{"id":176386,"date":"2011-01-02T16:20:38","date_gmt":"2011-01-02T18:20:38","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/?p=176386"},"modified":"2019-08-06T13:24:49","modified_gmt":"2019-08-06T16:24:49","slug":"lampejos-da-forma-de-vida-de-santa-clara-de-assis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/lampejos-da-forma-de-vida-de-santa-clara-de-assis.html","title":{"rendered":"Lampejos da forma de vida de Santa Clara de Assis"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-176387 aligncenter\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/clara_mannes.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"663\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/clara_mannes.jpg 840w, https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/clara_mannes-450x355.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/clara_mannes-768x606.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/clara_mannes-150x118.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><\/p>\n<p><strong>Por Frei Jo\u00e3o Mannes, OFM<\/strong><\/p>\n<p>Ao longo do tri\u00eanio 2009-2012 a Fam\u00edlia Franciscana do Brasil e do mundo prepara-se para a celebra\u00e7\u00e3o dos 800 anos de convers\u00e3o (1212) de Santa Clara (1194-1253), que se realizar\u00e1 em 2012. Na hist\u00f3ria crist\u00e3, Clara \u00e9, certamente, a mulher que mais fielmente se conformou ao Filho de Deus encarnado. Por isso, no presente artigo tem-se por objetivo chamar a aten\u00e7\u00e3o para alguns aspectos essenciais de sua Forma de Vida, inspirada pelo Senhor e Servo Jesus Cristo atrav\u00e9s do exemplo e da doutrina de S\u00e3o Francisco. Dar-se-\u00e1 especial \u00eanfase ao \u201cprivil\u00e9gio da pobreza\u201d, pois, outrora como agora, onde falta amor \u00e0 pobreza n\u00e3o h\u00e1 aut\u00eantica experi\u00eancia religiosa.<\/p>\n<p><strong>1 \u2013 A Forma de Vida come\u00e7a \u201cem nome do Senhor\u201d<\/strong><\/p>\n<p>A primeira e origin\u00e1ria Forma de Vida professada por Clara e suas Irm\u00e3s foi escrita por Francisco de Assis, e devia ser muito semelhante \u00e0 primeira Regra (Proto-Regra) que ele escreveu para si e para os Frades (cf. RB 1,1; RSC 1,3). Pois, o mist\u00e9rio que d\u00e1 origem \u00e0 decis\u00e3o de Francisco de seguir Jesus Cristo pobre e crucificado e viver aquela maneira ordenada por Cristo no Evangelho do Envio dos Ap\u00f3stolos \u00e9 o mesmo que encanta, fascina e converte Clara de Assis ao Evangelho de Jesus Cristo. Mais que em Francisco, Clara tem no mist\u00e9rio da expropria\u00e7\u00e3o divina o cora\u00e7\u00e3o de toda a sua exist\u00eancia religiosa.<\/p>\n<p>No entanto, \u00e9 importante ter presente a luta intr\u00e9pida de Clara, at\u00e9 sua morte, para obter a aprova\u00e7\u00e3o oficial da Igreja para a Regra que ela mesma escrevera. Essa Regra ou Forma de Vida genuinamente clariana s\u00f3 foi aprovada pelo Papa Inoc\u00eancio IV aos 09 de agosto de 1253 e recebida com a Bula papal por Clara no dia 10, portanto, um dia antes de sua morte, 11 de agosto.<\/p>\n<p>Ao abrir a Regra de Santa Clara nos deparamos primeiramente com a Bula do papa Inoc\u00eancio IV que confirmou e assegurou a eclesialidade e perpetuidade da Forma de Vida da Ordem das Irm\u00e3s pobres. \u00c9 na e atrav\u00e9s da Ordem das Irm\u00e3s Pobres, canonicamente aprovada pela Igreja, que flui at\u00e9 n\u00f3s, para n\u00f3s e para o mundo o esp\u00edrito origin\u00e1rio da Forma de Vida clariana. Sem a Ordem, certamente, n\u00e3o ter\u00edamos essa preciosa espiritualidade evang\u00e9lica que, no decorrer dos s\u00e9culos, vem encantando tantos homens e mulheres desejosos de seguir Jesus Cristo na viv\u00eancia radical do Evangelho (cf. DORVALINO, 2009, p. 48-55). Na sauda\u00e7\u00e3o inicial \u00e0 senhora Clara, bem como \u00e0s outras Irm\u00e3s, tanto presentes como futuras, o Papa deseja \u201csa\u00fade e b\u00ean\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica\u201d.