{"id":231222,"date":"2021-04-12T08:04:05","date_gmt":"2021-04-12T11:04:05","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/?p=231222"},"modified":"2021-04-12T08:23:19","modified_gmt":"2021-04-12T11:23:19","slug":"frei-sandro-a-crise-de-vocacoes-pode-nos-ajudar-a-avaliar-toda-nossa-forma-de-evangelizar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/frei-sandro-a-crise-de-vocacoes-pode-nos-ajudar-a-avaliar-toda-nossa-forma-de-evangelizar.html","title":{"rendered":"Frei Sandro:  &#8220;A &#8216;crise de voca\u00e7\u00f5es&#8217; pode nos ajudar a avaliar toda nossa forma de evangelizar&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/frei-sandro-850x.png\" alt=\"\" width=\"850\" height=\"450\" \/><\/p>\n<p><em>Um dia, o ajustador mec\u00e2nico de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, no Vale do Para\u00edba, percebeu que n\u00e3o estava feliz trabalhando numa metal\u00fargica que fabricava armas. Vidas importavam mais e foi em busca desse sonho no Semin\u00e1rio dos Redentoristas. Ali se sentia bem, mas o contato com os Frades Menores em Guaratinguet\u00e1 sedimentou sua busca. <\/em><\/p>\n<p><em>O jovem paulista Sandro Roberto da Costa vestiu o h\u00e1bito franciscano no dia 18 de janeiro de 1985 e fez a profiss\u00e3o solene da Ordem dos Frades Menores no dia 2 de agosto de 1990. <\/em><\/p>\n<p><em>Depois de ordenado presb\u00edtero, em 19 de dezembro de 1992, encarou a miss\u00e3o de \u201cformar homens\u201d: \u201cPercebi que n\u00e3o pretendia ser apenas um sacerdote, mas algu\u00e9m que pudesse servir de um modo mais \u2018alternativo\u2019 \u00e0s pessoas\u201d, conta.<\/em><\/p>\n<p><em>Doutorado em Hist\u00f3ria da Igreja pela Pontif\u00edcia Universidade Gregoriana de Roma, It\u00e1lia (2000), foi diretor do Instituto Teol\u00f3gico Franciscano de Petr\u00f3polis por dois mandatos (2007-2009\/2010-2012). Atualmente \u00e9 professor no Instituto Teol\u00f3gico Franciscano \u2013 Petr\u00f3polis, RJ, onde leciona as disciplinas Hist\u00f3ria da Igreja Antiga e Hist\u00f3ria da Igreja na idade M\u00e9dia.<\/em><\/p>\n<p><em>Nesta entrevista, que de antem\u00e3o registramos nosso agradecimento pela generosidade e boa vontade de Frei Sandro, procuramos \u2018explorar\u2019 todo o seu conhecimento em temas como clericalismo, grupos tradicionalistas na Igreja, abusos, Pontificado de Francisco, sinodalidade, Conc\u00edlio Vaticano II, mulheres na Igreja, crise de voca\u00e7\u00f5es, sinais dos tempos, educa\u00e7\u00e3o no Brasil, al\u00e9m de falar um pouco de sua vida, sua fam\u00edlia e voca\u00e7\u00e3o. <\/em><\/p>\n<p><em>Frei Sandro \u00e9 membro do Conselho Editorial da Revista Eclesi\u00e1stica Brasileira e redator da \u201cRevista Grande Sinal\u201d. Atua em cursos sobre hist\u00f3ria da Igreja e da Ordem Franciscana em geral, hist\u00f3ria dos franciscanos na Am\u00e9rica Latina e no Brasil. \u00c9 autor de in\u00fameros artigos na \u00e1rea de Hist\u00f3ria da Igreja, Hist\u00f3ria do Franciscanismo e Hist\u00f3ria da Vida Religiosa. Organizou o livro \u201cImaculada: Maria do povo, Maria de Deus\u201d, al\u00e9m de outras publica\u00e7\u00f5es. Presta assessoria e consultoria a institui\u00e7\u00f5es religiosas e de ensino. <\/em><\/p>\n<p><em>Boa leitura a todos!<\/em><\/p>\n<p><strong>Moacir Beggo<\/strong><\/p>\n<p><strong>Site Franciscanos<\/strong> &#8211; <em>Fale um pouco de sua vida e sua fam\u00edlia?<\/em><\/p>\n<p><strong>Frei Sandro<\/strong> &#8211; Tive a sorte de nascer numa fam\u00edlia relativamente numerosa: somos tr\u00eas homens e tr\u00eas mulheres (uma quarta irm\u00e3 faleceu no parto). Sou o filho mais velho. Minha m\u00e3e faleceu h\u00e1 pouco mais de 4 anos. Meu pai est\u00e1 com 83 anos. Viveram juntos por 55 anos. S\u00e3o pessoas simples, que lutaram muito para dar uma vida digna aos filhos, com uma grande sabedoria de vida e uma profunda religiosidade. Meu pai \u00e9 Congregado Mariano desde os 14 anos. Desde muito pequeno eu o acompanhava para a reza do ter\u00e7o numa capelinha do bairro, participava das reuni\u00f5es da Congrega\u00e7\u00e3o. Minha fam\u00edlia \u00e9 muito unida, gosta de fazer festa e de falar muito. Quando nos reunimos, brincamos que temos que \u201cpegar uma senha\u201d para esperar a vez de falar.<\/p>\n<p><strong>Site Franciscanos<\/strong> &#8211; <em>Como se deu seu discernimento vocacional? Por que a escolha pela Ordem Ser\u00e1fica?<\/em><\/p>\n<p><strong>Frei Sandro<\/strong> &#8211; Desde muito crian\u00e7a, com meus 7 ou 8 anos eu j\u00e1 queria \u201cser padre\u201d. Lembro-me que esta vontade se manifestou uma primeira vez quando da instala\u00e7\u00e3o da Par\u00f3quia onde mor\u00e1vamos, Par\u00f3quia S\u00e3o Sebasti\u00e3o, em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, SP. Guardo boas lembran\u00e7as do primeiro p\u00e1roco, padre Padoan, um verdadeiro pastoralista, muito pr\u00f3ximo do povo simples. Em mar\u00e7o deste ano, a par\u00f3quia completa 50 anos de exist\u00eancia. Segui a trajet\u00f3ria paroquial, como coroinha, cruzada eucar\u00edstica, crisma, etc. Fiz alguns encontros vocacionais, at\u00e9 visitei o Semin\u00e1rio Diocesano de Taubat\u00e9, que era a casa de forma\u00e7\u00e3o da Diocese. Poderia ter entrado com 12-13 anos. Mas n\u00e3o me animei muito a me tornar padre diocesano.<\/p>\n<p>Na adolesc\u00eancia adquiri um livro intitulado Francisco, Cantor da Paz e da Alegria (Deodato Ferreira leite, Paulinas), que foi fundamental no meu processo de discernimento. Fiquei empolgado com o estilo de vida de S\u00e3o Francisco, com sua simplicidade de vida, com sua proposta de vida evang\u00e9lica em fraternidade. Me marcou muito seu amor \u00e0s criaturas. Certamente, esses elementos foram se \u201cpurificando\u201d ao longo do tempo, mas esse primeiro impacto foi fundamental para as decis\u00f5es que viriam depois. Naquele momento, nem imaginava que poderia um dia me tornar franciscano. Nem imaginava que existia uma Ordem Franciscana. N\u00e3o conhecia nenhum frade, n\u00e3o sabia que em Guaratinguet\u00e1 tinha uma casa de forma\u00e7\u00e3o. Acabei meio que \u201cdeixando de lado\u201d a ideia de \u201cser padre\u201d, e segui minha forma\u00e7\u00e3o humana. Fiz um curso profissionalizante no Senai (sou Ajustador Mec\u00e2nico). Trabalhei numa metal\u00fargica que fabricava armas, e que vendeu muitos armamentos durante as guerras no Oriente, e tamb\u00e9m para Angola (Guerra Civil entre 1975 e 2002). Continuei participando da vida paroquial, com grupo de jovens, e seguia uma vida normal, de trabalho e estudos.