{"id":8675,"date":"2011-03-01T01:00:49","date_gmt":"2011-03-01T04:00:49","guid":{"rendered":"http:\/\/new.franciscanos.org.br\/?p=8675"},"modified":"2019-08-06T15:37:21","modified_gmt":"2019-08-06T18:37:21","slug":"clara-de-assis-e-suas-irmas-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/clara-de-assis-e-suas-irmas-2.html","title":{"rendered":"Clara de Assis e suas irm\u00e3s"},"content":{"rendered":"<h4><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-175277\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/clara_06.jpg\" alt=\"\" width=\"890\" height=\"777\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/clara_06.jpg 890w, https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/clara_06-450x393.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/clara_06-768x670.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/clara_06-150x131.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 890px) 100vw, 890px\" \/><\/h4>\n<h4>Uma vida para Deus e para os homens, a servi\u00e7o da Igreja<\/h4>\n<p align=\"left\"><strong>Frei Almir Ribeiro Guimar\u00e3es, OFM<\/strong><\/p>\n<p align=\"left\"><em>M\u00eas ap\u00f3s m\u00eas, temos tentado seguir uma biografia de Clara acompanhando o texto de <\/em>Chiara Giovanna Cremaschi<em>, sob o t\u00edtulo de <strong>Chiara di Assisi, Un silenzio che grida<\/strong>. Neste m\u00eas vamos interromper esse labor e fazer uma tradu\u00e7\u00e3o-adapta\u00e7\u00e3o de um escrito de Engelbert Grau, OFM, onde ele tra\u00e7a um bel\u00edssimo perfil dessa mulher que honra o movimento evang\u00e9lico franciscano. Estamos em agosto, m\u00eas em ocorre a festa de Clara. O franciscano alem\u00e3o escreveu suas linhas em 1976 para o boletim semanal do bispado de M\u00fcnster, Alemanha. Temos em m\u00e3os uma tradu\u00e7\u00e3o para o espanhol que apareceu em <\/em>Selecciones de Franciscanismo,<em> n. 18, 1977, p. 240-247. Em setembro continuaremos a biografia escrita por <\/em>Cremaschi<em>.<\/em><\/p>\n<p align=\"left\"><strong>1.<\/strong> Costuma-se citar de um mesmo f\u00f4lego os nomes de Francisco e Clara por serem uma dupla configura\u00e7\u00e3o de uma \u00fanica e id\u00eantica presen\u00e7a nova e din\u00e2mica que a Provid\u00eancia quis suscitar: a vida segundo o Evangelho, segundo a alegre mensagem de Cristo, nosso Senhor e irm\u00e3o, e de Deus, a quem chamamos de <em>Abba Pai<\/em>. Evangelho que Francisco n\u00e3o somente ouviu, n\u00e3o somente conheceu, mas que viveu e reviveu de forma a mais cabal, tanto interior quanto exteriormente. Este tal Evangelho encontra em Clara, por assim dizer, sua configura\u00e7\u00e3o e irradia\u00e7\u00e3o femininas. Destarte, a figura de Clara se torna exemplar para os crist\u00e3os de nossos dias, de modo especial para as mulheres que decidiram seguir Francisco tanto na Segunda quanto na Terceira Ordem.<\/p>\n<div align=\"left\">\n<p><strong>2.<\/strong> Clara nasceu numa casa de nobres de Assis. Desde a inf\u00e2ncia se mostrou uma pessoa interiorizada. Quando tinha dezoito anos, seus familiares quiseram que ela se casasse. Neste momento j\u00e1 tinha ela se encontrado algumas vezes com Francisco, doze anos mais velho do que ela. Havia ouvido sua prega\u00e7\u00e3o e lhe aberto o cora\u00e7\u00e3o. S\u00e3o largamente conhecidos os epis\u00f3dios de sua vida entre a sa\u00edda da casa paterna e sua instala\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Dami\u00e3o. N\u00e3o precisamos aqui evoc\u00e1-los. Anteriormente, j\u00e1 os analisamos <em>per longum et latum<\/em> em textos anteriores.