Vida CristãFrei AlmirArtigos › 30/05/2014

Habitar o coração

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É urgente, de urgência urgentíssima, que as pessoas visitem novamente o coração. Quando os espaços interiores de nossas vidas estiverem desocupados, morcegos invadem nossa intimidade ou então estaremos sempre, sempre em fuga. É urgente fazer a viagem ao fundo do coração. Temos diante dos olhos um capítulo de Michel Hubaut, OFM (Habiter  le silence, no livro Sous la discrète mouvance de l’Esprit.  Initiation à la vie  intérieure, Ed. du CERf, Paris,  2012, p. 37-49).

Fr. Almir Ribeiro Guimarães, OFM
freialmir@gmail.com

O louvor de Deus que leva ao amor é filho do silêncio e da solidão.
O deserto silencioso foi para mim fonte de progresso em minha vida,
quer dizer da vida divina em mim
 (Gregório de Nazianzo)

oracao

Vem, silêncio, onde tudo é Deus.
Vem, Amor e Verdade e Humildade.
Vem, Misericordioso,
Pai de ternura.
Vem, embala-nos
em teus braços invisíveis.
Vem nos dar o beijo do  Perdão,
por teu Filho,
na glória
da vitória da Cruz.
Arrasta-nos para a eternidade da Trindade,
na esperança
da vida em abundância. 

(Anônimo)

texto 

● “O Senhor reside no seu  Templo santo. Silêncio diante dele,  ó Terra inteira”  (Habacuc 2,20).

● “Silêncio diante do Senhor Deus, porque o dia do Senhor está próximo” (Sofonias 1, 7).

● “Faz silêncio e escuta Israel: hoje tu te tornaste um povo para o Senhor teu Deus. Ouvirás a voz do Senhor Deus” (Deuteronômio 27,9).

● “Enquanto um  calmo silêncio  envolvia  todas as coisas e a  noite chegava ao meio de seu curso, tua palavra onipotente, vinda do céu, de seu trono real” (Sabedoria 18, 14-15).

● Elias no Horeb  :  “De repente a palavra do Senhor lhe foi dirigida nestes termos: ‘O que estás fazendo aí , Elias?’  Ele respondeu: ‘Estou cheio de ciúmes pelo Senhor Deus Todo Poderoso.  Pois os israelitas abandonaram a tua aliança, demoliram os teus altares, mataram à espada os teus profetas e sobrei apenas eu. Mas também a mim procuram tirar-me a vida’. O Senhor respondeu:  ‘Sai e põe-te de pé no monte, diante do Senhor! Eis que ele vai passar’.  Houve então um grande furacão, tão violento que rasgava  os montes e despedaçava os rochedos  diante do Senhor, mas o Senhor  não estava no vento.  Depois do vento houve um terremoto, mas o  Senhor não estava no terremoto. Depois do terremoto houve fogo, mas o Senhor não estava no fogo, percebeu-se o sussurro de uma brisa suave e amena.  Quando Elias o percebeu cobriu o rosto com o manto e saiu, colocando-se  na entrada da caverna”  (1Reis 19, 9-13).

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A) “O caminho da interioridade…

…. Hoje se  dá num tempo de mudanças, tempo rico de muitos sinais de redescoberta da interioridade e do silêncio. A sociedade secularizada vem focada sobre o indivíduo fragmentado, com uma identidade fluida. Temos diante de nós uma mudança radical da visão do homem, determinada sobretudo pela tecnologia. São imensos os recursos da  inteligência humana, descobertos hoje que podem ajudar o homem a criar um mundo melhor. É importante que o homem permaneça sujeito desse desenvolvimento, sobretudo a partir da verdade profunda de si mesmo. Confrontamo-nos também com o medo de entrar em nós mesmos,  com a pobreza de sentimentos, de afetos, de capacidade de amar e deixar-se amar. No espaço da interioridade, o silêncio pede a escuta de nós mesmos, dos outros e da realidade.  Os meios de informação podem iludir-nos, ao dar-nos a sensação de evitarmos esse trabalho. Na verdade tornamo-nos estranhos a nós mesmos. O percurso para dentro de nós mesmos  não é só terapêutico para nossa cultura de barulho, mas também vem a ser um caminho voltado para o acolhimento,  para uma nova civilização do amor. O caminho para dentro de nossa interioridade e para o silêncio torna-se, então, testemunho de uma opção de vida alternativa” ( O caminho que leva ao lugar do coração,  Cúria Geral OFM, Roma 2003).

