{"id":153504,"date":"2018-03-20T00:47:18","date_gmt":"2018-03-20T03:47:18","guid":{"rendered":"http:\/\/franciscanos.org.br\/?p=153504"},"modified":"2018-03-20T00:47:18","modified_gmt":"2018-03-20T03:47:18","slug":"ofs-um-laicato-maduro-construindo-o-reino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanos.org.br\/carisma\/ofs-um-laicato-maduro-construindo-o-reino.html","title":{"rendered":"OFS: Um laicato maduro construindo o Reino"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/francisco_200318.jpg\" alt=\"francisco_200318\" width=\"830\" height=\"385\" \/><\/p>\n<p><strong>Frei Almir Ribeiro Guimar\u00e3es<\/strong><\/p>\n<p>Foi com grande alegria que recebemos da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil o documento 105 sobre os Crist\u00e3os leigos e leigas na Igreja e na sociedade. O texto foi aprovado na 54\u00aa Assembleia Geral com a data de 14 de abril de 2016. Nosso intuito aqui \u00e9 refletir sobre o laicato franciscano, de modo particular aquele vivido pelos membros da Ordem Franciscana Secular. Logo de in\u00edcio nossa aten\u00e7\u00e3o \u00e9 despertada pela denomina\u00e7\u00e3o recente conferida \u00e0 terceira ordem de S\u00e3o Francisco: Ordem Franciscana Secular. Introduziu-se o precioso adjetivo secular. Um subt\u00edtulo do documento 105 da CNBB j\u00e1 nos diz com clareza a m\u00edstica dos leigos: sal da terra e luz do mundo. Acrescentaria ainda fermento na massa. Estas s\u00e3o palavras chaves: luz, sal e fermento. Os franciscanos da Terceira Ordem vivem no mundo, nas coisas do s\u00e9culo, executam primordialmente as tarefas mission\u00e1rias e evangelizadoras na cidade, na fam\u00edlia, no trabalho, na pol\u00edtica, nos organismos civis. \u00c9 a\u00ed que colocam o seu empenho de transforma\u00e7\u00e3o da realidade. Fazem-no conscientes de que o carisma de Francisco pode restaurar o que parece em ru\u00edna. Podemos dizer que os leigos crist\u00e3os lutam pela transforma\u00e7\u00e3o da realidade e os franciscanos seculares empenham-se em colorir esta transforma\u00e7\u00e3o com as cores franciscanas, com o mais puro perfume do Evangelho.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/ofs-texto-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignright wp-image-153507 size-full\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/ofs-texto-1.jpg\" alt=\"ofs-texto-1\" width=\"300\" height=\"310\" \/><\/a>Por vezes experimentamos, ainda em nossos dias, um certo mal-estar quando ouvimos a palavra leigo, em contraposi\u00e7\u00e3o a padres e religiosos. Tal designa\u00e7\u00e3o sempre acentuou de maneira exagerada a \u201csepara\u00e7\u00e3o\u201d entre a hierarquia e o povo, entre os que sabem tudo e os que s\u00e3o leigos. Mais ainda: o leigo na Igreja seria feito para obedecer e n\u00e3o para agir e evangelizar. O clero manda e o leigo obedece. Os padres \u00e9 que sabem tudo. Melhor denomina\u00e7\u00e3o \u00e9, certamente, fi\u00e9is crist\u00e3os leigos. E chegam \u00e0 nossa mente figuras exponenciais, conhecidas e desconhecidas, que viveram sua f\u00e9 crist\u00e3 no meio da realidade. Entre esses n\u00e3o podemos esquecer a figura de Alceu de Amoroso Lima, Trist\u00e3o de Ata\u00edde (e tantos outros) que, antes mesmo do Conc\u00edlio do Vaticano II, se empenharam na linha da transforma\u00e7\u00e3o dos ambientes. Leigo crist\u00e3o \u00e9 aquele que tem paix\u00e3o pelo mundo e pelo Reino e n\u00e3o aquele que se entrega apenas \u00e0s atividades internas da Igreja, presos demais ao altar. H\u00e1 certamente um equ\u00edvoco em se \u201cusar\u201d os leigos quase que somente para servi\u00e7os do altar. N\u00e3o \u00e9 promo\u00e7\u00e3o do laicato fazer dele um mero auxiliar do clero. Leigo \u00e9 leigo. Padre \u00e9 padre.