{"id":167353,"date":"2018-07-24T07:56:48","date_gmt":"2018-07-24T10:56:48","guid":{"rendered":"http:\/\/franciscanos.org.br\/?p=167353"},"modified":"2018-11-08T13:40:06","modified_gmt":"2018-11-08T15:40:06","slug":"espiritualidade-franciscana-e-vida-intelectual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/espiritualidade-franciscana-e-vida-intelectual.html","title":{"rendered":"Espiritualidade franciscana e vida intelectual"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/francisco_240718_1.jpg\" alt=\"francisco_240718_1\" width=\"820\" height=\"497\" \/><\/p>\n<h3>ABORDAGEM ANTROPOL\u00d3GICA DO TEMA DOS ESTUDOS<\/h3>\n<blockquote><p>Frei Fran\u00e7ois Comparat, frade menor franc\u00eas, na segunda metade do s\u00e9culo passado ocupou-se muito da forma\u00e7\u00e3o de leigos em seu pa\u00eds. A revista &#8220;Evangile Aujourd\u2019hui&#8221; publicou um de seus textos sobre a antropologia dos estudos. O trabalho se insere dentro de um contexto de um congresso mais vasto: espiritualidade franciscana e vida intelectual. Outros colaboradores apresentaram suas pesquisas mais diretamente ligadas ao jeito franciscano de ver o mundo. Aqui transcrevemos quase todo o texto de Frei Fran\u00e7ois Comparat no qual h\u00e1 algumas refer\u00eancias \u00e0 especificidade do estudo na perspectiva franciscana. O texto nos permite refletir sobre os estudos a partir da \u00f3tica antropol\u00f3gica. O autor sup\u00f5e leitores religiosos, mais especificamente franciscanos e franciscanas.<\/p>\n<p><strong>Frei Almir Guimar\u00e3es<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Antropologia \u00e9 uma palavra que recobre o conjunto de disciplinas que se interessam pelo homem, considerado individual ou coletivamente em seus mais diversos aspectos e ajudam a que se possa chegar a uma concep\u00e7\u00e3o global do ser humano. Ela escruta a vida do homem no seio de m\u00faltiplos relacionamentos que podem levar ao seu pleno desenvolvimento.<\/p>\n<p><strong>Quest\u00f5es pr\u00e9vias:<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">\u2022 O que se passa em mim quando resolvo fazer estudos? Como minha pessoa \u00e9 tocada? Muito, pouco, quase nada?<br \/>\n\u2022 Os estudos que empreendo exercem influ\u00eancia sobre o grupo a que perten\u00e7o?<br \/>\n\u2022 Para que servem os estudos? Devo faz\u00ea-los quando l\u00e1 por dentro de mim n\u00e3o desejo de verdade?<\/p>\n<h3>Estudar \u00e9 como partir em peregrina\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>No desejo de nos abeirar do sentido da forma\u00e7\u00e3o podemos dizer que \u00e9 fazer um pouco como Abra\u00e3o: \u00e9 partir sem saber para onde se vai. Os conhecimentos que aos poucos v\u00e3o sendo adquiridos significam uma ajuda para desenvolver a vida religiosa que foi minha op\u00e7\u00e3o, poder\u00e3o me prestar servi\u00e7o e corresponder \u00e0quilo que busco? Um aspecto todo particular precisa ser levado em considera\u00e7\u00e3o: com os estudos \u00e9 bem prov\u00e1vel que eu me torne diferente. Como as pessoas aceitar\u00e3o as mudan\u00e7as do neoformando? Serei aceito? H\u00e1 mudan\u00e7as que s\u00e3o operadas: um deixar o ambiente habitual, um certo g\u00eanero de vida, hor\u00e1rios, etc. Acolher um processo de forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos deixa imunizados, indemnes.