{"id":176982,"date":"2011-07-24T00:28:29","date_gmt":"2011-07-24T03:28:29","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/?p=176982"},"modified":"2020-06-11T18:29:49","modified_gmt":"2020-06-11T21:29:49","slug":"o-que-se-diz-a-respeito-de-francisco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/o-que-se-diz-a-respeito-de-francisco.html","title":{"rendered":"O que se diz a respeito de Francisco"},"content":{"rendered":"<p align=\"left\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-199201\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/francisco.jpg\" alt=\"\" width=\"890\" height=\"501\" \/><\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Frei Almir Ribeiro Guimar\u00e3es, OFM<\/strong><\/p>\n<p><strong>1.\u00a0<\/strong>Vivemos os dias de outubro de 2009, m\u00eas da festa solene de Francisco. Temos ainda alguns meses, uns poucos meses, deste ano de 2009, ano dos oito s\u00e9culos do carisma franciscano. Ao celebrarmos a festa do carisma das origens pensamos em nossa vida com Francisco. Quando o encontramos pela primeira vez? Quem teve a delicadeza de nos apresentar a este que os s\u00e9culos aprenderam a venerar?\u00a0 Que tra\u00e7os de Francisco temos em nosso semblante? Em que nossa Prov\u00edncia se parece com Francisco?\u00a0 Estamos \u00e0s portas do Cap\u00edtulo Provincial.\u00a0 Dentro de pouco tempo nossas bolsas estar\u00e3o prontas e percorreremos os caminhos que nos levar\u00e3o a Agudos. Quantas belas coisas haveremos de viver! Bom seria se pud\u00e9ssemos uma vez mais, no fundo de nosso cora\u00e7\u00e3o, responder a esta pergunta t\u00e3o simples:\u00a0<em>\u00a0Por que as pessoas andavam atr\u00e1s de Francisco?<\/em>\u00a0Conhecemos o di\u00e1logo entre Frei Francisco e Frei Masseo conservado nos Fioretti (n. 10).<\/p>\n<p>Masseo quer saber os motivos pelos quais\u00a0 todo mundo andava atr\u00e1s de Francisco.\u00a0<em>\u00a0Por que a ti? Por que a ti?\u00a0 Por que a ti?<\/em>\u00a0\u00a0Conhecemos a resposta que o autor coloca nos l\u00e1bios de Francisco: \u201cIsto recebi dos olhos do Deus alt\u00edssimo, os quais, em cada lugar contemplam os bons e os maus; porque aqueles olhos sant\u00edssimos n\u00e3o encontraram nenhum mais vil nem mais insuficiente, nem mais pecador do que eu; e assim, para realizar esta opera\u00e7\u00e3o maravilhosa, a qual entendeu fazer, n\u00e3o achou outra criatura mais vil sobre a terra; e por isso me escolheu para confundir a nobreza e a grandeza e a for\u00e7a e a beleza e a sabedoria do mundo, para que se reconhe\u00e7a que todo bem \u00e9 dele e n\u00e3o da criatura e para que ningu\u00e9m se possa gloriar\u00a0 na presen\u00e7a dele; mas quem se gloriar que se glorie no Senhor, a quem pertence toda honra e gl\u00f3ria na eternidade\u201d. Francisco come\u00e7a dizendo simplesmente que ele existe para dizer com palavras e gestos que todo o bem vem\u00a0 do Sumo Bem!\u00a0 Vamos dar a voz\u00a0 a alguns entre tantos que escreveram sobre Francisco. Eles tentam dizer os motivos\u00a0 pelos quais tantos andaram e andam ainda hoje atr\u00e1s de Francisco e ajudam-nos, por nossa vez, nesse tempo refunda\u00e7\u00e3o e de volta \u00e0 gra\u00e7a das origens, a formular tamb\u00e9m a resposta a esta pergunta:<em>\u00a0Quem \u00e9 Francisco para n\u00f3s?\u00a0<\/em>\u00a0\u00a0Que a reflex\u00e3o sobre estes pensamentos nos tornem mais leves, mais l\u00e9pidos, mais alegres para come\u00e7ar a caminhada rumo a Agudos!!!<\/p>\n<p><strong>2.