<\/p>\n<p>\u201cA sua primeira e imediata tarefa (dos leigos) n\u00e3o \u00e9 a institui\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento da comunidade eclesial &#8211; esse \u00e9 papel espec\u00edfico dos Pastores &#8211; mas sim de p\u00f4r em pr\u00e1tica todas as possibilidades crist\u00e3s e evang\u00e9licas escondidas, mas j\u00e1 presentes e operantes nas coisas do mundo. O campo pr\u00f3prio de sua atividade evangelizadora \u00e9 o mesmo mundo vasto e complicado da pol\u00edtica, da realidade social e da economia, como tamb\u00e9m da cultura, das artes, da vida internacional, dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e ainda, outras realidades abertas para a evangeliza\u00e7\u00e3o, como seja, o amor, a fam\u00edlia, a educa\u00e7\u00e3o da crian\u00e7as e dos adolescentes, o trabalho profissional e o sofrimento (<em>Evangelii nuntiandi<\/em>, n.70).<\/p>\n<p>Os leigos crist\u00e3os, atrav\u00e9s de seu g\u00eanero de vida, haver\u00e3o de tornar cr\u00edvel a sua f\u00e9 de modo especial atrav\u00e9s de uma conduta humana e crist\u00e3 marcada pela coer\u00eancia e transpar\u00eancia. Ser\u00e3o chamados a participar da a\u00e7\u00e3o pastoral primeiro pelo testemunho de vida, pela atua\u00e7\u00e3o nos campos assinalados por <em>Evangelii nuntiandi<\/em>, acima mencionados, e, em segundo lugar, com a\u00e7\u00f5es no campo da evangeliza\u00e7\u00e3o, da anima\u00e7\u00e3o lit\u00fargica e orante das comunidades. Falamos num laicato em processo de matura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Queremos agora nos deter no tema da maturidade. Maduro \u00e9 um termo que vem da bot\u00e2nica. Depois da flora\u00e7\u00e3o, os frutos come\u00e7am a se formar. Com o sol, a chuva, os cuidados do agricultor v\u00e3o se desenvolvendo e chegam \u00e0 plenitude para qual existem. Podemos, ent\u00e3o, falar de um laicato maduro ou em processo de amadurecimento. Para os crist\u00e3os, a verdadeira maturidade se chama santidade. Falamos de uma personalidade madura, de um crist\u00e3o em processo de amadurecimento. Ainda se pode falar de um franciscano secular que vai colocando todas as condi\u00e7\u00f5es para ser um homem, um crist\u00e3o de valor para a Ordem e para a Igreja. Insistimos: o verdadeiro amadurecimento para crist\u00e3os e franciscanos se chama santidade.<\/p>\n<p>Na medida em que leigos franciscanos vivem com alegria em suas fraternidades, quando se adentram na Regra de Paulo VI, quando vivem a tens\u00e3o entre contempla\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o, quando batalham pela concilia\u00e7\u00e3o, quando n\u00e3o deixam arrefecer o fogo do amor pelo Senhor Jesus e a vontade de cuidar dos leprosos de todos os tempos, quando dizem a si mesmos e aos outros que o Amor precisa ser amado, assim agindo, eles chegam \u00e0 santidade e atuam evang\u00e9lica e franciscanamente no mundo.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/ofs-texto-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignright wp-image-153509 size-full\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/ofs-texto-2.jpg\" alt=\"ofs-texto-2\" width=\"300\" height=\"404\" \/><\/a>Queremos agora insistir no adjetivo maduro e no substantivo maturidade. Desnecess\u00e1rio dizer que vivemos o tempo das superficialidades. Por diferentes raz\u00f5es n\u00e3o conseguimos mais atingir esse n\u00f3 interior a partir do qual somos n\u00f3s mesmos, onde podemos nos encontrar com o Ausente-Presente, onde podemos dizer um sim \u00e0 vida, aos outros e ao Outro. Somos apressados, n\u00e3o damos tempo ao tempo, os frutos s\u00e3o colhidos antes da hora e destarte perdem seu sabor. Padres e leigos podemos agir por agir, sem grandes convic\u00e7\u00f5es. Sendo assim, os franciscanos seculares haver\u00e3o de querer chegar a uma maturidade humana, crist\u00e3 e franciscana.