{"id":9813,"date":"2012-01-17T07:46:19","date_gmt":"2012-01-17T09:46:19","guid":{"rendered":"http:\/\/new.franciscanos.org.br\/?p=9813"},"modified":"2019-08-06T15:29:31","modified_gmt":"2019-08-06T18:29:31","slug":"clara-viva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/clara-viva.html","title":{"rendered":"Clara Viva"},"content":{"rendered":"<h4><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-176271\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/santacc111.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"410\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/santacc111.jpg 840w, https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/santacc111-450x220.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/santacc111-768x375.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/santacc111-150x73.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><\/h4>\n<h4><strong>Pequena\u00a0 biografia<\/strong><\/h4>\n<blockquote><p><span style=\"color: #808080;\"><em>A\u00a0 revista Evangile Aujourd\u2019hui publicou\u00a0 um texto muito original a respeito de Clara de Assis. O t\u00edtulo <\/em>\u00a0Claire la vivante\u00a0 &#8211; Petite biographie,<em>\u00a0 tendo como autora\u00a0 uma religiosa da Segunda Ordem,\u00a0 Irm\u00e3\u00a0 Marie Pascal.\u00a0 A autora\u00a0 escreve o texto conversando com Clara. Na introdu\u00e7\u00e3o ao artigo, assim ela se exprime.\u00a0 \u201cQue procedimento adotar para evocar\u00a0 Clara de Assis santa Clara?\u00a0 A hist\u00f3ria, a hagiografia, a sociologia da vida religiosa, a espiritualidade ou a teologia?\u00a0 Gostaria de falar dela como mulher, clarissa\u00a0 por acr\u00e9scimo. Clara mulher ao mesmo tempo aut\u00eantica e excepcional, cuja vis\u00e3o do mundo e projeto de vida mobilizam ainda perto de 17.000 pessoas em todas as latitudes.\u00a0 A autora resolve ter uma longa conversa com Clara. Ou como se ela estivesse lhe dirigindo uma carta.\u00a0 Uma clarissa escreve \u00a0a uma m\u00e3e que muito ama.<\/em><\/span><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"right\">\u00a0 Clara, lemos algumas das cartas que voc\u00ea escreveu, seu testamento, vivemos \u201ca forma de vida\u201d que voc\u00ea comp\u00f4s para n\u00f3s e que voc\u00ea mesma n\u00e3o pode observar integralmente.\u00a0 Como voc\u00ea se desenha aos nossos olhos?\u00a0 Descubro sua exist\u00eancia\u00a0 como uma <em>paix\u00e3o <\/em>\u00a0no sentido literal e musical do termo.\u00a0 Sim, uma paix\u00e3o grave e bel\u00edssima em todos os seus movimentos.\u00a0 Tr\u00e1gica, inveross\u00edmil mesmo,\u00a0 com pitadas de humor como\u00a0 Deus costuma fazer.\u00a0 Se devesse se falar de m\u00fasica seria a de Heinrich Sch\u00fctz com curtas pastorais ou ainda a m\u00fasica de c\u00e2mara com tr\u00eas ou quatro instrumentos,\u00a0 quem sabe \u00e1rias de Bach para voz feminina\u00a0 de beleza ao mesmo tempo selvagem e cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p><strong>Apassionata<\/strong><\/p>\n<p>Voc\u00ea nasceu no final do s\u00e9culo XII, em 1193, no dia 18 de julho, costuma-se dizer, perto da Catedral de S\u00e3o Rufino, cujas ros\u00e1ceas encantam os turistas de Assis. Provavelmente voc\u00ea foi concebida na volta de uma das peregrina\u00e7\u00f5es\u00a0 que sua m\u00e3e fazia \u00a0\u00e0 Terra Santa.\u00a0 A vida est\u00e1vel que voc\u00ea levou n\u00e3o contradiz em nada\u00a0 essa mentalidade de \u201cperegrina e estrangeira\u201d, que voc\u00ea reivindica, na esteira de Francisco.\u00a0 Ali\u00e1s, tudo normal para uma mulher que foi contempor\u00e2nea do nascimento das comunas.\u00a0 Como parece convir, os hagi\u00f3grafos escrevem mais a respeito de sua m\u00e3e, do que\u00a0 de seu pai. Cavaleiro de boa cepa, teria ele estaria ele vivo no momento de sua partida da casa paterna?