{"id":16361,"date":"2012-04-19T07:15:53","date_gmt":"2012-04-19T10:15:53","guid":{"rendered":"http:\/\/new.franciscanos.org.br\/?p=16361"},"modified":"2019-08-06T15:23:38","modified_gmt":"2019-08-06T18:23:38","slug":"clara-a-mulher-da-esperanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/clara-a-mulher-da-esperanca.html","title":{"rendered":"Clara, a mulher da esperan\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" title=\"2083_190412\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/2083_190412.jpg\" alt=\"\" width=\"830\" height=\"434\" border=\"0\" \/><\/p>\n<blockquote><p><em>Com alegria estamos todos mergulhados na medita\u00e7\u00e3o dos passos dados por Clara de Assis no seguimento do Evangelho. Estamos vivendo esse tempo dos oitocentos anos da forma de vida da Senhora Clara. Temos diante dos olhos um texto\u00a0 que aborda Clara, como mulher da esperan\u00e7a, da autoria de uma das mais conhecidas e eruditas filhas da santa. Trata-se de <strong>Chiara Augusta Lainati.<\/strong> \u00a0S\u00e3o incont\u00e1veis as obras publicadas por esta clarissa. O texto de que dispomos \u00a0foi enviado para mosteiros das irm\u00e3s pobres de S\u00e3o Dami\u00e3o e \u00e9 uma vers\u00e3o em espanhol de artigo que, provavelmente foi escrito em italiano (<\/em>Clara, la mujer de la esperanza<em>). \u00a0A autora se dirige \u00e0s suas irm\u00e3s\u00a0 fazendo um veemente convite a que voltem ao primeiro amor e sejam mulheres de esperan\u00e7a para um mundo sem esperan\u00e7a. \u00a0Mesmo sendo dirigidas para as irm\u00e3s, as palavras da Lainati servem para todos que vivemos o aperto no cora\u00e7\u00e3o de ter perdido, em parte, a esperan\u00e7a. \u00a0Temos d\u00favidas, vivemos perplexidades, precisamos nos colocar entre os pobres que esperam a Deus. Fazemos uma tradu\u00e7\u00e3o do texto com lev\u00edssimas adapta\u00e7\u00f5es. O presente artigo nos coloca, pois,\u00a0 diante do ardente e urgente tema da esperan\u00e7a. Seu estilo \u00e9 po\u00e9tico, mas tamb\u00e9m prof\u00e9tico. Vale a pena ser meditado.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>\u201cOs pobres\u00a0 t\u00eam o segredo da esperan\u00e7a.\u00a0 Alimentam-se \u00a0dia ap\u00f3s dia das m\u00e3os de Deus.\u00a0 Os outros homens, desejam, exigem, reivindicam e a tudo isso chamam de esperan\u00e7a&#8230; Acrescente-se que\u00a0 o mundo moderno vivendo a loucura da acelera\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem tempo para esperar. A vida interior do homem moderno tem hoje um ritmo freneticamente veloz, impossibilitando que seu cora\u00e7\u00e3o seja alimentado por \u00a0sentimento t\u00e3o forte e t\u00e3o \u00a0doce como o da esperan\u00e7a&#8230;\u00a0 Somente os pobres\u00a0 esperam por n\u00f3s, \u00a0como somente os santos amam e expiam por n\u00f3s&#8230;\u00a0 Chegar\u00e1 o dia em que cumprir\u00e1 \u00a0a palavra de Deus e os pobres possuir\u00e3o a terra e a possuir\u00e3o simplesmente porque n\u00e3o perderam a esperan\u00e7a nesse mundo de desesperados\u201d\u00a0 (<em> Georges Bernanos<\/em>).<\/p>\n<p><strong>Uma imers\u00e3o no incerto<\/strong><\/p>\n<p>O primeiro passo dado por Clara fora da seguran\u00e7a da casa,\u00a0 rumo \u00e0 Porci\u00fancula envolta na obscuridade do bosque, um mergulho na incerteza \u00e9 seu passo decisivo na caminhada \u00a0da esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Um passo dado sem timidez (a filha de Favarone\u00a0 nunca \u00e9 t\u00edmida)\u00a0 que ser\u00e1 diferente, tomando um outro ritmo, quase passo de\u00a0 dan\u00e7a\u00a0 sob as asas do Esp\u00edrito.