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Entrevista: Frei José Rodríguez Carballo

22/11/2011

Entrevistas

Nem mesmo o tempo escasso devido ao 1º Encontro do Governo Geral, que está sendo realizado em São Paulo com as Conferências do Cone Sul e do Brasil, não foi obstáculo para o Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores, o espanhol José Rodríguez Carballo, conseguir um tempo para falar com a reportagem deste Site.

Simpático, atencioso, “servidor”, como explicou o significado da palavra Ministro Geral, Frei José mostrou por que é o atual representante de São Francisco de Assis quando disse que o cargo que tem na Ordem vai passar um dia, mas a sua condição de frade menor não.  “Espero que nunca passe a vontade de ser Irmão Menor”, disse. Como Ministro Geral da Ordem, Frei José participa deste encontro na sede da Província da Imaculada, onde espera conhecer um pouco da realidade de cada província brasileira e do Cone Sul. Mas Frei José demonstrou estar muito à vontade para falar do Sefras e do Plano de Evangelização da Província da Imaculada Conceição. Confira!

Por Moacir Beggo

Site Franciscanos – Por que o superior da Ordem Franciscana é chamado de Ministro Geral?
Frei José – O superior da Ordem chama-se Ministro Geral porque São Francisco disse que quem preside tem que ser um servidor. Então, ministro, no sentido etimológico significa precisamente servidor. O Ministro Geral, neste momento, é sempre, segundo a espiritualidade de São Francisco, o servidor dos irmãos. É o irmão maior que está sempre disposto a lavar os pés, como Jesus Cristo nos ensina e que diz: “não vim para ser servido, mas para servir”.

Site Franciscanos – Quando ingressou na Ordem, em 1971, o sr. Imaginava um dia ser o atual representante de São Francisco de Assis
Frei José – Certamente, não! Eu não imaginava que chegaria a ser o 119º sucessor de São Francisco. A única coisa que queria naquele momento era manter a minha vocação como irmão menor. Isto, sim, estava muito claro dentro de um princípio e tenho claro neste momento: Ser Ministro Geral passa; o que não quero que passe, nunca, é a minha vontade de ser irmão menor!

Site Franciscanos – Três anos depois da sua posse como Ministro Geral, que análise o sr. faz da Ordem Franciscana no mundo?
Frei José – Eu diria, sem triunfalismos, mas tentando ser realista, que a nossa Ordem, a Ordem dos Frades Menores, goza de boa saúde. Manifestação desta boa saúde são os perto de 500 noviços que temos a cada ano em toda a Ordem. Manifestação de boa saúde também é que a Ordem está crescendo muito na África, na Ásia e se mantém em algumas regiões da América Latina. Certamente, em alguns continentes, como a Europa, as vocações têm diminuído, por diversas razões, mas no geral podemos dizer que a Ordem goza de boa saúde. Estou convencido de que tudo isso se deve à atualidade de São Francisco. Ele é a nossa carta de apresentação. Ele é o nosso melhor animador no cuidado pastoral das vocações. Por isso, é a ele a quem se deve, sobretudo,  a boa saúde da nossa fraternidade.

Site Franciscanos – Como estão os preparativos para o 8º Centenário da Ordem Franciscana?
Frei José – Nós pensamos a nossa celebração e a preparação para o 8º Centenário em três momentos: 2006, 2007, 2008/09. Cada um desses momentos tem um objetivo: “discernir o que o Senhor quer para nós hoje”, em 2006; o projeto, que não é outro na nossa vida que não o Evangelho, “ousamos Viver o Evangelho”, em 2007; e “celebrar a Graça da Vocação” em  2008/09. Lembro que tudo isto está sendo acompanhado de muitas atividades, como a atividade principal de 2006, que foi o Capítulo Geral Extraordinário que celebramos na cidade de Assis. Só para recordar, fazia 30 anos que a Ordem não celebrava um Capítulo Geral Extraordinário. Em 2007, a atividade principal  vai ser um Capítulo dos Jovens com menos de 10 anos de profissão solene que vamos celebrar na Terra Santa, concretamente em Nazaré e Jerusalém. E também há outros encontros importantes. Já tivemos o Congresso Internacional para os Mestres de Noviços e agora, em 2007, vai haver também o Congresso Internacional para Moderadores da Formação Permanente, um Congresso para todas as presidentas das Federações de Clarissas e Concepcionistas franciscanas e também um encontro – vai ser o primeiro – de todos os bispos da Ordem dos Frades Menores. Quero recordar que neste momento temos perto de 120 bispos.

Site Franciscanos – O projeto “A Graça das Origens” está sendo desenvolvido como o sr. Gostaria?
Frei José – Penso realmente que a “Graça das Origens” está se desenvolvendo de acordo com o projeto que planejamos e, inclusive, ao longo da caminhada estão se acrescentando outras atividades. Eu, pessoalmente, estou muito satisfeito.  Quero lembrar que agora muitas Províncias estão respondendo ao convite do Governo Geral para celebrar o Capítulo das Esteiras, o Capítulo espiritual para estudar as conclusões do Capítulo Geral Extraordinário de 2006.

Site Franciscanos – O sr. Conhece o Plano de Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição e o que acha dele?
Frei José – Eu o conheço e penso que é um bom projeto, sobretudo porque foi elaborado com a participação não só dos experts, mas com a dos irmãos ao longo de vários anos e foi ratificado no último Capítulo Provincial (novembro de 2006). Penso que é um instrumento que ajuda a coordenar diversas atividades pastorais, mas sobretudo assegura que estas atividades tenham um rosto, uma face franciscana. Creio que é  muito válido e espero que outras Províncias possam fazer também o seu projeto de evangelização como nos pede o Capítulo Geral Extraordinário de 2006.