\u00a0Omer Englebert<\/strong> escreve: \u201cFrancisco \u00e9 dessas figuras das quais a humanidade sempre sentir\u00e1 orgulho. Suas qualidades for\u00e7am a simpatia; seus defeitos, se os tem, s\u00e3o atraentes; sua santidade nada\u00a0 tem de esot\u00e9rico, afetado ou amea\u00e7ador; seus dons naturais suscitam geral admira\u00e7\u00e3o; e seus ensinamentos exalam tal frescor, poesia e serenidade, que mesmo esp\u00edritos embotados podem encontrar neles raz\u00f5es para amar a vida e crer na bondade divina\u201d (<em>Vida de S\u00e3o Francisco de Assis, Omer Englebert. Trad. Frei Adelino G. Pilonetto. EST Edi\u00e7\u00f5es, P. Alegre, 2004. p. 9)<\/em>.<\/p>\n<p><strong>3.<\/strong>\u00a0Tomemos as observa\u00e7\u00f5es feitas por <strong>G\u00e9rard Guitton<\/strong>\u00a0 na Introdu\u00e7\u00e3o de seu<em>\u00a0D\u00e9couvir Saint Fran\u00e7ois d\u2019Assise, Salvator, Paris\u00a0 2004.<\/em>\u00a0O Autor elenca opini\u00f5es e v\u00e1rios autores e escritores: O agn\u00f3stico <strong>Ernest Renan<\/strong> diz: \u201cDeve-se dizer que depois de Jesus, Francisco de Assis foi o \u00fanico crist\u00e3o perfeito\u201d.\u00a0 Outro escritor agn\u00f3stico, <strong>Andr\u00e9 Malraux:<\/strong> \u201cSer\u00e1 que se pode dizer que Francisco de Assis\u00a0 tenha sido, na hist\u00f3ria da Igreja, o \u00faltimo gigante da santidade? Sem d\u00favida, depois dele, houve outros, mas nenhum deles conseguiu, unicamente por sua for\u00e7a espiritual, revolucionar o mundo ocidental e transformar a civiliza\u00e7\u00e3o como ele fez e at\u00e9 mesmo inspirando uma arte completamente nova&#8230;\u201d.\u00a0 <strong>Frei G\u00e9rard<\/strong> menciona ainda outros. Lenine afirmaria que ele n\u00e3o teria tido necessidade de fazer a revolu\u00e7\u00e3o na R\u00fassia se tivesse encontrado tr\u00eas ou quatro\u00a0 Franciscos de Assis.\u00a0 <strong>Clemenceau<\/strong>\u00a0 disse que gostaria de ter em seu sangue algumas gotas do sangue de S\u00e3o Francisco.<\/p>\n<p><strong>4.<\/strong>\u00a0Dois depoimentos fora dos muros da Igreja. O primeiro do austr\u00edaco, Kurt\u00a0 Waldheim, antigo secret\u00e1rio geral da ONU: \u201cS\u00e3o Francisco de Assis \u00e9 o s\u00edmbolo da paz, do respeito pela natureza e do amor pelos pobres que fazem parte do ideal seguido pela ONU cuja Carta foi assinada na cidade de S\u00e3o Francisco, que leva o nome do Pobre de Assis.\u00a0 M. Amadou\u00a0 Mahtar M\u2019Bow lembra\u00a0 \u201c a universalidade, o altru\u00edsmo caracterizado por uma vontade de di\u00e1logo e defendidos por Francisco de Assis que deseja ser instrumento da paz\u201d.<\/p>\n<p><strong>5.<\/strong>\u00a0Francisco n\u00e3o est\u00e1 morto. Ele vive. N\u00e3o se pode \u201cclonar\u201d Francisco. <strong>Armindo Trevisam<\/strong>, na Apresenta\u00e7\u00e3o da vers\u00e3o brasileira do livro de <strong>Omer Englebert<\/strong>:\u00a0 \u201cEm termos absolutamente concretos, a repeti\u00e7\u00e3o de Francisco de Assis, a sua \u2013 digamos com humor \u2013 \u201cclonagem\u201d espiritual n\u00e3o teria sentido. Francisco \u00e9 irrepet\u00edvel. Foi um carisma concedido \u00e0 Igreja num determinado s\u00e9culo, em meio a determinadas necessidades espirituais. Mas \u00e9 aqui, precisamente, que interv\u00e9m um elemento supra-hist\u00f3rico: a gra\u00e7a de Deus. Francisco n\u00e3o est\u00e1 morto, est\u00e1 vivo. Est\u00e1 na gl\u00f3ria de Deus e \u00e9 nosso intercessor. Portanto, n\u00e3o desapareceu da Hist\u00f3ria, porque a gra\u00e7a de Deus o mant\u00e9m atuante dentro