{"id":229521,"date":"2020-11-28T16:03:10","date_gmt":"2020-11-28T19:03:10","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/?p=229521"},"modified":"2020-11-28T16:03:10","modified_gmt":"2020-11-28T19:03:10","slug":"as-sabedorias-de-mario-sergio-cortella","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/as-sabedorias-de-mario-sergio-cortella.html","title":{"rendered":"As sabedorias de Mario Sergio Cortella"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-229522 size-full\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/cortella_01.jpg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"610\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/cortella_01.jpg 1280w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/cortella_01-450x214.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/cortella_01-1024x488.jpg 1024w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/cortella_01-768x366.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/cortella_01-150x71.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><\/p>\n<p><strong>Moacir Beggo<\/strong><\/p>\n<p>O \u00faltimo convidado da Semana de Filosofia Vozes, na sexta-feira \u00e0 noite (28\/11) foi ningu\u00e9m menos do que um dos principais autores da Editora Vozes e um dos maiores escritores do Brasil, tanto que neste encontro ele lan\u00e7ou, virtualmente, o seu 46\u00ba livro: &#8220;Sabedorias para partilhar&#8221;.<\/p>\n<p>Neste encontro, fechado com chave de ouro, como disse Nat\u00e1lia Fran\u00e7a, o professor Cortella foi did\u00e1tico, como sempre, cativante, claro, objetivo e s\u00e1bio. Como fez o supertime da Vozes &#8211; Lu\u00eds Mauro S\u00e1 Martino e \u00c2ngela Salgueiro Marques, Lucas Machado, Viviane Mos\u00e9, Cl\u00f3vis de Barros Filho -, promovendo grandes reflex\u00f5es sobre a arte de viver a vida e seus desafios.<\/p>\n<p>Segundo Cortella, o novo livro, que cabe na palma da m\u00e3o, ganhou o apelido de &#8220;superpoket&#8221; de sua mulher Cl\u00e1udia. &#8220;Fiz uma sele\u00e7\u00e3o de 70 trechos, com dois ou tr\u00eas par\u00e1grafos de alguns dos livros que tenho na Editora Vozes. Esses 70 trechos foram agora agregados nesse livro&#8221;, explicou o fil\u00f3sofo, educador, escritor e palestrante, com mestrado e doutorado em educa\u00e7\u00e3o. Cortella \u00e9 professor titular da PUC-SP e comentarista em r\u00e1dio e TV. Foi secret\u00e1rio municipal de Educa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo (1991-1992).<\/p>\n<p>&#8220;O livro cabe na m\u00e3o e eu gosto dessa ideia. Gostei do colorido. Normalmente, os livros s\u00e3o &#8216;mais s\u00e9rios&#8217; na apresenta\u00e7\u00e3o, mas esse ele ganhou um colorido. Como diz o poeta Thiago de Melo, &#8216;V\u00edv\u00edssimo'&#8221;, disse, elogiando o poeta, algu\u00e9m que contribui imensamente para a nossa literatura. Ele recordou que Thiago de Melo tem um livro chamado &#8220;faz escuro, mas eu canto&#8221;, bem pr\u00f3prio para esse momento que vivemos.<\/p>\n<p>Para Cortella, depois de 32 anos de seu primeiro livro, lan\u00e7ar uma obra agora n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa de lan\u00e7ar o primeiro livro. &#8220;O primeiro livro saiu em 1988, chamado &#8220;Descartes, a paix\u00e3o pela raz\u00e3o&#8221;, que escrevi utilizando a m\u00e1quina de datilografia. E esse livro, agora, 32 anos depois, s\u00f3 tem em ebook, e \u00e9 um livro que me deu um gosto imenso&#8221;, explicou. Segundo ele, a emo\u00e7\u00e3o no primeiro lan\u00e7amento n\u00e3o \u00e9 mesma deste lan\u00e7amento. &#8220;O lan\u00e7amento desse primeiro livro, nunca me esque\u00e7o. Ele aconteceu com a presen\u00e7a de v\u00e1rias pessoas que admiro, que admirava e continuo admirando. Uma pessoa que compareceu ao lan\u00e7amento foi o professor Paulo Freire, ele que foi meu orientador no doutorado&#8221;, recordou.<\/p>\n<p>Referindo-se ao t\u00edtulo, Cortella disse que s\u00f3 a &#8220;partilha&#8221; \u00e9 dele. &#8220;Sabedorias s\u00e3o reflex\u00f5es que v\u00eam de pessoas que menciono, que cito; em boa parte, \u00e9 claro, algumas das minhas. Eu n\u00e3o seria falsamente modesto. \u00c9 uma forma de tolice. Uma das coisas que aprendi com Paulo Freire \u00e9 n\u00e3o fingir mod\u00e9stia. Fingir mod\u00e9stia \u00e9 uma forma hip\u00f3crita de rela\u00e7\u00e3o. Quando algu\u00e9m elogiava Paulo Freire, ele dizia: \u2018Muito obrigado\u2019, em vez de dizer assim: \u2018Bondade sua, que \u00e9 isso!