A dimensão política do franciscanismo

Frei Vitório Mazzuco, OFM

1. “Somos do Evangelho da Libertação!

As pessoas que interagem comigo nas mídias, de certa forma cobram uma palavra minha sobre a situação política que estamos vivendo. Não alimento o Facebook com opiniões sobre isso, porque considero o Facebook uma feira-livre onde se expõe de tudo e nem sempre com raízes reflexivas bem fundamentadas. É uma exposição de posts sem critérios, embora haja exceções, e ali também apareçam publicações precisas. Normalmente, partilho ali textos do meu blog: www.carismafranciscano.org.br, blog este que tem a finalidade de mostrar o olhar franciscano sobre temas necessários. Mas aqui vou, então, manifestar o que penso, sob o filtro da inspiração franciscana, numa longa série de textos reflexivos.

O jeito da Minoridade vivida por tantos da Família Franciscana é renascer em cada lugar fiel a origem das três Ordens e suas frutuosas Ramificações. O jeito da Minoridade é ser menor e periférica. Muitos que me conhecem ou convivem comigo afirmam categoricamente ou perguntam: “Os frades são Teologia da Libertação? Ou dizem: “Todo frade, inclusive você, são TL”. Respondo sempre que, por inspiração divina e pela concretude de vida do nosso Fundador, São Francisco de Assis, somos do Evangelho da Libertação!

Então, o rótulo de TL, não soa para mim como uma pitada de ranço ideológico, mas sim como um elogio, uma honra e, um reconhecimento de oito séculos de tradição, prática e profecia. É orgulho e responsabilidade ser um “TL” por causa do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por Vida e Regra o Evangelho da Libertação é o nosso ponto de partida. Todo Evangelho é a máxima transparência da prática libertadora de Jesus Cristo.

Nossa Ordem tem um caráter espiritual e social; e no cerne deste caráter pulsa uma fonte mística que motiva nossas práticas. Começo, antes de qualquer análise, a partir da mística e da espiritualidade própria do Carisma.

2. “O Evangelho não é apenas um texto bonito para ser lido”

Francisco de Assis fez uma rara aproximação com Deus abraçando o pobre com braços da Boa Nova. Abraçar o leproso, o maior ícone libertador de um processo penitencial e de conversão, foi um enlaçamento de vidas, um gesto profético, uma indignação ética, uma proximidade terna e vigorosa para mostrar que a exclusão é desumana e não agrada o Pai das Misericórdias. Abraçar o leproso foi mais que um encontro espiritual. Ali braços, lábios e rostos se entrelaçaram e apontaram o caminho de São Damião; e lá estava um Deus misturado no jeito abandonado das ruínas, um Deus despojado e crucificado.

A partir de então, Francisco de Assis percebe que a pobreza não é um indivíduo, mas um lugar social. A partir deste lugar ele sai para realizar um movimento de transformação pessoal e coletivo. Se existe o pobre é porque alguém ou uma estrutura produziu o pobre. Ele estava e vivia numa família e numa sociedade opulenta, e numa eclesiologia não menos opulenta. E não escolheu permanecer ali. Jesus Cristo não permaneceu na oferta feita pela tentação dos poderes de riqueza, segurança e adoração confortável. Jesus fez estrada nos empoeirados lugares da Palestina. Do estábulo de Belém, do jeito caseiro de Nazaré, para uma imersão no mundo dos que mais precisavam da presença de quem sonhava para este mundo o Reino. O leproso representa os paralíticos e cegos, os raivosos fariseus, a viúva de Naim, o Lázaro que volta à vida, a pecadora condenada que ia ser coberta de pedras, os doentes e exluídos do tempo, que só podiam contar com sua presença, toque, palavra e cura. O Evangelho não nasceu apenas dos pergaminhos da Palavra; o Evangelho nasceu resolvendo a história, mudando vidas, proclamando a justiça, anunciando a paz e a libertação, concretizando Isaías, ampliando a Lei, derramando o sangue dos apóstolos e mártires, e trazendo o sadio para a existência.

Francisco abraçou primeiro o leproso que surgiu no caminho, e depois foi abraçar a cruz de São Damião, o marco indicativo e final de um caminho glorioso de ressurreição. O Evangelho não é apenas um texto bonito para ser lido e comentado; ele é um programa de vida para aqueles que querem abraçar um Deus sangrando por amor do mundo e da humanidade. A Vida e a Regra do Irmão e Irmã é esta, viver o Libertador Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

3. Fé e realidade não se separam

O Evangelho transformou o mundo a partir do tempo de Jesus e a pergunta é: como vamos fazer isto a partir deste tempo em que estamos vivendo? Estar numa Ordem é ajudar a ordem mais espiritual e social do mundo. Olhar o mundo e perceber que estamos numa sociedade que produz desnível de classes, produz o pobre e produz esta insatisfação toda que aí está. No tempo de Francisco de Assis não era diferente. Ele não foi em direção à riqueza, mas sim onde estava a Fraternidade.

A vivência fraterna existe para alimentar participação, cuidado e justiça. Isto não é apenas uma fundamentação sócio-política, mas um ideal cristão que mantém o projeto de Jesus, a transformação do mundo em Reino de Deus. Fraternidade não é apenas querer uma sociedade rica ou pobre, mas uma sociedade justa e solidária. Sem isso, do que adiantaria uma fé cristã professada e proclamada entre desmaios do espírito me dizendo: “aqui TL não entra!”. Claro que não quero entrar no transe alienado que não vê desmaios de fome. Fé é encontro com a realidade colocando nela o sonho sagrado de Deus. Fé e realidade não se separam.

Nós queremos modernizar o nosso modo de crer e não vemos que a sociedade moderna separa riqueza de um lado e pobreza do outro. Diz que o marginalizado, o excluído, o fora das possibilidades é um ignorante. Francisco de Assis também foi considerado um ignorante porque se vestiu de pobre e marginalizado e foi lá cuidar dos excluídos, porque a estrutura feudal de seu tempo também gerou miséria. Francisco de Assis não era um ignorante, mas diferente. Sabia muito bem quem estava produzindo desigualdade e não quis ser igual aos iguais privilegiados.

A experiência de Francisco de Assis é muito rica e não se esgota num único aspecto; se bem que, talvez, muita gente gostaria que ele se reduzisse a viver atrás do balcão da loja de seu pai Pedro Bernardone ou então fosse viver a intensa e boa experiência de vida monástica. Francisco de Assis imerge na realidade da Úmbria e o seu modo de viver o divino, o religioso, o teologal é uma dimensão que atravessa tudo. Se ele nos legou uma espiritualidade e até uma teologia franciscana libertadora é por que experimentou, como diz Congar, “a gente só tem a teologia da própria prática”.