<\/p>\n<p>Ao desejar a b\u00ean\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica \u00e0s Irm\u00e3s, certamente o Papa expressou o seu ardente desejo de que elas fossem sempre imbu\u00eddas da for\u00e7a, do vigor e do \u00e2nimo que transformou aqueles homens, simples e rudes pescadores, em dedicados ap\u00f3stolos e exemplares testemunhas de Jesus Cristo e de seu Evangelho. E \u00e9 bem prov\u00e1vel que ao desejar-lhes sa\u00fade, a autoridade apost\u00f3lica expressou o desejo de que as Irm\u00e3s fossem sempre de alma pura, salva, livre, desprendida e desapegada de tudo o que pudesse ser impedimento \u00e0 uni\u00e3o total com o Amado Jesus Cristo. Assim, despojada de tudo, a Forma de Vida clariana seria sustentada unicamente pela for\u00e7a, pelo Esp\u00edrito que nutriu e ratificou a vida dos ap\u00f3stolos (cf. DORVALINO, 2009, p. 40-41).<\/p>\n<p>Clara de Assis, em seu Testamento, destaca que foi o alt\u00edssimo Pai celeste que iluminou o seu cora\u00e7\u00e3o para fazer penit\u00eancia:<\/p>\n<p>Depois que o alt\u00edssimo Pai celestial, por sua miseric\u00f3rdia e gra\u00e7a, se dignou iluminar o meu cora\u00e7\u00e3o para fazer penit\u00eancia, segundo o exemplo e doutrina de nosso bem-aventurado pai Francisco, pouco depois de sua convers\u00e3o, com algumas irm\u00e3s que Deus me dera logo ap\u00f3s a minha convers\u00e3o, eu lhe prometi obedi\u00eancia voluntariamente (TestC 24s; cf. RSC 6,1).<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, o exemplo e doutrina de Francisco teve grande influ\u00eancia na decis\u00e3o vocacional de Clara. No entanto, ela mesma assegura que o processo de sua convers\u00e3o teve in\u00edcio porque Deus, o Pai de miseric\u00f3rdia, se dignou iluminar o seu cora\u00e7\u00e3o, e a elegeu para ser a disc\u00edpula e esposa amada do seu Filho Jesus. Ademais, assegura a serva de Cristo, que a vida de penit\u00eancia empreendida por ela \u00e9 uma volunt\u00e1ria resposta \u00e0 convoca\u00e7\u00e3o divina de conformar-se a Jesus Cristo (cf. RSC 6,1). Enfim, a exist\u00eancia religiosa de Clara teve in\u00edcio em Deus, conforme tamb\u00e9m atesta o t\u00edtulo do primeiro cap\u00edtulo da Forma de Vida da Ordem das Irm\u00e3s Pobres: \u201cEm nome do Senhor come\u00e7a a forma de vida das Irm\u00e3s Pobres\u201d.<\/p>\n<p>A express\u00e3o \u201cnome\u201d (em nome do Senhor) indica aquilo que o Senhor \u00e9 essencialmente, isto \u00e9, o seu modo de ser de servo. Paradoxalmente o Senhor \u00e9 aquele que mais serve; o Senhor \u00e9 aquele que se humilha at\u00e9 o extremo. De modo que, ao iniciar a sua Forma de Vida invocando o nome do Senhor, Clara disp\u00f5e-se a viver no vigor, na energia, na disposi\u00e7\u00e3o do Senhor-servo. A Forma de Vida clariana nasce, cresce, amadurece e se consuma no esp\u00edrito do Senhor e Servo Jesus Cristo. Portanto, na express\u00e3o \u201cem nome do Senhor\u201d, anuncia-se que o sentido fundamental da vida de Clara consiste em deixar-se impregnar e conduzir pelo \u201cesp\u00edrito do Senhor e seu santo modo de operar\u201d (RB 10,9).