<\/p>\n<p>Mas a vontade de experimentar uma outra possibilidade de vida persistia, e algumas coisas aos poucos ficavam mais claras. Percebi que n\u00e3o pretendia ser apenas um sacerdote, mas algu\u00e9m que pudesse servir de um modo mais \u201calternativo\u201d \u00e0s pessoas. Simpatizei com o estilo dos padres de Aparecida, onde \u00edamos todos os anos em romaria. Acabei ingressando no Semin\u00e1rio, seguindo o conselho de um amigo que tamb\u00e9m ingressara l\u00e1, Padre Milton Faria (hoje padre diocesano). Passei dois anos muito bons no Semin\u00e1rio Santo Afonso, entre 1982 e 1983. Tenho gratas lembran\u00e7as da equipe de forma\u00e7\u00e3o, dos colegas de turma, e, principalmente, da forma\u00e7\u00e3o recebida. A equipe de forma\u00e7\u00e3o era muito antenada com os acontecimentos naqueles in\u00edcios dos anos 80, muito cr\u00edticos da ditadura militar, ligados \u00e0 Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o. Nos fins de semana, al\u00e9m das pastorais, ajud\u00e1vamos na Bas\u00edlica de Aparecida. Como Ministro da Eucaristia, ajudava na distribui\u00e7\u00e3o das comunh\u00f5es.<\/p>\n<p>Foi em Aparecida que tive meu primeiro encontro com os franciscanos de Guaratinguet\u00e1, no Convento das Gra\u00e7as. Foi no Tr\u00e2nsito de S\u00e3o Francisco. Embora me sentisse muito bem entre os Redentoristas, j\u00e1 no primeiro contato percebi que ali era o meu lugar. O processo de transfer\u00eancia foi relativamente simples: de comum acordo com meu formador redentorista (Padre Carlos Artur, que faleceu em Aparecida em novembro, v\u00edtima de Covid), participei de um encontro vocacional no Postulantado. Os formadores eram Frei Ulrich Steiner, Frei R\u00e9gis Daher e Frei Alcides Cella. Fui aprovado e ingressei em 1984. Como j\u00e1 tinha dois anos de semin\u00e1rio, durante o ano sugeriram que eu poderia ir para o noviciado no ano seguinte. Ingressei no noviciado em 1985.<\/p>\n<p><strong>Site Franciscanos<\/strong> <em>&#8211; Como Frei Sandro se autodefine?<\/em><\/p>\n<p><strong>Frei Sandro<\/strong> &#8211; A coisa mais dif\u00edcil \u00e9 falar sobre voc\u00ea mesmo. De qualquer modo, defino-me como uma pessoa simples, sem maiores pretens\u00f5es do que aquilo que Deus me permite viver. Apesar dos percal\u00e7os e desafios comuns \u00e0 vida de todas as pessoas, posso dizer que sou uma pessoa realizada, feliz com o que fa\u00e7o. Por isso tamb\u00e9m sou imensamente agradecido a Deus por tudo: pela minha fam\u00edlia, pela Prov\u00edncia que me acolheu, pelos formadores, pela forma\u00e7\u00e3o recebida. N\u00e3o tive um processo fulminante de convers\u00e3o, e nem tive uma inspira\u00e7\u00e3o franciscana desde a mais tenra inf\u00e2ncia. Mas percebo hoje, olhando para tr\u00e1s, que Deus foi me conduzindo pela m\u00e3o desde muito cedo. Gosto de estar com as pessoas, me realizo no trabalho de evangeliza\u00e7\u00e3o, principalmente entre as pessoas simples de nossas comunidades. Apesar de todas as limita\u00e7\u00f5es, procuro ser fiel \u00e0 voca\u00e7\u00e3o franciscana \u00e0 qual fui chamado. Acredito no carisma franciscano como uma possibilidade de vida pessoal e eclesial, de acordo com os princ\u00edpios pregados por Jesus, de simplicidade, desapego, fraternidade. Sinto-me bem no contato com a natureza, lidando com a terra, com trabalhos manuais. Sempre gostei muito de ler. A vida acad\u00eamica me realiza. Dou muito valor \u00e0 vida fraterna. Lembro com carinho das palavras de meu mestre de noviciado, Frei Carlos Pierezan, que sempre recordava que, nos momentos mais dif\u00edceis, foi a vida fraterna que o manteve firme na voca\u00e7\u00e3o franciscana.<\/p>\n<p><strong>Site Franciscanos<\/strong> &#8211;<em> Como professor Sandro avalia a educa\u00e7\u00e3o no Brasil de um modo geral?<\/em><\/p>\n<p><strong>Frei Sandro<\/strong> &#8211; Da educa\u00e7\u00e3o depende o futuro de um pa\u00eds. No Brasil de um modo geral, como nos pa\u00edses com grande desigualdade social, a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 valorizada. Temos o orgulho de dizer que o criador de um dos mais importantes m\u00e9todos de educa\u00e7\u00e3o do mundo \u00e9 brasileiro, Paulo Freire. Mas a quest\u00e3o \u00e9 que uma educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica de qualidade \u00e9 fruto de planejamento, de pol\u00edticas p\u00fablicas. No sistema liberal, onde cada um tem que \u201cse arranjar\u201d por conta pr\u00f3pria, onde se fala tanto de empreendedorismo, de meritocracia, a educa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 direito b\u00e1sico da pessoa, \u00e9 transformada em produto. S\u00f3 quem tem dinheiro consegue garantir estudo de qualidade para seus filhos. De um modo geral a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica no Brasil \u00e9 simplesmente uma trag\u00e9dia. Algumas conquistas dos \u00faltimos anos, como o Enem, est\u00e3o sendo desmontadas e desacreditadas cada vez mais. E a pandemia escancarou ainda mais a realidade dessa imensa desigualdade e injusti\u00e7a. N\u00e3o existe futuro para um pa\u00eds sem educa\u00e7\u00e3o. No Brasil, este futuro est\u00e1 garantido apenas para quem pode pagar, e muito bem. E isso s\u00f3 perpetua a desigualdade.<\/p>\n<p><strong>Site Franciscanos<\/strong> <em>&#8211; Frei, a Igreja Cat\u00f3lica sabe ler os sinais dos tempos?<\/em><\/p>\n<p><strong>Frei Sandro<\/strong> &#8211; Aqui \u00e9 bom lembrar que a Igreja \u00e9 constitu\u00edda de todos os batizados. N\u00e3o apenas o papa, os bispos, a C\u00faria (hierarquia), os religiosos, etc. Da parte do povo de Deus, h\u00e1 sim pessoas na Igreja que conseguem ler os sinais dos tempos. Mas para interpret\u00e1-los \u00e9 preciso paci\u00eancia, tempo, amadurecimento, para que os sinais sejam percept\u00edveis por um grupo cada vez maior de pessoas. Alguns membros da Igreja, iluminados pelo Esp\u00edrito, atentos ao Evangelho e aos sinais que Deus nos envia cotidianamente, conseguem ver al\u00e9m de seu tempo. Geralmente s\u00e3o aqueles que est\u00e3o diretamente envolvidos na luta do povo, na pastoral, na linha de frente dos desafios sociais, geralmente desligados ou distantes das estruturas, necess\u00e1rias, mas muitas vezes alienantes e acomodat\u00edcias. Certamente, a teologia, a reflex\u00e3o aprofundada e s\u00e9ria, tamb\u00e9m \u00e9 um meio para se perceber os sinais dos tempos. Mas tem que ser uma teologia que esteja conectada \u00e0 realidade, com a pastoral, com o p\u00e9 no ch\u00e3o. Me lembro bem de uma m\u00e1xima, que era repetida pelo meu professor Frei Clodovis Boff: \u201cA cabe\u00e7a pensa a partir de onde pisam os p\u00e9s\u201d. Precisamos de reflex\u00e3o, de maturidade e senso cr\u00edtico para interpretar e entender os sinais dos tempos. Aqueles que conseguem perceb\u00ea-los nem sempre s\u00e3o compreendidos. S\u00e3o considerados vision\u00e1rios, loucos ou hereges. Foi o caso de S\u00e3o Francisco. Sua Ordem teve sucesso porque respondeu aos sinais dos tempos em seu tempo. Ele tamb\u00e9m foi incompreendido, chamado de louco, herege, alternativo&#8230; Muitas das \u201cnovidades\u201d trazidas por Francisco n\u00e3o foram assimiladas, outras foram esquecidas, at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p><strong>Site Franciscanos<\/strong> <em>&#8211; Explique, por favor, o que \u00e9 clericalismo?