{"id":176335,"date":"2011-01-05T10:08:51","date_gmt":"2011-01-05T12:08:51","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/?p=176335"},"modified":"2019-08-06T10:21:01","modified_gmt":"2019-08-06T13:21:01","slug":"clara-plantinha-do-serafico-pai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/clara-plantinha-do-serafico-pai.html","title":{"rendered":"Clara, &#8220;Plantinha&#8221; do Ser\u00e1fico Pai?"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-176336 size-full\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/clara_plantinha.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"709\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/clara_plantinha.jpg 840w, https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/clara_plantinha-450x380.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/clara_plantinha-768x648.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/clara_plantinha-150x127.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><\/p>\n<p><strong>Frei In\u00e1cio Dellazari, OFM<\/strong><\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O t\u00edtulo representa a palavra de Santa Clara. O ponto de interroga\u00e7\u00e3o \u00e9 a nossa pergunta. Trata-se de verificar o significado desta autoproclama\u00e7\u00e3o de Santa Clara. Sabemos que tanto S\u00e3o Francisco como Santa Clara foram duas personalidades fortes que abriram, \u00e0 luz do Evangelho, caminhos novos para a Igreja de seu tempo. O Evangelho \u00e9 a mesma fonte e representa o elo de uni\u00e3o entre estes dois santos. A criatividade do amor representa a diversidade que se visibiliza em duas Ordens. Esses dois santos cresceram juntos e espelham a mesma grandeza do Evangelho de duas formas diferentes.<\/p>\n<p>Para este estudo servi-me, para os escritos de Clara, do texto cr\u00edtico de Bocalli, I.M., Concordantiae Verbales Opusculorum Sancti Francisci et Clarae Assisiensium, Santa Mariae Angelorum, Assisii, 1976; e para os escritos de S\u00e3o Francisco, Esser K, Opuscula Sancti Patris Francisci Assisiensis, Grottaferrata, Roma, 1978. Usei tamb\u00e9m as vers\u00f5es CEFEPAL, Escritos de Santa Clara, Vozes, Petr\u00f3polis, 1984 e AA.VV., Fonti Francescane, Ed. Messaggero, Padova, 1977.<\/p>\n<p>Para as siglas e abrevia\u00e7\u00f5es: FF = Fonti Francescane; LegCla = Legenda de Santa Clara; ClaReg = Regra de Santa Clara; ClaTest = Testamento de Santa Clara, Test = Testamento de S\u00e3o Francisco.<\/p>\n<p><strong>1. Clara e Francisco de Assis<\/strong><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Assis \u00e9 marcada pela vida extraordin\u00e1ria dessas duas pessoas. S\u00e3o Francisco nasceu no ano de 1182\/3. Clara nasceu em 1193\/4. Clara tinha, portanto, onze anos a menos que Francisco. Quando aconteceu a cena de ren\u00fancia de S\u00e3o Francisco diante do pai Pedro de Bernardone e do bispo de Assis, na pra\u00e7a onde se localizava a casa de Santa Clara, ela devia ter mais ou menos uns 13 anos de idade. J\u00e1 era suficientemente grande para admirar, estranhar, ouvir as opini\u00f5es e repercuss\u00f5es de um fato desses, numa pequena cidade como era o caso de Assis. Tudo deve ter sido comentado entre todos, inclusive na pr\u00f3pria casa de Clara. Um jovem de Assis, com todas as chances de adquirir t\u00edtulos de gl\u00f3ria, abandona tudo e prefere a companhia de leprosos e mendigos de rua. Como isso tudo deve ter repercutido na vida de Clara!<br \/>\nPouco tempo depois de Francisco retornar de Roma com o primitivo grupo, e com a aprova\u00e7\u00e3o do Papa Inoc\u00eancio III de seu projeto de vida (1209\/10), entra Rufino no grupo de Francisco, um dos primos de Clara (1).<\/p>\n<p>Com isso, a vida de Francisco repercute na pr\u00f3pria fam\u00edlia de Clara. O pr\u00f3prio Rufino poderia ter talvez confidenciado a Francisco algo sobre o que intencionava Clara.<\/p>\n<p>Clara, como S\u00e3o Francisco, j\u00e1 antes de sua convers\u00e3o, era uma pessoa dotada de uma sensibilidade muito grande para com as necessidades dos outros, principalmente dos pobres e necessitados. Segundo a Legenda de Clara, &#8220;\u00e0s escondidas enviava alimentos aos \u00f3rf\u00e3os&#8221;(2). Segundo Pac\u00edfica de Guelfuccio, Clara &#8220;amava muito os pobres&#8221; e &#8220;gostava de visitar os pobres&#8221; e era tida &#8220;com grande venera\u00e7\u00e3o pelos cidad\u00e3os\u201d(3). Parece que a sua personalidade se identificava muito com a de S\u00e3o Francisco. Por isso talvez n\u00e3o seja nada estranho que essas duas pessoas tivessem uma afinidade e compreens\u00e3o muito grande de uma para com a outra.