{"id":201398,"date":"2019-03-12T11:12:15","date_gmt":"2019-03-12T14:12:15","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/?p=201398"},"modified":"2019-03-12T13:34:32","modified_gmt":"2019-03-12T16:34:32","slug":"cortella-passei-a-ter-amor-pela-filosofia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/cortella-passei-a-ter-amor-pela-filosofia.html","title":{"rendered":"Cortella: &#8220;Passei a ter amor pela filosofia&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-201399\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_1.jpg\" alt=\"\" width=\"890\" height=\"582\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_1.jpg 890w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_1-450x294.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_1-768x502.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_1-150x98.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 890px) 100vw, 890px\" \/><\/p>\n<p><strong>Moacir Beggo<\/strong><\/p>\n<p><strong>S\u00e3o Paulo (SP)<\/strong> &#8211; No lan\u00e7amento do livro &#8220;Filosofia: e n\u00f3s com isso?&#8221;, o 13\u00ba pela Editora Vozes e o 40\u00ba de sua carreira, o escritor e fil\u00f3sofo Mario Sergio Cortella disse que a filosofia n\u00e3o \u00e9 a paix\u00e3o de sua vida. Diante de um p\u00fablico que lotou o Teatro FAAP na noite desta segunda-feira (11\/3), ele explicou melhor: &#8220;Pouco a pouco fui serenando a paix\u00e3o pela filosofia e passei a ter amor por ela. E o amor leva ao cuidado. A paix\u00e3o leva ao descuidado. Se tivesse paix\u00e3o pela filosofia eu iria dela me descuidar. Ent\u00e3o, nesse sentido, o amor cuida. E sempre lembro: quem ama n\u00e3o desiste. E eu amo a filosofia&#8221;.<\/p>\n<p>O novo livro de Cortella foi apresentado pelo diretor presidente da Editora Vozes, Frei Gilberto Garcia, que manifestou a sua alegria por este momento. &#8220;N\u00f3s temos a felicidade, com o selo Nobilis da Vozes, de ter um autor que pode trazer ao mundo a filosofia de uma forma bastante simplificada, o que n\u00e3o significa dizer banalizada. A base desta obra est\u00e1 em dizer que a filosofia est\u00e1 presente em todo ordenamento da sociedade. Essa obra \u00e9 acess\u00edvel a todos os p\u00fablicos, de todas as idades, de uma forma prazerosa e muito \u00fatil&#8221;, comemorou Frei Gilberto.<\/p>\n<p>O evento, em forma de <em>talk show<\/em>, foi transmitido pela R\u00e1dio CBN e teve como mediadora a jornalista Fab\u00edola Cidral, que durante uma hora conversou com Cortella sobre os principais temas do seu novo livro. No final, o autor garantiu aut\u00f3grafos para todos os participantes.<\/p>\n<p><em>ACOMPANHE A SEGUIR OS PRINCIPAIS TEMAS ABORDADOS NESTA CONVERSA COM CORTELLA!<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-201400\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_2.jpg\" alt=\"\" width=\"890\" height=\"590\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_2.jpg 890w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_2-450x298.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_2-768x509.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_2-150x99.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 890px) 100vw, 890px\" \/><\/p>\n<h2><strong>A FILOSOFIA EXPLICA OU CONFUNDE? <\/strong><\/h2>\n<p><strong>Cortela:<\/strong> Ambas as coisas. No entanto, trata-se de uma confus\u00e3o que \u00e9 boa, que impede que a gente tome decis\u00f5es precipitadas, imediatistas. \u00c9 aquela que faz com que voc\u00ea reflita um pouco e impede voc\u00ea de ter aquela rea\u00e7\u00e3o intempestiva. Ela pode ser boa como resultado. A filosofia deve funcionar como um alerta. Nessa hora, a filosofia n\u00e3o \u00e9 aquela que indica todos os caminhos. H\u00e1 uma frase antiga na nossa \u00e1rea que diz que a filosofia \u00e9 como o farol no mar. Ele n\u00e3o diz para onde voc\u00ea vai, mas indica que h\u00e1 perigos. N\u00e3o d\u00e1 a rota. Ele diz apenas que voc\u00ea precisa se acautelar. E, neste sentido, a filosofia precisa, sim, criar obst\u00e1culos e vez ou outra confundir. Ou seja, n\u00e3o deixar que tudo pare\u00e7a t\u00e3o f\u00e1cil. Ou de outro modo, que tudo pare\u00e7a t\u00e3o \u00f3bvio.