\u00a0 Ela mesma haver\u00e1 de escrever: \u201cEm r\u00e1pida corrida, com passo ligeiro e p\u00e9 seguro, de modo que seus passos nem recolham a poeira, confiante e alegre, avance com cuidado pelo caminho da perseveran\u00e7a\u201d (<em>2CtIn<\/em>).<\/p>\n<p>De fato, pouco a pouco, a mulher de Assis foi aprendendo em S\u00e3o Dami\u00e3o \u201ca comer cada dia da m\u00e3o de Deus\u201d; uma m\u00e3o que oferece, isto sim, e abundantemente,\u00a0 \u201cpobreza, trabalho, tribula\u00e7\u00e3o, humilha\u00e7\u00e3o e desprezo do mundo\u201d (<em>TestClara 27<\/em>) e que converte tudo isso em \u201cdel\u00edcia\u201d porque derrama sem medida nos sulcos do cora\u00e7\u00e3o uma semente viva: a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Quase com os olhos se pode ver aprofundar, germinar e crescer a semente na vida de Santa Clara: uma \u00e1rvore tenra, depois mais robusta, vigorosa sob o sol de S\u00e3o\u00a0 Dami\u00e3o, finalmente\u00a0 caminhando com seguran\u00e7a no c\u00e9u eterno de Deus, como modelo de esperan\u00e7a de toda a Igreja, como a \u00e1rvore de mostarda do evangelho que abriga nela numerosos p\u00e1ssaros dos c\u00e9us.<\/p>\n<p><strong>Nas m\u00e3os de Deus<\/strong><\/p>\n<p>Toda a vida de Clara, na realidade,\u00a0 se apoia na esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Sozinha deixa para sempre a casa paterna para, aos dezoito anos, seguir os passos de um homem, de um burgu\u00eas, Francisco, que\u00a0 as pessoas tinham como\u00a0 um louco.\u00a0 Um salto no vazio. Contra a tradi\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. Contra as conven\u00e7\u00f5es sociais. Contra a pr\u00e1tica normal da Igreja daquele tempo.\u00a0 Um fechar os olhos e deixar-se conduzir pelo abismo da f\u00e9 \u201ccontra toda esperan\u00e7a\u201d (<em>Rm 4,18<\/em>). P\u00e9guy diz a Deus que a f\u00e9 que ele ama \u00e9 a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Um pouco depois vemos Clara deixar de lado a tranquila e organizada seguran\u00e7a do mosteiro beneditino no qual recebeu hospitalidade por uns poucos dias. Ali, ela resistiu \u00e0 press\u00e3o e \u00e0 viol\u00eancia\u00a0 dos familiares. Recusa a seguran\u00e7a humana que torna a bater \u00e0 sua porta.<\/p>\n<p>Dirige-se a S\u00e3o Dami\u00e3o. Na incerteza.\u00a0 Ali tamb\u00e9m est\u00e1 tudo para ser feito. Naquele lugar est\u00e1 sozinha\u00a0 mas n\u00e3o fica espantada com a solid\u00e3o.\u00a0 Quanto mais profundo se faz seu despojamento, sua pobreza de seguran\u00e7as humanas,\u00a0 \u00e0 imita\u00e7\u00e3o do Cristo pobre, mais canta com toda liberdade e brilha ao sol, sempre caminhando na esperan\u00e7a porque\u00a0 permite experimentar \u00a0desde aqui a secreta do\u00e7ura que Deus reservou desde o principio para aqueles que o amam (<em>3CtIn<\/em>).<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Dami\u00e3o h\u00e1 muito pouco ou quase nada. E o que \u00e9 mais certo: n\u00e3o h\u00e1 perspectivas seguras.<\/p>\n<p>Hoje\u00a0 vemos a vida de Santa Clara \u00e0 luz que aconteceu posteriormente&#8230; Clara, no entanto, ao entrar em S\u00e3o Dami\u00e3o, \u00a0\u00a0\u00a0naquele marcante mar\u00e7o de Assis,\u00a0 levava com ela somente a esperan\u00e7a. Contava unicamente com a promessa evang\u00e9lica: \u201cVosso Pai sabe que tendes necessidade de todas essas coisas. Buscai em primeiro lugar o\u00a0 Reino e todas as coisas vos ser\u00e3o dadas de acr\u00e9scimo\u201d (<em>Lc 12,30-31<\/em>).