{"id":176548,"date":"2019-08-10T00:25:43","date_gmt":"2019-08-10T03:25:43","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/?p=176548"},"modified":"2019-08-10T09:36:40","modified_gmt":"2019-08-10T12:36:40","slug":"clara-de-assis-terna-e-corajosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/clara-de-assis-terna-e-corajosa.html","title":{"rendered":"Clara de Assis: terna e corajosa"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-176549\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/almir_clara_01.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"598\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/almir_clara_01.jpg 840w, https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/almir_clara_01-450x320.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/almir_clara_01-768x547.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/almir_clara_01-150x107.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><\/p>\n<h3>Uma luz sempre a brilhar<\/h3>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\n<em>Fomos colocados na terra por um pequeno espa\u00e7o de tempo para podermos aprender a suportar os raios do amor. <\/em><br \/>\n<strong>William Blake<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em>As ocupa\u00e7\u00f5es mais humildes da casa ficavam para Clara, lavava os p\u00e9s das irm\u00e3s serventes quando chegavam de seus trabalhos por fora, cuidava das enfermas, nas noites frias de inverno andava sol\u00edcita a agasalhar as irm\u00e3s, era ela quem despertava \u00e0 meia noite para as matinas, e ela mesmo acendia as luzes das escadas e espevitava a l\u00e2mpada da capela. Doente desde os trinta e um anos, nunca perdeu o h\u00e1bito do trabalho, nunca amaciou os rigores da pobreza, nunca perdeu a coragem nem a alegria de viver.<\/em><br \/>\n<strong>Fernando Felix Lopes<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Irm\u00e3s, minha profunda convic\u00e7\u00e3o \u00e9 esta: necessitamo-nos reciprocamente. Mutilar\u00edamos o carisma se caminh\u00e1ssemos separadamente. E disto todos seremos respons\u00e1veis. N\u00e3o desejamos e n\u00e3o podemos percorrer estradas paralelas. Caminhando unidos, respeitando nossas diferen\u00e7as jogamos tudo: a fidelidade a Francisco e Clara; a efic\u00e1cia evang\u00e9lica de nossa miss\u00e3o na Igreja e no mundo; a credibilidade diante daqueles que, hoje como ontem, est\u00e3o convencidos de que Francisco e Clara s\u00e3o duas almas g\u00eameas e insepar\u00e1veis.<\/em><br \/>\n<strong>Jos\u00e9 Rodr\u00edguez Carballo, OFM<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>1.<\/strong> Mais uma vez queremos refletir a respeito da figura de Clara, mulher de Assis, terna, corajosa e transparente. Clara de ontem, mas vis\u00edvel entre os que seguem seus caminhos. Clarissas e franciscanos conhecemos o perfil desta que chamamos de irm\u00e3 e de m\u00e3e. Clara era jovem de fam\u00edlia bem situada em Assis. Recebe forte influ\u00eancia da m\u00e3e. Conhecia pormenores dos santu\u00e1rios que Ortolana visitava com suas amigas. Nos saraus da casa dos Offreduccio as mulheres falavam dessas experi\u00eancias religiosas. Clara tinha cora\u00e7\u00e3o reto e desejoso de progredir na descoberta de um Mist\u00e9rio que parecia se insinuar nele. Um desejo que fazia com que tudo o mais ficasse \u00e0 sombra. Um desejo que parecia n\u00e3o ter explica\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p><strong>2.