<\/p>\n<p>Precisamos de seres que assumam sua vida, sua hist\u00f3ria, a vida do mundo, pessoas que sejam elas mesmas e n\u00e3o rob\u00f4s que repitam o passado sem sentido ou que pulem de um lado para o outro dizendo que est\u00e3o construindo um amanh\u00e3. Precisamos de seres que vivam com alma. Urge que seja desenvolvido um trabalho de personaliza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ser homem, ser crist\u00e3o, ser franciscano num mundo que est\u00e1 em gesta\u00e7\u00e3o e n\u00e3o temos clareza alguma a respeito do que dele sair\u00e1. \u201cO capitalismo moderno precisa de homens &#8230; que queiram consumir cada vez mais e cujos gostos sejam padronizados&#8230; homens livres que n\u00e3o dependam de autoridade alguma, de princ\u00edpios, nem consci\u00eancia moral&#8230; homens que possam ser guiados de um lado para o outro, sem convic\u00e7\u00f5es, conduzidos sem l\u00edderes para n\u00e3o importa qual horizonte\u201d (Erich Fromm).<\/p>\n<p>Aqui v\u00e3o elencadas algumas considera\u00e7\u00f5es a respeito de tra\u00e7os humanos de algu\u00e9m que est\u00e1 em processo de amadurecimento humano. Os leigos crist\u00e3os e franciscanos sabem que o humano est\u00e1 na base de seu ser crist\u00e3o. Hoje se fala mesmo da \u201chumaniza\u00e7\u00e3o\u201d como prioridade pastoral e evangelizadora:<\/p>\n<p>O homem \u00e9 mais do que sua apar\u00eancia. Uma pessoa adulta n\u00e3o julga pelo que aparece e parece, nem a si nem aos outros. Sabe que seus verdadeiros valores pessoais e os dos outros t\u00eam sua fonte no interior, no cora\u00e7\u00e3o, no mist\u00e9rio mais \u00edntimo. As apar\u00eancias enganam. Ser pessoa que viva com pessoas. Mist\u00e9rios que vivam com mist\u00e9rios.<\/p>\n<p>Um tra\u00e7o humano de maturidade \u00e9 a capacidade de relacionar-se. Ser\u00e1 maduro aquele que tiver condi\u00e7\u00f5es de conviver com o diferente e souber viver serenamente os relacionamentos humanos.<\/p>\n<p>Maduro \u00e9 aquele que consegue, de alguma forma, organizar um projeto de vida, alimentar um buqu\u00ea de convic\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se deixando atropelar por estados emotivos de exalta\u00e7\u00e3o, nem aferrar-se a caprichos teimosos.<\/p>\n<p>Maduro \u00e9 aquele que consegue desenvolver boa parte das dimens\u00f5es de seu ser: intelig\u00eancia, vontade, afetividade, profiss\u00e3o, arte da conviv\u00eancia. Adulta \u00e9 a pessoa que sabe realizar projetos com os outros.<\/p>\n<p>O adulto n\u00e3o tem comportamentos marcados por agressividade e suscetibilidade. Possui serenidade e seguran\u00e7a interiores.<\/p>\n<p>A pessoa em processo de matura\u00e7\u00e3o n\u00e3o se considera o centro do mundo e das aten\u00e7\u00f5es. Vai aprendendo a fazer o \u00eaxodo de si e a ser solid\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u00c9 persistente, perseverante, sem ser teimosa.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/ofs-texto-3.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignright wp-image-153510 size-full\" src=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/ofs-texto-3.jpg\" alt=\"ofs-texto-3\" width=\"300\" height=\"86\" \/><\/a>\u00c9 criativa: n\u00e3o se contenta com a repeti\u00e7\u00e3o do que foi visto e vivido. Sabe recolher as li\u00e7\u00f5es do passado e adivinha os passos a serem dados para apressar a chegada do futuro.