{"id":199423,"date":"2019-02-04T15:40:17","date_gmt":"2019-02-04T17:40:17","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/?p=199423"},"modified":"2020-08-06T16:43:19","modified_gmt":"2020-08-06T19:43:19","slug":"oitocentos-anos-depois-um-novo-abraco-e-um-compromisso-com-a-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/oitocentos-anos-depois-um-novo-abraco-e-um-compromisso-com-a-paz.html","title":{"rendered":"Oitocentos anos depois, um novo abra\u00e7o e um compromisso com a paz"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-199424\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/hoje_040219_4.jpg\" alt=\"\" width=\"890\" height=\"501\" \/><\/p>\n<p>Oitocentos anos depois do encontro entre Francisco de Assis e o sult\u00e3o al-Malik al-K\u0101mil, o Papa que leva o nome do santo de Assis apresenta-se aos \u201cirm\u00e3os mu\u00e7ulmanos\u201d como um \u201ccrist\u00e3o sedento de paz\u201d. E, juntamente com o Grande Imame de Al-Azhar, assina uma Declara\u00e7\u00e3o destinada a marcar n\u00e3o s\u00f3 a hist\u00f3ria das rela\u00e7\u00f5es entre o Cristianismo e o Isl\u00e3, mas tamb\u00e9m a pr\u00f3pria hist\u00f3ria do mundo isl\u00e2mico. O Papa Francisco, inventor da express\u00e3o \u201cguerra mundial em peda\u00e7os\u201d, com esta viagem e este gesto se insere no caminho tra\u00e7ado pelos seus antecessores, dando um passo a mais.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, a partir do encontro de Assis em 1986 &#8211; quando sobre o mundo pairava a amea\u00e7a nuclear que, infelizmente, se pressente hoje &#8211; envolveu l\u00edderes religiosos para reafirmar que as diferentes religi\u00f5es devem promover a paz, a coexist\u00eancia, a fraternidade. Depois de 11 de setembro de 2001, quando o fundamentalismo terrorista voltou \u00e0 cena internacional de forma violenta, o anci\u00e3o Pont\u00edfice polon\u00eas fez todos os esfor\u00e7os para extirpar justifica\u00e7\u00f5es religiosas ao abuso do nome de Deus para justificar a viol\u00eancia, o terrorismo e a morte de homens, mulheres e crian\u00e7as inocentes.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-199425\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/hoje_040219_5.jpg\" alt=\"\" width=\"890\" height=\"501\" \/><\/p>\n<p>Bento XVI tamb\u00e9m percorreu o mesmo caminho ao longo de todo o seu pontificado. Em setembro de 2006, Papa Ratzinger disse aos l\u00edderes dos pa\u00edses mu\u00e7ulmanos: \u201c\u00c9 necess\u00e1rio que, fi\u00e9is aos ensinamentos das suas pr\u00f3prias tradi\u00e7\u00f5es religiosas, crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos devem aprender a trabalhar juntos, como j\u00e1 se verifica em diversas experi\u00eancias comuns, para evitar qualquer forma de intoler\u00e2ncia e se opor a todas as manifesta\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Hoje, o Papa Francisco assinou um documento no qual n\u00e3o s\u00f3 se rejeita firmemente qualquer justifica\u00e7\u00e3o para a viol\u00eancia cometida em nome de Deus, mas s\u00e3o feitas declara\u00e7\u00f5es importantes e vinculativas sobre o Isl\u00e3 e certas interpreta\u00e7\u00f5es do mesmo. As palavras relativas ao respeito pelos fi\u00e9is de diferentes religi\u00f5es, \u00e0 condena\u00e7\u00e3o de toda e qualquer discrimina\u00e7\u00e3o, \u00e0 necessidade de proteger todos os locais de culto e ao direito \u00e0 liberdade religiosa, bem como ao reconhecimento dos direitos das mulheres, constituem um empenho.<\/p>\n<p>O \u201cDocumento sobre a fraternidade humana pela paz mundial e a conviv\u00eancia comum\u201d, assinado na tarde desta segunda-feira (04\/02) em Abu Dhabi pelo Papa Francisco e o Gr\u00e3o Imame de Al-Azhar Ahmad Al-Tayyib, n\u00e3o \u00e9 apenas um passo fundamental nas rela\u00e7\u00f5es entre o cristianismo e o isl\u00e3, mas representa tamb\u00e9m uma mensagem com um forte impacto no cen\u00e1rio internacional. No pref\u00e1cio, depois de ter afirmado que \u00abA f\u00e9 leva o crente a ver no outro um irm\u00e3o a ser ajudado e amado\u00bb, fala-se deste texto como \u00abum documento elaborado com sinceridade e seriedade\u00bb, que convida \u00abtodas as pessoas que carregam no cora\u00e7\u00e3o a f\u00e9 em Deus e a f\u00e9 na fraternidade humana a se unirem e a trabalharem juntos\u00bb.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-199426\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/hoje_040219.jpg\" alt=\"\" width=\"890\" height=\"501\" \/><\/p>\n<p>O documento se abre com uma s\u00e9rie de invoca\u00e7\u00f5es: o Papa e o Gr\u00e3o Imame falam \u00abem nome de Deus que criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade\u00bb, \u00abem nome da inocente alma humana que Deus proibiu de matar\u00bb, \u00abEm nome dos pobres\u00bb, dos \u00ab\u00f3rf\u00e3os e das vi\u00favas, dos refugiados e dos exilados, de todas as v\u00edtimas das guerras\u00bb e \u00abdas persegui\u00e7\u00f5es\u00bb. Al-Azhar em conjunto com a Igreja Cat\u00f3lica \u00abdeclaram que adotam a cultura do di\u00e1logo como caminho; a colabora\u00e7\u00e3o comum como conduta; o conhecimento rec\u00edproco como m\u00e9todo e crit\u00e9rio\u00bb.<\/p>\n<p>Com o documento, \u00abpedimos a n\u00f3s mesmos e aos l\u00edderes do mundo, aos art\u00edfices da pol\u00edtica internacional e da economia mundial, para que se empenhem seriamente em difundir a cultura da toler\u00e2ncia, da conviv\u00eancia e da paz, para que intervenham, o quanto antes, para deter o derramamento de sangue inocente e acabar com as guerras, os conflitos, a degrada\u00e7\u00e3o ambiental e o decl\u00ednio cultural e moral que vive o mundo de hoje\u00bb.