Notícias - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Aos idosos: não percam a doçura e a esperança

24/09/2018

Notícias

Cidade do Vaticano – Depois de algumas palavras do arcebispo de Riga, Dom Zbignesvs Sankevics, o Santo Padre inicia sua saudação citando justamente a Carta de São Tiago, a quem está dedicada a catedral. O Papa recorda que o Apóstolo nos convida à constância dizendo aos presentes que apesar de terem sofrido “o horror da guerra e, depois, a repressão política, a perseguição e o exílio”, se mantiveram constantes e perseverantes na fé.

Mas, advertiu o Papa, “esta paciência vence a prova a que está sujeita a fé, quando gera obras perfeitas. Então a sua atividade foi perfeita, mas terá ainda de tender para a perfeição nas novas circunstâncias” do mundo contemporâneo.

Francisco recorda que muitas vezes os idosos, apesar de tudo o que fizeram são esquecidos pelos mais jovens. “Embora pareça paradoxal, hoje, em nome da liberdade, os homens livres abandonam os idosos à solidão, ao ostracismo, à falta de recursos, à exclusão e até mesmo à miséria”. Os que lutaram pela liberdade, pelo progresso e conquistas de direitos das gerações de hoje terminam como espectadores de uma festa alheia, honrados, mas esquecidos na vida diária.

“O apóstolo Tiago convida-nos a ser constantes, não deixando diminuir a vigilância”. E para seguir este caminho diz o Papa “o progresso do bem, o amadurecimento espiritual e o crescimento do amor são o melhor contrapeso ao mal”.

E faz um apelo aos idosos presentes: “Não cedam ao desânimo, à tristeza, nem percam a doçura e, menos ainda, a esperança”.

Suportar e esperar pacientemente

Voltando a falar na constância da Carta de São Tiago, explica que é empregada “uma palavra que combina dois significados: suportar pacientemente e esperar pacientemente”, encorajando todos à duas atitudes: suportação e esperança, e as duas impregnadas de paciência. Assim continuem a progredir na construção do seu povo”.

Finalizando seu encontro com os idosos o Santo Padre recorda: “vocês que já atravessaram muitas estações, são testemunho vivo não apenas de constância – continua – vocês são raízes de um povo, raízes de rebentos jovens que devem florescer e dar fruto; defendam estas raízes mantendo-as vivas, para que as crianças e os jovens sejam enxertados nelas e compreendam que tudo o que na árvore está florido / vive daquilo que jaz enterrado”.

ÍNTEGRA DO DISCURSO

Amados irmãos e irmãs!

Agradeço ao Arcebispo as suas palavras e a sua solícita análise da realidade. A vossa presença, irmãos idosos, lembra-me duas expressões da Carta do apóstolo Tiago, a quem está dedicada esta catedral. No início e no fim da carta, ele convida-nos à constância, mas usando dois termos diferentes. Estou certo de que podemos ouvir a voz do «irmão do Senhor», que hoje quer dirigir-se a nós.

Vós, que aqui vos encontrais, estivestes sujeitos a toda a espécie de provações: o horror da guerra e, depois, a repressão política, a perseguição e o exílio, como bem descreveu o vosso Arcebispo. E mantivestes-vos constantes, perseverastes na fé. Nem o regime nazista nem o soviético apagaram a fé nos vossos corações e, a alguns de vós, não vos fizeram sequer desistir de vos dedicardes à vida sacerdotal, religiosa, à catequese e a vários outros serviços eclesiais que punham em risco a vida; combatestes o bom combate, estais para terminar a corrida e conservastes a fé (cf. 2 Tm 4, 7).

Mas o apóstolo Tiago insiste no facto de que esta paciência vence a prova a que está sujeita a fé, quando gera obras perfeitas (cf. Tg 1, 2-4). Então a vossa atividade foi perfeita, mas terá ainda de tender para a perfeição nas novas circunstâncias. Vós, que vos devotastes de corpo e alma, que destes a vida buscando a liberdade da vossa pátria, muitas vezes tendes a sensação de ficar esquecidos. Embora pareça paradoxal, hoje, em nome da liberdade, os homens livres abandonam os idosos à solidão, ao ostracismo, à falta de recursos, à exclusão e até mesmo à miséria. Se assim for, o chamado comboio da liberdade e do progresso acaba por ter, naqueles que lutaram para conquistar direitos, a sua carruagem de cauda, os espetadores duma festa alheia, honrados e homenageados, mas esquecidos na vida diária (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 234).

O apóstolo Tiago convida-nos a ser constantes, não deixando diminuir a vigilância. «Neste caminho, o progresso do bem, o amadurecimento espiritual e o crescimento do amor são o melhor contrapeso ao mal» (Exort. ap. Gaudete et exsultate, 163). Não cedais ao desânimo, à tristeza, nem percais a doçura e, menos ainda, a esperança!

Na conclusão da sua epístola, São Tiago volta a convidar à constância (5, 7), mas emprega uma palavra que combina dois significados: suportar pacientemente e esperar pacientemente. Encorajo-vos a serdes também vós, dentro das vossas famílias e da vossa pátria, exemplo de ambas as atitudes: suportação e esperança, e as duas impregnadas de paciência. Assim continuareis a progredir na construção do vosso povo. Vós, que já atravessastes muitas estações, sede testemunho vivo não apenas de constância nas adversidades, mas também do dom da profecia, que lembra às gerações jovens que o cuidado e a proteção daqueles que nos precederam são agradáveis e prezados por Deus, e que o facto de os negligenciar brada por Ele. Vós, que já atravessastes muitas estações, não vos esqueçais que sois raízes dum povo, raízes de rebentos jovens que devem florescer e dar fruto; defendei estas raízes, mantende-as vivas, para que as crianças e os jovens sejam enxertados nelas e compreendam que «tudo o que na árvore está florido / vive daquilo que jaz enterrado» (F. L. Bernárdez, Soneto «Si para recobrar lo recobrado»).

Como recita a inscrição no púlpito deste templo, «se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não endureçais os vossos corações» (Sal 95/94, 7-8). O coração duro é o coração esclerosado, aquele que perde a alegria da novidade de Deus, que renuncia à juventude do espírito, renuncia a saborear e ver que sempre, em todo o tempo e até ao fim, o Senhor é bom (cf. Sal 34/33, 9).