<\/p>\n<p>\u00c9 capaz de buscar o sil\u00eancio e nutrir a reflex\u00e3o. Viaja ao fundo do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 ing\u00eanua. Tem certamente senso cr\u00edtico e sabe discernir.<\/p>\n<p>Tem senso de responsabilidade e aprendeu a assumir compromissos.<\/p>\n<p>Tem senso de humor. \u00c9 capaz de rir de si mesma. Sabe conjugar alegria e seriedade.<\/p>\n<p>Madura \u00e9 pessoa que n\u00e3o \u00e9 doentiamente dependente, mas consegue ser aut\u00f4noma. Respeita as pessoas e n\u00e3o est\u00e1 imbu\u00edda do desejo de posse.<\/p>\n<p>Diante da realidade, usa de flexibilidade sem deixar que as coisas corram soltas.<\/p>\n<p>Tem crit\u00e9rios de vida e de a\u00e7\u00e3o e n\u00e3o se deixa deslumbrar por modismos passageiros nem se entrega a fanatismos que apequenam as pessoas.<\/p>\n<p>Maduro \u00e9 aquele que tem capacidade de escutar, de dialogar, que se deixa esclarecer pela fala do outro, que d\u00e1 o melhor de si para reverter situa\u00e7\u00f5es aparentemente insol\u00faveis.<\/p>\n<h3><strong>Vejamos alguns tra\u00e7os do leigo crist\u00e3o em processo de amadurecimento:<\/strong><\/h3>\n<p>Fundamental que fique claro: cl\u00e9rigo \u00e9 cl\u00e9rigo, religioso \u00e9 religioso, leigo \u00e9 leigo. Cada um tem sua especificidade, e consequentemente ter\u00e3o express\u00f5es diferentes em seu ser no mundo e na Igreja.<\/p>\n<p>Pessoa crist\u00e3mente madura \u00e9 aquela que se deixa guiar pelo Esp\u00edrito, e n\u00e3o pela carne, que esfor\u00e7a-se por matar o homem velho. Que n\u00e3o costuma atribuir a si os resultados alcan\u00e7ados. O crist\u00e3o \u00e9 formado pela a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito em sua vida e na comunidade que frequenta. N\u00e3o conv\u00e9m chamar um leigo sem profundidade para dirigir pastorais&#8230;<\/p>\n<p>Trata-se de uma pessoa que foi e vai dando uma resposta pessoal e comunit\u00e1ria ao Evangelho e suas exig\u00eancias. \u00c9 pessoa coerente e n\u00e3o de \u201cfaz de conta\u201d. Pode-se dizer que um leigo maduro \u00e9 algu\u00e9m que est\u00e1 em constante processo de convers\u00e3o.<\/p>\n<p>Pessoa que tem senso de comunidade. Viver em comunidade n\u00e3o quer dizer apenas viver momentos agrad\u00e1veis uns com os outros e uns e outros. O crist\u00e3o maduro n\u00e3o vive uma religi\u00e3o privada e particular. Sabe que o Ressuscitado se manifesta de modo particular no cora\u00e7\u00e3o da comunidade crist\u00e3.<\/p>\n<p>O leigo crist\u00e3o em processo de amadurecimento procura levar uma s\u00f3lida vida de ora\u00e7\u00e3o. Tem preocupa\u00e7\u00e3o com seu crescimento na intimidade com o Senhor, valoriza, de modo especial, a Eucaristia. Vive o dom de si com Cristo no mist\u00e9rio pascal renovado.<\/p>\n<p>Crist\u00e3o leigo maduro \u00e9 aquele que n\u00e3o se at\u00e9m a aspectos menos centrais do cristianismo: prociss\u00f5es, devo\u00e7\u00f5es particulares, apego exagerado aos santos. Leigo maduro \u00e9 aquele que vive intensamente em seu caminhar existencial o mist\u00e9rio pascal: morte a si mesmo e vida em Cristo.<\/p>\n<p>Est\u00e1 em crescimento crist\u00e3o aquele que luta pela unidade. N\u00e3o uniformidade, mas unidade na diversidade.<\/p>\n<p>Leigo crist\u00e3o maduro \u00e9 aquele que sabe se re-situar. Enxerga os desafios, acolhe os obst\u00e1culos, mas tem confian\u00e7a de que poder\u00e1 super\u00e1-los. Penso no caso de algu\u00e9m que \u00e9 acometido de uma doen\u00e7a, de um fracasso, da perda de um filho.<\/p>\n<p>Sabe unir-se \u00e0 paix\u00e3o de morte de Cristo, refaz em sua vida o esp\u00edrito da entrega de Jesus ao Pai. N\u00e3o desespera. Completa, por assim dizer, em sua vida a paix\u00e3o do Senhor.