<\/strong> Um rapaz, Francesco de Pedro Bernardone, havia experimentado algo novo e andava mostrando um modo diferente de viver: buscador do Alt\u00edssimo, pregador do evangelho, mo\u00e7o revestido nas vestes do corpo de pobreza e no cora\u00e7\u00e3o dos tecidos delicados do despojamento, simplicidade, do tudo ou nada. O Evangelho&#8230; um fogo a queimar e uma luz a ofuscar. Dele, Clara tinha ideia e mesmo admira\u00e7\u00e3o. E surge nela o desejo de partir, de come\u00e7ar algo novo. Aquele domingo de ramos, a fuga, a vesti\u00e7\u00e3o, a promessa de viver o Evangelho em uni\u00e3o de cora\u00e7\u00e3o com Francisco e seus irm\u00e3os. S\u00e3o Paulo das Abadias e Santo \u00c2ngelo de Panzo. Percal\u00e7os e dificuldades aqui e ali. Veio, ent\u00e3o, o espa\u00e7o de S\u00e3o Dami\u00e3o, o Crucifixo, a singeleza do local, as irm\u00e3s, a vida de todos os dias. O dia a dia. Sempre que poss\u00edvel o relacionamento com Francisco e seus irm\u00e3os. O cotidiano. Vidas que tinham a mesma fonte: o vigor do Evangelho e n\u00e3o a morna pr\u00e1tica religiosa. Tantos anos doente. O tempo passando e Clara percebe que a alma est\u00e1 querendo se ausentar. Era 11 de agosto de 1253: \u201cVai segura, minha alma, tens bom guia para a caminhada. Quem te criou, ele mesmo te santificou e te amou mais do que uma m\u00e3e ama a seu filhinho. Bendito, Senhor, por me haverdes criado\u201d. Esses os come\u00e7os da aventura das clarissas. Nossos mosteiros precisam, de alguma forma, ter o mesmo frescor das origens.<\/p>\n<p><strong>3.<\/strong> \u201cNa raiz da vida do crist\u00e3 existe um movimento fundamental de f\u00e9: encaminhar-se em dire\u00e7\u00e3o a Jesus Cristo para centrar a vida nele. Um \u00eaxodo que leva a conhecer a Deus e seu amor. Uma peregrina\u00e7\u00e3o que conhece a meta. Uma mudan\u00e7a radical que de n\u00f4mades faz peregrinos. O ser peregrino relembra o movimento, a atividade o compromisso. O caminho a ser percorrido implica risco, inseguran\u00e7a, abertura \u00e0 novidade, aos encontros inesperados\u201d (<em>Contemplai<\/em>, n. 11).<\/p>\n<p><strong>4<\/strong>. O sair, deixar as seguran\u00e7as da casa paterna, enfrentar o desconhecido, viver encontros inesperados, sempre na confian\u00e7a, na f\u00e9 de que Deus mostrar-nos-\u00e1 o caminho, como mostrou a Abra\u00e3o. Chiara Lainati: \u201cSozinha deixa para sempre a casa paterna para, aos dezoito anos, seguir os passos de um homem, de um burgu\u00eas, Francisco, que as pessoas tinham como louco. Um salto no vazio. Contra a tradi\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. Contra as conven\u00e7\u00f5es sociais. Contra a pr\u00e1tica normal da Igreja naquele tempo\u201d.<\/p>\n<p><strong>5.<\/strong> Hist\u00f3ria de Clara, nossa hist\u00f3ria, nosso desejo de n\u00e3o sermos embalados apenas pela rotina de uma vida crist\u00e3 muito certinha. Desejo de ir mar a dentro. Tudo, sem reservas. Corpo, cora\u00e7\u00e3o, desejos, for\u00e7as, trabalho, aspira\u00e7\u00f5es mais fundas. Desenhou-se diante das clarissas de ontem e de sempre um estilo de vida centrado na busca de Cristo pobre e vivo, numa vida de louvor como l\u00e2mpadas acesas, junto com mulheres, companheiras e irm\u00e3s, despojadas e f\u00e1ceis de conviv\u00eancia, porque tamb\u00e9m buscam responder ao apelo que vem do Mist\u00e9rio e todas sustentando os membros fr\u00e1geis da Igreja. Clara vai para S\u00e3o Dami\u00e3o. Sozinha. S\u00f3 depois chegam as irm\u00e3s. Nas m\u00e3os de Deus&#8230; sempre nas m\u00e3os de Deus. Clara foi para o deserto ou para o Monte Moriah. Uma vida de confian\u00e7a na incerteza.