\u00a0 Ningu\u00e9m o sabe. Voc\u00ea parece ter \u00a0todas as qualidades de sua m\u00e3e. Distinta, empreendedora, eficiente, cultivada, com pend\u00e3o para a caridade, com um gosto acentuado pela dimens\u00e3o interior da exist\u00eancia. Duas irm\u00e3s suas vir\u00e3o alegrar\u00a0 a morada senhorial. Catarina que Francisco batizar\u00e1 de \u201cIn\u00eas\u201d\u00a0 no momento do afrontamento violento que iria\u00a0 opor as duas \u00e0 fam\u00edlia em Santo \u00c2ngelo de Panzo e\u00a0 Beatriz que vai ganhar S\u00e3o Dami\u00e3o dezessete anos mais tarde.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 preciso logo mencionar\u00a0 Francisco, o\u00a0 \u201chomem novo\u201d.\u00a0 A opini\u00e3o p\u00fablica\u00a0 queria\u00a0 que voc\u00eas tivessem se conhecido um ao outro desde a sua mais tenra inf\u00e2ncia. \u00a0Na verdade, ele \u00e9\u00a0 onze anos mais velho do que voc\u00ea.\u00a0 H\u00e1 autores que afirmam que voc\u00ea estava \u201capaixonada\u201d\u00a0 por ele.\u00a0 Ser\u00e1 verdade?\u00a0 Esta \u00e9 uma pergunta meio\u00a0 rom\u00e2ntica&#8230;\u00a0 Uma filha de cavaleiro e um filho da burguesia!\u00a0 Em todo caso \u00e9 gra\u00e7as a ele e aos seus pares que a sua fam\u00edlia precisou buscar o ex\u00edlio em Perugia, \u00a0ao menos por cinco anos&#8230; Francisco, esse revolucion\u00e1rio\u00a0 com um itiner\u00e1rio de vida um tanto quanto movimentado,\u00a0 salvo da pris\u00e3o, l\u00edder de uma juventude \u00e1vida de prazer e depois penitente inopinado e fundador de comunidade&#8230;\u00a0 Voc\u00ea tem outras preocupa\u00e7\u00f5es, em particular com seu futuro.\u00a0 Voc\u00ea sabe muito bem que Aquele a respeito do qual\u00a0 sua M\u00e3e tanto falou reclama o amor de seu cora\u00e7\u00e3o.\u00a0 Mais tarde voc\u00ea falar\u00e1 de Francisco como um apaixonado pelo Cristo. Voc\u00ea, na realidade, n\u00e3o\u00a0 era menos do que ele&#8230;<\/p>\n<p>Voc\u00ea vai se dando conta que o Evangelho reclama\u00a0 suas energias, a convers\u00e3o de sua exist\u00eancia. \u00a0H\u00e1 um problema a ser resolvido:\u00a0 como \u00e9 que as coisas v\u00e3o se passar? Como responder ao apelo do Senhor?\u00a0 Ser\u00e1 fundamental conversar com Francisco.\u00a0 Marca-se um encontro.\u00a0 Preparam-se as coisas.\u00a0 Francisco viria com um de seus companheiros e voc\u00ea com uma amiga. \u00a0\u00a0Toma-se o tempo necess\u00e1rio para a reflex\u00e3o sobre o contexto todo e sua decis\u00e3o \u00e9 tomada.\u00a0 Tudo foi bem pesado. Voc\u00ea est\u00e1 com\u00a0 dezoito anos. Imediatamente fica combinada a sa\u00edda de casa\u00a0 para a noite\u00a0 do Domingo de Ramos.\u00a0 Era um bom momento para passar de um mundo para outro. Voc\u00ea sair\u00e1\u00a0 sem prevenir, os frades vir\u00e3o ao seu encontro e a \u201cconvers\u00e3o\u201d ser\u00e1 celebrada na Porci\u00fancula, uma dessas capelas que Francisco reconstru\u00edra com suas m\u00e3os.\u00a0 Depois os frades haveriam de coloc\u00e1-la protegida numa comunidade de beneditinas.\u00a0 At\u00e9 que&#8230; no dia seguinte&#8230; encontrada rapidamente a pista, \u00a0sua fam\u00edlia chega, e com toda a f\u00faria.\u00a0 Voc\u00ea, naquele momento, como jovem penitente, tira o v\u00e9u, mostra\u00a0 a cabe\u00e7a raspada e todos compreendem que se trata de uma decis\u00e3o sem volta.\u00a0 Dias depois ser\u00e1 a vez de sua irm\u00e3 ca\u00e7ula. O tio Monaldo, misteriosamente, quebra o bra\u00e7o:\u00a0 n\u00e3o podia imaginar que suas sobrinhas fossem t\u00e3o teimosas quanto ele.<\/p>\n<p><strong>Allegro vivace<\/strong><\/p>\n<p>E eis que nossas jovens da aristocracia estar\u00e3o brevemente em S\u00e3o Dami\u00e3o, a igreja para a qual Francisco andou fazendo uma coleta de pedras.\u00a0 Foi ali que, subindo no alto de uma parede ela anunciara, seis anos antes, cheio\u00a0 de alegria e do Esp\u00edrito Santo, a vinda de \u201csenhoras\u201d\u00a0 de vida correta e luminosa.\u00a0\u00a0 S\u00e3o Dami\u00e3o&#8230; m\u00ednimo conforto; Evangelho vivido no dia a dia. Voc\u00ea haveria de ir decifrando com Francisco a gram\u00e1tica da pobreza.