<\/p>\n<p>Por fim vale ressaltar que Clara estava convicta de que a sua Forma de Vida estava sendo gerada pelo Senhor no seio da Igreja (cf. TestC 46). Tinha a consci\u00eancia de que n\u00e3o estava nesta Vida por iniciativa particular, sua, mas porque Deus a havia escolhido por sua pura benevol\u00eancia e infinita miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p><strong>2 \u2013 Relacionamento esponsal com Jesus Cristo<\/strong><\/p>\n<p>A Dama Pobre de Assis, por inspira\u00e7\u00e3o divina, encontrou o sentido fundamental de sua exist\u00eancia na pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus que incondicionalmente assumiu a condi\u00e7\u00e3o humana na forma de Servo, at\u00e9 a morte de Cruz. O mist\u00e9rio da encarna\u00e7\u00e3o (<em>k\u00e9nosis)<\/em> do Filho de Deus, tal qual aconteceu, em pobreza e humildade, est\u00e1 na raiz da espiritualidade de Santa Clara.<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o fundamental de vida de Santa Clara \u00e9 pelo seguimento de Jesus Cristo pobre. Ela \u201cj\u00e1 n\u00e3o queria mais nada a n\u00e3o ser Cristo\u201d (2LV 12). E ao colocar-se diante de Jesus n\u00e3o tinha diante dos olhos um programa de virtudes a serem praticadas, mas estava diante de uma pessoa, que trazia uma proposta capaz de apaixonar e atrair disc\u00edpulos e disc\u00edpulas para a grande aventura de viver o Evangelho. O disc\u00edpulo\/a \u00e9 amante de Algu\u00e9m que atrai e fascina, porque encarna e concretiza os anseios humanos mais profundos (cf. 2LV 7).<\/p>\n<p>Por conseguinte, a ess\u00eancia da vida de Clara e de suas Irm\u00e3s \u00e9, antes de qualquer outra coisa, amar uma pessoa, Jesus Cristo, como resposta ao seu amor. \u201cAme com todo cora\u00e7\u00e3o a Deus (cf. Dt 111; Lc 10,27) e a seu Filho Jesus, crucificado por n\u00f3s pecadores, sem permitir que ele saia de sua recorda\u00e7\u00e3o\u201d (Er 11). Entretanto, n\u00f3s, raramente, nos damos conta de que n\u00e3o somos n\u00f3s que amamos, quando amamos. \u00c9 o amor que nos ama, nos leva e nos faz amar o que amamos. Esta \u00e9 a m\u00edstica de Santa Clara que, no \u00edntimo do seu cora\u00e7\u00e3o, deixa-se simplesmente enlevar pelo amor do Amado, e, por isso, todo o seu afeto, amor e caridade para com as Irm\u00e3s (cf. LSC 38), aos pobres e doentes s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es concretas de sua rela\u00e7\u00e3o amorosa com Jesus Cristo. \u00c9 vivendo no amor a Jesus Cristo que se chega a ser morada de Deus (cf. Jo 14,23) e se adquire aquele olhar de f\u00e9 que, gra\u00e7as a Ele, nos permite contemplar o rosto do Amado no rosto dos irm\u00e3os e irm\u00e3s.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que Clara, \u201cserva indigna de Cristo e plantinha (em latim<em> plantula<\/em> = rebento, broto) do bem-aventurado pai Francisco\u201d (RSC 1,3) mergulha na mais \u00edntima solid\u00e3o de sua alma, reencontra-se a si mesma e a todas as criaturas, que antes abandonara por amor a Deus. Sair de si, desprender-se do eu \u00e9 achegar-se ao portal da origem de todos os seres. Nesse total desprendimento de si a alma humana entrev\u00ea o aceno do Divino que se revela e se esconde no interior de cada criatura. De modo que a clausura material de Clara e de suas Irm\u00e3s (cf. RSC 11) n\u00e3o \u00e9 fuga nem rejei\u00e7\u00e3o do mundo, mas \u00e9, antes, express\u00e3o de um sil\u00eancio e recolhimento interior (cf. LSC 36), que possibilita a contempla\u00e7\u00e3o de si mesma e de todos os seres do universo, \u00e0 luz da Palavra criadora que jorra do sil\u00eancio eterno de Deus. Na vig\u00eancia do radical desprendimento e da total disponibilidade revela-se toda a profundidade ontol\u00f3gica das criaturas. Somente Deus \u00e9 ser, toda a criatura \u00e9 um sendo que tem de receber o ser de Deus.