Vida CristãSantos franciscanos › 21/03/2018

Bem-aventurado João de Parma

João nasceu em Parma, na Itália, em torno de 1208 de Alberto Buralli e Antonia Bertani. Tendo se tornado órfão de pai e de mãe ainda muito pequeno foi confiado a um tio padre diretor de uma hospedaria em São Lázaro, nos arredores da cidade de Parma, casa esta que acolhia peregrinos em trânsito, mendigos sem casa, leprosos afastados do convívio social, e pessoas pobres necessitadas de cuidados de saúde e abrigo. O tio cuidou muito de sua educação e o sobrinho freqüentou escolas que tinham eminentes professores, entre outros Sinibaldo Fieschi, futuro Inocêncio IV. Depois de terminar os anos de estudo João obteve o título de Mestre e foi encarregado do ensino da Lógica tornando-se conhecido pela cultura e espírito religioso.

Tendo ingressado na Ordem dos Frades Menores em 1223, devido a seus talentos e maturidade espiritual, foi logo encarregado pelo Ministro Geral, Frei Elias, pelo setor dos estudos e do ensino. Em pouco tempo tornou-se muito conhecido na Ordem e na Igreja como douto em letras, teologia e música. Ensinou em Bolonha, Nápoles e Paris e em 1245 participou como teólogo perito no I Concílio de Lião.

No Capítulo Geral de 1247 foi eleito Ministro Geral como sucessor de Frei Haymon de Farversham e Crescêncio de Iesi que dirigiram a Ordem depois de Frei Elias. A corrente dos ditos “espirituais” era favorável à sua ascensão ao governo da Ordem porque ele defendia a rígida observância da Regra. Estes, pois, acolheram com alegria sua eleição. Sendo uma pessoa reta e desejando o bem de toda a Ordem, seu governo foi marcado por programas muito claros: anulou as punições e limites impostos aos frades condenados por seu zelo julgado exagerado na fiel observância da Regra, resolveu fazer visitas pessoais a todas as Províncias da Ordem sem servir-se dos visitadores delegados, determinou que os Capítulos Gerais fossem convocados alternadamente aquém e além dos Alpes, colocou em destaque o carisma franciscano da simplicidade das origens revalorizando os serviços fraternos e o trabalho manual. Um tal zelo foi reconhecido por todos tanto na Ordem quanto na Igreja.

Teve ocasião de encontrar-se com Luís IX, rei de França, ao qual se ligou por fraterna amizade. Foi encarregado de missões diplomáticas da Santa Sé na Grecia e em Constantinopla junto ao Imperador do Oriente e os patriarcas com o intuito de pôr fim ao cisma e fazer a unidade de Roma com Constantinopla. Esta missão durou um ano, mas sem êxito. Inocêncio IV apreciou muito a obra de João que ele qualificou de “anjo da paz”. Os próprios ortodoxos o definiram como “homem de Deus, mensageiro do Senhor, sagaz diplomata, mas probo e sensível. O imperador Vatatze o cobriu de presentes e lhe reservou um tratamento digno de personagens dos mais destacados.

Tendo voltado ao pleno serviço da Ordem Franciscana, João se ocupou dos problemas decorrentes de sua rápida expansão e das dificuldades internas entre os espirituais e os laxistas.

Em 1254, em Paris, desencadeou-se a batalha entre mestres leigos da universidade contra as Ordens Dominicana e Franciscana: o corpo acadêmico do antigo e célebre Studio se insurgiu contra os professores dos mendicantes que, com suas aulas, atraíam muitos estudantes. O embate teve ásperos contornos até o ponto de tornar-se da parte da Universidade contestação tanto dos franciscanos como dominicanos. Estes fizeram frente comum:o Buralli e Frei Umberto de Romans, Mestre Geral dos Frades Pregadores enviaram às suas respectivas Ordens uma carta comum na qual, chamando atenção para os relacionamentos fraternos entre os dois santos fundadores, convidavam Dominicanos e Franciscanos à concórdia e à coesão. Frei João ficou encarregado de representar as duas ordens diante da assembléia geral dos docentes e dos estudantes da universidade onde a habilidade dialética da defesa do Buralli e sua peroração final, apaixonada e persuasiva deram legitimidade das duas ordens e o reconhecimento que não seria mais discutido.