4. Não basta estudar teologia; é preciso ser teólogo

Francisco de Assis transformou a fé num ato profundamente humano. Mostra a essência do Evangelho: ter fé é humanizar a vida. O único e verdadeiro conhecimento de Deus é o que está na Boa Nova, um Deus que sabe amar, que leva a amar, que convive entre atos concretos de amor. Francisco é um grande teólogo, embora não tenha estudado na UCP, Universidade Católica de Perugia, porque intui que não basta conhecer ou estudar teologia, é preciso ser teólogo.

O verdadeiro teólogo é aquele que desce com tal profundidade no cotidiano que começa a ver Deus em tudo. Ele foi considerado um Renovador Eclesial, mas isto não é tão excepcional assim, embora o jeito conservador não aceite, a Igreja sempre viveu de muita renovação. E de onde vem esta renovação? Porque há momentos que ela sai do circunscrito mundo de seus líderes e pessoas com carismas próprios e vai ao carisma do povo.

Francisco, ao ir ao povo com a força do Evangelho, faz uma volta às origens da História da Salvação. Porque a Palavra narra o que existiu antes da Palavra: um amor misericordioso de Deus e a vida do povo. Ler e estar na história sob o filtro do Evangelho, viver o Evangelho que estava na história, uma história que foi celebrada, rezada, virou culto, fraternidade, comunidade, memória dos fatos e espelho da Palavra de Deus. Francisco de Assis, com seu jeito, fez uma releitura bíblica reconstruindo lugares eclesiais e sociais.

As muitas guerras de seu tempo, o confronto entre nobres e plebeus, o conflito entre imperadores e papas, as Cruzadas, a estratificação social que dividiam maiores e menores, novos ricos e cidadãos em geral, camponeses, pobres, doentes e miseráveis, também gerou realidade de fome, de empobrecimento, de exploração e morte. Isto não deixou Francisco indiferente. O seu modo de viver o Evangelho em meio a tudo isto não é só uma pregação, mas um grito de alerta.

5. São Francisco de Assis e a Teologia da Libertação

Gostaria também de responder a uma colocação feita para mim numa assessoria que estava prestando, uma abordagem feita na pausa, com pergunta pertinente e capiciosa ao mesmo tempo: “Vocês, frades são todos TL, mas não percebem que o fundador de vocês era menos radical, ele era romântico, vivia entre pássaros e flores, banhava-se nas cachoeiras, amansava lobo, poupava lesmas pelos caminhos”. Sim, meu fundador, Francisco de Assis, o santo do Irmão Sol e Irmã Lua, tem uma dimensão celebrativa da existência. E não há apenas romantismo nisto. Ele pode estar na beleza do natural porque afinou seu sensível olhar através do real.

Para Francisco de Assis existe vida celebrada, fé celebrada, realidade celebrada. Existe um texto que preciso retomar aqui: “Se é verdade, como disse um romancista em tempos sombrios de repressão nazista, de que pode haver situações em que falar de rosas parece constituir um crime, porque implica silenciar sobre tantos erros, é também verdade que para os cristãos, junto com o esforço de transformar a vida, há também um lugar para a celebração”. Realidades da fome, do empobrecimento, da exploração, dos atentados, das intervenções, da morte precoce de tanta gente, de tudo o que o mundo e o nosso país hoje enfrentam, não pode deixar ninguém indiferente. O jeito franciscano não é indiferente e se faz um grito profético. Viver, celebrar e falar é instaurar uma reflexão que impacta, que suscita debates, rejeições e críticas e também entusiasmos. No meio de tudo isto importa não perder a questão fundamental e manter a suficiente serenidade para ver as coisas se um modo bem claro, e não no embotamento das mídias.

Francisco de Assis não ficou apenas à mercê de análises sócio-teológicas, um ponto de vista vindo de fora. Ele se envolve lá onde está o povo com jeito penitente e pedindo mudanças. Ele não é apenas um homem que fez um caminho de santidade e ficou na lembrança das ladainhas. Ele torna-se um fato, um acontecimento. Foi para dentro da eclesiologia de então e saiu dos limites da Igreja para se tornar um fenômeno público da cristandade medieval e moderna.

6. No Presépio de Francisco cabem tudo e todos, sim!

Em Greccio, quando em 1221, fez o primeiro Presépio, colocou ali um Deus descido da Cruz de São Damião e misturado na paisagem dos simples. No Presépio de Francisco cabem tudo e todos, sim! Camponeses e pobres, sofridos e os considerados heréticos, os esquecidos nas montanhas da Úmbria e os que sabiam o que era a fome, o frio no forte inverno. Os que não tinham a palavra no presbitério, mas que podiam, em meio a um bosque, proclamar a Palavra Encarnada. A missão da Encarnação reencanta a dimensão religiosa, mostra uma salvação integral, espírito e corpo.

No Presépio, Francisco fez os povos crucificados celebrarem sem a cruz do sofrimento, mas na alegria de sonhos e esperança. É a ortopraxia leve e feliz numa paisagem de encontro de mundos. Ainda bem que os que crucificam o povo, não estavam ali em Greccio, e nem foram reclamar com o Cardeal sobre o escândalo do Presépio e de Missa, dizendo que ali não é lugar para mostrar os desníveis do mundo. A ortodoxia não sabe ver a beleza real da paisagem porque tem olhar afunilado para o exclusivamente religioso, e muitas vezes, na prisão dos conceitos, não sabe ver a fala real das coisas.

O franciscanismo abraça o Evangelho da Libertação inspirado no jeito que seu fundador, Francisco de Assis, que mesmo sem ter a pretensão de ser um teólogo, está entre os grandes teólogos da história do cristianismo; porque procurou entender o Evangelho a partir da realidade em que estava, sempre na direção da justiça e da fraternidade. A teologia de Francisco de Assis é o falar com Deus e falar sobre Deus; um Deus que se apresenta de um modo divino e humano encarnado em Jesus Cristo, o Deus Humilde e Pobre; é o Deus Altíssimo, o Grande e Forte, o Sumo Bem, o Senhor da Criação e das Criaturas, e de imensa ternura e misericórdia para com o seu povo.

Francisco de Assis volta o seu olhar para o alto e encontra-se com este Deus maravilhoso. Volta o seu olhar para o lado e encontra irmãos e irmãs. Volta este olhar para a linha que dividia a sociedade de seu tempo entre nobres, burgueses, plebeus e pobres, e encontra ofendidos e humilhados, os expulsos para fora dos muros das cidades. A sua fé o coloca no caminho e em meio aos ofendidos da história. É uma fé de compromisso cristão a partir do cuidado e da reconstrução da casa do coração, dos valores, do mundo e da Igreja. Uma fé que sai das nuvens para a terra e o faz andar com os pés bem fincados na conjuntura de sua época.

