{"id":176995,"date":"2018-02-07T11:44:59","date_gmt":"2018-02-07T13:44:59","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/?p=176995"},"modified":"2020-06-25T12:05:17","modified_gmt":"2020-06-25T15:05:17","slug":"santa-coleta-de-corbie-em-retiro-e-em-relacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/santa-coleta-de-corbie-em-retiro-e-em-relacao.html","title":{"rendered":"Santa Coleta de Corbie: em retiro e em rela\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em> <img loading=\"lazy\" class=\"alignright size-full wp-image-150815\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/coleta_070218_500.jpg\" alt=\"coleta_070218_500\" width=\"500\" height=\"715\" \/>221, editada pelos Franciscanos de Paris, publicou artigo sobre Santa Coleta, clarissa, reformadora, nascida em Corbie. Dif\u00edcil traduzir adequadamente o t\u00edtulo do texto em franc\u00eas (En retraite et en r\u00e9seau&#8230; Saint Colette). A reformadora do s\u00e9culo XV vivia pelas estradas, mantendo incont\u00e1veis relacionamentos e, ao mesmo tempo, era a mulher do retiro, do recolhimento, ou seja, vivia em retiro e em rela\u00e7\u00e3o. Apresentamos uma tradu\u00e7\u00e3o do texto, com m\u00ednimas modifica\u00e7\u00f5es aqui e ali. O texto \u00e9 de autoria da Irm\u00e3 Marie-Colette, OSC.<\/em><br \/>\n<strong>Frei Almir Ribeiro Guimar\u00e3es, OFM<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p>Coleta nasceu em Corbie, perto de Amiens, na Fran\u00e7a, e desde o seu nascimento foi marcada pelo c\u00e9u. Era o tempo do grande cisma do Ocidente e o governo da Igreja era disputado por tr\u00eas papas, um em Roma, outro em Avignon e um terceiro em Pisa. A Fran\u00e7a, como a Espanha e a Esc\u00f3cia, prestou juramento de fidelidade ao papa de Avignon, Pedro de Luna, (Bento XIII), Coleta se dirige a Avignon para comunicar ao papa a miss\u00e3o que havia recebido. Bento XIII, muito impressionado com esta religiosa de 25 anos, coloca-lhe o v\u00e9u e lhe d\u00e1 o cord\u00e3o e a nomeia superiora de todos os conventos que ela fundaria ou reformaria. Vemo-la em Besan\u00e7on, Auxonne, Gand, Poligny, Amiens, etc. \u00c9 tida como vision\u00e1ria, fan\u00e1tica, louca.<\/p>\n<p>Deus, no entanto, vai semeando milagres ao longo seus passos e conseguiu que as clarissas voltassem ao vigor de sua regra primitiva na Fran\u00e7a, na Espanha, no pa\u00eds de Flandres e na Savoia. Funda 17 conventos. Ajuda tamb\u00e9m S\u00e3o Vicente Ferrer a resolver o cisma papal. Morre em Gand (B\u00e9lgica) a 6 de mar\u00e7o de 1447. Seu culto se desenvolve sobretudo depois da peste de Gand. Suas rel\u00edquias foram transferidas para as clarissas de Poligny (Departamento de Jura, na Fran\u00e7a) num convento fundado por ela mesma.<\/p>\n<p>Soeur Marie-Colette, autora deste texto, Clarissa de Nice-Cimiez, \u00e9 historiadora da Ordem de Santa Clara e entusiasmada especialista de Colette \u201ca mendiga, cor de poeira\u201d, como a designava Paul Claudel.<\/p>\n<p>\u201cRetiro\u201d e \u201crela\u00e7\u00e3o\u201d: s\u00e3o dois termos aparentemente contradit\u00f3rios, mas ambos se encaixam bem na figura de Santa Coleta, desde que os definamos de maneira bastante ampla. \u201cRetiro\u201d (retrait, em franc\u00eas), n\u00e3o como fechamento, mas como dist\u00e2ncia que protege uma intimidade, sem isolar e \u201crela\u00e7\u00e3o\u201d (r\u00e9seau) como um conjunto de relacionamentos que coloca a pessoa em contato com diferentes espa\u00e7os de vida e com uma finalidade bem demarcada. Duas imagens se me imp\u00f5em: a de uma reclusa dentro de muros de um mosteiro e de seus aposentos acanhados e a imagem, talvez um pouco ins\u00f3lita, com seu amplo chap\u00e9u percorrendo as estradas da Fran\u00e7a. Chegam-me \u00e0 mente tamb\u00e9m passagem de um belo poema de juventude de Paul Claudel que v\u00ea \u201cessa mendiga de cor de poeira caminhando por ladeiras empinadas e pedregosas, seguida por quatro ou cinco mulheres ou camponeses em fileira, a primeira montada num burrico que olha para Deus\u201d.<\/p>\n<p>Coleta tinha o desejo de permanecer junto a Deus na ora\u00e7\u00e3o e, ao mesmo tempo, se lan\u00e7ava atrav\u00e9s das estradas em vista de uma miss\u00e3o que manifestamente a ultrapassava: a reforma da Ordem. Desenvolvia intensa atividade e, ao mesmo tempo, respondia a um apelo fort\u00edssimo e imperioso de dedicar-se somente a Deus. Gra\u00e7as a seu not\u00e1vel equil\u00edbrio n\u00e3o parecia um ser dilacerado. Mas afinal de contas, quem era ela na realidade?