<\/p>\n<p><strong>3.<\/strong> Separada da cidade, no pequeno conventinho de S\u00e3o Dami\u00e3o, Clara esteve ai fechada toda a sua vida numa \u00e1spera pobreza, naqueles espa\u00e7os onde rezava, trabalhava e descansava. Fechada dentro daquelas paredes, ao mesmo tempo era uma claridade que iluminava lugares obscuros. No interior do conventinho, Clara estava longe de ser uma alienada, uma pessoa atrofiada, ou marginalizada. Tem um senso delicado e agu\u00e7ado da beleza. A alva que confeccionara para Francisco \u00e9 uma das pe\u00e7as mais preciosas do bordado medieval. Naquele espa\u00e7o ex\u00edguo onde vive, onde livremente escolheu se \u201cdesterrar\u201d, Clara \u00e9 de uma liberalidade assombrosa e de uma surpreendente amplitude de vis\u00e3o. Para si reserva a austeridade, para as irm\u00e3s a liberalidade. Clara tem a pureza da compaix\u00e3o verdadeira, \u00e9 discreta ao corrigir, moderada nas determina\u00e7\u00f5es e ordens, prefere respeitar a ser respeitada. Ao lado disso, risonha e alegre, \u00e9 mulher de penit\u00eancia excepcional. Ser\u00e1 preciso que Francisco ordene que ela aceite cuidados especiais no tempo da doen\u00e7a. N\u00e3o prejudique a sa\u00fade.<\/p>\n<p><strong>4.<\/strong> Nas poucas cartas que foram conservadas, Clara manifesta uma profundidade madura e nada comum. Poder\u00edamos design\u00e1-la de eleva\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito claramente aristocr\u00e1tica. Sai vencedora pela amabilidade de sua nobreza interior e assombra pela firmeza com que persegue seus objetivos. \u201cUma vez, o Papa Greg\u00f3rio proibiu qualquer frade de ir sem sua licen\u00e7a aos mosteiros das senhoras. A piedosa madre, doendo-se porque ia ser mais raro para as Irm\u00e3s o manjar da doutrina sagrada, gemeu:\u201dTire-nos tamb\u00e9m os outros frades, j\u00e1 que nos privou dos que davam alimento de vida\u201d. E devolveu ao ministro na mesma hora todos os irm\u00e3os, pois n\u00e3o queria esmoleres para buscar o p\u00e3o do corpo, se j\u00e1 n\u00e3o tinha esmoleres para o p\u00e3o do esp\u00edrito. Quando soube disso, o Papa Greg\u00f3rio deixou imediatamente a proibi\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os do ministro geral\u201d (<em>Legenda 37<\/em>). Clara resistiu ao Papa quando este queria persuadi-la a garantir sua subsist\u00eancia e das irm\u00e3s com pequena posse: \u201cSe temes pelo voto, disse o Papa, n\u00f3s te dispensamos do mesmo\u201d. Ao que Clara respondeu: \u201cSant\u00edssimo Padre, de maneira alguma quero ser dispensada do seguimento de Cristo\u201d (<em>Legenda, 14<\/em>).<\/p>\n<p><strong>5.<\/strong> De maneira semelhante a esta autenticidade inquebrant\u00e1vel como pessoa, se mostrou tamb\u00e9m Clara em seu comportamento como mulher. Deixa de ser esposa e m\u00e3e. N\u00e3o o faz por falta de esp\u00edrito de sacrif\u00edcio nem porque seu cora\u00e7\u00e3o ignorasse o que fosse o amor, mas pela f\u00e9, por uma ilumina\u00e7\u00e3o \u00edntima, pelo fogo do cora\u00e7\u00e3o de seu Senhor. Sabe ela que esse amor \u00e9 sem limites. Em sua feminilidade, elevou-se \u00e0s alturas da exemplaridade. Seu primeiro bi\u00f3grafo, no Pr\u00f3logo, afirma: \u201cQue as mulheres imitem Clara, vest\u00edgio da m\u00e3e de Deus e nova guia das mulheres!\u201d<\/p>\n<p><strong>6.