{"id":106547,"date":"2016-03-25T15:38:09","date_gmt":"2016-03-25T18:38:09","guid":{"rendered":"http:\/\/franciscanos.org.br\/?p=106547"},"modified":"2020-06-09T19:06:18","modified_gmt":"2020-06-09T22:06:18","slug":"a-morte-de-cristo-e-a-prova-suprema-da-misericordia-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/a-morte-de-cristo-e-a-prova-suprema-da-misericordia-de-deus.html","title":{"rendered":"A morte de Cristo \u00e9 a prova suprema da miseric\u00f3rdia de Deus"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/francisco.jpg\" alt=\"francisco\" width=\"820\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p>A Paix\u00e3o de Jesus segundo S\u00e3o Jo\u00e3o foi cantada pelos leitores e o Coro Pontif\u00edcio da Capela Sistina, que acompanhava a liturgia, em uma bas\u00edlica sem flores e com discreta ilumina\u00e7\u00e3o, para recordar o momento tr\u00e1gico da paix\u00e3o de Jesus. O Papa Francisco prostrou-se no ch\u00e3o durante alguns minutos para rezar.<\/p>\n<p>O pregador da Casa Pontif\u00edcia, Raniero Cantalamessa, fez a homilia. Segundo ele, a morte de Cristo devia ser para todos a prova suprema da miseric\u00f3rdia de Deus para com os pecadores. A cerim\u00f4nia continuou com a adora\u00e7\u00e3o da Santa Cruz que foi levada em prociss\u00e3o pelo interior da Bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro.<\/p>\n<p><strong>\u00cdNTEGRA DA HOMILIA<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8220;DEIXAI-VOS RECONCILIAR COM DEUS&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Deus nos reconciliou consigo por meio de Cristo e nos confiou o minist\u00e9rio da reconcilia\u00e7\u00e3o [&#8230;] Suplicamo-vos em nome de Cristo: deixai-vos reconciliar com Deus. Aquele que n\u00e3o tinha conhecido o pecado, Deus o fez pecado por n\u00f3s, para que nele nos torn\u00e1ssemos justi\u00e7a de Deus. Posto que somos seus colaboradores, exortamo-vos a n\u00e3o negligenciar a gra\u00e7a de Deus. Ele, com efeito, diz: \u2018No tempo favor\u00e1vel te ouvi e no dia da salva\u00e7\u00e3o te socorri\u2019. Eis agora o tempo favor\u00e1vel; eis agora o dia da salva\u00e7\u00e3o!\u201d (2 Cor 5, 18; 6,2).<\/p>\n<p>Estas s\u00e3o palavras de S\u00e3o Paulo na Segunda Carta aos Cor\u00edntios. O apelo do ap\u00f3stolo a reconciliar-se com Deus n\u00e3o se refere \u00e0 reconcilia\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica entre Deus e a humanidade (esta, ele acaba de dizer, j\u00e1 se realizou atrav\u00e9s de Cristo na cruz); tampouco se refere \u00e0 reconcilia\u00e7\u00e3o sacramental que acontece no batismo e no sacramento da reconcilia\u00e7\u00e3o; refere-se a uma reconcilia\u00e7\u00e3o existencial e pessoal, a ser vivida no presente. O apelo \u00e9 dirigido aos crist\u00e3os de Corinto que s\u00e3o batizados e vivem h\u00e1 tempo na Igreja; \u00e9 dirigido, por isso, tamb\u00e9m a n\u00f3s, aqui e agora. \u201cO tempo favor\u00e1vel, o dia da salva\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9, para n\u00f3s, o ano da miseric\u00f3rdia que estamos vivendo.