{"id":106918,"date":"2015-11-15T11:52:37","date_gmt":"2015-11-15T13:52:37","guid":{"rendered":"http:\/\/franciscanos.org.br\/?p=106918"},"modified":"2019-09-02T11:19:49","modified_gmt":"2019-09-02T14:19:49","slug":"religioes-de-matriz-africana-e-cristianismo-um-dialogo-possivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/religioes-de-matriz-africana-e-cristianismo-um-dialogo-possivel.html","title":{"rendered":"Religi\u00f5es de matriz africana e cristianismo: um di\u00e1logo poss\u00edvel?"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-179104\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/2018\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/volney_840.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/volney_840.jpg 840w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/volney_840-450x268.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/volney_840-768x457.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/volney_840-150x89.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/>Atra\u00eddo por \u201cmundos diferentes do seu\u201d, o te\u00f3logo <strong>Volney J. Berkenbrock<\/strong> mergulhou na tradi\u00e7\u00e3o religiosa de matriz africana para entender, a partir do\u00a0<strong>Candombl\u00e9<\/strong>, essa cosmovis\u00e3o do sagrado e que rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o poss\u00edveis de serem estabelecidas com o catolicismo. \u201cQual resposta de sentido encontra quem faz a experi\u00eancia dos Orix\u00e1s e em que medida o <strong>cristianismo<\/strong> pode dialogar com isto. Este tema serviu n\u00e3o apenas para o doutorado, mas para nortear minhas pesquisas at\u00e9 hoje: a religi\u00e3o dos Orix\u00e1s como um sistema de sentido, de compreens\u00e3o da exist\u00eancia e, sobretudo, de respostas \u00e0s quest\u00f5es do ser humano. \u00c9 uma tem\u00e1tica de pesquisa e curiosidade que nunca se acabaram\u201d, explica.<\/p>\n<p>Ao longo da entrevista concedida por e-mail \u00e0 <strong>IHU On-line<\/strong>, <strong>Berkenbrock<\/strong> fala sobre essa investiga\u00e7\u00e3o, que foi intitulada <strong>A experi\u00eancia dos Orix\u00e1s<\/strong> e desenvolvida durante seu curso de doutorado em Teologia, mas que, como ele menciona, tornou-se um marco que continua orientando seu olhar de pesquisador a respeito da tem\u00e1tica das religi\u00f5es.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das principais caracter\u00edsticas da experi\u00eancia religiosa do <strong>Candombl\u00e9<\/strong>, o te\u00f3logo aborda a situa\u00e7\u00e3o da identidade do cat\u00f3lico a partir do di\u00e1logo com as <strong>religi\u00f5es de matriz africana<\/strong>, n\u00e3o s\u00f3 diante das diferen\u00e7as teol\u00f3gicas, mas tamb\u00e9m perante o contexto social e hist\u00f3rico que cercam as tradi\u00e7\u00f5es religiosas. Ainda, traz o tema do <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/noticias-anteriores\/6971-sincretismos-do-brasil-artigo-de-reginaldo-prandi\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>sincretismo religioso<\/strong><\/a>, um modo peculiar do brasileiro de se relacionar com o sagrado e transitar pelo cen\u00e1rio multicultural do pa\u00eds, onde as diferentes tradi\u00e7\u00f5es religiosas, como o catolicismo e o <strong>Candombl\u00e9<\/strong>, se afetam e constroem-se reciprocamente.<\/p>\n<p>\u201cEntendo que o sincretismo \u00e9 um processo permanente de di\u00e1logo, parte da din\u00e2mica cultural. Assim, dentro dele, h\u00e1 elementos que s\u00e3o interessantes numa an\u00e1lise. Um deles \u00e9 justamente esta m\u00fatua influ\u00eancia. Ao falarmos de sincretismo no Brasil muitas vezes se pensa logo nas religi\u00f5es afro-brasileiras, como se fossem somente elas pass\u00edveis de serem sincretizadas; fazendo uma an\u00e1lise mais apurada se pode perceber que \u2014 mesmo estando em condi\u00e7\u00e3o social muito adversa \u2014 as compreens\u00f5es religiosas de matriz africana tamb\u00e9m deixaram marcas em tradi\u00e7\u00f5es crist\u00e3s\u201d, aponta.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=2833&amp;secao=309\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Volney J. Berkenbrock<\/strong><\/a> \u00e9 frei franciscano e doutor em Teologia pela Faculdade de Teologia Cat\u00f3lica da Universidade Federal de Bonn, Alemanha, t\u00edtulo que obteve com a tese <strong>A experi\u00eancia dos Orix\u00e1s<\/strong> (Petr\u00f3polis: Vozes, 1998), trabalho publicado em 1995 na Alemanha (Die Erfahrung der Orix\u00e1s. Bonn: Verlag N. Borengaesser, 1995) e em 1998 no Brasil. Atualmente \u00e9 professor do programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancia da Religi\u00e3o na Universidade Federal de Juiz de Fora &#8211; UFJF.<\/p>\n<h3><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/h3>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 De onde partiu seu interesse pelas religi\u00f5es de matriz africana? Quais foram os objetivos de sua pesquisa? Por que a escolha do Candombl\u00e9 especificamente?