{"id":79797,"date":"2014-12-18T09:22:49","date_gmt":"2014-12-18T11:22:49","guid":{"rendered":"http:\/\/franciscanos.org.br\/?p=79797"},"modified":"2014-12-18T09:22:49","modified_gmt":"2014-12-18T11:22:49","slug":"irmaos-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/irmaos-ii.html","title":{"rendered":"Irm\u00e3os (II)"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/irmaos1.jpg\" alt=\"irmaos\" width=\"820\" height=\"583\" \/><\/p>\n<p><em>Nesta rubrica que leva o t\u00edtulo de Franciscanamente , em novembro passado come\u00e7amos uma s\u00e9rie de reflex\u00f5es sobre os grandes valores da espiritualidade evang\u00e9lico-franciscana. Abordamos ent\u00e3o o tema do irm\u00e3o. Neste m\u00eas de dezembro continuamos as reflex\u00f5es sobre a mesmo valor fundamental da vida franciscana que \u00e9 a fraternidade, tema inesgot\u00e1vel, porque Deus se fez nosso irm\u00e3o e Francisco resolver seu o Irm\u00e3o Franciscano, simplesmente Frei Francisco. Advertimos que este texto est\u00e1 praticamente pautado nas reflex\u00f5es pertinentes de Michel Hubaut, franciscano franc\u00eas, em seu Chemins d\u2019int\u00e9riorit\u00e9 avec saint Fran\u00e7ois (\u00c9ditions Franciscaines, Paris, 2012, p. 66-80<\/em><\/p>\n<p><strong>1. A fraternidade \u00e9 um dom do Esp\u00edrito Santo<\/strong> &#8211; Quando o Poverello come\u00e7ou sua aventura espiritual n\u00e3o pensou em fundar nem uma fraternidade, nem uma ordem. Tudo come\u00e7ou com um desejo de se converter ao Evangelho. Esse per\u00edodo de transforma\u00e7\u00e3o realizou-se, de modo particular, entre 1202 e 1208. Nessa ocasi\u00e3o alguns homens de Assis manifestaram a vontade de \u201cpartilhar o g\u00eanero de vida\u201d de Francisco. O Poverello nunca esquecer\u00e1 desse fato: \u201cDepois que o Senhor me deu irm\u00e3os, ningu\u00e9m me mostrou o que eu devia fazer, mas o Alt\u00edssimo mesmo me revelou que eu devia viver segundo a forma do santo Evangelho\u201d (Test 14). Os irm\u00e3os constituem um dom do Senhor a serem acolhidos na f\u00e9. A fraternidade evang\u00e9lica n\u00e3o \u00e9, em primeiro lugar, um dado sociol\u00f3gico. O Esp\u00edrito inspira homens de diversos horizontes a se unirem para viverem o Evangelho como irm\u00e3os. A voca\u00e7\u00e3o de todo homem, a fortiori a do crist\u00e3o, n\u00e3o se realiza a n\u00e3o ser na e pela fraternidade. A pr\u00f3pria Igreja n\u00e3o pode ser outra coisa sen\u00e3o um esbo\u00e7o prof\u00e9tico da fraternidade universal, laborat\u00f3rio do amor filial e fraterno. A fraternidade \u00e9 o lugar privilegiado de nossa convers\u00e3o e de nosso encontro com Deus.<\/p>\n<p><strong>2. Tornar-se o \u201cpr\u00f3ximo\u201d de todo homem<\/strong> &#8211; A fraternidade, o amor vivido nos relacionamentos \u00e9 o \u00fanico caminho que se abre para a verdadeira vida, para uma vida que seja eterna. \u00c0 pergunta do doutor da Lei que o interroga a respeito do que \u00e9 preciso fazer para ter a \u201cvida eterna\u201d, Jesus responde: \u201cO que est\u00e1 escrito na Lei? Como \u00e9 que tu l\u00eas?\u201d E ele respondeu: Amar\u00e1s o Senhor teu Deus de todo o cora\u00e7\u00e3o, com toda a tua alma, com todas as for\u00e7as e com toda a tua mente e o pr\u00f3ximo como a ti mesmo. Jesus ent\u00e3o lhe disse: Respondeste bem. Faze isso e viver\u00e1s\u201d (Lc 10, 25-28). Na par\u00e1bola do bom samaritano v\u00ea-se claramente que o sacerdote e o levita ficaram preocupados com a realiza\u00e7\u00e3o da lei e esqueceram de se dobrar sobre um ser jogado \u00e0 beira do caminho. N\u00e3o foram irm\u00e3os. O samaritano \u00e9 figura de um Deus que se emociona de compaix\u00e3o pelo homem ferido, aproxima-se dele pela encarna\u00e7\u00e3o de seu Filho. Faz-se pr\u00f3ximo do homem para leva-lo ao albergue do Reino. Nisto contemplamos o mist\u00e9rio da fraternidade que vai muito al\u00e9m da simples solidariedade.<\/p>\n<p><strong>3. Viver como irm\u00e3os precisa ser uma Boa Nova em atos, uma a\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica para todos os homens.