{"id":222786,"date":"2020-03-29T07:17:04","date_gmt":"2020-03-29T10:17:04","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/?p=222786"},"modified":"2020-04-02T01:09:20","modified_gmt":"2020-04-02T04:09:20","slug":"a-forca-divina-contida-na-cruz-de-cristo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/a-forca-divina-contida-na-cruz-de-cristo.html","title":{"rendered":"A for\u00e7a divina contida na cruz de Cristo"},"content":{"rendered":"<div><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-222787\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/cruz.jpg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"837\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/cruz.jpg 1280w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/cruz-450x294.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/cruz-1024x670.jpg 1024w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/cruz-768x502.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/cruz-150x98.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><\/div>\n<div class=\"title__separator\"><\/div>\n<div class=\"article__text\">\n<p>Texto integral da Terceira Prega\u00e7\u00e3o <strong>de Frei Raniero Cantalamessa<\/strong>, para a Quaresma de 2020. O tema da reflex\u00e3o desta sexta-feira (27) : &#8220;Perto da Cruz de Jesus estava Maria sua m\u00e3e&#8221;.<\/p>\n<p><b>Maria no Calv\u00e1rio<\/b><\/p>\n<p>A palavra de Deus que nos acompanha em nossa medita\u00e7\u00e3o \u00e9 a de Jo\u00e3o, aquele que \u201cviu e que, por isso, sabe que fala a verdade\u201d (Jo 19,35):<\/p>\n<p><i>Perto da cruz de Jesus estavam de p\u00e9 a sua m\u00e3e, a irm\u00e3 de sua m\u00e3e, Maria de Cl\u00e9ofas e Maria Madalena. Jesus, ao ver sua m\u00e3e e, ao lado dela, o disc\u00edpulo que ele amava, disse a sua m\u00e3e: \u2018Mulher, este \u00e9 o teu filho\u2019. Depois disse ao disc\u00edpulo: \u2018Esta \u00e9 a tua m\u00e3e\u2019. Daquela hora em diante, o disc\u00edpulo a acolheu consigo<\/i>\u00a0(Jo 19,25-27).<\/p>\n<p>Desse texto, t\u00e3o denso, vamos considerar agora s\u00f3 a narrativa, deixando para a pr\u00f3xima vez a medita\u00e7\u00e3o do restante da passagem evang\u00e9lica que cont\u00e9m as palavras de Jesus.<\/p>\n<p>Se, no Calv\u00e1rio, junto da cruz de Jesus, estava Maria, sua M\u00e3e, isso quer dizer que ela estava em Jerusal\u00e9m na\u00adqueles dias; se estava em Jerusal\u00e9m, ent\u00e3o viu tudo, assistiu a tudo. Ouviu os gritos: \u201cEsse n\u00e3o, mas Barrab\u00e1s!\u201d, assistiu ao\u00a0<i>Ecce homo,<\/i>\u00a0viu a carne da sua carne a\u00e7oitada, sangrante, coroada de espinhos, seminua perante a multid\u00e3o, estremecendo sacudida por arrepios de morte na cruz. Ouviu o barulho dos golpes de martelo e os insultos: \u201cSe \u00e9s o Filho de Deus&#8230;\u201d. Viu os soldados dividindo entre si as vestes, a t\u00fanica que talvez ela mesma tinha tecido.<\/p>\n<p>\u201cPerto da cruz de Jesus estavam de p\u00e9 a sua m\u00e3e, a irm\u00e3 de sua m\u00e3e, Maria de Cl\u00e9ofas e Maria Madalena\u201d. Havia, pois, um grupo de mulheres, quatro no total (como aparece no \u00edcone). Maria n\u00e3o estava, pois, sozinha; era uma das mulheres. Sim, Maria estava ali como \u201csua m\u00e3e\u201d e isto muda tudo, pondo Maria numa situa\u00e7\u00e3o totalmente diferente. Assisti, \u00e0s vezes, ao funeral de alguns jovens; penso particularmente no de um rapaz. V\u00e1rias mulheres seguiam o f\u00e9retro. Todas