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Volney J. Berkenbrock &#8211;<\/strong> O meu interesse pelas <strong>religi\u00f5es de matriz africana<\/strong> come\u00e7ou de forma um tanto casual. Quando fazia a faculdade de Teologia, o professor da disciplina chamada Sociologia da Religi\u00e3o nos deu uma tarefa: visitar algum ritual de uma religi\u00e3o que n\u00e3o fosse de tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e tentar descrever o que ali t\u00ednhamos visto e o que hav\u00edamos entendido. Eu, como outros colegas de curso, fui procurar alguma casa na linha do que o professor tinha pedido. Algu\u00e9m do grupo sabia que n\u00e3o muito longe de onde mor\u00e1vamos havia um templo religioso que n\u00e3o era crist\u00e3o. E tivemos a informa\u00e7\u00e3o de que haveria ritual numa sexta-feira. Para l\u00e1 nos dirigimos: <strong>Tenda Esp\u00edrita de Ox\u00f3ssi<\/strong>, assim chamava-se a casa.<\/p>\n<p>Eu nunca havia entrado num templo religioso que n\u00e3o fosse crist\u00e3o e nunca havia participado de qualquer ritual religioso onde Jesus Cristo e a B\u00edblia n\u00e3o fossem uma refer\u00eancia. Tudo ali naquele templo foi novidade para mim: a organiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, a defuma\u00e7\u00e3o, os s\u00edmbolos, as cores, a m\u00fasica, a dan\u00e7a, as consultas, as entidades&#8230; Fiquei vendo aquele ritual, sem entender praticamente nada. Disseram-nos que <strong>Vov\u00f3 Luiza<\/strong> \u00e9 que estava presente. Um dos membros do grupo, mais corajoso um pouco, foi fazer uma consulta. N\u00f3s outros s\u00f3 observ\u00e1vamos (e certamente \u00e9ramos observados). Terminado o ritual, como n\u00e3o hav\u00edamos entendido quase nada, perguntamos se algu\u00e9m poderia nos explicar algo, pois precis\u00e1vamos apresentar em aula o relato da visita. Aquela senhorinha \u2014 <strong>Vov\u00f3 Luiza<\/strong> \u2014 disp\u00f4s-se a responder nossas perguntas. E ali ficou um bom tempo tentando nos explicar o que significava cada coisa, bem como os momentos do ritual.<\/p>\n<p>Para mim abriu-se um novo mundo: uma realidade da qual nunca tinha tomado conhecimento, mas que tinha uma l\u00f3gica, uma compreens\u00e3o, uma organiza\u00e7\u00e3o. E muitas pessoas tinham ido ao ritual \u2014 para se consultar \u2014 dado que era uma casa relativamente grande. Tomado por uma curiosidade que sempre me foi natural para quase tudo, pensei comigo: estas pessoas todas que aqui est\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o loucas; elas devem encontrar um sentido nisto tudo; elas devem encontrar aqui respostas para o que buscam. Este foi o ponto de partida: uma curiosidade enorme por entender o que ali acontecia, qual era a l\u00f3gica que regia aquele mundo, qual resposta de sentido encontravam as pessoas. Sa\u00ed daquela visita com o prop\u00f3sito de tentar entender isto. Depois da visita, procurei os livros da biblioteca sobre o assunto. Li avidamente diversas obras. Comecei a perceber que aquele mundo era muito mais amplo e complexo do que eu inicialmente imaginara. Das leituras comecei a entender que havia, por exemplo, <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/531425-justica-federal-define-que-cultos-afro-brasileiros-como-a-umbanda-e-candomble-nao-sao-religiao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Umbanda<\/strong> e <strong>Candombl\u00e9<\/strong><\/a>; que macumba era uma palavra mais pejorativa que descritiva; que <strong>Vov\u00f3 Luiza<\/strong> n\u00e3o era o nome da senhorinha que nos atendeu, mas sim o nome da entidade que ela recebera no dia do ritual; que a casa que visitamos era um templo da Umbanda etc.<\/p>\n<p>Num primeiro momento, diria que meu interesse pelas religi\u00f5es de matriz africana no Brasil foi entender como funciona aquele mundo. Como eu n\u00e3o tinha tido anteriormente qualquer contato com alguma religi\u00e3o desta tradi\u00e7\u00e3o, quer positivo, quer negativo, confesso que n\u00e3o tive qualquer medo do contato. Para mim tudo era novidade. E posso dizer que muito aprendi e achei tudo muito interessante.<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/santo-400.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignright wp-image-106921 size-full\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/santo-400.jpg\" alt=\"santo-400\" width=\"400\" height=\"267\" \/><\/a>O doutorado<\/strong><\/p>\n<p>Terminada j\u00e1 a gradua\u00e7\u00e3o em Teologia e estando eu alguns anos depois \u00e0s voltas com uma tem\u00e1tica para o doutorado \u2014 na <strong>Universidade de Bonn<\/strong>, Alemanha \u2014 participei de um semin\u00e1rio dirigido por meu orientador (<strong>Hans Waldenfels<\/strong>) com a tem\u00e1tica: <strong>O esp\u00edrito nas religi\u00f5es n\u00e3o crist\u00e3s<\/strong>. Resolvi ent\u00e3o buscar meus conhecimentos antigos sobre as religi\u00f5es de matriz africana no Brasil e tentar apresentar no semin\u00e1rio o