<\/p>\n<p>Nem tudo pode ser olhado de modo t\u00e3o \u00f3bvio. Por exemplo, quem criou a palavra filosofia foi um matem\u00e1tico. Ele \u00e9 o primeiro a us\u00e1-la para impedir que pessoas que se dedicavam ao pensamento como fil\u00f3sofos fossem chamados de s\u00e1bios. Porque Pit\u00e1goras era um s\u00e1bio. Ele queria dizer que n\u00e3o era um s\u00e1bio, mas um amigo da sabedoria. Eu sou algu\u00e9m que tem afeto pelo conhecimento. Eu sou algu\u00e9m que tem uma liga\u00e7\u00e3o amorosa com aquilo que \u00e9 um pensamento.<\/p>\n<p>A ideia de filosofia vem nesta perspectiva de dizer eu sou um s\u00e1bio. Ou seja, n\u00e3o sou algu\u00e9m que j\u00e1 sabe todas as coisas. Eu sou algu\u00e9m que tenho um afeto pelo conhecimento. Eu cuido e quero cuidar. Portanto, a express\u00e3o na sua origem nasce apoiada na no\u00e7\u00e3o de humildade intelectual. N\u00e3o \u00e9 casual que &#8211; e eu trato disso no livro &#8211; o grande S\u00f3crates, que vem ap\u00f3s Pit\u00e1goras, ficou conhecido como algu\u00e9m que anunciou uma frase que n\u00e3o era dele e que repetia sempre: &#8220;S\u00f3 sei que nada sei&#8221;. \u00c9 estranho que S\u00f3crates, um ateniense considerado o mais s\u00e1bio dos atenienses no s\u00e9culo 5 a.C, dissesse isso. Parece mod\u00e9stia fingida, mas n\u00e3o era. A frase enunciada por ele significa que &#8220;s\u00f3 sei que nada sei por inteiro&#8221;, &#8220;s\u00f3 sei que nada sei por completo&#8221;, &#8220;s\u00f3 sei que nada sei que s\u00f3 eu saiba&#8221;, &#8220;s\u00f3 sei que nada sei que um dia possa vir a saber&#8221;.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-201401\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_3.jpg\" alt=\"\" width=\"890\" height=\"486\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_3.jpg 890w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_3-450x246.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_3-768x419.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_3-150x82.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 890px) 100vw, 890px\" \/><\/p>\n<p>Mas fil\u00f3sofos arrogantes, petulantes, n\u00f3s os temos em larga escala. Quase sempre s\u00e3o pessoas que t\u00eam uma limita\u00e7\u00e3o mental muito grande. Porque arrog\u00e2ncia e filosofia n\u00e3o t\u00eam uma proximidade muito forte. Claro que eu posso ser arrogante. Posso usar a filosofia para humilhar as pessoas. Posso usar a filosofia para fazer com que voc\u00ea se entenda, por exemplo, como algu\u00e9m que nada sabe e que eu \u00e9 que sei. Mas isso \u00e9 pouco afeito \u00e0 tarefa filos\u00f3fica socr\u00e1tica. Nesse sentido, nasce a pergunta: &#8220;Filosofia, e n\u00f3s com isso?&#8221; No plural. E n\u00e3o &#8220;filosofia, e eu com isso&#8221;. No primeiro cap\u00edtulo do livro, &#8220;Filosofia, e eu com isso&#8221;, explico como a filosofia chegou at\u00e9 mim e como eu fui por ela possu\u00eddo. Nessa hora \u00e9 &#8220;eu com isso&#8221;, mas no geral \u00e9 &#8220;n\u00f3s com isso&#8221;.<\/p>\n<h2><strong>POSSO FILOSOFAR?<\/strong><\/h2>\n<p><strong>Cortella:<\/strong> A atitude filos\u00f3fica n\u00e3o \u00e9 um privil\u00e9gio, uma exclusividade daquele que \u00e9 formado na \u00e1rea da filosofia. H\u00e1 muita gente que atua como pensador no campo da filosofia e n\u00e3o fez gradua\u00e7\u00e3o na \u00e1rea. \u00c0s vezes, voc\u00ea discute: &#8220;Poxa, mas esse a\u00ed \u00e9 chamado de fil\u00f3sofo e n\u00e3o fez curso!