7. Evangelho da Libertação mostra a fusão entre práxis e fé

Francisco de Assis transformou a história com os meios do Evangelho da Libertação na direção de uma maior participação e imersão na vontade de Deus para uma maior humanização. Ao vivenciar bem Assis reconstrói o todo de um processo histórico; junto com ele há companheiros, há partilha, há despojamento, há luta, há forte vivência que não abandona o eclesial e o social. Por detrás desta sua experiência há um sonho de fraternidade e não sumas teológicas medievais. Ele retoma, a partir de um momento de iluminação e animação, em frente ao Crucifixo de São Damião, as práticas da Igreja primitiva. Para a fé ser verdadeira é preciso ter tudo em comum. Havia uma acumulação escandalosa em poucas mãos: na nobreza, nos mercadores, nos reis e imperadores, nos papas e bispos, e em muitos mosteiros de então. Francisco vai pedir esmolas, repartir a esmola, fazer tudo passar pela prática solidária, de dar comida aos leprosos, abrigo e abraço, trabalhar com as próprias mãos junto aos camponeses

Com gestos pequenos e grandes faz um caminho de conversão pessoal e de conversão das estruturas. Sua oração e pregação são um convite ao louvor e a ação. Suas cartas e escritos instauram consciências, seu modo de ser transforma. É uma forma de ser cristão segundo a sempre nova forma do Evangelho da Libertação; é um novo rosto da fé e fraternidade encarnada em muitos seguidores e seguidoras que vão chegando aos poucos. Ele não rompe com o modo de ser religioso de então, mas procura um novo modo. Se no Evangelho da Libertação Jesus caminha pelas estradas da Palestina, ao refazer o caminho do Mestre, Francisco faz um enraizamento em tantos lugares dos caminhos de Assis, da Úmbria, da Itália, do oriente. Se está na estrada percebe o que está na estrada e nas cidades. Sua pregação parte do Evangelho e da violência feita contra os humildes e chagados de seu tempo. Criou suas Fraternidades com sentido de partilha e prática participativa. Soube viver nas cidades, nos campos e nas margens. A margem é o lugar onde a vida é mais exigida, mais sofrida; onde já no século XIII, o sistema econômico, social e político colocava à mostra toda a sua capacidade de ambição, de avareza, ostentação, dominação, iniquidade e guerras, deteriorando assim todas as formas de vida. A margem sempre lançou um desafio ao centro. Dos campos periféricos do vale de Espoleto havia milhares que batiam às portas e pediam apenas uma coisa: ser reconhecido como pessoas! Francisco descobre em todos o Cristo Irmão, e o Irmão e Irmã cristificados.

A vida de Francisco de Assis é uma releitura bíblica. Coloca a Palavra nas mãos dos simples que a ouvem, leem e meditam nas bases fraternas. Onde o povo vê a Palavra vivida e convivida vem e se une. O franciscanismo vai escrevendo sua história das páginas do Evangelho às páginas da vida. Todos tomam a Palavra e se tornem Palavra. O Evangelho e sua hermenêutica já não era mais monopólio de peritos. Já não existe mais vida de um lado e fé do outro lado. O Evangelho da Libertação mostra a fusão entre práxis e fé.

8.  A dimensão maior da pobreza é ter em comum

Em oito séculos, o franciscanismo vai vivenciado as experiência de onde surgiu: a forte experiência religiosa espiritual e a inserção em meio ao povo. As suas fontes formativas revelam a reflexão de uma prática. A espiritualidade e a teologia franciscana vieram depois de anos de caminhada nesta experiência. Frades esmoleres saíram mendigando para ajudar os que necessitavam. Ao estar entre pobres para dividir o que recebiam percebem que há uma miséria que afeta, aflige e crucifica os pobres. A esmola se transforma em denúncia e a pregação encontra o seu lugar: como viver o Evangelho entre os empobrecidos. Os frades primitivos começam a sentir que a experiência espiritual não é apenas o encontro com Deus através de um pobre que pede esmolas, mas o encontro com Deus se dá em compreender e procurar resolver a situação dos humilhados e ofendidos de seu tempo. Há uma indignação ética que leva o espírito a gritar: “Não é possível que isto esteja acontecendo, leprosos e miseráveis sendo expulsos para fora das muralhas das cidades!”.

Então, saíram pelas ruas de Assis, Perúgia, Espoleto, e tantos lugares, e nas praças e nos becos encontrar ali o espaço sagrado e poder dizer: “O Reino de Deus está no meio de vocês!”. Francisco de Assis e seus primeiros companheiros eram convertidos; convertidos de mudança de projetos pessoais e familiares, mudança de lugar social e dos sonhos da nobreza cavaleiresca e da corte, das conquistas de status e das terras. Vestidos de trapos eram homens novos. Morando em cabanas e grutas estavam dentro da história. O Evangelho da Libertação que entrou em suas vidas atinge todo o espaço da vida e não apenas o espaço da catedral, da sacristia e dos mosteiros. Eles amavam a Igreja que moldou neles páginas belas do cristianismo católico, mas não podiam deixar de evangelizar também estruturas eclesiológicas que estavam distantes do Evangelho. Assumem um lugar definido: do Evangelho para o pobre, do pobre para a libertação integral do humano e a opção pela Fraternidade como lugar da vivência desta escolha.

O decisivo desta opção é que implicou num modo diferente de vida: humilde, simples, desapegada, fraterna. Não se podia viver mais de uma postura que vinha dos resquícios feudais da opulência e autoritarismo, alguém mandando de cima para o debaixo obedecer; muda-se o lugar: um irmão de baixo vem para o lugar da única vontade: a vontade de Deus que valoriza cada pessoa e seu potencial transformador. A fraternidade acolhe a pessoa e a pessoa acolhe o modo da pobreza. A dimensão maior da pobreza é ter em comum; para ter em comum é preciso sair do egoísmo, do comodismo, da acumulação e da intransigência. A pobreza os tornou livres para dar passos sempre para frente, sem voltar para trás. Libertação é entrar no processo de desfazer os nós que prendem e sufocam a realização humana. A Pobreza Franciscana não é uma metáfora, mas um processo histórico de libertação e superação; sair do eu sozinho para um fraterno modo de inserção em meio ao povo. Fraternidade é construir lugar para mais humanidade. Ajudar irmãos e irmãs a serem pessoas fortes que participem de um forte destino coletivo: concretizar o sonho de Jesus, o Reino de Deus.

9. Libertação é dar um passo concreto à necessidade do outro

A violação dos direitos das minorias não é casual, é permanente. Além de serem zeros econômicos e não serem contemplados em planejamentos oficiais, sofrem a violação da dignidade através das ridentes formas de estereótipos. Recebi um post muito pertinente que diz assim: “No dia 19 de Abril, por favor não cantem a música da Xuxa, não pintem seus alunos e nem façam cocar de papel. Não reforcem os estereótipos! Convidem um indígena para falar ou leve as crianças em uma aldeia. Nos ajude a desconstruir estereótipos, nos deixem falar!” É verdade! Chega de representar! É preciso sair do egoísmo, do comodismo, da alienação e ir conhecer a realidade. Estereótipo é falta de cultura e ausência completa de postura crítica. Adianta criticar mendigo vagabundo se não conhece os motivos dos moradores de rua?