B) “Várias intervenções dos Padres sinodais…

…Insistiram sobre o valor do silêncio  para a recepção da Palavra de Deus na vida dos fiéis. De fato a palavra pode ser pronunciada e ouvida apenas no silêncio exterior e interior.  O nosso tempo não favorece o recolhimento e, às vezes, fica-se com a impressão de ter medo de se separar, por um só momento,  dos  instrumentos de comunicação de massa.. Por isso, hoje é necessário educar o  Povo de Deus para o valor do silêncio. Redescobrir a centralização da Palavra de Deus na vida da Igreja significa também  redescobrir o sentido do recolhimento e da tranquilidade interior. A grande tradição patrística ensina-nos  que os mistérios de Cristo estão ligados ao silêncio e é só nele que a Palavra pode encontrar morada em nós, como aconteceu com Maria, mulher indivisivelmente da Palavra e do silêncio.  As nossas liturgias devem facilitar esta escuta autêntica conforme Agostinho:  Verbo crescente, verba deficiunt  ( Exortação apostólica pós-sinodal  Verbum Domini, de Bento XVI, n. 66).

C) J, Martin Velasco descreveu…

… Bem  a situação espiritual das sociedades impregnadas pela cultura dita pós-moderna.  Uma cultura da intranscendência  que prende as pessoas no aqui e agora  fazendo com que vivam apenas do imediato, sem necessidade de abrir-se à Transcendência.  Uma cultura da  “distração” (em castelhano divertimento)  que arranca os indivíduos de seu interior  fazendo  com que esqueçam as grandes questões que o ser humano tem no coração.  Uma cultura do “ter”  que exercita  o  espírito de posse, incapacitando as pessoas para tudo aquilo de não seja um desfrutar imediato que facilmente desliza do pluralismo ao relativismo e à indiferença”  ( José A. Pagola, Testigos del misterio en la noche,  Sal Terrae, enero 2000, p. 29).

ref

● Os textos lidos nos levam a querer buscar o caminho que nos leva ao fundo do coração, mais exatamente ao lugar do coração.  “Tomando contato com as raízes de nossa vida e de nossa fé. Nesse ponto é possível aprofundar o dinamismo que existe entre  interioridade-silêncio e missão evangelizadora, como parte essencial do carisma (franciscano).  A interioridade, finalmente espaço habitado, é o clima, o ambiente, o húmus do encontro de Deus com as criaturas humanas.  A  oração litúrgica e pessoal cresce, quando brota do “lugar do coração” e vem protegida pelo silêncio. Descobrimo-la  como uma realidade viva para escutar e acolher a Palavra de Deus. O silêncio deixa de ser apenas uma regra a ser observada.  Santa Clara, com a metáfora do espelho, mostra-nos o âmago desse caminho: “Olha dentro desse espelho todos os dias… espelha nele constantemente o teu rosto” (4CtIn 15) ( O caminho que leva…, op.cit., p. 14-15).

● Desnecessário dizer que os espaços de silêncio se fazem cada vez mais raros em nossos tempos.  Desde que acordamos chega uma  enxurrada  de informações.  Os torpedos e as imagens chegam no celular e iluminam o quarto.  Durante um concerto há pessoas que ousam atender,  discreta ou indiscretamente,  o celular para tomarem conhecimento das últimas  informações que provavelmente  têm pouca importância diante do  fascínio de uma sonata de Beethoven. As pessoas se levantam de manhã, correm, se apressam.  Há o  barulho das máquinas, o doce estalar dos no-brakes. Saímos de casa:  transportes coletivos cheios, ônibus incendiados, apitos das sirenes dos  bombeiros, pessoas empurrando pessoas, os celulares e as pessoas falando. Somos como que mergulhados no seio do caos.  Um mundo caótico.

