{"id":202296,"date":"2019-04-05T08:31:44","date_gmt":"2019-04-05T11:31:44","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/?p=202296"},"modified":"2019-04-05T08:31:44","modified_gmt":"2019-04-05T11:31:44","slug":"frei-cantalamessa-adoraras-ao-senhor-teu-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/frei-cantalamessa-adoraras-ao-senhor-teu-deus.html","title":{"rendered":"Frei Cantalamessa: \u201cAdorar\u00e1s ao Senhor teu Deus!\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-202297\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/cantalamessa.jpg\" alt=\"\" width=\"890\" height=\"501\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/cantalamessa.jpg 890w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/cantalamessa-450x253.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/cantalamessa-768x432.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/cantalamessa-150x84.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 890px) 100vw, 890px\" \/><\/p>\n<p><strong>Cidade do Vaticano<\/strong> -Frei\u00a0Raniero Cantalamessa, Pregador oficial da Casa Pontif\u00edcia, continuou, na manh\u00e3 desta sexta-feira (05\/4), na Capela \u201cRedemptoris Mater\u201d, no Vaticano, as suas medita\u00e7\u00f5es de Quaresma, das quais participam o Santo Padre e a C\u00faria Roma.\u00a0Nesta quarta prega\u00e7\u00e3o, do per\u00edodo quaresmal, o Capuchinho continuou a aprofundar o tema: \u201cVoltar para dentro de si mesmo\u201d, extra\u00eddo do pensamento de Santo Agostinho.<\/p>\n<p><strong>Deus vivo<\/strong><br \/>\nFrei Cantalamessa iniciou sua medita\u00e7\u00e3o recordando que, este ano, celebramos o oitavo centen\u00e1rio do encontro de <strong>S\u00e3o Francisco de Assis com o Sult\u00e3o do Egito al-Kamil<\/strong>, ocorrido em 1219, ao regressar da sua viagem ao Oriente.<\/p>\n<p>Este evento, disse o Pregador, tem um detalhe que diz respeito ao tema das medita\u00e7\u00f5es quaresmais sobre o \u201cDeus vivo\u201d.\u00a0 Ao voltar do Oriente, o Pobrezinho de Assis escreveu uma carta de exorta\u00e7\u00e3o aos Poderosos das Na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Acredita-se que o Santo tenha se inspirado na sua viagem ao Oriente, onde ouviu a ora\u00e7\u00e3o vespertina dos muezins atrav\u00e9s dos minaretes. Um belo exemplo, n\u00e3o s\u00f3 de di\u00e1logo entre as diferentes religi\u00f5es, mas tamb\u00e9m de enriquecimento m\u00fatuo.<\/p>\n<p>N\u00f3s, crist\u00e3os, &#8211; disse o Pregador da Casa Pontif\u00edcia &#8211; temos uma imagem diferente de Deus: um Deus que \u00e9 amor infinito, al\u00e9m de poder infinito, ao qual temos a obriga\u00e7\u00e3o primordial de adorar: \u201cVir\u00e1 a hora, e j\u00e1 chegou, em que os verdadeiros adoradores dever\u00e3o adorar o Pai em esp\u00edrito e verdade\u201d, diz o evangelista Jo\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Adora\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nO Novo Testamento deu maior dignidade \u00e0 palavra \u201cadora\u00e7\u00e3o\u201d. De fato, \u201cEst\u00e1 escrito: ao Senhor, teu Deus adorar\u00e1s, s\u00f3 a ele prestar\u00e1s culto&#8221;.<\/p>\n<p>A Igreja \u2013 disse Cantalamessa &#8211; retomou este ensinamento, fazendo da adora\u00e7\u00e3o o ato por excel\u00eancia do culto. A adora\u00e7\u00e3o \u00e9 o \u00fanico ato religioso que n\u00e3o pode ser oferecido a ningu\u00e9m, em todo o universo, nem sequer a Nossa Senhora, mas apenas a Deus.<\/p>\n<p>A atitude externa, que corresponde \u00e0 adora\u00e7\u00e3o, \u00e9, geralmente, a genuflex\u00e3o, o gesto de dobrar os joelhos.