<\/p>\n<p>Portanto, Clara, com todas as fibras do cora\u00e7\u00e3o, procurou evitar que \u201ctoda soberba, vangl\u00f3ria, inveja, avareza, cuidado e solicitude deste mundo\u201d (RSC 10,6) desviassem o seu cora\u00e7\u00e3o do \u00fanico necess\u00e1rio, Jesus Cristo. Ser puro, casto e virginal \u00e9 ser livre dos apegos que traduzem os falsos absolutos da vida: a autopromo\u00e7\u00e3o, o ac\u00famulo de honra, fama, riqueza e poder. Ter o cora\u00e7\u00e3o puro significa n\u00e3o se deixar sufocar pelos cuidados e solicitudes deste mundo, mas voltar-se totalmente para Deus, de tal maneira que Ele possa habitar no cora\u00e7\u00e3o de forma permanente (cf. 2LV 29). Foi assim, conservando o seu corpo casto e virginal, que Clara reviveu espiritualmente o mist\u00e9rio da m\u00e3e do Senhor, que humildemente disp\u00f4s-se \u00e0 a\u00e7\u00e3o transformadora do Esp\u00edrito Santo e tornou-se efetivamente a m\u00e3e do Filho do alt\u00edssimo Pai (cf. 3In 24-25).<\/p>\n<p>Entretanto, ser m\u00e3e do Filho de Deus e t\u00ea-lo como \u00fanico esposo n\u00e3o \u00e9 um privil\u00e9gio exclusivo das Damas pobres. Conforme atesta Francisco na Carta aos Fi\u00e9is, todos aqueles e aquelas que realizam as obras do Pai celestial \u201cs\u00e3o esposos, irm\u00e3os e m\u00e3es (cf. Mt 12,50) de Nosso Senhor Jesus Cristo\u201d (2Fi 50). Essa formula\u00e7\u00e3o de Francisco, repetida por Clara, tem base no texto b\u00edblico: \u201cAquele que fizer a vontade de meu Pai que est\u00e1 nos c\u00e9us, esse \u00e9 meu irm\u00e3o, irm\u00e3 e m\u00e3e\u201d (Mt 12,50; cf. Mc 3,35).<\/p>\n<p><strong>3 \u2013 A gra\u00e7a do \u201cprivil\u00e9gio da pobreza\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Clara sente-se profundamente agraciada por Deus e por isso continuamente d\u00e1 gra\u00e7as e louvores a Deus por todos os benef\u00edcios recebidos, conforme admoesta o ap\u00f3stolo Paulo: \u201cEm todas as circunst\u00e2ncias dai gra\u00e7as porque esta \u00e9 a vontade de Deus em Jesus Cristo\u201d (1Ts 5,18).<\/p>\n<p>Entre os v\u00e1rios benef\u00edcios outorgados por Deus, est\u00e1 o inestim\u00e1vel dom da vida de todas as criaturas. A vida de todos os seres emerge continuamente do mist\u00e9rio abissal da gratuidade divina que funda a exist\u00eancia finita sem porqu\u00ea nem para qu\u00ea, unicamente porque quer manifestar-se ad extra por amor \u00e0s suas criaturas. Cada criatura \u00e9 um ente (ens) que tem de receber o ser de Deus. \u00c9 alhures, portanto, que lhe vem a vida, a intelig\u00eancia, a vontade ou qualquer outra potencialidade.<\/p>\n<p>Basicamente, foi por gra\u00e7a do Pai celeste que se iniciou nossa hist\u00f3ria terrena. Ser filho ou criatura significa ter a honra de ser portador da for\u00e7a e do vigor de algu\u00e9m que tomou a iniciativa de criar-nos, fazer-nos surgir sem nenhum merecimento nosso. De fato, Deus ama com amor eterno cada criatura, n\u00e3o por causa dos m\u00e9ritos da beleza e bondade delas, mas ama simplesmente porque \u00e9 esse o seu modo pr\u00f3prio e \u00edntimo de ser. Deus \u00e9 Amor gratuito; de gra\u00e7a \u00e9 sua benevol\u00eancia para com todos, at\u00e9 para com os ingratos e maus (Lc 6,35). Compreende-se, ent\u00e3o, porque a vida de Clara tornara-se um hino de louvor e de a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as \u00c0quele que a criou, guiou e protegeu: \u201cE bendito sejais V\u00f3s, Senhor, que me criastes\u201d (LSC 46,5).<\/p>\n<p>Contudo, n\u00e3o somente o fato de existirmos \u00e9 dom de Deus. Tamb\u00e9m nossas boas obras procedem do Sumo Bem, que se comunica a si mesmo no ser e operar de cada criatura. Raz\u00e3o pela qual ningu\u00e9m poderia se apropriar e se vangloriar de suas boas obras, nem invejar as do seu pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o ao Doador da gra\u00e7a, do qual cremos que procedem toda d\u00e1diva boa e todo dom perfeito (Tg 1,17), pois adornou-a com tantos t\u00edtulos de virtude e a fez brilhar em sinais de tanta perfei\u00e7\u00e3o, para que, feita imitadora atenta do Pai perfeito (cf. Mt 5,48), mere\u00e7a ser t\u00e3o perfeita que seus olhos n\u00e3o vejam em voc\u00ea nada de imperfeito (2In 3-4).