{"id":166577,"date":"2018-07-17T00:56:55","date_gmt":"2018-07-17T03:56:55","guid":{"rendered":"http:\/\/franciscanos.org.br\/?p=166577"},"modified":"2020-03-23T13:49:45","modified_gmt":"2020-03-23T16:49:45","slug":"rio-de-paz-o-pastor-que-luta-contra-a-violencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/rio-de-paz-o-pastor-que-luta-contra-a-violencia.html","title":{"rendered":"Rio de Paz: Um pastor na luta contra a viol\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-179027\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/2018\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/antonio-carlos-840.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/antonio-carlos-840.jpg 840w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/antonio-carlos-840-450x268.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/antonio-carlos-840-768x457.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/antonio-carlos-840-150x89.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><strong>Entrevista com o pastor presbiteriano Ant\u00f4nio Carlos Costa. Jornalista, te\u00f3logo, escritor e fundador da ONG Rio de Paz.<\/strong><\/p>\n<p><strong>S\u00e3o Paulo (SP)<\/strong> &#8211; <em>Aos 56 anos, o pastor presbiteriano Ant\u00f4nio Carlos Costa \u00e9 uma das vozes na luta pelos direitos humanos no Rio de Janeiro. Em 2006, ele fundou a ONG Rio de Paz, a partir de uma manifesta\u00e7\u00e3o feita na praia de Copacabana e que ficou conhecida em todo o mundo. Contra a chacina que vitimou 19 pessoas, os manifestantes colocaram 19 cruzes na areia da famosa praia. Era tamb\u00e9m o in\u00edcio de uma transforma\u00e7\u00e3o no minist\u00e9rio do pastor da Igreja Presbiteriana da Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio. \u201cAli, tomei a decis\u00e3o de ir para a rua. Eu deixei de ser um te\u00f3logo voltado para o ensino da Teologia e passei a ser um militante de direitos humanos\u201d, conta o pastor.<\/em><\/p>\n<p><em>Autor dos livros \u201c<a href=\"http:\/\/www.mundocristao.com.br\/produto\/799\/Convuls%C3%A3o-protestante\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Convuls\u00e3o protestante: Quando a teologia foge do templo e abra\u00e7a a rua<\/a>\u201d e \u201c<a href=\"http:\/\/www.mundocristao.com.br\/produto\/871\/Teologia-da-trincheira\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Teologia da trincheira: Reflex\u00f5es e provoca\u00e7\u00f5es sobre o indiv\u00edduo, a sociedade e o cristianismo<\/a>\u201d, ambos pela Editora Mundo Crist\u00e3o, ele acompanha as fam\u00edlias v\u00edtimas da viol\u00eancia e testemunha o descaso com estas pessoas, que sofrem com a perda e indiferen\u00e7a do Estado e da sociedade. \u201cO contato com essas fam\u00edlias faz com que a gente n\u00e3o saia das ruas\u201d, assegura. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 interven\u00e7\u00e3o federal na seguran\u00e7a p\u00fablica, ele conta que a sociedade do Rio de Janeiro ainda n\u00e3o sentiu a diferen\u00e7a. Sobre a viol\u00eancia no pa\u00eds, ele declara: \u201cEstamos vivendo hoje um banho de sangue no Brasil\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>S<\/em><em>obre a resist\u00eancia de diversos crist\u00e3os com o trabalho social, ele afirma: \u201cN\u00e3o h\u00e1 nenhuma justificativa para o fato de os crist\u00e3os brasileiros n\u00e3o verem a luta pela defesa dos direitos humanos como sinal caracter\u00edstico da verdadeira santidade de vida\u201d. Para ele, estar ao lado dos mais pobres \u00e9 ser um sinal de Jesus Cristo.<\/em><\/p>\n<p><em>Acompanhe a entrevista concedida a <\/em><strong>\u00c9rika Augusto <\/strong><em>no programa Sala Franciscana.<\/em><\/p>\n<p><strong>Site Franciscanos &#8211; Qual das suas voca\u00e7\u00f5es nasceu primeiro: jornalista, pastor ou escritor?