dela. \u00c9 esse o mist\u00e9rio da comunh\u00e3o dos santos e da esperan\u00e7a geral da humanidade\u201d (&#8230;) \u201c&#8230; a figura de Francisco de Assis possui uma tr\u00edplice dimens\u00e3o: \u201ca dimens\u00e3o hist\u00f3rica, a dimens\u00e3o sobrenatural, e a dimens\u00e3o po\u00e9tico-m\u00edstica que o converte num ideal e num sonho cultural da humanidade. Como promover a ecologia sem nos referirmos ao seu patrono? Como neutralizar as pervers\u00f5es da globaliza\u00e7\u00e3o sem evocar o homenzinho de Assis que pregava o anticonsumismo, limitando-se \u00e0s necessidades b\u00e1sicas?\u00a0 Como preservar um m\u00ednimo de relacionamento pessoal entre as classes sociais sem reviver a sua caridade universal, que abarcava os pr\u00f3prios lobos e cotovias?\u201d<\/p>\n<p><strong>6.<\/strong>\u00a0<strong>\u00c9loi Leclerc\u00a0<\/strong> escreveu in\u00fameras obras cheias de profundidade e sabor a respeito de Francisco. O autor se encantou por Francisco antes da \u00faltima guerra, viveu o inferno dos campos de concentra\u00e7\u00e3o nazista e completou as etapas do seguimento do Poverello depois do fim da guerra e a chegada da paz. O Francisco de Leclerc sempre encanta.\u00a0 \u201cH\u00e1 uma secreta vincula\u00e7\u00e3o entre a pureza do cora\u00e7\u00e3o e a mansid\u00e3o, entre a transpar\u00eancia das profundezas e a serenidade, entre a santidade e a bondade essencial. Talvez, no fundo, a pureza n\u00e3o seja mais do que a transpar\u00eancia do ser, frente \u00e0 Bondade original. Um homem, pelo menos, assim a entendeu. Era um s\u00e1bio, embora n\u00e3o cuidasse de o aparecer. Ele viu que a pureza e a mansid\u00e3o, irmanadas, formavam a face de Deus. Por assim o haver entendido, esse homem renunciou ao poder que gera a viol\u00eancia, e ao dinheiro que est\u00e1 na raiz do poder. Deu de m\u00e3o a toda ambi\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio, incluindo a mais sutil de todas, a dos cl\u00e9rigos. Rompeu com o sistema pol\u00edtico-religioso de seu tempo, a supremacia temporal da Igreja, as lutas feudais, as guerra santas. F\u00ea-lo sem clamor, sem subverter a opini\u00e3o p\u00fablica, com suavidade, humildemente, mas realmente. Num mundo violento, eri\u00e7ado de torre\u00f5es, cavado de fossos, o seu universo n\u00e3o conhecia muralhas e torres de vigia. Pobre de bens e de poder, estava em paz com todos, vivia\u00a0 ao n\u00edvel de todos os seres, para todos tinha um olhar cheio de luz e de respeito. O olhar, sobretudo, era nele maravilhosamente humano; humanos os sentidos todos. As criaturas j\u00e1 n\u00e3o eram objeto de posse e de dom\u00ednio. Irm\u00e3o do sol e das criaturas, caminhava num mundo aberto e\u00a0 esplendoroso. Era o pai de uma multid\u00e3o de amigos.\u00a0 Nele se congra\u00e7avam a pureza e a ternura, e nenhuma barreira lograva impedir que se expandissem pelo mundo. O seu horizonte\u00a0 n\u00e3o era a Cristandade temporal, com seu prest\u00edgio, as suas fronteiras\u00a0 a defender ou\u00a0 a dilatar, mas apenas Jesus Cristo que urgia amar e servir, o homem que se impunha salvar.\u00a0 Foi longe nesse prop\u00f3sito, para al\u00e9m das fronteiras da Cristandade. Em plena Cruzada, foi para o Oriente, n\u00e3o para combater ou desempenhar meras fun\u00e7\u00f5es de assistente espiritual, mas para reencontrar os outros, os que n\u00e3o pensavam como ele. V\u00e1rias vezes se avistou com o sult\u00e3o Melik-el-Kamil. O desprezo de qualquer sucesso pessoal, o brilho que de si pr\u00f3prio irradiava impressionaram de tal modo o chefe mu\u00e7ulmano que chegaram a discorrer longamente, como bons amigos, sobre as respectivas religi\u00f5es. Teve mesmo que declinar honrarias e benesses com que o sult\u00e3o o desejava distinguir. E se este n\u00e3o aceitou a f\u00e9 crist\u00e3 ficou lan\u00e7ada uma ponte entre o Ocidente e o Oriente.