{"id":176319,"date":"2011-01-11T09:43:04","date_gmt":"2011-01-11T11:43:04","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/?p=176319"},"modified":"2019-08-06T15:40:54","modified_gmt":"2019-08-06T18:40:54","slug":"naquele-domingo-de-ramos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/naquele-domingo-de-ramos.html","title":{"rendered":"Naquele Domingo de Ramos"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-176320\" src=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/clara_ramos.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"501\" srcset=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/clara_ramos.jpg 840w, https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/clara_ramos-450x268.jpg 450w, https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/clara_ramos-768x458.jpg 768w, https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/clara_ramos-150x89.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><\/p>\n<p><em>Chegou\u00a0 a noite. Noite velha, todos dormem no pal\u00e1cio. Clara esperou aquela hora segura, com receio de que lhes estorvassem os prop\u00f3sitos. Dirigiu-se a uma porta escusa, a \u201cporta dos mortos\u201d que s\u00f3 se abria quando algu\u00e9m morria em casa, para por ela sair o enterro; arredou as pesadas batentes e a pedra que as escorava, e com Pac\u00edfica de Guelf\u00faccio meteu ao escuro da noite em dire\u00e7\u00e3o \u00e0\u00a0 Porci\u00fancula\u00a0<\/em>\u00a0 <strong><em>(Fernando Felix Lopes,\u00a0\u00a0 O Poverello\u00a0 S\u00e3o Francisco de Assis,\u00a0 Braga, p. 226).<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>1.<\/strong> Assim, Fernando Felix Lopes descreve a \u201cfuga\u201d noturna de Clara com o jeito portugu\u00eas com que esse autor escreve. Essa seria uma primeir\u00edssima etapa de suas andan\u00e7as, da peregrina Chiara dos Favarone e Offreduccio.\u00a0 A aventura, sim literalmente a aventura, come\u00e7a no Domingo de Ramos de 1212.\u00a0 Uma mulher muito jovem, filha da aristocracia, chamada Clara e um rapaz cheio de zelo e de fogo, Francesco, esse Francesco que vive para sempre porque para sempre est\u00e1 grudado ao Evangelho,\u00a0 foram os protagonistas desta aventura. Uma menina, filha de m\u00e3e piedosa e firme, mulher das peregrina\u00e7\u00f5es, mulher forte. Ortolana teve papel importante na decis\u00e3o de Clara.\u00a0 Sua filha, menina iluminada, era feita para coisas diferentes. Ortolona n\u00e3o era ing\u00eanua. Sabia muito bem disto. As coisas pareciam maduras. Estava na hora da sa\u00edda&#8230; de sair para caminhar como Abra\u00e3o\u00a0 que devia deixar tudo&#8230; e caminhar sem mapa na m\u00e3o para uma terra que Deus haveria de lhe mostrar.<\/p>\n<p><strong>2.<\/strong> Clara \u201cestava firmemente decidida a imitar o exemplo de Francisco e de seus frades, ainda que a sua resolu\u00e7\u00e3o lhe exigisse os mais \u00e1rduos sacrif\u00edcios. Na quaresma de 1212, a esposa escuta a voz do amado que a chama ao deserto. Claire-Pascale Janet (Sainte Clare d\u2019Assise, Fayard 1989)\u00a0 escreve uma\u00a0 biografia da santa como se Clara estivesse escrevendo seu di\u00e1rio.\u00a0 Era 18 de mar\u00e7o de 1212 (segundo a autora): \u201cEst\u00e1 decidido. Como fazer\u00a0 esperar mais ainda aquele que se me entregou totalmente?