&#8221;. N\u00e3o \u00e9 essa a quest\u00e3o. Do ponto de vista profissional, se voc\u00ea quiser olhar uma Carteira Profissional, \u00e9 claro que n\u00e3o tenho l\u00e1 registrado fil\u00f3sofo como DRT ou registro de trabalho, ali\u00e1s porque, quando tive a minha forma\u00e7\u00e3o, ser entendido como fil\u00f3sofo, era quase uma candidatura ao ex\u00edlio. Nesse sentido, essa express\u00e3o n\u00e3o tinha todo esse peso.<\/p>\n<p>O pensador ou a pensadora \u00e9 algu\u00e9m que se dedica a meditar sobre a vida. At\u00e9 h\u00e1 alguns anos, a gente recusava o termo e muitos colegas, homens e mulheres, recusam o termo por considerar muito pedante. N\u00e3o porque s\u00e3o pessoas que querem fingir mod\u00e9stia, mas porque acham que o termo mais correto seria falar professor de filosofia. Fil\u00f3sofo seria um termo muito elevado. No entanto, em fun\u00e7\u00e3o do mundo digital, do mundo da m\u00eddia, nos \u00faltimos 20 anos, parte de n\u00f3s que se dedica \u00e0s atividades no campo da filosofia, da pesquisa, da escrita, da reflex\u00e3o, da hist\u00f3ria, passou a se chamar de fil\u00f3sofo. Perdeu o pudor. Aceita-se como se chama algu\u00e9m de soci\u00f3logo, de antrop\u00f3logo etc.<\/p>\n<p>Fui estudar filosofia no in\u00edcio dos anos 70. Dos muitos conselhos que meu pai deu, eu segui v\u00e1rios, mas um, n\u00e3o: &#8220;N\u00e3o fa\u00e7a filosofia&#8221;! Ele perguntava: &#8220;Voc\u00ea vai viver de qu\u00ea?&#8221; Eu disse: &#8220;De filosofia&#8221;! Claro, ele era diretor de banco, minha m\u00e3e era professora e eu um garoto de 17 anos de idade. E depois n\u00e3o s\u00f3 queria fazer filosofia mas tamb\u00e9m uma experi\u00eancia religiosa. Acabei entrando no Convento dos Carmelitas Descal\u00e7os, onde fiz uma experi\u00eancia mon\u00e1stica de tr\u00eas anos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-201402\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_4.jpg\" alt=\"\" width=\"890\" height=\"542\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_4.jpg 890w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_4-450x274.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_4-768x468.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_4-150x91.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 890px) 100vw, 890px\" \/><\/p>\n<h2><strong>RELIGI\u00c3O X FILOSOFIA<\/strong><\/h2>\n<p><strong>Cortella:<\/strong> Sou de uma fam\u00edlia religiosa cat\u00f3lica e queria fazer uma experi\u00eancia intensa. Eu n\u00e3o queria olhar a religi\u00e3o com superficialidade. Eu falei: o melhor modo de olhar \u00e9 estando dentro da vida religiosa monacal. Fazer filosofia foi algo decisivo na minha forma\u00e7\u00e3o. No clero cat\u00f3lico \u00e9 necess\u00e1rio fazer filosofia e depois teologia como gradua\u00e7\u00e3o. Um tempo longo de estudos. Muita gente questiona se a filosofia n\u00e3o vai tirar a f\u00e9. A mim n\u00e3o tirou. O estudo da filosofia me marcou mais pela necessidade de ter um pensamento mais meditado, mais estruturado, mais sistem\u00e1tico. E a religi\u00e3o tem essa possibilidade tamb\u00e9m. N\u00e3o podemos esquecer que uma boa parte dos pensadores, na \u00e1rea de filosofia, n\u00e3o tinham a marca do ate\u00edsmo, nem tinham a aus\u00eancia de uma pr\u00e1tica de religiosidade. O ate\u00edsmo metodol\u00f3gico &#8211; um termo t\u00e9cnico que a gente usa &#8211; ser\u00e1 mais caracter\u00edstico do s\u00e9culo 18 ou 19. Se voc\u00ea olhar quando S\u00f3crates faz o enunciado em rela\u00e7\u00e3o ao que \u00e9 a base da filosofia socr\u00e1tica &#8211; &#8220;conhece-te a ti mesmo&#8221; &#8211; ver\u00e1 que \u00e9 algo tomado do templo de Apolo. Ele anuncia como uma orienta\u00e7\u00e3o de Apolo. Portanto, filosofia e religi\u00e3o andaram de bra\u00e7os dados por muito tempo. Elas ainda