tema do esp\u00edrito (entidades, orix\u00e1s, guias) nestas religi\u00f5es. Meu orientador achou a tem\u00e1tica interessante e me incentivou a mudar a tem\u00e1tica inicial do doutorado. Eu intentava pesquisar um tema dentro da Pneumatologia [1]. Meu orientador me disse: isto muitos j\u00e1 fizeram; fa\u00e7a algo ligado \u00e0 tem\u00e1tica do Brasil, alguma coisa que seja interessante para a Igreja do Brasil. Achei a ideia tentadora e conversei com <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/547571-francisco-de-assis-o-prototipo-ocidental-da-razao-cordial-e-emocional-entrevista-especial-com-leonardo-boff\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Leonardo Boff<\/strong><\/a> [2], meu antigo professor de Teologia Sistem\u00e1tica e que me havia incentivado a continuar os estudos. Ele achou a tem\u00e1tica muito boa e assim decidi mudar o rumo da pesquisa de doutorado que estava apenas iniciando.<\/p>\n<p>Faltava ainda especificar mais a busca e, ap\u00f3s mais leituras, a pergunta inicial me veio novamente \u00e0 mente: que respostas encontram as pessoas que buscam estas religi\u00f5es? Era necess\u00e1rio estreitar a tem\u00e1tica e me decidi ent\u00e3o pelo <strong>Candombl\u00e9<\/strong>. Esta decis\u00e3o deveu-se muito mais ao fato de ter j\u00e1 lido muito material sobre esta religi\u00e3o do que \u2014 por exclus\u00e3o \u2014 de outra tradi\u00e7\u00e3o. Focando ainda mais a pesquisa, cheguei ao tema espec\u00edfico de meu doutorado: a experi\u00eancia religiosa no Candombl\u00e9. Ou seja, qual resposta de sentido encontra quem faz a experi\u00eancia dos Orix\u00e1s e em que medida o cristianismo pode dialogar com isto. O tema serviu n\u00e3o apenas para o doutorado, mas para nortear minhas pesquisas at\u00e9 hoje: a religi\u00e3o dos Orix\u00e1s como um sistema de sentido, de compreens\u00e3o da exist\u00eancia e, sobretudo, de respostas \u00e0s quest\u00f5es do ser humano. \u00c9 uma tem\u00e1tica de pesquisa e curiosidade que nunca se acabaram.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 De que forma a perspectiva da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o se insere em sua pesquisa sobre o Candombl\u00e9? Por que a escolha desta abordagem teol\u00f3gica neste trabalho?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Volney J. Berkenbrock &#8211;<\/strong> Fiz minha gradua\u00e7\u00e3o em Teologia na d\u00e9cada de 1980, per\u00edodo forte da <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=4674&amp;secao=404\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/a> [3]. Um dos pontos altos desta teologia era o seu famoso m\u00e9todo, muito bem estudado e apresentado por outro professor que tive, <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/534115-frei-clodovis-boff-so-e-possivel-uma-teologia-da-libertacao-sob-a-condicao-de-comecar-e-acabar-no-horizonte-da-fe\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Clodovis Boff<\/strong><\/a>. Nele, a an\u00e1lise da realidade \u00e9 o ponto de partida. Para mim, esta metodologia encaixou-se como uma luva: como analisar esta realidade religiosa do <strong>Candombl\u00e9<\/strong>? Eu poderia, pois, utilizar um m\u00e9todo que j\u00e1 me era familiar e aplic\u00e1-lo ao meu objeto de pesquisa. Ao mesmo tempo, toda a linguagem da liberta\u00e7\u00e3o que estivera presente na teologia e aplicada geralmente \u00e0 realidade social, pol\u00edtica, econ\u00f4mica, eclesial, ganhava para mim outro elemento. Era sabido que as pessoas destas tradi\u00e7\u00f5es religiosas de matriz africana eram oprimidas e discriminadas por muitos aspectos. Mas os discursos sobre como pensar num processo de liberta\u00e7\u00e3o para estas pessoas abrangiam quase exclusivamente a quest\u00e3o \u00e9tnico-racial, econ\u00f4mica, pol\u00edtica e eclesial. E muito pouco a quest\u00e3o religiosa (e teol\u00f3gica) destas pessoas.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 De que maneira a diversidade cultural \u00e9 abordada pela Teologia, sobretudo no contexto latino-americano?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Volney J. Berkenbrock &#8211;<\/strong> Ao avan\u00e7ar em meus estudos sobre o <strong>Candombl\u00e9<\/strong> e como a <strong>teologia crist\u00e3<\/strong> \u2014 inclusive a<strong>Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/strong> \u2014 interpretava esta realidade, comecei a notar algo que para mim se tornou cada vez mais um problema bastante complexo. A teologia crist\u00e3, na maioria dos casos, ao abordar a diversidade cultural a entende mais como diversidade de costumes, de l\u00ednguas, de express\u00f5es. Mas se pensa quase sempre numa teologia crist\u00e3 subjacente a esta diversidade. Mesmo a <strong>Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/strong>, considerada avan\u00e7ada em sua \u00e9poca, continuava a pensar as quest\u00f5es pol\u00edticas, sociais, econ\u00f4micas sempre a partir da matriz crist\u00e3. A <strong>quest\u00e3o cultural<\/strong> era