\u00a0 Nessa caminhada da Quaresma ou\u00e7o a sugest\u00e3o que me faz: \u201cVem, eu vou te levar ao deserto para falar ao teu cora\u00e7\u00e3o, e tu me responder\u00e1s com todo o teu ser, com todo o teu cora\u00e7\u00e3o e com todas as tuas for\u00e7as. Sinto como que uma queimadura o amor que levou Francisco de ruptura em ruptura. Eis o que procuro:\u00a0 a pobreza de Cristo. Um caminho novo se abre diante de meus passos\u201d (p. 52).<\/p>\n<p><strong>3.<\/strong> Um caminho novo&#8230; da Porci\u00fancula para\u00a0 S\u00e3o Paulo das Abadessas, para Santo Angelo de Panzo, para S\u00e3o Dami\u00e3o&#8230; Mas esses deslocamentos exteriores n\u00e3o s\u00e3o os mais significativos&#8230; Na exiguidade dos espa\u00e7os de S\u00e3o Dami\u00e3o foi preciso caminhar interiormente para enxergar a terra das promessas&#8230;. acompanhar com o cora\u00e7\u00e3o os frades pelo mundo, refletir e pesar esse desejo de ir\u00a0 pelo mundo afora&#8230;. viver a tristeza da perda de Francisco&#8230; ter\u00a0 vontade de morrer nas miss\u00f5es&#8230;. Nunca parar, sempre estar em estado de \u00eaxodo&#8230; como as irm\u00e3s clarissas de hoje,\u00a0 na fidelidade ao passado, saber\u00e3o mostrar ao mundo inteiro a for\u00e7a daquela\u00a0 noite de Ramos de 1212.\u00a0 Sempre caminhando na dire\u00e7\u00e3o de um mundo novo, nada de mesmice, de fixismo, de imobilismo.<\/p>\n<p><strong>4.<\/strong> \u201cImposs\u00edvel advertir minha fam\u00edlia. Quando Rufino, meu primo, se juntou ao grupo de Francisco\u00a0 j\u00e1 foi um drama.\u00a0 A \u00fanica maneira \u00e9 fazer com que os meus sejam colocados diante do fato consumado. N\u00e3o sou insens\u00edvel ao sofrimento deles, mas a realiza\u00e7\u00e3o da vontade de Deus se paga com este pre\u00e7o. O bispo Guido j\u00e1 est\u00e1 a par e Francisco me mandou sua b\u00ean\u00e7\u00e3o. Tudo se far\u00e1 nos umbrais da Grande Semana, quando Cristo tornou se rosto duro como uma pedra para subir a Jerusal\u00e9m e entrar livremente em sua Paix\u00e3o\u201d\u00a0 ( Claire-Pascale, op.cit., p. 52).<\/p>\n<p><strong>5.<\/strong> O que aconteceu durante aquele dia?\u00a0 Joaquim Capela, OFM , no seu Santa Clara de Assis (Braga, 1949) assim descreve a cena: \u201cChegado que foi esse dia, Clara adornando-se dos seus mais preciosos vestidos por ordem de Francisco, dirigiu-se \u00e0 Catedral de S\u00e3o Rufino na companhia da fam\u00edlia para assistir a cerim\u00f4nia da b\u00ean\u00e7\u00e3o e da distribui\u00e7\u00e3o dos ramos. O templo estava repleto de fi\u00e9is, e no meio do burburinho pr\u00f3prio da ocasi\u00e3o, ela, conservando-se recolhida e concentrada em um canto, parecia alheada a tudo o que se passava em torno. No momento da distribui\u00e7\u00e3o dos ramos, todos se levantaram para receber o seu, menos Clara que continuava em profunda medita\u00e7\u00e3o, como se n\u00e3o prestasse a m\u00ednima aten\u00e7\u00e3o ao ato que estava realizando, e n\u00e3o se moveu de seu lugar. Com grande admira\u00e7\u00e3o dos assistentes, o bispo desceu os degraus do altar e foi colocar na m\u00e3o da donzela uma linda palma. Esta a\u00e7\u00e3o do prelado deixa perceber que ele estaria ao corrente do que ia se passar.\u00a0 Quis dar \u00e0 filha de Ortolona aquela distin\u00e7\u00e3o para a animar no seu generoso prop\u00f3sito\u201d (p.52).<\/p>\n<p><strong>6.<\/strong> Aquele dia parecia intermin\u00e1vel para Clara. Era preciso esperar a noite, a grande noite chegar. \u201cNoite velha&#8230;\u201d, no dizer de Fernando Felix Lopes.