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Carlos &#8211;<\/strong> No final da minha adolesc\u00eancia, meu desejo era ser jornalista. Naquele mesmo per\u00edodo, a minha mente come\u00e7ou a se envolver com as grandes quest\u00f5es da vida, passei a me preocupar com aquilo que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o me preocupava, as grandes perguntas da Filosofia, quem somos, de onde viemos, para onde vamos. E essas perguntas me levaram para a f\u00e9 crist\u00e3. Pela primeira vez me tornei um disc\u00edpulo de Cristo. Passei, ent\u00e3o, a viver com o prop\u00f3sito de me submeter, moral e intelectualmente, ao Evangelho. S\u00f3 que as respostas que encontrei no cristianismo foram t\u00e3o fascinantes, foi algo que me empolgou tanto, me comoveu em tal extens\u00e3o que falei: vou me dedicar a isso a partir de agora. Vou consagrar minha exist\u00eancia a tornar esta mensagem conhecida pelo maior n\u00famero poss\u00edvel de pessoas, porque \u00e9 muito dif\u00edcil viver sem esperan\u00e7a. Acredito que as respostas do Evangelho atendem \u00e0s principais demandas do esp\u00edrito humano.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, me envolvi com o trabalho pastoral, s\u00f3 que no contato com as Escrituras Sagradas, conheci n\u00e3o apenas o Deus crist\u00e3o, mas tamb\u00e9m o ponto de vista do Evangelho sobre o ser humano. O cristianismo exalta muito o homem e a mulher, a ponto de dizer que ambos foram criados \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus, portanto, devem ser objeto do nosso amor. Por conta dessa antropologia do Novo Testamento, passei a me sentir profundamente incomodado com a viol\u00eancia no Rio de Janeiro e administrei durante muitos anos uma crise, produto do contato com a viol\u00eancia atrav\u00e9s dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, sem que me insurgisse contra aquele estado de coisas e procurasse, juntamente a outros cidad\u00e3os cariocas, crist\u00e3os e n\u00e3o crist\u00e3os, fazer oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 barb\u00e1rie. No dia 28 de dezembro de 2006, traficantes mataram 19 pessoas no Rio de Janeiro, sendo que destas, 8 pessoas foram queimadas vivas. Ali tomei a decis\u00e3o de ir para a rua. Deixei de ser um te\u00f3logo voltado para o ensino da Teologia e passei a ser um militante de direitos humanos.<\/p>\n<p>Atribuo \u00e0 gra\u00e7a de Deus a ideia que tivemos, que abriu muitas portas, ao fazer uma manifesta\u00e7\u00e3o que entrou para a hist\u00f3ria do pa\u00eds. N\u00f3s montamos um cemit\u00e9rio, com cruzes pintadas de preto na praia de Copacabana. E, desde aquele dia, os meios de comunica\u00e7\u00e3o cobrem as nossas manifesta\u00e7\u00f5es. N\u00f3s usamos desse privil\u00e9gio, dessa confian\u00e7a, para dar voz aos sem voz, para dar visibilidade \u00e0queles cuja agonia n\u00e3o \u00e9 do conhecimento da sociedade, aos que s\u00e3o ignorados pelo Poder P\u00fablico. A\u00ed, ent\u00e3o, nessa din\u00e2mica, surge o desejo de escrever. Passei a escrever para jornais do pa\u00eds e tamb\u00e9m nas redes sociais. Veio, ent\u00e3o, o interesse por apresentar os pressupostos intelectuais da minha milit\u00e2ncia no campo dos direitos humanos, atrav\u00e9s de dois livros: \u201cA convuls\u00e3o protestante\u201d, que foi essa mudan\u00e7a s\u00fabita que me levou a protestar nas ruas e \u201cTeologia da trincheira\u201d, que foram os artigos que eu escrevi durante este per\u00edodo em que me senti na trincheira. S\u00e3o 11 anos nas ruas protestando contra a viol\u00eancia e defendendo os direitos humanos, entrando em favela, indo a cemit\u00e9rios, chorando com os parentes de v\u00edtimas. Nesse