\u00a0 Contava com uma outra promessa, a de Francisco, que havia predito que o Senhor haveria de multiplic\u00e1-las (<em>TestCl<\/em>).\u00a0 N\u00e3o confiava em nada a n\u00e3o ser nisso.\u00a0 N\u00e3o sabia o que seria dela, nem de sua irm\u00e3 In\u00eas que j\u00e1 se achava com ela&#8230;\u00a0 Vive a experi\u00eancia do \u201cp\u00e1ssaro do c\u00e9u\u201d e sabe que, nas m\u00e3os de Deus, ela vale mais do que muitos p\u00e1ssaros (<em>cf. Mt 6,26<\/em>).\u00a0 Alimenta-se com o que vem das m\u00e3os da Provid\u00eancia, dia ap\u00f3s dia, como pobre.\u00a0 N\u00e3o sabe se o lugar em que se encontra, S\u00e3o Dami\u00e3o, ter\u00e1 futuro:\u00a0 naquele momento estava vazio.\u00a0 N\u00e3o podia imaginar que depois de poucos meses\u00a0 Deus, em sua miseric\u00f3rdia, haveria de multiplicar as andorinhas debaixo do sol.\u00a0 No momento, humanamente falando, tudo \u00e9 obscuro.<\/p>\n<p>Como Abra\u00e3o, Clara caminha na noite,\u00a0 sustentada apenas pela confian\u00e7a inquebrant\u00e1vel naquele que \u00e9 o Senhor do imposs\u00edvel.\u00a0 \u201cO Senhor disse a Abra\u00e3o: Sai da tua terra, do meio de teus parentes, da casa do teu pai e vai para a terra que te mostrarei\u00a0 (<em>Gn 12,1<\/em>).\u00a0 E\u00a0 Abra\u00e3o\u00a0 \u201csaiu sem saber para onde ia\u201d (<em>Hb\u00a0 11,8<\/em>).<\/p>\n<p>Clara tamb\u00e9m ignorava para onde o Senhor a estava levando.\u00a0 Era noite.\u00a0 Na esperan\u00e7a, no entanto, tudo se arrisca. \u00a0\u201cOlho confiante para o Senhor, espero no Deus de minha salva\u00e7\u00e3o; meu Deus me ouvir\u00e1\u201d(<em>Mq 7,7<\/em>).\u00a0 E, apesar disso, Clara sentia-se segura, mais segura do que no velho e protegido castelo de seus familiares.\u00a0 Deus \u00e9 fiel em suas promessas.\u00a0 Clara espera em sua palavra.<\/p>\n<p><strong>Como uma agonia<\/strong><\/p>\n<p>\u201cTu \u00e9s a nossa\u00a0 <em>esperan\u00e7a<\/em>, grande e admir\u00e1vel Senhor,\u00a0 Deus onipotente, misericordioso salvador\u201d,\u00a0 Estas palavras que Francisco escreveu para Frei Le\u00e3o,\u00a0 foram passando de m\u00e3o em m\u00e3o\u00a0 e chegaram ao cora\u00e7\u00e3o de Clara.\u00a0 \u201cTu \u00e9s a seguran\u00e7a, tu \u00e9s\u00a0 a riqueza que nos satisfaz. \u00c9s o guarda e o defensor\u201d\u00a0 ( <em>Bilhete de Francisco a Frei Le\u00e3o<\/em>).\u00a0 Toda outra seguran\u00e7a fora do Senhor seria trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Clara lan\u00e7a-se no vazio: vende a heran\u00e7a e\u00a0 o resultado d\u00e1 aos pobres.\u00a0 Faz aprovar de viva voz pelo Papa Inoc\u00eancio III\u00a0 o surpreendente privil\u00e9gio da pobreza\u00a0 que seria concedido oficialmente em 1228.\u00a0\u00a0 Deus far\u00e1 com que nada\u00a0 falte \u00e0s irm\u00e3s.\u00a0 Quanta esperan\u00e7a para aquela mulher, a quem um filho espiritual, um futuro Papa, n\u00e3o duvidar\u00e1 de cham\u00e1-la\u00a0 de \u201cm\u00e3e da sua salva\u00e7\u00e3o\u201d (<em>Carta\u00a0 \u201cAb illa hora\u201d\u00a0 do Cardeal\u00a0 Hugolino<\/em>).<\/p>\n<p>Aqui em baixo \u00e9 noite, noite mais profunda do que nos bosques em torno da Porci\u00fancula. Noite tamb\u00e9m para Clara, noite em que somente a pura esperan\u00e7a pode entrever uma luz, noite em que a \u00fanica salva\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201colhar-se\u201d no \u201cespelho\u201d que \u00e9 o rosto de Cristo, o Amor pobre, privado do esplendor humano, que est\u00e1 suspenso da cruz;\u00a0 \u201cEsperan\u00e7a de Israel que salvas no tempo da desgra\u00e7a&#8230;\u201d(<em>Jr\u00a0 14,8<\/em>).