\u00a0 Foi, sem d\u00favida, um grande momento da hist\u00f3ria dos homens (&#8230;).\u00a0 \u201c&#8230; a sombra perseguia esse homem de cora\u00e7\u00e3o solar. A sombra de seu tempo na qual trabalhava o Maligno, agarrava-se-lhe aos p\u00e9s para o vergar ao fracasso. E fracassou, com efeito. N\u00e3o\u00a0 converteu o sult\u00e3o \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3, nem os crist\u00e3os \u00e0 mansid\u00e3o evang\u00e9lica. N\u00e3o reconciliou os homens, nem realizou a unidade.\u00a0 Viu at\u00e9 germinar a disc\u00f3rdia entre os pr\u00f3prios disc\u00edpulos. Um tal fracasso poderia faz\u00ea-lo vacilar, lan\u00e7\u00e1-lo num abismo de desespero. Depois de ter trabalhado na paz, conheceu durante dois anos\u00a0 o acicate da turba\u00e7\u00e3o \u2013 a turba\u00e7\u00e3o que \u00e9, para o homem a revela\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o \u00e9 totalmente puro nem perfeitamente\u00a0 transparente e perme\u00e1vel \u00e0 Bondade original.\u00a0\u00a0 Mas que faltava a este homem para estar inteiramente aberto \u00e0 luz e realizar em plenitude a semelhan\u00e7a com o Pai?\u00a0 Nada, talvez.\u00a0 Ou apenas isto: aceitar at\u00e9 o fim a prova da paternidade e entrar, desse modo no mist\u00e9rio do Pai. Para conseguir a semelhan\u00e7a divina n\u00e3o basta invocar o Pai, nem sequer manter com Ele rela\u00e7\u00f5es filiais. \u00c9 necess\u00e1rio conhecer por si mesmo, no apagamento, \u00a0o que \u00e9 ser Pai \u00e0 maneira de Deus.\u00a0 Conhec\u00ea-lo, sendo-o, ele pr\u00f3prio tamb\u00e9m.\u00a0 Este homem aceitou. E come\u00e7ou ent\u00e3o, para ele, uma lenta migra\u00e7\u00e3o interior para as regi\u00f5es do ser, onde o \u00faltimo segredo do mundo se revela cada vez mais transparente.\u00a0\u00a0 Conheceu finalmente a alegria do Pai.\u00a0 Doravante, nada o perturbar\u00e1. Com igual regozijo poder\u00e1 cantar o sol e a morte. E recolher no cora\u00e7\u00e3o, de quando em quando, as secretas harmonias vindas da outra margem do sil\u00eancio\u201d (<em>in Desterro e Ternura,\u00a0 Braga 1974, p. 10-12).\u00a0<\/em>\u00a0Que estupendo este texto a respeito de Francisco.<\/p>\n<p><strong>7.<\/strong>\u00a0<strong>Donald Spoto<\/strong>, estudioso americano, publicou um livro interessante sobre Francisco (<em>\u00a0Francisco de Assis. O Santo Relutante, Objetiva, 2002)<\/em>. Primeiramente ele nos fala da influ\u00eancia de Francisco na cultura: \u201cFrancisco deixou sua marca na arte, na literatura e na hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, a come\u00e7ar por Dante, que nasceu 40 anos ap\u00f3s sua morte\u00a0 e que dedicou a Francisco a quase totalidade de um dos cantos da\u00a0<em>Commedia<\/em>. N\u00e3o \u00e9 exagero dizer que todas as express\u00f5es italianas subseq\u00fcentes\u00a0 de cultura religiosa devem\u00a0 algo a Francisco, desde os afrescos de Cimabue e Giotto at\u00e9 os filmes de Vittorio de Sica e Federico Fellini, que est\u00e3o impregnados de uma profunda sensibilidade franciscana\u201d (p.20).<\/p>\n<p><strong>8.