<\/p>\n<p>Coleta nasceu em Corbie, na regi\u00e3o da Picardia, na Fran\u00e7a em 1381, no lar de um modesto artes\u00e3o carpinteiro. Seu nome era Nicolette Boillet, nome que recebeu em homenagem ou agradecimento a S\u00e3o Nicolau j\u00e1 que tinha nascido de pais com idade avan\u00e7ada. Os pais tinham a convic\u00e7\u00e3o de que a menina era fruto de pedido que haviam endere\u00e7ado a S\u00e3o Nicolau. Passou a ser conhecida pelo apelido de \u201cColette\u201d. Sua cidade, na verdade, vivia \u00e0 sombra da vener\u00e1vel abadia de S\u00e3o Pedro e desde sua mais tenra inf\u00e2ncia Coleta, fascinada pela ora\u00e7\u00e3o dos monges, escapava de casa para escut\u00e1-los cantar. Seus bi\u00f3grafos s\u00e3o un\u00e2nimes em registrar, desde sua inf\u00e2ncia, seu gosto pelo recolhimento. Distanciava-se das brincadeiras das crian\u00e7as de sua idade e se escondia na parte mais retirada da casa, para rezar em segredo.<\/p>\n<p>Bem rapidamente revelou-se sua forte personalidade. Ainda adolescente, reunia mulheres da vizinhan\u00e7a, escreve Irm\u00e3 Perrine, para lhes falar \u201cdo perfeito amor de Deus, da profunda humildade de nosso Senhor Jesus Cristo, de sua amar\u00edssima morte e de sua Paix\u00e3o e de como \u00e9 necess\u00e1rio servi-lo diligente e fervorosamente\u201d&#8230; Estas exorta\u00e7\u00f5es n\u00e3o duraram muito tempo, mas continham em germe dois movimentos: vida recolhida e vida em rela\u00e7\u00e3o, sede de Cristo e ardor em transmitir aos outros o que recebia na ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Na busca de sua voca\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nEm torno de seus 18 anos, Coleta perde os pais. Deseja consagrar sua vida ao Senhor, mas n\u00e3o consegue discernir claramente que caminho tomar. Come\u00e7a ent\u00e3o para um penoso tempo de busca. Examina os caminhos cl\u00e1ssicos que lhes s\u00e3o pr\u00f3ximos: as beguinas, um mosteiro de beneditinas, as clarissas urbanistas da abadia real de Moncel, perto de Beauvais. Nenhuma dessas experi\u00eancias satisfaz seu desejo de radicalidade. Depois de muitas tentativas, um franciscano, o Padre Pinet, guardi\u00e3o do Convento de Hesdin, que ela havia escolhido como conselheiro lhe prop\u00f5e a reclus\u00e3o (reclusage). Tratava-se de uma modalidade de consagra\u00e7\u00e3o muito frequente na \u00e9poca, sobretudo para as mulheres que n\u00e3o podiam viver como eremitas devido \u00e0 falta de seguran\u00e7a. N\u00e3o fugindo do mundo, as reclusas se instalavam nas encruzilhadas estrat\u00e9gicas, ao lado de uma igreja, junto a uma das portas da cidade. Mesmo que a reclusa vivesse no interior de uma casa e fizesse voto de n\u00e3o sair, n\u00e3o estava completamente desligada do mundo. Estava afastada, atr\u00e1s das grades, mas em comunica\u00e7\u00e3o com a popula\u00e7\u00e3o que vinha lhe pedir ora\u00e7\u00e3o, conselhos, solicitar trabalhos, trazer algo para que comessem. As cidades sentiam-se orgulhosas de ter uma reclusa, j\u00e1 que sua fun\u00e7\u00e3o quase oficial era a de rezar pela cidade.<\/p>\n<p><strong>Em reclus\u00e3o 1402-1406<\/strong><br \/>\nColeta tinha 20 anos quando ingressou na \u201creclus\u00e3o\u201d, a 17 de setembro de 1402, depois de ter vestido o h\u00e1bito de terceira de S\u00e3o Francisco. Muitas pessoas vinham ter com ela e, escreve Irm\u00e3 Perrine, \u201ctrabalhava com muita efici\u00eancia atrav\u00e9s de exorta\u00e7\u00f5es e conselhos acertados pedindo que se afastassem do pecado e dos la\u00e7os do inimigo do inferno para lev\u00e1-las a conhecer a Deus e am\u00e1-lo da maneira mais perfeita poss\u00edvel\u201d. Eram tantas as visitas que recebia que o Padre Pinet, num certo momento, precisou limitar seus hor\u00e1rios de parlat\u00f3rio a duas ou tr\u00eas horas por dia. Coleta n\u00e3o estava ainda \u201cem rede\u201d, mas permanecia sempre ligada (en lien). A reclus\u00e3o foi dura prova. Viveu fortes experi\u00eancias m\u00edsticas e duros combates contra os dem\u00f4nios e as for\u00e7as do mal. Foi ali, que segundo Pierre de Vaux, ela teve um dia esta \u201cmaravilhosa e espantosa vis\u00e3o em que ficou conhecendo os defeitos e ofensas que, contra Deus e com seu imenso desagrado, eram perpetrados em todos os estados da Igreja e pelo bra\u00e7o secular, quando nosso glorioso pai S\u00e3o Francisco a apresentou ao Senhor para que a enviasse em vista da miss\u00e3o de reformar sua Ordem\u201d. Deve-se dizer que Coleta sempre se sentira impulsionada a trabalhar pela reforma da Igreja, a come\u00e7ar pela fam\u00edlia franciscana. Foi um combate interior cheio de ang\u00fastia, verdadeira agonia, cuja lembran\u00e7a nunca a deixar\u00e1. Tinha consci\u00eancia cruel da falta de meios de que pudesse dispor para a reforma e de sua incompet\u00eancia. Acabou por dar o assentimento no fundo do cora\u00e7\u00e3o, esperando o momento de agir.