\u00a0 Nesse momento se poderia colocar como fundo musical a pastoral do Messias de Haendel.\u00a0 Desde que se comece a ouvir j\u00e1 os golpes do destino, os primeiros movimentos de uma sinfonia heroica que colore sua aventura, irm\u00e3 Clara!\u00a0 Um grande presente, o Crucifixo de S\u00e3o Dami\u00e3o.\u00a0 Foi\u00a0 ele, sabemos muito bem, que encarregou Francisco a que reconstru\u00edsse as paredes em ru\u00edna&#8230;.Esse Crucifixo ocupa um imenso lugar,\u00a0 com seu olhar cheio de interioridade, suas m\u00e3os pregadas, aquela bela postura de acolhimento e de envio.\u00a0 E esse pequeno galo, no meio da coxa, que anuncia cada manh\u00e3 a infidelidade perdoada e a incr\u00edvel novidade da vida que come\u00e7a.<\/p>\n<p>Com o entusiasmo dos come\u00e7os,\u00a0 mo\u00e7as afluem a S\u00e3o Dami\u00e3o.\u00a0 Amigas de castelos vizinhos, meninas da burguesia, mulheres do povo, em suma,\u00a0 penitentes em busca&#8230;\u00a0 Todas dizem: era o que lhes faltava. E voc\u00ea,\u00a0 Clara, com seu discernimento perspicaz, voc\u00ea as acolhia&#8230;. ou as orientava para que fossem buscar respostas em outros lugares.\u00a0 Francisco leva a s\u00e9rio sua miss\u00e3o e escreve para voc\u00eas\u00a0 \u201cum forma de vida\u201d&#8230; \u00a0Nada de detalhes in\u00fateis, mas motivos para viver.\u00a0 \u201cInequivocamente foi o Esp\u00edrito que as convocou. Voc\u00eas optaram por servir a Deus Pai e viver o Evangelho tal qual ele soa!\u00a0 Eu, Frei\u00a0 Francisco, juro que as ajudarei de todo o cora\u00e7\u00e3o e com todas as minhas for\u00e7as, por mim mesmo e por meus irm\u00e3os\u201d.\u00a0 Isso vos basta!\u00a0 Mais tarde, voc\u00ea vai se lembrar nos tempos heroicos\u00a0 a emo\u00e7\u00e3o de Francisco\u00a0 quando as via comendo o p\u00e3o duro\u00a0 e\u00a0 dormido que traziam os frades.\u00a0 Naquele momento, voc\u00eas eram inteiramente irm\u00e3s deles. \u00a0Mais tarde voc\u00ea escreveu:\u00a0 \u201cVendo o bem-aventurado Francisco que n\u00f3s, embora fr\u00e1geis e fisicamente sem for\u00e7a, n\u00e3o\u00a0 t\u00ednhamos medo de nenhuma priva\u00e7\u00e3o, pobreza, trabalho, tribula\u00e7\u00e3o, nem humilha\u00e7\u00e3o, nem desprezo do mundo, e at\u00e9 julg\u00e1vamos tudo isso as maiores del\u00edcias, Francisco tomado de emo\u00e7\u00e3o e de alegria escreveu para n\u00f3s\u00a0 uma\u00a0 <em>forma de vida\u201d.<\/em>\u00a0\u00a0 Naquele tempo voc\u00ea j\u00e1 sabia o que significa viver a perfei\u00e7\u00e3o do Evangelho.\u00a0 Neste estava a fonte da sua alegria, como da alegria de Francisco.<\/p>\n<p>Esse era o sentido puro e simples\u00a0 do famoso\u00a0 \u201cprivil\u00e9gio da pobreza\u201d, que\u00a0 veio a se transformar numa esp\u00e9cie de \u201ccuriosidade\u201d \u00a0jur\u00eddica. Ele merece explica\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea pedia para sua comunidade simplesmente o direito existir\u00a0 \u201csem garantias\u201d. Voc\u00ea tomou a decis\u00e3o de vender os seus bens e de distribuir o resultado aos pobres. Voc\u00ea queria viver\u00a0 sem terrenos que dessem dinheiro, para seguir os tra\u00e7os do Cristo pobre. Esse era o segredo de seu projeto:\u00a0 vida comum, trabalho manual dia a dia e esmolas, op\u00e7\u00e3o pela pobreza.\u00a0 Nada de frases, mas uma convic\u00e7\u00e3o:\u00a0 Deus ou o dinheiro, ser ou ter. Voc\u00ea chegou at\u00e9\u00a0 mesmo a escrever em uma de suas cartas: \u201cQuem se apega ao que possui, perde o fruto do amor\u201d.\u00a0 Apegar-se ao que se tem e n\u00e3o estar mais aberto para receber o que Deus d\u00e1\u201d.\u00a0 A vida mon\u00e1stica feminina, ent\u00e3o vigente, \u00a0tinha fundamentos diferentes:\u00a0 dispor de propriedades para que as monjas n\u00e3o experimentassem inquieta\u00e7\u00f5es a respeito do dia de amanh\u00e3 e, assim, mais despreocupadamente,\u00a0 rezar com tranquilidade. Essa n\u00e3o era sua maneira de ver as coisas. Voc\u00ea vai escrever ao Papa.