Vida CristãFrei AlmirArtigos › 28/02/2010

Minhas senhoras e meus senhores

Todos ficamos estarrecidos com a morte do menino João Hélio. A criança de seis anos foi arrastada e morta na zona norte do Rio. Um dos responsáveis pelo crime bárbaro ocorrido em fevereiro de 2007, naquele momento ainda menor, cumpriu três anos de medida sócio-educativa e obteve a progressão de regime. “O Estado de S. Paulo”, na edição de 25 de fevereiro, noticia: “Na audiência de ontem. Foi o primeiro a ser ouvido pelo juiz. Em seguida, com testemunha de juízo, o diretor da escola João Luís Alves, Marcos Vinicius Pubel, falou sobre a conduta do rapaz no internato e dos incidentes em que se envolveu, como as duas tentativas de motim, e a suposta tentativa de homicídio contra um agente” (Caderno 5). Etc.. era questão de libertar e colocá-lo sob proteção vigiada. Parece que tudo foi revogado e ele deverá cumprir mais dois anos de pena. Na esteira de uma revolta contra a impunidade no país, tomou-se a decisão de protelar sua liberdade.

Todas essas manifestações de violência nos fazem mal, violência entre as torcidas de times de futebol, violência dentro dos presídio, violência contra a mulher, violência e assédio sexual… Tentamos buscar a razão de tudo isso. Certamente, muitos desses jovens comentem crimes violentos porque foram enveredando pelo caminho das drogas. A miséria da vida nas favelas é outra razão. Penso, no entanto, que por detrás de tudo há uma desestruturação da família. Uma criança não pode ser colocada no mundo de qualquer jeito. Ela precisa chegar ao mundo sendo amada, querida, sonhada, desejada, cuidada. Para que uma criança chegue bem ao mundo será concebida por um homem e uma mulher que se estimam, que fazem juntos o alegre compromisso de se amarem para poderem assim criar para seus filhos um espaço de segurança,de afeto, de confiança.

Na medida em que meninos e meninas nascem por nascer, vivem por viver, são jogados na rua e na vida serão presas fáceis da violência e da perversidade dos responsáveis pelo narcotráfico. Um país que se preza cuida das famílias dos seus cidadãos. Há políticas e projetos que visam consolidar os lares. Nesse contexto, vale lembrar todos os desvalores transmitidos pelas novelas televisivas: mulheres traindo os maridos, rapazinhos amasiados com mulheres quase idosas, falta de respeito pelo marido de uma mulher e pela mulher de um marido. Crianças que crescem sem um pai e uma mãe que exprimem amor, sem mesa, sem cama limpa, sem gestos de fineza, sem reza e sem afeto.

Não quero inocentar ninguém. Principalmente, esses jovens fortes, sarados, tatuados de 15 ou 16 anos, menores, que cometem crimes bárbaros. Há uma discussão a respeito da redução da idade para que as pessoas possam responder por seus crimes, não apenas por medidas sócio-educativas. Compreendo esta política, mas ficamos perplexos com avantajado do corpo de tantos que matam e ainda correm dizendo: “Não me toquem… sou menor…”.

Nunca estive em ambientes carcerários, mas as informações que temos é que ali se respira o ar do inferno. Não sei como são os espaços das escolas sócio educativas como essa que freqüentou o assassino de João Hélio. Sabemos que E. continuou agindo com violência. Sabemos também que ele foi alvo de grande animosidade.

Minhas senhoras e meus senhores, pais e mães de família, estamos diante de gravíssimos problemas. Onde podemos encontrar soluções. Certamente, todos podemos batalhar para que as pessoas se casem, se unam melhor. Penso que o trabalho da pastoral da criança da finada Zilda Arns é um jeito de atingir mães solteiras, mulheres abandonadas e ajudá-las a cuidar de seus filhos. Penso que uma verdadeira pastoral familiar não se reduz a uns encontros de casais mais ou menos festivos, mas em estratégias para atingir as pessoas mais carentes, os mal casados, os não casados. Não é possível que meninos como João Hélio morram estupidamente pela iniciativa de adolescentes e jovens cheios de força e também de maldade.

Minhas senhoras e meus senhores, grato por sua atenção.