<\/strong> Clara \u00e9 toda mulher em sua sensibilidade para com os homens, para com tudo aquilo que a comove interna ou externamente, enchendo-a de tristeza ou de alegria. Acolhe a todos e cada um com profunda rever\u00eancia e tudo em suas m\u00e3os se resolve miraculosamente. Com esta rever\u00eancia acolhe todos os homens, sua individualidade particular, sua consci\u00eancia, suas fragilidades e sua gra\u00e7a. Deixou que lhe chamassem de abadessa, segundo as prescri\u00e7\u00f5es eclesi\u00e1sticas. Ela mesma se designa de \u201chumilde e indigna serva e servidora\u201d. Assim se designa e assim \u00e9. O que sabe e quer: amar servindo e mandar amando. Sua feminilidade se consuma num amor verdadeiramente materno e criador. Refugia-se na solid\u00e3o, retira-se do mundo e \u00e9 como se esse mundo se sentisse atra\u00eddo na sua dire\u00e7\u00e3o. Como a borboleta errante aspira pela luz, assim as pessoas se sentem atra\u00eddas por ela. Procuram-na carregadas de dificuldades e cheias de preocupa\u00e7\u00f5es. Muitos s\u00e3o curados de enfermidades simplesmente quando Clara tra\u00e7a em suas frontes o sinal da cruz. As pessoas procuram sua sabedoria, suas orienta\u00e7\u00f5es e instru\u00e7\u00f5es. Parece verdadeiramente emblem\u00e1tico que quando a cidade \u00e9 atacada por b\u00e1rbaros estes venham a ser derrotados, n\u00e3o pelas armas ou muralhas, mas pela f\u00e9, pela grandeza de uma mulher indefesa, uma Clara que reza na solid\u00e3o. Clara \u00e9 uma torre de paz, como uma rocha, contra a qual as ondas quebram. (<em>Legenda 21-23<\/em>).<\/p>\n<p><strong>7<\/strong><strong>.<\/strong> Foi no sil\u00eancio da solid\u00e3o que Francisco colheu toda a for\u00e7a para transformar o ambiente em que vivia, sobretudo um mundo que n\u00e3o tinha mais a harmonia com Deus. Sempre que estava a caminho para pregar a penit\u00eancia, para proclamar o Reino de Deus e sua paz tinha sempre saudade da voca\u00e7\u00e3o \u00e0 solid\u00e3o. Certa vez, envolto por esta saudade do recolhimento, pediu que Clara \u201cconversasse\u201d com Deus para saber se seu caminho era o da contempla\u00e7\u00e3o retirada do trabalho no mundo. Clara fez saber a Francisco que esta n\u00e3o era a vontade de Deus. Francisco deveria anunciar o esp\u00edrito e a riqueza vital do sil\u00eancio; ela com suas irm\u00e3s guardariam o sil\u00eancio.<\/p>\n<p><strong>8.<\/strong> Clara sabia muito bem, quando ingressou no sil\u00eancio t\u00e3o sombrio e nada rom\u00e2ntico de S\u00e3o Dami\u00e3o, que n\u00e3o se tratava de ganhar algo, mas tudo. Penetrou naquele sil\u00eancio porque buscava a proximidade com Deus. Deus n\u00e3o est\u00e1 no estr\u00e9pito, nem no ru\u00eddo (<em>cf 1Reis 19,11ss<\/em>). Ele ama o sil\u00eancio, a calma atrav\u00e9s dos quais se pode penetrar num mundo todo diferente. \u00c9 o mesmo que acontece com os vitrais e suas cores. Vistos de fora parecem sem vida e escuros. Visto do interior, se iluminam e revelam um colorido e riqueza insuspeitados. De maneira semelhante, nesses muros e nessas paredes desnudas e insens\u00edveis de S\u00e3o Dami\u00e3o se descobre todo um \u201cmundo\u201d. O mundo que est\u00e1 fora \u00e9 tamb\u00e9m cria\u00e7\u00e3o de Deus, \u00e9 verdade: a beleza da paisagem umbra com suas linhas suaves que flutuam e suas cores discretas. Clara, como Francisco, guarda um olhar l\u00facido e embelezador diante de tal cen\u00e1rio. Mas, dentro, no interior de S\u00e3o Dami\u00e3o, est\u00e1 o mundo de Deus que n\u00e3o se pode comparar com tudo o que oferece a cria\u00e7\u00e3o. Ali