<\/p>\n<p><strong>6.<\/strong> Clara viveu a aventura de Deus. Saiu de casa sem o mapa do caminho. N\u00e3o haveremos de esquecer nosso ponto de partida. N\u00e3o somos donos de n\u00f3s mesmos. Precisamos ter a coragem de deixar que o Senhor nos mostre as veredas. Que ele possa fazer uma obra de arte nas clarissas. Ser\u00e1 que n\u00e3o dever\u00edamos nos abrir ao novo de Deus? As coisas n\u00e3o est\u00e3o acabadas.<\/p>\n<p><strong>7.<\/strong> Michel Hubaut, franciscano: \u201cH\u00e1 os que aspiram a algo diferente sem saber exatamente o que. Em seu cora\u00e7\u00e3o arde um desejo confuso de felicidade, de fraternidade, de unidade interior, um sentido a dar \u00e0 sua vida. Monges e monjas s\u00e3o vigias do Invis\u00edvel, testemunhas de Deus, capazes de satisfazer os desejos mais profundos do homem. Sua vida questiona o desejo de plenitude escondido em muitos\u201d. \u201cO melhor livro sobre Santa Clara \u00e9 aquele que \u00e9 lido pelas suas irm\u00e3s em nossos dias. Quantas vezes, visitando seus mosteiros tive a agrad\u00e1vel surpresa de sentir o perfume de uma vida, entrevera sombra de uma presen\u00e7a e escutar o murm\u00fario de uma fonte\u201d ( <em>Do livro Sainte Claire d\u2019Assise, Claire-Pascale Jeannet<\/em>, Fayard, 1989).<\/p>\n<p><strong>8<\/strong>. Uma vida de ora\u00e7\u00e3o, sempre. Merton: \u201cO monge \u00e9 um crist\u00e3o que, respondendo a um convite especial de Deus, deixa os interesses de car\u00e1ter mais ativo para entregar-se totalmente \u00e0 Boa Nova do Reino de Deus, \u00e0 \u201cconvers\u00e3o\u201d (metanoia), num esp\u00edrito de ren\u00fancia e ora\u00e7\u00e3o. Em termos positivos devemos entender a vida mon\u00e1stica sobretudo como vida de ora\u00e7\u00e3o. Os elementos \u201cnegativos\u201d: sil\u00eancio, solicitude, jejum, obedi\u00eancia, penit\u00eancia, ren\u00fancia \u00e0 propriedade e ambi\u00e7\u00e3o, todos t\u00eam em vista desobstruir o caminho, de maneira que a ora\u00e7\u00e3o &#8211; medita\u00e7\u00e3o e contempla\u00e7\u00e3o, possam ocupar o espa\u00e7o criado pelo abandono de outros interesses\u201d (<em>Merton, A ora\u00e7\u00e3o contemplativa, Ecclesiae<\/em>, p 29). Clarissas, mulheres que buscam em tudo n\u00e3o perder o esp\u00edrito da santa ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>9<\/strong>. Clara \u00e9 essencialmente uma grande contemplativa, toda a sua vida consistiu em amar absolutamente, em viver face a face com o Absoluto para ir se conformando com ele cada vez mais. Para Clara, a ora\u00e7\u00e3o \u00e9 como um relacionamento pessoal e esponsal, como a respira\u00e7\u00e3o da alma, \u00e9 querer realizar o que lhe pede o Amor, o Esposo do alto da Cruz. Ela n\u00e3o escreveu textos complicados e complexos sobre a contempla\u00e7\u00e3o e eventuais graus da m\u00edstica como castelos e moradas interiores. Em suas cartas a In\u00eas, captamos um pouco do que se passava em seu interior.