\u00a0 H\u00e1 de faz\u00ea-lo com diplomacia usando a linguagem dele. Antes de voc\u00ea, as religiosas solicitavam\u00a0 \u201cprivil\u00e9gios de propriedades\u201d;\u00a0 voc\u00ea pede um \u201cprivil\u00e9gio de pobreza\u201d.\u00a0 Inoc\u00eancio\u00a0 III\u00a0 tem bom faro.\u00a0 Ele mesmo escreve um rascunho de um documento&#8230;.\u00a0 Nesse momento, voc\u00ea abandona os caminhos batidos e come\u00e7a a guerra&#8230;<\/p>\n<p><strong>Pastorale\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Como era a vida em S\u00e3o Dami\u00e3o? \u00a0As irm\u00e3s rezam e trabalham. Voc\u00ea tinha aprendido isto de Francisco e transmitiu \u00e0s suas irm\u00e3s. Evidentemente\u00a0 h\u00e1 tempos inteiramente consagrados\u00a0 ao col\u00f3quio\u00a0 com Deus.\u00a0 Como os frades, voc\u00eas rezavam o Of\u00edcio:\u00a0 hinos, salmos, tempos de escuta da Palavra de Deus, intercess\u00f5es alternam,\u00a0 ritmam\u00a0 o tempo nesse espa\u00e7o ex\u00edguo que a tradi\u00e7\u00e3o\u00a0 chamava de\u00a0 \u201ccoretto\u201d,\u00a0\u00a0 mas que tamb\u00e9m \u00e9 o lugar do cora\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea gosta de\u00a0 beber da \u00e1gua fresca da Palavra de Deus\u00a0 e conserva em sua mem\u00f3ria passagens que dizem muito. O C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos\u00a0 alimenta seu di\u00e1logo com o Bem Amado, as palavras de Lucas e de Mateus exprimem maravilhosamente seus la\u00e7os \u00edntimos com a pobreza. Voc\u00ea manifesta \u00a0uma grande paix\u00e3o pela vida dos m\u00e1rtires, ouvida todos os dias nas matinas, com prefer\u00eancia especial pela m\u00e1rtir In\u00eas.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Dami\u00e3o, pois,\u00a0 o tempo \u00e9 cadenciado com o ritmo da ora\u00e7\u00e3o lit\u00fargica.\u00a0 Trabalho, no entanto, tamb\u00e9m \u00e9 ora\u00e7\u00e3o.\u00a0\u00a0 Realizado em sil\u00eancio, excetuando-se as palavras indispens\u00e1veis\u00a0 e ditas com parcim\u00f4nia e com voz baixa, permitem o col\u00f3quio constante com o Senhor.\u00a0 Esse seu jeito e de Francisco tem tudo a ver com a maneira da ora\u00e7\u00e3o dos Padres do Deserto. Um cora\u00e7\u00e3o entregue ao Esp\u00edrito Santo e unificado pela reta e pura inten\u00e7\u00e3o\u00a0 n\u00e3o se desvia de Deus durante o trabalho das m\u00e3os. Ao contr\u00e1rio, liberto da ociosidade, o ser inteiro deseja o Senhor. Tem nele os olhos postos. Ama-o e estabelece com ele o di\u00e1logo da ora\u00e7\u00e3o.\u00a0 Tudo se fazendo no cotidiano das coisas cotidianas.<\/p>\n<p><strong>Allegro ma non toppo<\/strong><\/p>\n<p>A Igreja romana estava muito preocupada\u00a0 com as comunidades que queriam viver como voc\u00eas viviam em S\u00e3o Dami\u00e3o.\u00a0 Seu grande amigo, \u00a0o cardeal Hugolino que \u00e9 ao mesmo tempo protetor dos frades e de sua comunidade se p\u00f4s a redigir\u00a0 Constitui\u00e7\u00f5es\u00a0 destinadas a explicitar a Regra de S\u00e3o Bento que,\u00a0 de fato,\u00a0 lhes foi imposta desde o come\u00e7o. Mesmo nutrindo uma grande estima pela forte personalidade do cardeal, essas Constitui\u00e7\u00f5es, desde o come\u00e7o n\u00e3o lhe agradaram. Com tantos pormenores regulamentados, careciam de\u00a0 sopro vital. Voc\u00ea\u00a0 nelas\u00a0 n\u00e3o encontra\u00a0 os dilatados horizontes abertos por Frei Francisco.\u00a0 As ditas Constitui\u00e7\u00f5es nada dizem a respeito de dois assuntos que voc\u00ea tem a peito: \u00a0os la\u00e7os com os frades e o compromisso da pobreza.<\/p>\n<p>Como foi seu relacionamento com a Igreja? Foi movimentado. Voc\u00ea tinha verdadeira venera\u00e7\u00e3o pelo cardeal-protetor\u00a0 Hugolino, que\u00a0 deveria receber o encargo de todas as\u00a0 Igrejas com o nome de\u00a0 Greg\u00f3rio IX.\u00a0 Com idade que tinha podia ser seu av\u00f4.