\u2019. Eu aprendi com ele. Claro que tem algumas coisas que posso at\u00e9 hoje chamar de sabedoria. Do meu primeiro livro at\u00e9 agora, fui construindo algumas sabedorias. Pouco a pouco, fui refinando, aprendendo a prestar aten\u00e7\u00e3o. E posso, sim, dizer, sem ser arrogante, sem ter soberba, que algumas sabedorias eu tenho. N\u00e3o tenho todas&#8221;, reconheceu, indicando que uma sabedoria sua \u00e9: &#8216;s\u00f3 \u00e9 um bom ensinante quem for um bom <em>aprendente<\/em>&#8216;. &#8220;Ent\u00e3o, eu continuo querendo aprender&#8221;, enfatiza.<\/p>\n<p>Segundo Cortella, \u00e9 a primeira vez que n\u00e3o estar\u00e1 com o p\u00fablico para lan\u00e7amento do seu livro, mas espera ainda fazer o lan\u00e7amento presencial. Na Vozes, o livro &#8220;Qual \u00e9 a tua obra&#8221; bateu um milh\u00e3o de exemplares e tem trechos selecionados no livro novo. O primeiro livro, contudo, lan\u00e7ado na Vozes se chama &#8220;N\u00e3o espere pelo epit\u00e1fio&#8221;. Depois sa\u00edram mais dois que come\u00e7am pela palavra &#8216;n\u00e3o&#8217;. &#8220;E eu sempre lembro: n\u00e3o \u00e9 &#8216;n\u00e3o&#8217; de nega\u00e7\u00e3o. \u00c9 n\u00e3o de advert\u00eancia, que s\u00e3o: &#8216;N\u00e3o espere pelo epit\u00e1fio&#8217;, &#8216;N\u00e3o nascemos prontos&#8217; e &#8216;N\u00e3o se desespere'&#8221;, explicou.<\/p>\n<p>Cortella contou que tem uma rela\u00e7\u00e3o muito especial com a Vozes, uma editora do in\u00edcio do s\u00e9culo 20, que come\u00e7ou a funcionar num dia que aprecia muito, que \u00e9 o dia 5 de mar\u00e7o. &#8220;Nesse dia nasceu Em\u00edlia, minha m\u00e3e, que \u00e9 a minha primeira leitura. Toda vez que eu lan\u00e7o um livro, eu vou l\u00e1 e passo para ela, que est\u00e1 com 91 anos. Mas a boa coincid\u00eancia \u00e9 que, no dia 5 de mar\u00e7o, \u00e9 o anivers\u00e1rio dela, mas \u00e9 tamb\u00e9m o meu anivers\u00e1rio&#8221;, contou.<\/p>\n<p><strong>DUAS HIST\u00d3RIAS DO CARINHO DOS F\u00c3S<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Eu vou contar duas coisas. Nunca esque\u00e7o que, h\u00e1 uns quatro anos, estava numa cidade do Oeste Catarinense terminando uma palestra &#8211; h\u00e1 v\u00e1rias pessoas da Editora Vozes que s\u00e3o do Estado de Santa Catarina, eu nasci no Paran\u00e1 mas moro na capital paulista h\u00e1 53 anos &#8211; e, nesta cidade catarinense, tinha duas mil pessoas nessa palestra e, ao final, na sess\u00e3o de aut\u00f3grafos e fotos, vi na fila uma senhora mais simples, que notei pelo modo da vestimenta e pelo modo de aproxima\u00e7\u00e3o &#8211; n\u00e3o \u00e9 simpl\u00f3ria, mas simples. Quando ela apertou minha m\u00e3o, senti muitos calos na m\u00e3o dela. Dava para perceber que era um calo do trabalho. Eu disse: &#8216;Que bom que a senhora veio! Como a senhora se chama?&#8217; Ela disse o nome dela, eu perguntei: \u2018o que a sra. faz?\u2019 Ela disse: \u2018eu sou agricultora\u2019. E ela estava com um livro meu da Vozes, exatamente &#8220;N\u00e3o se desespere&#8221;. Eu falei assim: &#8216;A sra. \u00e9 agricultora, que bom que veio \u00e0 palestra&#8217;. Ela falou: &#8216;Eu passo o dia inteiro trabalhando, levanto \u00e0s 4 horas da manh\u00e3, vou cuidar do gado, alimentar a cria\u00e7\u00e3o, como se diz, e quando eu chego em casa, ali pelas quatro horas, depois que eu janto, eu sento e fico lendo livros de filosofia. E eu tenho alguns livros do sr. e eu queria ler esse tamb\u00e9m. Nat\u00e1lia, a minha emo\u00e7\u00e3o naquele momento foi imensa porque \u00e9 a \u00fanica maneira de eu chegar \u00e0s pessoas desse modo&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Hoje, faz 257 dias de quase isolamento completo, mas eu saio protegido de m\u00e1scara. Nesta semana, eu fui ao dentista e ao voltar, como o dentista fica a dois quarteir\u00f5es de onde eu moro, estava com dois exemplares no bolso, porque tinha levado um exemplar para o dentista e outro para eventualmente outra pessoa que estivesse ali com ele. Estava voltando e uma senhora, que varria a cal\u00e7ada defronte ao pr\u00e9dio da esquina da rua onde eu moro, falou assim: &#8216;Professor Cortella, que bom ver o sr! Como eu n\u00e3o o vejo faz tempo, fiquei preocupada!