o fazem. N\u00e3o \u00e9 que <em>muita<\/em> filosofia o afasta e <em>pouca<\/em> o deixa dentro. \u00c9 que uma pessoa que tem uma religi\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 meditada, que n\u00e3o \u00e9 consciente, n\u00e3o \u00e9 aut\u00f4noma, ela se enfraquecer\u00e1. E isso vale para qualquer coisa. N\u00e3o precisa ser filosofia, pode ser psicologia, f\u00edsica, cosmologia. Tem gente que \u00e9 tonta, tem gente que n\u00e3o \u00e9 (<em>risos<\/em>). Tem gente que \u00e9 tonta na filosofia, na pol\u00edtica, na imprensa, em qualquer lugar. E tem gente tonta na religi\u00e3o. Portanto, n\u00e3o \u00e9 a filosofia que o tira ou o coloca no campo religioso. Ela poder\u00e1 dar mais fundamento para que voc\u00ea permane\u00e7a. Eu, por exemplo, n\u00e3o sa\u00ed do convento porque estava estudando filosofia; eu sa\u00ed porque achei que a minha experi\u00eancia estava completa no que desejava. Eu queria ir para a doc\u00eancia.<\/p>\n<h2><strong>RELIGI\u00c3O X RELIGIOSIDADE<\/strong><\/h2>\n<p><strong>Cortella:<\/strong> Religiosidade \u00e9 a sua percep\u00e7\u00e3o finda de que a vida n\u00e3o \u00e9 finda e que voc\u00ea o \u00e9. Mas que a vida n\u00e3o \u00e9 in\u00fatil, n\u00e3o \u00e9 descart\u00e1vel. Ela n\u00e3o pode ser banal. A religiosidade d\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de rever\u00eancia \u00e0 vida. A vida \u00e9 um mist\u00e9rio da qual a gente faz parte: n\u00e3o sabe por que veio, n\u00e3o sabe por que vai, n\u00e3o quer ir, mas tamb\u00e9m n\u00e3o quer ficar. N\u00f3s fazemos parte desse mist\u00e9rio que liga voc\u00ea a mim e a tudo aquilo que povoa nossa exist\u00eancia. N\u00f3s temos uma rever\u00eancia. A vida n\u00e3o pode ser s\u00f3 materialidade. Ela n\u00e3o pode ser apenas a pura teologia, a pura f\u00edsica, a pura qu\u00edmica. Isso tudo comp\u00f5e, mas n\u00e3o pode ser s\u00f3 isso. A esse sentimento de rever\u00eancia chamamos de religiosidade.\u00a0 Isto \u00e9, a percep\u00e7\u00e3o de que a vida n\u00e3o \u00e9 descart\u00e1vel nem banal. Ora, h\u00e1 pessoas que organizam a sua religiosidade com outras pessoas e formalizam os ritos, os cultos, os textos. A isso a gente chama de religi\u00e3o. O que \u00e9 a religi\u00e3o? \u00c9 a religiosidade formalizada.\u00a0 Por exemplo, muitos dos que aqui est\u00e3o, dos que nos ouvem, t\u00eam religiosidade mas n\u00e3o t\u00eam religi\u00e3o. Mas ningu\u00e9m que tenha religi\u00e3o deixa de ter religiosidade. \u00c9 imposs\u00edvel religi\u00e3o sem religiosidade. Mas \u00e9 poss\u00edvel religiosidade sem religi\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-201403\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319.jpg\" alt=\"\" width=\"890\" height=\"588\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319.jpg 890w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319-450x297.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319-768x507.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319-150x99.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 890px) 100vw, 890px\" \/><\/p>\n<h2><strong>ESPIRITUALIDADE<\/strong><\/h2>\n<p><strong>Cortella:<\/strong> A espiritualidade e a religiosidade podem ser colocadas como sin\u00f4nimos dos tempos de hoje. A\u00ed eu volto \u00e0 quest\u00e3o: Por que a gente coloca isso no livro? Por que hoje no mundo, a tecnologia da comunica\u00e7\u00e3o global, da velocidade da informa\u00e7\u00e3o, acabou gerando algumas ang\u00fastias: por que \u00e9 que estou fazendo isso? Qual o sentido da exist\u00eancia? Por que estou dando esses passos e n\u00e3o outros? Ser\u00e1 que a minha vida \u00e9 apenas uma sucess\u00e3o de <em>likes<\/em> at\u00e9 um dia em que o criador <em>deslaika<\/em> (risos). Ser\u00e1 que a exist\u00eancia \u00e9 para isso? Essa superficialidade, em