● Sintomas, mais ou menos graves, foram analisados  por psicossociólogos e  educadores.  A fragilidade e instabilidade de cada um, desenraizado de suas própria profundidade  aparecem na vida dos casados, dos fiéis de uma comunidade, nos grupamentos de vida consagrada.  As crianças têm dificuldade em se concentrarem.   Há superficialidade nos relacionamentos.  Há consumo intenso de tranquilizantes.  Inadaptação crônica. Agressividade à flor da pele.  Depressão. Dispersão, procura  louva de evasão, droga, seitas… (M. Hubaut).

● Tudo indica que a perplexidade e o vazio sentidos por tantos de nossos contemporâneos  tenham  levado as pessoas a perderem uma dimensão  essencial do existir.  Como pode alguém ser ele mesmo sem ganhar altura e profundidade, sem fazer silêncio?  O silêncio equilibra a vida e o crescimento.  O homem que não faz mais silêncio  perde não somente a arte de viver, uma qualidade de vida, mas uma peça estruturante de seu ser profundo.

● O homem deve se estruturar em duas direções complementárias: exterioridade e interioridade: exteriorização em relação aos outros e ao mundo; e interiorização, certo recuo, afastamento, silêncio, reflexão com relação a si mesmo,  como os movimentos do coração humano, de sístole e diástole.

● Se a socialização contemporânea,  tão necessária, não for acompanhada de uma  crescente interiorização podemos chegar a desequilíbrios mais ou menos graves.  O bem-sucedido de uma existência humana  depende do seu desenvolvimento integral e da qualidade dos relacionamentos humanos. Uma das tarefas importantes da Igreja em nossos dias é a iniciação ao silêncio  à vida interior.  Nas grandes cidades, de modo particular, será preciso ajudar as comunidades a criar espaços de silêncio e de oração, pulmões que prevenirão uma asfixia.

● Com toda razão se tem dito e repetido à saciedade que o cristianismo não pode ser concebido sem um decidido compromisso  contra a fome, injustiça, violência que degradam o homem. Com a mesma força se deve dizer que  não se pode conceber o cristianismo sem um empenho determinado para que o homem valorize sua dimensão interior.

● O silêncio é um pedagogo que nos ensina a ouvir. Escutar a música da criação para perceber o segredo da harmonia.  Ouvir nosso coração, nossa consciência, para melhor nos conhecer e dirigir nossa vida.  Escutar os homens para nos enriquecer de sua diversidade e melhor amá-los.  Escutar  Deus, sua Palavra interior, seu Espírito que fala em nós para nos comunicar  sua vida.

●  “O silêncio é a última palavra do discurso. É plenitude de palavra. É dialogo sem palavras. É a medida do tempo necessária para  amadurecer uma mensagem no coração. Consequentemente é muito pouco defini-lo, simplesmente como ausência de qualquer som ou rumor; é, ao contrário, uma realidade plenamente positiva; é escuta intensa da Palavra de Deus. Daqui se compreende que não se escolhe o silêncio pelo silêncio, mas o silêncio para a escuta, para o diálogo interior e prolongado, para a comunhão profunda”  (Ubaldo Terrinoni, Projeto de pedagogia evangélica, Paulinas,  p. 182).

O enigma do homem, ser  de solidão e de relação

● O primeiro obstáculo para o silêncio não é o ambiente que o cerca, mas o próprio homem que parece fugir do silêncio  apesar de ter dele necessidade e necessidade vital.  O homem é um ser social que precisa viver com os outros, pelos outros e para os outros.  Nesse sentido, a solidão  pode ser ressentida como estado psicológico violento  contra  a natureza do qual ela procura escapar. Uma certa solidão é uma das grandes angústias do homem moderno, sobretudo dos que envelhecem e não aprenderam a sabedoria do viver. Há pessoas, não tão idosas, que são literalmente incapazes de permanecer escutando a voz de seu interior.  Ficam desequilibradas com o silêncio.