<\/p>\n<p>Os dois l\u00edderes religiosos pedem aos homens de religi\u00e3o e de cultura, al\u00e9m dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, para redescobrirem e difundirem \u00abos valores da paz, da justi\u00e7a, do bem, da beleza, da fraternidade humana e da conviv\u00eancia comum\u00bb. E afirmam que cr\u00eaem \u00abfirmemente que entre as causas mais importantes da crise do mundo moderno h\u00e1 uma consci\u00eancia humana anestesiada e o afastamento dos valores religiosos assim como o predom\u00ednio do individualismo e das filosofias materialistas\u00bb.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-199427\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/hoje_040219_3.jpg\" alt=\"\" width=\"890\" height=\"501\" \/><\/p>\n<p>Mesmo reconhecendo os passos positivos feitos pela civiliza\u00e7\u00e3o moderna, a declara\u00e7\u00e3o destaca a \u00abdeteriora\u00e7\u00e3o da \u00e9tica, que condiciona a a\u00e7\u00e3o internacional, e um enfraquecimento dos valores espirituais e do sentido de responsabilidade\u00bb, que leva muitos a \u00abcair na voragem do extremismo ateu e agn\u00f3stico, ou no integralismo religioso, no extremismo e no fundamentalismo cego\u00bb. O extremismo religioso e nacional, juntos com a intoler\u00e2ncia \u00abderam origem aos sinais de uma \u2018terceira guerra mundial em peda\u00e7os\u2019.\u00bb<\/p>\n<p>Portanto o Papa e o Gr\u00e3o Imame afirmam que \u00abas fortes crises pol\u00edticas, a injusti\u00e7a e a falta de uma distribui\u00e7\u00e3o equitativa dos recursos naturais \u2013 dos quais se beneficia apenas uma minoria de ricos, prejudicando a maioria dos povos da terra \u2013 geraram, e continuam a faz\u00ea-lo, um grande n\u00famero de doentes, de necessitados e de mortos, causando crises letais das quais s\u00e3o v\u00edtimas v\u00e1rios pa\u00edses. \u2026 Diante de tais crises que levam a morrer de fome milh\u00f5es de crian\u00e7as j\u00e1 reduzidas a esqueletos humanos \u2013 por causa da pobreza e desnutri\u00e7\u00e3o -, reina um sil\u00eancio internacional inaceit\u00e1vel\u00bb.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-199428\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/hoje_040219_1.jpg\" alt=\"\" width=\"890\" height=\"501\" \/><\/p>\n<p>\u00ab\u00c9 evidente o quanto seja essencial a fam\u00edlia\u00bb, assim como \u00abo despertar do sentido religioso\u00bb, especialmente nos jovens, \u00abpara enfrentar as tend\u00eancias individualistas, ego\u00edstas, conflituais, o radicalismo e o extremismo cego em todas as suas formas e manifesta\u00e7\u00f5es\u00bb. Os dois l\u00edderes recordam que o Criador nos \u00abconcedeu o dom da vida para custodi\u00e1-lo. Um dom que ningu\u00e9m tem o direito de tirar, amea\u00e7ar ou manipular conforme seu agrado\u2026 Por isso condenamos todas as pr\u00e1ticas que amea\u00e7am a vida como os genoc\u00eddios, as a\u00e7\u00f5es terroristas, os deslocamentos for\u00e7ados, o tr\u00e1fico de \u00f3rg\u00e3os humanos, o aborto e a eutan\u00e1sia e as pol\u00edticas que sustentam tudo isso\u00bb.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, declaramos \u00abfirmemente que as religi\u00f5es n\u00e3o incitam nunca \u00e0 guerra, n\u00e3o solicitam sentimentos de \u00f3dio, hostilidade, extremismo, e nem convidam \u00e0 viol\u00eancia ou ao derramamento de sangue. Essas calamidades s\u00e3o fruto do desvio dos ensinamentos religiosos, do uso pol\u00edtico das religi\u00f5es e tamb\u00e9m das interpreta\u00e7\u00f5es de grupos de homens de religi\u00e3o\u00bb. Por isso, \u00abpedimos a todos para cessar de instrumentalizar as religi\u00f5es a fim de incitar ao \u00f3dio, \u00e0 viol\u00eancia, ao extremismo e ao fanatismo cego, e parar de usar o nome de Deus a fim de justificar atos de homic\u00eddio, ex\u00edlio, terrorismo e opress\u00e3o\u00bb. O Papa e o G\u00e3o Imame recordam que \u00abDeus, Onipotente, n\u00e3o precisa ser defendido por ningu\u00e9m e n\u00e3o quer que o Seu nome seja usado para terrorizar as pessoas\u00bb.<\/p>\n<p>A Declara\u00e7\u00e3o atesta que \u00aba liberdade \u00e9 um direito de cada pessoa: cada um possui a liberdade de credo, de pensamento, de express\u00e3o e de a\u00e7\u00e3o. O pluralismo e as diversidades de religi\u00e3o, de cor, sexo, ra\u00e7a e l\u00edngua s\u00e3o uma s\u00e1bia vontade divina\u00bb. \u00c9 da \u00abSabedoria divina\u00bb que \u00abvem o direito \u00e0 liberdade de credo e \u00e0 liberdade de ser diferentes. Por isso, se condena o fato de constringir as pessoas a aderir a uma certa religi\u00e3o ou a uma certa cultura, como tamb\u00e9m de impor um estilo de civiliza\u00e7\u00e3o que os outros n\u00e3o aceitam\u00bb.<\/p>\n<p>Em seguida, afirma-se que \u00aba prote\u00e7\u00e3o dos lugares de culto &#8211; templos, igrejas e mesquitas &#8211; \u00e9 um dever garantido pelas religi\u00f5es, pelos valores humanos, pelas leis e conven\u00e7\u00f5es internacionais. Toda tentativa de atacar os lugares de culto ou amea\u00e7\u00e1-los atrav\u00e9s de atentados ou explos\u00f5es ou demoli\u00e7\u00f5es \u00e9 um desvio dos ensinamentos das religi\u00f5es, bem como uma viola\u00e7\u00e3o clara do direito internacional\u00bb.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-199429\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/hoje_040219_2.jpg\" alt=\"\" width=\"890\" height=\"501\" \/><\/p>\n<p>Recorda-se novamente que \u00abo terrorismo execr\u00e1vel que amea\u00e7a a seguran\u00e7a das pessoas, tanto no Oriente como no Ocidente&#8230; espalhando p\u00e2nico, terror e pessimismo n\u00e3o se deve \u00e0 religi\u00e3o &#8211; mesmo que os terroristas a instrumentalizam &#8211; mas \u00e9 devido a acumuladas interpreta\u00e7\u00f5es erradas dos textos religiosos, \u00e0s pol\u00edticas de fome, de pobreza, de injusti\u00e7a, de opress\u00e3o e de arrog\u00e2ncia. Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio interromper o apoio aos movimentos terroristas atrav\u00e9s do fornecendo dinheiro, de armas, de planos ou justificativas e tamb\u00e9m a cobertura da m\u00eddia, e considerar tudo isso como crimes internacionais que amea\u00e7am a seguran\u00e7a e a paz mundial\u00bb.<\/p>\n<p>O documento afirma que \u00ab\u00e9 necess\u00e1rio se comprometer para estabelecer em nossas sociedades o conceito de cidadania plena e renunciar ao uso discriminat\u00f3rio do termo minorias, que traz consigo as sementes do sentir-se isolados ou de inferioridade\u00bb.<\/p>\n<p>Na Declara\u00e7\u00e3o se define \u00aba necessidade indispens\u00e1vel de reconhecer o direito da mulher \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, ao trabalho e ao exerc\u00edcio dos pr\u00f3prios direitos pol\u00edticos. Al\u00e9m disso, se deve trabalhar para libert\u00e1-la das press\u00f5es hist\u00f3ricas e sociais contr\u00e1rias aos princ\u00edpios da pr\u00f3pria f\u00e9 e da pr\u00f3pria dignidade. \u00c9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m proteg\u00ea-la da explora\u00e7\u00e3o\u2026 Por isso, devem ser interrompidas todas as pr\u00e1ticas desumanas e os h\u00e1bitos vulgares que humilham a dignidade da mulher e trabalhar para modificar as leis que impedem \u00e0s mulheres de desfrutar plenamente de seus direitos\u00bb.<\/p>\n<p>Depois de reiterar o direito das crian\u00e7as de crescerem num ambiente familiar, \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o, os dois l\u00edderes afirmam: \u00ab\u00c9 preciso condenar toda pr\u00e1tica que viola a dignidade das crian\u00e7as ou os seus direitos. \u00c9 tamb\u00e9m importante vigiar contra os perigos aos quais s\u00e3o expostas, especialmente no ambiente digital, e considerar como crime o tr\u00e1fico de sua inoc\u00eancia e toda viola\u00e7\u00e3o de sua inf\u00e2ncia\u00bb.<\/p>\n<p>Enfim, \u00abAl-Azhar e Igreja Cat\u00f3lica pedem para que este Documento se torne objeto de pesquisa e reflex\u00e3o em todas as escolas, universidades e institutos de educa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o\u00bb. Esperam que a Declara\u00e7\u00e3o se torne um \u00abs\u00edmbolo do abra\u00e7o entre Oriente e Ocidente, entre Norte e Sul\u00bb.<\/p>\n<hr \/>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-199433\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/papa_hoje_040219.jpg\" alt=\"\" width=\"890\" height=\"593\" \/><\/p>\n<h2>Papa: religi\u00f5es ajudem a fam\u00edlia humana amadurecer itiner\u00e1rios de paz<\/h2>\n<p>O Papa Francisco participou do Encontro inter-religioso sobre a \u201cFraternidade Humana\u201d, no Founder\u2019s Memorial (Memorial do Fundador), onde proferiu o seu discurso. O Founder\u2019s Memorial \u00e9 um monumento nacional que comemora a vida, a heran\u00e7a e os valores do xeique Zayed bin Sultan Al Nahyan, fundador e primeiro presidente dos Emirados \u00c1rabes Unidos.<\/p>\n<p>O Papa agradeceu ao xeique Mohammed bin Zayed Al Nahyan, e ao Grande Imame de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyib, por suas palavras, e tamb\u00e9m ao Conselho Mu\u00e7ulmano de Anci\u00e3os pelo encontro realizado antes na Grande Mesquita do xeique Zayed. Saudou cordialmente as autoridades civis e religiosas e o Corpo Diplom\u00e1tico.<\/p>\n<p>\u201cPermitam-me tamb\u00e9m um agradecimento sincero pela calorosa recep\u00e7\u00e3o que todos reservaram a mim e \u00e0 nossa delega\u00e7\u00e3o. Agrade\u00e7o tamb\u00e9m a todas as pessoas que contribu\u00edram para tornar poss\u00edvel esta viagem e que trabalharam com dedica\u00e7\u00e3o, entusiasmo e profissionalismo para este evento\u201d, disse Francisco.<\/p>\n<p><strong>Condenar toda forma de viol\u00eancia<\/strong><br \/>\n\u201cDe \u00e2nimo reconhecido ao Senhor, aproveitei o ensejo do VIII centen\u00e1rio do encontro entre S\u00e3o Francisco de Assis e o sult\u00e3o al-Malik al-Kamil para vir aqui como fiel sedento de paz, como irm\u00e3o que procura a paz com os irm\u00e3os. Desejar a paz, promover a paz, ser instrumentos de paz: para isto, estamos aqui\u201d.<\/p>\n<p>Segundo o Papa, hoje, para salvaguardar a paz, \u201cprecisamos entrar juntos, como uma \u00fanica fam\u00edlia, numa arca que possa sulcar os mares tempestuosos do mundo: a arca de fraternidade\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO ponto de partida \u00e9 reconhecer que Deus est\u00e1 na origem da \u00fanica fam\u00edlia humana. Funda-se nas ra\u00edzes da nossa humanidade comum, a fraternidade como \u00abvoca\u00e7\u00e3o contida no des\u00edgnio criador de Deus\u00bb. Esta fraternidade nos diz que todos temos igual dignidade. Portanto, ningu\u00e9m pode ser dono ou escravo dos outros\u201d, frisou Francisco.<\/p>\n<p>\u201cEm nome de Deus Criador, \u00e9 preciso condenar toda forma de viol\u00eancia, porque seria uma grave profana\u00e7\u00e3o do Nome de Deus utiliz\u00e1-Lo para justificar o \u00f3dio e a viol\u00eancia contra o irm\u00e3o. Religiosamente, n\u00e3o h\u00e1 viol\u00eancia que possa ser justificada.