Notícias - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

A viagem dos frades alemães para restaurar a Província

06/11/2011

Notícias

restauradores

A história da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil praticamente se confunde com a história do Brasil. Desde a bula de criação do Papa Clemente X, em 15 de julho de 1675, já se vão 332 anos. Uma história escrita com muito trabalho e dedicação, apesar dos momentos de dificuldades, que não foram poucos.

Uma das páginas de destaque desta história foi, sem dúvida, a Restauração, iniciada no ano de 1891, depois de um período de perseguição e crise, que deixou a Província reduzida a apenas um frade, Frei João do Amor Divino Costa, residente no Convento de Santo Antônio, no Rio de Janeiro. O reforço veio da Alemanha, da Província da Santa Cruz da Saxônia. De lá, quatro frades jovens, impulsionados pelo espírito missionário-franciscano, partiram para uma “terra desconhecida”.

Eram eles: Frei Amando Bahlman, 29 anos de vida e um ano e meio de padre, doutor em Teologia; Frei Xisto Meiwes, com dois anos incompletos de padre e 38 anos de idade; Frei Humberto Themans, irmão com 13 anos de profissão e 30 anos de vida; e Frei Maurício Schmalor, com 18 anos.

São estes personagens que a partir de agora vão acompanhá-lo por uma viagem. Junto com eles, você também vai embarcar no navio “Graf Bismark” rumo ao Brasil.

Para comemorar o aniversário da Província, o Site Franciscanos preparou este especial com citações do texto de Frei Humberto Themans, narrando os passos do grupo desde o embarque na Alemanha até a chegada ao pequeno povoado de Teresópolis (SC), onde se deu início a Restauração. Boa Viagem!

Síntese de Frei Gustavo Medella

A missão no Brasil e o convite

Já no começo dos anos 80 (1880) falava-se, na Província da Santa Cruz da Saxônia, da aceitação de uma missão no Brasil ou, mais explicitamente, da renovação da quase extinta Província de Santo Antônio na Bahia. Porém, somente no ano de 1889 foi quanto eu sabia, confiado este assunto à Saxônia. Padre Gregório Janknecht era na ocasião Provincial. O quanto eu me recordo, foi no mês de agosto ou setembro do mesmo ano que o mesmo, voltando de uma viagem a Roma, trouxe a notícia da aceitação da missão no Brasil. Ainda no dia de sua volta, ele me disse que tencionava mandar-me à missão no Brasil. Já que eu fora por vários anos seu camareiro, ele conhecia o meu desejo de ir para missão: como ele várias vezes me disse, esperava dessa missão tudo de bem.

Brasil, Uruguai ou Paraguai?

Que até a nossa partida as coisas não estavam bem definidas, percebi de uma manifestação do Padre Provincial que dias antes da partida me disse: a missão na América do Sul será em todo caso aceita. Se coces não puderem ficar no Brasil, partam para o Uruguai ou Paraguai.

Santa Catarina, por quê?

Como não era prudente ficarmos no calor do Norte, na Bahia, decidiu-se primeiramente viajar para o Sul, de clima moderado, em Santa Catarina, para nos aclimatarmos.

Aproxima-se a partida

Aos 23 de maio de 1891, num sábado às vésperas de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro partimos sem alarde de Warendorf para Bremen. Lá ficamos por um dia no Hospital São José. No dia 25 ao meio-dia fomos ao porto, para entrar no navio que devia partir no dia seguinte. “Graf Bismark” era o nome do navio que nos devia levar para o novo mundo, à nossa futura pátria.

A companhia dos “monges” e as instalações

A alguns não parecia agradável ter como companheiros de viagem, monges. Logo nos foram indicados os camarotes. Eram pequenos cômodos com duas camas, uma sobreposta. Além disso, havia uma pia com lavatórios e dois tamboretes de assento estável. Depois de termos levado nossa bagagem para os camarotes, voltamos ao convés para ver a partida e dar o último adeus à pátria que talvez deixaríamos para todo sempre.

Despedida

Aos poucos nos aproximamos do oceano e logo estávamos fora da barra. O rebocador foi afastado, e um recíproco sinal de adeus com apitos foi dado e o nosso navio movimentou a todo vapor as suas hélices para seguir sozinho em frente. Nossos olhares estão ainda voltados para a terra firme, aos poucos ela se distancia. Um sentimento estranho aperta o peito quando se vê que os laços externos que nos unem a todos amigos, aos poucos se perdem no infinito. Adeus, Pátria amada. Adeus, querido Pai e irmãos queridos, adeus. Será que ainda nos veremos? Sérios e pensativos permanecemos por algum tempo o convés. A decisão foi tomada.