<\/p>\n<p>Clara, &#8220;ouvindo falar neste tempo de Francisco, cujo nome j\u00e1 era famoso e que como homem novo renovava com novas virtudes o caminho da perfei\u00e7\u00e3o esquecido no mundo, logo quis ouvir e ver\u201d(4). S\u00e3o Francisco, por sua vez, &#8220;sabendo da \u00f3tima fama de t\u00e3o agraciada jovem (talvez Rufino tenha falado), n\u00e3o \u00e9 nele menor o anseio de encontr\u00e1-la e falar-lhe&#8221;(5). A legenda deixa claro que h\u00e1 um interesse de ambos em conversar e se encontrar. Come\u00e7am ent\u00e3o os encontros. Parece que a primeira vez, foi Francisco a visitar Clara. Clara, por\u00e9m, visitou mais vezes Francisco. Desses encontros nasceu, aos poucos, uma profunda amizade entre os dois na comunh\u00e3o do mesmo ideal de vida evang\u00e9lica.<\/p>\n<p>Conta tamb\u00e9m a legenda que esses encontros se realizavam \u00e0s escondidas, sem que ningu\u00e9m soubesse. N\u00e3o eram mais freq\u00fcentes &#8220;para que essa amizade n\u00e3o fosse percebida pelas pessoas, nem fosse denegrida pela opini\u00e3o p\u00fablica&#8221;(6). Para evitar qualquer suspeita, Francisco se fazia acompanhar de Frei Filipe Longo, e Clara, de Bona de Guelfuccio (7). Clara &#8220;confia-se inteiramente \u00e0 prud\u00eancia de Francisco, escolhendo-o, ap\u00f3s Deus, para mestre de sua dire\u00e7\u00e3o&#8221;(8).<\/p>\n<p>Nesses encontros foi amadurecendo em Clara o ideal de vida que buscava e foi tamb\u00e9m preparada a sua fuga da casa paterna. Na noite de Domingo de Ramos de 1212, juntamente com Pac\u00edfica de Guelfuccio, Clara foge de casa e se dirige \u00e0 Porci\u00fancula, onde Francisco e os frades a aguardavam para a celebra\u00e7\u00e3o da consagra\u00e7\u00e3o de sua vida ao &#8220;Alt\u00edssimo Pai Celestial&#8221;. Os frades a aguardaram em vig\u00ed1ia, com tochas acesas, ao p\u00e9 do altar da bem-aventurada Virgem Maria. Segundo a legenda, foi o &#8220;lugar onde a nova mil\u00edcia dos pobres, conduzida por Francisco, teve seu in\u00edcio feliz, para que ficasse patente que a M\u00e3e de miseric\u00f3rdia, na sua habita\u00e7\u00e3o, desse \u00e0 luz ambas as fam\u00edlias religiosas&#8221; (9).<\/p>\n<p>E de fato, n\u00e3o poderia ter sido outro, o lugar escolhido do que o lugar onde moram os pobres. Fora dos muros da cidade de Assis, em meio \u00e0s inseguran\u00e7as do mundo dos pobres, na igrejinha que S\u00e3o Francisco recebeu por ser a mais pobre, \u00e9 somente a\u00ed que poderia nascer uma fraternidade universal, sem exclus\u00e3o. Foi a partir do lugar do pobre que Santa Clara e S\u00e3o Francisco conheceram a possibilidade da fraternidade e onde eles mesmos puderam fazer a experi\u00eancia de fraternidade. Foi ali que S\u00e3o Francisco deixou de ser filho de Pedro Bernardone e Clara de Favarone, e tornaram-se irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Despojados da ambi\u00e7\u00e3o dos comerciantes e nobres, que disputavam a hegemonia em Assis, entre os menores sociais e a partir deles nasceram duas fraternidades de menores evang\u00e9licos.<\/p>\n<p>Clara foi acolhida por Francisco e pelos frades no mesmo lugar que para Francisco e para a comunidade primitiva franciscana representa o centro de reuni\u00e3o e de irradia\u00e7\u00e3o da vida do Evangelho.<\/p>\n<p>A legenda distingue bem quando fala de ambas as fam\u00edlias religiosas, mas geradas pela mesma &#8220;M\u00e3e de miseric\u00f3rdia&#8221;. H\u00e1 algo em comum e algo que distingue. Giacomo da Vitry, na carta escrita em outubro de 1216, enxergava um mesmo movimento, de &#8220;ambos os sexos, que, despojando-se de qualquer propriedade, abandonam o mundo. Chamam-se frades menores e irm\u00e3s menores&#8221;. A distin\u00e7\u00e3o que \u00e9 feita refere-se ao modo de vida. Os frades dedicam-se ao apostolado durante o dia e se recolhem \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o \u00e0 noite; enquanto que as mulheres &#8220;convivem em alguns hosp\u00edcios n\u00e3o distantes das cidades; n\u00e3o aceitam doa\u00e7\u00f5es, mas vivem com o trabalho de suas m\u00e3os&#8221;(10). Segundo Vitry, h\u00e1 uma identifica\u00e7\u00e3o nos &#8220;menores&#8221; e uma distin\u00e7\u00e3o no concretizar a mesma voca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de S\u00e3o Francisco continuou na procura de um lugar para Clara at\u00e9 que por &#8220;vontade do Senhor e de S\u00e3o Francisco&#8221; foram morar junto \u00e0 igreja de S\u00e3o Dami\u00e3o, onde, em pouco tempo, cresceram em n\u00famero (11). Depois de se estabelecerem em S\u00e3o Dami\u00e3o, S\u00e3o Francisco continuou a acompanh\u00e1-las atrav\u00e9s de exorta\u00e7\u00f5es escritas. Segundo Clara, S\u00e3o Francisco durante a sua vida deixou &#8220;v\u00e1rios escritos&#8221; (plura scripta) (12), al\u00e9m de auxili\u00e1-las atrav\u00e9s da palavra e do exemplo.