v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es, essa exposi\u00e7\u00e3o que confunde abund\u00e2ncia com desperd\u00edcio, essa vida que \u00e9 sempre uma consumolatria desesperada, em que eu n\u00e3o consigo ter um pouco de paz e serenidade, isso conduziu algumas pessoas a pensarem o pr\u00f3prio sentido da exist\u00eancia. E a filosofia, n\u00e3o por acaso, \u00e9 uma procura sobre o sentido da exist\u00eancia na dupla acep\u00e7\u00e3o da palavra sentido. S<em>entido como significado e sentido como dire\u00e7\u00e3o<\/em>. Hoje a espiritualidade, em fun\u00e7\u00e3o at\u00e9 desse <em>tsumani<\/em> informacional que temos no cotidiano e esse modo de abafamento que a tecnologia &#8211; que \u00e9 exuberante e que nos encanta, que nos favorece mas tamb\u00e9m nos domina, nos possui em v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es &#8211; vem com uma grande indaga\u00e7\u00e3o. \u00c9 a filosofia como obst\u00e1culo. Epa, por que assim? Por que nessa dire\u00e7\u00e3o? Nesse sentido, o pensamento cl\u00e1ssico da filosofia nos ajuda a pensar o agora e uma das coisas do tempo cl\u00e1ssico \u00e9 exatamente a percep\u00e7\u00e3o sobre o sentido: por que sim, por que n\u00e3o?<\/p>\n<p>Para algumas pessoas, a espiritualidade des\u00e1gua na religi\u00e3o; para outras, o percurso n\u00e3o \u00e9 necessariamente esse. \u00c9 poss\u00edvel ter uma dimens\u00e3o espiritual sem uma pr\u00e1tica religiosa exclusiva.<\/p>\n<h2><strong>A FILOSOFIA N\u00c3O ENSINA A PENSAR<\/strong><\/h2>\n<p><strong>Cortella:<\/strong> Sim, porque voc\u00ea nasce &#8211; quase todos nascem &#8211; com a capacidade de pensar (<em>risos<\/em>). Uma das coisas boas \u00e9 exatamente que voc\u00ea n\u00e3o aprende a pensar com a filosofia. Alguns dizem assim: mas a filosofia ensina a pensar de forma cr\u00edtica. Nem sempre. O nazismo tinha e tem os seus fil\u00f3sofos; o fascismo tem e tinha seus fil\u00f3sofos. A filosofia ajuda a pensar de modo cr\u00edtico quando ela n\u00e3o quer gerar em voc\u00ea uma situa\u00e7\u00e3o de aprisionamento da sua mente. Eu sempre digo que a regra b\u00e1sica da filosofia \u00e9: <em>pense nisso<\/em>, em vez de <em>pense isso<\/em>. <em>Pense isso<\/em> \u00e9 sair daquilo que \u00e9 a rota de uma filosofia aut\u00eantica. <em>Pense nisso<\/em>, isto \u00e9, reflita. Gosto de lembrar um fato que aconteceu durante um evento em que fui palestrante a mais ou menos duas mil enfermeiras. Quando se abriu a conversa, uma enfermeira levantou a m\u00e3o e disse assim: &#8220;Professor, posso fazer uma pergunta?&#8221; Disse: &#8220;claro!&#8221; &#8220;Professor, o que o sr. quer que fale no seu vel\u00f3rio?&#8221;. Eu dei uma volta, falei, fui at\u00e9 Arist\u00f3teles, Plat\u00e3o, Her\u00e1clito, puxei para o teatro, voltei, fui at\u00e9 Kant. Fiquei uns seis minutos falando, porque se tratava de uma pergunta dif\u00edcil. Eu pensei: &#8220;vou dar o troco&#8221;: &#8220;E voc\u00ea, o que quer que se fale no seu vel\u00f3rio?&#8221; Ela disse: &#8220;Quero que se fale assim: nossa, ela t\u00e1 se mexendo!&#8221; (<em>risos<\/em>). Por que eu conto essa hist\u00f3ria? Porque a simplicidade, muitas vezes, carrega respostas mais intensas do que aquilo que se imaginava. Nesse sentido, a filosofia n\u00e3o pode ser simpl\u00f3ria. A filosofia n\u00e3o pode ser banalizada, n\u00e3o pode ser rasteira. Mas ela n\u00e3o pode ser, de modo algum, sofisticada a ponto de n\u00e3o ser compreens\u00edvel. Uma das tarefas que coloquei a mim, como professor de filosofia, foi de fazer com que o pensamento filos\u00f3fico mantivesse o seu encanto. Os grandes fil\u00f3sofos, nas origens do Ocidente, falavam nas pra\u00e7as. A grande pra\u00e7a hoje \u00e9 o mundo digital, o mundo da TV, o mundo do r\u00e1dio, o mundo da internet. Eu me coloquei, eu e outras pessoas, propositadamente nesse mundo. \u00c0s vezes, dizem: &#8220;Ah, mas isso banaliza a filosofia&#8221;. S\u00f3 banaliza se a gente fizer de modo banal. Mas se voc\u00ea traz as pessoas para aquele territ\u00f3rio da medita\u00e7\u00e3o, da reflex\u00e3o, em que voc\u00ea diz: <em>pense nisso em vez de ser doutrin\u00e1rio<\/em>, isso n\u00e3o acontece.