<\/p>\n<p>O contexto n\u00e3o era nada favor\u00e1vel. A Fran\u00e7a estava dilacerada pela guerra dos cem anos, acrescentada de guerra civil entre fac\u00e7\u00f5es rivais dos Armagnacs e dos Bourguignons; era ocupada em parte pelos ingleses, saqueada pelos grandes ex\u00e9rcitos. Mal e mal estava se recuperando da peste negra. A Igreja estava dividida pelo grande cisma e os dois campos rivais n\u00e3o tinham interesse de reverter a situa\u00e7\u00e3o. A decad\u00eancia atingia todas as ordens religiosas. As clarissas n\u00e3o escapavam de tudo isso. A Regra de Santa Clara tinha sido praticamente deixada de lado ou considerada como uma mera utopia. As imponentes abadias reais e ricamente dotadas serviam como modelo de refer\u00eancia e a regra de Urbano IV era a norma, com propriedades, as irm\u00e3s servas (leigas) ou conversas e tamb\u00e9m o cuidado pela administra\u00e7\u00e3o dos bens e processos contra usurpadores e os maus pagadores. Ocupavam-se de tudo o que as monjas diziam ter abandonado. A reforma era inadi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Aqui e ali, \u00e9 verdade, anteriormente, iam acontecendo reformas. Sem apoio, no entanto, elas vieram a abortar. Pequenos conventos reformados foram surgindo simultaneamente na It\u00e1lia, na Espanha e na Fran\u00e7a, em Mirabeau (Poitou). Tratavam-se de iniciativas espont\u00e2neas, sem estruturas oficiais e sem coordena\u00e7\u00e3o, como se comentava.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que Henri de Baume, franciscano, natural da Savoia, que deveria ser o maior colaborador de Coleta chegou a Mirebeau em busca de um convento mais fervoroso. Havia um convento em Hesdin, no norte. O Padre Pinet que orientara Coleta na op\u00e7\u00e3o pela reclus\u00e3o residia nele. Os frades ditos \u201cobservantes\u201d eram pouco tolerados pelo conjunto dos outros frades e nada podia ser feito de fato sem apoio do papa e dos grandes. A miss\u00e3o de Coleta parecia dif\u00edcil e at\u00e9 mesmo imposs\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>A viagem a Nice e os come\u00e7os da reforma<\/strong><br \/>\nFrei Henri de Baume veio visit\u00e1-la. Deu sua plena ades\u00e3o \u00e0 miss\u00e3o para a qual ela se sentia investida e imediatamente se p\u00f4s a seu servi\u00e7o permitindo que ela se beneficiasse de toda a rede de seus relacionamentos. Frei Henri, descendente de nobre fam\u00edlia da Savoia, era, com efeito muito bem relacionado.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o esta jovem \u00f3rf\u00e3 de modesta condi\u00e7\u00e3o, sem dinheiro, nem cultura, nem renome poder\u00e1 contar com o apoio de nobres senhores e poderosas senhoras.<br \/>\nGra\u00e7as a Henri de Baume, recebeu a visita, em Corbie, da baronesa de Brisay cujo esposo era propriet\u00e1rio de terras em Mirabeau e p\u00f4de se beneficiar do apoio da condessa Branca de Savoia, irm\u00e3 do precedente papa de Avignon , Clemente VII.<\/p>\n<p>A baronesa de Brisay acompanhou pessoalmente Colete a Nice onde residia o papa Bento XIII e se encarregou de preparar cuidadosamente o encontro. A entrevista em Nice era decisiva para o futuro da reforma. Conduzida at\u00e9 o papa, Coleta expos o teor de sua solicita\u00e7\u00e3o. Tinha dois pedidos a fazer: \u201cO primeiro que ele lhe permitisse entrar no estado de vida evang\u00e9lica, quer dizer, entrar na segunda ordem, ou seja, a ordem das Senhoras Pobres, observando a Regra que o Pai Francisco havia dado \u00e0 Senhora Santa Clara, e o segundo, a repara\u00e7\u00e3o e restaura\u00e7\u00e3o das ordens que o Senhor Francisco havia institu\u00eddo\u201d.<\/p>\n<p>As solicita\u00e7\u00f5es eram como que exorbitantes. Ap\u00f3s uma perfeitamente compreens\u00edvel hesita\u00e7\u00e3o que lembrava o sentimento de Inoc\u00eancio III diante do pedido de S\u00e3o Francisco no Latr\u00e3o, Bento XIII, ele mesmo, recebeu Coleta na Ordem de Santa Clara. O papa a \u201cfaz professa da dita Ordem, colocou-lhe um v\u00e9u sobre a cabe\u00e7a, cingiu-a com a corda e entregou-lhe a Regra de Santa Clara. Depois aben\u00e7oou-a e a fez m\u00e3e e abadessa de todas as religiosas que deveriam vir da reforma da dita ordem\u201d (Pierre de Vaux). Era 14 de outubro de 1406. Poucos dias depois, o mesmo papa lhe deu a permiss\u00e3o de fundar um mosteiro, de receber as religiosas de outros mosteiros que desejassem abra\u00e7ar a reforma, mesmo contra a vontade de suas superioras.