<\/p>\n<p>Santa Clara, em seu Testamento, recomenda as irm\u00e3s aos cuidados do sucessor de S\u00e3o Francisco: &#8220;E como ele durante toda a sua vida mostrou tanto cuidado em palavras e obras para tratar e cuidar de n\u00f3s, suas plantinhas, assim tamb\u00e9m recomendo agora as minhas irm\u00e3s, presentes e futuras, aos cuidados do sucessor de nosso Pai S\u00e3o Francisco e de toda a sua Ordem, para que eles nos ajudem a crescer sempre no servi\u00e7o de Deus e especialmente na melhor observ\u00e2ncia da santa pobreza&#8221;(l3)<\/p>\n<p><strong>2. &#8220;Depois que o Alt\u00edssimo Pai Celestial, por sua miseric\u00f3rdia e gra\u00e7a, se dignou iluminar meu cora\u00e7\u00e3o, comecei a viver em penit\u00eancia &#8230; &#8220;(14)<\/strong><\/p>\n<p>Embora Clara se considere e insista em proclamar-se &#8220;plantinha de S\u00e3o Francisco&#8221;, ela reconhece na sua voca\u00e7\u00e3o a iniciativa de Deus. O come\u00e7o, o in\u00edcio da mudan\u00e7a em sua vida deve-se \u00e0 miseric\u00f3rdia do Alt\u00edssimo que se dignou iluminar o seu cora\u00e7\u00e3o. A voca\u00e7\u00e3o, segundo Clara, n\u00e3o foi plantada por Francisco, mas pelo Pai Celestial. Clara, ent\u00e3o, come\u00e7a a viver em penit\u00eancia por causa de uma semente semeada por Deus em sua vida.<\/p>\n<p>A chegada das irm\u00e3s \u00e9 compreendida por Clara da mesma forma: &#8220;Se algu\u00e9m, por inspira\u00e7\u00e3o divina, vier ter conosco, querendo abra\u00e7ar esta vida&#8221; (15); &#8220;e juntamente com as poucas irm\u00e3s que o Senhor me tinha dado &#8230; &#8220;(l6). N\u00e3o somente em si mesma Clara reconhece a iniciativa de Deus, mas tamb\u00e9m nas irm\u00e3s que &#8220;por inspira\u00e7\u00e3o divina&#8221; at\u00e9 ela chegam, dando in\u00edcio a uma nova fraternidade. Clara n\u00e3o atribui a si mesma a sua convers\u00e3o, nem a das outras irm\u00e3s. A\u00ed h\u00e1 uma perfeita sintonia com S\u00e3o Francisco que tamb\u00e9m n\u00e3o se apropriava daquilo que pertence ao Senhor. Vejamos isso em S\u00e3o Francisco.<\/p>\n<p>S\u00e3o Francisco, no Testamento, no final de sua vida, descreve assim o in\u00edcio de sua vida de penit\u00eancia: &#8220;Foi assim que o Senhor me concedeu a mim, Frei Francisco, iniciar uma vida de penit\u00eancia: como estivesse em pecado, parecia-me amargo olhar para leprosos, mas o Senhor mesmo me conduziu entre eles e eu tive miseric\u00f3rdia para com eles. E ao afastar-me deles, o que antes me parecia amargo se me converteu em do\u00e7ura da alma e do corpo. E depois de bem pouco tempo abandonei o mundo&#8221;(17).<\/p>\n<p>S\u00e3o Francisco reconhece que foi o Senhor que lhe concedeu iniciar a vida de penit\u00eancia. Tanto Francisco como Clara n\u00e3o atribuem a si pr\u00f3prios, nem um ao outro, o &#8220;in\u00edcio da vida de penit\u00eancia&#8221;, mas ao Senhor, ao Alt\u00edssimo.<\/p>\n<p>Uma diferen\u00e7a entre S\u00e3o Francisco e Santa Clara aparece no segundo momento. S\u00e3o Francisco, quando se trata de mostrar como o Senhor concedeu o in\u00edcio dessa vida, coloca a figura do irm\u00e3o leproso. A sua convers\u00e3o, a mudan\u00e7a em sua vida \u00e9 mediada pela presen\u00e7a do leproso. S\u00e3o Francisco separa em si mesmo dois tempos: aquele em que era amargo olhar para a figura do leproso e aquele em que olhar para o leproso se tornou do\u00e7ura da alma e do corpo. O crit\u00e9rio para verificar a sua convers\u00e3o \u00e9 a capacidade de olhar para a figura do irm\u00e3o leproso. Santa Clara escreve que come\u00e7ou a &#8220;viver em penit\u00eancia conforme o ensinamento e o exemplo de nosso Pai S\u00e3o Francisco, pouco depois de sua convers\u00e3o&#8221;. O Alt\u00edssimo Pai Celestial se dignou iluminar o cora\u00e7\u00e3o de Clara mediante o ensinamento e exemplo de S\u00e3o Francisco. Pelos &#8220;ensinamentos e pela vida admir\u00e1vel (laudabilem)&#8221; de Francisco, Santa Clara experimentou a luz e a gra\u00e7a do Alt\u00edssimo Pai Celestial.