<\/p>\n<p>No entanto, motivo de maior louvor e gratid\u00e3o a Deus \u00e9 que o ser humano seja capaz de corresponder \u00e0 bondade de Deus que graciosamente comunica todo o seu ser a cada criatura. Em outras palavras, o ser humano \u00e9 de uma dignidade especial\u00edssima por ter sido criado e chamado por Deus a ser \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus. Entre todas as gra\u00e7as recebidas da generosidade do Pai est\u00e1, pois, o inestim\u00e1vel dom da voca\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>Entre outros benef\u00edcios que temos recebido e ainda recebemos diariamente da generosidade do Pai de toda miseric\u00f3rdia e pelos quais temos que agradecer ao glorioso Pai de Cristo, est\u00e1 a nossa voca\u00e7\u00e3o que, quanto maior e mais perfeita, mais a Ele \u00e9 devida (TestC 2-3).<\/p>\n<p>A alma humana, porque criada \u00e0 imagem de Deus, \u00e9 essencialmente receptividade e difus\u00e3o gratuita de si mesmo. Recebemos nossa vida como dom e com a capacidade de do\u00e1-la gratuitamente aos outros \u00e0 semelhan\u00e7a de Deus que renunciou \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o divina e assumiu a condi\u00e7\u00e3o de Servo, em Jesus Cristo. E ao assumir a condi\u00e7\u00e3o de Servo, at\u00e9 a morte de Cruz, agraciou-nos com a voca\u00e7\u00e3o de sermos semelhantes a Ele. Eis o sentido absoluto do nosso ser e viver: \u201cEle mesmo, o Pai celeste, que em seu Filho muito amado, Jesus Cristo, vem se dando a cada um de n\u00f3s num convite e chamado para que a Ele n\u00f3s tamb\u00e9m nos doemos do mesmo modo, num encontro de pura gratuidade\u201d (DORVALINO, 2009, p. 216-217).<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, Clara intuiu de forma extraordin\u00e1ria a voca\u00e7\u00e3o divina do humano, ou seja, de nada reter para si mesmo para que totalmente nos receba aquele que totalmente se nos oferece (cf. Ord 29). Apropriar-se de qualquer coisa \u00e9, na perspectiva clariana, macular a imagem de Deus impressa na alma humana, bem como \u00e9 ser ladr\u00e3o, \u00e9 praticar um roubo a Deus. Apoderar-se de alguma coisa \u00e9 um ultraje, um abuso \u00e0 bondade de Deus que distribuiu tudo com copiosa benignidade aos dignos e aos indignos.<\/p>\n<p>Clara lutou at\u00e9 a morte, com todas as fibras do seu cora\u00e7\u00e3o, pelo \u201cprivil\u00e9gio\u201d de viver em total pobreza. O \u201cprivil\u00e9gio da Pobreza\u201d, como foi chamada a bula de Inoc\u00eancio III, foi concedido \u00e0s Damas Pobres em 1216. O Papa escreveu:<\/p>\n<p>Como \u00e9 manifesto, desejando ardentemente dedicar-vos unicamente ao Senhor, abdicastes ao desejo das coisas temporais; por isso, tendo vendido e distribu\u00eddo tudo aos pobres, proponde-vos a n\u00e3o ter absolutamente nenhuma propriedade, aderindo totalmente aos vest\u00edgios daquele que por n\u00f3s se fez pobre, caminho, verdade e vida&#8230; Portanto, como haveis suplicado, corroboramos o vosso prop\u00f3sito da mais alta pobreza com o favor apost\u00f3lico, concedendo-vos com a autoridade da presente que n\u00e3o possais ser por ningu\u00e9m obrigados a receber propriedades\u201d (Privil\u00e9gio da Pobreza, In: FC, p. 142).<\/p>\n<p>Clara amou a pobreza e fez dela o seu modo de vida porque o Filho de Deus, vindo a este mundo, escolheu ser pobre desde Bel\u00e9m at\u00e9 a Cruz. Na concep\u00e7\u00e3o de vida clariana, a alegria maior da pobreza consistia precisamente na possibilidade de restituir tudo ao Senhor, a exemplo de Jesus que, totalmente despojado na Cruz, restituiu sua vida (esp\u00edrito) ao Pai: \u201cE, inclinando a cabe\u00e7a, entregou o esp\u00edrito&#8221; (Jo 19,28-30).