<\/p>\n<p>Mas, o que significa, realmente, adorar, perguntou o Frei Capuchinho. A express\u00e3o de adora\u00e7\u00e3o mais eficaz, do que qualquer palavra, afirmou, \u00e9 o sil\u00eancio, na presen\u00e7a do Senhor Deus!&#8221; Adorar, segundo a maravilhosa afirma\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Greg\u00f3rio de Nazianzeno, significa \u201celevar a Deus um hino de sil\u00eancio&#8221;! \u00c9 consentir a Deus ser Deus.<\/p>\n<p>Mas, adorar a Deus n\u00e3o \u00e9 tanto um dever, uma obriga\u00e7\u00e3o, mas um privil\u00e9gio, uma necessidade. O homem precisa de algo majestoso para amar e adorar! Ele foi criado para isto. N\u00e3o \u00e9 Deus que precisa ser adorado, mas o homem que precisa adorar. No entanto, adora\u00e7\u00e3o deve ser um ato livre.<\/p>\n<p>O Padre Raniero Cantalamessa concluiu sua quarta prega\u00e7\u00e3o de Quaresma dizendo que a Igreja Cat\u00f3lica tem uma forma particular de adora\u00e7\u00e3o: adora\u00e7\u00e3o Eucar\u00edstica, o culto eucar\u00edstico, a contempla\u00e7\u00e3o de Cristo e do seu mist\u00e9rio. Enfim, a adora\u00e7\u00e3o Eucar\u00edstica \u00e9 uma das formas mais eficazes de evangeliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Pregador terminou sua medita\u00e7\u00e3o com o Salmo: \u201cVinde, inclinemo-nos em adora\u00e7\u00e3o; ajoelhemo-nos diante do Senhor que nos criou. Ele \u00e9 nosso Deus! N\u00f3s somos as suas ovelhas e ele o nosso Pastor\u201d!<\/p>\n<hr \/>\n<h3><strong>\u00cdNTEGRA DA PREGA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/h3>\n<p>Este ano celebramos o oitavo centen\u00e1rio do encontro de Francisco de Assis com o Sult\u00e3o do Egito al-Kamil, em 1219. Recordo-o aqui por um detalhe que diz respeito ao tema das nossas medita\u00e7\u00f5es sobre o Deus vivo.<\/p>\n<p>Depois de retornar de sua viagem ao Oriente em 1219, Francisco de Assis escreveu uma carta dirigida \u201cAos Regentes dos povos&#8221;. Nela dizia, entre outras coisas:<\/p>\n<p>Sois obrigados a dar ao Senhor tanta honra entre o povo que vos foi confiado, que todas as tardes se anuncie, atrav\u00e9s de um pregoeiro ou qualquer outro sinal, a obriga\u00e7\u00e3o de se dar o louvor e a gratid\u00e3o ao onipotente Senhor Deus de todo o povo. E, se n\u00e3o fizerdes isto, sabei que tereis de prestar contas a Deus perante vosso Senhor Jesus Cristo no dia do ju\u00edzo[1].<\/p>\n<p>Acredita-se amplamente que o santo tenha inspirado esta exorta\u00e7\u00e3o no que tinha observado na sua viagem ao Oriente, onde ouviu o apelo vespertino \u00e0 ora\u00e7\u00e3o feita pelos muezins de cima dos minaretes. Um belo exemplo n\u00e3o s\u00f3 de di\u00e1logo entre as diferentes religi\u00f5es, mas tamb\u00e9m de enriquecimento m\u00fatuo. Uma mission\u00e1ria que trabalha h\u00e1 muitos anos num pa\u00eds africano escreveu estas palavras: &#8220;N\u00f3s somos chamados a responder a uma necessidade fundamental dos homens, \u00e0 necessidade profunda de Deus, \u00e0 sede de Absoluto, a ensinar o caminho de Deus, a ensinar a rezar. \u00c9 por isso que os mu\u00e7ulmanos fazem, nestas regi\u00f5es, muitos pros\u00e9litos: ensinam imediatamente e de modo simples, a adorar a Deus&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00f3s, crist\u00e3os, temos uma imagem diferente de Deus &#8211; um Deus que \u00e9 amor infinito antes mesmo que poder infinito -, mas isto n\u00e3o deve fazer-nos esquecer o dever prim\u00e1rio da adora\u00e7\u00e3o. \u00c0 provoca\u00e7\u00e3o da mulher samaritana: &#8220;Os nossos pais adoraram neste monte; mas v\u00f3s dizeis que \u00e9 em Jerusal\u00e9m que devemos