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-201404\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_5.jpg\" alt=\"\" width=\"890\" height=\"380\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_5.jpg 890w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_5-450x192.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_5-768x328.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_5-150x64.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 890px) 100vw, 890px\" \/><\/p>\n<h2><strong>A FILOSOFIA FAZ QUESTIONAR?<\/strong><\/h2>\n<p><strong>Cortella:<\/strong> Bastante. Eu lembro sempre que eu tenho para a filosofia um amor. Um amor pelo conhecimento. Mas j\u00e1 tive paix\u00e3o pela filosofia. E \u00e9 muito perigoso isso, porque a paix\u00e3o \u00e9 a suspens\u00e3o tempor\u00e1ria do ju\u00edzo. Quando voc\u00ea est\u00e1 apaixonado (a) por algo ou por algu\u00e9m, voc\u00ea perde o ju\u00edzo. Quando voc\u00ea est\u00e1 apaixonado por uma ideia, por um projeto, por um objeto, por uma pessoa &#8211; claro que a paix\u00e3o \u00e9 deliciosa -, essa paix\u00e3o tem que ser transformada em amor. A paix\u00e3o transforma. A paix\u00e3o faz com que voc\u00ea perca a sua refer\u00eancia. A paix\u00e3o suspende o tempo, ela suspende a sua no\u00e7\u00e3o de localiza\u00e7\u00e3o. Eu, \u00e0s vezes, estou na Universidade e passo pelos corredores e vejo um casal se beijando de um modo t\u00e3o intenso, t\u00e3o profundo, que n\u00e3o tenho inveja naquele momento. Eu tenho admira\u00e7\u00e3o. Por uma raz\u00e3o simples. Tanto faz onde eles est\u00e3o; parece que n\u00e3o existe nem o corredor, nem o lugar, nem o tempo, nem a hora. Eles est\u00e3o sozinhos no universo. E olhando aquilo fico imaginando o quanto a paix\u00e3o, se ela continuar, vai liquid\u00e1-los. Por que eles n\u00e3o v\u00e3o conseguir fazer mais nada (<em>risos<\/em>). A paix\u00e3o consome. Por isso, quando uma pessoa diz: <em>eu sou apaixonado por futebo<\/em>l, digo: &#8220;Tome cuidado!&#8221; Ou diz: <em>Sou apaixonado por essa idei<\/em>a. Digo: &#8220;Cautela!&#8221;<\/p>\n<h2><strong>PAIX\u00c3O X AMOR<\/strong><\/h2>\n<p><strong>Cortella:<\/strong> Voc\u00ea tem que amansar a paix\u00e3o e faz\u00ea-la se transformar em amor. Por exemplo, a paix\u00e3o \u00e9 um fogo que d\u00e1 energia, mas se ele persiste, ele o consome. \u00c9 gostoso, porque \u00e9 o ponto de partida, mas ele n\u00e3o pode ser o ponto de chegada. Eu j\u00e1 fui apaixonado pela filosofia e a\u00ed n\u00e3o conseguia pensar fora de alguns elementos que a filosofia carrega. Pouco a pouco fui serenando a paix\u00e3o pela filosofia e passei a ter amor pela filosofia. E o amor te leva ao cuidado. A paix\u00e3o \u00e9 o descuidado. A paix\u00e3o faz com que voc\u00ea esque\u00e7a at\u00e9 que precisa preservar aquilo que est\u00e1 contigo. Se eu tivesse paix\u00e3o pela filosofia, ia dela se descuidar. Ent\u00e3o, nesse sentido, o amor cuida. E eu sempre lembro: quem ama n\u00e3o desiste. E eu amo a filosofia. Se eu fosse apaixonado at\u00e9 agora, talvez tivesse me consumido e consumido a ela. Por mais que seja apraz\u00edvel dizer que a paix\u00e3o \u00e9 boa, ela continua me capturando \u00e0s vezes para me dar energia, dar uma sacudida.