\u00a0 Assistiu aos seus come\u00e7os e admirava a coragem e a tenacidade de voc\u00eas.\u00a0 Tinha receio que a experi\u00eancia de S\u00e3o Dami\u00e3o viesse a se generalizar.\u00a0 Foi por isso que ele redigiu\u00a0 as tais\u00a0 Constitui\u00e7\u00f5es\u00a0 destinadas a unificar\u00a0 os grupos\u00a0 de penitentes que desejavam viver como voc\u00ea e suas irm\u00e3s.<\/p>\n<p>No mesmo ano em que\u00a0 foram publicadas as\u00a0 Constitui\u00e7\u00f5es o referido documento, Hugolino veio celebrar a P\u00e1scoa com voc\u00eas. Voc\u00eas falaram do Cristo vivo no meio de n\u00f3s, maravilhosamente presente em sua Eucaristia.\u00a0 Tendo sido obrigado de retomar suas atividades, ele lhe escreveu uma carta calorosa\u00a0 na qual\u00a0 ele a designa\u00a0 como \u201ca m\u00e3e de sua alma\u201d.\u00a0 Mesmo partilhando seu afeto, nada a impede\u00a0 de se opor a ele quando est\u00e1 em jogo o sentido de sua voca\u00e7\u00e3o.\u00a0 T\u00e3o logo ele fora eleito Papa, escreveu \u00e0 sua comunidades estas palavras cheias de\u00a0 calor:\u00a0 \u201cNo meio de amarguras e ang\u00fastias que nos afligem sem cessar,\u00a0 voc\u00eas s\u00e3o\u00a0 nossa consola\u00e7\u00e3o&#8230; Porque\u00a0 voc\u00eas vivem um s\u00f3 esp\u00edrito com o Cristo, pedimos que sempre se lembrem de n\u00f3s em sua ora\u00e7\u00e3o, que erguam em prece suas m\u00e3os para que\u00a0 o Senhor seja a nossa for\u00e7a\u201d.\u00a0 Nesta \u00e9poca, o Santo Padre tinha 83 anos e foi obrigado\u00a0 a fugir de Roma, \u00a0cidade palco de\u00a0 tumultos, \u00a0para se refugiar em Rieti.\u00a0 Nesse quadro de revolta e de fome, pouco antes, ele tinha\u00a0 insistido que voc\u00ea aceitasse propriedades\u00a0 e ele mesmo propunha consegui-las para voc\u00eas. As irm\u00e3s se lembram\u00a0 ainda do di\u00e1logo. No fim, o Papa lan\u00e7a a \u00faltima cartada: \u201cSe \u00e9 o voto de pobreza que causa dificuldade, eu posso dispens\u00e1-lo!\u201d\u00a0 A resposta veio imediatamente\u00a0 e diz\u00a0 bem aquilo que voc\u00ea \u00e9:\u00a0 \u201cSant\u00edssimo Padre, nunca gostaria que me tirassem a alegria de seguir\u00a0 Jesus Cristo!\u201d\u00a0 Esse foi o teor das conversas que vieram a ter.<\/p>\n<p><strong>En choeur<\/strong><\/p>\n<p>A grande novidade de sua \u201cforma de vida\u201d\u00a0 consiste nessa atmosfera dos relacionamentos fraternos. Voc\u00ea gosta de lembrar\u00a0 \u00e0s suas irm\u00e3s aquilo que as motivou a tudo deixarem e a se voltarem totalmente para Cristo.\u00a0 Sempre juntas&#8230; juntas na ora\u00e7\u00e3o, no trabalho, no dormit\u00f3rio.\u00a0 A reparti\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os em S\u00e3o Dami\u00e3o evoca tal realidade. Voc\u00eas chegaram a ser cinquenta&#8230; Um chamado comum\u00a0 convocou-as a viverem juntas.\u00a0 Voc\u00eas s\u00e3o uma par\u00e1bola viva desse viver junto.<\/p>\n<p>No meio das irm\u00e3s voc\u00ea \u00e9 aquela que serve. N\u00e3o gosta de mandar, segundo os depoimentos as irm\u00e3s no <em>Processo <\/em>de canoniza\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea est\u00e1 sempre pronta a realizar as tarefas menos atraentes\u00a0 Cuida das irm\u00e3s doentes: lava-lhes os p\u00e9s,\u00a0 ministra-lhes os rem\u00e9dios,\u00a0 tenta satisfazer seus m\u00ednimos desejos.\u00a0 Circulam muitas hist\u00f3rias a esse respeito.\u00a0 Diz-se que uma irm\u00e3 n\u00e3o queria comer. Foram feitas propostas apetitosas, dadas ordens.\u00a0 Nada. N\u00e3o sabendo mais o que dizer, com o fervor do desespero, voc\u00ea\u00a0 pergunta \u00e0 doente: \u201cO que poderia bem te agradar?\u201d\u00a0 Ousada e brincalhona ao mesmo tempo, a irm\u00e3\u00a0 faz um gracejo:\u00a0 \u201cPois bem, quero uma truta de Topino e um doce de\u00a0 Nocera\u201d.\u00a0 A irm\u00e3 sabia\u00a0 que voc\u00ea seria incapaz de realizar esse pedido. Voc\u00ea se p\u00f4s de joelhos e come\u00e7ou a rezar.\u00a0 Algu\u00e9m toca a sineta em hora tardia.