{"id":188135,"date":"2022-04-14T11:31:26","date_gmt":"2022-04-14T14:31:26","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/conventosantoantonio\/?p=188135"},"modified":"2022-04-14T14:14:07","modified_gmt":"2022-04-14T17:14:07","slug":"live-do-convento-santo-antonio-traz-jornalista-que-mostra-tracos-contemporaneos-do-santo-franciscano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/conventosantoantonio\/live-do-convento-santo-antonio-traz-jornalista-que-mostra-tracos-contemporaneos-do-santo-franciscano\/","title":{"rendered":"&#8220;Live&#8221; do Convento Santo Ant\u00f4nio fala com o jornalista que escreveu a mais nova obra sobre o santo franciscano"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-188136 size-large\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/conventosantoantonio\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/edisonveiga-1024x576.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"576\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/conventosantoantonio\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/edisonveiga-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/franciscanos.org.br\/conventosantoantonio\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/edisonveiga-450x253.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/conventosantoantonio\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/edisonveiga-768x432.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/conventosantoantonio\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/edisonveiga-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/franciscanos.org.br\/conventosantoantonio\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/edisonveiga-150x84.jpg 150w, https:\/\/franciscanos.org.br\/conventosantoantonio\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/edisonveiga.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>No ano sab\u00e1tico que viveria na It\u00e1lia em 2018, o jornalista Edison Veiga decidiu escrever um livro sobre Santo Ant\u00f4nio que n\u00e3o ficasse somente na pesquisa, mas fosse resultado das andan\u00e7as suas pelos lugares que o santo franciscano percorreu.<\/p>\n<p>Desse trabalho, nasceu &#8220;Santo Ant\u00f4nio \u2013 A hist\u00f3ria do intelectual portugu\u00eas que se chamava Fernando, quase morreu na \u00c1frica, pregou por toda a It\u00e1lia, ganhou fama de casamenteiro e se tornou o santo mais querido do Brasil&#8221;, publicado pela Editora Planeta. A nova obra sobre o santo levou o Vig\u00e1rio Provincial, Frei Gustavo Medella, a fazer um convite ao jornalista para o segundo programa do Convento Santo Ant\u00f4nio do Rio de Janeiro, &#8220;Santo Ant\u00f4nio in LIVE&#8221;, transmitido ontem \u00e0 noite pelo YouTube do Convento, sua p\u00e1gina do Facebook e tamb\u00e9m pelo Facebook da Prov\u00edncia Franciscana da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o. Esse encontro de ontem teve a presen\u00e7a de R\u00f3ger Brunorio, frade que reside no Convento e \u00e9 curador provincial dos bens culturais.<\/p>\n<p>Frei Medella lembrou que no hor\u00e1rio das 20 horas do Brasil, quando teve in\u00edcio o programa, na Eslov\u00eania, onde reside Edison, era 1 hora da madrugada de hoje. Edison agradeceu pelo convite. &#8220;\u00c9 sempre um prazer estar falando sobre o meu trabalho, minhas pesquisas e sobre esse santo que \u00e9 t\u00e3o querido: Santo Ant\u00f4nio&#8221;, disse.