<\/em><\/p>\n<p><strong>Frei Sandro<\/strong> &#8211; O clericalismo \u00e9 um dos grandes males da Igreja. Historicamente, o padre sempre ocupou um lugar de destaque na sociedade. Falando especificamente do Brasil, desde os in\u00edcios, ao mesmo tempo em que a Igreja funcionava alicer\u00e7ada no catolicismo leigo, de \u201cmuita reza e pouca missa, muito santo e pouco padre\u201d, a figura do sacerdote era respeitada, por ser ele o mediador do sagrado. Mas este ministro era algu\u00e9m muito pr\u00f3ximo do cotidiano das pessoas, muitas vezes tendo que trabalhar duro, ao lado do povo, para se sustentar. Com a romaniza\u00e7\u00e3o, a partir da metade do s\u00e9culo XIX, foi sendo tirado o protagonismo do leigo nas comunidades, e o papel do clero foi sendo colocado cada vez mais em evid\u00eancia, fortalecendo a ideia de um ser destacado do comum das pessoas, com uma aura de sacralidade. A forma\u00e7\u00e3o nos semin\u00e1rios, dirigidos por religiosos de congrega\u00e7\u00f5es trazidas especialmente da Europa, ajudou a completar esse quadro. O celibato, o clergimam, a batina, o distanciamento do povo, da fam\u00edlia, no per\u00edodo de forma\u00e7\u00e3o, o monop\u00f3lio dos Sacramentos, especialmente da Eucaristia, serviram para consolidar essa imagem. O padre ficou \u201ctrancado na sacristia\u201d, ocupando-se apenas das coisas espirituais. As quest\u00f5es sociais, as injusti\u00e7as, a pol\u00edtica, n\u00e3o lhe diziam respeito. A forma\u00e7\u00e3o na vida religiosa tamb\u00e9m seguiu esta orienta\u00e7\u00e3o. At\u00e9 meados do s\u00e9culo XX essa foi, no geral, a mentalidade que vigorou. N\u00e3o queremos aqui negar a santidade, o testemunho e a seriedade de muitos padres formados neste estilo de Igreja. Mas, em meados do s\u00e9culo XX estava claro que este modelo estava ultrapassado. O advento do Vaticano II e as reuni\u00f5es do Episcopado Latino Americano (Celam) trouxeram a esperan\u00e7a do surgimento de um novo modelo de Igreja e um novo tipo de ministro, menos centralizador, mais pr\u00f3ximo das pessoas e de suas labutas cotidianas. E isso gerou muita crise. Avan\u00e7ou-se em alguns aspectos, mas em outros nem tanto. A grande quest\u00e3o \u00e9, sobretudo, a forma\u00e7\u00e3o para os minist\u00e9rios ordenados, seculares ou religiosos. O candidato ainda \u00e9 formado dentro de determinados par\u00e2metros que o colocam quase como um \u201csemideus\u201d. Recebem na ordena\u00e7\u00e3o um poder para o qual muitos n\u00e3o est\u00e3o preparados para lidar. Esquecem que este poder s\u00f3 ser\u00e1 eficaz se for vivido a partir da autoridade que brota do amor, autoridade que vem da miseric\u00f3rdia, do testemunho do servi\u00e7o desinteressado. Sem essa verdadeira autoridade, o poder clerical desbanca para o clericalismo. Ao inv\u00e9s de servirem ao Reino atrav\u00e9s do servi\u00e7o aos irm\u00e3os, servem a si mesmos. Ao inv\u00e9s de colocarem Jesus no centro de sua miss\u00e3o, colocam-se a si mesmos, o pr\u00f3prio eu. Ao inv\u00e9s da corresponsabilidade na miss\u00e3o, cedem \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o da autossufici\u00eancia, do triunfalismo. Inflex\u00edveis, respaldados pelo Direito Can\u00f4nico (interpretado segundo a conveni\u00eancia), sem miseric\u00f3rdia, abusam do poder que t\u00eam. Alguns, despreparados at\u00e9 intelectualmente, confrontam-se com leigos e leigas muito melhor preparados do que eles na par\u00f3quia e na pastoral em geral. Isso gera medo, inseguran\u00e7a, desconforto. E a\u00ed, muitas vezes, o jovem padre se assegura atrav\u00e9s da ordena\u00e7\u00e3o recebida, se esconde atr\u00e1s do microfone, do p\u00falpito e do altar, do poder que lhe foi confiado pela Igreja. Outra quest\u00e3o a destacar \u00e9 que o clericalismo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 do padre: tamb\u00e9m os leigos s\u00e3o clericais, quando alimentam este tipo de comportamento. N\u00e3o ajudam o padre a crescer, a amadurecer. Ao contr\u00e1rio, bajulam, colocam-no num pedestal. O clericalismo do leigo cria uma depend\u00eancia infantil, uma obedi\u00eancia escrupulosa ao sacerdote, (al\u00e9m de alimentar a infantilidade do ministro). Tal comportamento pode ser consequ\u00eancia da forma\u00e7\u00e3o recebida no semin\u00e1rio, mas tamb\u00e9m da forma\u00e7\u00e3o familiar, religiosa, cultural, al\u00e9m do car\u00e1ter e da incapacidade de refletir, de ter um pensamento cr\u00edtico. \u00c9 tamb\u00e9m fruto de muita ignor\u00e2ncia. Infelizmente muitos semin\u00e1rios e casas de forma\u00e7\u00e3o religiosa alimentam e perpetuam este tipo de comportamento, colocando a ordena\u00e7\u00e3o como se fosse um m\u00e9rito (a meritocracia est\u00e1 na moda hoje), como um pr\u00eamio, pela bondade, pela santidade, pelo esfor\u00e7o pessoal. Sem contar que, em alguns casos, \u00e9 uma busca de meio de vida. Acho que n\u00e3o existe um ant\u00eddoto ao clericalismo, mas alguns elementos podem ajudar a combater esse \u201cv\u00edrus\u201d: uma forma\u00e7\u00e3o atenta e personalizada, estudo s\u00e9rio, cr\u00edtico e sempre atualizado da teologia, da exegese, leitura atenta aos sinais dos tempos, o servi\u00e7o dedicado e amoroso aos pobres, uma vida ancorada na simplicidade, na viv\u00eancia profunda do Evangelho e na ora\u00e7\u00e3o. E, principalmente, ouvir o Papa Francisco, que nos convida a sermos uma Igreja em sa\u00edda, indo \u00e0s periferias, sociais e existenciais, e que coloquemos em pr\u00e1tica a sinodalidade. O papa chegou a afirmar que o clericalismo \u00e9 uma pervers\u00e3o. Esse comportamento, como j\u00e1 acenei, est\u00e1 presente tamb\u00e9m entre os religiosos e entre os franciscanos. E o clericalismo na vida religiosa franciscana, dos irm\u00e3os vocacionados a serem \u201cmenores\u201d, n\u00e3o tenho nenhum receio de afirmar, \u00e9 uma trai\u00e7\u00e3o aos ideais de S\u00e3o Francisco. Sobre isso poder\u00edamos escrever um livro inteiro. Como afirma S\u00e3o Francisco, na Admoesta\u00e7\u00e3o 19: \u201cBem-aventurado o servo que n\u00e3o se considera melhor quando \u00e9 engrandecido e exaltado pelos homens do que quando \u00e9 considerado insignificante, simples e desprezado, porque, quanto \u00e9 o homem diante de Deus, tanto \u00e9 e n\u00e3o mais\u201d.<\/p>\n<p><strong>Site Franciscanos<\/strong> <em>&#8211; Por que esse apego de certos grupos a ritos tradicionais, insistindo num catolicismo sem grande incid\u00eancia na vida pessoal e social?