ainda incipiente para a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o. Passados cerca de 30 anos desde que terminei minha forma\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica b\u00e1sica, vejo que muito se avan\u00e7ou nesta quest\u00e3o da diversidade cultural dentro da teologia, sobretudo com a chamada<strong>teologia pluralista das religi\u00f5es<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Em sua pesquisa o senhor afirma que o reconhecimento da alteridade do outro (nesse caso os fi\u00e9is das religi\u00f5es de matriz africana) interpela a identidade crist\u00e3. Por qu\u00ea? De que forma acontece essa interpela\u00e7\u00e3o e que implica\u00e7\u00f5es pode trazer para a identidade cat\u00f3lica especificamente?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Volney J. Berkenbrock &#8211;<\/strong> Quando nos aproximamos da realidade das religi\u00f5es de matriz africana no Brasil, come\u00e7am a aparecer diversos aspectos para o <strong>cristianismo<\/strong> que interpelam a sua identidade. H\u00e1 um aspecto que \u00e9 a quest\u00e3o hist\u00f3rica ligada \u00e0 escravid\u00e3o: como p\u00f4de acontecer que crist\u00e3os escravizaram pessoas, milh\u00f5es de pessoas, durante s\u00e9culos? Isto \u00e9 um tipo de interpela\u00e7\u00e3o: a dist\u00e2ncia entre o proposto e o vivido no cristianismo. Enfrentar a quest\u00e3o do papel de crist\u00e3os na hist\u00f3ria da constitui\u00e7\u00e3o da<strong> Am\u00e9rica Latina<\/strong> \u00e9 muito importante. N\u00e3o se trata simplesmente de revolver o passado, mas sim de \u2014 a partir do que ocorreu no passado \u2014 pensar nesta rela\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 crist\u00e3 e forma de vida para os tempos em que vivemos. Esta interpela\u00e7\u00e3o pode ser vista tanto no sentido de viv\u00eancia de cada fiel, como tamb\u00e9m para a institui\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Trata-se aqui da necessidade da institui\u00e7\u00e3o de estar atenta sempre novamente \u00e0 proposta do Evangelho. Especificamente, para o <strong>catolicismo<\/strong> como institui\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso haver a constante preocupa\u00e7\u00e3o em suas estruturas organizacionais por espelhar a identidade crist\u00e3, quer dizer, o seguimento da proposta de amor, de servi\u00e7o, de miseric\u00f3rdia de Jesus Cristo. Este \u00e9, pois, um tipo de interpela\u00e7\u00e3o que o contato com as <strong>religi\u00f5es de matriz africana<\/strong> no Brasil faz \u00e0 identidade crist\u00e3. Esta interpela\u00e7\u00e3o aponta para um desafio aos crist\u00e3os: viver crist\u00e3mente.<\/p>\n<p>Outra interpela\u00e7\u00e3o \u00e0 identidade crist\u00e3 \u00e9 de natureza mais profunda e radical. O cristianismo se prop\u00f5e a ser uma resposta de sentido a todo ser humano de uma forma ampla e uma proposta de caminho para se chegar \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o deste sentido. Sem aprofundar muito aqui a quest\u00e3o, percebo que uma compreens\u00e3o mais aprofundada dos <strong>sistemas religiosos de <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=4593&amp;secao=400\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">matriz africana<\/a><\/strong>, que aportaram em nosso pa\u00eds pela escravid\u00e3o e aqui se reorganizaram, mostra que eles apresentam igualmente tanto uma proposta de sentido como uma oferta de caminho para se chegar \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o. Ou seja, estes sistemas religiosos se apresentam com a mesma proposta de totalidade de sentido que tem o cristianismo. Esta constata\u00e7\u00e3o interpela a identidade crist\u00e3 no sentido ent\u00e3o de \u2014 minimamente \u2014 levar em considera\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser nesta realidade a \u00fanica proposta de sentido religioso. Mas a maior interpela\u00e7\u00e3o \u00e0 identidade crist\u00e3 decorrente desta constata\u00e7\u00e3o est\u00e1 no fato de terem sido as propostas religiosas de sentido destas tradi\u00e7\u00f5es aquelas que responderam \u00e0 busca pelo sentido de milhares de pessoas jogadas neste mundo de escravizados ou descendentes de escravos. Foi nestas <strong>tradi\u00e7\u00f5es religiosas<\/strong> que muitas destas pessoas encontraram acolhida e caminho de sentido.<\/p>\n<p>N\u00e3o basta aos crist\u00e3os, frente a esta constata\u00e7\u00e3o, dizer que as pessoas da \u00e9poca, que escravizaram, n\u00e3o viveram o cristianismo de uma forma verdadeira. Seria uma sa\u00edda pela tangente. \u00c9 preciso levar em considera\u00e7\u00e3o o fato de haver uma proposta de sentido paralela \u00e0 do cristianismo e que foi e \u00e9 realidade para milhares de pessoas. Diante disto, a identidade crist\u00e3 precisa novamente voltar \u00e0 quest\u00e3o posta acima: o problema da dist\u00e2ncia entre o proposto e o vivido. Somente atrav\u00e9s do vivido \u00e9 que a<strong> identidade crist\u00e3<\/strong> pode ser verificada. E \u00e9 esta verifica\u00e7\u00e3o (pela vida) o desafio que os outros sistemas religiosos colocam \u00e0 identidade crist\u00e3.