<\/p>\n<p>Edison \u00e9 natural da cidade de Taquarituba (SP), onde nasceu em 1984. Escritor e jornalista, trabalhou na revista &#8220;Veja S\u00e3o Paulo&#8221; e no jornal &#8220;O Estado de S. Paulo&#8221;. A partir de 2018, passou a colaborar com ve\u00edculos como &#8220;Deutsche Welle&#8221;, &#8220;BBC&#8221;, &#8220;Radio France Internationale&#8221;, &#8220;O Estado de S. Paulo&#8221;, &#8220;Folha de S. Paulo&#8221;, &#8220;UOL&#8221;, entre outros. Al\u00e9m deste, j\u00e1 publicou sete livros. Atualmente, mora em Bled, na Eslov\u00eania.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-188138 size-full\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/conventosantoantonio\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/livro_edison_2.jpg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"370\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/conventosantoantonio\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/livro_edison_2.jpg 1000w, https:\/\/franciscanos.org.br\/conventosantoantonio\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/livro_edison_2-450x167.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/conventosantoantonio\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/livro_edison_2-768x284.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/conventosantoantonio\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/livro_edison_2-150x56.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/p>\n<p>Frei Medella iniciou o bate-papo lembrando que no t\u00edtulo do seu livro diz: &#8220;A hist\u00f3ria do intelectual portugu\u00eas que se chamava Fernando&#8221;. Segundo o frade, a\u00ed est\u00e1 a primeira informa\u00e7\u00e3o importante: Santo Ant\u00f4nio n\u00e3o foi batizado Ant\u00f4nio, mas Fernando. &#8220;Eu queria pedir a voc\u00ea que apresentasse a n\u00f3s um pouco da fam\u00edlia, do menino, cujo nome completo era Fernando Martins de Bulh\u00f5es e Taveira de Azevedo&#8221;, disse Frei Medella.<\/p>\n<p>&#8220;Isso mesmo. Acho que o primeiro grande desafio quando coloquei no papel que queria escrever uma biografia de Santo Ant\u00f4nio era tentar me munir o m\u00e1ximo de informa\u00e7\u00f5es documentais. Eu revirei diversos arquivos, andei muito pela It\u00e1lia. Eu queria encontrar documentos e registros para gente conseguir dizer quem foi o ser humano Ant\u00f4nio antes do santo. E \u00e9 muito dif\u00edcil isso porque a gente est\u00e1 falando de quem viveu h\u00e1 800 anos. A pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses era diferente, os registros eram muito parcos. Eram sociedades praticamente ainda iletradas. Pouca gente era letrada e uma prova dessas inconsist\u00eancias est\u00e1 na pr\u00f3pria data de nascimento. N\u00e3o existe um registro que diga o ano que ele nasceu. A tradi\u00e7\u00e3o consagrou o ano de 1195. Se voc\u00ea buscar informa\u00e7\u00f5es no Museu Santo Ant\u00f4nio, em Lisboa, h\u00e1 informa\u00e7\u00e3o de 1195, mas o pr\u00f3prio museu tamb\u00e9m traz a informa\u00e7\u00e3o de 1191 e exames antropom\u00e9tricos, realizados nos anos 80, conclu\u00edram que os restos mortais atribu\u00eddos a ele, que est\u00e3o na Bas\u00edlica de P\u00e1dua, s\u00e3o de um homem na faixa dos 40 anos. Como n\u00f3s sabemos que ele morreu dia 13 de junho de 1231 &#8211; e isso, sim, est\u00e1 bem documentado, inclusive com relatos dos franciscanos daquela \u00e9poca -, imaginamos que ele tenha nascido mesmo por volta de 1190 e n\u00e3o 1195. Acho que \u00e9 a primeira inconsist\u00eancia hist\u00f3rica&#8221;, explicou o jornalista.