<\/em><\/p>\n<p><strong>Frei Sandro<\/strong> &#8211; O apego aos ritos tradicionais se d\u00e1 como consequ\u00eancia da compreens\u00e3o que estes grupos t\u00eam de Cristo e da Igreja. Sua vis\u00e3o de Igreja, de liturgia, de teologia, \u00e9 anacr\u00f4nica, de s\u00e9culos atr\u00e1s, em alguns casos at\u00e9 anterior a Trento. Uma Igreja triunfante, imaterial, t\u00edpica do regime de cristandade, desvinculada da hist\u00f3ria, alheia \u00e0s grandes quest\u00f5es que tocam a todos os homens e mulheres. Isso decorre da imagem que cultivam de Cristo, desencarnado da realidade, indiferente ao destino do mundo. Sob a capa de piedade e devo\u00e7\u00e3o, revela-se um cristianismo amorfo, irrelevante, intimista, sem nenhuma rela\u00e7\u00e3o com as s\u00e9rias e urgentes demandas da humanidade. Acabam caindo na heresia docetista e nas v\u00e1rias heresias dualistas, que subestimavam a realidade hist\u00f3rica de Jesus, chegando alguns at\u00e9 a neg\u00e1-la. A base de fundo destes movimentos \u00e9 a rejei\u00e7\u00e3o em bloco do Vaticano II e as declara\u00e7\u00f5es das Confer\u00eancias da Am\u00e9rica Latina. Ignoram a caminhada da Igreja, a hist\u00f3ria dos dogmas. S\u00e3o capazes de repetir todos os c\u00e2nones do Direito Can\u00f4nico, repetem de mem\u00f3ria certas m\u00e1ximas da Suma Teol\u00f3gica, de Santo Agostinho (de prefer\u00eancia em latim), mas n\u00e3o passam disso. S\u00e3o fundamentalistas inflex\u00edveis. N\u00e3o aceitam o ecumenismo, muito menos o di\u00e1logo inter-religioso, que consideram uma relativiza\u00e7\u00e3o das verdades da f\u00e9. Extremamente fechados \u00e0 discuss\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a quest\u00f5es morais e de comportamento, n\u00e3o consideram os avan\u00e7os das ci\u00eancias humanas, da psicologia, da sociologia, da antropologia. Simpatizantes dos movimentos pol\u00edticos de extrema-direita, s\u00e3o fautores de um cristianismo sem alma, sem caridade, sem miseric\u00f3rdia. Falam mais do dem\u00f4nio e do inferno do que de Jesus, falam mais do pecado do que da miseric\u00f3rdia, conhecem mais as normas do que o Evangelho. Ignoram totalmente a fala do Papa Francisco, que quer uma Igreja como um hospital de campanha, que cuida dos feridos, dos enfermos, dos doentes, ao inv\u00e9s de lhes apontar o dedo para as feridas, os pecados e fragilidades. Muitos destes membros de grupos tradicionalistas falam sem saber, criticam documentos, pronunciamentos do magist\u00e9rio, sem nunca os terem lido. S\u00e3o formados no que chamamos de \u201cmagist\u00e9rio paralelo\u201d, seguindo l\u00edderes carism\u00e1ticos, youtubers de batina, que s\u00f3 confirmam suas ideias e cren\u00e7as. Forma-se assim um gueto na Igreja, de pessoas formadas (ou des-informadas ou de-formadas), a partir de um pensamento s\u00f3. As m\u00eddias sociais s\u00e3o o grande meio de difus\u00e3o destas ideias conservadoras. Um dos motivos do crescimento destes grupos \u00e9 que eles d\u00e3o respostas prontas e definitivas a quest\u00f5es que, nesta sociedade \u201cl\u00edquida\u201d, nem sempre t\u00eam respostas prontas e imediatas. As quest\u00f5es colocadas \u00e0 Igreja hoje, nos mais variados campos da moral, dos costumes, da teologia, das rela\u00e7\u00f5es humanas em geral, s\u00e3o quest\u00f5es e situa\u00e7\u00f5es extremamente complexas, que precisam ser analisadas sob os mais diversos aspectos, exigem reflex\u00e3o, an\u00e1lise acurada e amadurecida, dentro do contexto geral do s\u00e9culo XXI, mas tamb\u00e9m do contexto pessoal de homens e mulheres concretos, na sua individualidade. E isso d\u00e1 trabalho, leva tempo. Em momentos de crise, \u00e9 melhor agarrar-se ao passado, \u00e0quilo que \u201csempre funcionou e deu certo\u201d. Na verdade, trata-se de uma busca de seguran\u00e7a imediata, num mundo extremamente inseguro. Infelizmente, apoiados por bispos que pensam como eles, sentem-se autorizados a criticar os demais bispos, a CNBB, at\u00e9 o Papa Francisco. Para alguns grupos, Bento XVI ainda \u00e9 o \u201cpapa leg\u00edtimo\u201d (o pr\u00f3prio Bento XVI desautorizou publicamente isso num recente pronunciamento). Fala-se muito dos problemas dos \u201ccat\u00f3licos progressistas\u201d, mas quem d\u00e1 mais dor de cabe\u00e7a aos bispos e ao papa s\u00e3o os cat\u00f3licos tradicionalistas. Um outro elemento neste rol de caracter\u00edsticas que identificam estes movimentos \u00e9 o ritualismo est\u00e9tico, marcado por vestes lit\u00fargicas pomposas e extravagantes, insist\u00eancia em gestos rituais acess\u00f3rios, como a comunh\u00e3o na boca, de joelhos, o uso do v\u00e9u para as mulheres, t\u00edpicos de uma Igreja dos tempos de cristandade. Muitos dos candidatos \u00e0 vida religiosa ou ao clero secular v\u00eam deste ambiente: coroinhas, que conhecem todos os detalhes do missal e do lecion\u00e1rio, dominam todos os gestos e as m\u00ednimas rubricas lit\u00fargicas; ou de \u201ccomunidades de vida\u201d, onde em geral o tradicionalismo impera, e que, em alguns casos, \u00e9 um ref\u00fagio para pessoas desequilibradas, que precisam de ajuda psiqui\u00e1trica. \u00c9 o ambiente eclesial que forma muitos de nossos jovens hoje. E os que vem a n\u00f3s, temos que reconhecer, vem com esp\u00edrito sincero. S\u00e3o piedosos, devotos. A ascens\u00e3o do tradicionalismo, principalmente entre os jovens, tamb\u00e9m \u00e9 consequ\u00eancia do fato de que a Igreja n\u00e3o soube e n\u00e3o sabe lidar com os jovens. A catequese em nossas par\u00f3quias \u00e9 extremamente falha, nossas igrejas s\u00e3o frequentadas, em sua imensa maioria (salvo exce\u00e7\u00f5es), por idosos e pessoas de meia idade e mulheres. N\u00e3o conseguimos atrair a juventude com nosso discurso, com nossa pr\u00e1xis. Nesse sentido, precisamos fazer uma s\u00e9ria autocr\u00edtica e interpretar os \u201csinais\u201d que os tempos est\u00e3o nos transmitindo.<\/p>\n<p><strong>Site Franciscanos<\/strong> <em>&#8211; Como o sr. avalia essa onda de revela\u00e7\u00f5es de abusos clericais? Quando come\u00e7am aparecer casos na hist\u00f3ria da Igreja?<\/em><\/p>\n<p><strong>Frei Sandro<\/strong> &#8211; Os abusos vieram \u00e0 tona de modo expl\u00edcito nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Embora j\u00e1 h\u00e1 algum tempo se falasse e se comentasse muito discretamente. Jo\u00e3o XXIII tratou do assunto com alguns bispos. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, especialmente durante o pontificado de Jo\u00e3o Paulo II, come\u00e7aram a surgir cada vez mais den\u00fancias, que a princ\u00edpio foram vistas com suspeita pela Igreja, e foram colocadas \u201csob o tapete\u201d. Embora o tema n\u00e3o seja circunscrito ao ambiente clerical, mas esteja presente em todos os ambientes humanos, as den\u00fancias na Igreja estouravam por todo lado, sendo muito fortemente exploradas pela m\u00eddia. Bento XVI herdou um imenso problema, e embora tenha tomado algumas medidas, estas n\u00e3o foram fortes o suficiente para responder principalmente \u00e0s v\u00edtimas, mas tamb\u00e9m aos crist\u00e3os e \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica. H\u00e1 a suspeita de que a ren\u00fancia do papa tenha muito a ver com a constata\u00e7\u00e3o de sua inabilidade para lidar com o assunto. Papa Francisco enfrentou o problema de frente, n\u00e3o sem cr\u00edticas e s\u00e9rios dissabores e contragolpes. E a luta continua. Os casos vieram \u00e0 tona favorecidos por alguns fatores, como a maior facilidade de acesso aos meios de comunica\u00e7\u00e3o, uma maior consci\u00eancia dos direitos e da dignidade da pessoa, a seculariza\u00e7\u00e3o e a \u201cdessacraliza\u00e7\u00e3o\u201d da pessoa do sacerdote, que deixou de ser visto como uma pessoa acima da lei. Certamente houve e h\u00e1 muita cal\u00fania, injusti\u00e7a e aproveitadores, e \u00e9 um assunto extremamente delicado: um falso testemunho destr\u00f3i para sempre a vida de uma pessoa. Por isso, o Papa Francisco empenhou-se pessoalmente em dar balizas claras e coerentes para enfrentar o problema de frente, ao inv\u00e9s de usar medidas paliativas, como transferir o suspeito, e com ele o problema. A Igreja saiu com a imagem arranhada no mundo inteiro, mas principalmente nos pa\u00edses onde os casos mais graves vieram a p\u00fablico. Nos Estados Unidos, as Dioceses tiveram que pagar indeniza\u00e7\u00f5es milion\u00e1rias \u00e0s v\u00edtimas. \u00c9 uma oportunidade para a Igreja fazer um mea culpa, e se perguntar: o que deu errado? Porque tantos casos de pedofilia e abusos de crian\u00e7as, da parte daqueles que deveriam ser os primeiros a proteg\u00ea-las, a ser testemunho e exemplo de vida \u00e9tica, de moral e de respeito? O tema coloca \u00e0 Igreja quest\u00f5es muito s\u00e9rias sobre sua presen\u00e7a e atua\u00e7\u00e3o no mundo. Alguns de imediato alardeiam o fim do celibato, outros sugerem uma mudan\u00e7a na sele\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o dos candidatos aos minist\u00e9rios. De qualquer modo \u00e9 uma oportunidade de purifica\u00e7\u00e3o da Igreja, que deve, em alguns lugares, deixar de lado o triunfalismo, o clericalismo, a alian\u00e7a com os poderes esp\u00farios, e se engajar de fato no an\u00fancio do Reino. O mal causado \u00e0s v\u00edtimas \u00e9 irrepar\u00e1vel. Al\u00e9m de ser um pecado, \u00e9 crime, e \u00e9 uma trag\u00e9dia para a Igreja. Dessa trag\u00e9dia pode sair uma Igreja mais pura, mais simples, mais pobre e mais Evang\u00e9lica.<\/p>\n<p><strong>Site Franciscanos<\/strong> <em>&#8211; Percebe-se na hist\u00f3ria eclesial resist\u00eancias \u00e0s mudan\u00e7as e isso fica claro no Pontificado de Francisco. Por que essa transforma\u00e7\u00e3o eclesial \u00e9, muitas vezes, mais lenta que o processo social e cultural?<\/em><\/p>\n<p><strong>Frei Sandro<\/strong> &#8211; Resist\u00eancias a mudan\u00e7as sempre existiram na Igreja. Por ser uma institui\u00e7\u00e3o de dois mil anos, com uma estrutura pesada, envolvendo bilh\u00f5es de pessoas do mundo inteiro, provenientes das mais diversas culturas, qualquer mudan\u00e7a gera uma inseguran\u00e7a, um receio muito grande. Isso \u00e9 natural nas grandes institui\u00e7\u00f5es, e quanto mais antigas mais dif\u00edceis de digerir as mudan\u00e7as. Mas, como diz Elis Regina, \u201co novo sempre vem\u201d (na can\u00e7\u00e3o Como nossos pais). No s\u00e9culo passado, nos \u00faltimos 50 anos, aconteceram mais mudan\u00e7as na sociedade, em todos os n\u00edveis, do que nos 500 anos anteriores. E essas transforma\u00e7\u00f5es incidiram profundamente sobre o humano. Fala-se hoje de p\u00f3s-modernidade, globaliza\u00e7\u00e3o, mundo l\u00edquido, modernidade l\u00edquida, etc. Seja qual for a denomina\u00e7\u00e3o, estamos numa profunda \u201cmudan\u00e7a de \u00e9poca\u201d. Isso tem que ser levado em considera\u00e7\u00e3o quando se trata do eclesial. As r\u00e1pidas mudan\u00e7as geram incertezas, inseguran\u00e7a. \u00c9 natural uma reserva e um agarrar-se na seguran\u00e7a do que \u201csempre deu certo\u201d. O problema \u00e9 que n\u00e3o est\u00e1 mais dando certo. Temos respostas a perguntas que as pessoas n\u00e3o fazem mais. Com o advento de Francisco percebeu-se que a reforma pode ser um caminho compartilhado, um processo fruto da j\u00e1 citada sinodalidade. Alguma coisa j\u00e1 se fez. Mas ainda muito falta a fazer. Por outro lado, as reformas geralmente n\u00e3o acontecem de cima para baixo. Elas s\u00e3o suscitadas a partir da base, que insiste e urge a necessidade de mudan\u00e7a. Nesse sentido \u00e9 tamb\u00e9m um caminho a ser percorrido por todo o Povo de Deus.<\/p>\n<p><strong>Site Franciscanos<\/strong> <em>&#8211; Como o sr. v\u00ea os pontificados depois do Conc\u00edlio Vaticano II at\u00e9 o Papa Francisco?<\/em><\/p>\n<p><strong>Frei Sandro<\/strong> &#8211; Quando fazemos um balan\u00e7o dos pontificados a partir da segunda metade do s\u00e9culo XX, o Vaticano II sempre \u00e9 a refer\u00eancia. O Conc\u00edlio foi uma grata surpresa para a Igreja, \u201ca flor de uma inesperada primavera\u201d (Jo\u00e3o XXIII), que realizou-se gra\u00e7as ao esp\u00edrito aberto e l\u00facido do \u201cPapa Bom\u201d. Este esp\u00edrito continuou com for\u00e7a e coragem com Paulo VI, com o engajamento do episcopado Latino Americano num esfor\u00e7o em colocar em pr\u00e1tica as diretrizes do Conc\u00edlio. Mas j\u00e1 no fim da Assembleia come\u00e7aram a surgir dissid\u00eancias que prenunciavam tempestades futuras. A grande quest\u00e3o \u00e9 que a C\u00faria Romana, envelhecida, tradicionalista, com uma organiza\u00e7\u00e3o que vinha de s\u00e9culos atr\u00e1s, n\u00e3o foi reformada. Acabado o Conc\u00edlio, Paulo VI ficou sozinho, com uma C\u00faria disposta a tudo para impedir as reformas. Por isso muitas propostas inovadoras n\u00e3o avan\u00e7aram (ainda hoje). A elei\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Paulo I foi um sopro de esperan\u00e7a. Com o advento de Jo\u00e3o Paulo II, parecia que algo novo iria acontecer. O primeiro papa n\u00e3o italiano em s\u00e9culos, que havia conhecido o terror nazista e a ditadura comunista, revelou-se um papa midi\u00e1tico, carism\u00e1tico, que suscitou esperan\u00e7as e um novo \u00e2nimo na Igreja. Mas era mais um pastoralista do que um te\u00f3logo. Seu \u201cgolpe de mestre\u201d foi nomear o Cardeal alem\u00e3o Joseph Ratzinger como Prefeito da Congrega\u00e7\u00e3o de Doutrina da F\u00e9. As propostas reformadoras do Vaticano II foram sendo deixadas de lado. Na sua primeira viagem internacional, ao M\u00e9xico, em 1979, o papa fez uma dura interven\u00e7\u00e3o, em sentido conservador, nos resultados finais da Confer\u00eancia