<\/p>\n<p>O Senhor concede a Francisco iniciar o processo de convers\u00e3o mediante o encontro com o leproso; o Senhor concede a Santa Clara iniciar o processo de convers\u00e3o mediante o encontro com o irm\u00e3o Francisco. Tanto a convers\u00e3o de Clara como a de Francisco passaram pela media\u00e7\u00e3o do irm\u00e3o. A gra\u00e7a do Senhor passa pela presen\u00e7a do irm\u00e3o. Tanto Francisco como Clara fizeram esta profunda experi\u00eancia de encontro com o Senhor. \u00c9 a mesma inspira\u00e7\u00e3o, o mesmo Evangelho, o mesmo Senhor que concede. Fica mais claro ainda quando Clara escreve: &#8220;O Filho de Deus se fez para n\u00f3s caminho. E foi este caminho que nosso Pai S\u00e3o Francisco, seu aut\u00eantico apaixonado e imitador (amator et imitator) nos mostrou e nos ensinou pela palavra e pelo exemplo&#8221; (18); como tamb\u00e9m: &#8220;Devemos, pois, queridas irm\u00e3s, contemplar os imensos benef\u00edcios que Deus nos concedeu, de modo especial aqueles que ele se dignou realizar em n\u00f3s por seu dileto servo, nosso Pai S\u00e3o Francisco\u201d(19). S\u00e3o Francisco \u00e9 para Clara aquele que mostrou o caminho de Jesus Cristo, aquele, atrav\u00e9s do qual, Deus concedeu imensos benef\u00edcios.<\/p>\n<p><strong>3. \u201cEscreveu para n\u00f3s uma forma de vida\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Santa Clara inseriu a forma de vida que S\u00e3o Francisco escreveu no cap\u00edtulo VI de sua Regra: &#8220;Desde que, por inspira\u00e7\u00e3o divina, vos fizestes filhas e servas do Alt\u00edssimo e Sumo Rei, o Pai Celestial, e desposastes o Esp\u00edrito Santo, escolhendo uma vida conforme com a perfei\u00e7\u00e3o do santo Evangelho, quero eu, o que prometo por mim pessoalmente e por meus irm\u00e3os, nutrir sempre, a bem de v\u00f3s, o mesmo e diligente cuidado e solicitude como por eles\u201d(20). Nessa forma de vida, como \u00e9 pr\u00f3prio de S\u00e3o Francisco, a inspira\u00e7\u00e3o divina est\u00e1 na origem da voca\u00e7\u00e3o de Clara. S\u00e3o Francisco promete por ele pessoalmente, e por seus irm\u00e3os, ter um igual cuidado e solicitude para com as irm\u00e3s como a tem para com seus irm\u00e3os. E a raz\u00e3o desse compromisso \u00e9: desde que vos fizestes filhas e servas do Alt\u00edssimo e Sumo Rei &#8230; , escolhendo uma vida conforme a perfei\u00e7\u00e3o do santo Evangelho. Francisco se sente respons\u00e1vel a partir do momento em que Clara e suas irm\u00e3s escolhem a mesma vida que ele e os frades escolheram: a perfei\u00e7\u00e3o do Evangelho. A fraternidade que nasceu ao redor de Francisco e de Clara tem o mesmo projeto de vida. E Clara acrescenta no final da forma de vida escrita por Francisco: &#8220;E ele cumpriu fielmente esta promessa todo o tempo de sua vida e quis tamb\u00e9m que seus irm\u00e3os a cumprissem&#8221;. Clara pede que o mesmo cuidado e solicitude de Francisco se perpetue com os seus seguidores para com elas. Atrav\u00e9s de Francisco lhe foi mostrado o caminho do Evangelho. Preocupada na perseveran\u00e7a deste ideal, quer que os irm\u00e3os de Francisco continuem auxiliando no seguimento do Evangelho. E o pr\u00f3prio Francisco, na \u00daltima vontade manifestada a Santa Clara, escreveu: &#8220;Eu, Frei Francisco, o menor de todos, quero seguir a vida e a pobreza do nosso Alt\u00edssimo Senhor Jesus Cristo e de sua Sant\u00edssima M\u00e3e e nela perseverar at\u00e9 o fim. Rogo-vos, senhoras minhas, e dou-vos o conselho de viverdes sempre esta sant\u00edssima pobreza. Guardai-vos cuidadosamente de vos afastardes dela pelos ensinamentos ou conselhos de quem quer que seja\u201d(21). Francisco est\u00e1 aqui se dirigindo \u00e0s irm\u00e3s da mesma forma que se dirige aos irm\u00e3os. Ele se coloca como o menor de todos; ele mesmo promete primeiro cumprir aquilo que pede para ser cumprido; e com a terminologia caracter\u00edstica: &#8220;rogo-vos&#8221;, &#8220;guardai-vos cuidadosamente&#8221;. S\u00e3o Francisco revela-se um pai espiritual para Santa Clara da mesma forma que o foi para os frades. Se Clara enxergava em Francisco um pai, Francisco, por sua vez, manifesta uma paternal afei\u00e7\u00e3o e zelo para com as damas de S\u00e3o Dami\u00e3o. Afinal, ele foi c\u00famplice na santa fuga de Clara, ele participou da prepara\u00e7\u00e3o de todos os momentos at\u00e9 culminar naquela noite de Domingo de Ramos na Porci\u00fancula. N\u00e3o deveria ele se preocupar com a perseveran\u00e7a desse grupo reunido ao redor de Santa Clara? \u00c9 isso que Santa Clara pede com insist\u00eancia. A atitude de Santa Clara parece-me ser a mesma de Frei Le\u00e3o que pede ajuda e recebe um bilhete de S\u00e3o Francisco; \u00e9 