\u00a0 \u201cAltas horas da noite, quando no pal\u00e1cio de Favarone j\u00e1 todos estavam recolhidos, Clara saiu ocultamente com sua amiga Guelfuccio em dire\u00e7\u00e3o a Santa Maria dos Anjos. Com receio de ser pressentida n\u00e3o quis sair pela porta principal. Havia uma outra porta traseira, tapada com pedras e toras de madeira, e foi por ela que a jovem escapuliu, depois de conseguir abri-la \u00e0 custa de muito esfor\u00e7o\u201d (Capela, 52-53). O autor, em nota de rodap\u00e9,\u00a0 faz duas observa\u00e7\u00f5es. Do processo da canoniza\u00e7\u00e3o de Clara depreende-se que foi Bona de Guelfuccio que a acompanhou na fuga, mas provavelmente Filipa de Guelfuccio, tamb\u00e9m muito amiga e confidente de Clara e que poucos anos depois se lhe juntou em S\u00e3o Dami\u00e3o. A segunda observa\u00e7\u00e3o \u00e9 a respeito da porta dos mortos.\u00a0 Na \u00dambria era costume obstruir a porta por onde havia sa\u00eddo o cad\u00e1ver de alguma pessoa da fam\u00edlia de mau agouro voltar algu\u00e9m a servir-se daquela porta.<\/p>\n<p><strong>7.<\/strong> Clara e sua amiga descem as ruas silenciosas na dire\u00e7\u00e3o da Porci\u00fancula. L\u00e1 naquela capela, os frades esperavam por Clara que iria ser vestida, faria sua profiss\u00e3o e tudo em pouco tempo nos umbrais da Semana Santa.\u00a0 Marco Bartoli \u00e9 de parecer que\u00a0 Tom\u00e1s de Celano, em sua Legenda de Santa Clara\u00a0 quer real\u00e7ar uma celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica no momento em que Clara chega a S\u00e3o Dami\u00e3o.\u00a0 Clara escolhe o mundo dos pobres, quer estar entre os mais abandonados como Cristo, seu amado e amado de Francisco.\u00a0 Padre Fernando Felix Lopes assim descreve a cena da chegada: \u201c\u00c0quela hora, os frades recolhidos em ora\u00e7\u00e3o diante do ret\u00e1bulo da Virgem pedem para Clara a prote\u00e7\u00e3o de Deus: e, depois, saem com tochas nas m\u00e3os ao encontro da jovem donzela. Alumiada no candor de seus vestidos de gala, as sombras boleando-se nas copas do arvoredo de \u00e0 beira do caminho, treme-lhe o cora\u00e7\u00e3o naquele momento t\u00e3o grande. E a nobre virgem entra na pobreza da Porci\u00fancula, a fazer-se pobre. Rompe, comovido e devoto, o canto dos hinos e salmodia: tamb\u00e9m os frades sentem a grandeza nova de hora t\u00e3o solene. Clara despoja-se dos seus vestidos ricos, e Francisco veste-lhe a t\u00fanica de burel \u00e1spero; igual a que vestiam os frades, ata-lhe \u00e0 cintura uma corda, e com o rito costumado da consagra\u00e7\u00e3o das virgens, corta-lhe as tran\u00e7as fartas e cobre-lhe a cabe\u00e7a com o v\u00e9u branco e preto, de pano grosseiro\u201d (Fernando\u00a0 F\u00e9lix Lopes, p.227).<\/p>\n<p><strong>8.<\/strong> Marco Bartoli vendo no relato da Legenda de Tom\u00e1s de Celano\u00a0 uma grande liturgia\u00a0 faz observa\u00e7\u00f5es quem merecem nossa aten\u00e7\u00e3o.\u00a0 N\u00e3o posso me privar ao dever e prazer de transcrever as linhas de Bartoli, pedindo desculpas pela longa cita\u00e7\u00e3o (Clara de Assis, FFB\/Vozes):\u00a0 \u201cTodo o relato de Celano parece real\u00e7ar a estrutura lit\u00fargica. Clara, por determina\u00e7\u00e3o de Francisco, deveria se vestir \u201cbela e elegantemente\u201d , celebrar com toda a cidade a entrada de Jesus em Jerusal\u00e9m, mas depois, \u00e0 noite, abandonaria\u00a0 aquela alegria pelo despojamento de suas vestes, passando a seguir o Senhor que tinha visto a alegria da entrada gloriosa em Jerusal\u00e9m na dor da via crucis (&#8230;).