<\/p>\n<p>Como adultos j\u00e1 temos uma experi\u00eancia de vida. Temos nossos h\u00e1bitos devido ao estilo de vida consagrada que levamos. Tais h\u00e1bitos s\u00e3o bons j\u00e1 que n\u00e3o podemos inventar a cada manh\u00e3 o que nos cabe realizar. Tomamos rapidamente decis\u00f5es frente \u00e0s simples quest\u00f5es de todos os dias porque j\u00e1 possu\u00edmos uma regra de vida, temos experi\u00eancia e uma certa maturidade da f\u00e9: os contornos est\u00e3o fundamentalmente balizados.<\/p>\n<p>De outro lado h\u00e1 certos h\u00e1bitos que funcionam como freio: falta de imagina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tolerar questionamentos, ter dificuldade em rever as pr\u00f3prias ideias, experimentar o medo, um dobrar-se sobre si mesmo. Para chegar a saborear a forma\u00e7\u00e3o, necess\u00e1rio que haja um certo gosto pelos \u201cdeslocamentos\u201d interiores intelectuais, psicol\u00f3gicos e espirituais, o que pode ao mesmo tempo ser algo estimulante diante das perspectivas da novidade e, pelas mesmas raz\u00f5es, causar inquieta\u00e7\u00e3o. A forma\u00e7\u00e3o \u00e9 grosso modo como a escalada: deixa-se um ponto de apoio para alcan\u00e7ar outro que nos leva mais adiante. A forma\u00e7\u00e3o se casa bem com a espiritualidade da peregrina\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 mero \u201crito\u201d de devo\u00e7\u00e3o, mas processo de transforma\u00e7\u00e3o do ser de alguma forma arrancado do espa\u00e7o e g\u00eanero de vida habituais. O peregrino \u00e9 um homem que se arranca e que parte em busca de um \u201calhures\u201d como se a mudan\u00e7a de lugar trouxesse consigo uma mudan\u00e7a de vida.<\/p>\n<p>Mas aten\u00e7\u00e3o, peregrina\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 turismo. H\u00e1 uma dimens\u00e3o de f\u00e9. Assim, peregrinar \u00e9 aproximar-se das ra\u00edzes de sua pr\u00f3pria f\u00e9. Substituam a palavra peregrina\u00e7\u00e3o por forma\u00e7\u00e3o e haver\u00e3o de ter uma ideia do que ela representa.<\/p>\n<h3>Formar n\u00e3o \u00e9 perder seguran\u00e7as humanas mas consiste em correr um risco<\/h3>\n<p>A pessoa que se coloca numa posi\u00e7\u00e3o de \u201cdiscente\u201d corre o risco de duas alternativas:<br \/>\n\u2022 Falta de flexibilidades que a leva a criticar o docente.<br \/>\n\u2022 Ou contrariamente: n\u00e3o se tem condi\u00e7\u00f5es de comparar o que foi adquirido anteriormente com a novidade e h\u00e1 a tenta\u00e7\u00e3o e transforar o \u201cformador\u201d num guru.<\/p>\n<p>H\u00e1 a quest\u00e3o do meio onde se vive. Aquele que faz estudos se movimenta num ambiente que n\u00e3o vive a atmosfera de estudo. A forma\u00e7\u00e3o \u201cteol\u00f3gica\u201d n\u00e3o \u00e9 automaticamente alimento para nossa vida espiritual. As pessoas precisam se dar conta que com os estudos n\u00e3o est\u00e3o perdendo a f\u00e9 e sim falsas imagens da f\u00e9. N\u00e3o se questiona a exist\u00eancia de Deus. Nossas ideias a seu respeito e que s\u00e3o postas em xeque.