per\u00edodo, escrevi muito, e esses artigos foram agrupados e se transformaram em livro. Eu tenho tr\u00eas paix\u00f5es na vida: o amor pela produ\u00e7\u00e3o de livros, e livros que possam trazer esperan\u00e7a e mobilizem as pessoas para a a\u00e7\u00e3o; a paix\u00e3o pelo jornalismo, de contar hist\u00f3rias, de falar a respeito destas pessoas cuja dor ningu\u00e9m conhece; e tamb\u00e9m a prega\u00e7\u00e3o do Evangelho, que \u00e9 uma coisa radicada na minha vida e o encanto continua at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p><strong>Site\u00a0Franciscanos &#8211; Quais s\u00e3o as principais atividades realizadas hoje pela ONG Rio de Paz?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Carlos<\/strong> &#8211; O Rio de Paz atua em duas \u00e1reas: primeiro, a filantropia. Prestamos ajuda aos necessitados, aos pobres, moradores de favelas no Rio de Janeiro. Distribu\u00edmos alimentos, cestas b\u00e1sicas, oferecemos ajuda para reconstruir resid\u00eancias, damos cursos profissionalizantes, entre outras atividades. \u00c9 lament\u00e1vel ter que dizer isso, mas \u00e9 um trabalho prejudicado pela viol\u00eancia das favelas, porque as opera\u00e7\u00f5es policiais ocorrem subitamente e, muitas vezes, chegamos em meio ao tiroteio. Por conta disso, tememos enviar volunt\u00e1rios por receio deles serem v\u00edtimas de bala perdida. J\u00e1 vivemos situa\u00e7\u00f5es muito aflitivas. Poder\u00edamos estar fazendo muito mais na \u00e1rea da filantropia, porque tem muita gente que nos procura querendo trabalhar em comunidade, mas em raz\u00e3o dos confrontos, n\u00e3o temos feito o que poder\u00edamos e gostar\u00edamos de fazer.<\/p>\n<p>O trabalho da ONG que \u00e9 mais conhecido s\u00e3o as manifesta\u00e7\u00f5es de rua, que t\u00eam como objetivo denunciar a viola\u00e7\u00e3o de direitos, o abuso de poder, a desigualdade social. J\u00e1 fizemos v\u00e1rias, em S\u00e3o Paulo, Bras\u00edlia, Recife, Belo Horizonte, sendo que a maioria est\u00e1 concentrada no Rio. Essas manifesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o o carro-chefe porque s\u00e3o as que d\u00e3o mais visibilidade para tudo o que fazemos e os efeitos s\u00e3o extraordin\u00e1rios, porque, com a filantropia, a gente oferece uma ajuda pontual aqui e ali. Quando conseguimos, atrav\u00e9s de uma manifesta\u00e7\u00e3o, fazer o Estado agir, \u00e9 diferente. A a\u00e7\u00e3o do Estado produz resultados muito mais amplos do que aqueles que n\u00f3s alcan\u00e7amos, mas que est\u00e3o muito aqu\u00e9m do que esse \u2018mar de gente\u2019 pobre carece.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-179030\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/2018\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/riodepaz_071118-840.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/riodepaz_071118-840.jpg 840w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/riodepaz_071118-840-450x241.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/riodepaz_071118-840-768x411.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/riodepaz_071118-840-150x80.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><\/p>\n<p><strong>Site\u00a0Franciscanos &#8211; Voc\u00ea ministra numa igreja na favela do Jacarezinho e o p\u00falpito que voc\u00ea usa tem marcas de balas. Qual \u00e9 o sentimento de pregar a Palavra de Deus num s\u00edmbolo como este?