adorar&#8221;, Jesus responde com palavras que s\u00e3o a magna carta da adora\u00e7\u00e3o crist\u00e3:<\/p>\n<p>\u201cMulher, acredi\u00adta-me, vem a hora em que n\u00e3o adorareis o Pai, nem neste monte nem em Jerusal\u00e9m. V\u00f3s adorais o que n\u00e3o conheceis, n\u00f3s adoramos o que conhecemos, porque a salva\u00e7\u00e3o vem dos judeus. Mas vem a hora, e j\u00e1 chegou, em que os verdadeiros adoradores h\u00e3o de adorar o Pai em esp\u00edrito e verdade, e s\u00e3o esses adoradores que o Pai deseja. Deus \u00e9 esp\u00edrito, e os seus adoradores devem ador\u00e1-lo em esp\u00edrito e verdade\u201d. (Jo 4,21-24).<\/p>\n<p>Foi o Novo Testamento que elevou a palavra adora\u00e7\u00e3o a esta dignidade que n\u00e3o tinha antes. No Antigo Testamento, al\u00e9m de Deus, o culto \u00e9 tamb\u00e9m dirigido em alguns casos a um anjo (cf. Nm 22,31) ou ao rei (1 Sam 24,9); pelo contr\u00e1rio, no Novo Testamento toda vez que se tenta adorar algu\u00e9m que n\u00e3o seja Deus e a pessoa de Cristo, mesmo que seja um anjo, a rea\u00e7\u00e3o imediata \u00e9: &#8220;N\u00e3o fa\u00e7a isso! \u00c9 Deus que deve ser adorado&#8221;[2]. \u00c9 quase como se algu\u00e9m estivesse correndo, caso contr\u00e1rio, um perigo mortal. \u00c9 o que Jesus, no deserto, recorda peremptoriamente ao tentador que lhe pediu que o adorasse: &#8220;Est\u00e1 escrito: O Senhor, teu Deus adorar\u00e1s, s\u00f3 a ele dar\u00e1s culto&#8221; (Mt 4, 10).<\/p>\n<p>A Igreja retomou este ensinamento, fazendo da adora\u00e7\u00e3o o ato por excel\u00eancia do culto de Latria, distinto da chamada dulia reservada aos Santos e da chamada hiperdulia reservada \u00e0 Virgem. A adora\u00e7\u00e3o \u00e9, pois, o \u00fanico ato religioso que n\u00e3o pode ser oferecido a mais ningu\u00e9m, em todo o universo, nem sequer a Nossa Senhora, mas apenas a Deus. Aqui est\u00e1 a sua dignidade e for\u00e7a \u00fanica.<\/p>\n<p>A adora\u00e7\u00e3o (<em>proskunesis<\/em>) no in\u00edcio indicava o gesto material de prostrar-se ao ch\u00e3o diante de algu\u00e9m, como sinal de rever\u00eancia e submiss\u00e3o. Neste sentido pl\u00e1stico a palavra ainda \u00e9 usada nos Evangelhos e no Apocalipse. Neles a pessoa diante da qual se prostrar, na terra \u00e9 Jesus Cristo e na liturgia celestial o Cordeiro imolado ou o Onipotente. S\u00f3 no di\u00e1logo com a samaritana e em 1 Cor 14,25 \u00e9 que aparece agora dissolvida do seu significado exterior e indica uma disposi\u00e7\u00e3o interior da alma para com Deus. Este se tornar\u00e1 cada vez mais o sentido ordin\u00e1rio do termo e, neste sentido, no credo, dizemos do Esp\u00edrito Santo que &#8220;adorado e glorificado&#8221; com o Pai e o Filho.<\/p>\n<p>Para indicar a atitude externa correspondente \u00e0 adora\u00e7\u00e3o, prefere-se o gesto de dobrar os joelhos, a genuflex\u00e3o. Este \u00faltimo gesto tamb\u00e9m \u00e9 reservado exclusivamente para a divindade. Podemos estar de joelhos diante da imagem de Nossa Senhora, mas n\u00e3o fazemos genuflex\u00e3o diante dela, como fazemos diante do Sant\u00edssimo Sacramento ou do Crucifixo.<\/p>\n<p>O que significa adorar<br \/>\nMas, mais do que o significado e o desenvolvimento do termo, estamos interessados em saber em que consiste e como podemos praticar a adora\u00e7\u00e3o. A adora\u00e7\u00e3o pode ser preparada por uma longa reflex\u00e3o, mas termina com uma intui\u00e7\u00e3o e, como qualquer intui\u00e7\u00e3o, ela n\u00e3o dura muito tempo. \u00c9 como um clar\u00e3o de luz na noite. Mas de uma luz especial: n\u00e3o tanto a luz da verdade, mas a luz da realidade. \u00c9 a percep\u00e7\u00e3o da grandeza, da majestade, da beleza e, ao mesmo tempo, da bondade de Deus e da sua presen\u00e7a que tira o f\u00f4lego. \u00c9 uma esp\u00e9cie de naufr\u00e1gio no oceano sem costas e sem fundo da majestade de Deus. Adorar, segundo a express\u00e3o de Santa \u00c2ngela de Foligno mencionada no in\u00edcio, significa &#8220;recolher-se em unidade e mergulhar no abismo infinito de Deus&#8221;.