<\/p>\n<p><strong>Religi\u00f5es: construir pontes entre povos e culturas<\/strong><br \/>\nA seguir, o Papa manifestou seu apre\u00e7o pelo compromisso dos Emirados \u00c1rabes Unidos de \u201ctolerar e garantir a liberdade de culto, contrapondo-se ao extremismo e ao \u00f3dio\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA coragem da alteridade \u00e9 a alma do di\u00e1logo, que se baseia na sinceridade de inten\u00e7\u00f5es\u201d, disse ainda o Pont\u00edfice, ressaltando que em tudo isso a \u201cora\u00e7\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel\u201d, pois \u201cao mesmo tempo em que encarna a coragem da alteridade em rela\u00e7\u00e3o a Deus, na sinceridade da inten\u00e7\u00e3o, purifica o cora\u00e7\u00e3o de fechar-se em si mesmo. Quanto ao futuro do di\u00e1logo inter-religioso, a primeira coisa que devemos fazer \u00e9 rezar. Rezar uns pelos outros: somos irm\u00e3os! As religi\u00f5es n\u00e3o podem renunciar \u00e0 tarefa urgente de construir pontes entre povos e culturas.\u201d<\/p>\n<p>\u201cChegou o tempo de as religi\u00f5es se gastarem mais ativamente, com coragem e ousadia e sem fingimento, em ajudar a fam\u00edlia humana a amadurecer a capacidade de reconcilia\u00e7\u00e3o, a vis\u00e3o de esperan\u00e7a e os itiner\u00e1rios concretos de paz.\u201d<\/p>\n<p><strong>A paz precisa das asas da educa\u00e7\u00e3o e da justi\u00e7a<\/strong><br \/>\nSegundo o Papa, \u201ca paz, para levantar voo, precisa de asas que a sustentem: as asas da educa\u00e7\u00e3o e da justi\u00e7a. Investir na cultura favorece a diminui\u00e7\u00e3o do \u00f3dio e o aumento da civilidade e prosperidade\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA justi\u00e7a \u00e9 a segunda asa da paz. Uma justi\u00e7a circunscrita apenas aos familiares, aos compatriotas, aos fi\u00e9is da mesma f\u00e9 \u00e9 uma justi\u00e7a claudicante\u2026 uma injusti\u00e7a disfar\u00e7ada!\u201d<\/p>\n<p>\u201cQue as religi\u00f5es sejam voz dos \u00faltimos, que n\u00e3o s\u00e3o estat\u00edsticas, mas irm\u00e3os, e estejam da parte dos pobres; velem como sentinelas de fraternidade na noite dos conflitos, sejam apelos diligentes \u00e0 humanidade para que n\u00e3o feche os olhos perante as injusti\u00e7as e nunca se resigne com os dramas sem conta no mundo\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEste pa\u00eds, em que se tocam areia e arranha-c\u00e9us, continua sendo uma importante encruzilhada entre Ocidente e Oriente, entre Norte e Sul do planeta, um lugar de desenvolvimento, onde espa\u00e7os outrora in\u00f3spitos proporcionam empregos a pessoas de v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>\u201cMas o desenvolvimento tamb\u00e9m tem os seus advers\u00e1rios. E, se o inimigo da fraternidade \u00e9 o individualismo, como obst\u00e1culo ao desenvolvimento apontaria a indiferen\u00e7a, que acaba por converter as realidades florescentes em \u00e1reas desertas.\u201d<\/p>\n<p><strong>Caminho de desenvolvimento fecundo<\/strong><br \/>\nA seguir, Francisco recordou o primeiro F\u00f3rum da Alian\u00e7a inter-religiosa por Comunidades mais seguras, realizado em Abu Dhabi, em novembro passado, sobre o tema da dignidade da crian\u00e7a na era digital.<\/p>\n<p>\u201cEste evento retomou a mensagem lan\u00e7ada um ano antes, em Roma, no Congresso internacional sobre o mesmo tema, ao qual dei todo o meu apoio e encorajamento. Agrade\u00e7o, pois, a todos os l\u00edderes que est\u00e3o empenhados neste campo e asseguro o apoio, a solidariedade e a participa\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica nesta causa important\u00edssima da prote\u00e7\u00e3o dos menores em todas as suas express\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>\u201cAqui, no deserto, abriu-se um caminho de desenvolvimento fecundo que, a partir do trabalho, d\u00e1 esperan\u00e7a a muitas pessoas de v\u00e1rios povos, culturas e credos. Dentre elas, contam-se tamb\u00e9m muitos crist\u00e3os, cuja presen\u00e7a na regi\u00e3o remonta s\u00e9culos atr\u00e1s tendo contribu\u00eddo significativamente para o crescimento e bem-estar do pa\u00eds\u201d, disse ainda o Papa.<\/p>\n<p>Segundo o Pont\u00edfice, \u201ca conviv\u00eancia fraterna, fundada na educa\u00e7\u00e3o e na justi\u00e7a, e o desenvolvimento humano, constru\u00eddo sobre a inclus\u00e3o acolhedora e sobre os direitos de todos, constituem sementes de paz, que as religi\u00f5es s\u00e3o chamadas a fazer germinar\u201d.<\/p>\n<p><strong>Guerra: mis\u00e9ria e morte<\/strong><br \/>\n\u201cA corrida aos armamentos, o alargamento das respectivas \u00e1reas de influ\u00eancia, as pol\u00edticas agressivas em detrimento dos outros nunca trar\u00e3o estabilidade. A guerra nada mais pode criar a n\u00e3o ser mis\u00e9ria e morte\u201d, disse o Papa, recordando que os representantes das religi\u00f5es tem \u201co dever de banir toda nuance de aprova\u00e7\u00e3o da palavra guerra\u201d.<\/p>\n<p>Lembrando as consequ\u00eancias nefastas da guerra, Francisco lembrou pa\u00edses como I\u00eamen, S\u00edria, Iraque e L\u00edbia.<\/p>\n<p>\u201cComprometamo-nos contra a l\u00f3gica da for\u00e7a armada, contra a monetariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es, o armamento das fronteiras, o levantamento de muros, o amorda\u00e7amento dos pobres. Oponhamos a tudo isto a for\u00e7a suave da ora\u00e7\u00e3o e o compromisso di\u00e1rio no di\u00e1logo.\u201d<\/p>\n<p>\u201cQue o nosso estar juntos hoje seja uma mensagem de confian\u00e7a, um encorajamento a todos os homens de boa vontade para que n\u00e3o se rendam aos dil\u00favios da viol\u00eancia nem \u00e0 desertifica\u00e7\u00e3o do altru\u00edsmo. Deus est\u00e1 com o homem que procura a paz. E, do c\u00e9u, aben\u00e7oa cada passo sobre a terra que se realiza nesta dire\u00e7\u00e3o\u201d, concluiu o Papa.