de Puebla. Tamb\u00e9m interveio muito fortemente nas Igrejas locais, principalmente no Brasil, nomeando bispos de tend\u00eancia conservadora. Agiu do mesmo modo na C\u00faria, preparando seu sucessor. Assombrado pelo fantasma do comunismo, perseguiu duramente os te\u00f3logos latino americanos da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o. Seu fechamento ao di\u00e1logo, a oposi\u00e7\u00e3o, aberta ou velada, em alguns casos, aos avan\u00e7os propostos pelo Vaticano II, fizeram com que se cunhasse a express\u00e3o \u201cvolta \u00e0 grande disciplina\u201d, para se referir ao seu pontificado. Embora tenha sido o papa das multid\u00f5es, das viagens que reuniram milh\u00f5es de cat\u00f3licos mundo afora, dos gestos marcantes, sua teologia tradicional n\u00e3o tocava a fundo nos problemas do mundo moderno, j\u00e1 \u00e0s v\u00e9speras do s\u00e9culo XXI. Quase poder\u00edamos afirmar que o Papa que ficou \u201csanto s\u00fabito\u201d, teve muitos admiradores, mas n\u00e3o tantos seguidores. Joseph Ratzinger foi eleito para dar continuidade ao programa conservador de Jo\u00e3o Paulo II. Sem o carisma e a espontaneidade de seu antecessor, teve que enfrentar in\u00fameros esc\u00e2ndalos, desde o vazamento de documentos da C\u00faria (caso Vatileaks), ou o esc\u00e2ndalo com o fundador dos Legion\u00e1rios de Cristo, e, principalmente, os abusos de menores. Bento era considerado por alguns o melhor te\u00f3logo da C\u00faria. Por\u00e9m, t\u00edmido, reservado, com pouca habilidade diplom\u00e1tica, vivendo ainda num esp\u00edrito de cristandade, foi incapaz de perceber os reais desafios contempor\u00e2neos, as reais urg\u00eancias da Igreja e dos crist\u00e3os de todo o mundo. Sabemos hoje que ele se op\u00f4s abertamente a Jo\u00e3o Paulo II quando da realiza\u00e7\u00e3o do encontro interreligioso de Assis. Sua ren\u00fancia, al\u00e9m de inusitada, foi um gesto de grandeza. A elei\u00e7\u00e3o do \u201cPapa do fim do mundo\u201d foi uma surpresa para o mundo inteiro, mas representou tamb\u00e9m uma mensagem: a C\u00faria estava percebendo a necessidade de mudan\u00e7a. O Papa Argentino sabe o significado de sua elei\u00e7\u00e3o. E est\u00e1 se esfor\u00e7ando por corresponder \u00e0s expectativas. A cria\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o de Cardeais dos cinco continentes para ajud\u00e1-lo num plano de reforma suscitaram esperan\u00e7as. Concretamente parece que pouca coisa foi feita at\u00e9 agora. No entanto, atrav\u00e9s de seus gestos eloquentes, desde o nome assumido e o local que escolheu para morar, atrav\u00e9s de seus documentos, e do seu esfor\u00e7o por propor uma Igreja aberta e atenta \u00e0s grandes feridas que atingem a humanidade inteira, independente de credo, Francisco indica o caminho e incentiva os que acreditam numa Igreja mais evang\u00e9lica. O Papa sabe que uma reforma das estruturas e das institui\u00e7\u00f5es, embora seja importante, s\u00f3 ser\u00e1 eficiente se houver uma convers\u00e3o que v\u00e1 \u00e0 raiz dos problemas, se houver uma verdadeira metan\u00f3ia. E \u00e9 isso que ele espera de seus colaboradores mais pr\u00f3ximos, como deixou claro em v\u00e1rios pronunciamentos. Francisco est\u00e1 combatendo este bom combate, opondo-se ao carreirismo, aos esc\u00e2ndalos, ao mundanismo e ao clericalismo. Propondo uma Igreja misericordiosa, dialogal, pobre, sinodal, samaritana. O caminho \u00e9 longo, as resist\u00eancias s\u00e3o enormes, mas ele n\u00e3o est\u00e1 sozinho. A grande esperan\u00e7a que seu pontificado est\u00e1 suscitando certamente dar\u00e1 frutos. Talvez isso demore, mas \u00e9 um caminho sem volta. Seu sucessor ter\u00e1 muito trabalho para fazer jus ao seu legado, mas as portas est\u00e3o abertas, e dificilmente ser\u00e3o fechadas de novo.<\/p>\n<p><strong>Site Franciscanos<\/strong> <em>&#8211; Os grandes pensadores franciscanos procuraram trazer \u00e0 luz os valores afetivos em geral: o valor do amor, do sentimento, do desejo, da diversidade, da intui\u00e7\u00e3o, da arte e da poesia. Essa linha franciscana \u00e9 bem vis\u00edvel no Pontificado do Papa Francisco, n\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p><strong>Frei Sandro<\/strong> &#8211; Francisco de Assis n\u00e3o era um te\u00f3logo. Era um artista, um poeta, mas era, sobretudo, um apaixonado por Deus. Em tudo ele via a presen\u00e7a de Deus misericordioso, amoroso, cordial e cort\u00eas. Celano afirma que Francisco \u201cReconhece nas coisas belas aquele que \u00e9 o mais belo\u201d (2Cel 165, 5). E isso ele expressava n\u00e3o atrav\u00e9s de reflex\u00f5es escritas, mas de gestos, s\u00edmbolos, sinais, que tocavam (e continuam tocando) profundamente o ser humano. Francisco, embora tenha deixado alguns escritos, n\u00e3o exercia uma raz\u00e3o anal\u00edtica ou especulativa, mas uma raz\u00e3o intuitiva, m\u00edstica, atrav\u00e9s da qual conseguia expressar toda a gratuidade e beleza de Deus. Estamos falando aqui de sentimentos, afetos, sensibilidade. Nos Louvores ao Deus Alt\u00edssimo Francisco dirige-se ao Pai duas vezes como beleza: \u201cV\u00f3s sois a Beleza&#8230;\u201d. Os grandes mestres franciscanos, cada um a seu modo, continuaram fieis \u00e0s inspira\u00e7\u00f5es do \u201cPoverello\u201d. As ci\u00eancias humanas, especialmente a antropologia, a psicologia, cada vez mais evidenciam que o ser humano n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 mat\u00e9ria, corporeidade, raz\u00e3o. Mas o corpo \u00e9 um meio de express\u00e3o de algo muito mais profundo, divino. Isso foi negligenciado na Igreja: \u201cLogos\u201d e Pathos\u201d sempre seguiram por vias separadas. \u201cSalva a tua alma\u201d n\u00e3o inclu\u00eda a afetividade, a corporeidade, os sentimentos. Na Igreja, o corpo sempre foi visto com suspeita. Sentimentos e afetos tinham que ser \u201csublinhados\u201d, disciplinados. Quem entrava para a Vida Consagrada entrava para fazer penit\u00eancia, para se mortificar. O belo e o est\u00e9tico tamb\u00e9m eram vistos com suspeita. Mas \u00e9 atrav\u00e9s do corpo e dos sentidos que a beleza encontra sua express\u00e3o. Papa Francisco, ao evidenciar em v\u00e1rios pronunciamentos de seu pontificado a import\u00e2ncia da via afetiva, sens\u00edvel, perceptiva, est\u00e1 reafirmando esta verdade, meio esquecida na Igreja, de que Deus se revela atrav\u00e9s da experi\u00eancia est\u00e9tica, da beleza, dos afetos, da arte. Vivemos no mundo da percep\u00e7\u00e3o, da imagem, do visual. Isso n\u00e3o pode ser ignorado pela teologia. Esse \u00e9, sem d\u00favida, um dos sinais dos tempos. Isso tem a ver n\u00e3o s\u00f3 com a arte, especificamente com a arte sacra, mas \u00e9 uma forma de impostar o pensamento teol\u00f3gico, \u00e9 uma forma de evangelizar, que considere n\u00e3o apenas a argumenta\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, iluminista, cartesiana, mas tamb\u00e9m a afetiva.