Francisco de Assis largou o conforto da privilegiada classe dos novos ricos de Assis e foi viver entre os mendigos da cidade. Ele não apenas os viu, ele se inseriu. Libertação é dar um passo concreto à necessidade do outro e não ficar em análises vazias. Já vi gente vociferar contra Bolsa Família, mas não sabe onde está o mapa da fome deste país. Libertação não é ideologia, mas é conhecer mais para denunciar melhor a opressão e urgir um processo de quebrar aquilo que prende irmãos e irmãs na miséria. Já vi muita gente criticando a sopa dos pobres sentado à mesa do McDonald’s empanturrando-se de três hambúrgueres com chedar. Libertação não é metáfora, mas processo histórico para superar uma história. Francisco de Assis fez a libertação da acomodação para uma participação junto aos necessitados de seu tempo. Fraternidade para ele é sair do eu-sozinho para a solução de muitos entre muitos.

Francisco de Assis é santo porque lutou para produzir mais humanidade. É o santo do espaço no qual os simples se reúnem e a partir da Palavra ajuízam a vida. Partilha fraterna, ajuda mútua faz a Palavra ser prece e prática. Ele é um convertido que não levantou paredes de uma capela na solidão de seu projeto, mas pediu que muitos trouxessem tijolos como uma bênção. Não pediu dinheiro, pediu bênção em forma de tijolo, mãos calejadas e a força de muitos.

10. Francisco de Assis ama este Deus que nasceu num estábulo entre animais

Ao apaixonar-se pelo Cristo do Presépio, do Altar e da Cruz, Francisco de Assis muda radicalmente a sua vida por perceber e viver uma fé dentro de uma realidade de libertação histórica na qual o próprio Deus se fez pobre. A fé para ele não é um sistema de crenças, mas tem que ser repensada como uma força libertadora de transformação.

A fé também não é lugar para a resignação dos vencidos da história, nem refúgio de derrotados e nem diminuição dos que creem. Mas a fé libertadora e transformadora é refazer a experiência de um Deus Encarnado em meio ao povo. Francisco de Assis ama este Deus que nasceu num estábulo entre animais, que não morreu entre lençóis de cetim, mas numa cruz, não tendo compromisso com a morte, mas com o Amor que dá vida em plenitude. Morreu porque pregou o Evangelho da Libertação, morreu por causa de sua mensagem e de sua prática. Não é o Deus das mitologias e nem das sumas teológicas, nem dos pregadores e dos cultos solenes; mas um Deus que se fez profundamente humano para fazer do humano importante demais.

Um Deus unicamente Amor que nos ensina amor. Francisco bradava: “É preciso amar muito o Amor daquele que muito nos amou” (2Cel 196). Santa Tereza dizia: “Na tarde da vida, seremos julgados não pela ortodoxia, mas pelo Amor!”.

Francisco de Assis traz novo alento para o conceito de Deus. Este Deus entra na história humana no ventre de uma mulher, numa aldeia escondida, num lar humilde, uma história humana e divina contada a partir de um presépio. Recolocou o Evangelho no coração de seus frades e nas mãos do povo, rezou o credo num cântico em harmonia com as criaturas. Ama a Eucaristia como a bela graça da vida pulsando forte em ações comunitárias. Francisco gerou fraternidades de compaixão, fé e compromisso, desafiadas pelo Evangelho da Libertação.

E falando da dimensão política do franciscanismo, vamos lembrar o verdadeiro significado da palavra grega politikein, politikós. Para o mundo grego, o significado desta palavra é: arranjo existencial para o bem comum. Não estamos afeiçoados a este significado, porque na história passada e sobretudo atual de nosso país, nunca tivemos esta verdade como prática. Vou partir de um texto que, nos anos 1986 a 1987, quando morei na cidade de Guaratinguetá, foi distribuído na Paróquia Nossa Senhora da Glória, no Bairro do Pedregulho; nesta época a paróquia estava sob os cuidados dos franciscanos. Eram anos de elaboração da nova constituição e houve uma certa participação popular. Eram anos de processo eleitoral, como este ano que estamos vivendo.

11. SÃO BERNARDINO DE SENA

O texto que vamos abordar nos próximos posts fala do santo franciscano São Bernardino de Sena. Quem foi São Bernardino de Sena? Ele nasceu em Massa Marítima no ano de 1380. Muito cedo ficou órfão de pai e mãe e foi criado por duas tias. Estas tias foram muito importantes em sua vida porque souberam transmitir a Bernardino um cristianismo bem genuíno, sem nenhuma beatice e com lucidez crítica. Ele se tornou um jovem muito sadio, amante da liberdade, exigente e responsável. Frequentou com muito proveito a famosa Faculdade da República de Sena, uma das mais importantes de seu tempo. Aos 22 anos conhece a vida de São Francisco de Assis e fica fascinado pelo Poverello de Assis. Entrou de um modo livre e bem decidido para a Ordem dos Frades Menores.

Viveu num Eremitério Franciscano e dali saiu para a pregação itinerante. Sonhava renovar a sociedade de então. Tinha uma boa cultura teológica, vasta e segura, um dom extraordinário de eloquência, que fez dele um grande evangelizador popular. Saiu pela Itália pregando a devoção ao Santíssimo Nome de Jesus, e junto com esta pregação sempre um alerta a uma sociedade que ele considerava muito pagã. Muito interessante a sua pregação dirigida ao povo e aos governantes sobre temas sociais e políticos. A sua vida de pregador itinerante iniciou em 1418 e por 26 anos ele percorreu a Itália até o dia de sua morte, em 20 de maio de 1444. Foi canonizado seis anos após a sua morte.

Vamos apresentar aqui um resumo de um sermão que ele dirigiu aos políticos e ao povo da República de Sena. Trata-se do Sermão nº XVII, onde ele mostra “como deve administrar a justiça quem recebe um cargo público”. Na República de Sena havia eleições livres e o povo tinha o direito de conhecer seus políticos, para julgar a sua idoneidade e eliminar os incapazes e os indignos. Um sermão do século XIV, mas muito necessário para os dias de hoje. Com a apresentação deste texto, quero responder também aos que dizem: “Vocês frades TL, são muito metidos na política!”. Não somos metidos em política, até porque em nosso país ela não existe com o seu verdadeiro sentido de ser um arranjo existencial para o bem comum. O que existe aqui em nosso país, não é política, mas um atentado moral. Porém somos metidos em criar uma consciência política, e para isto, peço a bênção de meu confrade São Bernardino de Sena, um frade metido em política. No início de cada parágrafos seguintes colocarei um tema a ser pensado a partir de suas palavras.