&#8217; Eu disse: &#8216;que bom!&#8217;. &#8216;Eu gosto muito dos seus livros. Eu li que o sr. vai lan\u00e7ar um livro numa<em> live<\/em> e quando tiver \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o eu vou busc\u00e1-lo&#8217;. Eu falei: &#8216;N\u00e3o seja por isso&#8217;. Tirei o livro do bolso e entreguei para ela. Ela ficou numa alegria e minha alegria foi bem maior que ela teve&#8221;.<\/p>\n<p><strong>EU SOU INSUBSTITU\u00cdVEL<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Eu at\u00e9 escrevi na pensata, no trecho de sabedoria de n\u00ba 14, chamado &#8220;ningu\u00e9m \u00e9 insubstitu\u00edvel?&#8221;. \u00c9 uma pergunta. Eu vou ler: &#8220;Tem uma frase que circula por a\u00ed que diz que ningu\u00e9m \u00e9 insubstitu\u00edvel. Isso \u00e9 bobagem. Ningu\u00e9m \u00e9 substitu\u00edvel. O que pode ser substitu\u00eddo \u00e9 o que eu fa\u00e7o. Eu, Cortella, antes de existir, o universo n\u00e3o era assim. E quando eu deixar de ser, ele n\u00e3o ser\u00e1 mais assim. Eu sou, voc\u00ea \u00e9, ele \u00e9, ela \u00e9 parte essencial desse mist\u00e9rio. Ningu\u00e9m \u00e9 substitu\u00edvel. O que \u00e9 substitu\u00edvel \u00e9 aquilo que fa\u00e7o aqui, o que algu\u00e9m faz numa usina, numa universidade, no hospital, em casa. Outro aprende e faz. Agora, eu sou insubstitu\u00edvel e eu n\u00e3o queria deixar de ser, mas s\u00f3 tem uma maneira de continuar. Continuar nos outros, com fraternidade. A \u00fanica maneira de continuar na vida \u00e9 repartir vidas. Se voc\u00ea guarda vida consigo, ela consigo vai&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;E eu lembro sempre isso. Ningu\u00e9m \u00e9 insubstitu\u00edvel de maneira alguma. O que pode ser substitu\u00eddo \u00e9 o que eu fa\u00e7o, o que voc\u00ea faz. O que uma pessoa faz, outra pessoa pode aprender a fazer, ou pode buscar fazer. Talvez eu n\u00e3o consigo fazer como outra pessoa faz, mas eu posso procurar fazer. Nesse sentido, fun\u00e7\u00f5es s\u00e3o substitu\u00edveis, pessoas n\u00e3o. Antes de eu existir, o universo n\u00e3o era como ele \u00e9: com a minha presen\u00e7a. Quando eu deixar de ser, ele n\u00e3o ser\u00e1 mais com a minha aus\u00eancia. Isso vale para qualquer pessoa. N\u00e3o s\u00f3 para mim.\u00a0 Afinal, eu sou um dos arranjos da vida. E antes de eu ser, o universo n\u00e3o era como \u00e9 comigo nele. Quando deixar de s\u00ea-lo, ele n\u00e3o ser\u00e1 mais. Vou usar uma frase caipira. Eu sou caipira de Londrina e vou faz\u00ea-la assim: &#8220;Qui nem eu, s\u00f3 eu&#8221;. Mas agora vem uma coisa que trato numa outra das reflex\u00f5es. &#8220;Qui nem que eu, s\u00f3 eu&#8221;, mas cuidado, eu sou \u00fanico, mas n\u00e3o sou o \u00fanico. Olha s\u00f3! Eu sou \u00fanico no universo, mas eu n\u00e3o sou o \u00fanico. Isto \u00e9, n\u00e3o s\u00f3 h\u00e1 outras pessoas como h\u00e1 outras formas de vida. Aquilo que se abriga no nosso planeta, que Leonardo Boff, com muita clareza chama de &#8220;a nossa casa comum&#8221;, que Frei Beto fala da ecologia interior e n\u00e3o s\u00f3 da ecologia exterior, funciona imensamente para eu saber disso: n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m como eu, mas eu n\u00e3o sou a \u00fanica pessoa que tem direito \u00e0 dignidade, \u00e0 vida, e por isso eu sou insubstitu\u00edvel. O que pode substituir \u00e9 o que eu fa\u00e7o. Mas o fato de eu ser \u00fanico e voc\u00ea ser \u00fanica, n\u00e3o significa que voc\u00ea \u00e9 a \u00fanica e eu sou o \u00fanico. Vida \u00e9 vida.&#8221;<\/p>\n<p><strong>SER HUMANO \u00c9 SER JUNTO<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Ser humano \u00e9 ser junto&#8221;. S\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel ultrapassar a tempestade, o horror, se n\u00f3s tivermos solidariedade e eu tenho dito e continuarei a dizer. A palavra solidariedade n\u00e3o vem de solid\u00e3o, mas vem de <strong>s\u00f3lido.