As primeiras lágrimas e a primeira refeição

Totalmente dominado pela visão da majestosa grandeza do criador que aqui se apresenta em seu esplendor, as lágrimas não podem ser contidas. Ainda absortos em pensamentos e lembranças, ouvimos o sinal para o restaurante. É a primeira refeição a bordo (…) Mas não é uma refeição franciscana com sopa e um prato. O cardápio apresenta uma multidão de raros pratos e para nós desconhecidos.

Revolução do estômago

Agora continuava a viagem oceano adentro. Ele estava agitado. Em breve começaria o sofrimento do Pe. Amando e do Frei Maurício. Não muito tempo se passou quando os dois, calados e sem participação de ninguém e alheio a tudo, sentaram-se numa cadeira no convés. Provavelmente pressentiam o que aconteceu, pois o irriquieto estômago anunciava algo estranho. Num momento, de repente, estavam na balaustrada debruçados. Com uma expressão desesperadora, pagavam tributo ao mar que o deus do mar deles exigia. Tinham o terrível enjôo. E o pior para os doentes é que não encontravam compaixão daqueles que tinham sido poupados pela doença, riam dos pobres coitados. Não seria cruel da nossa parte que em sua miséria fossem por nós ridicularizados? Em vão procuravam ser senhores de si, procuravam controlar a revolução do estômago.

A missão no Brasil e o convite

Já no começo dos anos 80 (1880) falava-se, na Província da Santa Cruz da Saxônia, da aceitação de uma missão no Brasil ou, mais explicitamente, da renovação da quase extinta Província de Santo Antônio na Bahia. Porém, somente no ano de 1889 foi quanto eu sabia, confiado este assunto à Saxônia. Padre Gregório Janknecht era na ocasião Provincial. O quanto eu me recordo, foi no mês de agosto ou setembro do mesmo ano que o mesmo, voltando de uma viagem a Roma, trouxe a notícia da aceitação da missão no Brasil. Ainda no dia de sua volta, ele me disse que tencionava mandar-me à missão no Brasil. Já que eu fora por vários anos seu camareiro, ele conhecia o meu desejo de ir para missão: como ele várias vezes me disse, esperava dessa missão tudo de bem.

Brasil, Uruguai ou Paraguai?

Que até a nossa partida as coisas não estavam bem definidas, percebi de uma manifestação do Padre Provincial que dias antes da partida me disse: a missão na América do Sul será em todo caso aceita. Se coces não puderem ficar no Brasil, partam para o Uruguai ou Paraguai.

Santa Catarina, por quê?

Como não era prudente ficarmos no calor do Norte, na Bahia, decidiu-se primeiramente viajar para o Sul, de clima moderado, em Santa Catarina, para nos aclimatarmos.

Aproxima-se a partida

Aos 23 de maio de 1891, num sábado às vésperas de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro partimos sem alarde de Warendorf para Bremen. Lá ficamos por um dia no Hospital São José. No dia 25 ao meio-dia fomos ao porto, para entrar no navio que devia partir no dia seguinte. “Graf Bismark” era o nome do navio que nos devia levar para o novo mundo, à nossa futura pátria.

A companhia dos “monges” e as instalações

A alguns não parecia agradável ter como companheiros de viagem, monges. Logo nos foram indicados os camarotes. Eram pequenos cômodos com duas camas, uma sobreposta. Além disso, havia uma pia com lavatórios e dois tamboretes de assento estável. Depois de termos levado nossa bagagem para os camarotes, voltamos ao convés para ver a partida e dar o último adeus à pátria que talvez deixaríamos para todo sempre.

Despedida

Aos poucos nos aproximamos do oceano e logo estávamos fora da barra. O rebocador foi afastado, e um recíproco sinal de adeus com apitos foi dado e o nosso navio movimentou a todo vapor as suas hélices para seguir sozinho em frente. Nossos olhares estão ainda voltados para a terra firme, aos poucos ela se distancia. Um sentimento estranho aperta o peito quando se vê que os laços externos que nos unem a todos amigos, aos poucos se perdem no infinito. Adeus, Pátria amada. Adeus, querido Pai e irmãos queridos, adeus. Será que ainda nos veremos? Sérios e pensativos permanecemos por algum tempo o convés. A decisão foi tomada.

As primeiras lágrimas e a primeira refeição

Totalmente dominado pela visão da majestosa grandeza do criador que aqui se apresenta em seu esplendor, as lágrimas não podem ser contidas. Ainda absortos em pensamentos e lembranças, ouvimos o sinal para o restaurante. É a primeira refeição a bordo (…) Mas não é uma refeição franciscana com sopa e um prato. O cardápio apresenta uma multidão de raros pratos e para nós desconhecidos.