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Carlos &#8211;<\/strong> \u00c9 muito triste. S\u00e3o pessoas que tentamos ajudar e que s\u00e3o ignoradas pelo Poder P\u00fablico. A sociedade civil toma a decis\u00e3o de fazer alguma coisa, n\u00f3s, como n\u00f3s crist\u00e3os, paralelo \u00e0 defesa dos direitos humanos, atrav\u00e9s das manifesta\u00e7\u00f5es e da filantropia, levamos o Evangelho. Estando ali, decidimos ter reuni\u00f5es regulares para falar de Jesus Cristo \u00e0quelas pessoas. No decurso de um 1 ano e 10 meses, em 8 opera\u00e7\u00f5es policiais, a nossa igrejinha levou 300 tiros de fuzil e pistola e o p\u00falpito onde prego foi atingido por 3 disparos de arma de fogo. Isso tamb\u00e9m \u00e9 algo que nos limita profundamente e que gera muita incerteza, porque nunca se sabe quando vai come\u00e7ar o tiroteio e tememos muito pela vida dos moradores, especialmente das crian\u00e7as. S\u00e3o muitas crian\u00e7as frequentando esses cultos nas tardes de domingo.<\/p>\n<p><strong>Site\u00a0Franciscanos &#8211; Voc\u00eas estiveram no enterro do adolescente Guilherme Henrique, morto no dia 20 de junho na Vila Vint\u00e9m e tamb\u00e9m acompanham diversas fam\u00edlias das v\u00edtimas da viol\u00eancia. Como estas fam\u00edlias ficam diante de uma situa\u00e7\u00e3o como esta?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pastor Ant\u00f4nio Carlos Costa &#8211;<\/strong> \u00c9 uma devasta\u00e7\u00e3o. Vemos fam\u00edlias destro\u00e7adas, desconjuntadas. \u00c9 dif\u00edcil encontrar um adjetivo que traduza, que nos ajude a ter uma ideia do que estas pessoas experimentam. J\u00e1 vivi situa\u00e7\u00f5es onde a m\u00e3e de uma crian\u00e7a de 1 ano, morta com um tiro de pistola no peito, trouxe o corpo da filha no peito para amamentar, no seu desespero. J\u00e1 vi gente se jogar dentro da sepultura para arrancar o caix\u00e3o, recusando-se a enterrar o filho. As pessoas n\u00e3o conseguem voltar a trabalhar, passam a conviver com uma depress\u00e3o latente. Elas se sentem ignoradas pela sociedade, abandonadas pelo Estado. A autoria do homic\u00eddio, em geral, n\u00e3o \u00e9 elucidada. \u00c9 um descaso completo. Como se n\u00e3o bastasse o absurdo da perda de um parente querido, essas pessoas t\u00eam que lidar com a indiferen\u00e7a de todos. Dependendo do caso, se tiver muita repercuss\u00e3o, as fam\u00edlias vivem intensamente este tempo, com entrevistas, presen\u00e7a da imprensa, do notici\u00e1rio e a\u00ed passa-se uma ou duas semana e pronto, acabou! Ningu\u00e9m se lembra mais, vem outro caso, que faz com que esque\u00e7amos do anterior e pronto. Voc\u00ea tem essas vidas marcadas para sempre. Algumas destas pessoas vivem o drama da ideia fixa de ver os criminosos punidos. Ent\u00e3o acabam sofrendo muito com isso, e mais ainda com a impunidade. Algumas n\u00e3o conseguem se livrar desse sentimento, que \u00e9 uma coisa dif\u00edcil de compreender para quem n\u00e3o passou por essa experi\u00eancia. A gente observa um forte desejo de ver quem praticou o crime punido pelo que fez.<\/p>\n<p>Em geral, esse sentimento de justi\u00e7a n\u00e3o encontra satisfa\u00e7\u00e3o no Brasil porque nossas pol\u00edcias revelam uma grande falta de recursos, de estrutura, para fazer um trabalho investigativo \u00e0 altura. Por isso, o Brasil \u00e9 um pa\u00eds que pune muito, e pune mal. Esses que praticam crimes contra a vida, que s\u00e3o os crimes mais graves, como latroc\u00ednio, execu\u00e7\u00e3o extrajudicial, esses n\u00e3o v\u00e3o para tr\u00e1s das grades porque n\u00e3o se descobre o crime que praticaram. O contato com essas fam\u00edlias faz com que a gente n\u00e3o saia das ruas. Se hoje voc\u00ea me perguntasse qual \u00e9 o meu sonho, entre outros \u00e9 de n\u00e3o ver mais fam\u00edlias passando pelo que essas fam\u00edlias, que conheci muito bem, passaram. \u00c9 uma dor incalcul\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>Site\u00a0Franciscanos &#8211; O que voc\u00ea percebe que mudou no Rio de Janeiro depois da interven\u00e7\u00e3o federal na seguran\u00e7a p\u00fablica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Carlos &#8211;<\/strong> At\u00e9 agora a sociedade n\u00e3o percebeu mudan\u00e7a. N\u00e3o estou falando t\u00e3o somente de um sentimento de inseguran\u00e7a. Esse \u00e9 generalizado. Mas, muitas vezes, pode ser um sentimento produzido artificialmente, porque as pessoas est\u00e3o preocupadas com aquilo que n\u00e3o deveria preocup\u00e1-las. Quando se v\u00ea as estat\u00edsticas do Instituto de Seguran\u00e7a P\u00fablica, percebe que os n\u00fameros s\u00e3o assustadores.