<\/strong> E, por isso, solidariedade \u00e9 quando voc\u00ea e eu procuramos dar <strong>solidez<\/strong> \u00e0 vida de todas as pessoas e de cada pessoa.<\/p>\n<p>A Editora Vozes publicou recentemente o livro &#8216;O Pequeno Princ\u00edpe&#8217;, uma das vers\u00f5es de Saint Exupery, o franc\u00eas que morreu em 1944, dez anos antes de eu nascer. Eu nasci em 1954. Saint Exupery morreu dentro de um avi\u00e3o. Ele era piloto, al\u00e9m de escritor. Estava no Canal da Mancha vigiando as tropas nazistas. Estava numa miss\u00e3o contra os homicidas. O avi\u00e3o dele foi abatido e ele faleceu. Mas ele, al\u00e9m de escrever &#8216;O Pequeno Princ\u00edpe&#8217;, que \u00e9 uma obra inacredit\u00e1vel de beleza, de import\u00e2ncia, ele tem uma express\u00e3o que serve para essa ideia \u2018do ser humano ser junto\u2019. Ainda antes que a pandemia chegasse no Brasil, porque o primeiro caso se manifesta no dia 11 de fevereiro, eu e minha equipe colocamos do lado de fora, na porta de entrada, um recipiente com \u00e1lcool em gel e um aviso para qualquer pessoa que ali chegasse, usasse e se protegesse. Ainda n\u00e3o havia casos aqui mas havia possibilidade como, infelizmente, aconteceu. E para motivar internamente e externamente a pessoa a fazer o uso do \u00e1lcool em gel e tomar cautela, n\u00f3s colocamos junto uma frase que tem a ver com essa quest\u00e3o e que \u00e9 do Saint Exupery, que diz: &#8216;Cada pessoa \u00e9 respons\u00e1vel por todas as pessoas&#8217;. Ser humano \u00e9 ser junto. N\u00f3s s\u00f3 conseguimos resistir \u00e0quilo que nos amea\u00e7a, \u00e0quilo que nos atropela, juntas e juntos, colaborando, cooperando. S\u00f3 a ci\u00eancia colaborativa poder\u00e1 encontrar, com mais velocidade, uma vacina. Uma ci\u00eancia absolutamente exclusivista, isolada, n\u00e3o teria como acelerar um processo que normalmente demora uma d\u00e9cada. S\u00f3 a colabora\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao que sofre e sofre mais do que eu, mais do que voc\u00ea. Eu tenho desconforto nesses 257 dias, tenho dificuldade para sair, mas n\u00e3o tenho dificuldade para prover as minhas coisas, para fazer com que, embora eu n\u00e3o possa ir, por exemplo, at\u00e9 o mercado, o mercado pode vir at\u00e9 mim, seja porque eu tenho tecnologia, seja porque eu tenho cr\u00e9dito. Portanto, eu n\u00e3o posso olhar isso e dizer: &#8216;ah, tudo bem, eu me virando, o resto o que posso fazer? N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 porque estou com a vida menos &#8216;agoniada&#8217; que eu vou deixar tamb\u00e9m as outras pessoas. H\u00e1 um grande pensador latino, chamado Ter\u00eancio e ele dizia: &#8216;Tudo o que \u00e9 humano n\u00e3o me \u00e9 estranho&#8217;. E eu n\u00e3o poderia deixar de colocar nesse &#8220;superpocket&#8221; uma ideia como essa, que \u00e9 a possibilidade de nos juntarmos. Ali\u00e1s, em julho de 2019, foi a \u00faltima possibilidade de atividade fora do Brasil que pude ter. Eu estava com Cl\u00e1udia na It\u00e1lia. E a\u00ed pude voltar \u00e0 Capela Sistina, na Cidade do Vaticano, e contemplar talvez a express\u00e3o mais n\u00edtida do que estamos falando. Na arte que fez Michelangelo Buonarotti, que \u00e9 a imagem da cria\u00e7\u00e3o, o dedo divino quase encosta no dedo ad\u00e2mico. E essa \u00e9 a ideia da vida. A ideia de que voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 isolado, sozinho e perdido. H\u00e1 outras for\u00e7as que podem nos auxiliar. Retirando essa imagem que \u00e9 uma for\u00e7a divina, no plano humano, a outra pessoa \u00e9 o dedinho que tem que vir para se encostar em n\u00f3s. Quem trabalhou isso de modo maravilhoso e eu lembro isso no livro \u00e9 Steven Spielberg no filme &#8220;ET&#8221;, que estreou em 1982. Aten\u00e7\u00e3o, na cidade de S\u00e3o Paulo, estreou no dia de Natal, e eu pedi licen\u00e7a para a m\u00e3e de meus dois filhos para que ela me deixasse assistir a estreia e a\u00ed ela ficou no cuidado. Eu estava no cinema da avenida S\u00e3o Jo\u00e3o, em S\u00e3o Paulo, vendo a cena mais expressiva que Spielberg, que \u00e9 judeu, e que, portanto, tem um v\u00ednculo lateral em rela\u00e7\u00e3o ao cristianismo romano. O que \u00e9 o de fora de mim? \u00c9 a outra pessoa, seja ela daqui, seja ela de outro lugar, inclusive de outro planeta&#8221;.