<\/p>\n<p><strong>Site Franciscanos<\/strong> <em>&#8211; Como o sr. v\u00ea o fato de o Papa Francisco indicar que a sinodalidade deve ser implementada em todos os n\u00edveis da vida da Igreja?<\/em><\/p>\n<p><strong>Frei Sandro<\/strong> &#8211; A Igreja foi, desde as suas origens, uma Igreja Sinodal. A reuni\u00e3o dos ap\u00f3stolos, no ano 49, em Jerusal\u00e9m, para discutir sobre a \u201ccrise judeu-crist\u00e3\u201d, inaugurou este costume, seguido, ao longo dos s\u00e9culos pelas Igrejas que se expandiam por todo o imp\u00e9rio romano. Ao longo da hist\u00f3ria este modo de ser Igreja foi sendo deixado de lado, por v\u00e1rias raz\u00f5es. Uma delas, evidentemente, foi o surgimento do modelo de cristandade, instaurando o modelo hier\u00e1rquico-mon\u00e1rquico, que vigorou at\u00e9 bem pouco tempo (mas que ainda est\u00e1 presente em muitas mentalidades cat\u00f3licas). Quando de sua elei\u00e7\u00e3o, Papa Francisco afirmou que a sinodalidade deveria ser vivida em v\u00e1rios n\u00edveis na Igreja. Na verdade, Francisco est\u00e1 apenas retomando e atualizando um mecanismo importante de comunh\u00e3o e administra\u00e7\u00e3o eclesial, o S\u00ednodo dos Bispos, que foi \u201creinstaurado\u201d por Paulo VI, no fim do Vaticano II, e que foi incentivado pelas Confer\u00eancias Episcopais da Am\u00e9rica Latina. Em mar\u00e7o de 2015, por ocasi\u00e3o dos 50 anos da institui\u00e7\u00e3o do S\u00ednodo dos Bispos, o Papa afirmava: \u201cAquilo que o Senhor nos pede, de certo modo est\u00e1 j\u00e1 tudo contido na palavra \u2018S\u00ednodo\u2019. Caminhar juntos \u2013 leigos, pastores, Bispo de Roma \u2013 \u00e9 um conceito f\u00e1cil de exprimir em palavras, mas n\u00e3o \u00e9 assim f\u00e1cil p\u00f4-lo em pr\u00e1tica\u201d. A novidade de Francisco \u00e9 o modo como esta sinodalidade est\u00e1 sendo colocada em pr\u00e1tica. N\u00e3o se trata de belas e bem elaboradas afirma\u00e7\u00f5es formais nos documentos pontif\u00edcios, destinadas a serem logo esquecidas, como estamos acostumados a ver em alguns momentos da hist\u00f3ria. Francisco est\u00e1 agindo dentro de uma \u201cpr\u00e1xis\u201d sinodal. Haja vista os v\u00e1rios s\u00ednodos realizados at\u00e9 agora, que envolveram um bom n\u00famero de crist\u00e3os que foram chamados a dar seu parecer, a participar ativamente, e cujos documentos finais foram fruto de muita discuss\u00e3o e debate, como o S\u00ednodo para Juventude, o S\u00ednodo para a Fam\u00edlia, e, principalmente, o S\u00ednodo para a Amaz\u00f4nia. O modelo sinodal de Igreja colocado em pr\u00e1tica por Francisco d\u00e1 muito mais influ\u00eancia \u00e0s Igrejas locais, descentralizando o governo da Igreja, d\u00e1 voz aos \u201ccat\u00f3licos comuns\u201d, aos bispos locais e confer\u00eancias episcopais. O pr\u00f3prio Papa referiu-se \u00e0 essa descentraliza\u00e7\u00e3o na Evangelii Gaudium: \u201cN\u00e3o conv\u00e9m que o Papa substitua os episcopados locais no discernimento de todas as problem\u00e1ticas que sobressaem nos seus territ\u00f3rios. Neste sentido, sinto a necessidade de proceder a uma salutar \u2018descentraliza\u00e7\u00e3o\u2019 (EG, 16)\u201d. Isso n\u00e3o \u00e9 visto com bons olhos pela C\u00faria (que precisa ser reformada). A pr\u00e1xis sinodal afirma-se na certeza de que todos somos Igreja. O que nos une \u00e9 o batismo. Todos somos assistidos pelo Esp\u00edrito Santo. Uma Igreja sinodal \u00e9 uma Igreja onde todos os batizados t\u00eam vez e voz. A sinodalidade sup\u00f5e um processo participativo, de colabora\u00e7\u00e3o, corresponsabilidade. N\u00e3o se pretende acabar com a hierarquia. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel continuar agindo na Igreja como se fosse uma monarquia. Deve ser colocado em pr\u00e1tica em n\u00edvel de par\u00f3quias, de dioceses, de confer\u00eancias. Por\u00e9m, ser\u00e1 preciso superar a mentalidade clericalista, que supervaloriza a figura do padre. Em algumas par\u00f3quias n\u00e3o existe nem o Conselho Paroquial. O p\u00e1roco tem a primeira e a \u00faltima palavra. Os leigos n\u00e3o participam de nada. O m\u00ednimo ainda n\u00e3o se fez. H\u00e1 muito que caminharmos para come\u00e7armos a discutir a verdadeira sinodalidade na Igreja. Mas, sem d\u00favida, \u00e9 um caminho sem volta. O Papa Francisco j\u00e1 anunciou que o tema do pr\u00f3ximo s\u00ednodo, a realizar-se em outubro de 2022, ser\u00e1 a sinodalidade, com o tema: \u201cPara uma Igreja Sinodal: Comunh\u00e3o, Participa\u00e7\u00e3o e Miss\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>Site Franciscanos<\/strong> <em>&#8211; H\u00e1 espa\u00e7os para uma incorpora\u00e7\u00e3o muito maior de mulheres na governan\u00e7a da Igreja?<\/em><\/p>\n<p><strong>Frei Sandro<\/strong> &#8211; Certamente temos ainda muito em que avan\u00e7ar na Igreja em rela\u00e7\u00e3o ao protagonismo das mulheres. Papa Francisco tamb\u00e9m est\u00e1 dando passos importantes nesta dire\u00e7\u00e3o, com a nomea\u00e7\u00e3o de mulheres para \u00f3rg\u00e3os importantes na C\u00faria, convocando-as a participarem ativamente de S\u00ednodos, e tamb\u00e9m incentivando o debate sobre o diaconato feminino. Em outubro de 2020, M\u00eas das Miss\u00f5es, o papa colocou, como inten\u00e7\u00e3o, rezar por uma maior integra\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is leigos, especialmente as mulheres, nos \u00f3rg\u00e3os de governo da Igreja: \u201cDevemos promover a integra\u00e7\u00e3o das mulheres em lugares onde s\u00e3o tomadas decis\u00f5es importantes\u201d. Mas ainda h\u00e1 um longo e \u00e1rduo caminho a ser percorrido. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas as mulheres alcan\u00e7aram uma grande emancipa\u00e7\u00e3o na sociedade civil, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 igualdade de sexos, direitos em geral, acesso \u00e0 forma\u00e7\u00e3o intelectual, a \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o profissional. Na Igreja, ao contr\u00e1rio, o estatuto da mulher n\u00e3o avan\u00e7ou muito. Se por um lado \u00e9 positivo o fato de uma inclus\u00e3o cada vez maior em \u00f3rg\u00e3os de governo na C\u00faria, por outro lado, na \u201coutra ponta da corda\u201d, muita coisa ainda precisa avan\u00e7ar. Nas dioceses e nas par\u00f3quias, onde as mulheres s\u00e3o a imensa maioria entre fi\u00e9is e colaboradoras, estas ocupam muito pouco espa\u00e7o de decis\u00e3o e lideran\u00e7a. O Papa n\u00e3o pode interferir diretamente nestas inst\u00e2ncias, e aqui esbarramos, de novo, na \u201cpraga\u201d do clericalismo. Esta \u00e9 uma luta que est\u00e1 apenas come\u00e7ando, mas as indica\u00e7\u00f5es do Papa s\u00e3o claras, tamb\u00e9m para as par\u00f3quias. \u00c9 um caminho de convers\u00e3o, que dever\u00e1 ser percorrido em conjunto, por homens e mulheres: \u201cAs reivindica\u00e7\u00f5es dos leg\u00edtimos direitos das mulheres, a partir da firme convic\u00e7\u00e3o de que homens e mulheres t\u00eam a mesma dignidade, colocam \u00e0 Igreja quest\u00f5es profundas que a desafiam e n\u00e3o se podem iludir superficialmente\u201d (EG 104).