vestidas de preto, todas chorando. Pareciam todas iguais. Mas entre elas havia uma diferente, uma na qual pensavam todos os presentes, e para a qual todos olhavam disfar\u00e7adamente: a m\u00e3e. Era vi\u00fava e tinha s\u00f3 aquele filho. Olhava para o caix\u00e3o, percebia-se que seus l\u00e1bios repetiam sem parar o nome do filho. Quando os fi\u00e9is, no momento do\u00a0<i>Sanctus<\/i>, come\u00e7aram a proclamar: \u201cSanto, Santo, Santo \u00e9 o Senhor Deus do universo\u201d, tamb\u00e9m ela, talvez sem o perceber, come\u00e7ou a murmurar: Santo, Santo, Santo&#8230; Naquele momento pensei em Maria aos p\u00e9s da cruz. Mas a ela foi pedido algo de mais dif\u00edcil: perdoar.\u00a0<i>Quando ouviu o Filho dizendo: Pai, perdoa-lhes! Eles n\u00e3o sabem o que fazem!<\/i>\u00a0(Lc 23,34), ela entendeu o que o Pai do c\u00e9u esperava dela: que dissesse com o cora\u00e7\u00e3o as mesmas palavras: \u201cPai, perdoa-lhes! Eles n\u00e3o sabem o que fazem!\u201d. E ela as disse. Perdoou.<\/p>\n<p>Se Maria p\u00f4de ser tentada, como o foi tamb\u00e9m Jesus no deserto, isto aconteceu particularmente junto da cruz. E foi uma tenta\u00e7\u00e3o profund\u00edssima e doloros\u00edssima, porque tinha como causa o mesmo Jesus. Ela acreditava nas promessas, acreditava que Jesus era o Messias, o Filho de Deus; sabia que, se Jesus tivesse pedido, o Pai lhe teria enviado \u201cmais de doze legi\u00f5es de anjos\u201d (cf. Mt 26,53). Mas percebe que Jesus n\u00e3o faz nada. Libertando a si mesmo da cruz, libertaria tamb\u00e9m ela de sua terr\u00edvel dor, mas n\u00e3o o faz. Maria, por\u00e9m, n\u00e3o grita: \u201cDesce da cruz; salva-te a ti mesmo e a mim!\u201d; ou: \u201cSalvaste muitos outros, por que n\u00e3o salvas agora tamb\u00e9m a ti mesmo, \u00f3 meu filho?\u201d, ainda que seja f\u00e1cil entender como seria natural que semelhantes pensamentos e desejos surgissem no cora\u00e7\u00e3o de uma m\u00e3e. Maria cala-se.<\/p>\n<p>Humanamente falando, Maria tinha todos os motivos para gritar a Deus: \u201cTu me enganaste!\u201d, ou, como um dia gritou o profeta Jeremias: \u201cTu me seduziste e eu me deixei seduzir!\u201d (cf. Jr 20,7), e fugir do Calv\u00e1rio. Ela, pelo contr\u00e1rio, n\u00e3o fugiu, mas ficou \u201cde p\u00e9\u201d, em sil\u00eancio, tornando-se assim, de maneira toda especial, m\u00e1rtir da f\u00e9 e, seguindo o Filho, testemunha suprema da confian\u00e7a em Deus. Esta vis\u00e3o de Maria que se une ao sacrif\u00edcio do Filho encontrou uma express\u00e3o s\u00f3bria e solene num texto do Concilio Vaticano II:<\/p>\n<p>\u201cAssim a Bem-aventurada Virgem avan\u00e7ou em peregrina\u00e7\u00e3o de f\u00e9. Manteve fielmente sua uni\u00e3o com o Filho at\u00e9 \u00e0 cruz, onde esteve n\u00e3o sem des\u00edgnio divino. Veementemente sofreu junto com seu Unig\u00e9nito. E com \u00e2nimo materno se associou ao seu sacrif\u00edcio, consentindo com amor na imola\u00e7\u00e3o da v\u00edtima por ela mesma gerada\u201d[1].<\/p>\n<p>Maria n\u00e3o estava, pois, \u201cjunto da cruz de Jesus\u201d, perto dele, s\u00f3 num sentido f\u00edsico e geogr\u00e1fico, mas tamb\u00e9m num sentido espiritual. Ela estava unida \u00e0 cruz de Jesus; estava no mesmo sofrimento; sofria com ele. Sofria no seu cora\u00e7\u00e3o o que o Filho sofria na carne. E quem poderia pensar diversamente, se, ao menos, sabe o que significa ser m\u00e3e?