<\/p>\n<p>\u201cVeja\u00a0 como por voc\u00ea ele se fez desprez\u00edvel e siga-o, sendo desprez\u00edvel por ele neste mundo.\u00a0 Com o desejo de imit\u00e1-lo, mui nobre rainha,\u00a0 olhe, considere, contemple o seu esposo , o mais belo\u00a0 entre os filhos\u00a0 dos homens, feito por sua salva\u00e7\u00e3o o mais vil de todos, desprezado, ferido e t\u00e3o flagelado em todo o corpo, morrendo no meio de ang\u00fastias na pr\u00f3pria cruz&#8230; Se voc\u00ea sofrer com ele, na cruz e na tribula\u00e7\u00e3o, vai ter com ele na mans\u00e3o celeste&#8230; e seu nome ser\u00e1 inscrito no livro da vida\u201d (<em>2CtIn<\/em>).<\/p>\n<p>Como Clara\u00a0 aprendeu a\u00a0 \u201cagonizar\u201d com Cristo agonizante ( cf. <em>LSC 31<\/em>)? Somente pode responder a esta pergunta\u00a0 Aquele que a ensinou.\u00a0 Podemos, no entanto, exemplificar esses momentos de \u201cagonizar com Cristo\u201d:\u00a0 ter cinquenta irm\u00e3s e n\u00e3o ter nada para matar sua fome (<em>Proc 6,6<\/em>); ter uma \u201cirm\u00e3 Andr\u00e9ia\u201d que, desesperada, tem no cora\u00e7\u00e3o prop\u00f3sitos insanos (<em>Proc 3,16<\/em>);\u00a0 esperan\u00e7a de que tudo poder\u00e1 se\u00a0 viver olhando para o espelho e para aquele que est\u00e1 suspenso no madeiro da cruz&#8230;Papas, bispos, padres e leigos vieram mendigar esperan\u00e7a em Clara,\u00a0 \u201cm\u00e3e da salva\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Aqui, nesta terra de desterro, \u00e9 noite. A salva\u00e7\u00e3o vem unicamente de Deus, do Deus pregado na cruz que se fez \u201ca esperan\u00e7a de\u00a0 Israel, seu salvador em tempo de ang\u00fastia\u201d. \u00c9 extremamente cansativo, verdadeira agonia, caminhar nas areias ardentes deste deserto que nos conduz \u00e0 terra prometida.\u00a0 No entanto, est\u00e1 escrito: \u201cO resto de Jac\u00f3 ser\u00e1 no meio de numerosos povos como o orvalho vindo do Senhor, como gota de chuva sobre a erva que n\u00e3o espera em ningu\u00e9m nem conta com um ser humano\u201d (<em>Mq\u00a0 5,6<\/em>).<\/p>\n<p>H\u00e1 essa certeza: naquela terra n\u00e3o haver\u00e1 mais noite (<em>Ap 22,5<\/em>).\u00a0 N\u00e3o estar\u00edamos j\u00e1 vislumbrando aqui\u00a0 uma aurora no horizonte?<\/p>\n<p><strong>\u00caxodo<\/strong><\/p>\n<p>Francisco\u00a0 parte pelos caminhos do mundo sem bolsa, nem alforje, nem bast\u00e3o. Clara tamb\u00e9m, com a percep\u00e7\u00e3o de ter deixado na outra margem do Mar Vermelho\u00a0 a \u201cvaidade do mundo\u201d (<em>TestCl<\/em>), encerrada em S\u00e3o Dami\u00e3o, percorre os caminhos misteriosos de um \u00eaxodo no deserto, onde Deus \u00e9 o \u00fanico\u00a0 guia (<em>Dt 32.12<\/em>), Jav\u00e9, o \u201cDeus da esperan\u00e7a\u201d (<em>Rm 15,13<\/em>), o Deus que desde sempre fez palpitar no cora\u00e7\u00e3o do homem o desejo da terra do sonho\u00a0 que se acha para al\u00e9m das estepes e das dunas arenosas desse nosso viver cotidiano.<\/p>\n<p>Clara entrev\u00ea esta terra: \u201cVou correr sem desfalecer, at\u00e9 me introduzires na minha adega, at\u00e9 que a tua esquerda esteja sobre a minha cabe\u00e7a, sua direita me abrace e toda feliz me d\u00eas o beijo mais feliz de tua boca\u201d<em>(4CtCl<\/em>).\u00a0 Nos seus escritos est\u00e1 sempre presente a \u201cterra prometida\u201d, reino de gl\u00f3ria\u00a0 rumo \u00e0 qual estamos caminhando.