\u00a0\u00a0 Sob uma chuva\u00a0 diluviana n\u00e3o \u00e9 que chega um mensageiro desconhecido e trazendo uma bandeja coberta com uma toalha nos quatro cantos e pede que lhe seja entregue.\u00a0 A irm\u00e3 porteira apresenta-lhe aquele estranho embrulho.\u00a0 Quando ele \u00e9 aberto l\u00e1 est\u00e3o a truta e o doce.\u00a0 Milagre da ternura fraterna&#8230;.\u00a0 Poder\u00edamos aqui mencionar muitos outros epis\u00f3dios&#8230;.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Dami\u00e3o, voc\u00eas devem\u00a0 ter tido uma horta com legumes e frutas. O fruto do quintal n\u00e3o bastava. Dois ou tr\u00eas irm\u00e3os que moravam do outro lado da casa de voc\u00eas\u00a0 esmolavam para voc\u00eas.\u00a0 Traziam aquilo que lhes era generosamente dado pelas pessoas.\u00a0 Sempre se fala de certo Frei Bentivenga a quem voc\u00ea pediu que fosse buscar\u00a0 \u00f3leo porque n\u00e3o havia mais em casa.\u00a0 O frade pede o recipiente. Voc\u00ea o lavou e o colocou no costumeiro lugar para que fosse levado pelo dito frade.\u00a0 Seu desejo, Clara, foi satisfeito antes do tempo: a vasilha j\u00e1 estava cheia de \u00f3leo antes que o frade sa\u00edsse.\u00a0 Nem preciso\u00a0 dizer que as irm\u00e3s e o frade ficaram muito admirados.<\/p>\n<p>Posteriormente, quando o relacionamento com os frades\u00a0 parecia conhecer tens\u00f5es (a profiss\u00e3o de irm\u00e3o esmoler nem sempre era bem entendida), voc\u00ea pediu que suas irm\u00e3s\u00a0 fizessem esse delicado trabalho.\u00a0 Voc\u00ea mesma as prepara: elas ser\u00e3o mensageiras de esperan\u00e7a, irradiar\u00e3o a paz que unia voc\u00eas todas e prometiam a todos a ora\u00e7\u00e3o do mosteiro&#8230;\u00a0 Quando elas voltavam voc\u00ea gostava de\u00a0 acolh\u00ea-las e servi-las.<\/p>\n<p>Pelo que eu disse aqui\u00a0 talvez algu\u00e9m pudesse pensar que a vida comunit\u00e1ria\u00a0 n\u00e3o comporta conflitos?\u00a0 Em sua\u00a0 \u201cforma de vida\u201d, voc\u00ea previu\u00a0 muito realisticamente que poderiam haver momentos de confronto.\u00a0 Se a desaven\u00e7a opunha duas irm\u00e3s, por gestos ou palavras, a que estivesse na origem de tal desaven\u00e7a deveria pedir perd\u00e3o e pediria a intercess\u00e3o daquela que ofendeu. A irm\u00e3 ofendida perdoar\u00e1 de todo o cora\u00e7\u00e3o.\u00a0 As duas irm\u00e3s reconciliadas poderiam ent\u00e3o rezar juntas com o cora\u00e7\u00e3o em paz.\u00a0 Por detr\u00e1s desta bela passagem da<em> Regra<\/em> se pode\u00a0 pressentir uma grande experi\u00eancia.\u00a0 Para tanto, acrescento eu, era necess\u00e1rio ser mulher.<\/p>\n<p><strong>Mais grave<\/strong><\/p>\n<p>Houve a p\u00e1scoa de Frei Francisco na tardinha de 3 de outubro\u00a0 de 1226.\u00a0 Os frades fizeram o relato dos \u00faltimos momentos do santo (na verdade, mesmo em vida, ela j\u00e1 era considerado santo).\u00a0 Quando o cortejo f\u00fanebre fez o desvio de seu caminho passando\u00a0 por S\u00e3o Dami\u00e3o, \u00a0voc\u00ea venerou as chagas preciosas de seu pai e seu irm\u00e3o\u00a0 muito querido com todo o seu cora\u00e7\u00e3o! \u00a0Depois, ele se fez presente de uma outra maneira.\u00a0 Voc\u00ea passou a ser testemunha das origens e nem sempre era f\u00e1cil responder aos frades que vinha pedir lhe conselhos. Todos sabiam que voc\u00ea\u00a0 n\u00e3o queria julgar, mas refletir como num espelho essa \u201c senhora pobreza,\u00a0 que Francisco tanto havia amado.<\/p>\n<p>Quando Francisco morreu, voc\u00ea tinha\u00a0 33 anos. Voc\u00ea atravessou essa prova\u00e7\u00e3o com galhardia.