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Frei Adriano: “É preciso recuperar a importância do simples”

03/12/2019

Entrevistas

Natural de São Gonçalo (RJ), no último dia  7 de novembro, Frei Adriano Freixo Pinto completou 45 anos de vida. Segundo ele, um “carioca” que não sabe sambar. Mas é do samba que tira uma lição para sua vida: “A leveza do samba é um constante aprendizado que tenho procurado seguir como tarefa de vida. Ora aprendo, ora desaprendo”, explica.

O filho de Altair Ribeiro Pinto e Eurides Freixo vestiu o hábito franciscano no dia 11 de janeiro de 1996 e fez a profissão solene em 2001. Nesse tempo viveu em vários conventos e agora faz parte da Fraternidade de Santo Antônio do Largo da Carioca. Para ele, a fraternidade ideal é aquela em que se vive. “Nela sou chamado a construir e partilhar a vida. Recordo São Francisco e a indicação do frade ideal, perfeito. Começou a citar os frades reais que ele conhecia, suas virtudes. Precisamos sempre lutar contra a forte tendência para desencarnar a vida. Vive-se aqui. Apenas aqui. Não lá, mas cá. Acho que complicamos demais a vida. É preciso recuperar a importância do simples”, ensina. Frei Adriano foi ordenado sacerdote em 29 de janeiro de 2005.

Conheça mais Frei Adriano nessa entrevista a Moacir Beggo e Frei Leonardo Pinto dos Santos (fotos)

Site FranciscanosQual a sua origem familiar? Como é a sua família?

Frei Adriano – Sou de uma família pequena. Meu pai é de Niterói, RJ. Minha mãe nasceu em S. Maria Madalena, pequena cidade do interior do RJ. Tiveram dois filhos: André e eu. Meu irmão nasceu com um quadro de tetraplegia, cegueira e déficit neurológico por causa da rubéola durante a gestação. Ele está com 51 anos e, desde os 10, mora numa clínica, que cuida de pessoas portadoras de deficiências, no bairro de Bangu, RJ. Em casa, portanto, cresci com meus pais, Altair e Eurides, e na presença dos muitos primos que fizeram as vezes de irmãos. Desde 2014 minha mãe mora em S. José dos Campos, numa casa para idosos das Irmãs Franciscanas do Sagrado Coração de Jesus. Está muito bem assistida nos diversos aspectos importantes para a etapa de vida na qual se encontra. Estou em tratativas com meu pai para tentarmos conseguir um lugar digno para ele por lá também. Assim, ficarão próximos e amparados. De meu pai herdei o gosto pelos estudos, pela busca do saber. Minha mãe transmitiu a fé, as coisas de Deus, do sagrado. De ambos, as virtudes que esperamos aprender em casa e viver durante nossa caminhada. No mais, posso dizer que sou de uma família bem normal, sem destaques, com os desafios atuais vividos pela maioria das famílias.

Site Franciscanos – Fora da família, quem fez parte da sua caminhada?

Frei Adriano – Foram vários amigos da época do grupo de jovens (década de 1980). Éramos muito unidos. Havia uma espécie de parceria, de recíproca confiança e companheirismo. Mas destaco o Alexandre e a Mônica. Ambos foram lideranças na época. Com eles partilhei vida e sonhos de modo mais intenso. Hoje são professores de História. Na época de seminário, até o noviciado, era o Adriano Goldoni de Sá, natural de Petrópolis, RJ. Faleceu em um acidente na Dutra, em 2004.

Site Franciscanos – Como se deu seu discernimento vocacional?