<\/p>\n<p>Mostra sintomas de amadurecimento crist\u00e3o o que se coloca \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do Senhor em quaisquer circunst\u00e2ncias existenciais.<\/p>\n<p>Na tentativa de se identificar com Cristo em seu mist\u00e9rio pascal o fiel leigo crist\u00e3o pode dizer com Paulo: \u201cJ\u00e1 n\u00e3o sou eu que vivo, \u00e9 Cristo que vive em mim\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o se deixa levar por carismas exteriores, vis\u00edveis, aberrantemente vis\u00edveis. Faz tudo o que tem que fazer sem querer aplausos. Procura sempre uma postura discreta.<\/p>\n<p>\u00c9 perseverante em seus prop\u00f3sitos. As pessoas podem confiar nele.<\/p>\n<p>Tem agu\u00e7ado senso de Igreja, sobretudo do profundo mist\u00e9rio da Igreja como Esposa de Cristo e Corpo M\u00edstico do Senhor. N\u00e3o jura pelo organizacional, mas finca-se nessa Igreja que continua, atrav\u00e9s dos seus membros, a obra de Cristo e do Reino novo.<\/p>\n<p>O fiel crist\u00e3o leigo maduro vive a din\u00e2mica do ver-julgar-agir: \u201cA miss\u00e3o do leigo na sociedade apresenta-se hoje \u00e0 consci\u00eancia crist\u00e3 como uma forma de evangeliza\u00e7\u00e3o, em que diversos aspectos podem ser acentuados conforme os apelos das circunst\u00e2ncias e a voca\u00e7\u00e3o pessoal de cada um: quer na transforma\u00e7\u00e3o das realidades terrestres pela a\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica quer no an\u00fancio da mensagem evang\u00e9lica pela palavra, pelo testemunho de vida e pelo di\u00e1logo sempre em atitude de servi\u00e7o inspirado pelo Cristo que veio para servir (Miss\u00e3o e minist\u00e9rios dos crist\u00e3os leigos e leigas , doc. CNBB 62, 103)<\/p>\n<h3><strong>Vejamos algumas notas caracter\u00edsticas do franciscano secular em estado de amadurecimento:<\/strong><\/h3>\n<p>Os franciscanos seculares experimentam grande alegria de serem leigos e leigas e n\u00e3o t\u00eam \u201csaudades\u201d ou \u201cdesejo\u201d de serem cl\u00e9rigos, de viverem apenas servindo \u00e0s coisas do altar. Sabem perfeitamente que sua miss\u00e3o \u00e9 colocar o dinamismo do Evangelho nas realidades as mais mundanas: no cuidar das crian\u00e7as, na hora das elei\u00e7\u00f5es para cargos municipais, trabalhando com o computador ou vivendo a intimidade do amor conjugal.<\/p>\n<p>Os franciscanos seculares se aproximam muito do jeito de ser e de agir da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica com seu famoso e bem testado m\u00e9todo do ver-julgar-agir. S\u00e3o peritos na arte de examinar a realidade e tentam impregn\u00e1-la de sua espiritualidade evang\u00e9lico-franciscana. Assim, d\u00e3o largos passos na linha de uma matura\u00e7\u00e3o. Costuma-se falar da milit\u00e2ncia dos leigos.<\/p>\n<p>Os franciscanos seculares vivem em suas casas, em seu trabalho profissional, mas sobretudo vivem em suas fraternidades concretas. Vivem o fraternismo ad intra e ad extra. Disp\u00f5em-se a servir, a lavar os p\u00e9s uns dos outros, a rezarem juntos, a carregarem os fardos uns dos outros. Vivendo em fraternidades que se re\u00fanem regularmente, estudam o mundo atual, partilham sua vida e ideias. Nessas fraternidades estudam e perscrutam os grandes temas da atualidade, as orienta\u00e7\u00f5es da f\u00e9 como: O que \u00e9 crer? Esperar o qu\u00ea? O que significa escutar o Senhor hoje? As reuni\u00f5es, as forma\u00e7\u00f5es constituem convite ao discernimento. N\u00e3o s\u00e3o adeptos de uma religi\u00e3o \u00e0 la carte: vida em fraternidade, troca de ideias, tomadas de decis\u00f5es a respeito da vida: sempre como pano de fundo a fraternidade. Os que os conhecem costumam dizer: \u201cVede como eles se amam!