<\/p>\n<p>Na experi\u00eancia espiritual de todos os tempos, como na hist\u00f3ria de Israel, o \u201cdeserto\u201d \u00e9 sempre cen\u00e1rio de encontro com o Senhor. \u201c&#8230; em terra deserta o encontrou, na vastid\u00e3o ululante do deserto. Cercou-o de cuidados e o ensinou, guardou-o como a menina dos olhos. Qual \u00e1guia que desperta a ninhada, voando sobre os filhotes tamb\u00e9m ele estendeu suas asas e o apanhou (Jac\u00f3) e sobre suas penas o carregou\u201d\u00a0 (<em>Dt 32, 10-12<\/em>).<\/p>\n<p>Clara sabe bem disto.\u00a0 \u00c9 ensinada pelo Esp\u00edrito.\u00a0 No interior da clausura\u00a0 organiza uma vida \u201cn\u00f4made\u201d, vida de povo que peregrina at\u00e9 \u00e0 terra que est\u00e1 para al\u00e9m do rio.\u00a0 \u201cComo peregrinas e forasteiras neste mundo, servindo o Senhor em pobreza e humildade\u201d, \u201cde nada se apropriando, nem de casa, nem de lugares, nem de coisa alguma\u201d\u00a0 (<em>Regra 8<\/em>).<\/p>\n<p>Nada.\u00a0 Simplesmente um caminhar para frente rumo \u00e0 terra prometida, como um povo em marcha, que n\u00e3o tem cidade aqui embaixo, nem tenda est\u00e1vel onde refugiar-se, \u00e0 imita\u00e7\u00e3o do Filho do Homem que n\u00e3o teve onde reclinar a cabe\u00e7a e quando a inclinou foi para entregar seu esp\u00edrito(<em>1CtIn<\/em>).\u00a0 Um \u201cpequeno rebanho\u201d que avan\u00e7a na esperan\u00e7a, cuja \u201cpor\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 uma\u00a0 \u201calt\u00edssima pobreza\u201d, que\u00a0 \u201cas faz pobres de bens materiais, mas ricas em virtude e as conduz at\u00e9 a terra dos vivos\u201d. \u201cNada mais queirais ter debaixo do c\u00e9u\u201d\u00a0 (<em>Regra 8<\/em>). Na verdade, porque parar?\u00a0 Por que querer aqui embaixo uma morada? \u201cPois o Senhor teu Deus vai te introduzir numa terra boa, terra com \u00e1guas correntes, fontes e len\u00e7\u00f3is de \u00e1gua subterr\u00e2neos que brotam dos vales e dos montes, terra de trigo, cevada, vinhas, figueiras e rom\u00e3zeiras; terra de oliveiras, de azeite e mel; terra onde comer\u00e1s p\u00e3o em abund\u00e2ncia&#8230; onde n\u00e3o te faltar\u00e1 nada\u201d (<em>Dt 8,7ss<\/em>).<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a, escreve P\u00e9guy, leva Israel \u00e0 posse da terra prometida. A esperan\u00e7a sustenta o povo a caminho\u00a0 atrav\u00e9s de todas as dificuldades.\u00a0 A esperan\u00e7a infunde coragem\u00a0 diante da certeza de que um dia as promessas se cumprir\u00e3o.<\/p>\n<p>A mesma esperan\u00e7a que orienta Israel \u00e9 a secreta din\u00e2mica do <em>Privil\u00e9gio da Pobreza<\/em>. Clara caminha na certeza de que Deus \u00e9 fiel em suas promessas. \u201cN\u00e3o se assuste, filha, Deus,\u00a0 fiel em todas as suas palavras e santo em todas as suas obras (<em>Sl 144,13<\/em>) vai derramar sua b\u00ean\u00e7\u00e3o sobre voc\u00ea e suas filhas. Vai ser o seu aux\u00edlio e o seu melhor\u00a0 consolador, porque ele \u00e9 o nosso redentor e nossa recompensa eterna\u201d(<em>CtEr<\/em>).\u00a0 E a terra que se pode divisar para al\u00e9m do rio distante, \u00e9 bela demais para ser trocada por um peda\u00e7o de terra avermelhada\u00a0 de plagas \u00e1ridas.\u00a0 \u201cQue troca maior e mais louv\u00e1vel: deixar as coisas temporais, merecer os bens celestes em vez de terrestres , receber cem por um\u00a0 e possuir a vida\u201d (<em>1CtIn<\/em>).