<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o crist\u00e3 dos adultos \u00e9 um risco, mas antes de tudo uma chance para a comunidade que sempre sai ganhando com o enriquecimento dos formandos apesar de certas \u201cincompreens\u00f5es\u201d. Os estudos existem porque cada um tem o direito de melhor situar sua f\u00e9 com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es atuais, como tamb\u00e9m tem o dever e aprofundar a mesma f\u00e9 em vista de melhor compreender as riquezas que ela nos oferece para viver. Para que se fa\u00e7am bons estudos n\u00e3o basta o conhecimento acad\u00eamico a respeito da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 ou o significado dos mist\u00e9rios da f\u00e9. Os estudos constituem um esfor\u00e7o, sempre exigente, no sentido de elaborar uma reflex\u00e3o a partir dos dados da f\u00e9 e para colocar tal reflex\u00e3o por escrito. N\u00e3o se trata de repetir as aulas do professor. Cada um haver\u00e1 de colocar diante de si os questionamentos existenciais. Fazer um trabalho nesse campo n\u00e3o consiste em escrever p\u00e1ginas sentimentais ou marcadas pela milit\u00e2ncia. O subjetivo ceder\u00e1 lugar ao objetivo. Tudo se aprende pouco a pouco. Necess\u00e1rio paci\u00eancia e exerc\u00edcios pr\u00e1ticos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/francisco_240718.jpg\" alt=\"francisco_240718\" width=\"820\" height=\"525\" \/><\/p>\n<h3>Estudo e espiritualidade franciscana caminham juntos?<\/h3>\n<p>A grande preocupa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Francisco, que sempre volta em sua fala e em seus escritos, \u00e9 que nada estanque, distancie e seja \u00f3bice no tocante ao primeiro cuidado do frade menor que \u00e9 ter o Esp\u00edrito do Senhor e estar para ele sempre orientado. Tendo em vista esse princ\u00edpio indispens\u00e1vel, toda outra atividade \u00e9 sempre secund\u00e1ria. H\u00e1 ainda outras palavras de nosso fundador afirmando que toda atividade \u00e9 boa se os irm\u00e3os a realizam com fidelidade e devo\u00e7\u00e3o e n\u00e3o em vista de um proveito pessoal. Francisco desde os in\u00edcios acolheu na Fraternidade, sem distin\u00e7\u00e3o alguma, homens sem instru\u00e7\u00e3o bem como letrados. O mais conhecido de todos foi Ant\u00f4nio de P\u00e1dua que recebe de Francisco a autoriza\u00e7\u00e3o para o ensino da teologia.<\/p>\n<p>Bem cedo esta coabita\u00e7\u00e3o entre irm\u00e3os letrados e frades sem instru\u00e7\u00e3o conheceu tens\u00f5es e diferentes interpreta\u00e7\u00f5es. Esta constante tens\u00e3o leva os franciscanos, hoje ainda, a aprofundar o sentido do minorismo e da simplicidade quando fazem estudos.<\/p>\n<p>Para o frade menor, o estudo \u00e9 parte integrante de sua voca\u00e7\u00e3o no sentido de buscar, conhecer e saborear a verdade de Deus, do homem e do criado. O estudo n\u00e3o ter\u00e1 como motiva\u00e7\u00e3o o orgulho ou o desejo de promo\u00e7\u00e3o, mas o fruto da trabalho intelectual dever\u00e1 ser colocado \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o e em benef\u00edcio da fraternidade. O mais s\u00e1bio n\u00e3o \u00e9 o que conhece mais, mas o que vive em conson\u00e2ncia com as coisas essenciais que passa a conhecer. N\u00e3o se trata de possuir, mas de se deixar possuir por Cristo que \u00e9 a verdade e tornar-se dele testemunha.<\/p>\n<p>O estudo \u00e9 atividade austera e cansativa. O que permite que ele continue \u00e9 o progresso da f\u00e9 e n\u00e3o o ac\u00famulo de conhecimentos.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica franciscana dos estudos ser\u00e1 guiada pelo Esp\u00edrito do Senhor e por um comportamento do frade menor.