<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, Clara de Assis, ao n\u00e3o abrir m\u00e3o do privil\u00e9gio da pobreza, n\u00e3o apenas quis o privil\u00e9gio de uma vida sem privil\u00e9gios, mas o privil\u00e9gio que Deus concedeu a cada ser humano de poder ser semelhante ao Filho encarnado do Pai eterno. O Filho encarnado foi pobre porque seu saber era a sabedoria do Pai, seu querer era a vontade do Pai, seu poder o poder do Pai e seu viver e seu amor eram o viver e o amor do Pai. Na radical pobreza e humildade, Clara participa do destino da vida, do sofrimento e da morte de Jesus Cristo:<\/p>\n<p>Se voc\u00ea sofrer com ele, com ele vai reinar; se chorar com ele, com ele vai se alegrar; se morrer com ele (cf. 2Tm 2,11.12; Rm 8,17) na cruz da tribula\u00e7\u00e3o, vai ter com ele mans\u00e3o celeste nos esplendores dos santos (Sl 109, 3). E seu nome, glorioso entre os homens, ser\u00e1\u00a0 inscrito no livro da vida (2In 21-22).<\/p>\n<p><strong>4 \u2013 Fidelidade criativa ao \u201cponto de partida\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Na Segunda Carta de Clara a Santa In\u00eas de Praga, a serva das pobres damas louva imensamente a decis\u00e3o de In\u00eas que renunciara a todas as benesses de um casamento imperial para unir-se livremente em matrim\u00f4nio com o Cristo pobre. Exorta-a, no entanto, de manter sempre viva em sua mem\u00f3ria o prop\u00f3sito que fizera por uma pobreza radical por amor a Jesus Cristo. Por outras palavras, exortou-a de jamais perder de vista o princ\u00edpio, isto \u00e9, o \u201cponto de partida\u201d de sua decis\u00e3o de unir-se em matrim\u00f4nio com Jesus Cristo:<\/p>\n<p>N\u00e3o perca de vista seu ponto de partida, conserve o que voc\u00ea tem, fa\u00e7a o que est\u00e1 fazendo e n\u00e3o o deixe (cf. Ct 3,4) mas, em r\u00e1pida corrida, com passo ligeiro e p\u00e9 seguro, de modo que seus passos nem recolham a poeira, confiante e alegre, avance com cuidado pelo caminho da bem-aventuran\u00e7a. N\u00e3o confie em ningu\u00e9m, n\u00e3o consinta com nada que queira afast\u00e1-la desse prop\u00f3sito, que seja trope\u00e7o no caminho (cf. Rm 14,13), para n\u00e3o cumprir seus votos ao Alt\u00edssimo (Sl 49,14) na perfei\u00e7\u00e3o em que o Esp\u00edrito do Senhor a chamou (2In 11-14).<\/p>\n<p>Foi o irrestrito amor do Amante Jesus Cristo que a priori \u201csequestrou\u201d o cora\u00e7\u00e3o de In\u00eas de Praga e acendeu nela um ardent\u00edssimo desejo de deixar todas as vaidades desta terra e unir-se ao Cordeiro imaculado como sua dign\u00edssima esposa. Clara exorta-a, ent\u00e3o, que ela olhe, considere e contemple sempre esse Filho de Deus, que fixou terna e afetuosamente sobre ela o Seu olhar e suscitou nela uma resposta, consciente e livre, de amor total a Ele (cf. 2In 19-20).<\/p>\n<p>Clara aconselhou a todas as Irm\u00e3s, de acordo com a \u00faltima vontade de Francisco escrita para Santa Clara (cf. UV 1-3), que n\u00e3o se desviassem da pobreza por nenhum pre\u00e7o (cf. TestC 40s. 52-57). Para isso faz-se necess\u00e1ria uma cont\u00ednua vigil\u00e2ncia. Pois, as muitas solicita\u00e7\u00f5es do complexo mundo em que vivemos, tanto na ordem do ter, do poder, do saber, como na ordem do prazer, s\u00e3o cont\u00ednuas amea\u00e7as ao \u201cponto de partida\u201d. Dizendo de outra forma, as solicita\u00e7\u00f5es do mundo s\u00e3o t\u00e3o sedutoras que n\u00e3o somente podem ofuscar, mas at\u00e9 mesmo fazer perder totalmente de vista aquela disposi\u00e7\u00e3o inicial e o prop\u00f3sito de doar-se livre, respons\u00e1vel e criativamente aos irm\u00e3os e irm\u00e3s, sob a inspira\u00e7\u00e3o da vida e doutrina de Francisco de Assis.