\u201d Os franciscanos seculares n\u00e3o querem viver derramados nas coisas.<\/p>\n<p>Fazem de sua casa uma verdadeira Igreja dom\u00e9stica. Mas aten\u00e7\u00e3o, com uma madura espiritualidade leiga. Os leigos franciscanos gostam de sua fam\u00edlia, cuidam de que seus membros se estimem, lembram aos filhos, pelo exemplo e pela vida, que precisam deixar as portas abertas para a visita do Senhor. N\u00e3o imp\u00f5em ritos. Seria altamente conveniente que nossas fraternidades franciscanas seculares tivessem um bom n\u00famero de casais e que inventassem meios e modos de reunir fam\u00edlias \u00e0 sua volta. No meio de um mundo que perde o gosto pelo Senhor, sem piedade melosa, nossas fraternidades seriam espa\u00e7o para crescimento de fam\u00edlias novas.<\/p>\n<p>Os franciscanos seculares mostram maturidade quando adotam posturas de simplicidade e pobreza evang\u00e9licas num mundo sofisticado, consumista, marcado pela gastan\u00e7a e pelo consumismo. Uma tal vis\u00e3o das coisas pode fermentar evangelicamente a realidade. Os leigos franciscanos mostram que compreenderam o sentido da pobreza evang\u00e9lica, s\u00e3o felizes, t\u00eam sua \u00fanica riqueza no Senhor.<\/p>\n<p>Os franciscanos seculares se fazem presentes no mundo que os cerca, no bairro em que residem, junto de pessoas que vivem \u00e0 sua volta. Exprimem assim seu desejo de estarem perto das pessoas.<\/p>\n<p>Mostram maturidade quando s\u00e3o capazes de dar respostas adequadas e evang\u00e9licas aos questionamentos do mundo de hoje: novas formas de casamento, bio\u00e9tica, desrespeito pela vida. Por isso, os franciscanos estudam, leem, procuram formadores que os capacitem a serem protagonistas da transforma\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. Importante que sempre estejam cuidando de sua forma\u00e7\u00e3o nas coisas do mundo com as quais est\u00e3o em relacionamento. E ser\u00e3o maduros quando tiverem a aud\u00e1cia de abra\u00e7ar a causa da preserva\u00e7\u00e3o da natureza.<\/p>\n<p>\u201cOs franciscanos seculares estejam presentes&#8230; no campo da vida p\u00fablica: colaborem quanto lhes seja poss\u00edvel, na elabora\u00e7\u00e3o de leis e de normas justas (cf. Regra 15). No campo da promo\u00e7\u00e3o humana e da justi\u00e7a, as fraternidades devem empenhar-se com iniciativas corajosas, em sintonia com a voca\u00e7\u00e3o franciscana e com as diretrizes da Igreja. Tomem posi\u00e7\u00f5es claras quando a pessoa humana \u00e9 ferida em sua dignidade em virtude da opress\u00e3o e da indiferen\u00e7a, qualquer que seja sua forma. Ofere\u00e7am seu servi\u00e7o fraterno \u00e0s v\u00edtimas da injusti\u00e7a. A ren\u00fancia ao uso da viol\u00eancia, caracter\u00edstica dos disc\u00edpulos de Francisco, n\u00e3o significa ren\u00fancia \u00e0 a\u00e7\u00e3o; os irm\u00e3os cuidem, no entanto, que suas interven\u00e7\u00f5es sejam sempre inspiradas no amor crist\u00e3o (Constitui\u00e7\u00f5es Gerais da OFS, art. 22).<\/p>\n<p>Os franciscanos seculares haver\u00e3o de se fazer presentes nas diferentes frentes de pastoral. Muitos fazem parte do Conselho de Pastoral, seja de par\u00f3quias como de dioceses. Estar\u00e3o sempre dispostos a trabalhar na catequese, na evangeliza\u00e7\u00e3o em geral, de modo especial no cuidado do crescimento da vida de f\u00e9 de adultos, animar\u00e3o grupos de reflex\u00e3o em torno do Evangelho, porque optaram por seguir a vida do Evangelho. Fazem tudo, mas n\u00e3o podem perder sua laicidade. N\u00e3o se deixam envolver por uma pseudopromo\u00e7\u00e3o pessoal ao estado clerical. Os p\u00e1rocos poder\u00e3o contar com os terceiros desde que esses n\u00e3o percam as caracter\u00edsticas de crist\u00e3os seculares. Mostram grande imaturidade os terceiros que mais se dedicam \u00e0s ditas atividades pastorais e esquecem de construir sua identidade franciscana.