<\/p>\n<hr \/>\n<h2>\u00cdNTEGRA DO DOCUMENTO<\/h2>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><span style=\"color: #663300;\"><b>VIAGEM APOST\u00d3LICA DO PAPA FRANCISCO<br \/>\nAOS EMIRADOS \u00c1RABES UNIDOS<br \/>\n<\/b>3-5 DE FEVEREIRO DE 2019<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><span style=\"color: #663300;\">DOCUMENTO SOBRE<br \/>\nA\u00a0<b>FRATERNIDADE HUMANA<\/b><br \/>\nEM PROL DA PAZ MUNDIAL E DA CONVIV\u00caNCIA COMUM<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><b>PREF\u00c1CIO<\/b><\/p>\n<p>A f\u00e9 leva o crente a ver no outro um irm\u00e3o que se deve apoiar e amar. Da f\u00e9 em Deus, que criou o universo, as criaturas e todos os seres humanos \u2013 iguais pela Sua Miseric\u00f3rdia \u2013, o crente \u00e9 chamado a expressar esta fraternidade humana, salvaguardando a cria\u00e7\u00e3o e todo o universo e apoiando todas as pessoas, especialmente as mais necessitadas e pobres.<\/p>\n<p>Partindo deste valor transcendente, em v\u00e1rios encontros dominados por uma atmosfera de fraternidade e amizade, compartilhamos as alegrias, as tristezas e os problemas do mundo contempor\u00e2neo, a n\u00edvel do progresso cient\u00edfico e t\u00e9cnico, das conquistas terap\u00eauticas, da era digital, dos\u00a0<i>mass-media<\/i>, das comunica\u00e7\u00f5es; a n\u00edvel da pobreza, das guerras e das afli\u00e7\u00f5es de tantos irm\u00e3os e irm\u00e3s em diferentes partes do mundo, por causa da corrida \u00e0s armas, das injusti\u00e7as sociais, da corrup\u00e7\u00e3o, das desigualdades, da degrada\u00e7\u00e3o moral, do terrorismo, da discrimina\u00e7\u00e3o, do extremismo e de muitos outros motivos.<\/p>\n<p>De tais fraternas e sinceras acarea\u00e7\u00f5es que tivemos e do encontro cheio de esperan\u00e7a num futuro luminoso para todos os seres humanos, nasceu a ideia deste \u00abDocumento sobre a\u00a0<i>Fraternidade Humana<\/i>\u00bb. Um documento pensado com sinceridade e seriedade para ser uma declara\u00e7\u00e3o conjunta de boas e leais vontades, capaz de convidar todas as pessoas, que trazem no cora\u00e7\u00e3o a f\u00e9 em Deus e a f\u00e9 na\u00a0<i>fraternidade humana<\/i>, a unir-se e trabalhar em conjunto, de modo que tal documento se torne para as novas gera\u00e7\u00f5es um guia rumo \u00e0 cultura do respeito m\u00fatuo, na compreens\u00e3o da grande gra\u00e7a divina que torna irm\u00e3os todos os seres humanos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"center\"><b>DOCUMENTO<\/b><\/p>\n<p>Em nome de Deus, que criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade e os chamou a conviver entre si como irm\u00e3os, a povoar a terra e a espalhar sobre ela os valores do bem, da caridade e da paz.<\/p>\n<p>Em nome da alma humana inocente que Deus proibiu de matar, afirmando que qualquer um que mate uma pessoa \u00e9 como se tivesse morto toda a humanidade e quem quer que salve uma pessoa \u00e9 como se tivesse salvo toda a humanidade.<\/p>\n<p>Em nome dos pobres, dos miser\u00e1veis, dos necessitados e dos marginalizados, a quem Deus ordenou socorrer como um dever exigido a todos os homens e de modo particular \u00e0s pessoas facultosas e abastadas.<\/p>\n<p>Em nome dos \u00f3rf\u00e3os, das vi\u00favas, dos refugiados e dos exilados das suas casas e dos seus pa\u00edses; de todas as v\u00edtimas das guerras, das persegui\u00e7\u00f5es e das injusti\u00e7as; dos fracos, de quantos vivem no medo, dos prisioneiros de guerra e dos torturados em qualquer parte do mundo, sem distin\u00e7\u00e3o alguma.<\/p>\n<p>Em nome dos povos que perderam a seguran\u00e7a, a paz e a conviv\u00eancia comum, tornando-se v\u00edtimas das destrui\u00e7\u00f5es, das ru\u00ednas e das guerras.<\/p>\n<p>Em nome da \u00ab<i>fraternidade humana<\/i>\u00bb, que abra\u00e7a todos os homens, une-os e torna-os iguais.<\/p>\n<p>Em nome desta\u00a0<i>fraternidade<\/i>\u00a0dilacerada pelas pol\u00edticas de integralismo e divis\u00e3o e pelos sistemas de lucro desmesurado e pelas tend\u00eancias ideol\u00f3gicas odiosas, que manipulam as a\u00e7\u00f5es e os destinos dos homens.<\/p>\n<p>Em nome da liberdade, que Deus deu a todos os seres humanos, criando-os livres e enobrecendo-os com ela.<\/p>\n<p>Em nome da justi\u00e7a e da miseric\u00f3rdia, fundamentos da prosperidade e pilares da f\u00e9.<\/p>\n<p>Em nome de todas as pessoas de boa vontade, presentes em todos os cantos da terra.<\/p>\n<p>Em nome de Deus e de tudo isto, Al-Azhar al-Sharif \u2013 com os mu\u00e7ulmanos do Oriente e do Ocidente &#8211; juntamente com a Igreja Cat\u00f3lica \u2013 com os cat\u00f3licos do Oriente e do Ocidente \u2013 declaramos adotar a cultura do di\u00e1logo como caminho; a colabora\u00e7\u00e3o comum como conduta; o conhecimento m\u00fatuo como m\u00e9todo e crit\u00e9rio.<\/p>\n<p>N\u00f3s \u2013 crentes em Deus, no encontro final com Ele e no Seu Julgamento \u2013, a partir da nossa responsabilidade religiosa e moral e atrav\u00e9s deste Documento, rogamos a n\u00f3s mesmos e aos l\u00edderes do mundo inteiro, aos art\u00edfices da pol\u00edtica internacional e da economia mundial, para se comprometer seriamente na difus\u00e3o da toler\u00e2ncia, da conviv\u00eancia e da paz; para intervir, o mais breve poss\u00edvel, a fim de se impedir o derramamento de sangue inocente e acabar com as guerras, os conflitos, a degrada\u00e7\u00e3o ambiental e o decl\u00ednio cultural e moral que o mundo vive atualmente.