a mesma atitude do ministro que escreve uma carta a S\u00e3o Francisco, pedindo para abandonar a fraternidade e ir para um eremit\u00e9rio. Aos dois, e a muitos outros, a presen\u00e7a de Francisco foi sempre uma ajuda no sentido de zelar pela fidelidade ao projeto do Evangelho. Para Frei Le\u00e3o, S\u00e3o Francisco se revela como algu\u00e9m que respeita profundamente a individualidade de cada irm\u00e3o: &#8220;Do modo que melhor te parecer agradar ao Senhor Deus, e seguir seus passos e sua pobreza, assim far\u00e1s com a b\u00ean\u00e7\u00e3o do Senhor Deus e a minha obedi\u00eancia&#8221;. E mais: &#8220;E se, por motivo de tua alma ou de outra tua consola\u00e7\u00e3o, precisares e quiseres vir ter comigo, \u00f3 Le\u00e3o, vem&#8221;. \u00c9 Frei Le\u00e3o quem vai ter que descobrir o jeito de agradar ao Senhor Deus. S\u00e3o Francisco n\u00e3o tira a liberdade dos irm\u00e3os de serem criativos na resposta ao Evangelho. Com Santa Clara, me parece que acontece o mesmo. S\u00e3o Francisco n\u00e3o moldou Santa Clara, mas ao mesmo tempo demonstrou sempre uma preocupa\u00e7\u00e3o muito grande em zelar pelo projeto do Senhor como escreve na Carta aos Fi\u00e9is II, 2-3: &#8220;Como o servo de todos, a todos tenho a obriga\u00e7\u00e3o de servir e ministrar as palavras de meu Senhor, cheias de suave perfume. E considerando comigo que, devido \u00e0s enfermidades e fraquezas do meu corpo, me \u00e9 imposs\u00edvel visitar pessoalmente a cada um de v\u00f3s, resolvi comunicar-vos por meio desta carta e de mensageiros as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, que \u00e9 o Verbo do Pai, e as palavras do Esp\u00edrito Santo, que s\u00e3o esp\u00edrito e vida&#8221;.<\/p>\n<p><strong>4. &#8220;A forma de vida da Ordem das pobres irm\u00e3s que o bem-aventurado Francisco fundou \u00e9 esta &#8230; &#8220;<\/strong><\/p>\n<p>Santa Clara, no in\u00edcio de sua Regra, atribui a funda\u00e7\u00e3o da Ordem das pobres Irm\u00e3s a S\u00e3o Francisco: &#8220;A forma de vida da Ordem que o bem-aventurado Francisco fundou (instituit) &#8230;\u201d(22). Logo em seguida promete &#8220;obedi\u00eancia e rever\u00eancia ao senhor Papa Inoc\u00eancio&#8221; e declara que &#8220;no in\u00edcio de sua vida prometeu obedi\u00eancia, juntamente com suas irm\u00e3s, ao bem-aventurado Francisco, assim tamb\u00e9m promete obedecer firmemente aos seus sucessores&#8221;. S\u00e3o muitas as vezes em que Clara revela essa liga\u00e7\u00e3o com Francisco por uma promessa de obedi\u00eancia (23). S\u00e3o Francisco, por sua vez, promete zelar pela vida das irm\u00e3s que escolheram viver conforme a perfei\u00e7\u00e3o do Evangelho. Parece claro que n\u00e3o se trata daquela obedi\u00eancia \u00e0 qual Francisco se refere na RNB XII, onde S\u00e3o Francisco pro\u00edbe que alguma mulher seja recebida por algum irm\u00e3o \u00e0 obedi\u00eancia. Santa Clara n\u00e3o foi admitida, naquela noite de Domingo de Ramos, \u00e0 fraternidade de Francisco. S\u00e3o Francisco, inclusive, ajudou a providenciar um lugar onde Clara pudesse ficar. Mas o que chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que Clara &#8220;promete obedi\u00eancia somente a Francisco, ignorando qualquer outra hierarquia de qualquer esp\u00e9cie&#8221;(24). Que tipo de relacionamento se estabelece entre S\u00e3o Francisco e Santa Clara? Como entender a insist\u00eancia de Clara em prometer obedi\u00eancia a Francisco e a obriga\u00e7\u00e3o das irm\u00e3s em obedecerem ao sucessor de Francisco?<\/p>\n<p>Que Santa Clara n\u00e3o se considera fundadora, n\u00e3o pensa o Papa Alexandre IV. Na bula de canoniza\u00e7\u00e3o de Santa Clara, Alexandre IV n\u00e3o proclama S\u00e3o Francisco o fundador, mas a pr\u00f3pria Clara como o &#8220;primeiro est\u00e1vel fundamento dessa grande Ordem&#8221; e como a &#8220;pedra angular desse sublime edif\u00edcio&#8221;. S\u00e3o Francisco, na mesma bula, \u00e9 aquele que teve uma presen\u00e7a marcante no in\u00edcio da convers\u00e3o de Clara: &#8220;Ouvindo da sua boa fama, come\u00e7ou logo a exort\u00e1-la, induzindo-a a servir a Cristo com toda a perfei\u00e7\u00e3o&#8221;. Santa Clara responde como aquela que &#8220;prontamente atendeu a seus santos conselhos\u201d(25). Clara atende a Francisco, fazendo aquilo que tamb\u00e9m os frades deviam fazer: &#8220;Distribuiu os bens que possu\u00eda aos pobres&#8221;, para colocar-se no caminho de Jesus Cristo.