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o Coleta tem a qualifica\u00e7\u00e3o de \u201cmonja da Ordem de Santa Clara\u201d. Sendo clarissa com a permiss\u00e3o de fundar, nada impedindo que fosse tamb\u00e9m abadessa e pudesse assim dirigir um mosteiro que seria o primeiro elo de uma reforma. O papa concedeu-lhe ainda favor especial: \u201cQue possas ter junto de ti dois frades menores&#8230; por ti escolhidos (mesmo no caso em que eles tendo pedido licen\u00e7a a seus superiores e n\u00e3o podendo obt\u00ea-la) possam residir e trabalhar contigo na funda\u00e7\u00e3o do mosteiro de Hesdin e em todas as outras miss\u00f5es que achares bom lhes confiar&#8230; Que possas fazer com esses frades regressem a seus mosteiros e a seus superiores e os substituas por outros com as mesmas fun\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Assim o papa atendia plenamente os pedidos desta jovem totalmente desconhecida. Sem d\u00favida Coleta inspirou confian\u00e7a ao papa, sem esquecer o peso de seus acompanhantes.<\/p>\n<p><strong>Um laborioso come\u00e7o 1406-1410<\/strong><br \/>\nDe volta \u00e0 Picardia, Coleta prop\u00f5e-se a fundar um mosteiro em sua cidade natal. Defronta-se com a oposi\u00e7\u00e3o tenaz dos monges de Corbie, que n\u00e3o se deixaram impressionar com o aval que lhe dera o papa. Ter\u00e1 tamb\u00e9m que enfrentar a oposi\u00e7\u00e3o dos habitantes da cidade que, decepcionados pelo fato de ela ter deixado a reclus\u00e3o, acusam-na de instabilidade e mesmo de loucura. Deixa Corbie com duas de suas fieis companheiras. Ainda uma vez a interven\u00e7\u00e3o de Henri de Baume \u00e9 decisiva. Este procura-lhe ref\u00fagio no castelo de seu irm\u00e3o Alard de la Baume e depois Branca de Savoia haveria de abriga-la em seu castelo de Fontenay. V\u00e1rias jovens se juntam a ela, inclusive duas sobrinhas de frei Henri. Ali vai nascer e viver durante perto de quatro anos a primeira comunidade de clarissas reformadas, at\u00e9 o momento em que o papa lhe conceda o mosteiro de Besan\u00e7on, no Condado Franco. Ele n\u00e3o estava sendo habitado apenas por duas clarissas urbanistas. Coleta dele toma posse em 1410. Imediatamente apressou-se em transferir as propriedades para o hospital da regi\u00e3o e reintroduzir a Regra de Santa Clara. Esta forma de vida bem como seus dons de taumaturga se tornam rapidamente conhecidos e sua reputa\u00e7\u00e3o se amplia. A reforma come\u00e7a a dar seus passos. Coleta n\u00e3o tem mais necessidade de apoiar-se nos rela\u00e7\u00f5es de Frei Henri que continua sendo um colaborador fiel, dando apoio em todos os instantes. Os nobres chegam at\u00e9 ela e ela vai contar com preciosos amigos em seu meio. Criava-se uma rede de rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>A difus\u00e3o da reforma e o relacionamento com os \u201cgrandes\u201d<\/strong><br \/>\nMargarida da Baviera, duquesa da Borgonha, esposa de Jo\u00e3o sem Medo, chama-a para Dijon pensando numa funda\u00e7\u00e3o no puro estilo das funda\u00e7\u00f5es senhoriais do s\u00e9culo precedente, manifestamente para ter perto dela monjas santas a quem pudesse pedir ora\u00e7\u00f5es. Coleta fica contente com o convite que lhe permite continuar sua obra de reforma. Para sua implanta\u00e7\u00e3o, no entanto, n\u00e3o escolhe a cidade de Dijon, pr\u00f3xima demais da corte, mas a pequena cidade de Auxonne. Instala-se primeiramente, com algumas irm\u00e3s, numa casa provis\u00f3ria para poder acompanhar as constru\u00e7\u00f5es que ela queria \u201cpequenas, pobres, baixas\u201d, sem sinal nenhum sinal de ostenta\u00e7\u00e3o. Depois foi a vez de Poligny, em 1417. Coleta estabeleceu tamb\u00e9m uma comunidade em Seurre no ano de 1423. Sua reputa\u00e7\u00e3o j\u00e1 havia ultrapassado os limites da Borgonha.<\/p>\n<p>Os la\u00e7os de parentesco que, apesar de rivalidades, uniam as grandes fam\u00edlias principescas que j\u00e1 n\u00e3o se sentiam estrangeiras. Havia la\u00e7os de parentesco entre as Casas de Savoia e de Bourbon . N\u00e3o \u00e9 pois de estranhar que ao mesmo tempo Marie de Berry, duquesa de Bourbon venha entrar em rela\u00e7\u00e3o com Coleta. Se Marie de Berry desejava fundar um convento em Moulins foi como expia\u00e7\u00e3o do crime que seu filho havia perpetrado participando do assassinato de Jo\u00e3o sem Medo, em Montereau, em 1419. Coleta fundava assim comunidades em dois principados rivais. Houve a suposi\u00e7\u00e3o de uma cumplicidade entre essas esposas ou m\u00e3es inquietas com todas essas manifesta\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia e desejosas de sufocar a atrocidade dos combates com uma ampla rede de ora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Pouco depois, sempre no territ\u00f3rio da duquesa de Bourbon, erige-se o mosteiro de Aigueperse. Foi l\u00e1 que Isabel de la Marche, filha primog\u00eanita do ex-rei de N\u00e1poles Tiago de Bourbon, recebeu o h\u00e1bito das clarissas e que Coleta entrou em contato pela primeira vez com a poderosa fam\u00edlia dos Bourbon-La Marche que lhe foi muito devotada e lhe abriu as portas do Languedoc. Ali houve funda\u00e7\u00f5es em Castres (1432) e L\u00e9signan (1436) e foi chamada pela comunidade de Beziers, cidade pertencente tamb\u00e9m ao rei Tiago para realizar a\u00ed a reforma. Foi em Aiguesperse que Claudia de Roussillon, viscondessa de Polignac, encontra Coleta e concebe o projeto de construir um mosteiro em Puy. Deveria enfrentar ferozes oposi\u00e7\u00f5es notadamente da parte dos franciscanos (cordeliers) e dos c\u00f4negos da catedral, mas forte apoio das fam\u00edlias poderosas da casa real. No final de doze anos consegue levar a empreitada a bom termo.