<\/p>\n<p>Sobre o nome Fernando, Edison contou que existem muitos registros ao longo da vida dele. &#8220;Muito possivelmente com todo esse nome completo, Fernando Martins de Bulh\u00f5es e Taveira de Azevedo, j\u00e1 indicava que ele era de uma fam\u00edlia de posses, uma fam\u00edlia da elite lisboeta, porque o pr\u00f3prio fato de ter sobrenome naquela \u00e9poca era um indicativo de uma fam\u00edlia importante e fazia quest\u00e3o de registrar esse sobrenome. Algu\u00e9m com v\u00e1rios sobrenomes como ele j\u00e1 \u00e9 um ind\u00edcio muito forte. A\u00ed sobre os pais dele, a gente n\u00e3o sabe muito. \u00c9 muito mais uma quest\u00e3o de tradi\u00e7\u00e3o do que comprova\u00e7\u00e3o. Mas se acredita que o pai dele era Martim de Bulh\u00f5es e a m\u00e3e Teresa Taveira de Azevedo e que seriam, sim, de posses. H\u00e1 quem diga que o pai chegou a ser prefeito de Lisboa. Mas o que sabemos pelo pr\u00f3prio legado que Santo Ant\u00f4nio deixou \u00e9 que ele foi alfabetizado desde pequeno. Ele teve acesso aos estudos, o que indica uma inf\u00e2ncia mais abastada. E, de certa forma, da inf\u00e2ncia dele n\u00e3o sabemos mais do que isso. Tem um cap\u00edtulo no meu livro que eu busco trazer elementos da inf\u00e2ncia, mas \u00e9 muito mais uma soma de lendas que a tradi\u00e7\u00e3o perpetuou do que de registros hist\u00f3ricos de fatos&#8221;, observou.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a de nome acontece, segundo o jornalista, por causa de uma tradi\u00e7\u00e3o religiosa, que muitas ordens religiosas conservam. &#8220;Se a gente parar para pensar, \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o que at\u00e9 o Papa traz de uma maneira muito simb\u00f3lica, que \u00e9 quando voc\u00ea assume uma fun\u00e7\u00e3o religiosa e se consagra \u00e0 vida religiosa. Assumir uma nova identidade tem esse significado de deixar aquele passado mundano para tr\u00e1s e voc\u00ea reiniciar uma nova vida. Tem esse sentido de inicia\u00e7\u00e3o mesmo. Mas, no caso dele, \u00e9 um pouco curioso esse percurso. Sabemos que Santo Ant\u00f4nio foi um frade franciscano, mas antes ele chegou a ser agostiniano, da Ordem dos C\u00f4negos Regrantes. Isso porque ali, ao longo da adolesc\u00eancia quando foi despertada a voca\u00e7\u00e3o religiosa, o primeiro convento que ele buscou foi o Convento S\u00e3o Vicente de Fora, em Lisboa, dos agostinianos. Isso tem registros. \u00c9 quando come\u00e7am os registros documentais. Se voc\u00ea buscar nos arquivos da Torre do Tombo, que \u00e9 o famoso arquivo portugu\u00eas, l\u00e1 tem um registro muito lac\u00f4nico com uma frase dizendo: &#8216;Em 1210, professou em S\u00e3o Vicente aquele que viria a ser o Santo Ant\u00f4nio de Lisboa&#8217;. Ou seja, sabemos que ele, ent\u00e3o, entrou nessa Ordem em 1210 e se tornou religioso, mas ainda com o nome de Fernando. Mais uma vez aparece essa quest\u00e3o da data de nascimento dele porque se essa informa\u00e7\u00e3o do primeiro registro dele era 1210, se ele tivesse realmente nascido em 1195, ele teria entrado para a vida religiosa com 14 ou 15 anos. E h\u00e1 muitos registros na \u00e9poca mostrando que os agostinianos costumavam receber jovens um pouco mais velhos, j\u00e1 na faixa dos 20 anos. Tudo bem, poderia ser um entendimento de um jovem prod\u00edgio ou ser uma verdadeira discrep\u00e2ncia com a verdadeira data de nascimento dele. Mas o que aconteceu \u00e9 que ele entrou para os agostinianos e se tornou um c\u00f4nego regrante. Mas essa primeira viv\u00eancia perto de Lisboa, depois ao longo da vida ele