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como o contexto s\u00f3cio-hist\u00f3rico \u00e9 abordado pela Teologia no estudo das religi\u00f5es de matriz africana, sobretudo nos cen\u00e1rios brasileiro e latino-americano, marcados pela viol\u00eancia advinda dos processos de coloniza\u00e7\u00e3o e escravid\u00e3o? De que forma s\u00e3o tratados a presen\u00e7a e o papel da Igreja Cat\u00f3lica nesse \u00e2mbito? Qual era esse papel?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Volney J. Berkenbrock &#8211;<\/strong> H\u00e1 aqui duas quest\u00f5es que queria distinguir: uma delas \u00e9 o papel que a <strong>Igreja cat\u00f3lica<\/strong> \u2014 em todos os seus n\u00edveis \u2014 desempenhou na <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/545492-brasil-uma-historia-sobre-escravidao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">hist\u00f3ria da escravid\u00e3o<\/a>. N\u00e3o foi um papel dos mais gloriosos. Pelo contr\u00e1rio, as vozes advindas da Igreja cat\u00f3lica contra a escraviza\u00e7\u00e3o de africanos e contra tudo o que isto envolvia foram poucas, foram fracas e foram exce\u00e7\u00f5es. \u00c9 preciso ent\u00e3o trabalhar esta quest\u00e3o hist\u00f3rica: por um lado entend\u00ea-la e por outro seguir o caminho da repara\u00e7\u00e3o, da restitui\u00e7\u00e3o. Isto dado que o passado n\u00e3o pode mais ser mudado. Outra quest\u00e3o, advinda da an\u00e1lise do papel da Igreja cat\u00f3lica na escravid\u00e3o, \u00e9 o<strong> aprendizado<\/strong> que disto se pode retirar para que a Igreja cat\u00f3lica e todos os seus organismos estejam atentos a quest\u00f5es atuais, para nelas n\u00e3o desempenharem pap\u00e9is que em um futuro n\u00e3o muito distante venham a ser percebidos n\u00e3o apenas como equ\u00edvocos hist\u00f3ricos, mas como atitudes contra a proposta do Evangelho.<\/p>\n<p>Nesta linha, h\u00e1 uma lista enorme de quest\u00f5es a serem trabalhadas, como, por exemplo, o papel e a import\u00e2ncia da<strong>mulher na Igreja<\/strong>, o papel da Igreja na <strong>quest\u00e3o ecol\u00f3gica<\/strong>, a complexa quest\u00e3o de <strong>g\u00eaner<\/strong>o, a situa\u00e7\u00e3o das <strong>regras para os sacramentos<\/strong> etc. N\u00e3o estou apontando aqui nenhuma sugest\u00e3o concreta para estas quest\u00f5es. Estou apenas apontando alguns temas onde \u00e9 necess\u00e1ria uma aten\u00e7\u00e3o maior para que no futuro n\u00e3o se tenha que reconhecer que teria sido poss\u00edvel fazer diferente. O <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/540952-com-o-jubileu-da-misericordia-o-papa-francisco-reorienta-a-igrejaq-entrevista-com-massimo-faggioli\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>papa Francisco<\/strong><\/a>, ali\u00e1s, tem sido uma voz muito corajosa nesta linha. Tem pedido constantemente uma <strong>Igreja misericordiosa<\/strong>, uma <strong>Igreja em sa\u00edda<\/strong>, uma Igreja da <strong>alegria do Evangelho<\/strong> e n\u00e3o somente guardi\u00e3 das estruturas antigas.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 De que forma seu trabalho se insere em um contexto amplo da compreens\u00e3o que a Igreja Cat\u00f3lica tem sobre as outras religi\u00f5es e o di\u00e1logo inter-religioso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Volney J. Berkenbrock &#8211;<\/strong> Vivemos hoje numa situa\u00e7\u00e3o cultural onde o <strong>pluralismo<\/strong> \u00e9 cada vez mais a regra. Tudo \u00e9 plural, ou quase tudo. E isto tamb\u00e9m em termos de religi\u00e3o: h\u00e1 muitas possibilidades. Consequ\u00eancia disto \u00e9 que h\u00e1 propostas que podem ser escolhidas. Ter alguma religi\u00e3o (ou n\u00e3o ter) \u00e9 uma quest\u00e3o de op\u00e7\u00e3o. Em princ\u00edpio, qualquer pessoa pode fazer sua op\u00e7\u00e3o religiosa. Vemos isto como um direito. Esta \u00e9 a forma de pensamento e sentimento que temos hoje. Mas isto coloca para as religi\u00f5es duas quest\u00f5es muito importantes: A partir de qual ponto de vista as pessoas escolhem uma religi\u00e3o? E como estas op\u00e7\u00f5es religiosas (suas organiza\u00e7\u00f5es) v\u00e3o conviver?