<\/p>\n<p>Seria fastidioso continuar a exposi\u00e7\u00e3o de todas as reformas, mas n\u00e3o se pode, por\u00e9m, deixar de recordar que a esses la\u00e7os de alto n\u00edvel deve-se juntar o relacionamentos com importantes funcion\u00e1rios que por meio de suas interven\u00e7\u00f5es facilitaram os tr\u00e2mites. Assim, foi se ampliando grandemente os relacionamentos desta reformadora.<\/p>\n<p><strong>Vicissitudes e discernimento<\/strong><br \/>\nColeta viveu no s\u00e9culo XIV. Os tempos eram bem outros comparando com a \u00e9poca de Santa Clara. No s\u00e9culo XIII, com efeito, as comunidades surgiam muitas vezes por iniciativa de mo\u00e7as e jovens senhoras que desejavam se consagrar ao Senhor e viver o ideal evang\u00e9lico. Uniam-se e colocavam em comum seus bens. Os come\u00e7os eram as mais das vezes modestos e o mosteiro crescia na medida em que a comunidade ia se desenvolvendo. Era a primavera das origens: uma primeira explos\u00e3o informal.<\/p>\n<p>No tempo de Coleta a iniciativa era tomada pelos importantes que desejavam ter em seus territ\u00f3rios comunidades de monjas fervorosas que rezassem prioritariamente em suas inten\u00e7\u00f5es. Coleta aproveita da melhor maneira poss\u00edvel tais circunst\u00e2ncias para empreender sua reforma. Cabe aqui esclarecimentos a respeito da interven\u00e7\u00e3o dos \u201cgrandes\u201d.<\/p>\n<p>De um lado, apesar deste poderoso aux\u00edlio, a miss\u00e3o de Coleta nem sempre foi f\u00e1cil. Os advers\u00e1rios da reforma multiplicavam os obst\u00e1culos. Em Aigueperse os c\u00f4negos da catedral faziam destruir \u00e0 noite as constru\u00e7\u00f5es realizadas durante o dia. Em Amiens a oposi\u00e7\u00e3o foi t\u00e3o obstinada por parte do clero secular e de uma parte da popula\u00e7\u00e3o que Coleta precisou apelar para seus relacionamentos para obter \u00eaxito na empreitada. Em Corbie, quase no final de sua vida, a reformadora tentou ainda uma vez uma nova funda\u00e7\u00e3o, mas apesar da autoriza\u00e7\u00e3o do papa Eug\u00eanio IV e o apoio de seus grandes protetores, a oposi\u00e7\u00e3o dos monges da Abadia S\u00e3o Pedro foi irredut\u00edvel e ela n\u00e3o teve outra alternativa sen\u00e3o desistir do intento.<\/p>\n<p>De outro lado mesmo que as pessoas influentes fossem os fundadores Coleta nunca permitiu que os pr\u00e9dios dos mosteiros fossem vastos e imponentes. Com toda evid\u00eancia constru\u00e7\u00f5es modestas destoavam do senso de orgulho dos grandes. Coleta tamb\u00e9m n\u00e3o permite que os \u201cimportantes\u201d se imiscuam nos assuntos internos da comunidade. N\u00e3o gozavam de privil\u00e9gios como de nomear a primeira abadessa, de apresentar candidatas, de entrar na clausura, etc&#8230; A \u00fanica exce\u00e7\u00e3o foi o que concede \u00e0 sua velha amiga Branca de Savoia: ser enterrada na capela do mosteiro. As constitui\u00e7\u00f5es das capelanias e funda\u00e7\u00f5es de missas ficavam encarregadas de mandar celebrar missas na inten\u00e7\u00e3o de sua alma.<\/p>\n<p>Assim o tipo de coer\u00e7\u00f5es sociais que tanto haviam pesado sobre os mosteiros urbanistas do s\u00e9culo XVI e que estiveram na raiz da decad\u00eancia tornaram-se forte motivo para a reforma.<br \/>\nQuando morre em Gand (B\u00e9lgica) a 6 de mar\u00e7o de 1447 ela havia fundado 15 mosteiros e reformado 2. Nunca poderia ter tido \u00eaxito se n\u00e3o contasse com o apoio de fam\u00edlias nobres que colocavam seus poderosos meios \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o: um terreno para construir, homens e material para a constru\u00e7\u00e3o, autoriza\u00e7\u00e3o e dispensas necess\u00e1rias e religiosas para povoar as novas casas.<\/p>\n<p>Evidentemente as fontes de que dispomos, privilegiam a a\u00e7\u00e3o dos grandes porque tinham condi\u00e7\u00f5es de dar uma contribui\u00e7\u00e3o mais eficaz para a reforma. Isso, no entanto, n\u00e3o quer dizer que a popula\u00e7\u00e3o como tal estivesse alheia ao empenho das reformas.<\/p>\n<p>Em Gand foram os burgueses da cidade que pediram a funda\u00e7\u00e3o de um mosteiro e Coleta os encarregou de zelarem pela bom nome da comunidade: \u201cA \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o que deveis ter \u00e9 a de que neste mosteiro nada se fa\u00e7a contra a observ\u00e2ncia regular\u201d.