<\/p>\n<p>Dirigimo-nos aos intelectuais, aos fil\u00f3sofos, aos homens de religi\u00e3o, aos artistas, aos operadores dos\u00a0<i>mass-media<\/i>\u00a0e aos homens de cultura em todo o mundo, para que redescubram os valores da paz, da justi\u00e7a, do bem, da beleza, da fraternidade humana e da conviv\u00eancia comum, para confirmar a import\u00e2ncia destes valores como \u00e2ncora de salva\u00e7\u00e3o para todos e procurar difundi-los por toda a parte.<\/p>\n<p>Partindo duma reflex\u00e3o profunda sobre a nossa realidade contempor\u00e2nea, apreciando os seus \u00eaxitos e vivendo as suas dores, os seus dramas e calamidades, esta Declara\u00e7\u00e3o acredita firmemente que, entre as causas mais importantes da crise do mundo moderno, se contam uma consci\u00eancia humana anestesiada e o afastamento dos valores religiosos, bem como o predom\u00ednio do individualismo e das filosofias materialistas que divinizam o homem e colocam os valores mundanos e materiais no lugar dos princ\u00edpios supremos e transcendentes.<\/p>\n<p>N\u00f3s, embora reconhecendo os passos positivos que a nossa civiliza\u00e7\u00e3o moderna tem feito nos campos da ci\u00eancia, da tecnologia, da medicina, da ind\u00fastria e do bem-estar, particularmente nos pa\u00edses desenvolvidos, ressaltamos que, juntamente com tais progressos hist\u00f3ricos, grandes e apreciados, se verifica uma deteriora\u00e7\u00e3o da \u00e9tica, que condiciona a atividade internacional, e um enfraquecimento dos valores espirituais e do sentido de responsabilidade. Tudo isto contribui para disseminar uma sensa\u00e7\u00e3o geral de frustra\u00e7\u00e3o, solid\u00e3o e desespero, levando muitos a cair na voragem do extremismo ateu e agn\u00f3stico ou ent\u00e3o no integralismo religioso, no extremismo e no fundamentalismo cego, arrastando assim outras pessoas a render-se a formas de depend\u00eancia e autodestrui\u00e7\u00e3o individual e coletiva.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria afirma que o extremismo religioso e nacional e a intoler\u00e2ncia geraram no mundo, quer no Ocidente quer no Oriente, aquilo que se poderia chamar os sinais duma \u00ab<i>terceira guerra mundial aos peda\u00e7os<\/i>\u00bb; sinais que, em v\u00e1rias partes do mundo e em diferentes condi\u00e7\u00f5es tr\u00e1gicas, come\u00e7aram a mostrar o seu rosto cruel; situa\u00e7\u00f5es de que n\u00e3o se sabe exatamente quantas v\u00edtimas, vi\u00favas e \u00f3rf\u00e3os produziram. Al\u00e9m disso, existem outras \u00e1reas que se preparam a tornar-se palco de novos conflitos, onde nascem focos de tens\u00e3o e se acumulam armas e muni\u00e7\u00f5es, numa situa\u00e7\u00e3o mundial dominada pela incerteza, pela decep\u00e7\u00e3o e pelo medo do futuro e controlada por m\u00edopes interesses econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>Afirmamos igualmente que as graves crises pol\u00edticas, a injusti\u00e7a e a falta duma distribui\u00e7\u00e3o equitativa dos recursos naturais \u2013 dos quais beneficia apenas uma minoria de ricos, em detrimento da maioria dos povos da terra \u2013 geraram, e continuam a faz\u00ea-lo, enormes quantidades de doentes, necessitados e mortos, causando crises letais de que s\u00e3o v\u00edtimas v\u00e1rios pa\u00edses, n\u00e3o obstante as riquezas naturais e os recursos das gera\u00e7\u00f5es jovens que os caraterizam. A respeito de tais crises que fazem morrer \u00e0 fome milh\u00f5es de crian\u00e7as, j\u00e1 reduzidas a esqueletos humanos por causa da pobreza e da fome, reina um inaceit\u00e1vel sil\u00eancio internacional.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, \u00e9 evidente qu\u00e3o essencial seja a fam\u00edlia, como n\u00facleo fundamental da sociedade e da humanidade, para dar \u00e0 luz filhos, cri\u00e1-los, educ\u00e1-los, proporcionar-lhes uma moral s\u00f3lida e a prote\u00e7\u00e3o familiar. Atacar a institui\u00e7\u00e3o familiar, desprezando-a ou duvidando da import\u00e2ncia de seu papel, constitui um dos males mais perigosos do nosso tempo.<\/p>\n<p>Atestamos tamb\u00e9m a import\u00e2ncia do despertar do sentido religioso e da necessidade de o reanimar nos cora\u00e7\u00f5es das novas gera\u00e7\u00f5es, atrav\u00e9s duma educa\u00e7\u00e3o sadia e da ades\u00e3o aos valores morais e aos justos ensinamentos religiosos, para enfrentarem as tend\u00eancias individualistas, ego\u00edstas, conflituais, o radicalismo e o extremismo cego em todas as suas formas e manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O primeiro e mais importante objetivo das religi\u00f5es \u00e9 o de crer em Deus, honr\u00e1-Lo e chamar todos os homens a acreditarem que este universo depende de um Deus que o governa: \u00e9 o Criador que nos moldou com a Sua Sabedoria divina e nos concedeu o dom da vida para o guardarmos. Um dom que ningu\u00e9m tem o direito de tirar, amea\u00e7ar ou manipular a seu bel-prazer; pelo contr\u00e1rio, todos devem preservar este dom da vida desde o seu in\u00edcio at\u00e9 \u00e0 sua morte natural. Por isso, condenamos todas as pr\u00e1ticas que amea\u00e7am a vida, como os genoc\u00eddios, os atos terroristas, os deslocamentos for\u00e7ados, o tr\u00e1fico de \u00f3rg\u00e3os humanos, o aborto e a eutan\u00e1sia e as pol\u00edticas que apoiam tudo isto.