10/10/2018

Irmã Jacoba, mais do que amiga de Francisco

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Frei Almir Guimarães

Jacoba, figura original, amiga de Francisco, cidadã romana que lhe oferecia doces de sabor inesquecível durante sua enfermidade em Roma, o famoso mostacciuolo, feito de amêndoas, mulher que se fez presente no momento do trânsito do santo. Para ela não funcionava a lei da clausura. Jacqueline Gréal faz um passeio sobre essas coisas todas num artigo publicado em revista dos frades de Paris. O título é simplesmente “Dame Jacqueline, notre frère” (Évangile Aujourd’hui, n. 209, p. 40ss). Apoiamo-nos neste texto.

• Afinal de contas quem era Jacoba de Settesoli, Jacoba dos Sete Sóis? Teria nascido em Roma em torno de 1188 e falecido em Assis em 1239. Outros discordam desta data e falam de 1288 (quase impossível). O sobrenome de Settesoli vem de uma região de Roma dita Septizonium, espaço adquirido por Censio Frangipani, ancestral do marido de Jacoba. Talvez Francisco tenha sido tocado pela ressonância cósmica de Sete sóis ou pela fama caritativa dos Frangipani, os que partem o pão com os pobres. Dificil dizer se ela pertenceu ao movimento penitencial dos tempos.

• Legendas nos falam de Fra Jacoba. Elas transmitem a imagem de uma mulher hospitaleira. Não se pode dizer que bastam os doces de amêndoa que Francisco apreciara em Roma e depois do momento de sua morte provar que se tratava de uma franciscana, nem mesmo de uma cristã. Todas as mulheres cristãs ou não sempre fizeram doces em suas casas e que também se dedicavam aos pobres. Certamente, o carisma de acolhida desta mulher foi tão cheio de calor que o ascético Francisco sentiu alegria com ela a ponto de gravar em sua memória não apenas o semblante de Jacoba, mas o sabor do confeito de amêndoas. Folclore? Verdade? Estamos sempre diante do problema das Fontes.

• Uma outra legenda mostra a atração de Francisco pelos símbolos bíblicos, no caso a ovelha que ele dá a sua amiga e que a desperta cada manhã para a oração. Boaventura fala de um cordeirinho, que lembrava o Cordeiro divino e que havia sido dado a Francisco em Roma. “Quando veio embora confiou-o à guarda de uma nobre senhora D. Jacoba de Settesoli. O cordeiro, como que instruído pelo santo em coisas espirituais, andava inseparavelmente ligado à senhora, acompanhava-a para a igreja, ficava lá com ela e com ela vinha embora. Se de manhã ela demorava um pouco mais a levantar-se, vinha ele desperta-la com umas inofensivas marradas e balidos como que a dizer-lhe, com gestos e movimentos, que era preciso andar depressa para a igreja. Por isso é que esta dama se encarregava de seu cordeiro amável e admirável, discípulo de Francisco, que já se tornava mestre em devoção” (Legenda Maior de São Boaventura 8,7).

• Jacoba se faz presente no leito de morte de seu caro Francisco. Quando o Poverello sentiu que a irmã morte estava se aproximando pede que ela seja notificada do fato e que venha rapidamente para encontra-lo ainda vivo. Não temos plena clareza a respeito dos acontecimentos. Teria sido apenas um desejo expresso aos confrades? Houve de fato uma carta? O que Francisco pedia com toda certeza?

• Os editores das Fontes sempre manifestam reticências a respeito da autenticidade da Carta. Aqui transcrevemos a versão da missiva segundo as Fontes Franciscanas de Portugal:

o À senhora Jacoba, serva do Altíssimo, o pobre de Cristo, o irmão Francisco, saúda no Senhor, em união com o Espírito Santo.

Sabes, estimada irmã, o Senhor, por sua graça, revelou-me que o fim da minha vida está próximo.

Pelo que, se ainda me queres ver em vida, logo que recebas esta carta, apressa-te a vir a Santa Maria dos Anjos. Se não vieres até sábado já não me encontrarás vivo. Traz contigo escuro, com o qual possas envolver meu corpo, e cera para a sepultura. Peço também que me tragas aquele doce, que tu me preparavas, quando estava doente em Roma.

• Os editores das Fontes na França observam que falta à carta a saudação final de educação (politesse). Documentos (Actus) afirmam que a carta, por determinação de Francisco, não foi terminada.