Frei Adriano – Foi durante os anos 1992 e 1993. Eu cursava Ciências Sociais na UFF, à noite, e trabalhava no Hospital das religiosas franciscanas já mencionadas, durante o dia. Trabalhava para custear os estudos e ajudar em casa. Digo sempre que estes dois anos foram meu primeiro noviciado. Eu tinha 18 anos. Nas idas e vindas de ônibus, durante o dia e à noite, eu pensava na vida e num tal de Francisco de Assis. Havia também o testemunho de vida simples, desapegado, discreto, sem alardes das irmãs franciscanas com quem trabalhava. Elas de hábito e cordão com os três nós! São imagens que ficam. Depois, chegou até minhas mãos a vida de São Francisco, de Tomás de Celano. Era uma edição da Ed. Vozes. Encontrei num sebo. Livro surrado. Comecei a ler e, da leitura, ganhou corpo em mim a cena do encontro de Francisco com o leproso. Eu sempre me via naquele leproso e desejava tal abraço. Neste gesto estava toda a questão da fraternidade, da acolhida, de querer aprender a ser irmão e menor. Foram as motivações fundantes, penso. Depois, sim, o serviço ministerial. Mas só depois, no decorrer da caminhada formativa, ganhou clareza tal “chamado”. Em 1993 procurei os frades da Porciúncula, em Niterói. Frei Cláudio Guski me recebeu e indicou o Convento de Santo Antônio, onde havia um bom trabalho de orientação vocacional. Frei Gilberto Garcia me acolheu no grupo e fiz durante o ano de 1993 meu acompanhamento. Em 1994 comecei a caminhada atual em Agudos.

Site Franciscanos – Como o formador Frei Adriano avalia o seu tempo de formação?

Frei Adriano – Foi tudo muito intenso. Cada ano, cada etapa. Os irmãos da turma. Tantos que partiram. Nós que ficamos. Tudo faz pensar e sempre volta com muita gratidão. Cada formador. E o confronto com as diferenças, com o plural da vida fraterna. Tal confrontar-se sempre foi o formador. Ainda hoje.

Site Franciscanos – Poderia fazer um auto-retrato?

Frei Adriano – Um “carioca” que não sabe sambar. A leveza do samba é um constante aprendizado que tenho procurado seguir como tarefa de vida. Ora aprendo, ora desaprendo. Difícil falar de si. Mais fácil falar dos outros (risos). Mas neste aspecto, prefiro o difícil. Hoje dou mais risadas que antes. Rir faz bem. Sobretudo de si.

Site Franciscanos – Qual a diferença de morar numa Paróquia e agora num Convento centenário?

Frei Adriano – O endereço (risos). Sim! O jocoso da resposta abrupta esconde algo em que acredito e constato: todo lugar é o mesmo lugar. As diferenças são percebidas, em geral, nos aspectos externos, da conjuntura própria de cada lugar (espaço físico, casa pequena ou grande, com ou sem escadas, poucos ou muitos funcionários – colaboradores! -, se está bem organizada ou não, rotina x ou y, etc.). Contudo, um olhar atento não deixa escapar: onde o frade estiver, estará com pessoas. E onde há pessoas… não muda muito. As atividades mudam, claro. Mas nada disto deveria causar estranheza. Estranho é como lidamos com os dramas humanos, com a aventura de viver, aqui ou acolá. Um convento centenário carrega o testemunho forte do histórico. Cada parede, cada corredor, cada escada, cada utensílio fala de vidas e do tempo. Uma fala mais eloquente, digo. Porque qualquer lugar fala a seu modo. Por isso, repito, as diferenças não são o mais importante. Importante é o comum entre nós, o que nos une em qualquer lugar ou missão. Lugares são diferentes, mas sempre o mesmo lugar! Assim vejo o morar aqui ou numa paróquia.

Site Franciscanos – Qual sua rotina no Convento?