<\/p>\n<p><strong>Site Franciscanos<\/strong> <em>&#8211; H\u00e1 uma crise de voca\u00e7\u00f5es na Igreja?<\/em><\/p>\n<p><strong>Frei Sandro<\/strong> &#8211; Quando falamos de \u201ccrise de voca\u00e7\u00f5es\u201d temos que come\u00e7ar distinguindo entre voca\u00e7\u00e3o para o clero secular e para o clero regular (religiosos). Na Europa, as voca\u00e7\u00f5es est\u00e3o diminuindo h\u00e1 muito tempo. No Brasil, embora em algumas dioceses haja um grande n\u00famero de seminaristas, \u00e9 grande a falta de clero em lugares mais pobres, mais distantes, como ficou evidente no S\u00ednodo para a Amaz\u00f4nia, onde muitos crist\u00e3os s\u00e3o privados da Eucaristia. Essa diminui\u00e7\u00e3o deve-se a v\u00e1rios fatores: as r\u00e1pidas mudan\u00e7as na sociedade, nas estruturas familiares, com poucos filhos, a seculariza\u00e7\u00e3o, a diminui\u00e7\u00e3o do n\u00famero de cat\u00f3licos, a dificuldade da transmiss\u00e3o da f\u00e9 \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es, entre outros. Certamente, um elemento de n\u00e3o pouca import\u00e2ncia \u00e9 a dificuldade das novas gera\u00e7\u00f5es em assumir compromissos est\u00e1veis para toda a vida. Acredito que a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o vai mudar. Os tempos s\u00e3o outros. Por mais que demos testemunho de vida, que rezemos pelas voca\u00e7\u00f5es sacerdotais e religiosas, o fato \u00e9 que o mundo segue seu ritmo e o problema da falta de clero s\u00f3 vai se agravar. Desde o Vaticano II tentou-se colocar a quest\u00e3o sobre a mesa, discutindo-se sobre o celibato sacerdotal, sobre a ordena\u00e7\u00e3o dos viri probati, sem nenhum resultado pr\u00e1tico. Papa Francisco incentivou a discuss\u00e3o, suscitou esperan\u00e7as durante o S\u00ednodo para a Amaz\u00f4nia, mas pouco se avan\u00e7ou. A diminui\u00e7\u00e3o de voca\u00e7\u00f5es ao sacerd\u00f3cio e, consequentemente, a diminui\u00e7\u00e3o de padres, vai obrigar a Igreja a rever muitos aspectos de sua teologia, de sua disciplina eclesi\u00e1stica, de sua pastoral e evangeliza\u00e7\u00e3o. As voca\u00e7\u00f5es \u00e0 vida consagrada, masculina e, principalmente feminina, tamb\u00e9m est\u00e3o diminuindo. Os motivos s\u00e3o os mesmos antes elencados. Some-se a esses o surgimento das muitas Comunidades de Vida, com seus v\u00e1rios estilos, muito mais atraentes aos jovens. De qualquer modo, nesta \u201cmudan\u00e7a de \u00e9poca\u201d, a diminui\u00e7\u00e3o num\u00e9rica nos leva a fazer uma autocr\u00edtica, n\u00e3o apenas em rela\u00e7\u00e3o aos religiosos ordenados, mas \u00e0 vida consagrada como tal. Para n\u00f3s, franciscanos, a diminui\u00e7\u00e3o de candidatos aos minist\u00e9rios ordenados pode ser um momento privilegiado para nos ajudar a refletir sobre nossa pr\u00f3pria identidade. Se tivermos candidatos \u00e0 vida laical, mas n\u00e3o tivermos mais \u201cpadres\u201d franciscanos, a Ordem deixar\u00e1 de existir? Francisco n\u00e3o foi padre. E n\u00e3o h\u00e1 certeza de que tenha sido di\u00e1cono. Mas, no momento, praticamente toda nossa evangeliza\u00e7\u00e3o franciscana est\u00e1 orientada a partir dos minist\u00e9rios ordenados. A \u201ccrise de voca\u00e7\u00f5es\u201d pode nos ajudar a avaliar toda nossa forma de evangelizar, mas tamb\u00e9m a nos questionarmos sobre aquilo que de fato nos identifica como seguidores de S\u00e3o Francisco de Assis: \u201cSomos irm\u00e3os menores\u201d.<\/p>\n<p><strong>Site Franciscanos<\/strong> <em>&#8211; Por \u00faltimo, comente uma frase que muito tem a ver com sua miss\u00e3o de ensinar: \u201cO futuro est\u00e1 nas m\u00e3os daqueles que souberem transmitir para as gera\u00e7\u00f5es de amanh\u00e3 raz\u00f5es de viver e de esperar\u201d (Gaudium et Spes , 31).<\/em><\/p>\n<p><strong>Frei Sandro<\/strong> &#8211; Ensinar n\u00e3o \u00e9 apenas transmitir conhecimento, do mesmo modo como n\u00e3o s\u00e3o apenas os professores \u201cformais\u201d que ensinam. Todo aquele que, de alguma forma, conduz algu\u00e9m, sejam os mestres, os pais, as pessoas s\u00e1bias que a vida coloca em nosso caminho, s\u00e3o educadores. Quando se educa por voca\u00e7\u00e3o, com gosto e prazer, transmite-se tamb\u00e9m valores, educa-se para a vida, para a autonomia e a liberdade, permite-se \u00e0 pessoa tornar-se sujeito de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Educar para a esperan\u00e7a \u00e9 indicar caminho, \u00e9 acender \u201cluzes\u201d, despertar para o interesse e a curiosidade pela busca do conhecimento. \u00c9 oferecer raz\u00f5es de viver num mundo que muitas vezes se revela hostil, adverso. Mas ao mesmo tempo \u00e9 instruir para uma esperan\u00e7a baseada em possibilidades concretas de realiza\u00e7\u00e3o. \u00c9 ser otimistas e realistas. O sonho e a esperan\u00e7a se realizam a partir do engajamento, da luta, do empenho concreto por mudan\u00e7as. Francisco de Assis era um homem cheio de esperan\u00e7a, mas n\u00e3o foi ing\u00eanuo nem um sonhador. Seu projeto de vida atraiu pessoas que buscavam uma resposta e um sentido para a exist\u00eancia. E era uma proposta extremamente desafiadora. Francisco despertou arqu\u00e9tipos adormecidos no mais profundo de cada ser humano, em todas as \u00e9pocas da hist\u00f3ria: o desejo de fraternidade, de di\u00e1logo, de respeito, de cortesia, de comunh\u00e3o entre todos os seres criados, de paz e de ternura. No rico patrim\u00f4nio franciscano encontramos uma verdadeira pedagogia, um verdadeiro m\u00e9todo, que colocado em pr\u00e1tica pode conduzir \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma nova humanidade. Como diz o Papa Francisco na Fratelli Tutti, \u201cJuntos se constroem os sonhos\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com Frei Sandro Roberto da Costa<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":231630,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[758],"tags":[17,1230],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Frei Sandro: &quot;A &#039;crise de voca\u00e7\u00f5es&#039; pode nos ajudar a avaliar toda nossa forma de evangelizar&quot; - Not\u00edcias - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/frei-sandro-a-crise-de-vocacoes-pode-nos-ajudar-a-avaliar-toda-nossa-forma-de-evangelizar.html\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Frei Sandro: &quot;A &#039;crise de voca\u00e7\u00f5es&#039; 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