● Não se pode confundir solidão de isolamento. Uma criança isolada, mesmo tendo o necessário para nutrir seu corpo e sua mente,  dificilmente terá condições de encontrar sua identidade.  Sabemos da catástrofe experimentada por tantas pessoas idosas e também doentes e presidiários.  “Não é bom que  homem viva só?”

● O ser humano quer a comunicação, mas difícil e raras vezes chega à comunhão. Entre um e outros há sempre uma região  que não pode ser ultrapassada.  A experiência é feita por amigos e por casais que se estimam de verdade.  Cada ser humano é uma solidão ambulante.

● Cada um é um ser único cujo jardim secreto permanecerá sempre, em parte, impenetrável, indizível. Todo sonho de fusão está fadado ao fracasso  porque desconhece o outro em sua diferença e nega assim sua identidade própria. Sartre:  “Até o fim permaneceremos sós e juntos”.  Sartre  diz que mesmo que o inferno são os outros.

● O homem não suporta nem o isolamento, nem a contínua presença dos outros. Um prolongada solidão  suscita nele um irresistível desejo da presença dos outros. Uma vida comunitária permanente, uma vida de intensos relacionamentos cria o desejo da solidão.  Solidão e presença se chamam mutuamente. Não existe fraternidade franciscana quando seus membros riscaram de seu programa a leitura, a meditação, a oração, a visita ao fundo do coração.  As reuniões comuns deixam a desejar.  Serão apenas espaço para tagarelar.

O isolamento destrói, o silêncio habitado  constrói

● A tradição cristã  não confunde  o silêncio da solidão voluntária, provisória ou permanente que pode ser fonte de enriquecimento, que é construtiva, com o  silêncio do isolamento que é sempre sinal de empobrecimento e destruidor.

● A solidão não é  finalidade em si mesma. Não é valor absoluto. Visa permitir que o homem ouça seu coração  habitado pelo Espírito.  Madeleine Delbrêl dizia:  “A verdadeira solidão não é a ausência dos outros, mas a presença de Deus”.  Na solidão habitada, o homem encontra verdadeira presença, a si mesmo, o mundo, os outros e a Deus.

● “A primeira condição  para ousar a aventura da vida interior, para tentar uma vida de oração, é ter a convicção de ser habitado pelo Espírito que não posso me dar mas que recebo com um dom de Deus.  Este Espírito é “Desejo-de-Deus em mim”. Não serei um homem ou uma mulher de oração  enquanto pensar que   a oração é, antes de tudo,  “minha” atividade. A oração é, antes de tudo, ação do Espírito em mim. Não se convoca a Deus. Possui-se a Deus, acolhe-se a Deus.  Não  “se faz” nossa oração, mas abre-se a uma Presença. Rezar é acolher, escutar o Espírito que murmura em mim. Ele é fonte desse diálogo de amor filial com esse Deus que o Cristo revela ser nosso Pai.  “Não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim”,  diz São Paulo  (Gl 2,20).  Não sou fonte de minha oração, mas meu “coração”  é o lugar onde o Espírito jorra e reza em mim” (Hubaut, p. 15).

● A solidão silenciosa deve estar a serviço do encontro com Alguém que ali marca encontro, não para uma estéril  introspecção  narcisista, mas para um diálogo de amor que coloca o ser humano em comunhão com todos os homens e a terra inteira.  Somente o silêncio habitado é compatível com a estrutura e a vocação do homem. Se esta presença de Deus não é mais buscada nem reconhecida a solidão se torna desumana.  Literalmente  Hubaut:  “É quase impossível amar o silêncio e viver serenamente uma certa solidão sem crer  na dimensão interior do homem e do mundo, sem abertura para fonte transcendente da vida” (p. 42).

● Se o silêncio aspira à solidão e a solidão convida ao silêncio, o encontro feliz entre os dois não acontece automaticamente.  Podemos ter uma  barulheira na cabeça vivendo no deserto e fazer silêncio no meio da multidão. Podemos estar cheios de nós mesmos e de nossos problemas  num mosteiro e estar completamente disponível para o mundano.