<\/p>\n<p><strong>10<\/strong>. O cora\u00e7\u00e3o de Clara nunca se saciava. Tanto na sa\u00fade quanto na doen\u00e7a entregava-se \u00e0 ora\u00e7\u00e3o. A Bula de Canoniza\u00e7\u00e3o lembra que ela consagrava \u00e0 ora\u00e7\u00e3o a maior parte do dia e da noite. Servia-se do vocabul\u00e1rio b\u00edblico para descrever a uni\u00e3o com Cristo, seu amor esponsal. \u201cArrasta-me atr\u00e1s de ti! Corramos no odor de teus b\u00e1lsamos, \u00f3 esposo celeste. Vou correr sem desfalecer, at\u00e9 me introduzires em tua adega, at\u00e9 que a tua direita me abrace toda feliz e me d\u00eas o beijo mais feliz de tua boca\u201d (<em>4\u00aa. Carta a In\u00eas<\/em>).<\/p>\n<p><strong>11.<\/strong> Arte sempre dif\u00edcil, esta da ora\u00e7\u00e3o. Preciso prestar aten\u00e7\u00e3o em tudo: caminhar na presen\u00e7a do Senhor, momentos de ora\u00e7\u00e3o pessoal, leitura espiritual, exerc\u00edcio de esvaziamento de si, combate ferrenho aos movimentos de superioridade. O que \u00e9 a contempla\u00e7\u00e3o? Frei Jos\u00e9 Rodr\u00edguez Carballo, em <em>Carta \u00e0s Clarissas de 2006<\/em>, escrevia: \u201cPartamos de um texto da vida de Clara. A santa escreve para In\u00eas querendo ensin\u00e1-la a contemplar. N\u00e3o lhe pede que fale, cante ou reflita, mas somente que ponha sua mente, sua alma e seu cora\u00e7\u00e3o em Jesus Cristo: \u2018Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da gl\u00f3ria. Ponha o cora\u00e7\u00e3o na subst\u00e2ncia da figura divina e transforme-se inteira pela contempla\u00e7\u00e3o, na imagem da divindade <em>(3\u00aa. Carta a In\u00eas<\/em>). Nisto consiste a contempla\u00e7\u00e3o: p\u00f4r, colocar, ordenar a mente, a alma e o cora\u00e7\u00e3o que estejam constantemente voltados para o Senhor como diz S\u00e3o Francisco. Ele e s\u00f3 ele deve ser o centro da capacidade de compreens\u00e3o ( a mente), o centro da capacidade de amor (o cora\u00e7\u00e3o) e o centro da capacidade de viver no mundo de Deus (a alma). Deste modo, a compreens\u00e3o abarca toda a pessoa\u201d (<em>Carta \u00e0s Clarissas 2006<\/em>).<\/p>\n<p><strong>12<\/strong>. Hoje como ontem, a finalidade essencial da vida das clarissas permanece sendo a busca amorosa daquele que as convidou ao deserto para seduzi-las. Sua primeira preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 de permanecerem atentas aos apelos do Esp\u00edrito, de seguir o caminho de Cristo e de viver sob o olhar do Pai. Testemunho de uma Clarissa num livro sobre Clara: \u201cA ora\u00e7\u00e3o \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o de nossa vida, sua respira\u00e7\u00e3o, seu ritmo, seu clima, nosso estado e, de uma certa forma, nossa profiss\u00e3o\u201d. \u201cAdorar \u00e9 simplesmente abrir as m\u00e3os, abrir o cora\u00e7\u00e3o: deixar correr a \u00e1gua da gra\u00e7a, \u00e1gua vivificante do Esp\u00edrito. Rezar \u00e9 antes de tudo deixar-se impregnar, invadir por Deus, por Deus que quer se entreter conosco, na brisa da tarde, como um amigo com seu amigo, simplesmente pela alegria de am\u00e1-lo\u201d. Quem sabe as pessoas, em contato com as irm\u00e3os de nossos mosteiros, tenham vontade de habitar seu interior e n\u00e3o gastar seus sonhos mais profundos naquilo que satisfaz de verdade.