• Podemos bem imaginar que Francisco tenha desejado ver esse rosto tão conhecido e querido. Também os diferentes detalhes da carta divergem segundo as fontes: os doces, a túnica mortuária, a cera para as velas do velório. E antes de receber qualquer notificação Jacoba chega à Porciúncula com seu cortejo. O que é histórico em tudo isso? Certamente o que permanece certo é o dito de Francisco: “Para Fra Jacoba, nossa irmã, não existe clausura”. À cabeceira deste “outro Cristo!”, ela poderá chorar como uma outra Madalena.

• Nada ficamos sabendo de nenhuma palavra que tenha saído dos lábios da nobre Senhora, ao menos alguma coisa que tenha sido conservada. Apenas gemidos, soluços e lágrimas. Nada de lamentação à maneira dos carpideiras. Nada que pudesse se comparar à acolhida do cadáver de Francisco em São Damião, quando as irmãs disseram: “Pai, que vai acontecer conosco? Por que nos abandonas… quem nos consolará? Pensemos, nesse contexto, nas reações passionais de Isabel da Hungria diante do cadáver de seu esposo Luís: “Morte, ele morreu, que agora eu morra para toda alegria deste mundo”. De Jacoba temos apenas as lágrimas. Os frades, fixados em sua profunda dor, teriam escutado as lágrimas de Jacoba? Observemos que Frei Elias, tão pouco apreciado, parece ter demonstrado compaixão para com ela permitindo que por instantes tivesse em seus braços o cadáver de Francisco e que pudesse venerar seus estigmas.

• Mesmo neste momento supremo nada ficamos sabendo de particular a respeito de Jacoba. Restam as considerações e atitudes de Francisco, a mais credenciada das testemunhas. Quando fala a respeito dela a seus irmãos ele não diz: “Senhora Jacoba, minha amiga”, nem mesmo “Senhora Jacoba, meu irmão”, mas “Fra Jacoba, nosso irmão”. Assim ele a declara irmã de todos os irmãos. E que irmãos? Aqueles da primeira hora que estiveram com Francisco às portas do palácio de Jacoba em Roma. Nossa irmã: Francisco dissipa toda ambiguidade afetiva. Não se trata, ou não se trata somente do liame espiritual real e profundo entre ele e ela. Diante de todos ele afirma que ela é do mesmo sangue que todos, que ela segue o mesmo caminho que todos. É em Cristo que ele a declara membro do grupo. Uma mulher foi ligada, mesmo passageiramente, a um grupo masculino. Estamos em 1226 e não em nossos dias. Francisco poderia ter dito: “Senhora Jacoba, nossa irmã”. Mas ele diz: “Senhora Jacoba, nosso irmão. Não é a senhora que ousa isto dizer, mas Francisco que está para morrer. Senhora Jacoba é nosso irmão e nada mais a discutir.

• Como viveria ela esta fraternidade depois da morte de Franciso? Pouco sabemos. Tendo terminado a educação do único filho que lhe restava parece que morou habitualmente em Assis ou deve ter ai permanecido por longos períodos antes de sua morte. Deve ter continuado em Roma sua vida de mulher penitente, amiga da caridade e da oração. Nada de preciso, no entanto, chegamos a saber. Nada se sabe de suas eventuais visitas a São Damião. Parece que ela não deve ter participado da partilha em comum da recordação das coisas da vida de Francisco junto com Clara. Teria mandado pintar um quadro de Francisco cuja cópia está no convento de Greccio. Tudo, no entanto, é vago.

• Gostaríamos de conhecer outros pormenores a respeito de nosso “nosso irmão” Jacoba. Consolamo-nos com o ditado “Mostra-me teus amigos, mostra-me teus irmãos, e direi quem tu és”. Feliz Jacoba, sombra perdida como tantas outras na irradiação do Sol de Assis. Feliz por ter tido tais amigos e de ter sido julgada digna de ser seu “irmão”. É tudo o que dela sabemos e isto nos basta. Foi assim que era vista por tantos que ao longo dos séculos colocaram seus restos mortais na grande basílica. Por fim, seus ossos foram colocados à entrada da cripta onde ficavam as relíquias do corpo de Francisco, junto com Leão, Ângelo, Rufino e Masseo. Todos constituem a guarda de honra de seu irmão Francisco. “Senhora Jacoba, nosso irmão. A clausura não vale para ela.