12. Resumo de um sermão que ele dirigiu aos políticos e ao povo da República de Sena. Trata-se do Sermão nº XVII, onde ele mostra “como deve administrar a justiça quem recebe um cargo público.

AMAR A JUSTIÇA – O político deve amar a justiça e seguir a reta consciência. Nunca deve apoiar-se nas leis, que podem ser injustas e que precisam ser mudadas. “Muitos juram observar os estatutos do próprio cargo. Você jurou e o que jurou é danoso ao povo? Seu juramento não vale. “In malis promissis rescindi fidem”. Promessas mal feitas e má fé são causas de rescendências. Se você prometeu cumprir algo que a consciência julga injusto, rompa com o juramento e não faça coisas contrárias à sua consciência. E tenha confiança no Senhor”. O que se deve dizer de certas leis que só provocam injustiças e oprimem inocentes? “Há pessoas – continua Bernardino – que não precisam nem de leis nem de estatutos, porque levam escrita na mente a lei do Evangelho, a lei de Deus e só sabem praticar a justiça. Estes são os que realmente amam a justiça” e merecem ser eleitos. A administração pública, de fato exige amor à verdade e à misericórdia, porque no encontro das duas se gera a paz. O pregador franciscano sabe como é difícil atuar a justiça nos meios públicos, mas o bom administrador nunca deve desanimar diante da corrupção que se alastra. Seu esforço e sua perseverança serão recompensados e ele ouvirá as palavras evangélicas: “Venham benditos de meu Pai, recebam o Reino dos céus…porque vocês amaram a justiça, mesmo quando não puderam atuá-la como queriam e foram odiados pelo mundo e amados, porém, por mim…”

ATUAR COM JUSTIÇA SOCIAL – São Bernardino de Sena foi um grande reformador social, que colocou em relevo os princípios fundamentais da economia, já conhecidos pela Escolástica: as riquezas tem caráter instrumental e não final, social e não egoístico; consequentemente é necessário ter moderação e honestidade na aquisição e no uso dons bens. Neste ponto a responsabilidade dos governantes, dos juízes e dos políticos é muito grande.

Sob o impulso da pregação bernardiniana, muitas Repúblicas Italianas daquele tempo introduziram reformas políticas e sociais na sua legislação, inspirando-se nos princípios do Evangelho. A preocupação de São Bernardino era formar a consciência dos homens públicos e dos eleitores. Ele sempre falava bem claro a todos: “Eu sei muito bem que aquilo que você possui não é seu; foi Deus que deu tudo a todos para ir ao encontro das necessidades de toda humana criatura. Não é portanto da pessoa, mas para as necessidades de todos. Se você tem muito, não precisa, não distribui e morre, você vai direto à casa quente”

OS MAUS ADMINISTRADORES – O povo deve conhecer os maus administradores para negar seu voto aos indignos. Quando nos governantes existem vícios “a coisa vai mal. Imagine você como pode andar a justiça! Sem dívida neste caso a justiça está morta. Então precisaria fazer o seguinte, e dirigindo-se aos coveiros, exclama: Ó coveiros, quando vocês tomam conhecimento que um homem público tem estes vícios, podem corajosamente comunicar a todos: A justiça está morta”. E repete doze vezes que os homens viciosos no poder são funestos e matam a República.

OS AMBICIOSOS – O ambicioso para subir usa todos os meios e não podendo aproveitar dos poderosos, espolia o pobre. “O ambicioso é aquele que procura dar a culpa sempre a quem tem razão, a quem não tem poder para se defender porque é pobre. Os ambiciosos são homens iníquos que estrangulam a justiça. E as por que eles agem assim? Para se tornarem sempre mais poderoso em detrimento dos que nada podem contra eles”.

O ADULADOR – O que fazer com este tipo de político? Ele nada vale. “Não lhe prestem atenção. Vocês tem o direito de saber toda a verdade, de ver e tocar com suas mãos” (Naquele tempo o povo tinha o direito de fiscalizar os homens públicos e os aduladores eram facilmente desmascarados).

OS AGIOTAS – Os que praticam este vil comércio nunca devem ser eleitos. “Eles se assemelham aos gatos. O gato fica esperando perto de um buraco onde ele sabe que vai sair o rato. E ali fica à espreita o dia inteiro e, apenas o ratinho passa, ele o agarra e o devora. Assim é o avarento que quer ser eleito. Ele vai de casa em casa, mostrando-se amigo e arrancando votos”, mas depois de eleito, continua o seu o trabalho de sempre: roubar e devorar o povo.

A TIRANIA – São Bernardino de Sena marca sarcasticamente alguns vícios que os eleitores devem reparar em certos candidatos, para não se deixar enganar com falsas promessas: “O primeiro é a tirania. Quem tem este vício apresenta-se sempre como um benfeitor, mas na realidade é um estripador e um tirano. Existem, infelizmente, os tira-anos, os tira-meses, os tira-semanas, os tira-dias, os tira-manhãs, os tira-tardes, os tira-noites e até os tira-horas. Sabe quem é o tira-ano? É aquele que tira uma vez por ano. O tira-meses é pior, porque tira todo mês. Pior ainda é o tira-semana, porque tira toda semana. E o tira-dias é ainda pior, porque furta tirando cada dia. E o tira-manhã é pior, porque toda manhã vai ao palácio do governo e sempre tira. Assim também o tira-noites. E o que diremos do tira-horas? Podemos dizer que ele sempre tira, furta e estripa qualquer um que esteja ao seu alcance. E tais políticos querem ser chamados governadores do povo? A eles bem convém um só nome: ladrões!”

A INCOMPETÊNCIA – Outro veneno que deve ser evitado na escolha dos homens públicos é a ignorância e a incompetência. São Bernardino para mostrar ao povo o quanto eles são desprezíveis, usa um exemplo que pode parecer indigno de um sermão sagrado: “Vocês devem ter reparado como age o camponês que quer defender o seu campo depois da semeadura. Para afugentar os pássaros ele pega um saco, e enche de palha, coloca em cima uma abóbora como cabeça, arma os braços com um pau e bota na mão do espantalho uma vara como se pudesse bater nos pássaros… Mas os pássaros não são bobos. No primeiro dia eles olham de longe. No segundo dia aproximam-se devagar e notam que o espantalho está sempre parado. Já no terceiro dia entram no campo e começam a comer a semente., mas ficam de olho… Se o vento move um pouco o espantalho eles fogem logo, para reaproximar-se lentamente, perdendo sempre mais o medo. Às vezes um deles, mais corajoso, se aproxima e fica esvoaçando ao redor do espantalho; observando que não tem vida, pousa em cima da vara; vendo que nada acontece, perde completamente qualquer medo, para em cima do espantalho e mija na cabeça dele”.