<\/p>\n<p>S\u00e3o Francisco, na bula de canoniza\u00e7\u00e3o de Santa Clara, \u00e9 aquele que ajuda Santa Clara a chegar at\u00e9 S\u00e3o Dami\u00e3o, onde come\u00e7ou a &#8220;insigne e sagrada Ordem de S\u00e3o Dami\u00e3o&#8221;. A mesma bula deixa entender que Santa Clara n\u00e3o queria encarregar-se do governo do convento e das irm\u00e3s, mas por insist\u00eancia de S\u00e3o Francisco ela o aceitou: &#8220;E passados alguns anos, a pr\u00f3pria bem-aventurada Clara, cedendo aos insistentes apelos de S\u00e3o Francisco, se encarregou do governo do convento e das irm\u00e3s&#8221; (26).<\/p>\n<p>Na sua continua\u00e7\u00e3o, a bula p\u00f5e toda a aten\u00e7\u00e3o somente em Clara, revelando os seus m\u00e9ritos: &#8220;Ela foi a \u00e1rvore &#8230; que, plantada no campo da Igreja, produziu o doce fruto do fervor&#8221;, proporcionando &#8220;nova fonte de \u00e1gua viva para saciar as pessoas&#8221;; essa fonte &#8220;regou as sementeiras da vida religiosa&#8221;; &#8220;ela foi porta-estandarte dos pobres, guia dos humildes, mestra dos mortificados e abadessa dos penitentes&#8221;; &#8220;sua vida era uma doutrina e ensino para os demais, que no livro de sua conduta aprenderam a regra de vida&#8221;.<\/p>\n<p>A figura de Clara que emerge da Bula de canoniza\u00e7\u00e3o, que representa o reconhecimento da Igreja, \u00e9 a de uma mulher que renova a vida evang\u00e9lica na Igreja. Essa acontece mediante sua personalidade en\u00e9rgica, corajosa e austera. Uma pessoa extremamente am\u00e1vel com as irm\u00e3s, mas muito austera consigo mesma.<\/p>\n<p><strong>5. A imagem de S\u00e3o Francisco para Santa Clara<\/strong><\/p>\n<p>Buscando olhar para Francisco com o olhar de Santa Clara, vamos tentar colher a imagem de Francisco segundo a vis\u00e3o de Clara. Isso nos ajudar\u00e1 a compreender o relacionamento humano-espiritual entre esses dois santos e, principalmente, o que S\u00e3o Francisco significava para aquela que se considerava sua &#8220;plantinha&#8221;.<br \/>\nA imagem mais forte de Francisco para Clara me parece ser a de Exemplo. Em S\u00e3o Francisco \u00e9 encontrado por Clara um exemplo de como seguir a Jesus Cristo. Atrav\u00e9s do seu jeito de viver o Evangelho, Clara encontrou uma resposta para sua aspira\u00e7\u00e3o de vida. Isso \u00e9 confirmado de uma forma clara no Testamento: &#8220;O Filho de Deus se fez caminho. E foi esse caminho que nosso Pai S\u00e3o Francisco &#8230; nos mostrou e nos ensinou pela palavra e pelo exemplo\u201d(27). Santa Clara come\u00e7a a fazer penit\u00eancia &#8220;conforme o ensinamento e o exemplo de S\u00e3o Francisco\u201d(28). Esse exemplo foi dado pelo Senhor: &#8220;Pois o Senhor nos deu um exemplo, um modelo e um espelho, n\u00e3o apenas para os outros, mas tamb\u00e9m para nossas irm\u00e3s&#8221;(29). O Pai Celestial &#8220;gerou este rebanho em sua santa Igreja pela palavra e pelo exemplo do nosso Pai S\u00e3o Francisco &#8230;&#8221;(30).<\/p>\n<p>S\u00e3o Francisco \u00e9 a testemunha de profiss\u00e3o religiosa de Santa Clara. Foi diante dele e de uma pequena fraternidade que Clara, diante do altar da Virgem Maria, prometeu observar o Evangelho. A promessa de observar a santa pobreza ao Senhor e a Francisco foi mais tarde confirmada pela Igreja. Mas, no in\u00edcio, Francisco foi a testemunha: &#8220;E para maior certeza, a fim de que mais tarde n\u00e3o nos desvi\u00e1ssemos dela, tive a preocupa\u00e7\u00e3o de adquirir por meio de privil\u00e9gios do Papa Inoc\u00eancio, sob cujo pontificado come\u00e7amos, e dos seus sucessores, a confirma\u00e7\u00e3o desta santa pobreza que prometemos na nossa profiss\u00e3o ao nosso pai\u201d(31). Essa promessa feita a Deus e ao nosso Pai Francisco \u00e9 recordada por Santa Clara e repetida em seus escritos muit\u00edssimas vezes, principalmente no seu Testamento.<\/p>\n<p>Santa Clara v\u00ea em Francisco algu\u00e9m dado pelo Senhor como &#8220;fundador, plantador e aux\u00edlio no servi\u00e7o de Cristo&#8221; (fundatorem, plantatorem et adiutorem). A presen\u00e7a de Francisco na vida de Clara, principalmente no in\u00edcio de sua convers\u00e3o, foi muito significativa, humana e espiritualmente. A experi\u00eancia da ruptura com a fam\u00edlia, o jogar-se na inseguran\u00e7a fora dos muros da cidade de Assis, a inseguran\u00e7a fora dos muros do castelo, na vida de pobreza e trabalho, essa experi\u00eancia foi muito dura para Clara. O \u00fanico apoio foi o de Francisco e seus irm\u00e3os que a acolheram. Clara encontrou algu\u00e9m que j\u00e1 tinha passado por essa experi\u00eancia e, por isso, com todas as condi\u00e7\u00f5es