas palavras eloquentes, mas da for\u00e7a da cruz (cf.\u00a0<i>1 Cor<\/i>\u00a01, 17).<\/p>\n<p>Pelo modo como abra\u00e7amos a cruz ao anunciar o Evangelho \u2013 com as obras e, se necess\u00e1rio, com as palavras \u2013, manifestam-se duas coisas: primeira, os sofrimentos que derivam do Evangelho n\u00e3o s\u00e3o nossos, mas \u00abos sofrimentos de Cristo em n\u00f3s\u00bb (<i>2 Cor<\/i>\u00a01, 5), e, segunda, \u00abn\u00e3o nos pregamos a n\u00f3s mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor\u00bb e somos \u00abservos, por amor de Jesus\u00bb (<i>2 Cor<\/i>\u00a04, 5).<\/p>\n<p>Quero concluir com uma recorda\u00e7\u00e3o que tenho dum momento muito escuro da minha vida. Eu pedia ao Senhor a gra\u00e7a de me libertar daquela situa\u00e7\u00e3o dura e dif\u00edcil. Era um momento negro. Uma vez, fui pregar o Retiro a algumas religiosas, que, no \u00faltimo dia \u2013 como era costume ent\u00e3o \u2013, se confessaram. Veio uma irm\u00e3 muito idosa, com olhos l\u00edmpidos, mesmo luminosos. Era uma mulher de Deus. No fim, senti vontade de lhe pedir que rezasse por mim, dizendo-lhe: \u00abIrm\u00e3, como penit\u00eancia reze por mim, porque preciso duma gra\u00e7a. Pe\u00e7a-a ao Senhor. \u00c9 que, se for a Irm\u00e3 a pedi-la, com certeza o Senhor me la dar\u00e1\u00bb. Ela ficou em sil\u00eancio, parou um bom bocado, como se estivesse a rezar, depois olhou para mim e disse-me: \u00abCertamente o Senhor conceder-lhe-\u00e1 a gra\u00e7a, mas n\u00e3o se engane: d\u00e1-la-\u00e1 segundo o seu modo divino\u00bb. Isto fez-me muito bem: ouvir que o Senhor nos d\u00e1 sempre o que Lhe pedimos, mas f\u00e1-lo ao modo divino. Este modo envolve a cruz. N\u00e3o por masoquismo, mas por amor, por amor at\u00e9 ao fim.<a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/homilies\/2021\/documents\/papa-francesco_20210401_omelia-crisma.html#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<p><a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/homilies\/2021\/documents\/papa-francesco_20210401_omelia-crisma.html#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0Como as frases de que fala um mestre espiritual, Padre Claude Judde; uma daquelas frases que acompanham as nossas decis\u00f5es e cont\u00e9m \u00aba \u00faltima palavra\u00bb, aquela que leva \u00e0 decis\u00e3o e move \u00e0 a\u00e7\u00e3o uma pessoa ou um grupo. Cf. C. JUDDE, \u00abInstructi\u00f3n sur la connaisance de soi m\u00eame\u00bb,\u00a0<i>\u0152uvres spirituelles<\/i>, II (1883), 313-319): em M. \u00c1. FIORITO,\u00a0<i>Buscar y hallar la voluntad de Dios<\/i>\u00a0(Bs. As. \u2013 Paulinas 2000), 248ss.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/homilies\/2021\/documents\/papa-francesco_20210401_omelia-crisma.html#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>\u00a0\u00ab<i>Antilegomenon<\/i>\u00bb significa que teriam falado contra Ele: se alguns falavam bem, outros falavam mal<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/homilies\/2021\/documents\/papa-francesco_20210401_omelia-crisma.html#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>\u00a0Cf.\u00a0<i>Cent\u00faria<\/i>\u00a01, 8-13.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/homilies\/2021\/documents\/papa-francesco_20210401_omelia-crisma.html#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a>\u00a0Cf.\u00a0<i>Homilia da Missa em Santa Marta<\/i>, 29\/V\/2013.<\/p>\n<hr \/>\n<p><em>Fonte: Vatican News<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Missa do Crisma<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":231343,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1428],"tags":[1612,1435],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.2 - 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