<\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) estabelece 10 homic\u00eddios por 100 mil pessoas por ano como limite. Mais de 10 mortes por 100 mil pessoas por ano \u00e9 considerado um quadro end\u00eamico pela OMS. <a href=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/?p=165062\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O Rio de Janeiro hoje tem 30 pessoas mortas a cada 100 mil, ou seja, estamos atravessando uma endemia. No Brasil, a estat\u00edstica \u00e9 a mesma<\/a>. Tem cidades nordestinas com 90 homic\u00eddios a cada 100 mil pessoas. Estamos vivendo hoje um banho de sangue no Brasil. O Rio de Janeiro n\u00e3o \u00e9 um caso isolado e nem \u00e9 o Estado mais violento da Uni\u00e3o. O Nordeste hoje \u00e9 a regi\u00e3o que est\u00e1 atravessando o quadro mais dram\u00e1tico.<\/p>\n<p>No Rio, percebe-se que n\u00e3o houve mudan\u00e7a, as pessoas est\u00e3o ainda sem entender qual \u00e9 o sentido da interven\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se conhece metas, cronogramas, n\u00e3o h\u00e1 presta\u00e7\u00e3o de contas. Sentimos que a interlocu\u00e7\u00e3o com a sociedade civil tamb\u00e9m est\u00e1 muito aqu\u00e9m das exig\u00eancias da democracia e tamb\u00e9m n\u00e3o estamos vendo mudan\u00e7as nas estruturas da Pol\u00edcia Civil e Militar. E o principal, n\u00e3o temos investimento nas favelas, implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas que tenham como objetivo diminuir a desigualdade social que \u00e9 a grande causadora dessa desgra\u00e7a toda.<\/p>\n<p>Pode ser que tenha alguma coisa em curso, que esteja oculta aos nossos olhos, at\u00e9 espero que seja isso, porque acredito que as For\u00e7as Armadas n\u00e3o estejam brincando com a popula\u00e7\u00e3o. Inclusive h\u00e1 pessoas que passam para as pessoas seriedade. Olhando de longe, parece que h\u00e1 nas For\u00e7as Armadas quadros excelentes, de pessoas honestas, gente que passou pelo Haiti, com uma experi\u00eancia exitosa. Por isso alguns setores da sociedade receberam de bom grado a interven\u00e7\u00e3o federal, acreditando que o \u00eaxito no Haiti seria tamb\u00e9m implementado no Rio de Janeiro. Mas at\u00e9 agora n\u00e3o houve mudan\u00e7a e os n\u00fameros est\u00e3o a\u00ed para provar.<\/p>\n<p><strong>Site\u00a0Franciscanos &#8211; O Papa Francisco, muitas vezes, \u00e9 taxado como comunista por causa de sua postura, quando se coloca ao lado das pessoas mais necessitadas e cobra esta postura da Igreja. Voc\u00ea tamb\u00e9m enfrenta essa quest\u00e3o. Na sua opini\u00e3o, por que alguns setores das Igrejas crist\u00e3s e da sociedade veem com maus olhos os crist\u00e3os que defendem as causas sociais e os direitos humanos?<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_179031\" style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption alignright\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-179031\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-179031\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/2018\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/antonio-carlos-2.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"338\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/antonio-carlos-2.