dentro h\u00e1 outro mundo, o mundo imediato de Deus. Dentro h\u00e1 imutabilidade e imortalidade, h\u00e1 verdade, esp\u00edrito e vida. Clara foi muito exigente, como s\u00f3 pode ser um grande cora\u00e7\u00e3o quando se entregou incondicionalmente a esse mundo interior e silencioso. No interior de S\u00e3o Dami\u00e3o ocorre algo curioso que n\u00e3o se costuma levar suficientemente em conta e que talvez n\u00e3o se queira compreender: Sobre este mosteiro das irm\u00e3s de S\u00e3o Dami\u00e3o, fechado, aparentemente alheio com rela\u00e7\u00e3o ao mundo e \u00e0 vida, parece que est\u00e1 aberto o c\u00e9u; sobre esta parcela da terra, o c\u00e9u de Deus, sua gra\u00e7a, sua fidelidade, sua longanimidade e sua miseric\u00f3rdia. No sil\u00eancio desta casa sopra aquela brisa ligeira (<em>cf. Reis 19,12<\/em>) que anuncia a proximidade de Deus. Na tranq\u00fcilidade de S\u00e3o Dami\u00e3o, Clara cria um espa\u00e7o de eternidade com suas irm\u00e3s no meio do mundo e para o mundo, um lugar de paz de Deus e de sua salva\u00e7\u00e3o. Num tecido enfermi\u00e7o que desliza para a corrup\u00e7\u00e3o, Clara preserva uma c\u00e9lula que \u00e9 sadia e atua sanando.<\/p>\n<p><strong>9.<\/strong> Se falamos de uma enfermidade que afeta o mundo, referimo-nos \u00e0 agita\u00e7\u00e3o, estr\u00e9pito, desassossego sem motivo, procedimentos ruidosos. Diante deste mundo est\u00e1 Clara, calada, mas exortando e orientando. Clara est\u00e1 a dizer que existe um outro mundo, mundo da tranq\u00fcilidade silenciosa, de uma quietude cheia de Deus e com Deus, essa possibilidade de calar e de escutar. Quando o homem est\u00e1 envolto em seu ru\u00eddo, n\u00e3o se d\u00e1 conta que Deus faz mais ru\u00eddo para se fazer ouvir. Experimentar\u00e1 que Deus escondido se esconder\u00e1 mais ainda, que seu sil\u00eancio \u00e9 como dist\u00e2ncia que n\u00e3o pode ser vencida, que seu pr\u00f3prio desassossego se coloca diante de um enigma em que Deus e mais e mais se distancia. Quem n\u00e3o \u00e9 capaz de se calar, vive um aturdimento e est\u00e1 impedido de rezar, porque o n\u00facleo do sil\u00eancio \u00e9 precisamente o que se torna ora\u00e7\u00e3o poss\u00edvel em n\u00f3s. Clara esconde toda sua vida no envolvimento do sil\u00eancio porque o que contava para ela era encontrar na ora\u00e7\u00e3o aquela manifesta\u00e7\u00e3o primordial da vida, o impulso origin\u00e1rio do amor que leva a Deus. A raz\u00e3o disto \u00e9 que Clara aspira \u00e0 intimidade e \u00e0 uni\u00e3o com seu Senhor. Por isso, a ora\u00e7\u00e3o \u00e9 cora\u00e7\u00e3o de seu sil\u00eancio.<\/p>\n<p><strong>10.<\/strong> Clara vive mais de quarenta anos no retiro silencioso. Durante um bom momento, depois das Completas, continua orando com suas irm\u00e3s. Enquanto estas se retiram para descansas, ela permanece em ora\u00e7\u00e3o (<em>Legenda 19<\/em>). Freq\u00fcentemente, Clara se levantava antes das irm\u00e3s para acender as lamparinas.<\/p>\n<p><strong>11.