●  “O homem é um ser  solitário e comunitário que tem necessidade de  solidão e de relacionamentos para encontrar-se consigo mesmo.  Os dois caminhos, o da solidão e do relacionamento, não podem  ultrapassar seus limites intrínsecos sem acolher a plenitude divina. O silêncio, para aquele que crê, não é um lugar, mas uma qualidade do coração, a solidão não é fuga não é isolamento, evasão ou fuga, mas uma renovada atenção a uma  PRESENÇA que habita tanto a solidão do deserto como os relacionamentos humanos” (Hubaut, p. 41-42).

● Mais do que um afastar-se espacial, o silêncio é,  antes de tudo,  uma atitude interior.  A experiência nos diz que há silêncios fecundos sem solidão. Muitos dos que reclamamos da falta de silêncio temos  um interior cheio de tumulto.  Nesta solidão  encontra tédio e um vazio mortal que pode mesmo afetar  seu equilíbrio.

● Quem deseja fazer silêncio para ouvir a Deus e unificar sua vida deverá aprender a descer ao deserto interior de seu coração onde o Espírito marca encontro. Cristo  disse que o discípulo é do mundo e ao mesmo tempo não é do mundo.  A fé, que revela a profundidade do homem e dilata seu horizonte,  cria necessariamente um  distanciamento no seio da vida cotidiana.  Tocado por uma palavra de fogo que faz arder seu coração  não pode mais absolutizar o que se revela como elemento da finitude do homem.  Nada se despreza, mas tudo é relativizado.

● Os santos viveram esse silêncio, essa solidão fecunda. “Profundamente presentes à vida de seus contemporâneos, os santos, pela graça, são cidadãos de uma pátria invisível, mas mais real que toda realidade humana. A experiência nos leva a dizer que somente a graça de Deus pode fazer da solidão um espaço de silêncio interior que abre as chaves da vida íntima do homem  onde o Espírito murmura e Deus fala”  (Hubaut, p. 44).

outros

A) “O silêncio é escolha dos fortes e capacidade dos sábios. O homem adentra-se no deserto para encontrar-se a si mesmo, para colocar ordem nas próprias ideias, para fazer emergir, novamente,  das profundezas o essencial e  renovar as opções.  O silêncio total do ser humano é plenitude da Palavra de Deus, o qual gosta de falar no silêncio e quando fala não faz nenhum rumor. Como fez com Maria: a criatura do silêncio. Nela, no mais profundo dos silêncios, encontrou calorosa acolhida o Verbo, a Palavra de amor pronunciada por Deus desde sempre e para sempre. Um silêncio absoluto de todo o seu ser. Um silêncio do corpo imaculado para acolher Deus  ( Terrinoni, op. cit,  p. 185).

B) Nos tempos do Papa Francisco parece  importante  que os discípulos tenham a certeza que, na vida e na missão, Cristo caminha em sua vida e missão. Ora,  o recolhimento e o silêncio permitem que os agentes de pastoral  não sejam  meros tocadores de obras e fazedores de tarefas.  Mario França Miranda  em conferência na  52ª. Assembleia da CNBB (Aparecida, SP, 30 de abril a 9 de março de 2014):  “Numa época  marcada pela inflação das palavras através do vários meios de comunicação e também por certo ceticismo com relação a ideologias e  cosmovisões ganha a experiência pessoal  um peso enorme para fundamentar as convicções pessoais. Esta realidade atinge também a fé dos cristãos. Esta resulta de uma iniciativa de Deus de vir ao nosso encontro, doando-Se a si próprio em Jesus Cristo e no Espírito Santo, iniciativa que se realiza plenamente ao ser acolhida pelo cristão na fé.  Portanto, a fé é um evento salvífico na vida da pessoa que é, de certo modo, por ela  experimentado. Esta experiência atinge o coração de cada um, não só dando sentido à existência humana, mas também consolando, fortalecendo e iluminando o que fazem. É a experiência do amor, da bondade e da misericórdia de Deus, realidade prioritária e fundamental de nossa vida. O papa bate na mesma tecla ao enfatizar a importância da experiência pessoal com Jesus Cristo, do amor de Deus que ele nos revela.  Em suas palavras: “O verdadeiro missionário (…)  sabe que Jesus Cristo caminha com ele, fala com ele, respira com ele, trabalha com ele (266).