Revolução do estômago

Agora continuava a viagem oceano adentro. Ele estava agitado. Em breve começaria o sofrimento do Pe. Amando e do Frei Maurício. Não muito tempo se passou quando os dois, calados e sem participação de ninguém e alheio a tudo, sentaram-se numa cadeira no convés. Provavelmente pressentiam o que aconteceu, pois o irriquieto estômago anunciava algo estranho. Num momento, de repente, estavam na balaustrada debruçados. Com uma expressão desesperadora, pagavam tributo ao mar que o deus do mar deles exigia. Tinham o terrível enjôo. E o pior para os doentes é que não encontravam compaixão daqueles que tinham sido poupados pela doença, riam dos pobres coitados. Não seria cruel da nossa parte que em sua miséria fossem por nós ridicularizados? Em vão procuravam ser senhores de si, procuravam controlar a revolução do estômago.

No mar se aprende a rezar

É uma verdade que no mar se aprende a rezar. Todos estão quietos e calados e lembram-se, neste perigo, do bom Deus. A gente se sente de tal modo nas mãos do onipotente e justo Deus como em nenhuma outra situação.

Decepção em Lisboa e os remadores trapaceiros

Mal chegamos ao porto sem termos sido agredidos. A admiração das belezas de Lisboa, que eu havia sonhado no navio, desapareceu com estes acontecimentos. A aparência aqui também nos logrou. Como última decepção experimentamos na nossa volta ao navio dois acontecimentos. Primeiramente, o barco da agência havia partido de maneira que fomos obrigados a tomar um novo barco para nos levar ao navio. Foi fixado o preço para a viagem. Mas quando os dois remadores tinham remado um bom trecho, os dois sujeitos se recusaram a continuar a remar se não quiséssemos pagar mais do que o combinado. O que fazer? Estávamos totalmente nas mãos destes bandidos. Havia pressa em chegar ao navio, pois o tempo de partida se aproximava. Depois de um certo pechinchar aumentamos um pouco o pagamento combinado. Não tivéssemos tido a alegria de termos sido recebidos na audiência com o cardeal teríamos nos arrependido da visita à capital de Portugal. Mas nunca mais desci em Lisboa.

A cerveja do oficial

Os outros oficiais eram senhores afáveis. Da mesma forma os quatro maquinistas. Eles nos procuravam cada dia  para uma conversa, o que para nós era agradável e interessante porque nós, desta forma, muita coisa ficamos sabendo da estrutura e da situação da navegação. De maneira especial afável, mostrou-se para conosco religiosos, o terceiro oficial, um bom suíço. Às vezes ele levava a nós três Pe. Xisto, Frei Maurício e a mim ao seu camarote e oferecia algumas garrafas de cerveja. Ele julgava que a nossa abstinência era muito rigorosa, sobretudo nesse calor tropical. (Nós não bebíamos nem à mesa nem em outras ocasiões, nem vinho, nem cerveja).

Em terras brasileiras – Bahia

Amanhã cedinho estaremos na Bahia. Este foi o pensamento com o qual fomos dormir, aos 19 de junho. Na manhã seguinte apresentou-se uma alegre surpresa. Estávamos já na entrada do porto da Bahia. Os padres rezaram a missa mais cedo do que de costume. Depois da missa subimos para o convés. Os padres rezaram a missa mais cedo do que de costume. Depois da missa subimos para o convés, pra dali desfrutar a bela entrada na nossa nova pátria. O vento agradável da manhã não deixava passar o calor sufocante que mais tarde teríamos que suportar. Olhos e corações abriram-se ao espetáculo colorido que se apresentava diante de nós. Palmeiras esguias e touceiras de bananeiras que estavam às margens balançavam à brisa da manhã como se quisessem nos saudar com o abraço de boas vindas.

Rio de Janeiro

No dia 23 de junho aportamos no Rio de Janeiro. Foi na tarde das antevésperas da festa de São João Batista. Devido à hora avançada, descemos. Um Padre larazista alemão, Pe. Hehn, de Colônia, fora notificado da nossa chegada. Ele dera ao agente do navio o recado de nos levar ao Seminário dos Padres. A recepção por parte do Pe. Hehn foi muito cordial. O superior do seminário, como também os demais padres eram calados e reservados. Já por dominarmos a língua era evidente. Durante cinco dias solitários permanecemos no Seminário, pois não houve possibilidade de irmos para Santa Catarina. Não fizemos passeios, pois não era aconselhável, diziam, devido à atitude do povo na Nova República.