<\/p>\n<p>Jesus era tamb\u00e9m homem; enquanto homem, diante de todos ele n\u00e3o \u00e9, neste momento, sen\u00e3o um filho justi\u00e7ado na presen\u00e7a de sua m\u00e3e. Jesus j\u00e1 n\u00e3o diz:\u00a0<i>Que temos n\u00f3s com isso, mulher? A minha hora ainda n\u00e3o chegou<\/i>\u00a0(Jo 2,4). Agora que a sua \u201chora\u201d chegou, h\u00e1 entre ele e sua m\u00e3e algo de grande em comum: o mesmo sofrimento. Naqueles momentos extremos, quando tamb\u00e9m o Pai se escondeu misteriosamente do seu olhar de homem, restou para Jesus somente o olhar de sua m\u00e3e onde procurar ref\u00fagio e consola\u00e7\u00e3o. Por acaso vai desdenhar esta presen\u00e7a e esta consola\u00e7\u00e3o materna aquele que, no Gets\u00eamani, suplicou aos tr\u00eas disc\u00edpulos:\u00a0<i>Ficai aqui e vigiai comigo<\/i>\u00a0(Mt 26,38)?<\/p>\n<p><b>Estar junto da cruz de Jesus<\/b><\/p>\n<p>Agora, seguindo como sempre o nosso princ\u00edpio-guia, conforme o qual Maria \u00e9 tipo e espelho da Igreja, suas prim\u00edcias e modelo, temos que nos perguntar: o que o Esp\u00edrito Santo quis dizer \u00e0 Igreja dispondo que, na Escritura, fosse registrada essa presen\u00e7a de Maria e essa palavra de Jesus sobre ela?<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m desta vez, \u00e9 a mesma Palavra de Deus que, implicitamente, indica a passagem de Maria \u00e0 Igreja, dizendo o que cada fiel deve fazer para imit\u00e1-la: \u201cJunto da cruz de Jesus estava Maria, sua M\u00e3e, e, junto dela, o disc\u00edpulo que ele amava\u201d. Na\u00a0<i>not\u00edcia\u00a0<\/i>est\u00e1 contida a\u00a0<i>par\u00eanese.<\/i>\u00a0O que aconteceu naquele dia indica o que deve acontecer cada dia: \u00e9 preciso ficar junto de Maria perto da cruz de Jesus, como a\u00ed ficou o disc\u00edpulo que ele amava.<\/p>\n<p>H\u00e1 duas coisas escondidas nesta frase: primeiro, que \u00e9 preciso ficar \u201cjunto da cruz\u201d e, em segundo lugar, que \u00e9 preciso ficar junto da cruz \u201cde Jesus\u201d. Veremos que essas s\u00e3o duas coisas diferentes, embora insepar\u00e1veis<\/p>\n<p><i>Ficar perto da cruz \u201cde Jesus\u201d.<\/i>\u00a0Estas palavras dizem-nos que a primeira coisa a ser feita, a mais importante de todas, n\u00e3o \u00e9 ficar perto de qualquer cruz, mas ficar perto da cruz \u201cde Jesus\u201d. N\u00e3o \u00e9 suficiente ficar perto da cruz, no sofrimento, e a\u00ed ficar em sil\u00eancio. Isto s\u00f3 j\u00e1 parece algo de heroico, todavia, n\u00e3o \u00e9 o mais importante. Pode, ali\u00e1s, n\u00e3o ser nada. Decisivo \u00e9 ficar perto da cruz \u201cde Jesus\u201d. O que vale n\u00e3o \u00e9 a pr\u00f3pria cruz, mas a de Cristo. N\u00e3o \u00e9 o fato de sofrer, mas de acreditar, apropriando-se assim do sofrimento de Cristo. A primeira coisa \u00e9 a f\u00e9. A realidade maior de Maria junto da cruz foi a sua f\u00e9, maior ainda do que o seu sofrimento. Paulo diz que a palavra da cruz \u00e9 \u201cpoder de Deus e sabedoria de Deus para aqueles que s\u00e3o chamados\u201d (cf. 1Cor 1,18.24) e diz que o Evangelho \u00e9 poder de Deus \u201cpara todos aqueles que creem\u201d (cf. Rm 1,16). Para todos que creem, n\u00e3o para todos os que sofrem, ainda que, como veremos, ambas as coisas geralmente estejam unidas.