C) Comentando pagina de João que fala da intimidade entre o discípulo e o Mestre, José Antonio Pagola escreve:  Todo ramo que está vivo deve produzir  fruto. E se não produz, é porque não circula por Ele a seiva da vida da videira. Assim também é nossa fé. Vive, cresce e dá frutos quando vivemos abertos à comunicação  com Cristo. Se esta relação vital se interrompe, cortamos a fonte de nossa fé.  Então a fé seca. Já não é capaz de animar nossa vida. Converte-se em confissão verbal vazia de conteúdo e de experiência viva. Triste caricatura do que os primeiros crentes viveram ao encontrar-se com o Ressuscitado. Digamos sinceramente, será que esta ausência de dinamismo cristão, essa incapacidade de continuar crescendo em amor e fraternidade com todos, essa inibição e passividade para lutar arriscadamente pela justiça, essa falta de criatividade evangélica para descobria as novas exigências  do Espírito, não estão delatando uma falta de comunicação viva com Cristo ressuscitado?  Por paradoxal que possa parecer, o vazio interior pode apoderar-se de mais de um cristão. Preso a uma rede de relações, atividades, ocupações e problemas, o cristão pode sentir-se mais só do que nunca em seu interior, incapaz de comunicar-se vitalmente com esse Cristo em quem diz crer. Talvez a derrota mais grave do homem ocidental seja sua incapacidade de vida interior. Parece que as pessoas vivem sempre fugindo. Sempre de costas para si mesmas. Diríamos que a alma de muitos é um deserto. A falta de contato interior com Cristo como fonte de vida conduz pouco a pouco a um “ateísmo pratico”. Não adianta continua confessando  fórmulas, se a pessoa não conhece a comunicação calorosa, prazerosa e revitalizadora  com o Ressuscitado. Essa comunicação de quem sabe desfrutar do diálogo silencioso com Ele, alimentar-se diariamente de sua palavra, lembrar-se dele com alegria  no meio do trabalho cotidiano  ou descansar  nele nos momentos de abatimento e opressão  ( O Caminho aberto por Jesus.  João,  José  A. Pagola,  Vozes, p.  218-219).

final

Pedindo a graça do silêncio

Senhor,
concede-me não o silêncio que me torna  prisioneiro de mim mesmo,
mas o  que me liberta e abre  espaços novos.
Não o silêncio do corpo cansado procurado em paraísos artificiais,
mas aquele da alma que respira no limiar de teu Reino.

Não o silêncio do medo dos outros e do mundo
mas o  que me torna próximo de todo homem e da criação.
Não o silêncio do egoísmo indiferente e altaneiro,
mas aquele que enraíza e fortalece a ternura do coração.

Não o silêncio do solitário monólogo,
mas o da intimidade da tua Presença.

Não o silêncio da resignação,
mas o que nos  dispõe a combater pela verdade.

Não o silêncio do homem que foge,
mas de quem te busca.

Não o silêncio do homem que rumina seus fracassos,
mas de quem reflete  para descobrir as causas.

Não o silêncio da noite do desespero,
mas o que espera a luz da aurora.

Não o silêncio do rancor
mas o da pacificação e do perdão.

Não o silêncio do tagarela, cheio de si,
mas o do coração que percebe o murmúrio de teu Espírito.

Não o silêncio devassado por incontáveis questionamentos e perguntas,
mas o do maravilhamento e da adoração.

Não o silêncio do esquecimento, do túmulo, da morte,
mas aquele em que a matéria fica prenhe das energias do Ressuscitado
na expectativa de uma vida nova em Tua luz.

Michel  Hubaut