<\/strong>\u00a0Estas reflex\u00f5es s\u00e3o completadas pelas palavras\u00a0 vigorosas e contundentes\u00a0 de\u00a0 <strong>Paul Sabatier<\/strong>, na sua\u00a0<em>Vida de S\u00e3o Francisco de Assis<\/em>\u00a0(IFAN). Transcrevemos umas poucas linhas da\u00a0<em>Introdu\u00e7\u00e3o<\/em>. Discorre o autor sobre as religi\u00f5es que visam \u00e0 divindade. Todo esfor\u00e7o nessas religi\u00f5es, segundo Sabatier, se concentra no culto e, em particular,\u00a0 no sacrif\u00edcio. A finalidade a ser alcan\u00e7ada \u00e9 uma mudan\u00e7a nas disposi\u00e7\u00f5es dos deuses.\u00a0 Esses s\u00e3o reis poderosos, dos quais se deve comprar o apoio ou o favor por meio de presentes. A maior parte das religi\u00f5es pag\u00e3s faz parte dessa categoria, bem como o juda\u00edsmo farisaico. \u00c9 tamb\u00e9m a tend\u00eancia de certos cat\u00f3licos\u00a0 atrasados para quem o grande neg\u00f3cio \u00e9 apaziguar Deus ou comprar, \u00e0 custa de ora\u00e7\u00f5es, de velas e de missas, a prote\u00e7\u00e3o da Virgem e dos Santos\u201d. Espero que meus leitores compreendam a rudeza das palavras do Sabatier. Coloquem-na no vigor cr\u00edtico. Depois ele escreve a respeito das religi\u00f5es que querem mudar o homem. Diz que a partir da convers\u00e3o Francisco tem maneira diferente de rezar.\u00a0 Ali ela manifesta sua mudan\u00e7a e sua grandeza:\u00a0\u00a0 \u201c&#8230; a ora\u00e7\u00e3o, que se tornou\u00a0 ato essencial da vida, perde seu car\u00e1ter de f\u00f3rmula m\u00e1gica; torna-se impulso do cora\u00e7\u00e3o; \u00e9 a reflex\u00e3o e a medita\u00e7\u00e3o que se eleva acima da vulgaridade do aqui para penetrar os mist\u00e9rios da\u00a0 vontade divina e conformar-se com ela; \u00e9 o ato do \u00e1tomo que compreende sua pequenez, mas mesmo que seja apenas um som, quer que este som, esteja em sintonia com a sinfonia divina<em>. Ecce adsum, Domine, ut faciam voluntatem tuam<\/em>. Quando algu\u00e9m alcan\u00e7a essas alturas, n\u00e3o pertence mais a seitas, mas\u00a0 \u00e0 humanidade. \u00c9 semelhante a essas maravilhas da natureza que o acaso coloca em territ\u00f3rio de tal ou tal povo, mas que pertencem a toda a humanidade, porque no fundo n\u00e3o pertencem a ningu\u00e9m ou, antes, s\u00e3o propriedade comum e inalien\u00e1vel de todo o g\u00eanero humano. Homero, Shakespeare, Dante, Goethe, Miguel \u00c2ngelo, Rembrant pertencem a\u00a0 n\u00f3s todos, tanto como as ru\u00ednas de Atenas ou\u00a0 de Roma, ou antes, pertencem a quem mais os ama, a quem os compreende melhor\u201d.<\/p>\n<p><strong>9.<\/strong>\u00a0Francisco n\u00e3o era um te\u00f3rico da vida espiritual.\u00a0 Falava de Deus em termos de experi\u00eancia. \u201cFalava somente daquilo que conhecia, ouvia e sentia. Nesse particular, n\u00f3s o vemos, ao longo dos s\u00e9culos, como exemplo do que Deus \u00e9 capaz de fazer, isto \u00e9, principalmente maravilhar-nos, alterar radicalmente a maneira pela qual vivemos e agimos. Nos trechos dram\u00e1ticos de sua pr\u00f3pria vida, e na forma pela qual um<em>playboy<\/em>\u00a0simp\u00e1tico\u00a0 mas um tanto vazio se transformou em modelo servidor do mundo, ele revelou a presen\u00e7a de Deus no tempo e na hist\u00f3ria. Em outras palavras, sua credibilidade \u00e9 grande por haver demonstrado que nosso melhor momento acontece quando ousamos permitir que Deus penetre nossas vidas. Os extremos da vida de Francisco, durante os quais ele passou de\u00a0<em>playboy<\/em>\u00a0a penitente, e de pobre a santo, revelam um indiv\u00edduo que se colocou \u00e0 margem do mundo.