<\/p>\n<p>Aqui est\u00e1 a fonte de toda a for\u00e7a e fecundidade da Igreja. A for\u00e7a da Igreja vem da prega\u00e7\u00e3o da cruz de Jesus \u2013 de algo que, aos olhos do mundo, \u00e9 o pr\u00f3prio s\u00edmbolo da loucura e da fraqueza \u2013, renunciando a qualquer possibilidade ou vontade de enfrentar o mundo, descrente e leviano, com seus meios que s\u00e3o a sabedoria das palavras, a for\u00e7a da argumenta\u00e7\u00e3o, a ironia, o rid\u00edculo, o sarcasmo e todas as outras \u201ccoisas fortes do mundo\u201d (cf. 1Cor 1,27). \u00c9 preciso renunciar a uma superioridade humana para que possa surgir e agir a for\u00e7a divina contida na cruz de Cristo. \u00c9 preciso insistir neste primeiro ponto. A maioria dos fi\u00e9is nunca foi ajudada a entrar neste mist\u00e9rio que \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o do Novo Testamento, o centro do kerigma e que muda a vida.<\/p>\n<p><i>\u201cFicar perto da cruz\u201d.<\/i>\u00a0Mas qual \u00e9 o sinal e a prova de que se acredita verdadeiramente na cruz de Cristo, que \u201ca palavra da cruz\u201d n\u00e3o \u00e9 apenas uma palavra, um princ\u00edpio abstrato, uma bela teologia ou ideologia, mas que \u00e9 verdadeiramente cruz? O sinal, a prova, \u00e9: tomar sua pr\u00f3pria cruz e ir atr\u00e1s de Jesus (cf. Mc 8,34). O sinal \u00e9 a participa\u00e7\u00e3o nos seus sofrimentos (Fl 3,10; Rm 8,17), \u00e9 estar crucificado com ele (Gl 2,19), \u00e9 completar, pelos pr\u00f3prios sofrimentos, o que falta \u00e0 paix\u00e3o de Cristo (Cl 1,24). A vida inteira do crist\u00e3o, como a de Cristo, deve ser um sacrif\u00edcio vivo (cf. Rm 12,1). N\u00e3o se trata s\u00f3 de sofrimento aceito passivamente, mas tamb\u00e9m de sofrimento ativo, vivido em uni\u00e3o com Cristo:\u00a0<i>Trato duramente o meu corpo e o subjugo<\/i>\u00a0(1Cor 9,27). \u201cToda a vida de Cristo foi cruz e mart\u00edrio; e tu procuras s\u00f3 descanso e gozo?\u201d, admoesta o autor da \u201cImita\u00e7\u00e3o de Cristo\u201d[2].<\/p>\n<p>Existiram na Igreja duas maneiras diferentes de colocar-se diante da cruz e da paix\u00e3o de Cristo: a primeira, mais caracter\u00edstica da teologia protestante, baseada na f\u00e9 e na apropria\u00e7\u00e3o, que se apoia na cruz de Cristo, que quer gloriar-se s\u00f3 na cruz de Cristo; a segunda \u2013 pelo menos no passado cultivada de prefer\u00eancia pela teologia cat\u00f3li\u00adca \u2013, que insiste no sofrer com Cristo, no partilhar de sua paix\u00e3o e, como no caso de alguns santos, at\u00e9 no reviver em si mesmo a paix\u00e3o de Cristo. O ecumenismo nos leva a reconstruir a s\u00edntese daquilo que na Igreja gradualmente acabou se opondo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata, evidentemente, de p\u00f4r no mesmo plano a obra de Cristo e a nossa, mas de acolher a palavra da Escritura que afirma que tanto a f\u00e9 como a obra est\u00e3o mortas uma sem a outra (cf. Tg 2,14ss). Ali\u00e1s, poder\u00edamos dizer que o problema diz respeito \u00e0 pr\u00f3pria f\u00e9. \u00c9 a f\u00e9 na cruz de Cristo que precisa passar pelo sofrimento para ser aut\u00eantica. A Primeira Carta de Pedro diz que o sofrimento \u00e9 o \u201ccrisol\u201d da f\u00e9, que a f\u00e9 precisa do sofrimento para ser purificada como o ouro no fogo (cf. 1Pd 1,6-7).<\/p>\n<p>Em outras palavras, a nossa cruz n\u00e3o \u00e9 salva\u00e7\u00e3o em si mesma, n\u00e3o \u00e9 nem poder, nem sabedoria; por si mesma, \u00e9 pura obra humana, ou at\u00e9 mesmo um castigo. Torna-se poder e sabedoria de Deus enquanto \u2013 acompanhada pela f\u00e9, por disposi\u00e7\u00e3o de Deus mesmo \u2013 nos une \u00e0 cruz de Cristo. \u201cSofrer significa tornar-se particularmente receptivo, particularmente aberto \u00e0 a\u00e7\u00e3o das for\u00e7as salv\u00edficas de Deus, oferecidas em Cristo \u00e0 humanidade\u201d[3]. O sofrimento une \u00e0 cruz de Cristo de maneira n\u00e3o s\u00f3 intelectual, mas existencial e concreta; \u00e9 uma esp\u00e9cie de canal, de caminho para chegar \u00e0 cruz de Cristo, n\u00e3o \u00e0 margem da f\u00e9, mas fazendo uma coisa s\u00f3 com ela.