A esta altura imaginem as risadas sonoras dos ouvintes! E São Bernardino, dirigindo-se a essas nulidades que pretendem governar o povo, concluía: “Sabe o que lhes digo? Vocês são as excelências zeros. Podem ser temidas por um certo tempo, mas nunca serão respeitadas, aliás chegará o dia em que o povo zombará de vocês e mijará sobre suas cabeças”.

Bem, este Sermão é do século XIV, e vale a pergunta: até que ponto suas palavras são atuais entre nós? Julgue a sua consciência.

15. Os penitentes de Assis viveram a fé teologal a partir da realidade pessoal

Se podemos viver um compromisso de fé, ela naturalmente se torna também um compromisso político no verdadeiro sentido da palavra: acreditar no bem comum. Uma vida de fraternidade bem organizada é politizada, pois não conta apenas uma ação individual, mas coletiva. Projeto pessoal e projeto comunitário não se separam. O grupo primitivo de Francisco de Assis deixa seus projetos pessoais familiares e classistas e abraçam um modo de vida comum, que não é ingênuo ou idealista, mas é a força do Evangelho vivido.

A Fraternidade primitiva de Francisco contou apenas com o que o Senhor revelou; e foram conduzidos aos flagelados de então. Eles desatam a Palavra de Deus dos púlpitos e a levam para as praças. São pessoas simples que refazem a presença dos profetas veterotestamentários; são pregadores ambulantes resgatando a prática jesuânica; vivem com a força dos grupos como a tradição apostólica dos Atos. Não há contradição entre prática e pregação como havia na eclesiologia de seu tempo. Todos têm vez no novo modo de viver fraterno. As mulheres são integradas na mesma força pela segura presença de Clara de Assis. Têm poucas dificuldades com a instituição eclesial, porque vivem a paixão por Jesus, pelo Evangelho e pelo povo. Aqueles mendicantes reacendem sonhos humanitários e esperançosos de amanhã para as pessoas. Neles, a fé no Cristo pobre no pobre criou uma identidade.

Eles possuem uma identidade cristã que não vem definida pela hierarquia, mas sim para onde conduz o Espírito do Senhor e o seu modo de operar. Não têm planejamento pastoral, mas têm missão. O Evangelho, mais do que força exegética que gerou inúmeros comentários teologais, é para eles uma referência de vida. Quando perguntavam quem eram, respondiam ser penitentes de Assis.

Estes penitentes viveram um caminho de fé teologal a partir da realidade pessoal. Deixaram tudo como os primeiros seguidores de Jesus, e foram viver uma presença divina inserida no projeto histórico de Deus. Um Deus que está no comunitário grupal, social e cósmico. Não há lugar onde Ele não esteja. Abraçam presépio, altar e cruz como privilegiados da instalação e conquista do Reino de Deus. Estes penitentes mostraram o Deus da convivência e da coexistência trinitária, um Deus uno, vivo e Três Pessoas, totalmente apaixonado pela vida.

O Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, humilde e pobre no presépio, encarnado na situação humana e desumana. O Deus da Eucaristia, presença total, completa e alimentadora da história. O Deus Espírito de Amor que mostrou para eles afeto na dureza da vida, sonhos e mais sonhos para fazer valer a utopia do Evangelho.

16. A encarnação não é uma simples devoção ao presépio

Viram este Deus no dinamismo da criação, viram este Deus nos que estavam pisoteados e expulsos para fora das muralhas da cidade, viram este Deus chegando naqueles que mostraram que o Reino de Deus era viver em obediência, sem nada de próprio e na pureza de coração. Estes penitentes não tinham nada de acúmulo para si; renunciaram a ordem elitista de seu tempo para viverem a Ordem dos Menores. Por serem itinerantes conseguiram ver Deus fora dos espaços do templo e perceberam os sinais de Deus nas pessoas, na natureza, nas cidades, onde estava a palpável história do dia a dia medieval. O fato é que a experiência de Deus os envolveu não só a partir da dimensão mística, mas também no afeto, no coração, na situação dos pobres, no mundo dos movimentos penitenciais, na eclesiologia de então, com um espírito de comunhão com tudo e com todos. Saíram do poder de reis e rainhas e abraçaram o Reino. O Evangelho os fez éticos e encarnados na vida de modo total. Abraçar Jesus Cristo é historizá-lo. Sem dúvida fizeram muita Adoração ao Santíssimo, mas passearam pelas vilas, praças, campos e cidades mostrando que a natureza divina se uniu a natureza humana para transformar.

A mística primitiva franciscana abraça a encarnação porque a encarnação é a identificação de Deus com a existência humana e isto construiu uma história. A encarnação não é uma simples devoção ao presépio, mas é visualizar e fazer uma imersão na paisagem humana redimida por Deus que enviou o Messias Peregrino a suscitar sonhos e esperanças e foi curando as dores do mundo. Como este Deus entrou na vida das vilas e foi curar o cego, o coxo, o paralítico, o leproso, os endemoniados, pecadores e esteve sempre ao lado dos pobres. Não abraçou títulos e nem aparências. Fez sua prática no serviço, no perdão, no cuidado pela vida, na imensa sensibilidade para com os mais fracos, teve mulheres entre seus discípulos e apóstolos, deu atenção para crianças, pescadores, pastores e agricultores, de cuja vida aprendeu e recontou em parábolas. Foi uma pregação que arrastou multidões mas incomodou os poderes do tempo. A tal ponto que o Senado de então o condenou por isto. Olhem os textos do julgamento de Jesus, são os maiores e mais detalhados textos do Evangelho. Toda condenação de quem faz o bem é muito explorada. Sua morte foi uma morte política. Pois os poderosos da época não suportaram a sua prática de libertação. Os frades primitivos refizeram este caminho, porque o Evangelho ou tem o mesmo efeito da atuação de Jesus ou não vai servir para mudar o mundo.

17. A gratuidade veio do abandono total à providência divina

O franciscanismo alimenta a sua vida a partir do Evangelho. Quando deixou de alimentar-se a partir o Evangelho conheceu momentos sombrios na história e deu mais peso a instituição do que a inspiração original. A instituição conhece alguns escândalos, a intuição conhece o discernimento. Os frades primitivos fizeram um discernimento espiritual e um caminho espiritual, e a partir daí o compromisso social. Realimentaram a sua escolha e a sua fé no encontro com as pessoas no caminho da realidade da Úmbria e a partir daí ganharam o mundo com força de missão. Mantiveram uma comunhão com a eclesiologia do seu tempo, mas aprofundaram sua fé a partir da comunhão íntima com a Boa Nova. E reencantaram a Boa Nova no espaço eclesial de então. Eram coerentes com a Palavra que tomaram nas mãos, preencheram o coração, transformaram em prática.