<br \/>\nMas o que significa, em sentido existencial e psicol\u00f3gico, reconciliar-se com Deus? Uma das raz\u00f5es, talvez a principal, da aliena\u00e7\u00e3o do homem moderno da religi\u00e3o e da f\u00e9 \u00e9 a imagem distorcida que ele tem de Deus. Qual \u00e9, de fato, a imagem &#8220;predefinida&#8221; de Deus no inconsciente humano coletivo? Para descobrir, basta fazer-se esta pergunta: &#8220;Que associa\u00e7\u00e3o de ideias, que sentimentos e rea\u00e7\u00f5es surgem em mim, antes de qualquer reflex\u00e3o, quando, na ora\u00e7\u00e3o do pai-nosso, chego \u00e0s palavras \u2018seja feita a vossa vontade\u2019&#8221;?<\/p>\n<p>Quem as diz \u00e9 como se inclinasse interiormente a cabe\u00e7a em resigna\u00e7\u00e3o, preparando-se para o pior. Inconscientemente, vincula-se a vontade de Deus com tudo o que \u00e9 desagrad\u00e1vel, doloroso, com aquilo que, de uma forma ou de outra, pode ser visto como mutila\u00e7\u00e3o da liberdade e do desenvolvimento individual. \u00c9 um pouco como se Deus fosse o inimigo de toda festa, alegria, prazer. Um Deus ranzinza e inquisidor.<\/p>\n<p>Deus \u00e9 visto como o Ser Supremo, o Onipotente, o Senhor do tempo e da hist\u00f3ria, isto \u00e9, como uma entidade que, de fora, se imp\u00f5e ao indiv\u00edduo; nenhum particular da vida humana lhe escapa. A transgress\u00e3o da Sua lei introduz inexoravelmente uma desordem que exige uma repara\u00e7\u00e3o adequada, que o homem sabe ser incapaz de lhe dar. Da\u00ed o medo e, \u00e0s vezes, um surdo rancor contra Deus. \u00c9 um resqu\u00edcio da ideia pag\u00e3 de Deus, nunca erradicada de todo, e talvez inerradic\u00e1vel, do cora\u00e7\u00e3o humano. \u00c9 nela que se baseia a trag\u00e9dia grega; Deus \u00e9 aquele que interv\u00e9m, atrav\u00e9s da puni\u00e7\u00e3o divina, para restaurar a ordem perturbada pelo mal.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que nunca foi ignorada, no cristianismo, a miseric\u00f3rdia de Deus! Mas a ela foi confiada apenas a incumb\u00eancia de moderar os rigores irrenunci\u00e1veis \u200b\u200bda justi\u00e7a. A miseric\u00f3rdia era o expoente, n\u00e3o a base; a exce\u00e7\u00e3o, n\u00e3o a regra. O ano da miseric\u00f3rdia \u00e9 a oportunidade de ouro para trazer de volta \u00e0 luz a verdadeira imagem do Deus b\u00edblico, que n\u00e3o somente tem miseric\u00f3rdia, mas \u00e9 miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Esta afirma\u00e7\u00e3o ousada se baseia no fato de que &#8220;Deus \u00e9 amor&#8221; (1 Jo 4, 8.16). S\u00f3 na Trindade Deus \u00e9 amor sem ser miseric\u00f3rdia. Que o Pai ame o Filho n\u00e3o \u00e9 gra\u00e7a ou concess\u00e3o; \u00e9 necessidade: Ele precisa amar para existir como Pai. Que o Filho ame o Pai n\u00e3o \u00e9 miseric\u00f3rdia ou gra\u00e7a; \u00e9 necessidade, mesmo que liber\u00edssima: Ele precisa ser amado e amar para ser Filho. O mesmo deve ser dito do Esp\u00edrito Santo, que \u00e9 o amor feito pessoa.