<\/p>\n<p><b>\u201cEsperou contra toda a esperan\u00e7a\u201d<\/b><\/p>\n<p>Mas agora devemos ampliar nosso horizonte. Para o evangelista Jo\u00e3o que relata o epis\u00f3dio, a cruz de Cristo n\u00e3o \u00e9 apenas o momento da morte de Cristo, mas tamb\u00e9m o de sua \u201cglorifica\u00e7\u00e3o\u201d e triunfo. A ressurrei\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 operando no sinal do Esp\u00edrito que \u00e9 derramado (cf. Jo 7, 37-39; 19,34). Portanto, no Calv\u00e1rio, Maria compartilhou com o Filho n\u00e3o apenas a morte, mas tamb\u00e9m os primeiros frutos da ressurrei\u00e7\u00e3o. N\u00e3o seria completa uma imagem de Maria aos p\u00e9s da cruz simplesmente como Nossa Senhora das Dores, como sugerida pelo \u201c<i>Stabat Mater<\/i>\u201d, \u201ctriste, aflita e chorando\u201d. No Calv\u00e1rio, ela n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a \u201cM\u00e3e das Dores\u201d, mas \u00e9 tamb\u00e9m a M\u00e3e da esperan\u00e7a, \u201c<i>Mater Spei<\/i>\u201d, como a invoca a Igreja num de seus hinos.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo afirma que Abra\u00e3o\u00a0<i>acreditou esperando contra toda esperan\u00e7a<\/i>\u00a0(Rm 4,18). O mesmo deve-se dizer, com maior raz\u00e3o, de Maria junto da cruz: ela acreditou esperando contra toda a esperan\u00e7a. Esperar contra toda a esperan\u00e7a significa sem ter nenhum motivo de esperan\u00e7a, numa situa\u00e7\u00e3o humanamente de total desesperan\u00e7a, continuar esperando unicamente por causa da palavra de esperan\u00e7a pronunciada por Deus. Como Abra\u00e3o, de uma maneira que n\u00e3o podemos explicar (e que talvez nem ela conseguisse explicar para si mesma), tamb\u00e9m Maria acreditou que Deus era poderoso para ressuscitar o seu Filho \u201cat\u00e9 da morte\u201d (cf. Hb 11,19).<\/p>\n<p>Um texto do Concilio Vaticano II menciona esta esperan\u00e7a de Maria junto da cruz como um elemento determinante da sua voca\u00e7\u00e3o materna. Diz que, junto da cruz, \u201cde modo inteiramente singular, pela obedi\u00eancia, f\u00e9, esperan\u00e7a e ardente caridade, ela cooperou na obra do Salvador\u201d[4].<\/p>\n<p>Agora, voltemos nosso olhar para a Igreja, isto \u00e9, para n\u00f3s. Das tr\u00eas realidades que a Igreja comemora no tr\u00edduo pascal \u2013 escreveu Santo Agostinho \u2013 crucifix\u00e3o, sepultamento e ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor, \u201cn\u00f3s, na vida presente, realizamos o que est\u00e1 significado na crucifix\u00e3o, enquanto afirmamos pela f\u00e9 e pela esperan\u00e7a o que est\u00e1 significado no sepultamento e na ressurrei\u00e7\u00e3o\u201d[5]. Tamb\u00e9m a Igreja, como Maria, vive a ressurrei\u00e7\u00e3o \u201cem esperan\u00e7a\u201d. Tamb\u00e9m para ela a cruz \u00e9 objeto de experi\u00eancia, enquanto que a ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 objeto de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Como Maria esteve perto do Filho crucificado, assim a Igreja \u00e9 chamada a ficar perto dos crucificados de hoje: dos pobres, dos sofredores, dos humilhados