IV. E a família, como vai?

Fidelidade no casamento

A fidelidade é impossível quando há solidariedades fracas

Em nossos dias estamos todos preocupados com a sólida construção do casal. A instabilidade de tantos casamentos tem sua origem em muitos fatores: escolha precipitada do companheiro e da companheira,  falta de  sintonia profunda entre as duas histórias, incapacidade de fazer reavaliações da caminhada, a cultura do individualismo e dos empreendimentos a curto prazo e muitos outros fatores. De modo especial, um casamento ganha solidez quando os parceiros vivem uma fidelidade criativa. Não se trata apenas de uma palavra jurada no passado, mas de se criar condições para que a união cresça. Nosso intuito é apenas o de  abordar alguns aspectos da fidelidade conjugal. O tema da fidelidade, no entanto, é vasto demais: fidelidade aos amigos, fidelidade aos filhos, fidelidade aos compromissos, fidelidade ao Senhor, fidelidade à sua verdade.

1. Gostaria de começar esta reflexão com um  texto de Gérard Bailhache:  “A fidelidade é uma modalidade de nossa condição de vida como seres da história, ou seja, como seres que vivem entre um começo e um fim sobre os quais não temos domínio. Ser fiel, querer ser fiel, é atravessar a espessura do tempo, a opacidade das ações e dos dias na confiança de que uma história vai se tecendo e não uma simples acumulação de instantes separados uns dos outros. Uma história se tece na medida em que cada um de nós religa os fios a um determinado momento. Na medida também em que religados a outros e para outros. Ser fiel é estar orientado, ou propor a orientação para outros.  Ser fiel é transmitir o que recebemos para  os que vêm depois de nós, passando gosto por esse relacionamento entre as gerações. Aí esta um dinamismo próprio da fidelidade que pode ser descrito como o risco da produção de um sentido com outros, quer dizer, o acolhimento desse sentido por meio  do confronto e do diálogo”  (L’humaine fidélité, in Christus (Paris), n. 169, 1996, p. 31).

2. O casal está sempre em construção. O amor conjugal e familiar precisa ser marcado por um estado de crescimento.  Sem neuroses, marido e mulher atentarão para que a rotina, a mesmice, a falta de energia do interior não venham a empobrecer a união e a levar a um fracasso do casal e da família. Em outras palavras, todos ficarão atentos a um amadurecimento do amor e a um fortalecimento dos laços amorosos. O amor é planta frágil, requer cuidados incessantes. Condição indispensável para o crescimento de todo amor conjugal é a fidelidade. Esta virtude preside a vida do casal.

3. Um dos traços mais belos de um caráter é, sem dúvida alguma, a capacidade de alguém ser fiel. É sempre muito agradável conviver com pessoas que são fiéis a seus compromissos, à sua palavra, à sua amizade, pessoas que conservam propósitos e intenções de ontem. A fidelidade permite que a convivência se revista de  leveza, confiança, alegria e esperança.  Sentimos que estamos pisando em terreno sólido. Quando o contrário acontece  começa a se infiltrar nos relacionamentos a desconfiança.

4. Falamos de fidelidade a uma palavra dada, a uma pessoa, a um projeto.  A fidelidade não é realidade estática, mas dinâmica. A mocinha de  20 a anos e o rapaz  de 22 que se casam são os mesmos que agora estão com 50 ou 52 anos. A fidelidade de agora, no entanto, tem outras conotações do que aquela de ontem. Quantas conversas, quanta história vivida, quantos eventos, quantas dificuldades superadas! Fidelidade a uma  palavra que organiza o presente  e o amanhã de um casal. Esse sim  de um momento  perpassa toda a vida, mas sempre dinâmica e criativamente.  É o mesmo sim e, ao mesmo tempo, completamente diferente.

5. Há a fidelidade a uma pessoa concreta e  bem determinada.  A pessoa não é uma realidade  fixa e acabada. Ela se transforma. Tem dinamismo interior. No tempo que passa desdobra suas possibilidades e potencialidades. Cada pessoa traz consigo feridas e machucados que vão sendo curados no seio do casamento marcado por um amor fiel. Os esposos ficam atentos a toda pessoa do outro, sua maneira de crescer profissionalmente, sua busca de Deus. Assim, a fidelidade conjugal se debruça respeitosa e carinhosamente sobre a pessoa.

6. Há um projeto comum no casamento: constituição de uma comunidade de vida e de amor, abertura à vida, desejo de tornar a face da terra mais bela com o casamento.  Falamos de  uma fidelidade a um projeto. As coisas não podem ser  deixadas ao sabor dos ventos. Não se pode tirar alguém de seu universo e expô-lo a constrangedoras situações existenciais e a ver desmoronado o projeto de sua vida com a mediocridade da vida o casal ou com a separação.  O casal vai se construindo ao longo do tempo através do diálogo, da ajuda mútua, da multiplicação de atenções exclusivas, de serviços amorosos. O projeto conjugal põe termo à solteirice. Concretiza o deixar pai e mãe e constituir uma realidade nova.  Nessa fidelidade a um projeto coloca-se a aceitação dos filhos e  seu acompanhamento humano, espiritual e cristão. Pode-se falar também de fidelidade a um projeto espiritual de crescimento  do casal e dos filhos.

7. Costuma-se falar de diferentes níveis de fidelidade. Falamos em fidelidade carnal,  fidelidade da mente e fidelidade do coração.  Marido e mulher quebram seriamente o compromisso e a palavra dada com a infidelidade carnal. Alguns dizem conservar a fidelidade interior mesmo sendo ocasionalmente  carnalmente infiéis. A infidelidade  carnal regular ou esporádica leva ao término do casamento ou então fará com que a união seja  cada vez mais pesada e difícil de ser suportada.