<\/p>\n<p>\u00c9 quando cria o mundo e, nele, as criaturas livres que o amor de Deus deixa de ser natureza e se torna gra\u00e7a. Este amor \u00e9 uma livre concess\u00e3o: poderia n\u00e3o existir; \u00e9 hesed, gra\u00e7a e miseric\u00f3rdia. O pecado do homem n\u00e3o muda a natureza deste amor, mas provoca nele um salto de qualidade: da miseric\u00f3rdia como dom se passa \u00e0 miseric\u00f3rdia como perd\u00e3o. Do amor de simples doa\u00e7\u00e3o se passa para um amor de sofrimento, porque Deus sofre diante da rejei\u00e7\u00e3o ao seu amor. &#8220;Eu nutri e criei filhos, diz o Senhor, mas eles se rebelaram contra mim&#8221; (Is 1, 2). Perguntemos aos muitos pais e m\u00e3es que tiveram essa experi\u00eancia se isto n\u00e3o \u00e9 sofrimento, e dos mais amargos da vida.<\/p>\n<p>* * *<br \/>\nE o que \u00e9 da justi\u00e7a de Deus? \u00c9 esquecida ou desvalorizada? A esta pergunta quem respondeu de uma vez por todas foi S\u00e3o Paulo. Ele come\u00e7a a sua exposi\u00e7\u00e3o, na Carta aos Romanos, com uma not\u00edcia: &#8220;Manifestou-se a justi\u00e7a de Deus&#8221; (Rm 3, 21). N\u00f3s nos perguntamos: qual justi\u00e7a? Aquela que d\u00e1 &#8220;unicuique suum&#8221;, a cada um o que \u00e9 seu, distribuindo pr\u00eamios e castigos de acordo com o m\u00e9rito? Haver\u00e1, \u00e9 verdade, um tempo em que se manifestar\u00e1 tamb\u00e9m essa justi\u00e7a de Deus, que consiste em dar a cada um segundo os seus m\u00e9ritos. Deus, de fato, como escreveu pouco antes o Ap\u00f3stolo, &#8220;retribuir\u00e1 a cada um segundo as suas obras: a vida eterna aos que, perseverando nas obras de bem, procuram gl\u00f3ria, honra e incorruptibilidade; ira e indigna\u00e7\u00e3o contra aqueles que, por rebeli\u00e3o, desobedecem \u00e0 verdade e obedecem \u00e0 injusti\u00e7a&#8221; (Rom 2, 6-8).<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 desta justi\u00e7a que fala o Ap\u00f3stolo quando escreve que &#8220;se manifestou a justi\u00e7a de Deus&#8221;. O primeiro \u00e9 um evento futuro; este, um evento em ato, que acontece &#8220;agora&#8221;. Se assim n\u00e3o fosse, a afirma\u00e7\u00e3o de Paulo seria absurda, negada pelos fatos. Do ponto de vista da justi\u00e7a retributiva, nada mudou no mundo com a vinda de Cristo. Continuam, disse Bossuet, a ver-se muitas vezes no trono os culpados e no pat\u00edbulo os inocentes[1]; mas para que n\u00e3o se creia que h\u00e1 no mundo alguma justi\u00e7a e ordem fixa, ainda que invertida, eis que \u00e0s vezes se v\u00ea o contr\u00e1rio, ou seja, o inocente no trono e o culpado no cadafalso. N\u00e3o \u00e9 nisto, portanto, que consiste a novidade trazida por Cristo. Ou\u00e7amos o que diz o Ap\u00f3stolo: &#8220;Todos pecaram e foram privados da gl\u00f3ria de Deus, mas s\u00e3o justificados gratuitamente pela sua gra\u00e7a, em virtude da reden\u00e7\u00e3o realizada por Cristo Jesus. Deus o estabeleceu como instrumento de expia\u00e7\u00e3o por meio da f\u00e9, no seu sangue, a fim de manifestar a sua justi\u00e7a, depois da toler\u00e2ncia usada para com os pecados passados no tempo da divina paci\u00eancia. Ele manifesta a sua justi\u00e7a no tempo presente, para ser justo e justificar quem tem f\u00e9 em Jesus&#8221; (Rm 3, 23-26).