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>QUAL O SENTIDO DA VIDA? <\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Eu n\u00e3o trato do sentido da vida como uma explica\u00e7\u00e3o, mas como a minha reflex\u00e3o. De maneira geral, o sentido da vida \u00e9 n\u00e3o desperdi\u00e7a-la, n\u00e3o jog\u00e1-la fora, n\u00e3o descart\u00e1-la. A vida \u00e9 um mist\u00e9rio. Eu n\u00e3o sei por que estou aqui. C\u00e1 estou, n\u00e3o gostaria de partir de modo precoce, mas eu fa\u00e7o parte desse mist\u00e9rio. Alessandra faz parte desse mist\u00e9rio. \u00c9 uma d\u00e1diva a vida. \u00c9 um dom para n\u00f3s. Ela nos foi entregue por isso tem que se cuidar direitinho dela.<\/p>\n<p>O dia 27 de novembro, no ano oitavo antes de Cristo, morreu um dos grandes escritores e poeta do passado: Hor\u00e1cio. Ele tem um livro cl\u00e1ssico do mundo da literatura latina, &#8220;Odes&#8221;, onde Hor\u00e1cio escreve algo que as pessoas repetem at\u00e9 hoje. Ele escreve em latim: &#8220;Carpe Diem&#8221;. As pessoas viram isso em v\u00e1rios lugares, viram isso no maravilhoso filme &#8220;Sociedade dos Poetas Mortos&#8221;, viram isso em inscri\u00e7\u00f5es e muita gente usa &#8220;Carpe Diem&#8221; no sentido equivocado, traduzindo como &#8220;aproveite o dia&#8221;. Algumas pessoas acham que a melhor maneira de viver \u00e9 esgotar-se no dia, isto \u00e9 aproveitar a vida agora, nem pensar no que foi, nem no que vir\u00e1. Eu tenho que pensar que a minha vida \u00e9 um processo no qual eu vou construindo sentidos, vou construindo raz\u00f5es. Mas a tradu\u00e7\u00e3o mais correta n\u00e3o \u00e9 aproveite o dia ou como se escreve em ingl\u00eas, &#8220;seize the day&#8221;,\u00a0 mas &#8220;acolha o dia&#8221;. Isto \u00e9, n\u00e3o deixe passar o momento da colheita, n\u00e3o deixe esterilizar, dessertificar o seu dia. Cada dia tem que ser colhido. E o que \u00e9 a minha vida? \u00c9 a jun\u00e7\u00e3o de todos os meus dias. E todos os dias da minha vida, portando, aquilo que \u00e9 o meu tempo de vida, eu preciso colher a vida e n\u00e3o deixar que ela se torne est\u00e9ril. Nesta hora, &#8220;Carpe Diem&#8221; tem mais da minha percep\u00e7\u00e3o, n\u00e3o desperdice a vida, n\u00e3o deixe pass\u00e1-la com tolices, coisas pequenas, com miudezas que s\u00e3o estranhas a algu\u00e9m que, sabendo-se mortal, n\u00e3o pode desperdi\u00e7ar a vida. Eu n\u00e3o tenho preocupa\u00e7\u00e3o com a minha partida. Eu tenho preocupa\u00e7\u00e3o com o meu caminho at\u00e9 a partida, para esse caminho n\u00e3o ser torto, pequenino, in\u00fatil. Tem uma frase que circula na internet como se fosse de minha autoria. Quem dera fosse eu o autor dessa frase. E essa frase foi publicada no livro &#8216;Qual \u00e9 a tua obra&#8217;. A frase que l\u00e1 est\u00e1 \u00e9 do Benjamin Disraeli, quando ele dizia: &#8216;A vida \u00e9 muito curta para ser pequena&#8217;. Por isso, qual \u00e9 o sentido da Vida? N\u00e3o apequen\u00e1-la, n\u00e3o torn\u00e1-la banal, f\u00fatil, in\u00fatil, descart\u00e1vel. Eu n\u00e3o posso esquecer que o sentido da vida \u00e9 cuidar da pr\u00f3pria vida e das outras vidas que precisam ser cuidadas e a ideia de sentido \u00e9 fazer que a vida tenha validade. No dia que eu me for, eu quero que as pessoas pensem, n\u00e3o precisa me dizer: &#8216;Valeu, Cortella!&#8217;\u00a0 E esse &#8216;Valeu, Cortella&#8217;, como sendo Cortella teve validade enquanto existiu. Que bom que voc\u00ea existiu! Voc\u00ea partiu, mas que bom que existiu. Assim \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o do sentido da vida.