Na força do vento e no ardor do fogo

O Espírito foi derramado em nossos corações

Através de nossa  Janela Aberta queremos contemplar o  Espírito que procede do Pai e do Filho, que habita em nós e que abre as cortinas para o amanhã do mundo e da Igreja.  Nesta página de hoje são o Padres da Igreja que nos falarão do tema do Espírito que é vento e fogo. O Espírito haverá de nos ajudar a  abrir caminhos novos para a evangelização.

A. Somos vivificados pelo Espírito  em nosso batismo

O Senhor que nos concede a vida, estabeleceu conosco a aliança do batismo, como símbolo da morte e da vida. A água é imagem da morte e o Espírito nos dá o penhor da vida. Assim, torna-se evidente o que antes perguntávamos: por que a água está unida ao Espírito? É dupla, com efeito, a finalidade do batismo: destruir o corpo do pecado para que nunca mais produza frutos de morte, e vivificá-lo pelo Espírito, para que dê frutos de santidade. A  água é a imagem da morte porque recebe o corpo como num sepulcro; e o Espírito, por sua vez, comunica a força vivificante que renova  nossas almas, libertando-as  da morte do pecado e restituindo-lhes a vida. Nisto consiste o novo nascimento da água e do Espírito: na água realiza-se nossa morte, enquanto o Espírito nos traz a vida (…). O Espírito Santo restitui o paraíso, concede-nos entrar no reino dos céus e voltar à adoção de filhos. Dá-nos a confiança de chamar a Deus nosso Pai, de participar da graça de Cristo, de sermos chamados filhos da luz, de tomar parte na gloria eterna, numa palavra,  de receber a plenitude de todas as bênçãos tanto na vida presente quanto na futura. Dá-nos ainda contemplar, como num espelho, a graça daqueles bens que nos foram prometidos e que pela fé esperamos usufruir com se já estivessem presentes. Ora, se é assim o penhor, qual não será plena realidade?  E, se tão grandes são as primícias, como não será a consumação de tudo?

São Basílio – Liturgia das Horas II, p, 687-688

Espírito Santo B. Água viva

A água que eu lhe der se tornará nele  fonte de água viva, que jorra para a vida eterna (Jo 4, 14). Água diferente, esta que vive e jorra; mas jorra apenas sobre os que são dignos dela. Porque o Senhor dá o nome de “água” à graça do Espírito Santo? Certamente porque tudo tem necessidade de água; ela sustenta as ervas e os animais. A água da chuva cai do céu; e embora caia do mesmo modo e na mesma forma, produz efeitos muito variados. De fato, o efeito que produz na palmeira não é o mesmo que produz na videira, e assim em todas as coisas, apesar de sua natureza sempre a mesma e não poder ser diferente de si própria. Na verdade, a chuva não se modifica a si mesma em qualquer das suas manifestações. Contudo, ao cair sobre a terra, acomoda-se às estruturas dos seres que a recebem dando a cada um deles  o que necessita. (…) Branda e suave é a sua aproximação; benigna e agradável é a sua presença; levíssimo é o seu jugo!  A sua chegada é precedida por esplêndidos raios de luz e ciência. Ele vem com o amor entranhado de um irmão mais velho, vem para salvar, curar, ensinar, aconselhar, fortalecer,  consolar, iluminar a alma de quem o recebe e, depois, por meio desse, a alma dos outros. Quem se encontra  nas trevas, ao nascer do sol, recebe nos olhos a sua luz,  começando a enxergar claramente coisas que até então não via.  Assim também,  aquele que se tornou digno do Espírito Santo, recebe  na alma a sua luz e, elevado acima da inteligência humana, começa a ver o que antes ignorava”

Das Catequeses de São Cirilo de Jerusalém – Liturgia das Horas  II, p. 876

C. Presente em todos e em cada um

Inacessível por sua natureza torna-se acessível por sua bondade. Enche tudo com o seu poder, mas comunica-se apenas aos que são dignos. Não a todos na mesma medida, mas distribuindo os seus dons em proporção da fé. Simples na essência, múltiplo nas manifestações do seu poder, está presente por inteiro em cada um, sem deixar de estar todo em todo lugar. Reparte-se e não sofre diminuição. Todos dele participam e permanece íntegro, à semelhança dos raios do sol que fazem sentir a cada um a sua luz benéfica como se fosse para ele só e, contudo, iluminam a terra e o mar e se difundem pelo  espaço. Assim é também o Espírito Santo; está presente em cada um dos que são capazes de recebê-lo, como se estivesse nele só, e, não obstante, dá a todos a totalidade da graça de que necessitam. Os que participam do Espírito recebem os seu dons na medida em que o permite a disposição de cada um,   mas não na medida do poder do mesmo  Espírito”.

São Basílio, século IV – Liturgia das Horas II, p. 883-884