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, a advert\u00eancia de Clara \u00e0 In\u00eas estende-se a n\u00f3s todos, disc\u00edpulos e disc\u00edpulas de Jesus Cristo. Pois, em tudo aquilo que fazemos, sentimos um forte apelo \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o dos nossos sentidos. A busca da auto-satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9, certamente, o maior de todos os perigos, que nos afasta gradativamente da afei\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria de nossa voca\u00e7\u00e3o, ou da nossa paix\u00e3o por Jesus Cristo e compaix\u00e3o pela humanidade.<\/p>\n<p>Por fim, trazemos uma pequena hist\u00f3ria, atribu\u00edda a S. Kierkegaard, que ilustra muito bem como os muitos trabalhos e solicita\u00e7\u00f5es do mundo podem nos fazer perder de vista o \u201cprimeiro amor\u201d de nossas vidas:<\/p>\n<p>Certa vez, um europeu que viajava pelo Oriente conheceu uma linda mulher chinesa numa esta\u00e7\u00e3o de trem. Encantou-se por ela, \u201camor \u00e0 primeira vista\u201d, mas tinha dificuldades de comunicar-se, pois n\u00e3o conhecia seu idioma. Quando voltou ao pa\u00eds de origem, ele come\u00e7ou a aprender chin\u00eas intensamente, para comunicar-se com sua amada. E assim o fez. Os dois correspondiam-se constantemente e alimentavam o amor de um pelo outro atrav\u00e9s das cartas. Enquanto isso, ele mergulhou no estudo da l\u00edngua e da cultura chinesa, num esfor\u00e7o gigantesco, a ponto de tornar-se um especialista no assunto. Ent\u00e3o, passou a ser requisitado em muitos lugares, para cursos, palestras e eventos. N\u00e3o tinha mais tempo para escrever \u00e0 sua amada, e ela nem sabia mais para onde escrever suas cartas, pois ele estava em constante viagem. O homem tornou-se um personagem importante. Mas o custo foi muito alto: esqueceu a mulher que o motivou a aprender o chin\u00eas.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Clara e Francisco s\u00e3o fundamentalmente duas vers\u00f5es distintas e complementares de uma mesma Forma de Vida\u00a0 institu\u00edda por Francisco: Observar o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Na esteira de Francisco, Clara e suas Irm\u00e3s se fizeram filhas e servas do alt\u00edssimo Pai celeste, e desposaram o Esp\u00edrito Santo, escolhendo viver segundo a perfei\u00e7\u00e3o do santo Evangelho (FV 1-2). E dirigindo-se ao sucessor do bem-aventurado Francisco e a todos os frades da Ordem, recomenda e confia-lhes suas Irm\u00e3s, presentes e futuras, \u201cpara que nos ajudem a crescer sempre mais no servi\u00e7o de Deus e principalmente a observar melhor a santa pobreza (TestC 51). E Francisco afetuosamente promete, por si e por todos os seus irm\u00e3os na Ordem, ter sempre por elas um diligente cuidado e especial solicitude (cf. RSC 6, 3-4).<\/p>\n<p>Oxal\u00e1, Clara nos inspire hoje e sempre a colocarmos a mente, a alma e o cora\u00e7\u00e3o no Espelho da Perfei\u00e7\u00e3o humana e divina: Jesus Cristo crucificado. Contemplar o Espelho da Perfei\u00e7\u00e3o significa deixar-se inflamar cada vez mais no ardor da caridade, da bondade, da compaix\u00e3o e da miseric\u00f3rdia de Deus manifestada em Jesus Cristo. \u00c9 isso que Clara deseja e prop\u00f5e a Santa In\u00eas e a cada um de n\u00f3s: \u201cTomara que voc\u00ea se inflame cada vez mais no ardor dessa caridade\u201d (4In 27). Pois, o \u00e1pice da vida contemplativa inaugurada por Clara de Assis \u00e9 ver, considerar e agir no mundo com o amor maternal de Deus Pai. \u201cO Senhor que deu o bom come\u00e7o d\u00ea o crescimento (cf. 1Cor 3,6.7) e tamb\u00e9m a perseveran\u00e7a at\u00e9 o fim\u201d (TestC 79).