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode qualificar e classificar a OFS como uma \u201cpastoral\u201d. Ela \u00e9 um movimento suscitado pelo Esp\u00edrito em vista de propagar um retorno \u00e0 vida segundo o frescor do Evangelho e assim exercer influ\u00eancia sobre a pastoral.<\/p>\n<p>Fala-se de convers\u00e3o pastoral. Urge uma mudan\u00e7a no modo de se trabalhar. O Documento de Aparecida diz claramente e com todas as letras: \u201cA convers\u00e3o pastoral de nossas comunidades exige que se v\u00e1 al\u00e9m de uma pastoral de conserva\u00e7\u00e3o para uma pastoral decididamente mission\u00e1ria. Assim ser\u00e1 poss\u00edvel que o \u00fanico programa do Evangelho continue introduzindo-se em cada comunidade eclesial com novo ardor mission\u00e1rio, fazendo com que a Igreja se manifeste como m\u00e3e que vai ao encontro, como casa acolhedora, uma escola permanente de comunh\u00e3o mission\u00e1ria (Doc. Aparecida, n. 370). Os franciscanos seculares que buscam a matura\u00e7\u00e3o de seu ir pelo mundo n\u00e3o poder\u00e3o dar seu aval a uma pastoral sacramentalista e conservadora de um status quo. Precisar\u00e3o \u201cincomodar\u201d no sentido de se refazer o tecido comunit\u00e1rio e fraterno e de se realizar uma evangeliza\u00e7\u00e3o em tais condi\u00e7\u00f5es que atinja o n\u00f3 das pessoas e as leve a abra\u00e7ar a utopia da comunidade.<\/p>\n<p>Um dos elementos fundamentais do ser e do agir do laicato \u00e9 a realidade da fam\u00edlia. Os terceiros franciscanos, normalmente falando, vivem em suas fam\u00edlias. Fundamental a solidifica\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias, mesmo diante de tantos desafios que surgem nesse campo. Podemos nos perguntar se como franciscanos com fam\u00edlia n\u00e3o somos convidados a viver nossa fam\u00edlia com cores evang\u00e9licas. N\u00e3o daria uma maturidade aos franciscanos seculares a reflex\u00e3o e o engajamento no cuidado pela fam\u00edlia? Tantos espa\u00e7os: grupo de jovens, prepara\u00e7\u00e3o imediata para o casamento, aten\u00e7\u00e3o \u00e0s m\u00e3es sem marido, sem dinheiro, sem nada; acompanhando o processo doloroso dos que se separam; refletir com os pais sobre a \u201ctransmiss\u00e3o da f\u00e9\u201d&#8230; vast\u00edssimo e important\u00edssimo campo da evangeliza\u00e7\u00e3o e acompanhamento das fam\u00edlias.<\/p>\n<h3><strong>Concluindo<\/strong><\/h3>\n<p>Propusemo-nos a refletir sobre o significado da Ordem Franciscana Secular, comunidades de leigos para o mundo. Temos plena consci\u00eancia de n\u00e3o ter abordado todos os \u00e2ngulos de maturidade dos membros da Ordem. Dever\u00edamos nos deter mais nas manifesta\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas: respeito pela Cria\u00e7\u00e3o e cuidado com os leprosos de nossos tempos. Certamente, respondemos parcialmente ao que foi proposto. Optamos por dissertar sobre a maturidade seja humana, crist\u00e3, bem como franciscana. Sem ter respondido plenamente \u00e0 quest\u00e3o esperamos que uma leitura particular ou em grupo deste texto permitir\u00e1 aos leitores vislumbrar a dimens\u00e3o laical da Ordem Franciscana Secular. H\u00e1 quest\u00f5es pr\u00e9vias que precisam ser resolvidas: nossas fraternidades est\u00e3o envelhecidas, a forma\u00e7\u00e3o dada nem sempre atinge o n\u00f3 das pessoas, h\u00e1 dificuldade em descobrir o que seria um leigo franciscano no mundo de hoje. Certamente, n\u00e3o se tratar\u00e1 de ser um panflet\u00e1rio, mas de algu\u00e9m que andou fazendo densas experi\u00eancias evang\u00e9licas \u00e0 maneira de Francisco. Fique claro: com Karl Ranher diremos que o crist\u00e3o dos nossos tempos ou ser\u00e1 um m\u00edstico ou n\u00e3o ser\u00e1 nada. Quem puder compreender que compreenda.