Site Franciscanos – O sr. Conhece o Sefras? O Serviço Franciscano de Solidariedade ou a organização das obras sociais da Província da Imaculada?
Frei José – Certamente, eu conheço algumas das atividades do Sefras. Do pouco que eu conheço destas atividades, posso dizer que é uma grande organização a serviço da evangelização dos mais pobres e dos últimos. A Província da Imaculada Conceição, através dos oito programas sociais e das 31 atividades de serviços vão de encontro de tantos necessitados da nossa sociedade em 13 cidades. Penso que é uma forma de continuar o abraço de São Francisco ao leproso do seu tempo. Hoje, o leproso tem diversas faces, diversos rostos. As atividades reunidas no Sefras ajudam a perpetuar o abraço de Francisco ao leproso. Por isso, eu penso que se trata de um grande projeto e meu único desejo é que todas essas atividades se realizem dentro da espiritualidade e a mística franciscana e dentro de uma espiritualidade profundamente evangélica.

Site Franciscanos –  Como falar de pobreza num mundo tão secularizado e globalizado?
Frei José – Para falar de pobreza temos de falar também de solidariedade. Para mim, hoje é importante insistir, sobretudo, na solidariedade. A humanidade tem recursos mais do que suficientes para eliminar a pobreza. Sobram recursos mas falta solidariedade. Penso que teríamos de trabalhar muito no campo da solidariedade, ao mesmo tempo que no campo da justiça, porque a pobreza é conseqüência da injustiça. Uns que têm muito e de sobra, outros que não têm nada e estão morrendo de fome. Penso que temos conscientizar mais os homens e as mulheres de hoje no campo da justiça e da solidariedade.

Site Franciscanos – Há uma crise vocacional hoje? Se há, isso pode ser sentido na Ordem?
Frei José – Certamente, já disse por exemplo que na Europa se sente essa crise vocacional. Também se sente em outros países onde há um bom número de  vocações, sobretudo em nível de valores mas que influi depois na resposta. Por isso, temos de confessar que ainda, depois da profissão solene, há os que abandonam. Isto é conseqüência de uma crise vocacional global. Mas volto a sublinhar que pessoalmente penso que a nossa Ordem, graças a atualidade de São Francisco, é uma das Ordens que neste momento sofre menos com as crises vocacionais.

Site Franciscanos – Quais os desafios que se impõem para a Ordem Franciscana neste século?
Frei José – Creio que o grande desafio para nós é ser uma fraternidade contemplativa em missão. Portanto, fraternidade que dê o primado a Deus, fraternidade que se sinta chamada a ir ao encontro dos homens. Por isso, um grande desafio é o diálogo. O diálogo com os pobres, o diálogo com as culturas, o diálogo inter-religioso e ecumênico. Mas tudo dentro desta concepção da Ordem como: “fraternidade contemplativa em missão”. Quero dizer que a Ordem está tentando ser fiel a isto. Por isso, nas prioridades, sempre sublinho  a importância do espírito de devoção e oração; sublinho a importância de fazer da fraternidade um sinal visível e ao mesmo tempo ir ao encontro  à missão. Neste momento, quero lembrar, que a Ordem abriu novos projetos missionários. Isto indica também a boa saúde da Ordem. Por exemplo, abrimos um projeto missionário no Sudão, outro na Namíbia, outro em Catar e outro Burkina Faso. Tudo isto nos três últimos anos. Ademais de potencializar outros projetos que já existiam como a Missão na Terra Santa, a Missão em Marrocos, na Rússia, no Cazaquistão e na África.

Site Franciscanos – Quais os desafios que se impõem para a Igreja Católica?
Frei José – Eu penso que o desafio para a Igreja é levar o Evangelho à cultura atual. E de novo nós voltamos ao desafio do diálogo. A Igreja tem de estar perto do povo e levando sempre a presença de Cristo ao povo.

Site Franciscanos – Qual o significado da canonização de Frei Galvão para a Ordem Franciscana?
Frei José – A canonização de Frei Galvão para a Ordem dos Frades Menores, a que pertenceu e segue pertencendo, é um momento de graça, de profunda alegria, não só porque um irmão é canonizado, mas também, nesta ocasião, porque é o primeiro santo nascido no Brasil. Isto, para nós, franciscanos, é uma grande honra e, ao mesmo tempo um grande desafio, porque nós, frades menores, somos chamados a seguir o exemplo que nos deixaram tantos irmãos nestes 500 anos de evangelização no Brasil e na América Latina. Eu estou muito contente e muito feliz. Dou graças a Deus por este acontecimento que espero seja, realmente, um momento de graça para a Igreja do Brasil, para a Igreja Católica Universal e para a Ordem Franciscana.

Site Franciscanos – O sr. Virá para a canonização de Frei Galvão?
Frei José – Hoje mesmo confirmei aos responsáveis da Província da Imaculada Conceição que virei à canonização de Frei Galvão. Primeiro porque é um frade menor, segundo porque é o primeiro santo brasileiro. Isto para a Ordem é momento importante. Penso, ademais de ser momento importante para a Igreja do Brasil, para nós tem uma relevância particular, por isso estarei presente como também  estarei presente durante a visita do Santo Padre à Fazenda da Esperança, em Guaratinguetá. Quero, com isso, sublinhar  a importância que têm a visita do Santo Padre e a canonização de Frei Galvão para a Ordem Franciscana.