<\/p>\n<p>13. Escutar juntos a voz de Deus: \u201cA capacidade de sentar-se em coro torna os consagrados e consagradas n\u00e3o profetas solit\u00e1rios, mas homens e mulheres de comunh\u00e3o, de escuta comum da Palavra, capazes de elaborar juntos significados e sinais novos, pensados e constru\u00eddos tamb\u00e9m no tempo da persegui\u00e7\u00e3o e do mart\u00edrio. Trata-se de um caminho para a comunh\u00e3o de diferen\u00e7as, sinal do Esp\u00edrito que sopra nos cora\u00e7\u00f5es a paix\u00e3o para que todos sejam uma s\u00f3 coisa (Jo 17,21). Assim se manifesta uma Igreja que, sentada \u00e0 mesa, depois de um caminho de d\u00favidas e de coment\u00e1rios tristes e sem esperan\u00e7a &#8211; reconhece o seu Senhor a partir do p\u00e3o (Lc 24, 13-35), revestida da essencialidade do Evangelho\u201d (<em>Perscrutai<\/em>, n. 17)<\/p>\n<p><strong>14.<\/strong> Pobreza e alegria &#8211; Pobreza, tema que pode nos parecer gasto. J\u00e1 ouvimos falar tanto dele e da pobreza de Clara, do privil\u00e9gio da pobreza. Pobreza \u00e9 experimentar a alegria de ter como tesouro \u00fanico o Deus que nos sustenta com o p\u00e3o, mata a sede de nossas gargantas, nos d\u00e1 irm\u00e3os, nos eleva e releva depois da faltas. Ele \u00e9 riqueza de nossa vida. N\u00e3o contamos com nossos meios. \u201cSe o Senhor n\u00e3o edificar a casa, em v\u00e3o trabalham os construtores. Fazemos o melhor poss\u00edvel. Mas tudo \u00e9 presente do grande Doador. H\u00e1 a pobreza das vestes e dos sapatos, mas antes a simplicidade de cora\u00e7\u00e3o e a capacidade de sairmos do centro da passarela. Pobres, mas alegres e ricos por dentro. Clara liberta-se de tudo. Nenhum tipo de apego poder\u00e1 toldar de nuvens escuras sua alegria interior. Ela n\u00e3o canoniza a mis\u00e9ria, mas veste-se da singeleza de Cristo que sendo de condi\u00e7\u00e3o divina n\u00e3o hesitou em lavar os p\u00e9s e dar a vida dos seus .<\/p>\n<p><strong>15.<\/strong> Num mundo para o qual alegria \u00e9 torpor, ru\u00eddo, bebida e o del\u00edrio de drogas, num mundo marcado por um consumismo devorador, num mundo de insatisfa\u00e7\u00e3o e vazio, mundo em que o fundo dos olhos revelam desencanto, Clara brilha como mulher alegre em seu despojamento. O que encanta nos mosteiros das clarissas \u00e9 a beleza na simplicidade das coisas e a leveza das irm\u00e3s. N\u00e3o carregam bagagens pesadas, mas bolsas leves.<\/p>\n<p><strong>16.<\/strong> Giacomo Bini: \u201cA pobreza \u00e9 liberdade, \u00e9 criar um espa\u00e7o em n\u00f3s para Deus que vem, Deus conosco. Permanecer livre para o Reino impedir\u00e1 todo tipo de apropria\u00e7\u00e3o, mesmo das pr\u00e1ticas asc\u00e9ticas. \u201cO tempo \u00e9 breve\u201d. Eis porque o religioso \u00e9 itinerante, estrangeiro e peregrino nesta terra voltados para a P\u00e1tria. \u00c9 um perfeito n\u00f4made, um andarilho incans\u00e1vel como Abra\u00e3o, como os santos, com os olhos fixos no Senhor que passa, que vem. N\u00e3o se pode estar distra\u00eddo ou apegado a nada, nem a ningu\u00e9m. Refugiar-se ou contentar-se com viver a pobreza s\u00f3 em n\u00edvel asc\u00e9tico significa esvaziar o sentido do voto, que \u00e9 acima de tudo abertura a Deus, \u00e9 paix\u00e3o e entusiasmo, e busca do \u201ctesouro\u201d encontrado ou vislumbrado. A ascese, vivida exclusivamente, pode nos fechar orgulhosamente em n\u00f3s mesmos\u201d (<em>Ouvi, irm\u00e3s<\/em>, p. 240-241).<\/p>\n<p><strong>17.