<\/strong> O trabalho tamb\u00e9m faz parte da jornada das irm\u00e3s. A esse respeito Clara exorta expressamente na Regra: \u201cAs irm\u00e3s a quem o Senhor deu a gra\u00e7a de trabalhar com fidelidade e devo\u00e7\u00e3o, depois da hora de Ter\u00e7a, em um trabalho que seja conveniente \u00e0 honestidade e ao bem comum, de modo que afastando o \u00f3cio, inimigo da alma, n\u00e3o extingam o esp\u00edrito da santa ora\u00e7\u00e3o e devo\u00e7\u00e3o, ao qual outras coisas temporais devem servir (Cap.VII). Por isso, Clara quando estava enferma, se fazia recostar em almofadas, para poder costurar. O trabalho tamb\u00e9m ser\u00e1 como que envolvido pela ora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se pode perder o esp\u00edrito da santa ora\u00e7\u00e3o e da devo\u00e7\u00e3o. Depois que as irm\u00e3s iam descansar, Clara ainda permanecia em ora\u00e7\u00e3o. Celano, citando J\u00f3, afirma que Clara, permanecendo em ora\u00e7\u00e3o, queria perceber furtivamente o sussurro divino (<em>Legenda 19<\/em>).<\/p>\n<p><strong>12.<\/strong> Uma das caracter\u00edsticas mais significativas de Clara e de suas irm\u00e3s \u00e9 a pobreza estrita: precisamente neste ponto Clara compreendeu perfeitamente a Francisco. Diante dos olhos de Clara est\u00e1 o Evangelho. E o Evangelho proclama, uma p\u00e1gina atr\u00e1s da outra, a gra\u00e7a e a verdade de Jesus Cristo que repousa no seio do Pai, que se fez homem e viveu entre n\u00f3s. Por meio do Evangelho, Clara se encontra com o Filho de Deus vivo e ele encontra a ela n\u00e3o na grandeza que oprime nem no esplendor que nos torna insens\u00edveis, mas na pobreza e na humildade.<\/p>\n<p><strong>13<\/strong><strong>.<\/strong> Clara, como Francisco, aprendeu do Senhor esta pobreza e humildade. A maneira rigorosa como Clara pratica a pobreza n\u00e3o \u00e9 ren\u00fancia pela ren\u00fancia: sua pobreza e sua ren\u00fancia a toda propriedade s\u00e3o a proclama\u00e7\u00e3o e a express\u00e3o de uma depend\u00eancia absoluta de Deus, de uma entrega total e incondicional a ele. Sua pobreza n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o confian\u00e7a radical em Deus, em sua fidelidade e em seu amor. A pobreza, tal como Clara concebe e como a vive com suas irm\u00e3s, \u00e9 ren\u00fancia incondicional a toda garantia natural e humana, uma renuncia mediante a qual, crendo e amando, desafia a onipot\u00eancia misericordiosa de Deus. Sua \u201calt\u00edssima pobreza\u201d como ela a designa da mesma forma de Francisco \u00e9 a esperan\u00e7a perfeitamente entendida e vivida, \u00e9 confiss\u00e3o cabal e sem reservas de que o ser humano \u00e9 criatura e como conseq\u00fc\u00eancia desta confiss\u00e3o, \u00e9 entrega sem limites ao Criador e Senhor. Uma vida em tal tipo de pobreza se converte na concreta e maravilhosa realiza\u00e7\u00e3o das palavras do Senhor: \u201cBuscai primeiro o Reino de Deus e sua justi\u00e7a e tudo o mais vos ser\u00e1 dado em acr\u00e9scimo\u201d ( Mt 6, 33).<\/p>\n<p><strong>14<\/strong><strong>.<\/strong> Brotando do ser pobre genu\u00edno de todo homem interior, cresce em Clara aquela atitude de humildade que prov\u00e9m do fato de considerar que o homem \u00e9 criatura, e como tal, pobre. Somente assim pode a criatura permanecer ante o seu Senhor. Este ser pobre foi a forma e a lei do ser crist\u00e3o de Clara, servir com toda rever\u00eancia e tomar a s\u00e9rio o outro homem, porque Deus o leva a s\u00e9rio. Amar com a entrega total de si mesma e ser totalamente sincera neste amor. Ser t\u00e3o firme neste amor que nada possa causar dor.<\/p>\n<p><strong>15<\/strong><strong>.