<\/p>\n<h3 style=\"padding-left: 30px;\"><strong>Anexo<\/strong><\/h3>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">Pareceu-me importante e mesmo fundamental ainda transcrever algumas linhas de Salvador Valadez Fuentes, sacerdote mexicano. Num cap\u00edtulo de obra em que analisa a pastoral e coloca o dedo na ferida de uma pastoral sem alma, o autor fala de Paulo, como modelo de agente de pastoral. No final do cap\u00edtulo procura elencar aprendizagens concretas que podemos haurir da figura do Ap\u00f3stolo das Gentes. Valem para os fi\u00e9is leigos e para os pastores. Valem tamb\u00e9m para o ser e agir dos irm\u00e3os e irm\u00e3s da Ordem Franciscana Secular:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">recuperar a radicalidade e a surpresa de ser crist\u00e3os e ap\u00f3stolos;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">cultivar o substrato de valores humanos onde se encarna a gra\u00e7a: coer\u00eancia, sinceridade, lealdade, convic\u00e7\u00e3o, liberdade, desinteresse;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">respeitar e alentar os ritmos nos processos de f\u00e9 e de convers\u00e3o pessoal e comunit\u00e1ria;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">valorizar a cruz como elemento fecundo e que d\u00e1 autenticidade \u00e0 nossa miss\u00e3o;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">saber viver no conflito;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">promover a solidariedade eclesial em todos os n\u00edveis; centrar nossa vida crist\u00e3 e minist\u00e9rio pastoral, na f\u00e9, na esperan\u00e7a e na caridade, traduzidas em atitudes concretas;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">ter uma vis\u00e3o eclesial centrada na Trindade como fundamento \u00faltimo de todo minist\u00e9rio pastoral;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">aprofundar e recuperar o valor da ora\u00e7\u00e3o como alimento absoluto de toda vida crist\u00e3 e pastoral;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">urgir o aspecto mission\u00e1rio da f\u00e9;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">entender e assumir a vida crist\u00e3 como um combate;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">encarnar, \u00e0 maneira de Paulo, as atitudes fundamentais de um agente: for\u00e7a, valentia, liberdade, alegria, recuperar a consci\u00eancia de ser envidado;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">n\u00e3o alimentar cobi\u00e7as nem pretens\u00f5es de gl\u00f3ria;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">exercer a autoridade como servi\u00e7o am\u00e1vel;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">amar com um amor real at\u00e9 a morte;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">prestar servi\u00e7os de bom pastor \u00e0 comunidade.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><a href=\"http:\/\/franciscanos.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/050318_ofs-830.jpg\"><strong>Salvador Valadez Fuentes<\/strong>,<br \/>\n<\/a>Espiritualidade Pastoral.<br \/>\nComo superar uma pastoral sem alma?<br \/>\nPaulinas, S\u00e3o Paulo, 2008, p. 50<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>OFS<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":174788,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[14],"tags":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.2 - 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