\u00a0 Em sua identifica\u00e7\u00e3o com aqueles que a sociedade polida rejeita, Francisco questionou a insensatez de confiar no dinheiro, nos bens e coisas materiais em busca da felicidade. Sua figura atrai praticamente a todos, provavelmente porque (ao contr\u00e1rio da maioria dos santos) ele n\u00e3o \u00e9 propriedade da Igreja Cat\u00f3lica Romana. Sua primeira grande biografia moderna foi escrita por um protestante franc\u00eas; um dos mais importantes historiadores do franciscanismo foi um bispo anglicano; um ortodoxo grego \u00e9 o autor de um vigoroso romance sobre sua vida; e para ser fotografado em uma confer\u00eancia de paz em Assis, o Dalai Lama quis sentar-se no lugar que Francisco mais amava e no qual morreu\u201d (<em>Spoto, p. 21-22).<\/em><\/p>\n<p><strong>10.<\/strong>\u00a0O texto da FFB\u00a0 sobre os 800 anos do Carisma (Reviver o sonho de Francisco e Clara de Assis no ch\u00e3o da Am\u00e9rica Latina e do Caribe) teve sua primeira e principal reda\u00e7\u00e3o, segundo informa\u00e7\u00f5es, <strong>de Frei Prudente Nery,<\/strong> capuchinho querido, de boa cepa e de veia po\u00e9tica, que a Irm\u00e3 Morte veio buscar muito cedo, muito cedo&#8230;\u00a0 Falando do encontro de Francisco com o Evangelho da miss\u00e3o, assim se exprime o texto: \u201cPara dentro desse encontro, Francisco traz tudo aquilo que lhe era pr\u00f3prio. N\u00e3o apenas o que lhe dera, em prodigalidade, a natureza, mas tamb\u00e9m o que ele havia visto, discernido, aprendido e constru\u00eddo, em sua vida, no momento hist\u00f3rico em que lhe fora dado viver. Nada disso \u00e9 aniquilado em seu encontro com o Evangelho (Jesus Cristo). Antes constitui o ch\u00e3o bom e f\u00e9rtil onde a gra\u00e7a se deposita e floresce em \u00fanica e copiosa beleza.\u00a0 Como de todo encontro verdadeiro nunca sa\u00edmos o mesmo, assim tamb\u00e9m aqui, Francisco, por sua natureza\u00a0<em>sui generis<\/em>, retira desse tesouro (Evangelho) coisas novas e velhas, desoculta-lhes desconhecidas riquezas. Nele, o Evangelho se ergue da letra das Escrituras repleto de esp\u00edrito, ressurge em nova vitalidade e manifesta-se em surpreendente atualidade. Por sua vez, o encontro com Jesus Cristo depura, fortalece, torna ainda mais luminosas as virtudes de Francisco\u201d (p. 13).<\/p>\n<p><strong>11.<\/strong>\u00a0<strong>Chesterton<\/strong> escreveu uma apaixonante biografia sobre o santo. Dele retenho apenas, por necessidade de brevidade, poucos par\u00e1grafos. Falando de Francisco, escreve: \u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ler racionalmente a hist\u00f3ria de um homem apresentado como um espelho de Cristo sem compreender sua fase final como Homem das Dores e sem ao menos apreciar artisticamente a propriedade de ele ter recebido, numa nuvem de mist\u00e9rio e de isolamento, e n\u00e3o provocadas por m\u00e3o humana, as feridas sempre abertas que curam o\u00a0 mundo\u201d\u00a0<em>\u00a0(G.K. Chesterton,\u00a0 S\u00e3o Francisco de Assis. A Espiritualidade da Paz, Ediouro, 2001, p. 18)<\/em>.\u00a0 \u201c&#8230;. a vinda de S\u00e3o Francisco foi como o nascimento de uma crian\u00e7a numa casa escura que tivesse acabado com sua maldi\u00e7\u00e3o; uma crian\u00e7a que cresce sem ter consci\u00eancia da trag\u00e9dia e que a vence por sua inoc\u00eancia. Nele, \u00e9 preciso n\u00e3o s\u00f3 inoc\u00eancia, mas desconhecimento. \u00c9 da ess\u00eancia da hist\u00f3ria que ele \u00a0se jogue na grama verde sem ver que ela esconde um cad\u00e1ver ou que suba numa macieira sem saber que \u00e9 a forca de um suicida. Foi essa anistia e reconcilia\u00e7\u00e3o que o frescor\u00a0 do esp\u00edrito franciscano trouxe a todo o mundo\u201d (p. 171).