iria contar que n\u00e3o foi algo que esperava. Ele passou a se queixar muito que n\u00e3o conseguia se desconectar da vida mundana, porque toda semana familiares e amigos iam visit\u00e1-lo e ele acabava n\u00e3o se desligando dos problemas que n\u00e3o queria como religioso. As quest\u00f5es familiares eram trazidas, como a resist\u00eancia do pai dele a essa voca\u00e7\u00e3o e isso estava \u00e0 tona ainda. Ele conseguiu convencer os superiores a ser transferido para Coimbra, que tudo indica foi no in\u00edcio de 1212. Em Coimbra, ele foi para o Mosteiro de Santa Cruz, que \u00e9 a mais antiga institui\u00e7\u00e3o dos regrantes em Portugal. A\u00ed foi realmente quando ele se formou intelectualmente, porque, na \u00e9poca, Coimbra era a capital de Portugal e n\u00e3o Lisboa. Isso justifica porque Coimbra tem esse peso intelectualizado, universit\u00e1rio e dessa quest\u00e3o acad\u00eamica. O Mosteiro de Santa Cruz j\u00e1 era, na \u00e9poca, uma refer\u00eancia intelectual. Ele contava ent\u00e3o com biblioteca completa, n\u00e3o s\u00f3 de teologia e estudos religiosos, mas tamb\u00e9m de ci\u00eancias, astrologia, medicina, matem\u00e1tica, gram\u00e1tica e o jovem Fernando mergulhou nisso. Tanto que o Papa Greg\u00f3rio disse que ele entrou em Coimbra para se tornar sacerdote e saiu de l\u00e1 para se tornar Doutor, porque fez um percurso intelectual invej\u00e1vel&#8221;, contou o escritor.<\/p>\n<p>Para Edison, a identidade que ele assumiu aconteceu quando Santo Ant\u00f4nio j\u00e1 estava alguns anos em Coimbra. &#8220;Um grupo de frades franciscanos italianos &#8211; vamos lembrar que era uma Ordem rec\u00e9m-criada, S\u00e3o Francisco ainda era vivo &#8211; estava na regi\u00e3o de Coimbra. Eles chegaram a fundar em Coimbra um conventinho, muito pobre, muito simples como a Ordem Franciscana prega. E, nesse conventinho, eles tinham uma estrutura mendicante. Eles costumavam bater com frequ\u00eancia no Mosteiro de Santa Cruz pedindo alimentos, pedindo alguma ajuda justamente para sobreviver. Muitas vezes quem atendia essa porta \u00e9 o jovem Fernando, escalado para ser o porteiro do Mosteiro. E ele passou a se encantar com aquela vida. Seria muito mais interessante ter uma vida mission\u00e1ria. Eles contavam para ele sobre as Miss\u00f5es que eles tinham feito no Norte da \u00c1frica, na Espanha, e o jovem Fernando disse um dia: &#8216;Minha vida n\u00e3o vai ser nesse claustro em meio a esses livros. Eu quero pregar pelo mundo. Eu estou pronto para isso&#8217;. Se foi dif\u00edcil a transfer\u00eancia de Lisboa para Coimbra, imagine a transfer\u00eancia de uma Ordem religiosa para outra. Voc\u00eas, que s\u00e3o religiosos, sabem do voto de estabilidade e dizem que foi uma grande negocia\u00e7\u00e3o, por sorte um desses franciscanos, Frei Giovanni Parente, traduzido muitas vezes como Frei Jo\u00e3o Parente, tinha uma forma\u00e7\u00e3o equivalente a de um advogado na \u00e9poca e dizem que ele fez toda a fundamenta\u00e7\u00e3o, dizendo que na verdade Fernando era um franciscano com trajes de agostiniano. Ele n\u00e3o era um agostiniano de verdade. A\u00ed conseguiram convencer seu superior e, num belo dia, os irm\u00e3os franciscanos j\u00e1 levaram o h\u00e1bito franciscano para ele se trocar e sair do convento. E, a partir de ent\u00e3o, ele assumiu e viu que era necess\u00e1rio nessa vida mission\u00e1ria ter uma nova identidade. Ele n\u00e3o era mais Fernando, filho de um nobre portugu\u00eas. Ele deixava para tr\u00e1s esse passado de posses para se tornar um pobre franciscano e sentiu a necessidade de assumir um novo nome, tornando-se Ant\u00f4nio&#8221;, detalhou.