<\/p>\n<p>Alguns desses personagens se dedicavam completamente ao servi\u00e7o das irm\u00e3s como Bartolomeu de Dijon para quem Coleta endere\u00e7a uma carta de agradecimento e de afilia\u00e7\u00e3o. No tocante ao povo as fontes s\u00e3o mais discretas. O que se nota \u00e9 aqui e ali men\u00e7\u00e3o a alguns milagres. Vemos pessoas acorrerem aos caminhos por onde a reformadora devia passar. Esta escassez de informa\u00e7\u00f5es se deve \u00e0 natureza dos documentos conservados. N\u00e3o se pode falar de \u201crede\u201d.<\/p>\n<p>O segundo grupo de relacionamentos \u00e9 representado pelos frades: porque a constru\u00e7\u00e3o de mosteiros n\u00e3o bastava. Necess\u00e1rio se fazia garantir o apoio espiritual \u00e0s comunidades e sua fidelidade \u00e0 reforma.<\/p>\n<p><strong>A \u201crede\u201d religiosa<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_150817\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-150817\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-150817\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Coleta_07021821.png\" alt=\"Coleta_0702182\" width=\"400\" height=\"574\" \/><p id=\"caption-attachment-150817\" class=\"wp-caption-text\">Santa Clara e Santa Coleta (c. 1520), pelo Mestre da Lourinh\u00e3 (Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, Portugal).<\/p><\/div>\n<p>Bento XIII havia bem compreendido esta necessidade. Havia concedido a Coleta uma bula autorizando que ela escolhesse dois frades menores para ajuda-la em seus prop\u00f3sitos. Bem cedo nem isto era suficiente.<\/p>\n<p>Coleta retoma a Regra de santa Clara que determinava a assist\u00eancia de quatro frades, sendo dois sacerdotes e dois irm\u00e3os leigos e inscreveu esta determina\u00e7\u00e3o nas constitui\u00e7\u00f5es aprovadas em 1434. Queria somente frades que estivessem em conson\u00e2ncia com a reforma para que com sua assist\u00eancia espiritual e n\u00e3o desviassem as irm\u00e3s do caminho que ia sendo tra\u00e7ado. Tal preocupa\u00e7\u00e3o de Coleta era leg\u00edtima j\u00e1 que os conventos conheciam uma \u00e9poca de vida menos observante. N\u00e3o havia convento reformado na regi\u00e3o da Bourgongne nem em sua circunvizinhan\u00e7a. Desde o momento em que se estabeleceu em Besan\u00e7on procurou convencer os frades a que se reformassem. Contava apenas com sua for\u00e7a de persuas\u00e3o e a do padre Henri de Baume que lhe havia ajudado de maneira eficaz. N\u00e3o foi nada f\u00e1cil a tarefa. Os frades \u201ccordeliers\u201d de Besan\u00e7on obstinadamente se recusaram. Em 1412 \u201cv\u00e1rios not\u00e1veis, padres da comunidade de Dole, vieram ter com ela\u201d. Num primeiro momento ela enviou Frei Henri e depois ela mesma se dirigiu ao convento de Dole e, escreve Irm\u00e3 Perrine, \u201chouve bom entendimento entre os frades e suas irm\u00e3s\u201d. Coleta conseguiu persuadir os frades. A partir de ent\u00e3o o convento de Dole foi considerado como o \u201csemin\u00e1rio da reforma coletina\u201d.<\/p>\n<p>Em 1427, o Ministro Geral tomando conhecimento do fato, concedeu-lhes uma certa autonomia designado a Frei Henri vig\u00e1rio dos \u201ccoletinos\u201d. Para eles Coleta foi m\u00e3e venerada e acatada guia espiritual. Uma das poucas cartas de Coleta conservada foi dirigida a Frei Pierre de Vaux, seu principal colaborador, depois do falecimento de Frei Henri de Baume. O documento em quest\u00e3o \u00e9 rico em conselhos espirituais \u201cAquecei vosso cora\u00e7\u00e3o na bendita paix\u00e3o de vosso bendito salvador. Carregai e senti seus sofrimentos como verdadeiros filhos&#8230; andai com ele por todas as partes&#8230; menosprezai todo amor que n\u00e3o seja o seu&#8230; Que vossa esperan\u00e7a seja nele colocada\u201d.<\/p>\n<p>Coleta sabe fazer valer sua autoridade na qualidade de respons\u00e1vel pela reforma. Em carta a Frei Lain\u00e9, confessor das clarissas de Puy, comunica com firmeza a chegada de seu substituto j\u00e1 que, diz ela: \u201cCompreendi que n\u00e3o podeis mais exercer boamente o of\u00edcio\u201d e o encoraja exortando: \u201cAssumi com paci\u00eancia vossa fraqueza e idade j\u00e1 avan\u00e7ada, reconhecei as gra\u00e7as que vos foram concedidas na santa voca\u00e7\u00e3o que vos foi concedida por bondade&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Seu relacionamento com os frades e as irm\u00e3s tem um tom afetuoso como num ambiente familiar. Percebe-se uma coniv\u00eancia atrav\u00e9s do relato da Irm\u00e3 Perrine. Quando esta descreve um acontecimento da vida de Coleta assinala muitas vezes que o havia escutado da boca de um frade. Pressente-se \u201cuma intensa vida fraterna, fundada na decis\u00e3o de se dar juntas a uma obra da qual Coleta \u00e9 o piv\u00f4 e o motor\u201d, escreve Elisabeth Lopez em seu livro Culture et Saintet\u00e9. Colette de Corbie (1381-1447), 1994, cole\u00e7\u00e3o do CERCOR.