Em Santos, “sem lenço e sem documento”

A demora aqui fora estipulada em três dias, pelo que Pe. Amando resolveu ir a São Paulo. No entanto mal estávamos no navio, chegou a ordem: ainda hoje devemos partir. Por que motivo, não ficamos sabendo. Estávamos assim em uma situação fatal. Pe. Amando levou tudo consigo, dinheiro, documentos, etc. Ele voltaria só depois de dois dias e nós seguimos para Desterro, nossa meta. Primeiramente tocamos em Paranaguá. Embora aqui ficássemos um dia, não descemos, pois primeiramente não tínhamos dinheiro para alugar um barco, e além disso chovia constantemente, e era bem fresco.

A chegada em Desterro

A 4 de julho, de manhã cedo, pelas 7-8 horas, nos aproximamos da Ilha do Desterro. Não nos preocupamos com a contemplação da bela paisagem e a esplêndida entrada, pois outros pesadelos nos atribulavam. Não sem constrangimento pensávamos em nossa descida. Tínhamos chegado à nossa meta final, ao fim de nossa viagem marítima. Mas nossa alegria foi perturbada pelo pensamento de que não tínhamos em mãos nada para nos legitimar. Também não tínhamos dinheiro.

Onde está o vigário?

Lá estávamos nós, milhões de quilômetros distantes da pátria, em um outro mundo desconhecido de todos. Todavia só por momentos pensamos em nosso abandono. Não podíamos perder-nos em pensamento. Nossa situação exigia ação. (…) A uma certa distância, vi um senhor de idade passeando na praia. Ele estava vestido com um paletó comprido, assim dito guarda-pó e um boné cinza. Fui até ele e o cumprimentei. Ele me olhou com admiração e até com espanto. No navio já havia preparado algumas frases em português para ao menos poder entender-me, pois previra que eu teria a tarefa de salvar-nos da dificuldade. (…) Mais uma vez repensando todo meu vocabulário, perguntei ao senhor: onde mora o Vigário desta Freguesia? (…) Fomos levados a uma casa distante uns 100 metros e depois de termo-nos assentado, retirou-se o senhor, mas voltou logo aparentando um outro. Para nosso espanto, vimos que ele mesmo era o Vigário do lugar. (…) Santo Antônio que tínhamos invocado em nossos apuros ajudou-nos.

Reencontro com Padre Amando e viagem para Santa Catarina

Respiramos aliviados, quando um navio vindo do Norte, portanto de Santos, foi anunciado. Pe. Amando veio no dia 9 de julho e com ele ao mesmo tempo o Pe. Topp do Sul. Foi então combinado qual seria o nosso futuro, pois ainda não sabíamos para onde se dirigia a nossa viagem. O Padre lazarista Hehn, no Rio, nos aconselhara irmos a Blumenau (…) Pe. Topp, entretanto, achou que Teresópolis seria o melhor lugar onde poderíamos ficar. (…) De acordo com o conselho do Pe. Topp, resolveu Pe. Amando agir.

Até Teresópolis, a cavalo

No dia 10 de julho, em uma sexta-feira de manhã, às 6 horas, caminhamos 500 a 600 metros sobre um canal para terra firme. Um carro nos levou depois de uma viagem de uma hora para Palhoça, o centro de caravanas de colonos que levavam a sua mercadoria para a cidade. Um colono de Capivari providenciou para nós cavalos e tornou-se nosso guia até Teresópolis. Recebemos os quatro animais, três cavalos e um burro. O último, Pe. Xisto escolheu para si. Se antes havíamos brincado sobre a viagem e nos alegrado de antemão com a nossa viagem a cavalo, agora que devíamos iniciar a aventura a coisa se tornou séria. Sobretudo o Pe. Xisto expressava constantemente sua preocupação. Crianças, crianças, o que acontecerá com vocês? Nunca estiveram montados em um cavalo.

Passagem por Santo Amaro e o vinho do vigário

Depois de uma viagem de duas ou três horas, chegamos a Santo Amaro, um pequeno povoado entre Desterro e Teresópolis, cujos moradores, em sua grande maioria, eram brasileiros. O vigário que nos recebeu era um senhor afável que administrava esta paróquia por nove anos. Era um italiano nato de nome Arcângelo Ganarini. Refrescamo-nos com um bom copo de vinho feito pelo próprio vigário.

Finalmente: Teresópolis, o início de uma outra história…

Era pouco depois das 7 horas, dia 10 de julho de 1891, numa sexta-feira. Foi o dia em que nossa missão em Teresópolis, Estado de Santa Catarina, teve seu início. Em um escondido rincão do imenso Brasil está o berço da nossa missão, mas nós esperamos que a bênção de Deus paire num começo modesto, inicialmente não sem sacrifícios.

FONTE: THEMNS, Frei Humberto. Viagem ao Brasil e Começo da Missão. Trad. Frei Ludovico Gomes Mourão de Castro. Coleção Centenário. V.3.