<\/p>\n<h3>Experi\u00eancia de Deus e de si<\/h3>\n<p>Os estudos se apresentam como um caminho pelo qual Deus abre meu cora\u00e7\u00e3o (h\u00e1 dentro de mim um incr\u00e9u que ai cochila ou ent\u00e3o um crente \u201cmeio fan\u00e1tico\u201d que se excita), \u00e0 condi\u00e7\u00e3o que ele continue sendo objeto da a\u00e7\u00e3o. Acolhendo a Cristo (atrav\u00e9s de textos e tradi\u00e7\u00f5es) sou enviado para mim mesmo porque ele, por sua encarna\u00e7\u00e3o, revestiu-se de uma humanidade mais verdadeira do que a minha. Ele \u00e9, ao mesmo tempo, exegeta do Pai e do homem. Destarte, atrav\u00e9s dos estudos que me falam da sabedoria crist\u00e3, interesso-me por mim mesmo e sou convidado a me converter.<\/p>\n<p>Trata-se de colocar-se \u00e0 escuta de Cristo para tomar dist\u00e2ncia de si mesmo, deixar-se habitar a fim de que Deus possa vir viver atrav\u00e9s de mim. Os estudos s\u00e3o da ordem da transfigura\u00e7\u00e3o: deixar a figura do outro passar atrav\u00e9s de mim, transparecer. Pelos estudos (evidentemente n\u00e3o somente atrav\u00e9s deles), quando me falam de Cristo vou aos poucos me \u201cconstituindo\u201d, torno-me o que devo ser. Como toda atividade o estudo \u00e9 uma gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Com efeito, como \u00e9 imposs\u00edvel algu\u00e9m existir ou realizar-se, sem abrir-se ao outro, sem ouvi-lo, acolh\u00ea-lo na reciprocidade, os estudos precisam permitir ao irm\u00e3o ou \u00e0 irm\u00e3 de enriquecer sua humanidade, abrir-se ao mundo e \u00e0s culturas humanas e de se inscrever num desejo de relacionamento pessoal e de encontro com Deus. Importante compreender que num estudo de um crente n\u00e3o est\u00e3o apenas dois, o texto e eu, mas tr\u00eas porque n\u00e3o se pode esquecer a pessoa de Cristo que n\u00e3o est\u00e1 apenas no final da busca, mas caminha comigo mesmo que nem sempre o fa\u00e7a de maneira expl\u00edcita. A reflex\u00e3o teol\u00f3gica funda-se naquilo que o Evangelho (e a Tradi\u00e7\u00e3o) nos transmite. Evidente que n\u00e3o se trata de aceitar um discurso, mas de acolher uma vida, como Maria que aceitou que fosse feito segundo a Sua Palavra e n\u00e3o segundo um discurso. O primeiro resultado do estudo \u00e9 me fazer bem: deve permitir que eu integre minhas convic\u00e7\u00f5es, desejos e puls\u00f5es para que sejam purificados e burilados no momento em que vivo alguma coisa do mist\u00e9rio de Deus.<\/p>\n<p>Os primeiros passos em teologia permitem burilar o conhecimento que se tem de Deus, ousar passar do conhecido para o desconhecido, confiar e aceitar a mudan\u00e7a de cen\u00e1rio. Esfor\u00e7o e satisfa\u00e7\u00e3o caminham juntos:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">\u2022 O esfor\u00e7o de aceitar um novo \u00caxodo, para n\u00e3o ficar bloqueado diante da aridez de determinados textos, para aceitar o empenho cerebral e resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de fazer as coisas \u201cmais \u00fateis\u201d. Al\u00e9m do esfor\u00e7o que isso pede, o tempo para tal consagrado, a disciplina necess\u00e1ria exigem cont\u00ednuo investimento e profundidade, investimento austero, sem d\u00favida, mas que, com o tempo, permite o progresso da f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">\u2022 A satisfa\u00e7\u00e3o de construir-se a si mesmo de maneira mais livre, o prazer de acolher um convite de ordem espiritual que permite ao estudante crescer em humanidade e liberdade. Um certo prazer que possibilita passar da imagem de Deus \u00e0 sua Palavra, da vida comunit\u00e1ria \u00e0 vida fraterna, da rubrica lit\u00fargica ao di\u00e1logo, da atividades preferidas aos cuidados pela miss\u00e3o.