<\/p>\n<p>Coleta cuida de n\u00e3o se fechar no seu pequeno c\u00edrculo, junto dos que lhes s\u00e3o fieis, Alimenta la\u00e7os estreitos com o ministro Geral Guilherme de Casal que aprova suas constitui\u00e7\u00f5es em 1434 juntamente com membros dos altos escal\u00f5es a Igreja. Foram encontradas cartas dirigidas a Coleta pelo Cardeal Cesarini, presidente do Conc\u00edlio de B\u00e2le. H\u00e1 relacionamentos entre as duas \u201credes\u201d.<br \/>\nCom o Cardeal Cesarini os la\u00e7os n\u00e3o s\u00e3o apenas circunstanciais. Um outra carta, data de 7 de setembro de 1438, d\u00e1 a entender uma maior frequ\u00eancia na correspond\u00eancia: \u201crendo muitas gra\u00e7as porque vos dignastes me visitar v\u00e1rias vezes atrav\u00e9s de vossas am\u00e1veis cartas\u201d. O eclesi\u00e1stico pede suas ora\u00e7\u00f5es para o Concilio e anexa \u00e0 correspond\u00eancia uma oferta de 12 florins para a compra de roupas \u201cporque \u00e9 justo que um filho supra as necessidades da m\u00e3e&#8230; e eu sou vosso filho\u201d.<\/p>\n<p>Com os respons\u00e1veis de outros ramos da reforma, animados do mesmo desejo de radicalidade evang\u00e9lica certamente houve contatos mas n\u00e3o se pode falar de uma \u201crede\u201d. No que tange ao relacionamento com os observantes franciscanos o entendimento n\u00e3o foi dos melhores.<\/p>\n<p>O objetivo era o mesmo: alcan\u00e7ar a reforma da Ordem. Em 1425 S\u00e3o Bernardino de Sena, num de seus serm\u00f5es d\u00e1 gra\u00e7a a Deus: \u201cpelos mosteiros reformados da Ordem de S\u00e3o Francisco e de Santa Clara na Bourgogne gra\u00e7as \u00e0 senhora Nicolette de Fran\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Depois do capitulo de 1443 que fez so\u00e7obrar toda esperan\u00e7a de uni\u00e3o muda-se a situa\u00e7\u00e3o: a luta da influ\u00eancia entre observantes e conventuais se acentua cada vez mais e cada campo procura agregar o maior n\u00famero de frades\u2026 O apoio de Coleta \u00e9 sobremodo requisitado. O novo vig\u00e1rio geral dos observantes ultramontanos, Jean Maubert, escreveu-lhe em diversas ocasi\u00f5es.<br \/>\nColeta \u00e9 mulher de rela\u00e7\u00e3o e de a\u00e7\u00e3o. Devido \u00e0s necessidades da reforma est\u00e1 sempre disposta a percorrer as estradas, a entrar em contato com pessoas que possam ajuda-la. Como fica ent\u00e3o o aspecto do \u201cretiro\u201d?<\/p>\n<p><strong>Em retiro<\/strong><br \/>\n\u00c9 claro o testemunho daqueles que a conheceram. Pierre de Vaux escreveu: \u201cA principal ocupa\u00e7\u00e3o da pequena serva de Nosso Senhor, durante o tempo de sua vida, foi de louvar, honra e rezar a Deus. Onde quer que estivesse, parada ou andando, seu cora\u00e7\u00e3o e seu pensamento esavam voltados para Deus, rezando sem cessar mental ou vocalmente\u201d. Sempre que podia procurava um lugar recolhido afastados das pessoas. Em viagem procurava isolar-se o mais que podia para guardar sua solid\u00e3o com Deus; em todas as casas em que se encontrava, guardava a solid\u00e3o e a clausura e se mantinha num pequeno espa\u00e7o, que cercava com len\u00e7\u00f3is e cobertas e ali permanecia at\u00e9 o momento da partida, escreve tamb\u00e9m Pierre de Vaux. Inclusive em seus conventos Coleta vivia uma vida de certa solid\u00e3o: \u201cTinha um orat\u00f3rio particular onde permanecia comumente e onde ouvia a missa\u201d, escreve Pierre de Vaux. Na verdade, mais do que as outras ela \u00e9 observada, espiada em seus menores gestos.<\/p>\n<p>Manifestamente o retiro \u00e9 para Coleta seu ambiente natural do qual se ausenta por dever para as necessidades de sua reforma. Esta \u00e9 sua primeira voca\u00e7\u00e3o. Paradoxalmente pouco escreveu a esse respeito. Suas exorta\u00e7\u00f5es mais frequentes se referem \u00e0 pobreza, \u00e0 caridade fraterna e ao of\u00edcio divino.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma exorta\u00e7\u00e3o sua que volta sempre de novo: \u201ccolocar seu cora\u00e7\u00e3o perfeitamente em Deus\u201d. Para tanto ser\u00e1 importante expulsar todos os pensamentos mundanos e para tanto a clausura lhe parecia um meio privilegiado. N\u00e3o \u00e9 em primeiro lugar prote\u00e7\u00e3o para a castidade. Pode-se ler em seu testamento: \u201c\u00d3 bem-aventurada clausura! \u00d3 alma fechada que n\u00e3o divaga por coisinhas pequenas. Estar encerrada por meio uma cont\u00ednua recorda\u00e7\u00e3o das preciosas chagas de Jesus Cristo\u201d.<\/p>\n<p>Para evitar que os rumores do mundo n\u00e3o impe\u00e7am as irm\u00e3s dessa vida em Deus, promulga medidas bem precisas: substitui as irm\u00e3s que servem fora do mosteiro mencionadas na Regra de Clara por servas que n\u00e3o entram na clausura. Retoma assim uma medida editada em 1336 pelo Papa Bento XII.