<\/p>\n<p>Uma express\u00e3o de adora\u00e7\u00e3o, mais eficaz que qualquer palavra, \u00e9 o sil\u00eancio. Na verdade, ele diz por si mesmo que a realidade est\u00e1 muito al\u00e9m de qualquer palavra. Na B\u00edblia, a insinua\u00e7\u00e3o ressoa alto: &#8220;Toda a terra est\u00e1 em sil\u00eancio diante dele! (Hab 2,20) e: &#8220;Sil\u00eancio na presen\u00e7a do Senhor Deus!&#8221; (Sof 1, 7). Quando &#8220;os sentidos est\u00e3o envoltos em sil\u00eancio sem limites e as mem\u00f3rias envelhecem com a ajuda do sil\u00eancio&#8221;, disse um Padre do deserto, ent\u00e3o tudo o que resta \u00e9 adorar.<\/p>\n<p>Foi um gesto de adora\u00e7\u00e3o o de J\u00f3, quando, tendo vindo ver face a face o Onipotente no final da sua hist\u00f3ria, exclama: &#8221; &#8220;\u201cLeviano como sou, que posso responder-te? Ponho a minha m\u00e3o sobre a boca.&#8221; (J\u00f3 40,4). Neste sentido, o vers\u00edculo de um salmo, mais tarde retomado pela liturgia, no texto hebraico, dizia: &#8220;Por ti o sil\u00eancio \u00e9 louvor&#8221;, Tibi silentium laus! (cf. Sl 65,2, texto Massor\u00e9tico). Adorar &#8211; segundo a estupenda express\u00e3o de S\u00e3o Greg\u00f3rio de Nazianzeno &#8211; significa elevar a Deus um &#8220;hino de sil\u00eancio&#8221;[3]. \u00c0 medida que o ar se torna mais rarefeito ao se subir uma alta montanha, da mesma forma ao se aproximar de Deus a palavra deve tornar-se mais curta, at\u00e9 que se torne, no final, completamente silenciosa e se una em sil\u00eancio com aquele que \u00e9 o inef\u00e1vel[4].<\/p>\n<p>Se precisamente se busca &#8220;parar&#8221; a mente e impedi-la de vaguear sobre outros objetos, conv\u00e9m faz\u00ea-lo com a palavra mais curta que existe: Am\u00e9m, Sim. Adorar, de fato, \u00e9 consentir. \u00c9 deixar Deus ser Deus. \u00c9 dizer sim a Deus como Deus e a si mesmo como criaturas de Deus. Neste sentido, Jesus \u00e9 definido no Apocalipse como o Am\u00e9m, o Sim que se fez pessoa (cf. Ap 3,14), ou seja, repetir incessantemente com os Serafins: <em>&#8220;Qadosh, qadosh, qadosh:<\/em> Santo! Santo! Santo!<\/p>\n<p>A adora\u00e7\u00e3o requer, portanto, que nos curvemos e fiquemos em sil\u00eancio. Mas ser\u00e1 que tal ato \u00e9 digno do homem? N\u00e3o o humilha, derrogando a sua dignidade? Na verdade, isso \u00e9 realmente digno de Deus? Que Deus \u00e9 esse que precisa que as suas criaturas se inclinem \u00e0 terra diante dele e se calem? \u00c9, Deus, como um daqueles soberanos orientais que inventaram a adora\u00e7\u00e3o para si pr\u00f3prios? \u00c9 in\u00fatil neg\u00e1-lo, a adora\u00e7\u00e3o implica para as criaturas tamb\u00e9m um aspecto de humilha\u00e7\u00e3o radical, de se tornarem pequenas, de se entregarem e de se submeterem. A adora\u00e7\u00e3o envolve sempre um aspecto de sacrif\u00edcio, uma imola\u00e7\u00e3o de algo. Precisamente assim ela atesta que Deus \u00e9 Deus e que nada nem ningu\u00e9m tem direito de existir diante dele, sen\u00e3o na sua gra\u00e7a. Com a adora\u00e7\u00e3o se imola e se sacrifica o pr\u00f3prio eu, a pr\u00f3pria gl\u00f3ria, a pr\u00f3pria autossufici\u00eancia. Mas esta \u00e9 uma gl\u00f3ria falsa e inconsistente, e \u00e9 uma liberta\u00e7\u00e3o para o homem se livrar dela.