Celebraram a fé nas estradas, nos êremos e nas praças. Não era apenas a fé das cabeças pensantes da escolástica e dos debates teológicos da época, mas a fé que estava no coração: sentir em profundidade a presença de Deus. Levaram a certeza de todos serem Irmãos e Irmãs de um modo novo de viver e conviver como homens e mulheres novos. Não entraram muito na luta pelo poder, na sedução hierárquica e no espólio das Cruzadas. Viveram um cristianismo que deu mais espaço para a mística, para a gratuidade e para a ternura. Nas estradas da Itália e daí para o mundo traçaram um modo de viver o amor e a justiça mostrando ser este o melhor caminho para o seguimento de Jesus. A conversão foi o ponto de partida de todo este caminho espiritual e socialmente fraterno. Uma conversão que comportava uma ruptura com a vida elevada até então e empreender uma nova meta. Uma conversão que levasse Jesus Cristo junto com as decisões da vida, e procurar tirar qualquer empecilho que embaraçasse a relação com Deus. Renunciaram tudo o que prendia na mente e nos cofres.

Conheceram bem a realidade porque estavam nela como peregrinos e atentos observadores. Inseridos dentro de um processo histórico do século XIII tornaram-se realistas e eficazes em suas ações. Não estavam no dever de praticar a esmola, mas sim de ver e estar dentro da necessidade de alguém. Não trabalharam em função do outro porque isso trazia momentos de forte energia ou era uma solução para a ociosidade, mas sim trabalharam porque havia necessidades urgentes a serem atendidas. Fizeram tudo de um modo gratuito e extremamente desapegado. A gratuidade veio do abandono total à providência divina.

18. O Evangelho da Libertação é esperança e alegria para todos!

Viveram com esperança e alegria, mesmo diante da dura pobreza. Há algo novo que surge em meio ao sofrimento: ser livre! A liberdade de doar-se, a liberdade de viver junto, a liberdade de amar, tudo isto venceu as estruturas de morte. A liberdade trouxe a alegria, a alegria que brotou de uma certeza: qualquer sofrimento pode ser superado! Sofrer pela causa da vida traz alegria em meio a dor. A morte não é a última palavra e decisão de uma história. Francisco de Assis acolhe a Irmã Morte com serena alegria, porque sabe que lutou muito para que tantos tivessem a vida prolongada. A esperança e a alegria sempre foram a certeza da presença palpável da força de Deus que os conduzia. O Evangelho da Libertação é esperança e alegria para todos!

Por serem pobres entre os pobres conheceram a pobreza espiritual e a repulsa à pobreza criada pela injustiça. Desprenderam-se dons bens deste mundo para terem um testemunho de credibilidade. A força pessoal da escolha pela renúncia de bens e de privilégios deu força comunitária, uma fome de comunhão e participação. Não usaram a ascese exagerada de alguns penitentes que reprimiam o afeto, o princípio do prazer e da potencialização do eros. A partir da Fraternidade amaram-se como irmãos e irmãs. Assumir o outro e a outra na vida do dia a dia é sublimar o amor nos detalhes da convivência. Não eram de movimentos que funcionam apenas nos finais de semana. Hoje está cheio de movimentos que funcionam apenas uma vez por semana e não assumem o dia a dia. No dia a dia não reprimiram nada, apenas lutaram com forças negativas que oprimem por dentro e por fora. Curtiram a força do amor comum, um relacionamento novo que os levou cheios de amor para a sociedade e especialmente em direção aos pobres.

19. Ninguém chega à Terra Prometida caminhando sozinho

Há um compromisso entre santidade e política. Isto pode aparecer estranho e desconcertante à cabeça dos que querem blindar qualquer experiência de fé voltada para a política, e que pensam que são duas realidades que ordinariamente se creem separadas de fato e de direito. Está certo que são realidades que tem muitos significados e compreensões ambíguas; mas para o franciscanismo elas ganham um significado muito preciso. A santidade é uma realização extraordinária daquilo que se crê, daquilo que é o sonho e sobretudo do que é o amor. Política verdadeira é a prática para a uma transformação estrutural da sociedade baseada nos valores do Reino de Deus expressos no Evangelho. E isto não é exclusivo de uma elite protegida por movimentos, hierarquias e sagradas congregações. A santidade pertence a todos e a política com santidade leva a salvação a todas as camadas históricas sem nenhum preconceito ou ideologia.

O franciscanismo primitivo chegou a esta verdade através de uma ascese pessoal de contemplação e ação. Sustentaram as estruturas da vida com os valores do Evangelho: mudar a si mesmo, mudar as pessoas, mudar o mundo. Sabiam que isto não estava na ideologia dos interessados, mas na própria vontade de Deus. Não tem como descobrir a vontade de Deus sem levar em conta o momento histórico. Sabiam que não podiam haver santidade que não ame os mais privados de dignidade humana. Dizia o nosso Santo (que oficialmente será canonizado) Dom Oscar Romero: “É preciso defender aquele mínimo que é o máximo de Deus, o maior dom de Deus: a vida “(Oscar Romero, Sermão em 15/11/1980). Santidade e política supõem conversão para um modo diferente de ver o mundo na realidade, e misericórdia frente a todo sofrimento do povo. É levar a sério com muita responsabilidade a pergunta feita em Gn 4,10: “O que fizeste ao teu irmão?”.

O franciscanismo nos ensina que mais do que amar uma pessoa, é preciso amar uma comunidade, amar um grupo; não escolher apenas o indivíduo, mas a coletividade. Não basta o gosto pessoal, mas a busca da eficácia estrutural. Amor e santidade política é lutar por uma nova civilização humana por uma nova criação. Sem compromisso com isto a santidade é inútil. A amor feito santidade e política deu o sangue pela vida do povo. Pergunte se o político em quem você votou e a quem você defende com unhas e dentes daria o seu sangue por você e pelo seu povo. O amor cristão nos deu mártires que viveram e morreram com a força de Deus. Dizia o nosso Santo futuramente canonizado, Dom Oscar Romero: “Eu creio, irmãos, que os santos foram pessoas muito ambiciosas. E isto eu ambiciono também para todos e para mim: que sejamos grandes, ambiciosamente grandes, para que sejamos imagens de Deus e não possamos contentar-nos de grandezas medíocres”.

O franciscanismo não usou as dores dos pobres para a promoção pessoal. Mas encarnou a pobreza para ser igual à pobreza de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não gerou apenas indivíduos santos, mas uma fraternidade de pobres que são santos. É a prática do Reino e do Evangelho que cria os consagrados, ordenados e professos e não os rituais de ordenação, de profissão simples ou solene. O franciscanismo ensina que o encontro com o Senhor vai do pessoal ao comum e o ponto de partida é o Evangelho da Libertação. É caminho à procura de Deus e da pessoa que sofre. Não é um culto à personalidade pessoal, mas levar um povo inteiro junto com a realização das obras. Ninguém chega à Terra Prometida caminhando sozinho.