<\/p>\n<p>De igual modo declaramos \u2013 firmemente \u2013 que as religi\u00f5es nunca incitam \u00e0 guerra e n\u00e3o solicitam sentimentos de \u00f3dio, hostilidade, extremismo nem convidam \u00e0 viol\u00eancia ou ao derramamento de sangue. Estas calamidades s\u00e3o fruto de desvio dos ensinamentos religiosos, do uso pol\u00edtico das religi\u00f5es e tamb\u00e9m das interpreta\u00e7\u00f5es de grupos de homens de religi\u00e3o que abusaram \u2013 nalgumas fases da hist\u00f3ria \u2013 da influ\u00eancia do sentimento religioso sobre os cora\u00e7\u00f5es dos homens para os levar \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o daquilo que n\u00e3o tem nada a ver com a verdade da religi\u00e3o, para alcan\u00e7ar fins pol\u00edticos e econ\u00f3micos mundanos e m\u00edopes. Por isso, pedimos a todos que cessem de instrumentalizar as religi\u00f5es para incitar ao \u00f3dio, \u00e0 viol\u00eancia, ao extremismo e ao fanatismo cego e deixem de usar o nome de Deus para justificar atos de homic\u00eddio, de ex\u00edlio, de terrorismo e de opress\u00e3o. Pedimo-lo pela nossa f\u00e9 comum em Deus, que n\u00e3o criou os homens para ser assassinados ou lutar uns com os outros, nem para ser torturados ou humilhados na sua vida e na sua exist\u00eancia. Com efeito Deus, o Todo-Poderoso, n\u00e3o precisa de ser defendido por ningu\u00e9m e n\u00e3o quer que o Seu nome seja usado para aterrorizar as pessoas.<\/p>\n<p>Este Documento, de acordo com os\u00a0<i>Documentos Internacionais<\/i>\u00a0anteriores que destacaram a import\u00e2ncia do papel das religi\u00f5es na constru\u00e7\u00e3o da paz mundial, atesta quanto segue:<\/p>\n<p>\u2022 A forte convic\u00e7\u00e3o de que os verdadeiros ensinamentos das religi\u00f5es convidam a permanecer ancorados aos valores da paz; apoiar os valores do conhecimento m\u00fatuo, da\u00a0<i>fraternidade humana<\/i>\u00a0e da conviv\u00eancia comum; restabelecer a sabedoria, a justi\u00e7a e a caridade e despertar o sentido da religiosidade entre os jovens, para defender as novas gera\u00e7\u00f5es a partir do dom\u00ednio do pensamento materialista, do perigo das pol\u00edticas da avidez do lucro desmesurado e da indiferen\u00e7a baseadas na lei da for\u00e7a e n\u00e3o na for\u00e7a da lei.<\/p>\n<p>\u2022 A liberdade \u00e9 um direito de toda a pessoa: cada um goza da liberdade de credo, de pensamento, de express\u00e3o e de a\u00e7\u00e3o. O pluralismo e as diversidades de religi\u00e3o, de cor, de sexo, de ra\u00e7a e de l\u00edngua fazem parte daquele s\u00e1bio des\u00edgnio divino com que Deus criou os seres humanos. Esta Sabedoria divina \u00e9 a origem donde deriva o direito \u00e0 liberdade de credo e \u00e0 liberdade de ser diferente. Por isso, condena-se o facto de for\u00e7ar as pessoas a aderir a uma determinada religi\u00e3o ou a uma certa cultura, bem como de impor um estilo de civiliza\u00e7\u00e3o que os outros n\u00e3o aceitam.<\/p>\n<p>\u2022 A justi\u00e7a baseada na miseric\u00f3rdia \u00e9 o caminho a percorrer para se alcan\u00e7ar uma vida digna, a que tem direito todo o ser humano.<\/p>\n<p>\u2022 O di\u00e1logo, a compreens\u00e3o, a difus\u00e3o da cultura da toler\u00e2ncia, da aceita\u00e7\u00e3o do outro e da conviv\u00eancia entre os seres humanos contribuiriam significativamente para a redu\u00e7\u00e3o de muitos problemas econ\u00f3micos, sociais, pol\u00edticos e ambientais que afligem grande parte do g\u00eanero humano.<\/p>\n<p>\u2022 O di\u00e1logo entre crentes significa encontrar-se no espa\u00e7o enorme dos valores espirituais, humanos e sociais comuns, e investir isto na propaga\u00e7\u00e3o das mais altas virtudes morais que as religi\u00f5es solicitam; significa tamb\u00e9m evitar as discuss\u00f5es in\u00fateis.<\/p>\n<p>\u2022 A prote\u00e7\u00e3o dos locais de culto \u2013 templos, igrejas e mesquitas \u2013 \u00e9 um dever garantido pelas religi\u00f5es, pelos valores humanos, pelas leis e pelas conven\u00e7\u00f5es internacionais. Qualquer tentativa de atacar locais de culto ou de os amea\u00e7ar atrav\u00e9s de atentados, explos\u00f5es ou demoli\u00e7\u00f5es \u00e9 um desvio dos ensinamentos das religi\u00f5es, bem como uma clara viola\u00e7\u00e3o do direito internacional.<\/p>\n<p>\u2022 O terrorismo execr\u00e1vel que amea\u00e7a a seguran\u00e7a das pessoas, tanto no Oriente como no Ocidente, tanto no Norte como no Sul, espalhando p\u00e2nico, terror e pessimismo n\u00e3o se deve \u00e0 religi\u00e3o \u2013 embora os terroristas a instrumentalizem \u2013 mas tem origem no c\u00famulo de interpreta\u00e7\u00f5es erradas dos textos religiosos, nas pol\u00edticas de fome, de pobreza, de injusti\u00e7a, de opress\u00e3o, de arrog\u00e2ncia; por isso, \u00e9 necess\u00e1rio interromper o apoio aos movimentos terroristas atrav\u00e9s do fornecimento de dinheiro, de armas, de planos ou justifica\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m a cobertura medi\u00e1tica, e considerar tudo isto como crimes internacionais que amea\u00e7am a seguran\u00e7a e a paz mundial. \u00c9 preciso condenar tal terrorismo em todas as suas formas e manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2022 O conceito de\u00a0<i>cidadania<\/i>\u00a0baseia-se na igualdade dos direitos e dos deveres, sob cuja sombra todos gozam da justi\u00e7a. Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio empenhar-se por estabelecer nas nossas sociedades o conceito de\u00a0<i>cidadania plena<\/i>\u00a0e renunciar ao uso discriminat\u00f3rio do termo\u00a0<i>minorias<\/i>, que traz consigo as sementes de se sentir isolado e da inferioridade; isto prepara o terreno para as hostilidades e a disc\u00f3rdia e subtrai as conquistas e os direitos religiosos e civis de alguns cidad\u00e3os, discriminando-os.