<\/p>\n<p>Limita ao m\u00e1ximo o contato com o exterior e recorda firmemente as medidas prescritas j\u00e1 na Regra de Santa Clara e em vigor desde as constitui\u00e7\u00f5es do Cardeal Hugolino. Conforme seu h\u00e1bito, eventualmente, acrescenta precis\u00f5es suplementares, por exemplo, a quest\u00e3o das portas duplas que n\u00e3o deixam possibilidade de ver as pessoas do exterior ou serem vistas por elas. Quer conservar suas irm\u00e3s somente para Deus.<\/p>\n<p>Se ela opta por pequenas cidades para implantar seus conventos, em parte, \u00e9 para evitar a multiplicidade dos parlat\u00f3rios. Manifesta pressa em poder dispor de um po\u00e7o no interior do convento para evitar \u201cas distra\u00e7\u00f5es \u00e0s porteiras e as conversas desnecess\u00e1rias com os que carregavam \u00e1gua\u201d.<\/p>\n<p>Adverte as irm\u00e3s a que n\u00e3o se preocupem demais com seus parentes. Recomenda \u00e0 Irm\u00e3 Lu\u00edsa do convento de Auxonne: \u201cColoca perfeitamente teu cora\u00e7\u00e3o em Deus uma vez que n\u00f3s, que abandonamos o mundo, n\u00e3o precisamos nos preocupar com parentes e amigos mas isto sim rezar por eles e por sua salva\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Um tal preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o quer dizer fuga. Quando necess\u00e1rio ela n\u00e3o hesita em percorrer as estradas. Mesmo quando solit\u00e1ria, sua ora\u00e7\u00e3o se dirige aos demais. Muitas vezes \u00e9 uma s\u00faplica de intercess\u00e3o pelos \u201cpobres pecadores e desvalidos\u201d e se ela d\u00e1 muitas prescri\u00e7\u00f5es para o oficio lit\u00fargico, \u00e9 porque deve ser rezado \u201cpara a gl\u00f3ria de Deus e a edifica\u00e7\u00e3o do povo\u201d. Esta express\u00e3o que repete com frequ\u00eancia indica o eixo de seu pensamento. O determinante n\u00e3o nem as rela\u00e7\u00f5es ou retiro em si mesmos, mas o progresso da reforma.<\/p>\n<p><strong>Em rela\u00e7\u00e3o e em retiro: a vida de suas comunidades<\/strong><br \/>\nDepois de sua morte, as coletinas formaram um corpo unido e constitu\u00edram entre elas uma rede fraterna de m\u00fatuo encorajamento para que pudessem manter-se firmes aos ensinamentos de Coleta e difundir a reforma. As novas funda\u00e7\u00f5es por longo tempo foram co-funda\u00e7\u00f5es como, por exemplo, Nantes em 1457, Cambrai em 1494; Montbrison em 1496, Gien em 1500 e muitas outras.<br \/>\nAt\u00e9 o s\u00e9culo XIX a clausura n\u00e3o impede que as irm\u00e3s estejam muito ligadas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o que as alimenta e que se confia \u00e0s suas ora\u00e7\u00f5es. O recrutamento \u00e9 muito local e nas cidades menores. Muitos habitantes t\u00eam uma filha, uma irm\u00e3 ou uma tia religiosa. A solidariedade \u00e9 grande e as irm\u00e3s vivem no mesmo ritmo, ouvem todos os ecos da vida da cidade, os an\u00fancios dos pregoeiros p\u00fablicos, a chegada de personagens importantes, as festas e comemora\u00e7\u00f5es ; participam de tudo, das mesmas prova\u00e7\u00f5es, pen\u00farias, epidemias, inc\u00eandios, guerras. Apesar da clausura a vida das clarissas se passa fortemente imbricada no tecido social e eclesial e gozam da geral simpatia da popula\u00e7\u00e3o. Os testemunhos por ocasi\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o francesa (1789) constituem prova.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><br \/>\nA partir do s\u00e9culo XIX os la\u00e7os das clarissas com a cidade que foi crescendo e se secularizando foram se tornando mais fluidos. Os mosteiros foram se tornando ilhas visitadas sobretudo por amigos fi\u00e9is. O relacionamento mesmo no caso de um mosteiro muito din\u00e2mico, tornou-se como que mais estendido geograficamente, por\u00e9m mais limitado proporcionalmente. O retiro, mesmo que a clausura seja mais flex\u00edvel \u00e9 psicologicamente maior com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura ambiental. O discernimento se faz de acordo com o mesmo objetivo indicado por Santa Coleta: \u201cGuardar o cora\u00e7\u00e3o sempre junto de Deus\u201d. Todas as comunidades mon\u00e1sticas s\u00e3o convocadas para essa dif\u00edcil miss\u00e3o que conserva lugar privilegiado no concerto dos carismas da Igreja de Jesus Cristo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Frei Almir Guimar\u00e3es<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[65],"tags":[103],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Santa Coleta de Corbie: em retiro e em rela\u00e7\u00e3o - Carisma - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/santa-coleta-de-corbie-em-retiro-e-em-relacao.html\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Santa Coleta de Corbie: em retiro e em rela\u00e7\u00e3o - 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