<\/p>\n<p>Os \u00e1rabes t\u00eam um ditado interessante. Eles dizem: &#8220;Homens s\u00e3o como tapetes. \u00c0s vezes precisam ser sacudidos&#8221;. \u00c0s vezes, voc\u00ea precisa sacudir um tapete para tirar toda a poeira que tem nele. A filosofia, \u00e0s vezes, nos sacode. E, claro, at\u00e9 hoje\u00a0 fico inquieto com algumas coisas do nosso cotidiano. Por exemplo, o mundo da tecnologia, ele me encanta, mas ele me deixa tamb\u00e9m desconfiado. Vivemos uma realidade em que estamos todos juntos, mas ningu\u00e9m est\u00e1 perto. Vivemos em um territ\u00f3rio que a gente n\u00e3o tem tanta proximidade. A gente consegue uma forma de conex\u00e3o mas n\u00e3o necessariamente de afeto coletivo, de cuidado. Nessa hora\u00a0 vem \u00e0 tona aquilo que dizia o meu fil\u00f3sofo predileto, Descartes, sobre o fil\u00f3sofo: algu\u00e9m que tem p\u00e9s de chumbo e asas. Isto \u00e9, p\u00e9s de chumbo para n\u00e3o tir\u00e1-los do ch\u00e3o, da realidade, e asas para voar um pouco e ver acima.<\/p>\n<h2><strong>N\u00c3O CAIR NO FRACASSO<\/strong><\/h2>\n<p><strong>Cortella:<\/strong> Eu menciono sempre um grande pensador brit\u00e2nico do s\u00e9culo 8\u00ba, o Vener\u00e1vel Beda, um monge cat\u00f3lico. Ele dizia que h\u00e1 tr\u00eas caminhos para o fracasso: 1. N\u00e3o ensinar o que se sabe; 2. N\u00e3o praticar o que se ensina; 3. N\u00e3o perguntar o que se ignora. Dizendo de um modo positivo, h\u00e1 tr\u00eas caminhos para o sucesso, isto \u00e9: 1.Ensinar o que\u00a0 se sabe, isto \u00e9, generosidade mental; 2. Praticar o que se ensina, isto \u00e9, coer\u00eancia \u00e9tica; e 3. perguntar o que se ignora, isto \u00e9, humildade intelectual. S\u00e3o tr\u00eas trilhas para que a vida n\u00e3o seja banal, descart\u00e1vel, para que a filosofia seja contributiva. E funciona. Embora eu goste mais de um guia que serve muito para o Brasil, n\u00e3o s\u00f3 para n\u00f3s que aqui estamos. Trata-se da s\u00edntese do pensamento de Emanuel Kant, um fil\u00f3sofo do s\u00e9culo 18, sobre reflex\u00f5es \u00e9ticas, que poderiam ser sintetizadas em uma frase: &#8220;Tudo que n\u00e3o puder contar como fez, n\u00e3o fa\u00e7a&#8221;. Ele\u00a0 n\u00e3o est\u00e1 falando contra o sigilo, contra o segredo, contra a privacidade; ele est\u00e1 falando contra a vergonha. Tudo\u00a0 que n\u00e3o puder contar como fez, n\u00e3o fa\u00e7a.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-201405\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_6.jpg\" alt=\"\" width=\"890\" height=\"668\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_6.jpg 890w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_6-450x338.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_6-768x576.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cortella_120319_6-150x113.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 890px) 100vw, 890px\" \/><\/p>\n<h2><strong>QUE ENSINAMENTOS TIRAR DESTE TEMPO POLARIZADO?<\/strong><\/h2>\n<p><strong>Cortella:<\/strong>\u00a0H\u00e1 v\u00e1rios ensinamentos. O primeiro \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o precisa gritar. Todas as vezes que voc\u00ea precisa gritar \u00e9 porque n\u00e3o tem argumento. N\u00f3s temos hoje um modo muito ruim de fazer a pol\u00edtica que \u00e9 a ret\u00f3rica furiosa. \u00c9 aquela que voc\u00ea, em vez de argumentar, em vez de raciocinar, de levar em conta o que aquela pessoa est\u00e1 dizendo, voc\u00ea grita, come\u00e7a a xingar, diz que &#8220;\u00e9 isso&#8221;, &#8220;que fez isso&#8221;, &#8220;que pensa assim&#8221; e n\u00e3o sustenta a reflex\u00e3o. Isso n\u00e3o \u00e9 filosofia. A filosofia \u00e9 um pensamento argument\u00e1vel, racional, sistem\u00e1tico. Ela n\u00e3o \u00e9 uma ret\u00f3rica furiosa. Como, por exemplo, quando diz: &#8220;Voc\u00ea fala isso porque est\u00e1 possu\u00eddo pelo dem\u00f4nio&#8221; (<em>risos<\/em>). A filosofia serve para alertar que a aus\u00eancia de argumentos e aus\u00eancia da capacidade de ouvir argumentos que eu n\u00e3o tinha, leva ao grito. Como n\u00e3o tenho a racionalidade ao meu lado, eu berro, para ver se assusto o outro. Qualquer um que \u00e9 pai ou m\u00e3e &#8211; eu sou pai e sou av\u00f4 &#8211; sabe que quando n\u00e3o se tem argumento, grita-se. E ainda diz uma coisa que \u00e9 absolutamente amea\u00e7adora: &#8220;C\u00ea vai ver!