\u00a0 Ali\u00e1s,\u00a0 \u00e9 desse\u00a0 tempo que data sua doen\u00e7a\u00a0 da qual n\u00e3o se conhece a natureza. Corajosamente voc\u00ea continuou a caminhada. Dois presentes \u00a0recebeu de Francisco: o C\u00e2ntico das Criaturas e\u00a0 a exorta\u00e7\u00e3o que ele comp\u00f4s para voc\u00eas\u00a0 \u00e0s v\u00e9speras de sua morte: \u201cOuvi, pobrezinhas, pelo Senhor chamadas, que de muitas partes e prov\u00edncias fostes congregadas. Vivei sempre na verdade, para morrerdes na obedi\u00eancia. N\u00e3o olheis a vida de fora, porque a do esp\u00edrito \u00e9 melhor. Eu vos rogo com grande amor: com discernimento devereis usar as esmolas que o Senhor vos d\u00e1. As que est\u00e3o por doen\u00e7as agravadas e outras que por elas est\u00e3o fatigadas, umas e outras suportai-o em paz\u00a0 pois essa fadiga ter\u00e1 alto pre\u00e7o, j\u00e1 que cada uma ser\u00e1 rainha no c\u00e9u\u00a0 coroada com a\u00a0 Virgem Maria\u201d. \u00a0Para falar dessa maneira \u00a0era preciso ter experimentado a doen\u00e7a.\u00a0 Francisco\u00a0 queria que voc\u00ea e suas irm\u00e3s\u00a0 usassem as esmolas com cuidado. Quando a gente n\u00e3o pode mais trabalhar, na verdade, a depend\u00eancia \u00e9 sempre maior e cada vez menos uma simples palavra, mas uma realidade\u00a0\u00a0 dura a viver.<\/p>\n<p><strong>Alla fuga<\/strong><\/p>\n<p>Sua m\u00e3e\u00a0 Ortolana\u00a0 foi viver com voc\u00ea em S\u00e3o Dami\u00e3o.\u00a0 Depois chegou tamb\u00e9m sua irm\u00e3\u00a0 Beatriz. O servi\u00e7o do Senhor\u00a0 unia voc\u00eas tr\u00eas e lhes dava alegria.<\/p>\n<p>De toda a Europa\u00a0 chegavam pedidos de bispos ou de grupos evang\u00e9licos para que se fundassem comunidades de irm\u00e3s,\u00a0 sobretudo nos pa\u00edses em que os frades\u00a0 haviam\u00a0 criado uma fraternidade ou falado\u00a0 de nosso g\u00eanero de vida.\u00a0 Assim, como\u00a0 um \u201cfuga\u201d \u00a0executada no \u00f3rg\u00e3o em que o mesmo tema n\u00e3o cessa de recome\u00e7ar em sucessivas transposi\u00e7\u00f5es, voc\u00ea enviava algumas irm\u00e3s de Assis ou de outras cidades italianas. \u00a0In\u00eas teve que deixar Assis e esteve por longos anos em Floren\u00e7a, tendo voltado a S\u00e3o Dami\u00e3o apenas poucos anos antes de voc\u00ea morrer. Era necess\u00e1rio escolher as irm\u00e3s e prepar\u00e1-las.\u00a0 Multiplicavam-se as colmeias&#8230;<\/p>\n<p>A funda\u00e7\u00e3o que parece ter tocado profundamente seu cora\u00e7\u00e3o\u00a0 foi a de Praga na regi\u00e3o da Bo\u00eamia. Voc\u00ea havia recebido cartas\u00a0 da princesa In\u00eas da Boemia. Esta estava empenhada em descartar o pedido de sua m\u00e3o em casamento por parte do Imperador Frederico II. \u00a0Parece que esse casamento tinha mesmo um certo patroc\u00ednio\u00a0 do Papa. Voc\u00ea, Clara, atrav\u00e9s de suas cartas, \u00a0animou a princesa a se tornar uma\u00a0 irm\u00e3 pobre. Voc\u00ea parecia se identificar com esta mulher inteligente e ardorosa, mais nova do que voc\u00ea uns dez anos.\u00a0 Em suas cartas para ela, voc\u00ea transmitiu o melhor que tinha em seu interior e em seu cora\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea descreveu para ela a pobreza de S\u00e3o\u00a0 Dami\u00e3o e tamb\u00e9m convidou a que ela fosse prudente na quest\u00e3o do jejum.\u00a0 Em Pentecostes de\u00a0 1234, momento em que ela recebeu o h\u00e1bito da penit\u00eancia em Praga,\u00a0 seu cora\u00e7\u00e3o batia t\u00e3o forte em seu peito quanto nos dias daquele Domingo de Ramos\u00a0 por ocasi\u00e3o de sua sa\u00edda da casa paterna.\u00a0 In\u00eas havia conseguido para seu mosteiro em Praga\u00a0 o privil\u00e9gio da pobreza.\u00a0 Provavelmente foi a pedido dela que voc\u00ea colocou por escrito seu prop\u00f3sito de\u00a0 vida em pobreza.<\/p>\n<p><strong>Noturno<\/strong><\/p>\n<p>A disponibilidade\u00a0 para com a generosidade do Senhor \u00e9 o fundamento da vida fraterna: esta foi sempre a sua convic\u00e7\u00e3o.\u00a0 Para solidificar a vida de S\u00e3o Dami\u00e3o era importante um texto inspiracional: a <em>Regra<\/em>.\u00a0 Voc\u00ea n\u00e3o se sentia no direito de deixar as irm\u00e3s num clima de incerteza.\u00a0 Parecia-lhe importante\u00a0 iluminar o horizonte dessas suas estimadas irm\u00e3s.