<\/p>\n<table border=\"0\" width=\"100\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"3\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#fbe7cf\"><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>12.<\/strong>\u00a0Neste elenco riqu\u00edssimo de\u00a0 depoimentos a respeito da beleza da vida de Francisco n\u00e3o conv\u00e9m deixar de lado o tocante depoimento de <strong>Julien Green<\/strong>, conhecido escritor: \u201cDesde\u00a0 a minha inf\u00e2ncia, em tempos perdidos nas brumas do passado, na rue de Passy onde mor\u00e1vamos, eu ouvia o nome de Francisco pronunciado com a ternura que sempre o acompanhava. Minha m\u00e3e, de modo especial,\u00a0 protestante de boa cepa, devotava-lhe uma afei\u00e7\u00e3o que me leva a crer que ela o havia conhecido. Ele era e continua sendo o homem que vai al\u00e9m das tristes barreiras teol\u00f3gicas. Ele \u00e9 de todo o mundo, como o amor que sempre nos \u00e9 ofertado. N\u00e3o se podia v\u00ea-lo sem am\u00e1-lo, dizia-se dele no seu tempo, e tal amor continua existindo.\u00a0 J\u00e1 tive ocasi\u00e3o de contar, em outro lugar, como, no momento da morte de minha m\u00e3e, que fraturou nosso pequeno universo familiar procurei a religi\u00e3o que ela parecia ter levado junto com ela. Meus la\u00e7os com a Igreja anglicana iam sendo desfeitos. Caiu em minhas m\u00e3os um livro que expunha a f\u00e9 cat\u00f3lica e, em poucos dias, o lia apaixonadamente. Em menos de um ano aconteceu a convers\u00e3o e fui recebido na Igreja em 1916.\u00a0\u00a0 Nesse meio tempo, grande devorador de livros, descobri a pesquisa s\u00e9ria de Madame Arv\u00e8de Barine, sobre S\u00e3o Francisco e a Legenda dos Tr\u00eas Companheiros.\u00a0 Fiquei louco de amor por esse mundo maravilhoso. Sonhava tornar-me como Francisco de Assis e quando o diretor encarregado de minha instru\u00e7\u00e3o religiosa perguntou-me o nome que queria\u00a0 receber no\u00a0 batismo, respondi com firmeza: \u201cS\u00e3o Francisco de Assis\u201d. Ele n\u00e3o manifestou nenhum entusiasmo e, com voz calma, disse: \u201cEu teria preferido S\u00e3o Francisco de Sales, mas a escolha \u00e9 sua e ser\u00e1 respeitada\u201d. Eu n\u00e3o conhecia S\u00e3o Francisco de Sales e o padre jesu\u00edta, certamente um santo homem, n\u00e3o acreditava ser oportuno me falar de Francisco de Assis, mas eu, em geral discreto, tornava-me falante quando podia cantar as loas do Pobrezinho.\u00a0 Sentia-me na obriga\u00e7\u00e3o de completar um pouco a instru\u00e7\u00e3o que o reverendo padre, sobre esse grande personagem, dava a entender n\u00e3o conhecer t\u00e3o bem.\u00a0 Quantos pensamentos loucos se agitavam dentro de mim parecidos a um turbilh\u00e3o.\u00a0 Ser como S\u00e3o Francisco de Assis, que gl\u00f3ria!\u00a0 Eu era mesmo mais categ\u00f3rico em meu entusiasmo religioso: \u201cEu quero ser S\u00e3o Francisco de Assis\u201d, declarei\u00a0 um dia a meu diretor espiritual. Sua resposta se limitou a um\u00a0 olhar s\u00e9rio e demorado e nada mais\u201d. (<em>Julien Green, Fr\u00e8re Fran\u00e7ois<\/em>, Ed. Du Seuil, Paris 1997, p. 341-342).<\/p>\n<p><strong>13.