<\/p>\n<p><strong>Um cora\u00e7\u00e3o pobre<\/strong><\/p>\n<p>Estamos, portanto, sempre a caminho&#8230;\u00a0 N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil caminhar por este \u201cdeserto\u201d \u00e9 o que nos ensina a experi\u00eancia de cada um. Agora parece mais dif\u00edcil do que nunca porque parece que o vento \u00e1rido que muda de perfil as dunas, arrancando as tendas pacientemente erguidas entre uma tempestade de areia e outra despeda\u00e7a toda esperan\u00e7a renascida&#8230; Nesses momentos\u00a0 nossos olhos ficam cheios de areia. N\u00e3o podemos ver.<\/p>\n<p>Para caminhar n\u00e3o basta o escudo da<em> Regra<\/em> que prescreve a pobreza absoluta.\u00a0 Clara est\u00e1 bem consciente disto:\u201d E como \u00e9 estreito o caminho e apertada a porta por onde se vai e se entra na vida, s\u00e3o poucos os que por a\u00ed passam e entram. E se h\u00e1 alguns que nele andam\u00a0 por um tempo, \u00a0s\u00e3o pouqu\u00edssimos os que nele perseveram.\u00a0 Felizes, no entanto, s\u00e3o aqueles a quem foi dado andar por ele e perseverar at\u00e9 o fim\u201d (<em>TestCl<\/em>).\u00a0 N\u00e3o basta um esfor\u00e7o de desprendimento renovado a cada dia&#8230; \u00a0Hoje, mais do que nunca, no \u201cdeserto\u201d\u00a0 resiste somente quem tiver um cora\u00e7\u00e3o de pobre, quem viver a din\u00e2mica da espera, quem se apresentar em estado de disposi\u00e7\u00e3o, de fidelidade, \u00a0daquela confian\u00e7a em tens\u00e3o que \u00e9\u00a0 precisamente a esperan\u00e7a&#8230;\u00a0 Quando Israel se desvia, confiando mais\u00a0 nas pot\u00eancias pol\u00edticas e na seguran\u00e7a terrena\u00a0 do que em seu Deus,\u00a0 uma estranha certeza toma conta dos profetas: para que Israel volte a encontrar seu Deus ser\u00e1 preciso perder tudo, quer dizer, todas as certezas terrenas, tudo o que insensivelmente foi ocupando em seu cora\u00e7\u00e3o o lugar de Deus.<\/p>\n<p>Ter um cora\u00e7\u00e3o de pobre significa, nem mais nem menos, contar apenas com Deus. Portanto, n\u00e3o com meus talentos pessoais, nem com as reservas feitas, n\u00e3o com programas a realizar, n\u00e3o com a for\u00e7a do grupo, nem com o prest\u00edgio da Ordem ou do mosteiro, n\u00e3o com a for\u00e7a da tradi\u00e7\u00e3o, nem com o passado glorioso, nem com a capacidade de organiza\u00e7\u00e3o dos outros e minha, n\u00e3o com o n\u00famero, n\u00e3o com a qualidade, n\u00e3o com uma fonte que pode ser encontrada um pouco mais adiante na caminhada, n\u00e3o com a sa\u00fade de que gozo e que continuarei a ter nos pr\u00f3ximos anos, n\u00e3o com a ajuda do exterior,\u00a0 n\u00e3o com as ideias deste ou daquele.\u00a0 Somente com Deus, como o \u201cpequeno resto\u201d da profecia: \u201dDeixarei no meio de ti um povo pobre e humilde: eles procurar\u00e3o ref\u00fagio no nome do Senhor (<em>Sf 3,12<\/em>).<\/p>\n<p>Senhor, somente tu. Tu \u00e9s apoio e plenitude.\u00a0 Fora de ti nada tem cor. Tudo tem tom cinzento que lembra a desesperan\u00e7a&#8230; \u201cSenhor, meu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 pretensioso, meus olhos n\u00e3o s\u00e3o arrogantes.\u00a0 N\u00e3o ando \u00e0 procura de grandezas, nem de maravilhas fora de meu alcance. Pelo contr\u00e1rio, estou sossegado e tranquilo: como crian\u00e7a saciada no colo da m\u00e3e, como crian\u00e7a saciada minha alma est\u00e1 em mim. Israel p\u00f5e tua esperan\u00e7a no Senhor, desde agora e para\u00a0 sempre\u00a0 (<em>Sl 130<\/em>).<\/p>\n<p>O \u201cdeserto\u201d\u00a0 queimou tudo em Clara. \u201cP\u00f5e-me como um selo em teu cora\u00e7\u00e3o, como um selo sobre teu bra\u00e7o\u201d (<em>Ct 8,6<\/em>).