<\/p>\n<p><strong>SOLITUDE<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>&#8220;A ideia de solitude est\u00e1 na percep\u00e7\u00e3o de ficar s\u00f3. E ficar s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 estar sozinho ou sozinha. Por exemplo, em v\u00e1rios momentos eu estou s\u00f3, mas n\u00e3o estou solit\u00e1rio. Eu estou sozinho, para lembrar melhor, mas n\u00e3o estou solit\u00e1rio. Uma pessoa solit\u00e1ria \u00e9 aquela que n\u00e3o conta com outras pessoas. Uma pessoa sozinha \u00e9 aquela que n\u00e3o est\u00e1 junto a outras pessoas. H\u00e1 v\u00e1rios momentos na vida que eu quero ficar sozinho. H\u00e1 momentos em que precisa ficar sozinho, mas n\u00e3o solit\u00e1rio. E nesse sentido eu aprecio a no\u00e7\u00e3o de <em>solitude,<\/em> entendido a\u00ed como a capacidade de recolhimento, para que eu possa abstrair um pouco o ru\u00eddo que est\u00e1 \u00e0 minha volta e mergulhar dentro. Eu, quando tinha 18 anos de idade, decidi fazer filosofia e decidi entrar numa ordem religiosa, chamada Ordem Carmelitana Descal\u00e7a. Durante 3 anos, fiquei na clausura. Sa\u00eda s\u00f3 para ir \u00e0 universidade e voltava. Ao final do terceiro ano, percebi que n\u00e3o queria seguir a vida religiosa, queria ir para a \u00e1rea de doc\u00eancia e comunica\u00e7\u00e3o e foi o que fiz. Mas esses tr\u00eas anos que eu vivi num Convento v\u00e1rias coisas aprendi. Uma delas foi exatamente essa, que estar sozinho n\u00e3o \u00e9 ficar solit\u00e1rio. E que faz bem. Num convento, numa clausura, voc\u00ea tem tempos grandes de sil\u00eancio programados, de sil\u00eancio estruturado para poder pensar-se e para poder pensar naquilo que est\u00e1 em volta. Sabe, uma das coisas que sinto falta nesse tempo pand\u00eamico? \u00c9 uma coisa banal, mas ela serve: das viagens de avi\u00e3o. N\u00e3o pelas viagens em si, pelos deslocamentos. Isso tamb\u00e9m sinto. Mas um dos poucos momentos em que eu conseguia ficar mais quieto era numa viagem. Eu sou uma pessoa mais conhecida por conta das atividades no r\u00e1dio e na TV. Sou uma pessoa p\u00fablica e, se eu estou num espa\u00e7o mais p\u00fablico, muitas pessoas &#8211; para minha alegria &#8211; me abordam, tiram uma foto. Claro que nem todo mundo, mas algumas pessoas fazem. Mas dentro do avi\u00e3o, no meu canto, com um fone de ouvido, consigo ver naquele tempo de viagem uma quietude que ajuda bastante&#8221;.<\/p>\n<p><strong>SENTIDO DA VIDA DURANTE E P\u00d3S-PANDEMIA<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>&#8220;Eu gosto de citar pessoas. Quem j\u00e1 viu o meu Instagram &#8211; tem cinco milh\u00f5es de seguidores -, a cada dois ou tr\u00eas dias coloco sempre uma<em> selfie<\/em> com um cartazinho. Chama cartazinho eventual com um pensamento para a vida e uma d\u00favida met\u00f3dica. Eu fa\u00e7o normalmente em rela\u00e7\u00e3o a algu\u00e9m que nasceu ou faleceu naquele dia. Eu escrevo a m\u00e3o &#8220;ser\u00e1?&#8221; para a pessoa pensar. Tem gente que diz assim: &#8216;Por que n\u00e3o diz o que pensa em vez de escrever ser\u00e1?&#8217;\u00a0 Eu digo o que penso nos programas de r\u00e1dio, nas entrevistas e nos meus livros. Ali \u00e9 para refletir. Eu estou dizendo isso porque gosto de citar pessoas porque isso d\u00e1 densidade a umas situa\u00e7\u00f5es. Claro, evitando o excesso. Mas algumas coisas foram benditas que n\u00e3o quero que fiquem malditas. E uma coisa bendita sobre isso \u00e9 a frase de um fil\u00f3sofo americano chamado\u00a0 Ralph Waldo Emerson, que nasceu em 1803, portanto no in\u00edcio do s\u00e9culo 19. \u00c9merson diz, n\u00edtido e reto, e que vale na pandemia e ap\u00f3s ela: &#8220;Torna-te necess\u00e1rio a algu\u00e9m&#8221;. Se voc\u00ea e eu estamos &#8216;agoniados&#8217; porque n\u00e3o queremos que nossa vida seja descart\u00e1vel, \u00e9 preciso que a gente se torne necess\u00e1rio e necess\u00e1ria para outra pessoa.<\/p>\n<p>Vida \u00e9 partilha. Por exemplo, o Natal. Agora neste Natal ele ser\u00e1 feito de outro modo. N\u00e3o ser\u00e1 o \u00faltimo e mesmo que, para algumas pessoas e para um de n\u00f3s, seja, mas ele n\u00e3o desaparecer\u00e1. O esp\u00edrito de jun\u00e7\u00e3o, de fraternidade e a inspira\u00e7\u00e3o trazida por Jesus de Nazar\u00e9. \u00c9 uma festa muito bonita. Tanto faz se a pessoa tem religi\u00e3o ou n\u00e3o. E se tendo \u00e9 a religi\u00e3o crist\u00e3. Porque lembra o nascimento de uma pessoa que veio falar sobre igualdade, fraternidade, caridade, amor ao pr\u00f3ximo e a\u00ed tanto faz se voc\u00ea tem religi\u00e3o. A mensagem \u00e9 de uma humanidade brutal. Tem gente que tem uma ceia t\u00e3o pobre e a \u00fanica coisa que ela tem s\u00e3o muitos frascos de bebida, a pessoa n\u00e3o tem com quem partilhar; h\u00e1 pessoas t\u00e3o pobres que a \u00fanica coisa que ela tinha era muito dinheiro. Olha s\u00f3, eu n\u00e3o sou tonto de dizer que ter bens materiais \u00e9 uma coisa que n\u00e3o tenha import\u00e2ncia. Ela ajuda a garantir a exist\u00eancia. Mas fartura e abund\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 desperd\u00edcio e nem inutilidade de bens. Nesse sentido, volto ao ponto como dar sentido quando h\u00e1 tanta dificuldade nesse momento pand\u00eamico: &#8216;Torna-te necess\u00e1rio a algu\u00e9m&#8217;. Quando a gente se torna necess\u00e1rio a algu\u00e9m, aquela agonia da\u00a0 inutilidade sai.