<\/p>\n<p>A teologia \u00e9 sempre porta de entrada para uma aventura pessoal porque, atrav\u00e9s dos grandes temas da f\u00e9, baliza e estrutura um caminho que come\u00e7a pela escuta e termina no amor.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/boaventura_240718.jpg\" alt=\"boaventura_240718\" width=\"820\" height=\"507\" \/><\/p>\n<p>Em resumo, podemos dizer, em primeiro lugar, que como religiosos fazemos estudos \u201creligiosos\u201d, decorr\u00eancia da f\u00e9: a confiss\u00e3o da f\u00e9, que como tal j\u00e1 carrega em si pensamento e sentido, deve desenvolver e transmitir o que ela tem de intelig\u00edvel, compreens\u00edvel de sorte que n\u00e3o apare\u00e7a sendo apenas algo, m\u00edtico e ideol\u00f3gico. Faz-se teologia para honrar a f\u00e9.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, a pessoa que estuda se insere pessoalmente no trabalho teol\u00f3gico. A teologia \u00e9 sempre feita por algu\u00e9m. Aquele que estuda n\u00e3o \u201csobra\u201d. Faz-se teologia com o que se \u00e9, com a condi\u00e7\u00e3o de homem ou de mulher, com a voca\u00e7\u00e3o de leigo ou de religioso, com sua espiritualidade, o ambiente em que se vive, o inconsciente coletivo, com os problemas e as respostas da \u00e9poca.<\/p>\n<p>No estudo da teologia, a pessoa est\u00e1 exposta aos textos, a\u00e7\u00f5es, acontecimentos, pr\u00e1tica que fazem parte do dom\u00ednio crist\u00e3o que se estuda. Toda teologia \u00e9 interpreta\u00e7\u00e3o. Aquele que estuda se d\u00e1 conta que ele mesmo est\u00e1 implicado naquilo que estuda. N\u00e3o se faz teologia adotando postura de neutralidade. Mas cuidado, n\u00e3o se trata de dizer \u201ceu\u201d em cada linha. Essa dimens\u00e3o da implica\u00e7\u00e3o pessoal ter\u00e1 sempre como pano de fundo a dimens\u00e3o universal da f\u00e9 da Igreja.<\/p>\n<h3>Import\u00e2ncia da comunidade<\/h3>\n<p>A f\u00e9 \u00e9 sempre pessoal. Cada irm\u00e3o e cada irm\u00e3 \u00e9 chamado a \u201cestar\u201d com o Senhor. A f\u00e9, no entanto, se manifesta ou se torna cr\u00edvel na aten\u00e7\u00e3o especial devotada ao outro, ao pobre, ao estrangeiro, ao amigo, \u00e0 visita, ao benfeitor, mas antes de tudo ao irm\u00e3o e \u00e0 irm\u00e3. \u00c9 na fraternidade que se come\u00e7a a aprender o \u201cestilo\u201d franciscano de se viver o Evangelho. A fraternidade est\u00e1 na origem do saber e do viver a experi\u00eancia da f\u00e9 num contexto de uma comunidade que influencia nosso discernimento. A vida comunit\u00e1ria, antes de ser instrumento de determinada miss\u00e3o, \u00e9 espa\u00e7o onde se faz a experi\u00eancia de Cristo ressuscitado. Tal experi\u00eancia passa atrav\u00e9s da riqueza e da fragilidade dos relacionamentos fraternos onde se pode reconhecer a beleza da voca\u00e7\u00e3o recebida e dar resposta ao dom da convers\u00e3o. \u00c9 em fraternidade que nos \u00e9 dada a gra\u00e7a de receber como um dom irm\u00e3os e irm\u00e3s. Na