<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 primeira quest\u00e3o, penso que cada vez menos a <strong>op\u00e7\u00e3o religiosa<\/strong> se d\u00e1 pela proposta de doxa (o que tal religi\u00e3o apresenta como verdade) e cada vez mais a op\u00e7\u00e3o religiosa \u00e9 feita a partir da proposta de pr\u00e1xis (qual proposta de vida tem esta religi\u00e3o). Para a Igreja cat\u00f3lica, n\u00e3o vejo isto como um problema, mas como uma grande chance: apresentar-se cada vez mais como uma proposta de vida. Na segunda quest\u00e3o est\u00e1 para mim o grande desafio de nosso tempo: como conviver. N\u00e3o podemos mais sonhar com um mundo unit\u00e1rio, onde todos v\u00e3o se entender sobre uma s\u00e9rie de quest\u00f5es. Vivemos num mundo plural, onde a diversidade ser\u00e1 a regra (pelo menos nos pr\u00f3ximos tempos). E sendo ent\u00e3o assim, o desafio \u00e9 conviver com a diversidade. Digo isto n\u00e3o apenas em termos religiosos. Tamb\u00e9m em termos pol\u00edticos, culturais, de costumes etc. se coloca o mesmo desafio da conviv\u00eancia. Nesta linha, no meu contato de mais de 30 anos com as <strong>religi\u00f5es de matriz africana<\/strong> no Brasil aprendi algo sobre a conviv\u00eancia. Depois deste tempo, n\u00e3o vejo mais estas casas como lugar de pesquisas, mas sim como casas de amigos. Aprendemos a conviver em muitos aspectos: participamos em conjunto de muitos momentos, tristes ou alegres. Assim muitas vezes sou convidado para festas de fam\u00edlia, de anivers\u00e1rio, para um churrasco e tamb\u00e9m para as festas religiosas.<\/p>\n<p>Marcou-me muito o que ocorreu quando do falecimento de uma filha de santo duma casa de <strong>Candombl\u00e9<\/strong>. A fam\u00edlia da falecida era de tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica e morava no interior; a pessoa falecida morava na capital e tinha se iniciado no Candombl\u00e9. Nos momentos antes do sepultamento, de forma espont\u00e2nea e em sintonia com a M\u00e3e-de-santo, eu conduzi as ora\u00e7\u00f5es de tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica e ela conduziu o cortejo com a prociss\u00e3o e a cantiga do Candombl\u00e9. Foi um momento de conviv\u00eancia: unidos pela dor da perda de uma pessoa amiga, unidos pela <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/519906-o-dialogo-inter-religioso-nao-e-competicao-mas-peregrinacao-rumo-a-verdade-defende-tauran\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>diversidade da f\u00e9<\/strong><\/a>.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Quais s\u00e3o as principais diferen\u00e7as e semelhan\u00e7as entre as concep\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas cat\u00f3licas e do Candombl\u00e9? Que contribui\u00e7\u00f5es essas religi\u00f5es podem trazer uma \u00e0 outra j\u00e1 que ambas s\u00e3o cultuadas intensamente no Brasil gerando inclusive o fen\u00f4meno da dupla milit\u00e2ncia, conforme o senhor pontua?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Volney J. Berkenbrock &#8211;<\/strong> Tanto o sistema religioso do <strong>cristianismo cat\u00f3lico<\/strong> quanto do <strong>Candombl\u00e9<\/strong> s\u00e3o muito complexos e amplos para se poder apontar de maneira r\u00e1pida semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as. Queria aqui acenar apenas para um elemento: na tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 existe a compreens\u00e3o de bem e mal. No <strong>Candombl\u00e9<\/strong> n\u00e3o existe esta compreens\u00e3o, mas sim a de equil\u00edbrio: as coisas est\u00e3o equilibradas ou desequilibradas. Na tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, para o mal (o pecado), existe o perd\u00e3o. No Candombl\u00e9 algo estaria desequilibrado e exigiria alguma a\u00e7\u00e3o para recompor o equil\u00edbrio. S\u00e3o concep\u00e7\u00f5es diferentes que geram atitudes diferentes. Enquanto se est\u00e1 pensando em fi\u00e9is desta ou daquela tradi\u00e7\u00e3o, isto fica mais f\u00e1cil de perceber: concep\u00e7\u00f5es diferentes e atitudes religiosas diferentes.<\/p>\n<p>Mas temos entre n\u00f3s uma particularidade chamada \u00e0s vezes de dupla milit\u00e2ncia. Como fazer ent\u00e3o? A\u00ed a pergunta pelas diferen\u00e7as j\u00e1 se torna mais complexa. E \u00e9 especialmente mais complexa pelo fato de que a express\u00e3o dupla milit\u00e2ncia \u00e9 advinda do<strong> modo de pensar <\/strong>crist\u00e3o. Para o modo de pensar pr\u00f3prio do <strong>Candombl\u00e9<\/strong> n\u00e3o h\u00e1 aqui qualquer duplicidade, pois se tem ali uma forma de pensar inclusiva. N\u00e3o h\u00e1 duas coisas: as duas atitudes fazem parte de uma \u00fanica realidade, assim o compreendem. Levei anos para perceber que de fato um membro da tradi\u00e7\u00e3o do Candombl\u00e9 que frequenta tamb\u00e9m a tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica n\u00e3o sente isto como uma duplicidade (e muito menos como contradi\u00e7\u00e3o), mas como uma \u00fanica realidade. Esta forma de pensar inclusiva \u00e9 uma caracter\u00edstica marcante do <strong>povo Iorubano<\/strong>, que est\u00e1 na raiz do Candombl\u00e9.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; De que maneira o sincretismo religioso se construiu ao longo da hist\u00f3ria do Brasil, persistindo contemporaneamente? De que modo o senhor avalia essa pr\u00e1tica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Volney J. Berkenbrock &#8211;<\/strong> A tem\u00e1tica do sincretismo nas <strong>religi\u00f5es de matriz africana<\/strong> no Brasil \u00e9 um dos aspectos muito estudados e posto em evid\u00eancia. Muito se quis fazer para entender como surgiu ou se formou o <strong>sincretismo<\/strong>. Hoje tendo a pensar o sincretismo num \u00e2mbito bem maior que \u00e9 o do<strong> di\u00e1logo intercultural<\/strong>. \u00c9 um fen\u00f4meno que ocorre em praticamente toda a hist\u00f3ria conhecida das religi\u00f5es. N\u00e3o h\u00e1 religi\u00e3o que tenha nascido pura de qualquer influ\u00eancia, nem que tenha se mantido pura de qualquer influ\u00eancia, nem que tenha chegado a um estado que n\u00e3o mais vai ser influenciada por outras tradi\u00e7\u00f5es religiosas.