de ajud\u00e1-la. Santa Clara v\u00ea em Francisco o &#8220;apoio depois de Deus, nossa \u00fanica consola\u00e7\u00e3o e ref\u00fagio&#8221;. Durante a sua vida, Francisco acompanhou a comunidade de Clara com exorta\u00e7\u00f5es escritas e orais. O que permaneceu desses escritos foram apenas a Forma de vida e a \u00daltima vontade. Como esse aux\u00edlio de Francisco no servi\u00e7o a Cristo representou para Clara um aux\u00edlio na perseveran\u00e7a daquilo que prometeu ao Senhor, recomenda as irm\u00e3s &#8220;presentes e futuras aos cuidados do sucessor do Pai Francisco e de toda a Ordem\u201d(32). Aqui Santa Clara olha para o futuro e quer que se perpetue, assim como ela experimentou, esse relacionamento de ajuda entre as duas Ordens. No cap\u00edtulo VI da Regra, Santa Clara recorda a promessa feita por S\u00e3o Francisco de nutrir sempre o mesmo diligente cuidado para com elas como o teve para com seus irm\u00e3os e quis que seus irm\u00e3os fizessem o mesmo. Santa Clara entende que a sua fraternidade deve caminhar junto com a de Francisco e espera a continuidade de sua presen\u00e7a atrav\u00e9s da presen\u00e7a dos irm\u00e3os de Francisco.<\/p>\n<p>Para Clara, Francisco \u00e9 algu\u00e9m que vibra e se alegra com a firmeza e decis\u00e3o com que ela e as outras irm\u00e3s abra\u00e7aram o ideal evang\u00e9lico de vida: &#8220;Francisco ent\u00e3o ficou cheio de alegria no Senhor quando percebeu que n\u00f3s, embora corporalmente fracas e sem for\u00e7a, n\u00e3o rece\u00e1vamos a pobreza, o trabalho, a tribula\u00e7\u00e3o &#8230; segundo o exemplo dos santos e dos irm\u00e3os de Francisco, como ele mesmo e os seus irm\u00e3os experimentaram\u201d(33). Aqui, Clara est\u00e1 colocando a sua fraternidade em rela\u00e7\u00e3o de igualdade com a fraternidade de Francisco. Clara revela que elas experimentam as mesmas exig\u00eancias evang\u00e9licas que S\u00e3o Francisco e seus irm\u00e3os experimentam. N\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o de inferioridade. E isso al\u00e9m de se colocarem numa situa\u00e7\u00e3o de &#8220;corporalmente fracas e sem for\u00e7a&#8221;. Volta novamente a quest\u00e3o da identidade comum das duas fraternidades no Evangelho. E Clara continua depois dizendo: &#8220;Movido de amor para conosco, aceitou para si e para sua Ordem a obriga\u00e7\u00e3o de ter sempre de n\u00f3s o mesmo cuidado e aten\u00e7\u00e3o especial como de seus pr\u00f3prios irm\u00e3os&#8221;. A preocupa\u00e7\u00e3o de Clara \u00e9 a de n\u00e3o se afastar do ideal do Evangelho. Por isso, insiste em n\u00e3o ser abandonada pela fraternidade daquele, atrav\u00e9s de quem as duas Ordens tiveram in\u00edcio.<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n<p>Um estudo sobre Santa Clara leva \u00e0 percep\u00e7\u00e3o de que Clara n\u00e3o se compreende independentemente de Francisco. S\u00e3o Francisco foi para Santa Clara um instrumento de convers\u00e3o. Nos seus escritos, o nome de S\u00e3o Francisco \u00e9 citado 31 vezes. Enquanto que nos Escritos de S\u00e3o Francisco n\u00e3o aparece o nome de Clara uma s\u00f3 vez. O relacionamento de Clara com Francisco \u00e9 muito mais conhecido atrav\u00e9s dos escritos de Clara. A Forma de vida escrita por S\u00e3o Francisco, a \u00daltima vontade de S\u00e3o Francisco foram inseridos por Clara em seus escritos. Todo o amor e dedica\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Francisco pela fraternidade de S\u00e3o Dami\u00e3o, a sua aten\u00e7\u00e3o para com aquele pequeno rebanho nos \u00e9 conhecido atrav\u00e9s de Clara. Chega, ent\u00e3o, at\u00e9 n\u00f3s a imagem de Francisco vista por Santa Clara. Seria, ent\u00e3o, Clara algu\u00e9m que nos ajuda apenas a conhecer melhor S\u00e3o Francisco? Creio que n\u00e3o se pode fazer essa afirma\u00e7\u00e3o. O sil\u00eancio de S\u00e3o Francisco em seus escritos sobre Santa Clara reflete aquele respeito \u00e0 individualidade e \u00e0 originalidade que ele tamb\u00e9m tinha para com cada irm\u00e3o. Ao redor de S\u00e3o Francisco cada irm\u00e3o podia ser ele mesmo. O Evangelho era a fonte comum. Todos bebiam da mesma \u00e1gua. Ligados \u00e0 mesma fonte, todos respondiam criativamente segundo a pr\u00f3pria originalidade. A fisionomia da fraternidade era dada por Deus atrav\u00e9s do Evangelho. N\u00e3o era Francisco quem moldava os irm\u00e3os. Por isso, nasceu uma fraternidade original. O relacionamento de Francisco com Santa Clara se deu da mesma forma. Santa Clara pode ser ela mesma. A sua Fraternidade n\u00e3o foi uma c\u00f3pia da Fraternidade de S\u00e3o Francisco. O que ela aprendeu de S\u00e3o Francisco foi a pedagogia evang\u00e9lica. E, segundo a bula de canoniza\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Francisco teria insistido para que ela assumisse o governo do convento e das irm\u00e3s de S\u00e3o Dami\u00e3o. Isso revela que S\u00e3o Francisco ajudou Santa Clara a ser ela mesma e assim enriquecer a fam\u00edlia franciscana com a sua resposta individual de mulher.