<\/strong> O amor em fraternidade &#8211; A fraternidade \u00e9 outra marca do carisma clariano. A pobreza brota do amor. Amor que vem de Deus e une as irm\u00e3s, promove a estima pelos de fora. Amar a Deus e os homens e mulheres porque Deus os ama. Para Clara, o sopro do Esp\u00edrito do Deus-amor \u00e9 quem re\u00fane as irm\u00e3s em fraternidade para a partilha evang\u00e9lica sugerida por Francisco. Cada irm\u00e3 \u00e9 um dom, presente do amor do Pai e todas constituem a fraternidade para construir a unidade no m\u00fatuo amor. O amor verdadeiro \u00e9 oposto ao individualismo e egocentrismo.<\/p>\n<p><strong>18<\/strong>.A fraternidade ser\u00e1 sempre elemento irrenunci\u00e1vel no projeto franciscano-clariano. A fraternidade se manifesta em gestos marcados pelo afeto que revelam um relacionamento transparente, sem duplicidade, baseado na simplicidade, na familiaridade e no reconhecimento que Deus deu a cada uma e a cada um. Cora\u00e7\u00f5es puros como o de Francisco e de Clara. Afinidades poss\u00edveis, mas respeito por todos, de modo particular os irm\u00e3os que vivem crises e s\u00e3o diferentes. Pessoas capazes de descobrir a obra do Esp\u00edrito nos outros.<\/p>\n<p><strong>19.<\/strong> Se a fraternidade \u00e9 dom que se acolhe e gratid\u00e3o, \u00e9 tamb\u00e9m uma tarefa a ser assumida, cultivada e preservada. Nosso trabalho \u00e9 cultiv\u00e1-la com as normas mais rudimentares da conviv\u00eancia: acolhida, aceita\u00e7\u00e3o do diferente, hospitalidade no sentido mais amplo. Sabemos todos, por experi\u00eancia, que a constru\u00e7\u00e3o da fraternidade n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Ela \u00e9 lugar constante do exerc\u00edcio de convers\u00e3o ao Evangelho. Espa\u00e7o de cultivo da extirpa\u00e7\u00e3o do ego\u00edsmo natural e do perd\u00e3o. Impl\u00edcito ou expl\u00edcito. N\u00e3o nos admiramos que, nesse contexto, Clara fa\u00e7a suas as exorta\u00e7\u00f5es de Francisco. Quer que as irm\u00e3s se guardem de toda soberba, vangl\u00f3ria, inveja, avareza, cuidado e solicitude deste mundo, da detra\u00e7\u00e3o e da murmura\u00e7\u00e3o, da dissen\u00e7\u00e3o e da divis\u00e3o (cf, Regra 10).<\/p>\n<p><strong>20<\/strong>. Depoimento de uma Clarissa em texto de Michel Hubaut: \u201cA vida fraterna concretiza nosso compromisso no cora\u00e7\u00e3o da realidade, porque dia ap\u00f3s dia necessita se encarnar em n\u00f3s o grande combate de Cristo, ou seja, o do amor contra todas as for\u00e7as de morte. A mais banal das jornadas \u00e9 toda feita de mil ocasi\u00f5es para que se escolha o Evangelho, de optar pelo amor, pela justi\u00e7a, pela paz e de transformar o mundo a partir do interior transformando-nos a n\u00f3s mesmos. Em tal caminho de convers\u00e3o minhas irm\u00e3s me revelam tamb\u00e9m o rosto de Deus: seu afeto me faz lembrar sua ternura, suas manifesta\u00e7\u00f5es de coragem me falam da multid\u00e3o de seus dons, o perd\u00e3o elas d\u00e3o confirmam a miseric\u00f3rdia do Senhor. O dia a dia no mosteiro \u00e9 aventura que a cada dia se renova, sempre juntas\u201d.<\/p>\n<p><strong>21.