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio<strong> cristianismo<\/strong> \u00e9 um exemplo claro de um grande sincretismo, formado de ra\u00edzes judaicas (que tinham muitas influ\u00eancias eg\u00edpcias, babil\u00f4nicas, persas), por influ\u00eancias gregas e romanas, por influ\u00eancias germ\u00e2nicas e assim por diante. Com as divis\u00f5es institucionais dentro do cristianismo em diversas igrejas, estes processos sincr\u00e9ticos se tornam ainda mais claros: ora esta, ora aquela influ\u00eancia se torna mais vis\u00edvel. Assim, o <strong>processo de forma\u00e7\u00e3o<\/strong> das religi\u00f5es afro-brasileiras tamb\u00e9m \u00e9 perpassado por muitos sincretismos. Eu os vejo n\u00e3o como mistura ou \u2014 o que seria pior ainda \u2014 como degenera\u00e7\u00e3o religiosa, mas sim como o resultado de um di\u00e1logo cultural sempre presente na hist\u00f3ria das religi\u00f5es. O que geralmente chamamos de sincretismo \u00e9, a meu modo de ver, um grande <strong>di\u00e1logo inter-religioso<\/strong>. Constitu\u00eddo n\u00e3o por vias de encontros para este fim, mas por vias da din\u00e2mica cultural.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O que o sincretismo religioso revela sobre o modo dos brasileiros de viverem a experi\u00eancia religiosa? E sobre o contexto s\u00f3cio-hist\u00f3rico?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Volney J. Berkenbrock &#8211;<\/strong> Percebendo o <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=3344&amp;secao=335\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>sincretismo<\/strong><\/a> como um processo inerente \u00e0 din\u00e2mica cultural, \u00e9 interessante perguntar-se quais mecanismos o conduziram. Como algumas coisas se formaram de uma maneira e outras de outra? Penso que um dos elementos importantes para se entender o caminho do processo dialogal do sincretismo \u00e9 o que chamaria de l\u00f3gica do objetivo. As coisas se juntam, se interinfluenciam mais quando h\u00e1 objetivos comuns que s\u00e3o visados. Assim, a busca da experi\u00eancia religiosa pode ser entendida como um elemento impulsionador do sincretismo. Mas este \u00e9 apenas um elemento na grande teia que o sincretismo vai permanentemente tecendo. Nela muitos s\u00e3o os coloridos que fazem o todo sempre mais belo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Em sua pesquisa o senhor afirma que o processo de sincretismo n\u00e3o teve e n\u00e3o tem uma m\u00e3o \u00fanica, ou seja, influenciou as religi\u00f5es de matriz africana e o catolicismo mutuamente. Que elementos evidenciam essa afeta\u00e7\u00e3o m\u00fatua nos campos religiosos afrodescendente e cat\u00f3lico? O que nos revelam os processos de \u201cdesafricaniza\u00e7\u00e3o\u201d dos negros e mesti\u00e7os e \u201creafricaniza\u00e7\u00e3o\u201d da sociedade e cultura brasileira?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Volney J. Berkenbrock &#8211;<\/strong> Entendo que o sincretismo \u00e9 um processo permanente de di\u00e1logo, parte da <strong>din\u00e2mica cultural<\/strong>. Assim, dentro dele, h\u00e1 elementos que s\u00e3o interessantes numa an\u00e1lise. Um deles \u00e9 justamente esta m\u00fatua influ\u00eancia. Ao falarmos de sincretismo no Brasil muitas vezes se pensa logo nas <strong>religi\u00f5es afro-brasileiras<\/strong>, como se fossem somente elas pass\u00edveis de serem sincretizadas; fazendo uma an\u00e1lise mais apurada se pode perceber que \u2014 mesmo estando em condi\u00e7\u00e3o social muito adversa \u2014 as compreens\u00f5es religiosas de matriz africana tamb\u00e9m deixaram marcas em tradi\u00e7\u00f5es crist\u00e3s.<\/p>\n<p>Em termos de <strong>catolicismo<\/strong>, por exemplo, uma marca interessante \u00e9 a import\u00e2ncia que se d\u00e1 \u00e0 missa de 7\u00ba dia (e 30\u00ba). Na tradi\u00e7\u00e3o do <strong>Candombl\u00e9<\/strong>, h\u00e1 um ritual f\u00fanebre feito dias ou semanas depois do sepultamento, que \u00e9 uma despedida do falecido da comunidade. Na tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica existe a missa de 7\u00ba dia (ou 30\u00ba). \u00c9 uma tradi\u00e7\u00e3o antiga. Mas em diversos lugares do Brasil ela tomou uma import\u00e2ncia muito grande. \u00c9 uma esp\u00e9cie de momento de despedida do grupo de amigos, uma esp\u00e9cie de homenagem-despedida. Nisto, penso, h\u00e1 influ\u00eancia da tradi\u00e7\u00e3o do Candombl\u00e9.