<\/p>\n<p>Sobre a personalidade do santo, segundo o jornalista, da \u00e9poca h\u00e1 registros muito mais liter\u00e1rios do que hist\u00f3ricos, do que jornal\u00edsticos. &#8220;O que d\u00e1 para perceber da personalidade dele \u00e9 de algu\u00e9m muito carism\u00e1tico na comunica\u00e7\u00e3o, algu\u00e9m com muita facilidade de comunica\u00e7\u00e3o. Claramente, ele conseguia, como intelectual que era, traduzir essas coisas de forma simples. Eu acho at\u00e9 que aquele milagre do serm\u00e3o aos peixes, muito famoso no come\u00e7o da trajet\u00f3ria na It\u00e1lia, ilustra muito bem isso. Esse milagre \u00e9 uma met\u00e1fora bonita da capacidade de comunica\u00e7\u00e3o, de sedu\u00e7\u00e3o pela palavra. Acho que esse milagre revela essa capacidade de comunica\u00e7\u00e3o que ele tinha, de cativar plateias com sua orat\u00f3ria. Mas tamb\u00e9m d\u00e1 para supor que ele era grande entusiasta das boas rela\u00e7\u00f5es humanas. Ele era uma pessoa boa para contar hist\u00f3rias, para bater papo. Numa ida a P\u00e1dua para pesquisar, eu comentei com um frade que estava na igreja naquele dia, sobre as simpatias que existe no Brasil, como dessa tradi\u00e7\u00e3o de pendurar a imagem de cabe\u00e7a para baixo, enfim essas simpatias que a pessoa apronta em cima da imagem do santo em troca de alguma coisa. E ele falou uma coisa que me marcou: &#8216;Olha, na It\u00e1lia n\u00e3o tem essas tradi\u00e7\u00f5es &#8211; \u00e9 uma coisa muito mais portuguesa e brasileira -, e ele falou que sabia da tradi\u00e7\u00e3o brasileira, mas que ele, no fundo \u00e9 aquele santo que n\u00e3o fica no altar, n\u00e3o fica no p\u00falpito. Ele gosta de sentar no banco, ao lado do fiel. Ele \u00e9 aquele santo amigo. Com um amigo voc\u00ea faz uma piada, voc\u00ea brinca. \u00c9 por isso que as pessoas t\u00eam liberdade com ele. Se fosse um santo que ficasse l\u00e1 em cima no altar, talvez tivesse uma rela\u00e7\u00e3o de respeito t\u00e3o grande que n\u00e3o se teria liberdade com ele. E ele \u00e9 o santo amigo que voc\u00ea pode fazer uma brincadeirinha, pois ele d\u00e1 essa liberdade. Ele estava sempre circulando, mas ao mesmo tempo era acolhido. N\u00e3o se sentia estrangeiro. Ent\u00e3o, d\u00e1 para entender esse santo como das boas rela\u00e7\u00f5es humanas. E tamb\u00e9m a\u00ed d\u00e1 para trazer todas essas tradi\u00e7\u00f5es, como do casamento, que depois foram criadas&#8221;, refletiu.<\/p>\n<p><strong>O INTELECTUAL NA ORDEM FRANCISCANA<\/strong><\/p>\n<p>Sobre o pedido de S\u00e3o Francisco a Santo Ant\u00f4nio para que ensinasse teologia aos frades, Edison lembra que S\u00e3o Francisco se dirigia a ele como &#8220;meu bispo&#8221;. &#8220;E tamb\u00e9m \u00e9 um sinal desse respeito, dessa ideia de que ele era mais gabaritado intelectualmente, porque no come\u00e7o a Ordem Franciscana era muito mais da experi\u00eancia de vida do que da base intelectual. A base intelectual foi sendo constru\u00edda depois. Existem relatos de que, logo no come\u00e7o, ali nas andan\u00e7as pela It\u00e1lia, depois do primeiro Cap\u00edtulo das Esteiras que ele participa e \u00e9 deslocado para um convento, queixa-se de que n\u00e3o tinha livros no convento. Livros era um item muito caro naquela \u00e9poca. Essa simbologia dele como intelectual acabou sendo reconhecida pelo Papa Greg\u00f3rio, que foi o primeiro a cham\u00e1-lo de Doutor e depois a Igreja