<\/p>\n<p>Adorando, a pessoa &#8220;liberta a verdade que era prisioneira da injusti\u00e7a&#8221;. A pessoa torna-se &#8220;aut\u00eantica&#8221; no sentido mais profundo da palavra. Na adora\u00e7\u00e3o j\u00e1 se antecipa o retorno de todas as coisas a Deus. H\u00e1 um abandono ao significado e ao fluxo do ser. Assim como a \u00e1gua encontra a sua paz ao fluir em dire\u00e7\u00e3o ao mar e o p\u00e1ssaro sua alegria ao seguir o curso do vento, assim tamb\u00e9m o adorador ao adorar. Adorar a Deus n\u00e3o \u00e9, portanto, tanto um dever, uma obriga\u00e7\u00e3o, mas um privil\u00e9gio, uma necessidade. O homem precisa de algo majestoso para amar e adorar! Foi feito para isto.<\/p>\n<p>Portanto, n\u00e3o \u00e9 Deus que precisa ser adorado, mas o homem que precisa adorar. Um pref\u00e1cio da Missa diz: &#8220;Tu n\u00e3o precisas do nosso louvor, mas por um dom do teu amor nos chamas a dar-te gra\u00e7as; os nossos hinos de b\u00ean\u00e7\u00e3o n\u00e3o aumentam a tua grandeza, mas obt\u00eam para n\u00f3s a gra\u00e7a que nos salva, por Cristo nosso Senhor&#8221;[5]. F. Nietzsche estava completamente fora do caminho quando definiu o Deus da B\u00edblia como &#8220;aquele oriental ganancioso por honras em seu assento celestial&#8221;[6].<\/p>\n<p>A adora\u00e7\u00e3o deve, no entanto, ser livre. O que torna a adora\u00e7\u00e3o digna de Deus e ao mesmo tempo digna do homem \u00e9 a liberdade, entendida n\u00e3o s\u00f3 negativamente como aus\u00eancia de coa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m positivamente como um alegre impulso, dom espont\u00e2neo da criatura que assim exprime a sua alegria de n\u00e3o ser ele pr\u00f3prio Deus, para poder ter um Deus acima de si para adorar, admirar, celebrar.<\/p>\n<p><strong>A adora\u00e7\u00e3o Eucar\u00edstica<\/strong><br \/>\nA Igreja Cat\u00f3lica conhece uma forma particular de adora\u00e7\u00e3o que \u00e9 a adora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica. Cada grande corrente espiritual dentro do cristianismo teve o seu pr\u00f3prio carisma particular, que constitui a sua particular contribui\u00e7\u00e3o para a riqueza de toda a Igreja. Para os protestantes, este \u00e9 o culto da palavra de Deus; para os ortodoxos, o culto dos \u00edcones; para a Igreja Cat\u00f3lica, \u00e9 o culto eucar\u00edstico. Atrav\u00e9s de cada um destes tr\u00eas caminhos, realiza-se o mesmo objetivo fundamental, que \u00e9 a contempla\u00e7\u00e3o de Cristo e do seu mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>O culto e a adora\u00e7\u00e3o da Eucaristia fora da Missa \u00e9 um fruto relativamente recente da piedade crist\u00e3. Come\u00e7ou a desenvolver-se no Ocidente no s\u00e9culo XI como rea\u00e7\u00e3o \u00e0 heresia de Bereng\u00e1rio de Tours, que negava a presen\u00e7a &#8220;real&#8221; e admitia apenas uma presen\u00e7a simb\u00f3lica de Jesus na Eucaristia. Desde essa data, por\u00e9m, n\u00e3o houve, pode-se dizer, um santo sequer, em cuja vida n\u00e3o se percebe uma influ\u00eancia decisiva da piedade eucar\u00edstica. Ela tem sido uma fonte de imensa energia espiritual, uma esp\u00e9cie de lareira sempre acesa no meio da casa de Deus, \u00e0 qual todos os grandes filhos da Igreja se aqueceram. Gera\u00e7\u00f5es e gera\u00e7\u00f5es de fi\u00e9is cat\u00f3licos sentiram o tremor da presen\u00e7a de Deus cantando o hino Adoro te devote, diante do Sant\u00edssimo exposto.