<\/strong> A primeira miss\u00e3o dos irm\u00e3os de Cristo \u00e9 construir a fraternidade universal. Este \u00e9 o maior desafio lan\u00e7ado aos crist\u00e3os de hoje, mundo marcado pela indiferen\u00e7a e por manifesta\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia que atestam um desrespeito pelo outro. Toda comunidade crist\u00e3 precisa tender a se tornar um lugar onde todo e qualquer homem possa se descobrir irm\u00e3o, onde cada um, pecador ou mal amado, rico ou exclu\u00eddo seja acolhido com respeito pelo que ele \u00e9 e n\u00e3o por seus t\u00edtulos e poderes. Todo grupo crist\u00e3o precisa ser um esbo\u00e7o modesto mas real do Reino de Deus. Atrav\u00e9s da qualidade de nossos relacionamentos \u00e9 um pouco deste Reino que emerge lentamente nas trevas do mundo. Os primeiros crist\u00e3os impactaram. As pessoas diziam: \u201cVede como eles se amam!\u201d A evangeliza\u00e7\u00e3o \u00e9 antes de tudo cont\u00e1gio de amor. Os la\u00e7os de amor vividos em nossas fraternidades deveriam ser de tal monta que as pessoas pudessem dizer: O amor se aproximou de n\u00f3s ( cf. Hubaut, p. 70-71).<\/p>\n<p><strong>4. Da domina\u00e7\u00e3o ao servi\u00e7o<\/strong> &#8211; Um dos termos chaves da espiritualidade de Francisco \u00e9 servir. A palavra servir aparece mais de cinquenta vezes nos seus escritos e servo mais de vinte vezes. \u201cNenhum irm\u00e3o exer\u00e7a uma posi\u00e7\u00e3o ou cargo de mando, e muito menos entre os pr\u00f3prios irm\u00e3os. Pois, como diz o Senhor no Evangelho: \u201cOs pr\u00edncipes das na\u00e7\u00f5es as subjugam e os grandes imperam sobre elas\u201d, assim n\u00e3o deve ser entre os irm\u00e3os, mas antes: Aquele que quiser ser o maior entre eles seja o ministro\u201d (Mt 20, 26-27) e o servo deles, e quem for o maior entre eles fa\u00e7a-se o menor (cf. Lc 22, 26). E nenhum irm\u00e3o trate mal a um outro nem fale mal dele. Antes sirvam e obede\u00e7am de bom grado uns aos outros na caridade do Esp\u00edrito\u201d (RNB 5, 12-17). \u201c E nesse g\u00eanero de vida ningu\u00e9m seja chamado de prior, mas todos sejam designados indistintamente de \u201cfrades menores\u201d. Assim o pensamento de Francisco.<\/p>\n<p><strong>5. Francisco foi algu\u00e9m profundamente marcado pela cena do lava-p\u00e9s.<\/strong> O Mestre e Senhor ocupa-se de servi\u00e7os humildes em prol dos homens. Serve desinteressadamente. Assim, a fraternidade tem essa fort\u00edssima conota\u00e7\u00e3o de um servi\u00e7o e \u00e9 prejudicada por toda postura de domina\u00e7\u00e3o. A experi\u00eancia de Francisco como l\u00edder da juventude de Assis fez com que ele compreendesse que as rela\u00e7\u00f5es humanas s\u00e3o muitas vezes comandadas pela dial\u00e9tica do mestre e do escravo, do forte e do fraco, do superior e do inferior. Todo homem possui em si essa tend\u00eancia para o poder. Ser o maior, o mais inteligente, o mais brilhante, o mais forte, o primeiro. Tal reflexo est\u00e1 inscrito na natureza do homem. Francisco compreende que essa necessidade fundamental de se afirmar torna-se perversa quando \u00e9 desejo de domina\u00e7\u00e3o e de apropria\u00e7\u00e3o. Nossa sociedade de competi\u00e7\u00e3o est\u00e1 muito mais equipada para os jovens lobos e aos superdotados do que aos fracos que s\u00e3o impiedosamente marginalizados. Francisco se dera conta que no seio da sociedade medieval onde os burgueses, os poderosos conquistaram o poder, sem levar em considera\u00e7\u00e3o os \u201cminores\u201d, aquelas camadas sociais mais desfavorecidas, incapazes de terem parte no novo poder comunal e nas novas riquezas;. Os evangelhos nos dizem que os ap\u00f3stolos, mesmo instru\u00eddos por Jesus, discutiam a respeito de quem seria o maior entre eles.<\/p>\n<p><strong>6. Francisco quer construir uma fraternidade por sobre uma mentalidade diferente daquela do desejo de domina\u00e7\u00e3o, mas baseada na vontade do servi\u00e7o.