\u00a0 Depois que tudo foi queimado ficou apenas o semblante de seu Cristo,\u00a0 pobre e crucificado. Nada mais.\u00a0 Ele. Clara n\u00e3o se dispersa.\u00a0 S\u00f3 tem tempo para ocupar-se\u00a0 com Cristo, Cristo Verbo Encarnado\u00a0 que exige o amor daqueles que ele \u201csepara\u201d por amor.<\/p>\n<p>Assim, tamb\u00e9m no \u201cdeserto\u201d\u00a0 surge um o\u00e1sis que vivifica toda a Igreja.\u00a0 \u201cJ\u00e1 n\u00e3o te chamar\u00e3o &#8216;Repudiada&#8217; nem a tua terra de &#8216;Devastada&#8217;. Ser\u00e1s chamada, isto sim, minha querida e tua terra ter\u00e1 o nome de desposada. Pois como o jovem se casa com uma mo\u00e7a, assim o teu arquiteto te desposa, e como o noivo se alegra com a noiva, teu Deus se alegra contigo\u201d (<em>Is 62, 4-5<\/em>). \u201cSeu afeto comove, sua contempla\u00e7\u00e3o reconforta, sua benignidade sacia, sua suave plenifica, sua mem\u00f3ria ilumina suavemente\u201d (<em>4CtIn<\/em>).<\/p>\n<p>Se Clara vivesse hoje, penso que ningu\u00e9m duvidaria,\u00a0 estaria muito ocupada em amar a Cristo (Verbo encarnado, crian\u00e7a, crucificado, pr\u00f3ximo, que plenifica a sua vida, exige em troca o amor, um Deus que coloca sementes de escuta no cora\u00e7\u00e3o).\u00a0 Clara recriminaria menos passado que j\u00e1 n\u00e3o lhe pertence,\u00a0 n\u00e3o\u00a0 ficaria chorando o tempo presente\u00a0 que s\u00f3 a for\u00e7a do amor pode redimir, n\u00e3o faria perguntas in\u00fateis nem nutriria apreens\u00f5es com respeito ao futuro. Estas posturas constituem \u00a0pecados contra a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Quando \u00e9 que vamos compreender que n\u00e3o temos outra coisa a fazer sen\u00e3o ocuparmo-nos dele, do salvador do mundo, comprometendo-nos a fazer novas todas as coisas com aquela aten\u00e7\u00e3o, aquele amor, aquela fidelidade, aquela confian\u00e7a que \u00e9 pr\u00f3pria de uma esposa, de uma m\u00e3e, de uma filha, de uma irm\u00e3 que ama?\u00a0 Quando?<\/p>\n<p>Porque todo o resto,\u00a0 <em>todo<\/em>, \u00a0vir\u00e1 por si mesmo para n\u00f3s, para a Igreja e para o mundo inteiro: or\u00e1culo do Senhor (<em>cf. Mt 6,33<\/em>).<\/p>\n<p><strong>Tempo de esperar<\/strong><\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 um tempo para cada coisa\u201d, afirma o <em>Eclesiastes<\/em> (<em>3,1<\/em>): \u201ctempo para nascer e tempo para morrer, tempo para chorar e tempo para rir, tempo para calar e tempo\u00a0 para falar&#8230;\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m um tempo para esperar e esse tempo chegou. Agora \u00e9 tempo de esperar, de esperar por todos, porque s\u00e3o muitos os que \u201cexperimentam o sabor\u201d da ang\u00fastia do deserto e depende em grande parte de n\u00f3s, clarissas, \u00a0que escutem ou n\u00e3o a voz do Deus vivo.<\/p>\n<p>Creio que n\u00e3o nos perdoar\u00e3o muitas coisas; de uma certamente\u00a0 pedir\u00e1 contas Aquele que se\u00a0 definiu como \u201cesperan\u00e7a de Israel\u201d e que nos tirou do nada para que f\u00f4ssemos\u00a0 filhas de Clara\u00a0 nesses anos:\u00a0 se soubemos ou n\u00e3o\u00a0 manter viva a esperan\u00e7a no cora\u00e7\u00e3o do mundo, no cora\u00e7\u00e3o da Igreja, a esperan\u00e7a em nossa terra que parece estremecer de desesperan\u00e7a\u00a0 em sua profundidade\u00a0 e se\u00a0 deixa levar por\u00a0 \u201cfugas\u201d rumo a horizontes ilus\u00f3rios; se soubemos ou n\u00e3o devolver o verde\u00a0 \u00e0 esperan\u00e7a desalentada dos homens,\u00a0 a esperan\u00e7a da Igreja, a esperan\u00e7a franciscana, acovardada diante de enormes problemas de evangeliza\u00e7\u00e3o no exterior e de autenticidade no interior.