concedeu a ele esse t\u00edtulo oficialmente. H\u00e1 relatos que o Papa o chamava com certa frequ\u00eancia a Roma para dialogar com ele, para ouvir suas prega\u00e7\u00f5es, que foi at\u00e9 convidado para se tornar cardeal e viver na C\u00faria, mas ele recusou. Ele entendia que a vida dele era pregando. Ele tem um papel importante no come\u00e7o da Ordem Franciscana para ajudar sistematizar a Regra Franciscana, teve um papel importante na forma\u00e7\u00e3o de jovens franciscanos, tanto que em Bolonha, na It\u00e1lia, ele foi coordenador do trabalho de forma\u00e7\u00e3o numa casa que os franciscanos ganharam na d\u00e9cada de 1220, como tamb\u00e9m num per\u00edodo meio curto que ele passou na Fran\u00e7a, onde esteve em v\u00e1rias cidades, um pouco antes de ir para a P\u00e1dua, que foi a derradeira miss\u00e3o ou trabalho dele. Ele tinha essa forma\u00e7\u00e3o intelectual que vinha do ber\u00e7o, mas que tamb\u00e9m foi burilada no per\u00edodo do convento agostiniano, e isso n\u00e3o foi rejeitado pelos franciscanos. Muito pelo contr\u00e1rio. Foi acolhido e utilizado. S\u00e3o Francisco viu em Santo Ant\u00f4nio algu\u00e9m que seria \u00fatil para a constru\u00e7\u00e3o dessa nova Ordem que estava nascendo. Afinal, o pr\u00f3prio Papa cobrava uma Regra dos franciscanos. Eles n\u00e3o tinham uma Regra escrita e Santo Ant\u00f4nio foi importante nesse momento&#8221;, recordou.<\/p>\n<p>Edison ainda falou nesta <em>Live<\/em> sobre o significado da imagem de Santo Ant\u00f4nio carregando um livro e o Menino Jesus, o grande n\u00famero dos milagres do santo num per\u00edodo curto, a forte devo\u00e7\u00e3o que chegou ao Brasil com os portugueses. &#8220;Eu acredito que Santo Ant\u00f4nio chegou ao Brasil com a frota de Pedro \u00c1lvares Cabral. No navio j\u00e1 tinham uma imagem de Santo Ant\u00f4nio. A gente precisa lembrar que, na frota, havia 8 frades franciscanos. Ent\u00e3o, estamos falando de frades franciscanos e de franciscanos portugueses. Ou seja, h\u00e1 uma combina\u00e7\u00e3o muito prov\u00e1vel de que a devo\u00e7\u00e3o fosse a Santo Ant\u00f4nio, porque \u00e9 Santo de Portugal, Santo de Lisboa, mas \u00e9 tamb\u00e9m santo franciscano. N\u00e3o \u00e9 de se espantar que tenha vindo essa imagem com a frota de Cabral&#8221;, acredita. &#8220;E logo come\u00e7am a surgir os conventos no Brasil, que certamente ajudaram a espalhar essa devo\u00e7\u00e3o no Brasil&#8221;, acrescentou.<\/p>\n<p>Depois, segundo o escritor, Santo Ant\u00f4nio est\u00e1 muito forte no folclore. &#8220;Ele est\u00e1 presente na cultura popular. Tudo isso foi constru\u00eddo ao longo da religiosidade popular. &#8220;\u00c9 interessante porque o tema Santo Ant\u00f4nio n\u00e3o est\u00e1 restrito \u00e0 Igreja. Se a gente olhar, na obra do C\u00e2mara Cascudo, ele trata Santo Ant\u00f4nio como elemento dessa sabedoria popular. E tem toda essa hist\u00f3ria do santo casamenteiro. Isso ficou forte no Brasil e em Portugal. Na It\u00e1lia, ele \u00e9 o santo das coisas perdidas&#8221;, lembrou, falando ainda do santo que \u00e9 associado ao p\u00e3ozinho distribu\u00eddo \u00e0s ter\u00e7as-feiras e ao amor que tinha pelos pobres.