<\/strong> Converter-se \u00e0 fraternidade \u00e9 passar pouco a pouco da atitude de dominador que existe em cada um de n\u00f3s \u00e0 do servo dos irm\u00e3os: \u201cNenhum irm\u00e3os onde quer que esteja para servir ou trabalhar para outrem, jamais seja capataz, nem administrador, nem exer\u00e7a cargo de dire\u00e7\u00e3o na casa em que serve, nem aceite emprego que possa causar esc\u00e2ndalo ou perder a alma. Em vez disso sejam os menores e submissos a todos os que moram na mesma casa\u201d (RNB 7, 1-3). Francisco far\u00e1 do servi\u00e7o m\u00fatuo, vivido no espirito do minorismo, da igualdade, simplicidade e humildade, um dos fundamentos da fraternidade. \u201cE onde quer que estejam irm\u00e3os que sabem e reconhecem n\u00e3o poderem observar a Regra espiritualmente, devem e podem recorrer a seus ministros. O ministros, por\u00e9m, caridosa e benignamente os recebam e os tratem com tanta familiaridade, que os irm\u00e3os possam falar e haver-se com eles como senhores para com seus servos; pois assim deve ser que os ministros sejam servos de todos os irm\u00e3os\u201d (RB 10, 5-6).<\/p>\n<p><strong>7. Atentos \u00e0s necessidades dos outros<\/strong> &#8211; Tornar-se irm\u00e3o \u00e9 aprender a estar \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o e servi\u00e7o dos outros. Para tanto ser\u00e1 fundamental prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s suas necessidades. Sup\u00f5e proximidade f\u00edsica e interior. S\u00f3 existe fraternidade quando as pessoas pode dar e receber em toda confian\u00e7a. O cora\u00e7\u00e3o da vida fraterna \u00e9 precisamente esse dar e receber: \u201cE onde quer que estiverem e se encontrarem os irm\u00e3os, mostrem-se af\u00e1veis entre si. E, com confian\u00e7a, manifeste um ao outro as suas necessidades, porque se uma m\u00e3e nutre seu filho carnal, com quanto maior dilig\u00eancia n\u00e3o deve cada um amar e nutrir seu irm\u00e3o espiritual? E se algum deles cair doente, os outros irm\u00e3os, o devem servir, como gostariam de ser servidos\u201d (RB 6, 7-9). N\u00e3o \u00e9 mero acaso que, neste mesmo cap\u00edtulo, Francisco fale de pobreza e rela\u00e7\u00f5es fraternas. Pobre \u00e9 algu\u00e9m que vive na necessidade. Cada um de n\u00f3s \u00e9 pobre de alguma coisa. Para vir em socorro de nossas necessidades Deus nos d\u00e1 irm\u00e3os e irm\u00e3s. Deus cuida de n\u00f3s atrav\u00e9s de Deus. Eles s\u00e3o para n\u00f3s express\u00f5es da provid\u00eancia de Deus. O homem satisfeito consigo mesmo nunca ser\u00e1 um irm\u00e3o. \u201cA fraternidade sup\u00f5e homens e mulheres que, ao mesmo tempo, d\u00e3o e recebem. Se no seio de um casal, numa comunidade, numa vida coletiva local, nacional ou internacional, s\u00e3o sempre os mesmos que d\u00e3o e mesmos os que recebem n\u00e3o h\u00e1 fraternidade. O paternalismo gera sempre seres infantilizados ou assistidos e n\u00e3o irm\u00e3os e irm\u00e3s. Francisco se deu conta da complexidade dos relacionamentos humanos. Eles ser\u00e3o somente criativos na medida em que se derem trocas respeitosas, reciprocidade vital e se ajudam o outro a ser ele mesmo\u201d (Hubaut, p. 79). Francisco recorre \u00e0 imagem da m\u00e3e para caracterizar os relacionamentos fraternos: evoca esse relacionamento vigilante, intuitivo da m\u00e3e para com os filhos. N\u00e3o se trata de dar por dar mas dar a partir da fonte do amor. A qualidade dos relacionamentos pessoais entre as pessoas \u00e9 o verdadeiro indicador de que existe uma vida interior em que cada frade e em casa pessoa.<\/p>\n<p><strong>Frei Almir Guimar\u00e3es<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Franciscanamente<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":174696,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11],"tags":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Irm\u00e3os (II) - Carisma - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/irmaos-ii.html\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Irm\u00e3os (II) - 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