Personagens da Província Restaurada

Frei João José Pedreira de Castro

* Petrópolis, 26/06/1896
† Tremembé, 30/05/1962

Vida Franciscana – junho/1963, nº. 30
Frei João José, o “Jojó”, como dizíamos na intimidade conventural, interpretando sua assinatura, “Jojo”, nasceu em Petrópolis, a 26 de junho de 1896, recebendo o nome de João Maria. Seus pais foram: Jerônimo de Castro Abreu Magalhães e D. Elisa de Bulhões Pedreira Magalhães (Dona Zélia). Seguindo a vocação sacerdotal, passou os anos de 1910-1912, três anos completos, na Escola Apostólica dos Padres Jesuítas em Itu, SP. Em abril de 1913 passou para o Colégio Seráfico de nossa Província, então ainda em Blumenau. Antas de completar um ano, recebeu o hábito da Ordem em Rodeio, de Frei Policarpo Schuhen, a 17 de janeiro de 1914. Emitiu a profissão de votos simples, a 17 de janeiro de 1915, com o mesmo Frei Policarpo. Iniciou os estudos filosóficos, continuando-os em Curitiba, onde emitiu votos solenes a 17 de janeiro de 1918, nas mãos do então Guardião, mais tarde Bispo de Campanha, Dom Inocêncio Engelke e Dom João Francisco Braga lhe conferiu ordens menores a 2 de fevereiro de 1918 e o subdiaconato no dia seguinte, em Curitiba. Passou então a residir no convento de sua terra natal, Petrópolis, onde fez os estudos teológicos, recebendo o diaconato a 26 de outubro de 1918, de Dom Agostinho Francisco Bennassi, Bispo de Niterói. Com a dispensa de cinco meses sobre a idade canônica, foi ordenado presbítero pelo mesmo Sr. Bispo em Petrópolis, a 18 de abril de 1920. Em atenção aos seus talentos e inclinações, foi enviado a Roma para estudo de Ciências Bíblicas. Não se deu bem na Cidade Eterna, onde permaneceu apenas de 1º de outubro de 1920 até 1º de agosto de 1921. Passou para Muenchen, na Alemanha, onde permaneceu até 25 de julho de 1924. Não terminou os estudos com a láurea, porque se verificou que estava diabético, e em estado tão grave que os médicos lhe deram no máximo um ano de vida. Recolheu-se ao Garnstock, onde permaneceu até 1º de novembro de 1925, lecionando aos nossos alunos lá. Depois foi transferido para Rio Negro, onde foi professor até 1º de fevereiro de 1927, Já com aulas começadas foi transferido para Petrópolis, iniciando aqui o período de Lente de Ciências Bíblicas, o mais longo período de sua vida: até 1950. A 30 de março de 1951 foi transferido para São Paulo. Pari. Esta transferência, com seus precedentes, foi rude golpe que o feriu muito. No entanto não se deixou abater e em São Paulo tentou imediatamente um trabalho que lhe estava muito a peito: um movimento bíblico popular. Cursos, conferências, correspondências, lições foram se sucedendo. Em 1956 fundou o “Centro Bíblico”. Com a velha enfermidade dos ouvidos muito piorada, quase cego, com dificuldades de se locomover, continuava em suas peregrinações de “Semanas Bíblicas”, indo para onde o chamassem. A 11 de janeiro de 1958 foi transferido para o Convento de São Francisco, em São Paulo. Em 1961 mudou-se para a cidade de Tremembé, onde veio a falecer na data de 30 de maio de 1962.

O Professor de Ciências Bíblicas
Foram quase 25 anos os de professorado de Ciências Bíblicas em Petrópolis. É indiscutível que esta atividade marcou de modo especial a vida e a personalidade de Frei João José. As grandes turmas da Província, nos anos 30 e começos de 40, passaram por sua mão, e são assim muitas dezenas de sacerdotes os que dele receberam a sua formação no que concerne à Sagrada Escritura.

Em Munique Frei João José foi aluno de Goetzberger. Falava de outros professores, mas a influência que recebeu veio deste.

Voltou a Petrópolis, vinha para morrer… Assim lhe haviam dito os médicos. Resolvera interromper seus estudos antes de os levar à culminação do título acadêmico, e fora autorizado pelos seus superiores a agir assim. Encaixotou os seus livros e veio. Tinha memória prodigiosa e reproduzia com extrema facilidade os tesouros armazenados em Munique. Como professor, dominava suficientemente o seu assunto, e também as disciplinas anexas, como línguas bíblicas, e hauria “ex pleno”. Manipulava o texto ele mês, sem nenhum livro auxiliar. Não me recordo de tê-lo visto trazer para a aula alguma vez mais do que o próprio texto da Sagrada Escritura.

Os anos foram passando, e a profecia dos médicos de Munique não se verifica. No entretempo, Frei João José se havia dedicado a bastantes trabalhos de cura de almas, úteis, mas dispersivos em demasia para um professor. Quando lentamente veio a perceber que sua carreira poderia ser longa, já estava a boa distância dos estudos e da pesquisa exegética. Não voltou a este trabalho, antes intensificou seu apostolado. Aliás, a doença lhe minava as energias. Disse-me certa feita que primeiro não continuava os estudos porque pensava que ia morrer. Depois estava sempre cansado, efeito da diabete.

No entanto o seu interesse pelas questões exegéticas não morreu jamais. Os livros que lhe vinham às mãos lia-os cuidadosamente e com espírito crítico. Mais que tudo, os que eram da orientação que havia recebido em Munique.

A atitude de Frei João José se modificou profundamente no ano de 1943, com a encíclica “Divino Afflante Spiritu”. Como que remoçou e renasceram nele os interesses da pesquisa bíblica.