8. Fala-se de uma infidelidade da mente.  Os que fazem esse compromisso de fiel amor orientam seus pensamentos mais profundos, suas atenções mais escolhidas para a pessoa amada. Há uma organização do interior da pessoa em função do outro.  Assim se constrói unidade.

9. Há ainda a fidelidade do coração. Não é infiel apenas o cônjuge que trai o parceiro carnalmente.  A infidelidade começa  no coração. Quando o afeto caminha a esmo e as energias afetivas não são profundamente orientadas já começou o processo ruinoso da infidelidade. Quando se comentem muitos deslizes nesse campo já se quebrou o encanto da fidelidade mesmo que não tenha ocorrido a infidelidade carnal.

10. Diante da muitas exigências e reclamos do mundo moderno, das solicitações da sociedade hedonista e do aproveitar a vida  parece fundamental se compreender que a fidelidade, em todos os níveis,  exige renúncia. Quem tudo quer e a nada renuncia, não chega à unidade interior.  A renúncia é prova de fidelidade.

11. Fundamental que o sim que dá fundamento à fidelidade conjugal seja regularmente renovado. Não são necessários para tanto ritos extraordinários. Cada pessoa, no sacrário de seu interior, reexamina a palavra dada em confronto com o novo que vai aparecendo.  As pessoas se casam a cada dia. Sem isso a fidelidade mecânica e seca pode ser uma camisa-de-força.

12. As pessoas são infiéis quando desde a infância aprenderam a vagabundear de flor em flor. Os que nunca souber assumir compromissos terão dificuldade no amplo campo da fidelidade.  A infidelidade acontece quando morre o vínculo do amor. As pessoas precisam se comunicar em profundidade. Não basta que todos tenham os mais modernos celulares e vivam no barulho interno e  externo. Será preciso uma comunicação de qualidade, de pessoas despertas e não de frangalhos que falam o que a sociedade de consumo e do barulho quer que eles falem. Não parece lógico fazer a reivindicação da fidelidade para manter o vínculo que os casados deixaram morrer.  A falta de comunicação madura é que leva ao drama da  infidelidade. De que adianta  apelar para a palavra dada quando, no dia a dia, as pessoas negam o amor, não mostram mais encantamento diante de dele?  Como exigir amor negando-se a comunicação? A falta de comunicação intensa significa a morte do amor e negação de sangue e alma à fidelidade amorosa. A infidelidade se situa, no contexto de hoje, no que se designa de  “solidariedades fracas”.

13. Talvez a palavra fidelidade hoje possa ter o nome de hospitalidade e de acolhida.  Qualquer pacto pessoal é marcado por estas características. A fidelidade ao compromisso da hospitalidade sempre foi reivindicação e direito dos povo nômades. O hóspede é sagrado porque é acolhido num espaço em que se gera e se protege a vida e por isso se lhe garante a mesma proteção  que se oferece aos membros da família. Ora, acolher o outro é criar um vínculo que nos recria e nos compromete numa nova solidariedade.  Aí está o esplendor e a beleza da  fidelidade: alguém que é acolhido, que recebe  hospitalidade.

14. Muito mais deveria ser dia em torno do tema. Voltamos a citar  Gérard Bailhache: “A fidelidade é uma conduta que nos situa no tempo vivido e experimentado como tempo da continuidade. Ser fiel é ter uma memória que se pode qualificar de amorosa e respeitosa.  Sou fiel à pessoa do outro, amada pelo que ela é, por aquilo que vai tornar-se  que escapa de meu poder. A história vivida juntamente se desdobra em renúncias às possíveis infidelidades do momento, sempre presentes e insinuantes” (p.33).  Nos relacionamentos humanos não há beleza igual a essa que se degusta tendo como  pano de fundo uma fidelidade criativa.

Questões para discussões em grupo:

● O que mais chamou sua atenção na leitura do texto sobre a fidelidade?

● Como vivem a fidelidade às pessoas à sua volta?

● Afinal de contas, o que é ser fiel?

● Como se constrói a fidelidade conjugal?

Texto seleto sobre a fidelidade conjugal

 Ela nasce do compromisso matrimonial.  Na verdade, já existia desde o momento em que um coração se deu conta que um outro coração vinha ao seu encontro.  Ela se adensa  no “sim” da celebração.

A que se compromete o casal?   Compromete-se a  constituir “um só ser”, quer dizer,  a viver totalmente  em comunhão e participação mútuas.  A fidelidade é uma virtude dinâmica, quer dizer, ela impulsiona a pessoa que assume esse compromisso a buscar e criar, a cada instante, a maneira de vivê-lo.

Ninguém que assume um compromisso desse gênero tem certeza e segurança que  no futuro amará da mesma forma a pessoa que agora ama de uma maneira. A fidelidade não pede este absurdo.  Pede que cada dia se busque nova maneira de amar o outro, dando o melhor de si. O compromisso liga a pessoa com situações do passado, do presente e do futuro.

Infantil quando um casal afirma que não há entre os dois o mesmo amor que existia no tempo do noivado.  É falta contra a fidelidade quando se pretende voltar ao passado e não amar como hoje se deveria amar.  Fixar-se no passado é fugir da realidade e deixar de caminhar rumo ao futuro.

Atenta-se contra a fidelidade quando há resignação, quando não se cultiva o amor no casal.

Atenta-se  contra a fidelidade quando um dos parceiros não entrega ao outro “tudo” o que é necessário para uma comunhão e participação totais com o fito de “formar um só ser”  (Ramón Echeverria,  citado em  Casamento: Ternura e Desafio (Vozes), p. 153).