20. Defender o que é justo não é ser inimigo

Estou concluindo esta série de reflexões sobre a Dimensão Política do Franciscanismo. Ela tem um endereço certo: ajudar os grupos de vivência franciscana a pensar, com fundamentos de nossa espiritualidade e práxis, algumas saídas para algumas crises da nossa contemporaneidade. Eu não sei qual é a saída, mas acredito em alguns aspectos: a saída para algumas crises está na força espiritual. A agenda dos encontros teológicos-espirituais, os capítulos locais, os encontros de Fraternidade não podem deixar de enfrentar a crise sistêmica que estamos vivendo. A fé, sobretudo a partir da vertente cristã e franciscana, tem uma dimensão escatológica, isto é, um hoje preparando um futuro de esperança. Tem que ser “Assim na terra como no Céu”. Como prepara-se para um futuro sem entender onde está o hoje da pertença?

É o que quis propor nestas reflexões. Temos que compreender a realidade em que vivemos, situando-se no interior desta realidade com seu intrincado emaranhado de questões e situações. Temos que fazer valer o que pedimos através da Oração atribuída a São Francisco: “Onde houver ódio, que eu leve o Amor!”. Sem ódio, queremos a justa medida de todas as coisas. Temos que ver o que está acontecendo no presente para preparar o nosso futuro. Defender o que é justo não é ser inimigo.

Escrevi esta série de reflexões porque vi muito ódio em comentários infelizes de algumas pessoas da Família Franciscana e grupos afins contra o Sinfrajupe (Serviço Franciscano de Justiça e Paz e Ecologia) e sua carta social, vi ódio contra a carta da Jufra e sua postura diante da situação do país, vi ódio contra o Frei Éderson de Queiroz, vi ódio contra Leonardo Boff, vi ódio contra a CNBBB, vi ódio contra a carta dos Ministros Provinciais, vi ódio contra o Papa Francisco porque ele escreveu uma carta a Gustavo Gutierrez por ocasião de seus 90 anos. E onde vi este ódio? Muitas vezes em alguns encontros fraternos e formativos da Família Franciscana que se reunindo como frades, OFS e Jufra em suas reuniões ordinárias; mas sobretudo li este ódio em infelizes comentários no Facebook e no WhatsApp, e em e-mails que recebi. Sei que nem todos precisam pensar igual, mas a questão não é pensar diferente, o problema maior é não pensar.

Hoje, mesmo dentro da ‘franciscanada’, muita gente apresenta o criminoso com ódio, mas não quer perguntar e nem quer pensar quem produziu o criminoso. Será que o criminoso é criminoso apenas por culpa individual? A imprensa criminaliza, e todos acreditamos na apresentação dos fatos que já vem pronta. A mídia não só corrompe, ela é a própria corrupção do Bem e da Paz. A violência da mídia nos despolitiza. Tenha medo do medo que ela instaura, mas não fique preso a este medo, porque ele paralisa. Não podemos deixar que a mídia nos faça voltar a um tempo de ódio e raiva no mundo.

A realidade do mundo está sendo refletida por movimentos que vêm debaixo, que vem das bases e que estão sufocados por fortes estruturas de consumo, mercado e produção. Cada vez que os movimentos que vêm debaixo têm uma conquista de uma migalha de solução, são destruídos por um golpe. Somos vítimas de golpes a cada três anos.

Todo ser humano nasce, sonha e luta para ter características iguais, privilégios iguais e uma mesma força ética; todos sonham o bom, o útil e o agradável. Por que isto não pode ser para todos, e o melhor está somente nas mãos de alguns? A história da humanidade não é uma história de igualdade, mas uma história de uma classe sobre a outra, e isto gerou um processo histórico que dita leis que vale somente para alguns; a lei da mais valia. Por que não queremos pensar sobre isto?

Qualquer vocabulário que venha da sociologia, da cidadania, da religião, da reflexão, tem que priorizar os seres humanos. Priorizar o ser humano para resgatar nele o melhor. Mas o que se está fazendo? Ajuda ou controle? A moda é vasculhar a vida do outro e da outra até o limite, mostrar todo o lado das fraquezas, até que a pessoa renuncie ao seu eu, até que se torne o eu dos outros.

Vamos ter a coragem de ouvir no plural! Precisamos ter a grandeza de ouvir no plural e não apenas no pensamento único. Vamos aprender a ter lucidez crítica, nem que isto tenha consequências. “Quem come o fruto do conhecimento e do espírito crítico sempre é expulso de algum paraíso”.

Ser franciscano e ser franciscana é ter a força fraterna; é ser aquele e aquela que tem em primeiro lugar as pessoas humanas em seus propósitos, e prioritariamente os descriminados. A força motriz na convivência fraterna franciscana é a fraternidade. Nosso lema não é o ódio, mas a justa medida das relações. Hoje, a visibilidade do ódio dos que conseguiram o seu lugar privilegiado é dizer: negros, índios, pobres, militantes dos direitos humanos, ambientalistas, fiquem lá no seu cantinho e não nos incomodem! Caso contrário, vamos fazer uma delação premiada! Vamos acusar vocês de alguma coisa, até porque a delação premiada é um conceito religioso que veio da Inquisição católica: se você acusar alguém será contrito e perdoado. E o pior, a delação premiada está dentro de nossas casas e de nossas Fraternidades!

Tenha coragem de mudar e de dizer que errou no seu modo de pensar, porque não leu e não se preparou para a verdade dos fatos. Muita gente não tem coragem de dizer que errou e por isso fica quieta; ou não tem a coragem de perceber que está errado e compactua com o erro dos outros para reforçar uma opinião que não tem.

Ontem, no século XIII, tínhamos São Francisco de Assis que foi dar um libertador abraço no leproso. Gosto demais da afirmação de Frei Rodrigo Peret, OFM, que a coisa mais linda deste abraço foi revelar quem estava mais doente: o que tinha a lepra ou o que tinha nojo do leproso? Francisco estava mais doente porque tinha nojo do leproso; porém, Francisco de Assis saiu da doença de ter nojo e mudou o mundo. Então, saia do nojo e do preconceito e medo que você tem e mude o mundo!

Hoje, no século XXI, temos o Francisco de Roma, que vem nos mostrar a humildade de reconhecer onde erramos e ensinar que temos que aprender com os nossos erros. Os dois Franciscos, mais do que nos ajudarem a lutar para melhorar o mundo, nos ensinam que temos que estar bem dentro e junto com o mundo e, a partir daí, transformar o mundo em Reino de Deus.