fraternidade cultivamos os valores humanos e crist\u00e3os capazes de nos conduzir a uma plena maturidade humana, crist\u00e3 e franciscana. Neste contexto vale lembrar o cap. 85 do <em>Espelho da Perfei\u00e7\u00e3o<\/em>: o frade perfeito s\u00f3 existe comunitariamente. A fraternidade \u00e9, pois, o elemento constitutivo dos estudos e a melhor imagem \u00e9 a no\u00e7\u00e3o da partilha: eu recebo e eu dou. Quando se realiza a forma\u00e7\u00e3o intelectual em tal contexto, os estudos contribuem para a constru\u00e7\u00e3o e edifica\u00e7\u00e3o da fraternidade. H\u00e1 um relacionamento estreito entre estudos, comunidade e mundo: os estudos s\u00e3o vistos como sinal de um servi\u00e7o a ser prestado.<\/p>\n<h3>Um vida em minoridade<\/h3>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o intelectual haver\u00e1 de se realizar num esp\u00edrito de caridade, simplicidade e minorismo. Partilhando com os outros o que recebem em seus estudos, os disc\u00edpulos de Francisco e Clara aprendem a comunicar gratuitamente aos homens o que receberam gratuitamente.<\/p>\n<p>Como irm\u00e3os de S\u00e3o Francisco temos o costume de voltar nossos olhos para com os pequenos, esperamos que os estudos nos ajudem a discernir aquilo que possa ser a\u00e7\u00e3o ou palavra de liberta\u00e7\u00e3o. Muitas vezes a reflex\u00e3o teol\u00f3gica se volta e age tamb\u00e9m na ordem cultural, ou hist\u00f3rica, psicol\u00f3gica ou social quando leva em considera\u00e7\u00e3o um aspecto da vida humana, n\u00e3o religioso como tal, por exemplo uma quest\u00e3o de moral social, de justi\u00e7a e reparti\u00e7\u00e3o equitativa dos bens, salvaguarda da cria\u00e7\u00e3o, etc. Nesse caso a reflex\u00e3o teol\u00f3gica procura fazer liga\u00e7\u00e3o entre o campo social e o universo da f\u00e9.<\/p>\n<h3>Para os outros<\/h3>\n<p>O estudo \u201creligioso\u201d, no sentido amplo do termo, \u00e9 inerente \u00e0 nossa voca\u00e7\u00e3o porque somos chamados a partilhar o amor que Deus nos d\u00e1, a dar as raz\u00f5es de nossa f\u00e9, e isto para que aqueles que nos encontram tomem consci\u00eancia de que com Cristo nos tornamos mais humanos. Os estudos n\u00e3o se limitam a uma quest\u00e3o de mais conhecimentos fundamental. Estuda-se para melhor compreender e melhor servir ao Evangelho como uma for\u00e7a capaz de impregnar, e at\u00e9 mesmo \u201cperturbar\u201d os crit\u00e9rios de julgamento, os valores vigentes, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade que est\u00e3o em contraste com a Palavra de Deus e o des\u00edgnio da salva\u00e7\u00e3o. Os estudos devem fazer com que sejamos capazes de promover a cultura crist\u00e3 e estabelecer um di\u00e1logo frutuoso com homens e mulheres de nosso tempo.<\/p>\n<p><em>Gaudium et Spes<\/em> 43 afirma: \u201cQue n\u00e3o se crie oposi\u00e7\u00e3o artificial entre atividades profissionais e sociais de uma parte, e de outra, a vida religiosa (&#8230;). A exemplo de Cristo, que exerceu a profiss\u00e3o de oper\u00e1rio, alegrem-se antes os crist\u00e3os, porque podem desempenhar todas as suas atividades terrestres, unido os esfor\u00e7os humanos, dom\u00e9sticos, profissionais, cient\u00edficos ou t\u00e9cnicos, em s\u00edntese vital com os valores religiosos, sob cuja soberana dire\u00e7\u00e3o todas as coisas s\u00e3o coordenada para a gl\u00f3ria