<\/strong> Por mais dura, pesada e isenta de todo romantismo que tenha sido esta vida de Santa Clara e de suas irm\u00e3s, nada tinha de sombria. N\u00e3o se esvai em tristeza e descontentamento. Pelo contr\u00e1rio, fazia nascer alegria do homem redimido que pode ser \u201ccolaborador\u201d de Deus na obra da reden\u00e7\u00e3o (<em>Carta III,2<\/em>). Tamb\u00e9m aqui Clara compreendeu cabalmente o pai espiritual, S\u00e3o Francisco, penetrando cada vez mais no segredo da perfeita alegria. Tal alegria alcan\u00e7ou sua express\u00e3o mais cabal da morte da santa. Durante dezessete dias, Clara n\u00e3o pode tomar alimento algum. Encontrava-se, no entanto, t\u00e3o forte que podia confortar em seu servi\u00e7o a todos os que chegavam at\u00e9 ela e despedi-los consolados. Nas \u00faltimas horas de sua vida, absorta em Deus, se podia ouvir: \u201cV\u00e1 segura que voc\u00ea tem uma boa escolta para o caminho. V\u00e1, porque aquele que a criou tamb\u00e9m a santificou; e guardando sempre como uma m\u00e3e guarda o filho, amou-a com terno amor. E bendito sejais v\u00f3s, Senhor, que me criaste\u201d <em>(Legenda , 46<\/em>).<\/p>\n<p><strong>16<\/strong><strong>.<\/strong> Estas s\u00e3o as palavras de Clara moribunda. Diz isso depois de ter levado uma vida distante de toda acomoda\u00e7\u00e3o ao esp\u00edrito do mundo. Diz isso depois de ter renunciado a tudo que pudesse massagear seu ego\u00edsmo, e a todo humana pretens\u00e3o, depois de uma vida de sofrimento e enfermidades. Ali, em S\u00e3o Dami\u00e3o, onde Clara viveu, podemos ainda v\u00ea-la e compreend\u00ea-la hoje. A casa, acanhada e desnuda, o coro onde as irm\u00e3s rezavam e sem ornamenta\u00e7\u00e3o , a sala onde comiam, com mesas r\u00fasticas e piso gasto, a outra sala onde dormiam debaixo do madeirame do texto E como se isto n\u00e3o bastasse Clara usa uma saia de penit\u00eancia confeccionada por ela mesma. Seu alimento era p\u00e3o e \u00e1gua. Dormia sobre o ch\u00e3o duro e algumas vezes sobre galhos secos. Como apoio para a cabe\u00e7a tinha uma peda\u00e7o de madeira. E esta Clara, na presen\u00e7a da morte, tendo um semblante sorridente, se encontra com estas palavras nos l\u00e1bios: \u201cBendito sejas, Senhor, por haveres criado!\u201d<\/p>\n<p><strong>17.<\/strong> Gostaria de terminar estas reflex\u00f5es com palavras de Andr\u00e9 Vauchez, um grande medievalista e profundo conhecedor do movimento franciscano. \u201cClara n\u00e3o reivindicou para si e suas irm\u00e3s o direito de pregar ou ensinar, mas desejava ardentemente continuar vivendo em simbiose com os irm\u00e3os menores e rejeitava com veem\u00eancia ver sua comunidade transformada num mosteiro de virgens fechadas e dotadas de rendas. Mesmo tendo aceito o estilo de vida semelhante \u00e0 reclusas, conservavam contato com o mundo que as rodeava. Foi intransigente na quest\u00e3o da pobreza, porque o fato de viver numa precariedade permanente constitu\u00eda o ponto sobre o qual sua funda\u00e7\u00e3o podia, diferenciando-se do monaquismo beneditino, permanecer fiel ao esp\u00edrito do Pobrezinho e, atrav\u00e9s dele, \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es evang\u00e9licas que haviam animado os movimentos laicos dos s\u00e9culos XII e come\u00e7os do s\u00e9culo XII\u201d.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Santa Clara de Assis &#8211; Frei Almir Guimar\u00e3es<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":176215,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[65],"tags":[108],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Clara de Assis e suas irm\u00e3s - Carisma - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/clara-de-assis-e-suas-irmas-2.html\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Clara de Assis e suas irm\u00e3s - 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