Frei Adriano – Tento acordar às 6h30. Tomo café e, em seguida, temos as Laudes às 7h30. Na parte da manhã há horário para confissão ou missa. Na parte da tarde também. Procuro também atender solicitações esporádicas de celebrações em outras comunidades. Às terças-feiras ajudo na portaria na parte da tarde. Como vigário da casa, preparo a escala diária dos atendimentos: os horários de confissão e missa de cada frade. Nos fins de semana, ajudo em S. João de Meriti. Vou e volto de metrô. São 45min da estação Carioca até a última estação, Pavuna. Aproveito para adiantar alguma leitura. Vou no sábado à tarde e retorno no domingo após as celebrações. Nada demais. É sempre bom estar com os confrades em S. João de Meriti e com o povo bom e sofrido da Baixada. No mais, ocupo meu tempo diário com o estudo. Tomo como espécie de projeto pessoal de vida.

Site Franciscanos – Como o sr. vê a Igreja no Pontificado do Papa Francisco?

Frei Adriano – Vejo-a em tentativas de optar pelo que realmente importa: a centralidade da Palavra, da Pessoa de Jesus de Nazaré. A partir deste núcleo irrenunciável, uma Igreja que busca se posicionar a favor da vida, dos empobrecidos, da missão, da participação, da comunhão. Uma Igreja peregrina, tal como a vida de cada ser humano. Uma “Igreja-casa” da acolhida. Penso que tudo está ali, na Evangelii Gaudium. Esta carta pastoral poderia ser nosso “manual” franciscano diário para nossa vida e missão em cada Frente da Província. Em tempos de “verdades líquidas”, tornar sólida a água das verdades ali partilhadas (fazer memória, recordar) poderia ser uma oportuna reação aos desvios do esquecimento.

Site Franciscanos – São Francisco de Assis tem lugar neste mundo secularizado, carente de valores e desumanizado?

Frei Adriano – São Francisco de Assis, seu modo de viver, seu posicionamento simples, sempre terá lugar, pois é sempre atual, em todo e qualquer lugar. Sempre haverá lugar para o simples, o reto, sem dobras, sem o que agarrar, o livre, leve e solto, o “largado” na vida. Francisco não foi. Segue sendo…

Site Franciscanos – Como o sr. define o frade menor?

Frei Adriano – Aquele que escapa a qualquer definição. Definir é, de certo modo, estar na posse do definido. A minoridade segue outro caminho. Assim vejo.

Site Franciscanos – Existe uma fraternidade ideal?

Frei Adriano – Com certeza: aquela na qual estou e partilho vida e missão. Esta fraternidade real na qual peregrino é a ideal. Nela sou chamado a construir e partilhar a vida. Recordo São Francisco e a indicação do frade ideal, perfeito. Começou a citar os frades reais que ele conhecia, suas virtudes. Precisamos sempre lutar contra a forte tendência para desencarnar a vida. Vive-se aqui. Apenas aqui. Não lá, mas cá. Acho que complicamos demais a vida. É preciso recuperar a importância do simples.

Site Franciscanos – Que expectativas o sr. tem para o nosso país?

Frei Adriano – Uma reforma política em todas as esferas: Executivo, Legislativo, Judiciário, Administração Direta e Indireta. Mas, o que significa política? Tenho dedicado parte de meu tempo ao estudo desta questão. Somos muito amadores neste ponto. Existir é posicionar-se. Vivemos sempre a partir de um lugar. Neutralidade já é uma posição nada neutra. Política! Aqui precisamos levar mais a sério também nossa própria história, a formação do Brasil, o estudo da História do Brasil. Depois, colocar diplomacia e reação em debate. O que sabemos de tudo isto? E é preciso colocar uma questão com seriedade: é possível uma justiça não-política? Esta questão não sai de minha cabeça. Ela surgiu quando vi a frase dita por um renomado político ao ser condenado: “O senhor juiz, ao me condenar, não está fazendo justiça, mas política”. Vinda deste líder, a frase faz pensar na possibilidade de uma justiça que não seja política. Espero um país que se redescubra, ou melhor, que se descubra. “O Brasil não é para amadores”.

Site Franciscanos – Que mensagem deixaria para aqueles que desejam seguir a vida religiosa franciscana?

Frei Adriano – Aventurem-se. E experimentem a força do simples, que a tudo liberta e faz viver.