<\/p>\n<p>Santa Clara, na sua humildade, n\u00e3o seria capaz de atribuir alguma coisa a si mesma. Ela reconhece que todos os dons t\u00eam sua origem na \u00fanica fonte do Bem, aquele que \u00e9 o Sumo Bem. Quando suas irm\u00e3s falam do processo de canoniza\u00e7\u00e3o, a\u00ed emerge todo o esplendor de algu\u00e9m que plantou a semente da santidade no cora\u00e7\u00e3o das companheiras. Quando a Igreja fala na figura do Papa Alexandre IV, na bula de canoniza\u00e7\u00e3o, h\u00e1 todo o reconhecimento de uma vida que &#8220;iluminou pelas suas obras luminosas&#8221;, &#8220;escondia-se num mosteiro apertado, mas espalhava-se amplamente pelo mundo afora&#8221;; &#8220;vivia oculta na cela, mas era conhecida nas cidades&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">1. Cf. R. Manselli, San Francesco, Bulzoni Ed., Roma, 1980. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">2. Cf. ClaLeg 5. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">3. FF 2927-2928. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">4. ClaLeg 5. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">5. ClaLeg 5. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">6. ClaLeg5. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">7. Cf. Processo di Canonizzazione, FF 3125-3126; sobre a &#8220;fama p\u00fablica&#8221;, cf. R. Manselli, San Francesco,34-35. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">8. ClaLeg6. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">9. ClaLeg 8. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">10. FF 2205-2207. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">11. ClaTest 30-32. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">12. ClaTest 34. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">13. ClaTest 48-5l. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">14. ClaTest 42. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">15. ClaReg II,l. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">16. ClaTest 25. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">17 Test 1-3<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">18. ClaTest 5. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">19. ClaTest 6-8. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">20. ClaReg VI, 3-5. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">21 ClaReg VI, 7-9<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">22. ClaReg 1,1. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">23. Cf. ClaReg 1,5; VI, 5; VI, 10; ClaTest 25,47,40,52. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">24. Cf. R. Manselli, San Francesco, 165. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">25. FF 3290. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">26. Cf. Processo di Canonizzazione, FF 2930. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">27. ClaTest 5. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">28. ClaTest 24. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">29. ClaTest 19. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">30. ClaTest 46. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">31. ClaTest 42-43. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">32. Cf. ClaTest 48-51. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">33. ClaTest 27-29<\/span><\/p>\n<p><em>Texto extra\u00eddo do &#8220;Cadernos Franciscanos, n\u00ba 9 &#8211; 1995&#8221;, publicado pela Vozes e FFB<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Santa Clara de Assis &#8211; Frei In\u00e1cio Dellazari, OFM <\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":176337,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[65],"tags":[108],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Clara, &quot;Plantinha&quot; do Ser\u00e1fico Pai? - Carisma - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/clara-plantinha-do-serafico-pai.html\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Clara, &quot;Plantinha&quot; do Ser\u00e1fico Pai? 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