<\/p>\n<p>Deus faz justi\u00e7a a si mesmo ao ter miseric\u00f3rdia! Eis a grande revela\u00e7\u00e3o. O Ap\u00f3stolo diz que Deus \u00e9 &#8220;justo e justificador&#8221;: justo consigo mesmo quando justifica o homem; Ele, de fato, \u00e9 amor e miseric\u00f3rdia; por isso faz justi\u00e7a a si mesmo \u2013 demonstrando-se verdadeiramente como o que \u00e9 \u2013 quando tem miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Mas nada disto se entende quando n\u00e3o se compreende o que quer dizer, exatamente, a express\u00e3o &#8220;justi\u00e7a de Deus&#8221;. Existe o perigo de se ouvir falar de justi\u00e7a de Deus e, ignorando o seu significado, ficar-se com medo em vez de encorajado. Santo Agostinho j\u00e1 tinha deixado claro: &#8220;A &#8216;justi\u00e7a de Deus&#8217; \u00e9 aquela pela qual, por sua gra\u00e7a, n\u00f3s nos tornamos justos, assim como a salva\u00e7\u00e3o do Senhor (Sl 3,9) \u00e9 aquela pela qual Deus nos salva&#8221;[2]. Em outras palavras, a justi\u00e7a de Deus \u00e9 o ato pelo qual Deus faz justos, agrad\u00e1veis a Si, aqueles que creem no Seu Filho. N\u00e3o \u00e9 um fazer-se justi\u00e7a, mas um fazer justos.<\/p>\n<p>Lutero teve o m\u00e9rito de trazer de volta \u00e0 luz esta verdade depois que, durante s\u00e9culos, pelo menos na prega\u00e7\u00e3o crist\u00e3, o seu sentido tinha se perdido, e \u00e9 isto, principalmente, que a Cristandade deve \u00e0 Reforma, cujo quinto centen\u00e1rio ocorre no pr\u00f3ximo ano. \u201cQuando descobri isto, eu me senti renascer, e pareceu-me que se escancaravam para mim as portas do para\u00edso\u201d[3], escreveu mais tarde o reformador. Mas n\u00e3o foram nem Agostinho nem Lutero os que assim explicaram o conceito de &#8220;justi\u00e7a de Deus&#8221;; foi a Escritura que o fez antes deles: &#8220;Quando se manifestaram a bondade de Deus e o seu amor pelos homens, Ele nos salvou, n\u00e3o por causa de obras de justi\u00e7a por n\u00f3s praticadas, mas por causa da sua miseric\u00f3rdia&#8221; (Tt 3, 4-5). &#8220;Deus, rico em miseric\u00f3rdia, pelo grande amor com que nos amou, fez-nos, de mortos que est\u00e1vamos pelo pecado, reviver com Cristo. Pela gra\u00e7a fostes salvos&#8221; (cf. Ef 2, 4).<\/p>\n<p>Dizer que &#8220;se manifestou a justi\u00e7a de Deus&#8221;, portanto, \u00e9 como dizer que se manifestou a bondade de Deus, o seu amor, a sua miseric\u00f3rdia. A justi\u00e7a de Deus n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o contradiz a sua miseric\u00f3rdia como consiste precisamente nela!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O que aconteceu na cruz de t\u00e3o importante a ponto de justificar esta mudan\u00e7a radical nos destinos da humanidade? Em seu livro sobre Jesus de Nazar\u00e9, Bento XVI escreveu: &#8220;A injusti\u00e7a, o mal como realidade, n\u00e3o pode ser simplesmente ignorada, deixada acontecer. Deve ser eliminada, derrotada. Esta \u00e9 a verdadeira miseric\u00f3rdia. E que o fa\u00e7a Deus mesmo, j\u00e1 que os homens n\u00e3o s\u00e3o capazes \u2013 esta \u00e9 a bondade incondicional de Deus&#8221;[4].