<\/p>\n<p><strong>CAMINHO A SEGUIR<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>&#8220;Olha o pensamento 37 das sabedorias, chama &#8216;sinal de intelig\u00eancia&#8217; e marca um pouco a nossa possibilidade de fazer um planejamento das nossas coisas que permitam alterar. &#8220;Essa \u00e9 uma regra b\u00e1sica da vida. Quando voc\u00ea est\u00e1 no fundo do po\u00e7o, a primeira coisa que precisa fazer para sair de l\u00e1 \u00e9 parar de cavar. Isso significa que a p\u00e1 que continua cavando \u00e9 o n\u00e3o ao saber. Fingir que sei. Fingir pra quem? N\u00e3o existe o autoengano&#8221;.<\/p>\n<p>Se eu me defronto e se eu colido com situa\u00e7\u00f5es que levam \u00e0 altera\u00e7\u00e3o da rota, eu preciso mudar essa rota. P\u00fablio Siro, que \u00e9 um grande pensador latino, dizia: um plano que n\u00e3o pode ser mudado n\u00e3o presta. Nesse sentido, o sentido e a vida v\u00e3o sendo constru\u00eddos e, \u00e9 claro, que vez ou outra a gente muda de rumo. \u00c9 claro que as colis\u00f5es, as altera\u00e7\u00f5es, as experi\u00eancias, como a gente diz no interior, o tranco que voc\u00ea toma &#8211; 2020 foi um ano de tranco -, ali\u00e1s, de umas semanas para c\u00e1, eu venho usando uma outra express\u00e3o, acabei tendo essa percep\u00e7\u00e3o quando fazia uma palestra virtual para pessoas que estavam na Para\u00edba. Para a maioria do povo do Nordeste e Norte, a rede n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo s\u00f3 de descanso, mas de sossego, sentar numa rede, ficar balan\u00e7ando. Mas para muitas pessoas, ele \u00e9 o leito, o local do descanso. Sabe o que aconteceu com a gente em 2020? A gente tomou um tombo de rede. Quem j\u00e1 tomou um tombo de rede sabe o que estou dizendo. Voc\u00ea est\u00e1 ali repousando, distra\u00eddo, no ar suspenso, e de repente, a queda. O susto do tombo de rede \u00e9 tamanho porque voc\u00ea n\u00e3o imaginava, n\u00e3o estava aguardando que aquilo acontecesse, al\u00e9m do risco do tombo de rede que \u00e9 o de voc\u00ea bater o final da coluna vertebral, o c\u00f3ccix, que demora para cicatrizar depois. Mas ainda assim, esse tombo de rede, sem d\u00favida, para quem tem sinal de intelig\u00eancia n\u00e3o ser\u00e1 capaz de esquecer as li\u00e7\u00f5es que a gente vai ter: solidariedade, capacidade de inventividade, recrea\u00e7\u00e3o, n\u00e3o fingir que as coisas n\u00e3o est\u00e3o acontecendo, n\u00e3o descuidar, ser capaz de ir atr\u00e1s, buscar, fazer isso de modo que demonstre a nossa for\u00e7a e a nossa capacidade, tamb\u00e9m de sabedoria. Nessa hora, os trancos e barrancos nos oferecem, para quem \u00e9 capaz de pensar e meditar, algumas dessas coisas que nos fazem caminhar, mesmo que seja outra rota, mas de modo mais seguro&#8221;.<\/p>\n<p><strong>FELICIDADE<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>&#8220;Ao escrever sobre felicidade, no livro com Leonardo Boff e Frei Beto, n\u00f3s colocamos um ponto de interroga\u00e7\u00e3o, porque a frase &#8220;Felicidade foi se embora&#8221;, do Lupic\u00ednio Rodrigues, \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o. Uma das coisas que escrevi e depois desenvolvi \u00e9 que a felicidade n\u00e3o \u00e9 forma cont\u00ednua de vida. Ela \u00e9 uma circunst\u00e2ncia, uma ocasi\u00e3o, ela tem um n\u00edvel de volubilidade, isto \u00e9, ela muda o seu tempo e sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sou feliz o tempo todo, mas tamb\u00e9m n\u00e3o sou infeliz o tempo todo. Isso significa que a felicidade, que \u00e9 uma percep\u00e7\u00e3o de vibra\u00e7\u00e3o da