A obra de Frei João é testemunhado por numerosos documentos da Ordem e da Igreja. A pessoa, o caráter, o temperamento por meio de numerosas páginas escritas com vivacidade por seu contemporâneo e conterrâneo Frei Salimbene de Parma. De João ficaram os traços no seguinte escrito de Salimbene: “Tinha estatura média que mais tendia para pequeno que para grande porte. Era formoso em todos os seus membros. De boa compleição e de boa saúde, e bem forte para suportar fadigas, tanto para andar quanto para estudar. Tinha rosto angelical, gracioso e alegre. Era generoso, liberal, cortês, caridoso, humilde, manso, benigno e paciente. Homem devoto a Deus e de grande oração, piedoso, clemente e compassivo. Cada dia, ele celebrava com tanta devoção, que os que assistiam sentiam alguma graça. Pregava tão fervorosamente e tão bem ao clero e aos irmãos que levava muitos ouvintes às lágrimas, como muitas vezes eu vi. Tinha uma língua muito eloqüente e nunca complicada. Tinha ótima ciência porque era bom gramático e foi mestre de lógica (…). Lecionou as Sentenças em Paris. No convento de Bolonha e naquele de Nápoles foi professor por muitos anos. Quando passava por Roma, os irmãos mandavam-no pregar ou disputar com os cardeais que o ouviam: era considerado por eles grande filósofo. Era espelho e modelo para todos os que o olhavam porque toda a sua vida era cheia de santidade e perfeitos bons costumes (Salimbene, n. 41).

Na seqüela de acusações infundadas de aderir às teorias de Joaquim de Fiore, Frei João soube afastar-se, retirando-se antecipadamente do governo da Ordem. Convocou o Capítulo Geral de Ara Coeli em Roma para 2 de fevereiro de 1257, também por ocasião de Pentecostes e assembléia capitular indicou como seu sucessor o desconhecido Frei Boaventura de Bagnoregio, com quarenta anos e também professor da universidade de Paris João se retirou para o eremitério de Greccio, famoso por ser sido cenário, da celebração do presépio por parte de São Francisco e que tinha acontecido trinta anos atrás.

O novo ministro Boaventura para mostrar claramente a estranheza da Ordem para com a doutrina joaquimista, convocou Frei João Buralli publicamente acusado de desvio doutrinal e suspeita de simpatia para com as doutrinas de Joaquim de Fiore acolhidas por muitos frades “espirituais”. Na cidade de Pieve de João foi submetido a um processo canônico ao qual se submeteu humildemente e diante do Cardeala protetor da Ordem Caetano Orsini pronunciou a fórmula de adesão aos artigos de fé do cncilio lateranense que condenavam as doutrinas joaquimistas. Em sua defesa interveio o Cardela Ottobono Fieschi, que anos depois seria eleito Papa com nome de Adriano V.

Concluído o processo, João voltou a Greccio onde viveu em solidão e austeridade por trinta anos com uns poucos frades, dedicando ao estudo e à oração e à redação de obras ascético-místicas. Houve quem atribuísse a João de Parma o Sacrum commercium sancti Francisci cum Domina Paupertae.

Depois em 22 de fevereiro seu confrade Frei Jerônimo de Ascoli foa eleito Papa com o nome de Nicolau IV, Frei João de Parma já na quadra de seus oitenta anos pediu autorização para retornar ao Oriente para tentar novamente terminar com o cisma. Tendo conseguido a licença se pôs a caminho até Ancona, onde deveria embarcar. Na cidade de Camerino foi acometido pela morte a 19 de março de 1289, sendo hóspede do convento local dos frades menores.

Toda a cidade participou de seus funerais que se demonstraram como apoteose tributada ao santo. Os restos foram transladados da igreja os frades em Camerino para a catedral da cidade. A ininterrupta veneração na Ordem, na cidade de Camerino, na cidade natal do frade em Parma foi reconhecida por Pio VI a 1º de março de 177 que aprovou seu culto e conferiu-lhe o título de beato.

(Tradução livre da obra Frati Minori Santi e Beati, publicação feita pela Postulação Gral da Ordem dos Frades Menores, 2009, p. 78-81)