e dos ofendidos. E como vai ficar perto deles a Igreja? Em esperan\u00e7a, como Maria. N\u00e3o \u00e9 suficiente compadecer\u00ad-se das suas penas ou mesmo procurar suaviz\u00e1-las. E muito pouco. Isso todos podem fazer, tamb\u00e9m os que n\u00e3o conhecem a ressurrei\u00e7\u00e3o. A Igreja deve dar esperan\u00e7a, proclamando que o sofrimento n\u00e3o \u00e9 absurdo, mas tem um sentido porque haver\u00e1 uma ressurrei\u00e7\u00e3o da morte. Ela deve dar raz\u00e3o da esperan\u00e7a que possui (cf. 1Pd 3,15).<\/p>\n<p>Os homens precisam da esperan\u00e7a para viver, como do oxig\u00eanio para respirar. A Igreja tamb\u00e9m precisa de esperan\u00e7a para continuar sua jornada pela hist\u00f3ria e n\u00e3o se sentir esmagada pela contrariedade. Na audi\u00eancia geral de 11 de mar\u00e7o \u2013 a \u00faltima p\u00fablica antes da suspens\u00e3o devido ao coronav\u00edrus \u2013, o Papa Francisco pediu que viv\u00eassemos esse per\u00edodo de prova\u00e7\u00e3o \u201ccom coragem, responsabilidade e esperan\u00e7a\u201d. Acima de tudo, gostaria de acolher seu apelo \u00e0 esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a, por muito tempo, foi e continua sendo a irm\u00e3 menor e a prima pobre dentre as virtudes teologais. O poeta Charles P\u00e9guy tem uma bela imagem a esse respeito. Ele diz que as tr\u00eas virtudes teologais \u2013 f\u00e9, esperan\u00e7a e caridade \u2013 s\u00e3o como tr\u00eas irm\u00e3s: duas adultas e uma ainda crian\u00e7a. Elas andam juntas pela rua de m\u00e3os dadas, as duas maiores nas laterais e a garotinha no centro. A menina, claro, \u00e9 a esperan\u00e7a. Todo o mundo que os v\u00ea diz: \u201cCertamente s\u00e3o os dois adultos que arrastam a garota para o centro!\u201d. Eles est\u00e3o errados: \u00e9 a menininha Esperan\u00e7a que arrasta as duas irm\u00e3s, porque se parar a esperan\u00e7a, tudo para[6].<\/p>\n<p>\u00c9 preciso \u2013 como diz o poeta \u2013 que nos tornemos \u201cc\u00famplices da menina esperan\u00e7a\u201d. Tu esperaste algo ardentemente, uma interven\u00e7\u00e3o de Deus, e nada aconteceu? Voltaste a esperar uma pr\u00f3xima vez, e ainda nada? Tudo continuou como antes, apesar de muitas s\u00faplicas e de muitas l\u00e1grimas e, talvez, at\u00e9 de muitos sinais de que serias ouvido? Continua esperando, espera ainda mais uma vez, espera sempre, at\u00e9 o fim. Torna-te c\u00famplice da esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Tornar-se c\u00famplice da esperan\u00e7a significa permitir que Deus o iluda, que o engane aqui na terra quantas vezes ele quiser. E mais: significa estar contente, em alguma parte mais profunda do pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o, que Deus n\u00e3o o tenha escutado a primeira nem a segunda vez, e que continue a n\u00e3o o escutar, pois assim pode dar-lhe uma prova a mais, fazer um ato de esperan\u00e7a a mais, cada vez mais dif\u00edcil. Ele lhe concedeu uma gra\u00e7a bem maior do que a pedida: a gra\u00e7a de esperar nele. Ele tem a eternidade para compensar o atraso!<\/p>\n<p>Mas \u00e9 preciso prestar aten\u00e7\u00e3o. A esperan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma bela e po\u00e9tica disposi\u00e7\u00e3o interior que, por mais dif\u00edcil que seja, acaba deixando a pessoa inerte e sem nenhuma tarefa real, sendo, por isso mesmo, est\u00e9ril. Pelo contr\u00e1rio, esperar significa descobrir que ainda h\u00e1 algo que se possa fazer, uma tarefa a ser cumprida; que n\u00e3o estamos, pois, condenados \u00e0 inutilidade e \u00e0 in\u00e9rcia paralisante.