<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><span style=\"color: #808080;\"><strong>SIGLAS<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><span style=\"color: #808080;\"><strong>Escritos de S\u00e3o Francisco<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><span style=\"color: #808080;\">2Fi = Carta aos Fi\u00e9is (Segunda Recens\u00e3o)<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">FV = Forma de Vida para Santa Clara<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">Ord = Carta a toda a Ordem<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">RB = Regra Bulada<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">UV = \u00daltima Vontade a Santa Clara<\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><span style=\"color: #808080;\"><strong>Escritos de Santa Clara<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><span style=\"color: #808080;\">Er = Carta a Ermentrudes<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">2In = Segunda Carta a In\u00eas de Praga<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">3In = Terceira Carta a In\u00eas de Praga<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">4In = Quarta Carta a In\u00eas de Praga<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">RSC = Regra de Santa Clara<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">TestC = Testamento de Santa Clara<\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><span style=\"color: #808080;\"><strong>Fontes biogr\u00e1ficas de Santa Clara<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><span style=\"color: #808080;\">FC = Fontes Clarianas <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">BC = Bula de Canoniza\u00e7\u00e3o de Santa Clara<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">LSC = Legenda de Santa Clara<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">2LV = Legenda Versificada de Santa Clara<\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><span style=\"color: #808080;\"><strong>BIBLIOGRAFIA<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><span style=\"color: #808080;\">FONTES CLARIANAS. Tradu\u00e7\u00e3o, introdu\u00e7\u00f5es, notas e \u00edndices de J. C. PEDROSO. Petr\u00f3polis: Vozes\/CEFEPAL, 1994.<\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><span style=\"color: #808080;\">FONTES FRANCISCANAS E CLARIANAS. Apresenta\u00e7\u00e3o Sergio M. Dal Moro; tradu\u00e7\u00e3o Celso M\u00e1rcio Teixeira et. al., Petr\u00f3polis: Vozes\/FFB, 2004.<\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><span style=\"color: #808080;\">FASSINI, Frei Dorvalino. Forma de Vida da Ordem das Irm\u00e3s Pobres \u2013 Leitura e Coment\u00e1rios. Cascavel: Federa\u00e7\u00e3o Sagrada Fam\u00edlia dos Mosteiros da Ordem de Santa Clara do Brasil, 2009.<\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><strong>AUTOR:<\/strong><br \/>\nDr. Jo\u00e3o Mannes, OFM<br \/>\nDoutor em Filosofia pelo Pontif\u00edcio Ateneo Antonianum, Roma (1998).<br \/>\nProfessor do Centro Universit\u00e1rio Franciscano do Paran\u00e1, Curitiba, PR, e da Faculdade Padre Jo\u00e3o Bagozzi<br \/>\n<a href=\"mailto:J.mannes@yahoo.com.br\">J.mannes@yahoo.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Santa Clara de Assis &#8211; Frei Jo\u00e3o Mannes<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":176388,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[65],"tags":[108],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Lampejos da forma de vida de Santa Clara de Assis - Carisma - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/lampejos-da-forma-de-vida-de-santa-clara-de-assis.html\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Lampejos da forma de vida de Santa Clara de Assis - 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