\u00a0 Quantas defec\u00e7\u00f5es, quantas quedas ou acomoda\u00e7\u00f5es por falta de esperan\u00e7a!<\/p>\n<p><em>\u00a0Sim, para n\u00f3s, clarissas, \u00e9 tempo de sustentar, com um cora\u00e7\u00e3o pobre, apoiado\u00a0 somente em Cristo, a esperan\u00e7a universal.<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o se nos perdoar\u00e1 o pecado contra a esperan\u00e7a, pecado que poucas vezes se manifesta em gestos tr\u00e1gicos, mas que atinge a vida de modo sutil, quase que sem nos darmos conta;\u00a0 que nos paralisa, que nos faz perder tempo com problemas secund\u00e1rios (a \u00fanica \u201cquest\u00e3o\u201d\u00a0 n\u00e3o marginal \u00e9 Ele).\u00a0 Atinge tamb\u00e9m nossa vida quando buscamos \u00a0posi\u00e7\u00f5es mais c\u00f4modas.\u00a0 O pecado que lan\u00e7a sementes de\u00a0 desilus\u00e3o e desconsolo, que r\u00f3i o entusiasmo do dom e o solapa com uma infinidade de \u201cse\u201d: \u00a0\u201cse houvesse voca\u00e7\u00f5es\u201d;\u00a0 \u201cse tiv\u00e9ssemos com que sustentar a casa\u201d; \u201cse tivesse sa\u00fade\u201d. Esse pecado \u00a0tira a alegria de\u00a0 ir adiante como peregrinos, numa caminhada cheia de confian\u00e7a no \u00a0Deus da salva\u00e7\u00e3o, deixando-nos ser alavancados pelo Esp\u00edrito; esse pecado nos faz regredir por meio de in\u00fateis lam\u00farias. Esse\u00a0 \u201cantigamente sim que&#8230;\u201d seca o canto nos l\u00e1bios, extirpa a alegria do cora\u00e7\u00e3o e onde h\u00e1 fervor, faz se instalar a apatia.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 voca\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se tem sa\u00fade. Que importa? Ser\u00e1 que por estas raz\u00f5es deixamos de estar nas m\u00e3os de Deus ou sua sombra deixou de nos cobrir?\u00a0 Ou ser\u00e1 que neste tempo, como aconteceu com Clara, o Senhor n\u00e3o estaria pedindo de n\u00f3s\u00a0 \u201cum salto no vazio\u201d, um abandono sem limites a seus des\u00edgnios misteriosos?<\/p>\n<p>Senhor, confio em Ti!\u00a0 Perdoa-me\u00a0 por este meu duvidar, que marca minha vida de desalento e de tristeza.\u00a0 Tu \u00e9s a minha esperan\u00e7a!\u00a0 \u201cTens na m\u00e3o a minha sorte\u201d (<em>Sl 15,6<\/em>).<\/p>\n<p>N\u00f3s, clarissas, dever\u00edamos ser, neste momento, aquelas que cantassem para o Povo de Deus, para Ordem Franciscana e para o mundo o\u00a0 C\u00e2ntico de Isa\u00edas (<em>cap. 26<\/em>). \u201cTemos uma cidade forte, para seguran\u00e7a ele colocou muro e antemuro. Abri as portas para que entre uma na\u00e7\u00e3o justa que guarda a fidelidade&#8230; Confiai no Senhor sempre, porque o Senhor \u00e9 uma rocha forte pelos s\u00e9culos\u201d.<\/p>\n<p>Sim,\u00a0 em nossas m\u00e3os est\u00e1, desde que queiramos nos servir dela,\u00a0 toda a for\u00e7a dos pobres, aquela for\u00e7a que\u00a0 \u201cobrigou\u201d a Deus voltar-se para Clara, inclinar-se sobre sua\u00a0 pobreza, sobre seu denso sil\u00eancio de espera e de confian\u00e7a:<\/p>\n<p><em>D\u00e1-nos, Senhor, um cora\u00e7\u00e3o de pobres e dilata\u00a0 nossa capacidade de esperar, para que em n\u00f3s possa \u00a0pulsar a esperan\u00e7a de todos os povos! Por nosso Senhor Jesus, Amor pobre, espelho da Senhora Clara.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Santa Clara de Assis &#8211; Ir. 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