<\/p>\n<p>O que direi sobre a adora\u00e7\u00e3o e a contempla\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica aplica-se quase inteiramente tamb\u00e9m \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o do \u00edcone de Cristo. A diferen\u00e7a \u00e9 que no primeiro caso tem-se uma presen\u00e7a real de Cristo, no segundo apenas uma presen\u00e7a intencional. Ambos se baseiam na certeza de que o Cristo ressuscitado est\u00e1 vivo e se faz presente nos sinais sacramentais e na f\u00e9.<\/p>\n<p>Estando calmos e silenciosos, e possivelmente por muito tempo, diante de Jesus no Sant\u00edssimo Sacramento, ou diante de um dos seus \u00edcones, percebem-se os seus desejos a nosso respeito, os pr\u00f3prios projetos caem para dar lugar aos de Cristo, a luz de Deus penetra, aos poucos, no cora\u00e7\u00e3o e o cura. Acontece algo que recorda o que acontece nas \u00e1rvores na primavera, e que \u00e9 o processo de fotoss\u00edntese. Emergem dos ramos as folhas verdes; estas absorvem da atmosfera certos elementos que, sob a a\u00e7\u00e3o da luz solar, s\u00e3o &#8220;fixados&#8221; e transformados em alimento para a planta. Sem estas folhas verdes, a planta n\u00e3o poderia crescer e dar frutos e n\u00e3o ajudaria a regenerar o oxig\u00eanio que n\u00f3s pr\u00f3prios respiramos.<\/p>\n<p>N\u00f3s devemos ser como aquelas folhas verdes! S\u00e3o um s\u00edmbolo das almas eucar\u00edsticas e das almas contemplativas. Contemplando o &#8220;sol de justi\u00e7a&#8221; que \u00e9 Cristo, elas &#8220;fixam&#8221; o alimento que \u00e9 o Esp\u00edrito Santo, em benef\u00edcio de toda a grande \u00e1rvore que \u00e9 a Igreja. Em outras palavras, isto \u00e9 o que diz tamb\u00e9m o ap\u00f3stolo Paulo quando escreve: &#8220;Todos n\u00f3s, com o rosto descoberto, refletindo a gl\u00f3ria do Senhor como em um espelho, somos transformados naquela mesma imagem, de gl\u00f3ria em gl\u00f3ria, segundo a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito do Senhor&#8221; (2 Cor 3, 18).<\/p>\n<p>Um dos nossos poetas, Giuseppe Ungaretti, contemplando o nascer do sol uma manh\u00e3 junto ao mar, escreveu um poema de apenas dois vers\u00edculos muito curtos, tr\u00eas palavras ao todo: &#8220;Mi illumino d\u2019imenso\u201d (Me ilumino imensamente)[7]. S\u00e3o palavras que poderiam dizer aqueles que est\u00e3o em adora\u00e7\u00e3o diante do Sant\u00edssimo Sacramento. S\u00f3 Deus conhece quantas gra\u00e7as escondidas ca\u00edram sobre a Igreja gra\u00e7as a estas almas adoradoras.<\/p>\n<p>A adora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica \u00e9 tamb\u00e9m uma das formas mais eficazes de evangeliza\u00e7\u00e3o. Muitas par\u00f3quias e comunidades que a colocaram no seu hor\u00e1rio di\u00e1rio ou semanal fazem uma experi\u00eancia direta dela. A vis\u00e3o de pessoas que \u00e0 tarde ou \u00e0 noite est\u00e3o em adora\u00e7\u00e3o silenciosa diante do Sant\u00edssimo Sacramento, numa Igreja iluminada, levou muitos transeuntes a entrar e depois de parar por um momento a exclamar: &#8220;Aqui est\u00e1 Deus! Assim como est\u00e1 escrito que acontecia nas primeiras assembleias dos crist\u00e3os (cf. 1 Cor 14, 25).<\/p>\n<p>A contempla\u00e7\u00e3o crist\u00e3 nunca \u00e9 de sentido \u00fanico. N\u00e3o consiste em olhar, como dizem, para o umbigo, em busca do pr\u00f3prio eu mais profundo. Consiste sempre em dois olhares cruzados. Aquele campon\u00eas da par\u00f3quia de Ars, que passava horas e horas im\u00f3vel na igreja, com os olhos voltados para o tabern\u00e1culo e que, quando perguntado pelo Santo Cura o que fazia o dia todo, respondeu: &#8220;Nada, eu olho para ele e ele olha para mim!