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/antonio-carlos-2-150x113.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><p id=\"caption-attachment-179031\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Eduarda Rosa | Blog Argumentandum<\/p><\/div>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Carlos &#8211;<\/strong> As respostas s\u00e3o as mais variadas. N\u00e3o h\u00e1 uma \u00fanica causa para essa oposi\u00e7\u00e3o ao movimento de direitos humanos. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma justificativa para o fato de os crist\u00e3os brasileiros n\u00e3o verem a luta pela defesa dos direitos humanos como sinal caracter\u00edstico da verdadeira santidade de vida. S\u00e3o v\u00e1rios os motivos. Poderia enumer\u00e1-los e vou fazer sem seguir uma ordem de import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Do ponto de vista do protestantismo, percebo uma influ\u00eancia muito grande da Teologia norte-americana. Os pastores, em geral, leem livros produzidos nos Estados Unidos e h\u00e1 setores do protestantismo americano muito contr\u00e1rios ao combate \u00e0 desigualdade social, \u00e0 luta pelos direitos humanos, porque trata-se de uma Igreja que n\u00e3o est\u00e1 vivendo o drama da Am\u00e9rica Latina. S\u00e3o pessoas que n\u00e3o conhecem os problemas sociais que enfrentamos. Muitas vezes, os pastores importam problemas dos Estados Unidos, da cultura americana, e deixam de tratar os problemas do nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Um pastor de uma igreja de classe m\u00e9dia americana n\u00e3o tem, no caminho da sua casa pra igreja, que cruzar cinco favelas. Ele n\u00e3o v\u00ea corpos estendidos no ch\u00e3o, cravados de balas. Ele n\u00e3o sabe o que \u00e9 o telefone tocar \u00e0s 10 horas da noite ter que sair correndo para uma favela, a fim de fazer media\u00e7\u00e3o entre policial e morador. N\u00e3o t\u00eam 62 mil homic\u00eddios dolosos nos Estados Unidos. As igrejas sofrem uma grande influ\u00eancia desse tipo de mentalidade.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m faz parte dessa cultura que a fun\u00e7\u00e3o da igreja \u00e9 somente pregar o Evangelho e que, portanto, essas atividades, que s\u00e3o tidas como seculares, devem ser exercidas por pessoas que n\u00e3o t\u00eam as preocupa\u00e7\u00f5es espirituais que temos. N\u00e3o tenho a menor d\u00favida que a miss\u00e3o n\u00famero um da igreja \u00e9 pregar o Evangelho. Tanto os nossos amigos cat\u00f3licos e os amigos protestantes, todos n\u00f3s sabemos que Cristo morreu e esta mensagem tem que ser anunciada, e s\u00f3 n\u00f3s fazemos isso. Se deixarmos de faz\u00ea-lo, ningu\u00e9m mais o far\u00e1.<\/p>\n<p>A pergunta que precisa ser respondida \u00e9 a seguinte: o que esperamos que saia do resultado da catequese, da prega\u00e7\u00e3o do Evangelho, do que \u00e9 ensinado na missa, no culto? N\u00f3s esperamos que saiam &#8216;pequenos Cristos&#8217;, pessoas com a identidade de Cristo, parecidas com Jesus, que revelem a beleza de Jesus. Revelar o car\u00e1ter de Cristo \u00e9 amar o necessitado, compadecer-se do pobre, do oprimido. N\u00f3s vemos Jesus Cristo fazendo isso o tempo inteiro. Sua atividade p\u00fablica \u00e9 praticamente dedicada aos oprimidos. Do ponto de vista da cultura protestante do nosso pa\u00eds, esse \u00e9 o nosso grande pecado, n\u00e3o vemos a luta pela justi\u00e7a, o combate \u00e0 viola\u00e7\u00e3o de direitos, o enfrentamento da desigualdade social como sinais caracter\u00edsticos de uma vida autenticamente crist\u00e3.