<\/p>\n<p>No final de sua palestra, deu um depoimento sobre a influ\u00eancia que teve na trajet\u00f3ria pessoal e profissional o aprofundamento em conhecer a figura de Santo Ant\u00f4nio. &#8220;Acho que primeiro o que me motivou foi estudar e percorrer os passos de Santo Ant\u00f4nio, de ir \u00e0s mesmas cidades onde ele pisou muito tempo, e tentar escrever n\u00e3o s\u00f3 o que ele fez, mas tentar colocar um pouco dessa poeira, dessa sujeira do ch\u00e3o das cidades onde pisou. Eu sempre, como jornalista, gostei de contar boas hist\u00f3rias. Eu n\u00e3o sou especializado em um assunto. A boa hist\u00f3ria, independentemente do tema, me atrai. A ideia de fazer esse livro de Santo Ant\u00f4nio surgiu em 2017, quando eu ainda morava no Brasil, porque eu tinha um plano de passar o ano seguinte na It\u00e1lia trabalhando. E tamb\u00e9m queria justificar esse ano sab\u00e1tico. No fundo tinha essa culpa: &#8216;Como n\u00e3o fazer nada nesse ano?&#8217; E me ocorreu que iria para It\u00e1lia, o ber\u00e7o do catolicismo, e poderia descobrir algum assunto ligado \u00e0 Igreja. E comecei a pesquisar v\u00e1rios temas que fossem interessantes para o Brasil, mas que tivesse uma fonte na It\u00e1lia. Quando me deparei com Santo Ant\u00f4nio, imaginei que j\u00e1 se tivesse tudo o que se podia escrever sobre ele. N\u00e3o vou conseguir fazer uma coisa diferente. Mas para minha surpresa, h\u00e1 livros muitos bons sobre Santo Ant\u00f4nio e cito v\u00e1rios na minha bibliografia, mas n\u00e3o tinha nada com essa metodologia que eu planejava, com essa perspectiva, que era de falar sobre os lugares que ele esteve e n\u00e3o ficar simplesmente pesquisando. Fui para a It\u00e1lia com esse desafio. Muita coisa esse trabalho me trouxe para a vida: a mensagem, a postura do pr\u00f3prio exemplo que foi Santo Ant\u00f4nio. Mas para o nosso tempo, com tantos problemas, algo muito forte como o tema da xenofobia, das fronteiras no mundo. Quantos problemas de refugiados que t\u00eam de sair de seus lugares. Santo Ant\u00f4nio tem uma mensagem que n\u00e3o imaginava que fosse encontrar nele e n\u00e3o \u00e9 a mais comum que a gente fala dele: o fato de que sempre foi estrangeiro ao longo da vida. Tirando a inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, depois ele sempre estava em outro lugar: Coimbra, Norte da \u00c1frica, It\u00e1lia, onde ficou em muitas cidades, muito possivelmente ele esteve na Eslov\u00eania, e esteve na Fran\u00e7a. Em todos os lugares, ele tinha uma postura de acolhimento e, ao que parece, ele era acolhido. No fundo, Santo Ant\u00f4nio \u00e9 um santo muito contempor\u00e2neo nesse tempo em que as pessoas s\u00e3o cada vez mais cidad\u00e3s do mundo e, ao mesmo tempo, enfrentam os problemas de xenofobia e das fronteiras. Eu acho que me identifiquei muito com isso, porque a pesquisa de Santo Ant\u00f4nio foi o come\u00e7o de minha vida como estrangeiro, minha vida como imigrante. Ent\u00e3o, eu carrego essa postura de tentar estar aberto ao diferente, mas tamb\u00e9m esperar ser acolhido como ele foi. Nessa troca, todo mundo ganha&#8221;, acredita o jornalista.<\/p>\n<hr \/>\n<p><em>Moacir Beggo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Convento Santo Ant\u00f4nio<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":188136,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[105],"tags":[359],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>&quot;Live&quot; do Convento Santo Ant\u00f4nio fala com o jornalista que escreveu a mais nova obra sobre o santo franciscano - Convento Santo Ant\u00f4nio- Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/conventosantoantonio\/live-do-convento-santo-antonio-traz-jornalista-que-mostra-tracos-contemporaneos-do-santo-franciscano\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"&quot;Live&quot; 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