\u201d<\/p>\n<p>Se \u00e0s vezes baixamos o olhar e o perdemos, no entanto, o de Deus nunca falha. \u00c0s vezes a contempla\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica reduz-se \u00e0 simples companhia de Jesus, a estar sob o seu olhar, a dar-lhe a alegria de contemplar tamb\u00e9m a n\u00f3s, que, por mais criaturas e pecadores que sejamos, somos, no entanto, fruto da sua paix\u00e3o, aqueles por quem ele deu a sua vida. \u00c9 uma resposta ao convite de Jesus aos disc\u00edpulos do Gets\u00eamani: &#8220;Fiquem aqui e vigiem comigo&#8221; (Mt 26, 38).<\/p>\n<p>Portanto, a contempla\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica n\u00e3o \u00e9 impedida, em si mesma, pela aridez que por vezes se pode experimentar, seja por causa da nossa dissipa\u00e7\u00e3o, seja tamb\u00e9m por permiss\u00e3o de Deus para a nossa purifica\u00e7\u00e3o. Basta dar-lhe um sentido, renunciando tamb\u00e9m \u00e0 nossa satisfa\u00e7\u00e3o que deriva do fervor, para faz\u00ea-lo feliz e dizer, como dizia Charles de Foucauld: &#8220;A tua felicidade, Jesus, me basta!&#8221;; isto \u00e9: basta-me que sejas feliz. Jesus tem a eternidade \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o para nos fazer felizes; n\u00f3s s\u00f3 temos apenas este breve espa\u00e7o de tempo para o fazer feliz: como podemos resignar-nos a perder esta oportunidade que nunca mais voltar\u00e1?<\/p>\n<p>Contemplando Jesus no sacramento do altar, damo-nos conta da profecia feita no momento da morte de Jesus na cruz: &#8220;Olhar\u00e3o para Aquele que trespassaram&#8221; (Jo 19, 37). De fato, tal contempla\u00e7\u00e3o \u00e9 em si mesma uma profecia, porque antecipa o que faremos para sempre na Jerusal\u00e9m celestial. \u00c9 a atividade mais escatol\u00f3gica e prof\u00e9tica que se pode realizar na Igreja. No fim, o Cordeiro n\u00e3o ser\u00e1 mais imolado, nem a sua carne ser\u00e1 comida. Isto \u00e9, a consagra\u00e7\u00e3o e a comunh\u00e3o cessar\u00e3o; mas a contempla\u00e7\u00e3o do Cordeiro imolado por n\u00f3s n\u00e3o cessar\u00e1. Isto \u00e9 o que os santos fazem no c\u00e9u (cf. Ap 5,1 ss.). Quando estamos diante do tabern\u00e1culo, j\u00e1 formamos um \u00fanico coro com a Igreja l\u00e1 em cima: eles diante de n\u00f3s, por assim dizer, atr\u00e1s do altar; eles na vis\u00e3o, n\u00f3s na f\u00e9.<\/p>\n<p>Em 1967 come\u00e7ou a Renova\u00e7\u00e3o Carism\u00e1tica Cat\u00f3lica que em cinquenta anos tocou e renovou milh\u00f5es de crentes e despertou in\u00fameras novas realidades, tanto pessoais como comunit\u00e1rias.<\/p>\n<p>Nunca \u00e9 demais insistir que n\u00e3o se trata de um movimento eclesial, no sentido comum do termo; \u00e9 uma corrente de gra\u00e7a destinada a toda a Igreja, uma &#8220;inje\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo&#8221; que ela precisa desesperadamente. \u00c9 como um choque el\u00e9trico destinado a se descarregar sobre a massa que \u00e9 a Igreja e, uma vez que isso tenha acontecido, desaparecer. Menciono esta realidade aqui porque come\u00e7ou com uma extraordin\u00e1ria experi\u00eancia de adora\u00e7\u00e3o do Deus vivo que foi o tema desta nossa medita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O grupo de estudantes da Universidade Duquesne de Pittsburgh, que participou do primeiro retiro, encontrou-se uma noite na capela em frente ao Sant\u00edssimo Sacramento, quando, de repente, aconteceu algo inusitado, que um deles descreveu mais tarde assim:<\/p>\n<p>&#8220;O temor do Senhor come\u00e7ou a fluir entre n\u00f3s; uma esp\u00e9cie de terror sagrado impedia-nos de levantar os olhos. Ele estava l\u00e1 pessoalmente presente e n\u00f3s t\u00ednhamos medo