<\/p>\n<p>\u2022 O relacionamento entre Ocidente e Oriente \u00e9 uma necessidade m\u00fatua indiscut\u00edvel, que n\u00e3o pode ser comutada nem transcurada, para que ambos se possam enriquecer mutuamente com a civiliza\u00e7\u00e3o do outro atrav\u00e9s da troca e do di\u00e1logo das culturas. O Ocidente poderia encontrar na civiliza\u00e7\u00e3o do Oriente rem\u00e9dios para algumas das suas doen\u00e7as espirituais e religiosas causadas pelo dom\u00ednio do materialismo. E o Oriente poderia encontrar na civiliza\u00e7\u00e3o do Ocidente tantos elementos que o podem ajudar a salvar-se da fragilidade, da divis\u00e3o, do conflito e do decl\u00ednio cient\u00edfico, t\u00e9cnico e cultural. \u00c9 importante prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s diferen\u00e7as religiosas, culturais e hist\u00f3ricas que s\u00e3o uma componente essencial na forma\u00e7\u00e3o da personalidade, da cultura e da civiliza\u00e7\u00e3o oriental; e \u00e9 importante consolidar os direitos humanos gerais e comuns, para ajudar a garantir uma vida digna para todos os homens no Oriente e no Ocidente, evitando o uso da pol\u00edtica de duas medidas.<\/p>\n<p>\u2022 \u00c9 uma necessidade indispens\u00e1vel reconhecer o direito da mulher \u00e0 instru\u00e7\u00e3o, ao trabalho, ao exerc\u00edcio dos seus direitos pol\u00edticos. Al\u00e9m disso, deve-se trabalhar para libert\u00e1-la das press\u00f5es hist\u00f3ricas e sociais contr\u00e1rias aos princ\u00edpios da pr\u00f3pria f\u00e9 e da pr\u00f3pria dignidade. Tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio proteg\u00ea-la da explora\u00e7\u00e3o sexual e de a tratar como mercadoria ou meio de prazer ou de ganho econ\u00f3mico. Por isso, devem-se interromper todas as pr\u00e1ticas desumanas e os costumes triviais que humilham a dignidade da mulher e trabalhar para modificar as leis que impedem as mulheres de gozarem plenamente dos seus direitos.<\/p>\n<p>\u2022 A tutela dos direitos fundamentais das crian\u00e7as a crescer num ambiente familiar, \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e \u00e0 assist\u00eancia \u00e9 um dever da fam\u00edlia e da sociedade. Tais direitos devem ser garantidos e tutelados para que n\u00e3o faltem e n\u00e3o sejam negados a nenhuma crian\u00e7a em nenhuma parte do mundo. \u00c9 preciso condenar qualquer pr\u00e1tica que viole a dignidade das crian\u00e7as ou os seus direitos. Igualmente importante \u00e9 velar contra os perigos a que est\u00e3o expostas \u2013 especialmente no ambiente digital \u2013 e considerar como crime o tr\u00e1fico da sua inoc\u00eancia e qualquer viola\u00e7\u00e3o da sua inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>\u2022 A prote\u00e7\u00e3o dos direitos dos idosos, dos vulner\u00e1veis, dos portadores de defici\u00eancia e dos oprimidos \u00e9 uma exig\u00eancia religiosa e social que deve ser garantida e protegida atrav\u00e9s de legisla\u00e7\u00f5es rigorosas e da aplica\u00e7\u00e3o das conven\u00e7\u00f5es internacionais a este respeito.<\/p>\n<p>Por fim, atrav\u00e9s da coopera\u00e7\u00e3o conjunta, a Igreja Cat\u00f3lica e a al-Azhar anunciam e prometem levar este Documento \u00e0s Autoridades, aos L\u00edderes influentes, aos homens de religi\u00e3o do mundo inteiro, \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es regionais e internacionais competentes, \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, \u00e0s institui\u00e7\u00f5es religiosas e aos l\u00edderes do pensamento; e empenhar-se na divulga\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios desta Declara\u00e7\u00e3o em todos os n\u00edveis regionais e internacionais, solicitando que se traduzam em pol\u00edticas, decis\u00f5es, textos legislativos, programas de estudo e materiais de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al-Azhar e a Igreja Cat\u00f3lica pedem que este Documento se torne objeto de pesquisa e reflex\u00e3o em todas as escolas, nas universidades e nos institutos de educa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o, a fim de contribuir para criar novas gera\u00e7\u00f5es que levem o bem e a paz e defendam por todo o lado o direito dos oprimidos e dos marginalizados.<\/p>\n<p>Ao concluir, almejamos que esta Declara\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>seja um convite \u00e0 reconcilia\u00e7\u00e3o e \u00e0 fraternidade entre todos os crentes, mais ainda, entre os crentes e os n\u00e3o-crentes, e entre todas as pessoas de boa vontade;<\/p>\n<p>seja um apelo a toda a consci\u00eancia viva, que repudia a viol\u00eancia aberrante e o extremismo cego; um apelo a quem ama os valores da toler\u00e2ncia e da fraternidade, promovidos e encorajados pelas religi\u00f5es;<\/p>\n<p>seja um testemunho da grandeza da f\u00e9 em Deus, que une os cora\u00e7\u00f5es divididos e eleva a alma humana;<\/p>\n<p>seja um s\u00edmbolo do abra\u00e7o entre o Oriente e o Ocidente, entre o Norte e o Sul e entre todos aqueles que acreditam que Deus nos criou para nos conhecermos, cooperarmos entre n\u00f3s e vivermos como irm\u00e3os que se amam.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 o que esperamos e tentaremos realizar a fim de alcan\u00e7ar uma paz universal de que gozem todos os homens nesta vida.<\/p>\n<p><i>Abu Dabhi, 4 de fevereiro de 2019.<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<table border=\"0\" width=\"100%\">\n<tbody>\n<tr>\n<td align=\"center\">Sua Santidade<br \/>\nPapa Francisco<\/td>\n<td><\/td>\n<td align=\"center\" width=\"388\">Gr\u00e3o Imame de Al-Azhar<br \/>\nAhmad Al-Tayyeb<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p align=\"center\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3rica viagem do Papa Francisco aos Emirados \u00c1rabes<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1428],"tags":[],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.2 - 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