&#8221; (<em>risos<\/em>).<\/p>\n<p>S\u00e3o pensamentos circulares que n\u00e3o saem do lugar. Hegel, do s\u00e9culo 19, diz que quando voc\u00ea exagera no argumento prejudica a causa. Se eu sou algu\u00e9m que milito no campo da pol\u00edtica, uma pessoa conservadora, em que sou avesso a alguns modos da vida moral, eu preciso ter argumentos para sustentar e convencer as pessoas. Em vez de venc\u00ea-las, tenho que convenc\u00ea-las. N\u00e3o adianta cham\u00e1-las de idiotas.<\/p>\n<p>Outro dia, chegando a Porto Alegre, tr\u00eas jornalistas vieram falar comigo: &#8220;Olha, um outro pensador disse que o sr. \u00e9 um analfabeto funcional&#8221;. Eu disse: &#8220;Isso \u00e9 uma pesquisa cient\u00edfica ou uma opini\u00e3o?&#8221; Opini\u00e3o. Ent\u00e3o, tudo bem. Se fosse uma pesquisa cient\u00edfica, teria que tomar uma atitude. N\u00e3o basta dizer que eu sou um analfabeto funcional. Tem que me provar. E tem que provar mostrando que escrevo mal, que falo mal, por isso, por aquilo, etc.<\/p>\n<p>Hoje temos essa histeria que \u00e9 a recusa ao mundo intelectual,\u00a0 desprezo \u00e0 cultura letrada. \u00c9 um perigo e estamos vivendo um pouco isso. A filosofia ajuda a pensar naquilo que a pol\u00edtica como argumenta\u00e7\u00e3o procura o consenso. O consenso n\u00e3o \u00e9 a derrota de quem n\u00e3o teve a sua ideia vitoriosa. O consenso \u00e9 a possibilidade de quem n\u00e3o teve a sua ideia vitoriosa imaginar que isso n\u00e3o \u00e9 definitivo e poder\u00e1 ser em outro momento.<\/p>\n<p>Por isso, essa irracionalidade do nosso cotidiano n\u00e3o leva ningu\u00e9m ao sucesso, porque ela \u00e9 apenas algo que serve para que, nas redes sociais, se grite. \u00c0s vezes, me perguntam: &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o responde nada nas redes sociais? As pessoas te atacam&#8221;. H\u00e1 uma diferen\u00e7a entre opini\u00e3o e acusa\u00e7\u00e3o. Numa rede social, a pessoa pode dar sua opini\u00e3o \u00e0 vontade. &#8216;O Cortella \u00e9 idiota, escreve mal, n\u00e3o sabe falar&#8221; \u00e9 uma coisa. Se disser que eu sou &#8220;ped\u00f3filo, que sou corrupto, que sou ladr\u00e3o&#8221;, a\u00ed n\u00e3o \u00e9 opini\u00e3o, mas acusa\u00e7\u00e3o. Acusa\u00e7\u00e3o tem que provar. A ideia de um territ\u00f3rio livre em que voc\u00ea pode dar a sua opini\u00e3o \u00e0 vontade \u00e9 verdadeiro. O mundo digital permite isso. Mas \u00e9 preciso cautela ao fazer acusa\u00e7\u00f5es sem que haja argumentos! A filosofia nos lembra uma mensagem magn\u00edfica que foi trazida pelo grande poeta portugu\u00eas, Fernando Pessoa, quando ele nos alertava que &#8220;na v\u00e9spera de n\u00e3o partir nunca, ao menos n\u00e3o h\u00e1 que arrumar malas&#8221;. E h\u00e1 pessoas que, para n\u00e3o arrumar as malas mentais, preferem n\u00e3o partir nunca. E ficam na beira do cais xingando quem parte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lan\u00e7amento do livro &#8220;Filosofia, e n\u00f3s com isso&#8221;, de Mario Sergio Cortella.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":201406,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[238,1416],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Cortella: &quot;Passei a ter amor pela filosofia&quot; - Not\u00edcias - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/cortella-passei-a-ter-amor-pela-filosofia.html\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Cortella: &quot;Passei a ter amor pela filosofia&quot; - 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