vida, ela \u00e9 ocasional, ela \u00e9 circunstancial, ela n\u00e3o vem necessariamente de modo cont\u00ednuo, mas ela n\u00e3o se ausenta de modo cont\u00ednuo. Ser\u00e1 que \u00e9 poss\u00edvel ser feliz em meio \u00e0 pandemia? E uma das coisas boas \u00e9 lembrar que a felicidade n\u00e3o \u00e9 um estado cont\u00ednuo, mas n\u00e3o se ausenta de modo cont\u00ednuo. \u00c9 poss\u00edvel ser feliz durante uma pandemia? Claro. O tempo todo, n\u00e3o! Uma pessoa que diz que \u00e9 feliz o tempo todo, ela n\u00e3o \u00e9 feliz, mas \u00e9 tonta. Afinal de contas, tem tanta coisa dif\u00edcil, encrencada a nossa volta, que ser feliz de modo cont\u00ednuo, \u00e9 n\u00e3o estar entendendo o que est\u00e1 acontecendo. Mas n\u00e3o d\u00e1 para ser infeliz o tempo todo. Porque h\u00e1 coisas que fazem a vida vibrar. Nesta hora, quando sou feliz, preciso lembrar que aquilo \u00e9 passageiro mas enquanto est\u00e1 comigo, tenho que cuidar, abra\u00e7ar e afagar. N\u00e3o deixar de aproveitar. Colher a vida. As pessoas mais idosas t\u00eam uma sabedoria antiga, como diz D. Emilia, minha m\u00e3e, de 91 anos de idade. &#8216;N\u00e3o h\u00e1 bem que sempre dure nem mal que nunca se acabe&#8217;. Podemos inverter. Tanto faz. O que vale \u00e9 a gente perceber que na nossa exist\u00eancia, as circunst\u00e2ncias que s\u00e3o horrorosas, elas n\u00e3o s\u00e3o continuamente horrorosas e exclusivamente horrorosas. E as situa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o maravilhosas, n\u00e3o s\u00e3o continuamente maravilhosas e exclusivamente maravilhosas. \u00c9 nesses <em>entremeios<\/em>, para usar uma linguagem dos mineiros, \u00e9 nesses <em>entremeios<\/em>, \u00e9 nesses <em>entretantos <\/em>que a vida vai se tecendo e a felicidade, embora n\u00e3o esteja presente a todo momento, h\u00e1 momentos que uma hora ela pode vir e nessa hora a gente gruda e aproveita. Quando a Vozes lan\u00e7ou &#8220;Sabedorias para partilhar&#8221;, eu fiquei feliz e estou feliz at\u00e9 agora. T\u00f4 feliz o tempo todo? Claro que n\u00e3o. Tem dificuldades, eu tenho que ter no\u00e7\u00e3o do que acontece, mas n\u00e3o \u00e9 algo que eu queira: nem fingir que nada de ruim \u00e9 poss\u00edvel e nem imaginar que nada de bom seja imposs\u00edvel. A\u00ed, sim, nesses entremeios a gente segue&#8221;.<\/p>\n<p><strong>A LEMBRAN\u00c7A<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Eu fui alfabetizado aos 13 anos na cidade de Londrina, em 1960, onde eu nasci, pela professora D. Mercedes. E eu conto isso que n\u00e3o tem nada de sobrenaturalidade, esoterismo. Cada vez que vou autografar um livro, cada vez que eu escrevo &#8216;MS Cortella 2020&#8217;, eu sinto na minha m\u00e3o a m\u00e3o de D. Mercedes, aquela mulher que, como tantas outras pessoas, me ajudou a ler e a escrever, alfabetizar e ensinar. E ela, quando ensinava, colava a sua m\u00e3o sobre a minha e ajudava a escrever. A m\u00e3o de D. Mercedes est\u00e1 comigo em todos os livros que lan\u00e7o, em todos os livros que escrevo. E todas as outras m\u00e3os que permitam, e que permitem, que a gente seja capaz de n\u00e3o se sentir largado, abandonado. E quando eu digo que esse livro cabe na palma da m\u00e3o, eu lembro n\u00e3o s\u00f3 da minha m\u00e3o, mas da m\u00e3o de D. Mercedes&#8221;.<\/p>\n<hr \/>\n<h3><strong>CURSO ON-LINE<\/strong><\/h3>\n<p>Quem tiver interessado, Mario Sergio tem um curso <em>on-line<\/em> a partir de um livro publicado na Vozes, cujo t\u00edtulo \u00e9 &#8220;Filosofia, e n\u00f3s com isso?&#8221;. E o curso, em dez li\u00e7\u00f5es virtuais &#8211;\u00a0 pode ser encontrado no site https:\/\/cursodocortella.com.br.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Semana de Filosofia Vozes<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":229523,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[238],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>As sabedorias de Mario Sergio Cortella - Not\u00edcias - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/as-sabedorias-de-mario-sergio-cortella.html\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"As sabedorias de Mario Sergio Cortella - 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