Esta como primavera esteve, porém, prejudicada pelas sombras densas das dificuldades que vinham de certos empreendimentos pastorais. E foi nesta atividade pastoral que estavam as causas que lhe trouxeram o mais duro golpe de sua vida: a transferência para São Paulo, com o repentino término de sua atividade de professor de Ciências Bíblicas no Teologado de Petrópolis.

O Sacerdote, zeloso do bem das almas
Em Petrópolis, desde que para cá voltou em 1927, começou a expandir seu zelo sacerdotal. Constantemente estava a cogitar alguma iniciativa, para criar um movimento. Conhecendo o temperamento dos petropolitanos, dados à rotina e avessos a iniciativas, procurava incentivar a vida cristã, mais que tudo na forma de vida sacramental. Inventava pretextos para campanhas de comunhões, incessantemente. Organizava campanhas de orações de todos os tipos. Sempre estava ocupado com alguma novidade nestes e noutros terrenos.

Na administração de sacramentos e sacramentais, agia com devoção que se traduzia em sua atividade, em sua voz, em todo o seu modo de agir. Nunca apressado, sempre recolhido, deixava em todos a impressão de devoção funda e compenetração profunda.

Frei João José foi homem de grandes dotes oratórios. Foram numerosos os sermões vibrantes e bem construídos que pronunciou. Mas preferia uma oratória menos sensacional. Via de regra pregava em tom familiar, explicava doutrina, vivia de passagens da Sagrada Escritura, que interpretava magistralmente, com finíssimo colorido de ambiência. Muitos retiros pregou, e para pregá-los levava a Sagrada Escritura, fazia sua disposição e ia falando. A facilidade com que se exprimia e com que ia “tecendo” o seu sermão era tamanha, que por vezes causava a impressão de não ligar muito. Na realidade, porém, estava impregnado de um profundo sentimento de responsabilidade pela palavra e de acordo com este sentimento agia.

Movimento Bíblico e Litúrgico
Em 1956 fundou Frei João José, em São Paulo, o Centro Bíblico e o Curso de Sagrada Escritura por Correspondência, cuja repercussão alcançou todos os Estados da Federação numa intensidade jamais prevista. Um ano mais tarde iniciou a tradução completa da Bíblia para o português, que foi impressa pela Editora Ave Maria dos Missionários do Coração de Maria.
Foi Frei João José quem principiou no Brasil, com intensidade, as chamadas “Semanas Bíblicas”, para incrementar no território nacional o conhecimento do Livro Santo. Nessa missão evangelizadora, percorreu vários Estados, chegando, por vezes, como em janeiro de 1959, a proferir 87 conferências bíblicas em apenas 23 dias.

Por seu dinâmico apostolado em prol da divulgação da Sagrada Escritura, mereceu em julho de 1961, no Congresso Nacional de Bíblia, realizado no Rio Grande do Sul, ser aclamado como o “Pioneiro do atual Movimento Bíblico no Brasil”

O Enfermo
Em 1924, com 28 anos de idade incompletos, Frei João José recebeu como que a sentença de morte por enfermidade: diabetes, com perspectiva de, no máximo, um ano de vida. De então até a sua morte, ocorrida quase quarenta anos depois, foi de fato e se considerou um homem doente. Sua vida, pois, esteve profundamente marcada por uma doença insidiosa e desestimulante. Com os anos tudo se agravou e nos últimos anos veio a cegueira que ia se acentuando cada vez mais. Uma vida de enfermo.
E no entanto parece que a enfermidade não significou muito na vida de Frei João José. Aceitou-a no início como termo de vida e esperou a morte. Pouco se queixava, pouco ligava, sobrepôs-se galhardamente a esta provação. Há de se dizer: a enfermidade não significou na vida do confrade tanto quanto se esperava que significasse. Foi um enfermo, sem viver como enfermo. Sua psicologia não era a de enfermo.

A Espiritualidade
Pode-se dizer que Frei João José se caracterizava pela moderação. Não exagerava, nem gostava de exageros, era muito reservado diante de extravagâncias. No comer, no vestir, no morar, nos objetos de uso, no movimentar-se, no falar, nas exigências, nas relações, em tudo se notava esta forte moderação. Um homem do meio, não dos extremos. Por isso mesmo sua espiritualidade também era de moderação, não de grandes arroubos nem de grandes depressões.

No entanto, o confrade era de têmpera extraordinária de vontade. Com menos têmpera, teria cedido à enfermidade e teria ficado se tratando, esperando a morte. Quantas vezes estava com o teor de açúcar no limite, à beira de estado de coma, exausto, e no entanto continuava intrépido, sem se queixar, sem falar da doença!

Nesta característica geral de moderação se contém ainda a vida interior do confrade, particularmente a oração. Sua vida interior, por ser intensa, era toda de cunho apostólico: o bem das almas não o largava. Daí seu zelo inquebrantável, vencedor de todos os empecilhos que a enfermidade lhe opunha à ação. Da união com Deus e do zelo de almas nascia uma enorme capacidade de dedicação a outros e de amizade.

Alimentava-se mais que tudo da Bíblia. Lia muito e muitos livros, mas lia sempre de novo e tornava constantemente à Sagrada Escritura. A espiritualidade de Frei João José estava inteiramente dominada pela imagem de Deus bom, misericordioso, complacente, compreensivo, mas também justo e Senhor. Para com Deus tinha uma relação muito pessoal, muito intensa, acesso fácil e constante. Vivia “em Deus”.

Frei João José, foi sem dúvida uma das grandes figuras humanas, de confrade, de sacerdote, de professor, de homem de iniciativa, de homem espiritual de nossa Província.

Frei Constantino Koser