<\/p>\n<p>Mesmo que n\u00e3o houvesse, pois, nada mais que pud\u00e9ssemos fazer para mudar uma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, restaria sempre uma grande tarefa a se cumprir, que nos manteria bastante empenhados e livres do desespero: a tarefa de tudo suportar com paci\u00eancia at\u00e9 o fim. Esta foi a grande \u201ctarefa\u201d que Maria levou a termo esperando junto da cruz, e nisso ela agora est\u00e1 pronta para ajudar tamb\u00e9m a n\u00f3s.<\/p>\n<p>Vemos na B\u00edblia alguns \u00edmpetos de esperan\u00e7a. Um deles se encontra na terceira Lamenta\u00e7\u00e3o, canto da alma na maior desola\u00e7\u00e3o, e que pode ser aplicada quase completamente a Maria aos p\u00e9s da cruz:<\/p>\n<p>\u201cEu sou a pessoa que conheceu a afli\u00e7\u00e3o sob a vara do seu furor. Deus me fez caminhar nas trevas e n\u00e3o na claridade; cercou-me com um muro para que n\u00e3o possa sair. N\u00e3o obstante os meus gritos e apelos, ele rejeita a minha prece. E eu disse: Desapareceu a minha for\u00e7a, a minha esperan\u00e7a no Senhor\u201d.<\/p>\n<p>Mas eis o \u00edmpeto de esperan\u00e7a que revira tudo. A certa altura, o orante diz para si mesmo: \u201cA miseric\u00f3rdia do Senhor n\u00e3o se esgotou; por isso esperarei nele! Porque o Senhor n\u00e3o repele para sempre. Ap\u00f3s haver afligido, tem compaix\u00e3o. Talvez se encontre ainda esperan\u00e7a\u201d (cf. Lm 3,1-32). A partir do momento em que profeta decide voltar \u00e0 esperan\u00e7a, o tom muda: o lamento se transforma em uma expectativa confiante da interven\u00e7\u00e3o de Deus.<\/p>\n<p>Dirijamos nosso olhar, mais uma vez, \u00e0quela que soube permanecer junto da cruz, esperando contra toda a esperan\u00e7a. Invoquemos Maria como m\u00e3e da esperan\u00e7a com as palavras de um antigo hino da Igreja:<\/p>\n<p><i>Salve Mater misericordiae,<br \/>\nMater Dei, et mater veniae,<br \/>\nMater Spei, et mater gratiae,<br \/>\nMater plena sanctae laetitiae,<br \/>\nO MARIA!<\/i><\/p>\n<p>Ave, M\u00e3e da miseric\u00f3rdia,<\/p>\n<p>M\u00e3e de Deus e M\u00e3e do perd\u00e3o,<\/p>\n<p>M\u00e3e da Esperan\u00e7a e M\u00e3e da Gra\u00e7a,<\/p>\n<p>M\u00e3e cheia de santa alegria,<\/p>\n<p>\u00d3 MARIA!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Notas:<\/b><\/p>\n<p>[1]\u00a0<i>Lumen gentium<\/i>, 58.<\/p>\n<p><i>[2] Imita\u00e7\u00e3o de Cristo<\/i>, II, 12,7.<\/p>\n<p>[3] S. Jo\u00e3o Paulo II,\u00a0<i>Salvifici doloris<\/i>, 23 (AAS 76, 1984, p.231).<\/p>\n<p>[4]\u00a0<i>Lumen gentium<\/i>, 61.<\/p>\n<p>[5] Sto. Agostinho,\u00a0<i>Cartas<\/i>, 55, 14.<\/p>\n<p>[6] Charles P\u00e9guy,\u00a0<i>Le Porche du myst\u00e8re de la deuxi\u00e8me vertu<\/i>, \u0152uvres po\u00e9tiques compl\u00e8tes, p. 655.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Prega\u00e7\u00e3o de Frei Raniero Cantalamessa para a Semana Santa<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":222882,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1488,1],"tags":[1562],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>A for\u00e7a divina contida na cruz de Cristo - Not\u00edcias - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/a-forca-divina-contida-na-cruz-de-cristo.html\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A for\u00e7a divina contida na cruz de Cristo - 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