de n\u00e3o conseguirmos ficar de p\u00e9 diante do seu excessivo amor. O adoramos, descobrindo pela primeira vez o que significa adorar. Tivemos uma experi\u00eancia ardente da terr\u00edvel realidade e presen\u00e7a do Senhor. Desde ent\u00e3o, compreendemos com uma nova e direta clareza as imagens de Jahweh que, no Monte Sinai, troveja e explode com o fogo do seu pr\u00f3prio ser; compreendemos a experi\u00eancia de Isa\u00edas e a afirma\u00e7\u00e3o de que o nosso Deus \u00e9 um fogo devorador. Este sagrado temor era, de alguma forma, a mesma coisa que amor, ou assim era sentido por n\u00f3s. Era algo extremamente am\u00e1vel e belo, embora nenhum de n\u00f3s visse qualquer imagem sens\u00edvel. Era como se a realidade pessoal de Deus, gloriosa e deslumbrante, tivesse entrado na sala enchendo-a e a n\u00f3s juntos.[8]\u201d<\/p>\n<p>Simult\u00e2nea presen\u00e7a de majestade e de bondade em Deus, de temor e amor na criatura; o &#8220;mist\u00e9rio tremendo e fascinante&#8221;, como o definem os estudiosos das religi\u00f5es. A pessoa que descreveu nesses termos a experi\u00eancia daquele momento n\u00e3o sabia que estava fazendo uma s\u00edntese perfeita dos tra\u00e7os que caracterizam o Deus vivo da B\u00edblia, e isso torna seu testemunho ainda mais convincente. Quando, no encontro no Est\u00e1dio Ol\u00edmpico de 2015, o Papa Francisco instou a Renova\u00e7\u00e3o Carism\u00e1tica a adorar, pensei imediatamente na sua origem.<\/p>\n<p>Terminamos com um verso do Salmo 95 com o qual a Liturgia das Horas, no Invitat\u00f3rio, nos convida a comen\u00e7ar um novo dia:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>\u201cVinde, inclinemo-nos em adora\u00e7\u00e3o,<\/em><br \/>\n<em>De joelhos diante do Senor que nos criou.<\/em><br \/>\n<em>Ele \u00e9 nosso Deus; n\u00f3s somos o povo de que ele \u00e9 o pastor,<\/em><br \/>\n<em>As ovelhas que as suas m\u00e3os conduzem\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o Th\u00e1cio Siqueira<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>[1] Fontes Franciscanas, nr. 213.<br \/>\n[2] Cf Ap 19,10; 22,9; At 10, 25-26; 14,13 s..<br \/>\n[3] S. Gregorio Nazianzeno, Carmi, 29 (PG 37, 507).<br \/>\n[4] Dionigi Areopagita, Teologia mistica, 3 (PG 3, 1033).<br \/>\n[5] Missal Romano, IV Pref\u00e1cio comum.<br \/>\n[6] Friederich Nietzsche, La Gaia scienza, nr. 135.<br \/>\n[7] Giuseppe Ungaretti, Vita d\u2019un uomo: 106 poesie, Milano, Mondadori 1988, p. 72.<br \/>\n[9] In The Spirit and the Church, ed. Organizado por R. Martin, New York 1976, p.16).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cidade do Vaticano -Frei\u00a0Raniero Cantalamessa, Pregador oficial da Casa Pontif\u00edcia, continuou, na manh\u00e3 desta sexta-feira (05\/4), na Capela \u201cRedemptoris Mater\u201d, no Vaticano, as suas medita\u00e7\u00f5es de Quaresma, das quais participam o Santo Padre e a C\u00faria Roma.\u00a0Nesta quarta prega\u00e7\u00e3o, do per\u00edodo quaresmal, o Capuchinho continuou a aprofundar o tema: \u201cVoltar para dentro de si mesmo\u201d, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":202298,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1428],"tags":[1154],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Frei Cantalamessa: \u201cAdorar\u00e1s ao Senhor teu Deus!\u201d - Not\u00edcias - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/frei-cantalamessa-adoraras-ao-senhor-teu-deus.html\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Frei Cantalamessa: \u201cAdorar\u00e1s ao Senhor teu Deus!\u201d - 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