<\/p>\n<p>Esta influ\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 apenas no catolicismo. Se formos para o universo das <strong>igrejas pentecostais<\/strong>, por exemplo, h\u00e1 ali influ\u00eancias muito maiores como momentos de transe ou de express\u00e3o corporal. Outro elemento de an\u00e1lise interessante neste processo de di\u00e1logo intercultural \u00e9 o que tem ocorrido entre o <strong>Brasil<\/strong> e a <strong>\u00c1frica negra<\/strong>. Este tem se intensificado nos \u00faltimos tempos e gera dentro das tradi\u00e7\u00f5es religiosas afro-brasileiras a chamada reafricaniza\u00e7\u00e3o, ou seja, um processo de influ\u00eancia africana novamente sobre os descendentes destas tradi\u00e7\u00f5es no Brasil.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Quem \u00e9 voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Volney J. Berkenbrock &#8211; <\/strong>Sou um franciscano que continua encantado com a pluralidade religiosa. Vejo esta n\u00e3o como um problema, mas como uma imensa riqueza de formas de pensar e viver. Todas tentando desvendar o mist\u00e9rio da vida. E isto me leva a crer cada vez mais na grandiosidade do mist\u00e9rio divino e pensar\/sentir que somos, cada pessoa ou cada tradi\u00e7\u00e3o religiosa, guardi\u00e3es de peda\u00e7os deste imenso tesouro. E que cada qual cuide o melhor poss\u00edvel de sua parte, mas tamb\u00e9m admire com maravilhamento as partes cuidadas pelos outros.<\/p>\n<p><strong>Entrevista concedida ao Instituto Humanitas Unisinos &#8211;<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/\"> www.ihu.unisinos.br<\/a><\/strong><\/p>\n<h3><strong>Notas:<\/strong><\/h3>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>[1] <strong>Pneumatologia<\/strong>: Pneuma \u00e9 a palavra grega para &#8220;respira\u00e7\u00e3o&#8221;, que metaforicamente descreve um ser de esp\u00edrito ou influ\u00eancia. NaTeologia Crist\u00e3, pneumatologia se refere ao estudo do Esp\u00edrito Santo. (Nota da IHU On-Line)<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>[2] <strong>Leonardo Boff<\/strong> (1938): te\u00f3logo brasileiro, autor de mais de 60 livros nas \u00e1reas de teologia, espiritualidade, filosofia, antropologia e m\u00edstica. Boff escreveu um depoimento sobre as raz\u00f5es que ainda lhe motivam a ser crist\u00e3o, publicado na edi\u00e7\u00e3o especial de Natal da IHU On-Line, n\u00famero 209, de 18-12-2006, dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/bit.ly\/iBjvZq\">http:\/\/bit.ly\/iBjvZq<\/a>, e concedeu uma entrevista sobre a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o na IHU On-Line n\u00famero 214, de 02-04-2007, dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/bit.ly\/kaibZx.\">http:\/\/bit.ly\/kaibZx.<\/a> Na edi\u00e7\u00e3o 238, de 01-10-2007, intitulada <strong>Francisco. O santo<\/strong>, concedeu a entrevista A ecologia exterior e a ecologia interior. Francisco, uma s\u00edntese feliz, dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/bit.ly\/km44R2.\">http:\/\/bit.ly\/km44R2.<\/a> Sua entrevista mais recente \u00e0 IHU On-Line intitula-se Ecologia integral. A grande novidade da Laudato Si&#8217;. &#8220;Nem a ONU produziu um texto desta natureza&#8221; e est\u00e1 dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1lk6J6U.\">http:\/\/bit.ly\/1lk6J6U.<\/a> (Nota da IHU On-Line<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>[3] <strong>Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/strong>: escola teol\u00f3gica desenvolvida depois do Conc\u00edlio Vaticano II. Surge na Am\u00e9rica Latina, a partir da op\u00e7\u00e3o pelos pobres, e se espalha por todo o mundo. O te\u00f3logo peruano Gustavo Guti\u00e9rrez \u00e9 um dos primeiros que prop\u00f5e esta teologia. A Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o tem um impacto decisivo em muitos pa\u00edses do mundo. Sobre o tema confira a edi\u00e7\u00e3o 214 da IHU On-Line, de 02-04-2007, intitulada Teologia da liberta\u00e7\u00e3o, dispon\u00edvel para download em <a href=\"http:\/\/bit.ly\/bsMG96.Leia\">http:\/\/bit.ly\/bsMG96.Leia<\/a>, tamb\u00e9m, a edi\u00e7\u00e3o 404 da revista IHU On-Line, de 05-10-2012, intitulada Congresso Continental de Teologia. Conc\u00edlio Vaticano II e Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o em debate, dispon\u00edvel em<a href=\"http:\/\/bit.ly\/SSYVTO.\">http:\/\/bit.ly\/SSYVTO.<\/a> (Nota da IHU On-Line)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista: Volney Berkenbrock<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":209987,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[758],"tags":[238,870],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Religi\u00f5es de matriz africana e cristianismo: um di\u00e1logo poss\u00edvel? - Not\u00edcias - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/religioes-de-matriz-africana-e-cristianismo-um-dialogo-possivel.html\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Religi\u00f5es de matriz africana e cristianismo: um di\u00e1logo poss\u00edvel? 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