<\/p>\n<p>Some-se a isso tamb\u00e9m o desejo de ver a Igreja crescer. Isso \u00e9 triste. H\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o prof\u00edcua de aumentar o n\u00famero de fi\u00e9is. Ent\u00e3o, muitos temem que ao se dedicarem a essas tarefas, v\u00e3o estar impedindo a Igreja de crescer, o que \u00e9 um contrassenso. Que Igreja vai ter o respeito da opini\u00e3o p\u00fablica, da sociedade, se ela se mantiver alheia a estas quest\u00f5es que, muitas vezes, despertam a compaix\u00e3o at\u00e9 de ateus? Ocorre tamb\u00e9m muito medo, porque lidar com estas quest\u00f5es \u00e9 diferente de lidar com o tema do aborto. Estou entre aqueles que creem na santidade do embri\u00e3o, na santidade do feto. Contudo, ir para as redes sociais e condenar o aborto, fazer manifesta\u00e7\u00e3o de rua, n\u00e3o p\u00f5e sua vida em risco. \u00c9 diferente de condenar aquele que, com arma na m\u00e3o, est\u00e1 executando pessoas. \u00c9 uma esquizofrenia muito grande. Quando essa vida nasce, cresce, se transforma num menino negro, morador de favela com 16 anos, voc\u00ea ignora, voc\u00ea n\u00e3o se preocupa com a educa\u00e7\u00e3o dessa crian\u00e7a, voc\u00ea n\u00e3o se preocupa se essa crian\u00e7a est\u00e1 sofrendo maus tratos ou se ela \u00e9 v\u00edtima de bala perdida. Por que n\u00e3o lutar pelo respeito \u00e0 santidade da vida humana em todas as fases em que essa vida transcorre?<\/p>\n<p>Outra causa que percebemos dessa aliena\u00e7\u00e3o na sociedade brasileira \u00e9 uma onda de conservadorismo. Isso \u00e9 um fen\u00f4meno n\u00e3o somente no nosso pa\u00eds, mas em parte da Europa e muito mais nos Estados Unidos. Trata-se de uma febre de conservadorismo de direita muito forte. O discurso dos direitos humanos, do combate \u00e0 desigualdade, da luta pelos direitos da classe trabalhadora, essas pautas ficaram muito identificadas com a esquerda, elas sempre foram vistas como bandeiras da esquerda. Quando voc\u00ea, portanto, sai em favor dessas demandas do direito e da justi\u00e7a, voc\u00ea acaba sendo rotulado como marxista, comunista. As pessoas acham que o comunismo e o marxismo s\u00e3o compat\u00edveis com o cristianismo, o que eu discordo. Eu n\u00e3o sou marxista e muito menos comunista. Contudo, as cr\u00edticas que foram feitas ao capitalismo s\u00e3o cr\u00edticas que, em parte, qualquer profeta do Antigo Testamento faria. N\u00e3o vejo por que, com a mente aberta, com o Evangelho em uma das m\u00e3os e o jornal na outra, como diz a Carta de Paulo aos Tessalonicenses, n\u00e3o se pode reter o que \u00e9 bom destas ideologias. At\u00e9 mesmo no capitalismo, creio que h\u00e1 aquilo que se pode ser aproveitado, aquilo que promova a riqueza, sem dilapidar os recursos naturais e legitimar a explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem.<\/p>\n<p>Estamos enfrentando hoje uma onda conservadora de direita, que faz com que tudo aquilo que pare\u00e7a como ideologia de esquerda seja visto com maus olhos. Fazendo isso, estamos deixando de incorporar \u00e0 pr\u00e1xis crist\u00e3 algo que est\u00e1 t\u00e3o presente no discurso dos profetas maiores, dos profetas menores e, acima de tudo, no Serm\u00e3o da Montanha.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/user\/palavraplenaTV\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Conhe\u00e7a o canal do YouTube<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":222341,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[758],"tags":[863,17,861],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Rio de Paz: Um pastor na luta contra a viol\u00eancia - Not\u00edcias - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/rio-de-paz-o-pastor-que-luta-contra-a-violencia.html\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Rio de Paz: Um pastor na luta contra a viol\u00eancia - 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