<\/strong> Vivendo numa sociedade em que impera o ego\u00edsmo, temos que reconhecer os efeitos demolidores do individualismo que nos assedia de todos os lados. O amor fraterno de Clara em fraternidade \u00e9 t\u00e3o atual quanto necess\u00e1rio. Trata-se de um esp\u00edrito de fam\u00edlia. As irm\u00e3s possuem o esp\u00edrito de amoroso servi\u00e7o, tentativa de converter o af\u00e3 de domina\u00e7\u00e3o de uns sobre os outros pelo esp\u00edrito de doa\u00e7\u00e3o. Neste mundo de dessolidariza\u00e7\u00e3o em que cada um cuida das suas coisas, em que se reivindica a ambiguidade como estilo, em que o hedonismo \u00e9 tido como valor onde o homem quero m\u00ednimo de coa\u00e7\u00f5es e o m\u00e1ximo de escolhas particulares, o m\u00ednimo de austeridade e o m\u00e1ximo de desejo, Clara nos oferece a mensagem do amor em fraternidade, amor solid\u00e1rio com todos os homens para realizar o projeto de Deus Pai: uma forma solid\u00e1ria que viva relacionamentos de amor que viva o amor na fraternidade (Maria del Carmen Elcid).<\/p>\n<p><strong>22<\/strong>.Mission\u00e1rias no claustro, sem prega\u00e7\u00e3o. Simplesmente por sua vida, as clarissas anunciam o absoluto de Deus a pessoas que perderam a sede pelo Infinito, dizem que ele existe, est\u00e1 perto delas e que a sua vida se passa diante de seus olhos amorosos. No sil\u00eancio, na realiza\u00e7\u00e3o de coisas simples, no cuidado do perd\u00e3o, na intercess\u00e3o pelos membros vacilantes da Igreja, as clarissas s\u00e3o mission\u00e1rias. O Documento <em>Anunciai<\/em> : \u201cInseridos na miss\u00e3o eclesial, n\u00f3s, religiosos, participamos dela plenamente superando os limites de nossos Institutos. Toda forma de vida consagrada \u00e9, portanto, chamada a tornar vis\u00edvel na Igreja e nas obras aquilo que a Igreja privilegia e indica como sua miss\u00e3o no mundo contempor\u00e2neo. Ressoa um convite como imperativo urgente: reconhecer os portos para os quais o Esp\u00edrito nos orienta atrav\u00e9s das inst\u00e2ncia que a Igreja nos dirige: conceber modalidades de escuta e de encontro para harmonizar os carismas, e com a coragem evang\u00e9lica, projetos de comunh\u00e3o. Toda a vida consagrada, nas suas diversas formas &#8211; virginal, mon\u00e1stica, apost\u00f3lica,secular -, \u00e9 mission\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>23.<\/strong> \u201cQuando recebemos de Deus um dom, um, cinco, dez talentos somos chamados a faz\u00ea-los frutificar em favor dos outros. Sobre isso seremos julgados. Uma vez que toda voca\u00e7\u00e3o \u00e9 mission\u00e1ria, temos a responsabilidade de nos renovar. A renova\u00e7\u00e3o da vida pessoal ou do mosteiro n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o, mas um dever diante do mundo. Amanh\u00e3, a hist\u00f3ria nos julgar\u00e1 se formos capazes de transmitir este dom, o carisma, como no passado fizeram nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s. O mundo nos espera de bra\u00e7os abertos\u201d ( <em>Bini, Ouvi, irm\u00e3s<\/em>, p. 210).<\/p>\n<p><strong>24<\/strong>. Clara e Francisco nos convidam a refletir sobre a vida e a exist\u00eancia. \u201cComo n\u00e3o propor Clara, bem como Francisco, \u00e0 aten\u00e7\u00e3o dos jovens de hoje. O tempo que nos separa da trajet\u00f3ria desses dois santos n\u00e3o diminuiu seu fasc\u00ednio. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 poss\u00edvel ver a sua atualidade no confronto com as ilus\u00f5es e desilus\u00f5es que muitas vezes marcam a hodierna condi\u00e7\u00e3o juvenil. Nunca uma \u00e9poca fez sonhar tanto os jovens, com milhares de est\u00edmulos de uma vida em que tudo parece poss\u00edvel e l\u00edcito. E, no entanto, quanta insatisfa\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente, quantas vezes a busca de felicidade, de realiza\u00e7\u00e3o, acaba por fazer empreender caminhos que levam a para\u00edsos artificiais como os da droga e da sensualidade desenfreada. Tamb\u00e9m a situa\u00e7\u00e3o atual, com a dificuldade de encontrar um trabalho digno e de formar uma fam\u00edlia unida e feliz, acrescenta nuvens no horizonte. Mas n\u00e3o faltam jovens que, tamb\u00e9m nos nossos dias, aceitam o convite de confiar-se a Cristo e a enfrentar com coragem, responsabilidade e esperan\u00e7a o caminho da vida, inclusive fazendo a escolha de deixar tudo para seguir no servi\u00e7o total a ele e aos irm\u00e3os. A hist\u00f3ria de Clara, juntamente com a de Francisco, \u00e9 um convite a meditar sobre o sentido da exist\u00eancia e procurar em Deus o segredo da alegria verdadeira. \u00c9 uma prova concreta que quantos cumprem a vontade do Senhor e confiam nele n\u00e3o s\u00f3 nada perdem, mas encontram o verdadeiro tesouro capaz de dar sentido a tudo (Bento XVI, <em>Carta ao Bispo de Assis-Nocera Umbra \u2013 Gauldo Tadino por ocasi\u00e3o do Ano Clariano,<\/em> 2012).<\/p>\n<p><strong>25<\/strong>. Considera\u00e7\u00f5es finais de Andr\u00e9 Vauchez, historiador franc\u00eas em escrito que aborda o tema de Santa Clara e os movimentos religiosos de seu tempo: \u201cClara n\u00e3o reivindicou para ela e para suas irm\u00e3s o direito de pregar ou de ensinar, mas desejava ardentemente viver em simbiose com os irm\u00e3os menores e recusava a ideia de ver a sua comunidade transformar-se em mosteiro de virgens reclusas e dotadas de rendas; se parece n\u00e3o ter tido dificuldade em aceitar a estabilidade e a clausura e \u00e0 semelhan\u00e7a das reclusas que ao mesmo tempo se dedicavam \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o guardavam contato com o mundo, Clara sempre se recusou ceder no cap\u00edtulo da pobreza, porque o fato de viver numa precariedade permanente constitu\u00eda o ponto sobre o qual a sua funda\u00e7\u00e3o podia, diferenciando-se do monarquismo beneditino cl\u00e1ssico, permanecer fiel ao esp\u00edrito do <em>Poverello<\/em> e, atrav\u00e9s dele, com as aspira\u00e7\u00f5es dos movimentos leigos do s\u00e9culo XII e come\u00e7os do s\u00e9culo XIII\u201d.<\/p>\n<p><strong>Final<\/strong><\/p>\n<p>Fomos colocados na terra por um pequeno espa\u00e7o de tempo para podermos suportar os raios do amor (William Blake). Por isso nos tornamos crist\u00e3os, franciscanos e clarissas. Queremos aproveitar o tempo e nos acostumar com a gl\u00f3ria prometida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Frei Almir Guimar\u00e3es<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":176550,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[65],"tags":[108],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Clara de Assis: terna e corajosa - Carisma - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/clara-de-assis-terna-e-corajosa.html\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Clara de Assis: terna e corajosa - Carisma - Franciscanos\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Artigo de Frei Almir Guimar\u00e3es\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/clara-de-assis-terna-e-corajosa.html\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Carisma - 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