\u00a0\u00a0 Depois de anos em que voc\u00ea comparava todas\u00a0 as regras da vida religiosa, ou seja, a regra de S\u00e3o Bento, a de Hugolino e a do Papa de Inoc\u00eancio IV, foi amadurecendo o projeto que voc\u00ea tinha em mente.\u00a0 O texto da Regra que Frei Francisco havia feito para seus frades estava \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o.\u00a0 Tratava-se agora de adapt\u00e1-lo a um vida est\u00e1vel vivida por mulheres e acrescentar outros t\u00f3picos novos. Assim, como que de um s\u00f3 impulso, voc\u00ea ditou a \u201cforma de vida\u201d.\u00a0 Voc\u00ea transmitia, por assim dizer, as suas entranhas nos cap\u00edtulos da <em>Regra<\/em>. Esta foi como que um poema que\u00a0 flu\u00eda de seus l\u00e1bios, o c\u00e2ntico da vida pobre em fraternidade.<\/p>\n<p>As irm\u00e3s recolheram seu testamento como uma ora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica.\u00a0 Tudo vinha \u00e0 mente com incompar\u00e1vel nitidez: a profecia de Francisco\u00a0 ganhava plena luz.\u00a0 Aquelas palavras meio misteriosas\u00a0 proclamadas aos quatro ventos em S\u00e3o\u00a0 Dami\u00e3o\u00a0 ganhavam sentido e encontravam confirma\u00e7\u00e3o. De toda a eternidade\u00a0 voc\u00ea foi criada, chamada, santificada para viver nesse lugar\u00a0 uma exist\u00eancia reta e\u00a0 luminosa para o louvor do Pai cheio de ternura.\u00a0 Os mosteiros todos, espalhados, em todo o mundo\u00a0 atestam a profecia de Francisco.\u00a0 Irm\u00e3s pobres, voc\u00eas foram escolhidas, reunidas\u00a0 para a alegria da Igreja e a salva\u00e7\u00e3o de seus irm\u00e3os em humanidade.\u00a0 O filme da sua vida passava diante de seus olhos\u00a0 como uma fonte que corre e vai fecundar o universo. Voc\u00ea tinha todas as condi\u00e7\u00f5es de cantar o\u00a0 <em>Magnificat\u00a0<\/em> dos pobres. O olhar do seu Senhor\u00a0 fazia vibrar seu ser ao mesmo tempo despojado e rico.<\/p>\n<p>O dia 11 de agosto chegou como um\u00a0 raio.\u00a0 Frei Le\u00e3o chorava. Frei Jun\u00edpero, no entanto,\u00a0 achou ainda alguma coisa nova para lhe ensinar a respeito do amor do Senhor.\u00a0 Como reconhecimento veio finalmente o sim da Igreja.\u00a0 A\u00a0 \u201cforma de vida\u201d\u00a0 estava aprovada e as suas irm\u00e3s podiam viver o que voc\u00ea n\u00e3o p\u00f4de viver com toda liberdade.\u00a0 O pr\u00f3prio Papa veio visit\u00e1-la\u00a0 como que pedindo perd\u00e3o por ter demorado tanto na aprova\u00e7\u00e3o.\u00a0 Voc\u00ea com um olhar cheio de eloqu\u00eancia pediu o perd\u00e3o sacramental.\u00a0 As irm\u00e3s se perguntavam como poderiam viver sem voc\u00ea. \u00a0Elas tinham raz\u00e3o de se inquietar porque n\u00e3o viveram como voc\u00ea o el\u00e3\u00a0 da sua voca\u00e7\u00e3o na Igreja.\u00a0 Era preciso quase pensar no imposs\u00edvel.\u00a0 Deus sabe que isso n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil todos os dias.<\/p>\n<p>+++<\/p>\n<p>N\u00f3s tamb\u00e9m,\u00a0 Clara, lhe pedimos que permane\u00e7a ao nosso lado no caminho da busca da felicidade, no meio de pedregulhos e da poeira.\u00a0 Leve, voc\u00ea saltou e nos chama a seguir o\u00a0 Cristo pobre e humilde para nossa salva\u00e7\u00e3o.\u00a0 N\u00f3s, no entanto,\u00a0 sentimos medo.\u00a0 Estenda a sua m\u00e3o\u00a0 e n\u00e3o nos largue. Que guardemos em nossa mem\u00f3ria seu projeto de vida pobre.\u00a0 No cora\u00e7\u00e3o da Igreja e para a alegria de todos, como voc\u00ea na delirante espera daquele que vem!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Santa Clara de Assis &#8211; Frei Almir Guimar\u00e3es<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":176272,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[65],"tags":[108],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Clara Viva - Carisma - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/clara-viva.html\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Clara Viva - 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