<\/p>\n<p>Deus n\u00e3o se contentou em perdoar os pecados do homem; Ele fez infinitamente mais: Ele os tomou sobre si mesmo. O Filho de Deus, diz S\u00e3o Paulo, &#8220;se fez pecado por n\u00f3s&#8221;. Palavra terr\u00edvel! J\u00e1 na Idade M\u00e9dia havia quem achasse dif\u00edcil acreditar que Deus exigira a morte do Filho para reconciliar consigo o mundo. S\u00e3o Bernardo lhe respondia: &#8220;N\u00e3o foi a morte do Filho que aprouve a Deus, mas a sua vontade de morrer espontaneamente por n\u00f3s&#8221;: &#8220;non mors placuit sed voluntas sponte morientis&#8221;[5]. N\u00e3o foi a morte, portanto, mas o amor que nos salvou! O amor de Deus alcan\u00e7ou o homem no ponto mais distante a que ele tinha se expulsado ao fugir de Deus, ou seja, a morte.<\/p>\n<p>A morte de Cristo devia ser para todos a prova suprema da miseric\u00f3rdia de Deus para com os pecadores. \u00c9 por isso que ela n\u00e3o tem sequer a majestade de certa solid\u00e3o, mas \u00e9 enquadrada, antes, entre dois ladr\u00f5es. Jesus quis ser amigo dos pecadores at\u00e9 o fim: por isso morreu como eles e com eles. O \u00f3dio e a ferocidade dos ataques terroristas desta semana em Bruxelas nos ajudam a entender a for\u00e7a divina contida nas \u00faltimas palavras de Cristo: &#8220;Pai, perdoa-lhes porque n\u00e3o sabem o que fazem&#8221; (Lc 23, 34). N\u00e3o importa qu\u00e3o grande o \u00f3dio dos homens, o amor de Deus tem sido, e ser\u00e1, cada vez maior. Para n\u00f3s, \u00e9 dirigida, nas atuais circunstancias, a exorta\u00e7\u00e3o do Ap\u00f3stolo Paulo: &#8220;N\u00e3o te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem&#8221; (Rm 12, 21).<br \/>\n* * *<br \/>\n\u00c9 hora de perceber que o oposto da miseric\u00f3rdia n\u00e3o \u00e9 a justi\u00e7a, mas a vingan\u00e7a. Jesus n\u00e3o op\u00f4s a miseric\u00f3rdia \u00e0 justi\u00e7a, mas \u00e0 lei de tali\u00e3o: &#8220;olho por olho, dente por dente&#8221;. Perdoando os pecados, Deus n\u00e3o renuncia \u00e0 justi\u00e7a, mas \u00e0 vingan\u00e7a; Ele n\u00e3o quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (cf. Ez 18, 23). Jesus Cristo, na cruz, n\u00e3o pediu ao Pai que vingasse a sua causa; pediu-lhe que perdoasse os seus algozes.<\/p>\n<p>Temos que desmitificar a vingan\u00e7a! Ela se tornou um mito penetrante, que contamina tudo e todos, come\u00e7ando pelas crian\u00e7as. Grande parte das hist\u00f3rias levadas \u00e0s tela e aos jogos eletr\u00f4nicos s\u00e3o hist\u00f3rias de vingan\u00e7a. Metade, se n\u00e3o mais, do sofrimento que h\u00e1 no mundo (quando n\u00e3o se trata de males naturais) vem do desejo de vingan\u00e7a, seja nas rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas, seja nas rela\u00e7\u00f5es entre pa\u00edses e povos.<\/p>\n<p>Foi dito que &#8220;o mundo ser\u00e1 salvo pela beleza&#8221;[6]; mas a beleza tamb\u00e9m pode levar \u00e0 ru\u00edna. H\u00e1 somente uma coisa que realmente pode salvar o mundo: a miseric\u00f3rdia! A miseric\u00f3rdia de Deus pelos homens e dos homens entre si. Ela pode salvar, em particular, a coisa mais preciosa e mais fr\u00e1gil que h\u00e1 no mundo neste momento: o matrim\u00f4nio e a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Acontece no matrim\u00f4nio algo semelhante ao que aconteceu na rela\u00e7\u00e3o entre Deus e a humanidade, que a B\u00edblia descreve, precisamente, com a imagem de um casamento. No