\u00a0 Quem preparou esta\u00a0 \u201cfuga lit\u00fargica\u201d\u00a0 foi sem d\u00favida o pr\u00f3prio Francisco.\u00a0 Foi ele que, com suas m\u00e3os, cortou os cabelos de Clara e, com isto, consagrou-a ao Senhor. N\u00e3o resta d\u00favida que se tratava\u00a0 de um gesto lit\u00fargico. Poderia pairar uma certa d\u00favida pelo fato de que a legenda n\u00e3o use a palavra tonsura, termo t\u00e9cnico com o qual se indicava o corte de cabelo na cerim\u00f4nia de consagra\u00e7\u00e3o das virgens. O termo, no entanto, \u00e9 at\u00e9 usado na bula de canoniza\u00e7\u00e3o\u00a0 Clara claris praeclara: Et ipso beato Francisco sacra ibi recepta tonsura &#8230; (e depois de ter recebido a tonsura do mesmo bem-aventurado Francisco).\u00a0 Talvez\u00a0 Tom\u00e1s de Celano\u00a0 n\u00e3o tenha querido dar realce \u00e0 tonsura realizada por Francisco naquela noite de Domingo de Ramos, por estar plenamente consciente da excepcionalidade\u00a0 de semelhante gesto. Clara n\u00e3o era uma jovem que estava sendo encaminhada por seus pais \u00e0 vida\u00a0 mon\u00e1stica.. Era uma mo\u00e7a que tinha\u00a0 fugido de casa, indo ao encontro do desprezo e da desaprova\u00e7\u00e3o de todos. Francisco n\u00e3o era bispo &#8211;\u00a0 a quem normalmente era reservada a consagra\u00e7\u00e3o das virgens \u2013 e nem mesmo sacerdote. E, apesar disso, se arrogou o direito, como um\u00a0 simples leigo de consagrar\u00a0 Clara ao Senhor. \u00c9 evidente o alcance extraordin\u00e1rio do gesto de Clara e da escolha que com ela fez Francisco, com respeito aos costumes da \u00e9poca. Pra real\u00e7ar tudo isso, Francisco quis dar a esta fuga um valor lit\u00fargico. Pode-se at\u00e9 dizer que at\u00e9 \u201cinventou\u201d uma nova liturgia para acolher dignamente Clara em nome do Senhor.\u00a0 Uma tal liturgia que abarcava o arco de todo\u00a0 um dia e era a express\u00e3o da criatividade religiosa do santo inventor da liturgia do pres\u00e9pio em Greccio (p.60).<\/p>\n<p><strong>9.<\/strong> E assim terminavam as horas daquele extraordin\u00e1rio domingo de Ramos em que Clara renunciava a tudo, mudava de categoria social, vestia-se dos trajes da pobreza e professava o seguimento do Cristo pobre e apaixonante.\u00a0 Que caminhos lhe seriam abertos?\u00a0 Que surpresas em cada curva da estrada?\u00a0 Isso n\u00e3o lhe competia dizer.\u00a0 Ela sabia em quem havia confiado. Que caminhos novos ou velhos trilhar\u00e3o as clarissas?\u00a0 O que a Igreja precisa delas neste mundo de indiferen\u00e7a, pluralismo confuso, individualismo?\u00a0 Tinha chegado e j\u00e1 ia passando a noite em que Clara se tinha embrenhado no escuro rumo \u00e0 Porci\u00fancula.\u00a0 E disto comemoramos 800 anos&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Frei Almir Guimar\u00e3es<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Santa Clara de Assis &#8211; Frei Almir Guimar\u00e3es<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":176321,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[65],"tags":[108],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Naquele Domingo de Ramos - Carisma - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/naquele-domingo-de-ramos.html\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Naquele Domingo de Ramos - 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