de Deus\u201d. O estudos orientam-se para esta miss\u00e3o. As pessoas estudam em vista do bem de todos. A vida crist\u00e3 \u00e9, assim, tens\u00e3o entre o eu e o n\u00f3s. N\u00e3o estudamos simplesmente por uma esp\u00e9cie de narcisista busca de conhecimentos. Tomados em seu conjunto, os estudos constituem uma tentativa de descobrir o sentido e o valor da vida segundo a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3. A cada \u00e9poca, a f\u00e9 deseja exprimir-se com as possiblidades e os conhecimentos culturais do lugar e do momento. A f\u00e9 experimenta necessidade de se \u201cinculturar\u201d o que certamente \u00e9, ao mesmo tempo, prazeroso e penoso. Necess\u00e1rio se faz conhecer a cultura ambiente para que a f\u00e9 seja compreendida da melhor forma poss\u00edvel. A teologia haver\u00e1 de esfor\u00e7ar-se por conhecer possibilidades e impasses caracter\u00edsticos de cada cultura de tal maneira que possa apresentar a f\u00e9 de maneira digna de cr\u00e9dito e dita de modo a ser compreendida por pessoas ou grupos de pessoas aos quais, normalmente falando, a apresenta\u00e7\u00e3o da f\u00e9 \u00e9 fastidiosa, ou simplesmente indiferente.<\/p>\n<h3>Os estudos a servi\u00e7o da miss\u00e3o<\/h3>\n<p>O estudo \u00e9 sempre um ato posterior (segundo) com respeito \u00e0 f\u00e9, mas permite que esta se desenvolva de maneira coerente. Se \u00e9 um ato segundo quer dizer que como tal n\u00e3o d\u00e1 sentido ao cristianismo. Os estudos n\u00e3o t\u00eam por finalidade tornar a f\u00e9 inteligente, mas colocar-se a seu servi\u00e7o dela para torna-la intelig\u00edvel. O ato teol\u00f3gico \u00e9 colocado para, atrav\u00e9s da hist\u00f3ria e das culturas, explicitar, precisar, interpretar e desenvolver a natureza do ato de f\u00e9 propriamente dito. H\u00e1 a necessidade de aculturar a f\u00e9, mas tamb\u00e9m de evangelizar as culturas. A mensagem da f\u00e9, definitivamente constitu\u00edda pela prega\u00e7\u00e3o dos ap\u00f3stolos deve continuar viva e mobilizadora como no primeiro dia de sua proclama\u00e7\u00e3o. Precisamos ser atingidos pela Palavra de Deus t\u00e3o vivamente quanto os contempor\u00e2neos de Jesus, porque o projeto do Evangelho \u00e9 suscitar na sociedade humana um perp\u00e9tuo di\u00e1logo. Transmitir uma vida e n\u00e3o um texto. Os estudos precisam levar \u00e0 confiss\u00e3o da f\u00e9 que, como tal, \u00e9 j\u00e1 portadora de cultura e de interpreta\u00e7\u00e3o, de se desenvolver de modo coerente, intelig\u00edvel, e, portanto cr\u00edvel, de tal sorte que n\u00e3o apare\u00e7a como m\u00edtica, ideol\u00f3gica ou sentimental. N\u00e3o se faz estudo de teologia pelo prazer pessoal, mas para honrar a f\u00e9 embora n\u00e3o haja oposi\u00e7\u00e3o entre ambos. Estuda-se por causa do Evangelho, quer dizer, estuda-se para os outros (uma Boa Nova a ser partilhada ) de sorte que a f\u00e9 possa ir o mais longe poss\u00edvel em sua express\u00e3o e entrar em comunica\u00e7\u00e3o com as outras culturas reinantes. Insistimos: os estudos existem para que tenhamos clareza a respeito das raz\u00f5es de nossa f\u00e9.