in\u00edcio de tudo, diz\u00edamos, est\u00e1 o amor, n\u00e3o a miseric\u00f3rdia. A miseric\u00f3rdia s\u00f3 interv\u00e9m depois do pecado do homem. Tamb\u00e9m no casamento, no in\u00edcio n\u00e3o h\u00e1 miseric\u00f3rdia, mas amor. As pessoas n\u00e3o se casam por miseric\u00f3rdia, mas por amor. Depois de anos, ou meses, de vida em comum, revelam-se os limites pessoais, os problemas de sa\u00fade, do dinheiro, dos filhos; interv\u00e9m a rotina, que apaga toda alegria.<\/p>\n<p>O que pode salvar um casamento de escorregar para um po\u00e7o sem fundo, sen\u00e3o o div\u00f3rcio, \u00e9 a miseric\u00f3rdia, entendida no sentido completo da B\u00edblia, ou seja, n\u00e3o apenas como perd\u00e3o rec\u00edproco, mas como um &#8220;revestir-se de sentimentos de ternura, de bondade, de humildade, de mansid\u00e3o e de magnanimidade&#8221; (Col 3, 12). A miseric\u00f3rdia faz com que ao eros se junte o \u00e1gape; ao amor de busca, o de doa\u00e7\u00e3o e de compaix\u00e3o. Deus &#8220;se apieda&#8221; do homem (Sl 102, 13): n\u00e3o deveriam marido e mulher se apiedar um do outro? E n\u00e3o dever\u00edamos, n\u00f3s que vivemos em comunidade, apiedar-nos uns dos outros em vez de nos julgarmos?<\/p>\n<p>Oremos. Pai Celestial, pelos m\u00e9ritos do teu Filho, que, na cruz, &#8220;se fez pecado&#8221; por n\u00f3s, afasta do cora\u00e7\u00e3o das pessoas, das fam\u00edlias e dos povos o desejo de vingan\u00e7a e faz-nos enamorar da miseric\u00f3rdia. Faz que a inten\u00e7\u00e3o do Santo Padre ao proclamar este ano santo da miseric\u00f3rdia encontre resposta concreta em nosso cora\u00e7\u00e3o e leve todos a experimentarem a alegria da reconcilia\u00e7\u00e3o contigo. Assim seja!<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[1] Jacques-B\u00e9nigne Bossuet, \u201cSermon sur la Providence\u201d (1662), in Oeuvres de Bossuet, eds. B. Velat and Y. Champailler (Paris: Pl\u00e9iade, 1961), p\u00e1g. 1062.<br \/>\n[2] S. Agostinho, O Esp\u00edrito e a letra, 32,56 (PL 44, 237).<br \/>\n[3] Martinho Lutero, Pref\u00e1cio \u00e0s obras em latim, ed . Weimar, 54, p\u00e1g.186.<br \/>\n[4] Cf. J. Ratzinger &#8211; Bento XVI, Jesus de Nazar\u00e9, II Parte, Libreria Editrice Vaticana 2011, p\u00e1g. 151.<br \/>\n[5] S. Bernardo de Claraval, Contra os erros de Abelardo, 8, 21-22 (PL 182, 1070).<br \/>\n[6] F. Dostoi\u00e9vski, O Idiota, parte III, cap.5.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Ag\u00eancia Zenit<\/p>\n<hr \/>\n<p><em>Fonte: R\u00e1dio Vaticano<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sexta-feira Santa<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":223745,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1428],"tags":[1475],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>A morte de Cristo \u00e9 a prova suprema da miseric\u00f3rdia de Deus - Not\u00edcias - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/a-morte-de-cristo-e-a-prova-suprema-da-misericordia-de-deus.html\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A morte de Cristo \u00e9 a prova suprema da miseric\u00f3rdia de Deus - 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