<\/strong>\u00a0<strong>Fernando Felix Lopes,<\/strong> em seu\u00a0<em>O Poverello S\u00e3o Francisco de Assis<\/em>, biografia com sabor portugu\u00eas, encantadora em cada uma de suas p\u00e1ginas, faz uma pela de despedida de Francisco: \u201cVoou para o Alto. N\u00e3o voltar\u00e1? Volta de novo \u00e0 terra, \u00f3 Pai S. Francisco. Andaste no trabalho ingente e doloroso de arredar os espinhos que escondem no cora\u00e7\u00e3o do mundo o Reino dos c\u00e9us;\u00a0 chagaste no trabalho os teus p\u00e9s e m\u00e3os, teu peito estalou de cansa\u00e7o num rasg\u00e3o sangrento. E j\u00e1 os lobos amansavam suas gulas e sanhas, e as andorinhas andavam presas no encanto da tua voz, e os homens deixavam os campos de batalha para correr atr\u00e1s de ti em conv\u00edvio fraterno, e at\u00e9 os infi\u00e9is, enternecidos, escutavam teus cantares de Paz e Bem. Parece que j\u00e1 nos sorria o para\u00edso.\u00a0 Mas foste embora naquela madrugada de luz que num instante fulgiu nos negrumes da terra, e logo se apagou. E foi outra vez a noite do pecado. H\u00e1 mais espinhos sobre a crosta da terra; andam \u00e0 solta, mais a\u00e7ulados e gulosos, os lobos que nos espreitam; fugiram aterradas as andorinhas; e as irm\u00e3s cotovias, tristes encapuchadas, vivem numa saudade imensa daquela madrugada que n\u00e3o chegou a amanhecer. Volta, pai S. Francisco, ao teu trabalho de encher a terra da paz do Reino de Deus!\u00a0 Mas, se n\u00e3o voltas, ent\u00e3o espera-me, \u00f3 Pai, espera-me, que tamb\u00e9m quero partir contigo!\u201d (<em>Ed. Franciscana, Braga,\u00a0 1996, p. 493-494<\/em>).<br \/>\n<strong>E agora?<br \/>\n<\/strong><br \/>\nEstamos afivelando nossas bolsas para empreender a viagem at\u00e9 Agudos.\u00a0 Vamos viver a experi\u00eancia do Cap\u00edtulo da Imaculada!\u00a0 Levamos o perfume de Francisco de Assis, alegria de sermos seus disc\u00edpulos e a responsabilidade de mantermos viva sua mem\u00f3ria.\u00a0\u00a0 Depois de percorrer tantas e t\u00e3o extraordin\u00e1rias \u201cvers\u00f5es\u201d\u00a0 de Francisco, sentimos o peso de nossa responsabilidade. Somos franciscanos. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel esquec\u00ea-lo. Faz parte de nossa identidade. Na cortesia de todos os momentos, na ora\u00e7\u00e3o que brota dos cantos mais escondidos do cora\u00e7\u00e3o, na simplicidade do vestir, do comer e do falar,\u00a0 no trabalho de tornar o amor amado, na acolhida de todos, na vontade de ser irm\u00e3o, vamos rumo a Agudos.\u00a0 Que o esp\u00edrito de Francisco nos preceda e nos acompanhe para sermos fi\u00e9is a n\u00f3s\u00a0 mesmos, ao que prometemos e para que, assim,\u00a0 os lobos se tornem mais mansos, as \u00e1guas mais puras, as comunidades dos crist\u00e3os mais evang\u00e9licas\u00a0 e menos burocr\u00e1ticas,\u00a0 nossas casas n\u00e3o apenas resid\u00eancias mas pequenas c\u00e9lulas do Reino novo. Nossas bolsas est\u00e3o prontas para o Cap\u00edtulo&#8230; Boa viagem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Frei Almir Guimar\u00e3es<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11],"tags":[103],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>O que se diz a respeito de Francisco - Carisma - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/o-que-se-diz-a-respeito-de-francisco.html\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O que se diz a respeito de Francisco - Carisma - Franciscanos\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Artigo de Frei Almir Guimar\u00e3es\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/o-que-se-diz-a-respeito-de-francisco.html\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Carisma - 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