<\/p>\n<h3>Para a Igreja<\/h3>\n<p>A f\u00e9 \u00e9 sempre pessoal, mas n\u00e3o individual. Tem suas ra\u00edzes na f\u00e9 da Igreja. Os estudos s\u00e3o feitos por causa da Igreja visando contribuir para a lucidez do corpo eclesial. A compet\u00eancia que se adquire com os estudos \u00e9 um modo de participar no papel da Igreja no mundo e ao seu servi\u00e7o em prol do Evangelho. A Igreja n\u00e3o tem receitas m\u00e1gicas na difus\u00e3o da f\u00e9. Os estudos levar\u00e3o a descobrir caminhos novos, minist\u00e9rios necess\u00e1rios e assim por diante.<\/p>\n<p>De modo particular insisto nesse \u201cplural\u201d. Para nossas comunidades franciscanas \u00e9 coisa evidente: basta recordar da passagem do frade perfeito (<em>Espelho da Perfei\u00e7\u00e3o<\/em>, n. 85). Precisamos de nosso corpo, nossa alma, nosso cora\u00e7\u00e3o, nossa respira\u00e7\u00e3o, nossa sexualidade, nossa mem\u00f3ria, nossa intelig\u00eancia, nossos limites, nossas car\u00eancias, etc. Cada um \u00e9 constitutivo e necess\u00e1rio, mas nenhum \u00e9 suficiente. Somente o plural manifesta o sentido e a f\u00e9 n\u00e3o tem que neg\u00e1-los, mas unific\u00e1-los. Com os estudos acontece mais ou menos a mesma coisa: eles s\u00e3o confrontados a uma pluralidade de autoridades quais sejam Escritura, tradi\u00e7\u00f5es, conc\u00edlios, magist\u00e9rio, nossa Regra, Constitui\u00e7\u00f5es, Madre abadessa ou Ministro provincial. Cada autoridade fundada da melhor maneira poss\u00edvel manifesta aquilo que lhe falta, o que ela n\u00e3o \u00e9, da\u00ed a impossibilidade para cada uma de ser o todo, o centro, o \u00fanico. A irredut\u00edvel pluralidade de autoridades aponta o relacionamento que entret\u00e9m cada uma delas com que ela postula como crist\u00e3o. Em tanto que autoridade, nem o Magist\u00e9rio, nem a Escritura, nem esta o aquela tradi\u00e7\u00e3o bastam; faltam-lhe as outras. Sua rela\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria \u00e0s outras diz bem da natureza de sua rela\u00e7\u00e3o \u00e0quele que autoriza ( o Esp\u00edrito Santo). A linguagem crist\u00e3 s\u00f3 pode ter uma estrutura comunit\u00e1ria: somente a conex\u00e3o orientada pelas testemunhas, sinais e pap\u00e9is diferentes enuncia uma verdade que n\u00e3o pode ser reduzida \u00e0 unicidade por um membro, uma fala, uma fun\u00e7\u00e3o. Porque esta verdade n\u00e3o pertence a ningu\u00e9m, passa a ser dita por v\u00e1rios. Seus tra\u00e7os se constituem por uma multiplicidade de sinais articulados entre si e sua figura geom\u00e9trica ser\u00e1 mais da ordem de um c\u00edrculo do que de uma pir\u00e2mide hier\u00e1rquica. \u00c9 sempre perigoso promover redu\u00e7\u00f5es \u201cunitaristas\u201d, ou se deixar dominar por uma ou outra dessas \u201cautoridades\u201d. Para o bem da institui\u00e7\u00e3o, os estudos devem alimentar e promover um sadio esp\u00edrito cr\u00edtico.<\/p>\n<p><em>Fonte: \u00c9vangile Aujourd\u2019hui, 237, jan-fev 2013, p. 3-14<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Franciscanamente<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":174730,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11],"tags":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Espiritualidade franciscana e vida intelectual - Carisma - Franciscanos<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/espiritualidade-franciscana-e-vida-intelectual.html\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Espiritualidade franciscana e vida intelectual - 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