“Urge ir ao encontro da juventude onde ela está!”, diz D. Jaime

São Paulo (SP) - Um dos participantes do Sínodo, representando a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), é o franciscano Dom Jaime Spengler, Arcebispo de Porto Alegre. Em entrevista a este site , Dom Jaime fala sobre as expectativas ao participar de seu primeiro Sínodo e sobre a realidade juvenil no Brasil. Jaime Spengler nasceu em 6 de setembro de 1960 em Gaspar (SC). Ingressou na Ordem dos Frades Menores por esta Província  Franciscana da Imaculada Conceição em 20 de janeiro de 1982, quando foi admitido ao Noviciado de Rodeio (SC). Cursou Filosofia no Instituto Filosófico São Boaventura, de Campo Largo (PR), e Teologia no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ), concluindo-o no Instituto Teológico de Jerusalém em Israel. Foi ordenado sacerdote em 17 de novembro de 1990, na sua cidade natal. Acompanhe!

Entrevista a Érika Augusto

Site Franciscanos – Quais as suas expectativas para o Sínodo?

Dom Jaime Spengler – É a primeira vez que tenho oportunidade de participar de um evento eclesial dessa grandeza. O Papa Francisco afirma que ‘o caminho da sinodalidade é o caminho que Deus espera da Igreja do Terceiro Milênio’. Neste sentido, o Sínodo representa uma oportunidade privilegiada para participar da realização de um caminho feito em conjunto com todo o povo de Deus. Poder tomar parte nesse caminho com pessoas dos cinco continentes, provenientes de realidades culturais, sociais, políticas, econômicas e eclesiais as mais variadas, e juntos buscar construir indicações viáveis para a evangelização da juventude mundial é graça. Por outro lado, trata-se de um processo que exigirá de todos sensibilidade, perspicácia, sabedoria e discernimento. A expectativa maior é que o Sínodo possa oferecer indicações plausíveis para a transmissão da fé às novas gerações. Nisso consiste, hoje, o grande desafio da Igreja!

Site Franciscanos –  Como o senhor vê a realidade da juventude brasileira hoje?

Dom Jaime – A juventude brasileira possui muitas expressões. São muitas as facetas da juventude brasileira. Tendo presente o momento histórico que estamos vivendo, por um lado vejo uma parcela da juventude ansiosa de poder colaborar na transformação da realidade, em vista de dias melhores para o nosso povo; de outro lado, constatamos certa acomodação; não são poucos os que cultivam o indiferentismo ou mesmo conformismo diante do atual quatro sócio-politico-econômico. Há ainda aqueles que não veem o futuro com esperança; está sendo-lhes roubada a esperança. E nós não podemos permitir que a esperança seja roubada! Encontramos ainda, em muitas comunidades, jovens engajados, determinados, alegres, ousados. Talvez não sejam a maioria; mas são estes que nos incentivam a avançar com maior determinação e coragem.

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Site Franciscanos –  Na Arquidiocese de Porto Alegre, quais são os principais desafios no trabalho com a juventude?

Dom Jaime – O maior desafio é aquele, talvez, da Igreja do Brasil: tornar o Crucificado-Ressuscitado e seu Evangelho conhecido e amado. Além disso, encontrar meios para proporcionar aos jovens autênticas experiências de encontro com Jesus Cristo. Existem vários movimentos juvenis. No entanto, favorecer espaços e tempos para que os jovens se sintam atraídos por Cristo e seu Evangelho, e assim se disponham a realizar um caminho de discípulos e não simplesmente de adeptos, exige ousadia pastoral. Não é tarefa fácil deixar o rotineiro para ir ao encontro dos afastados, dos indiferentes e agnósticos! E, no entanto, eles talvez sejam a maioria dessa parcela especial da sociedade. Há sempre a tentação de se sentir satisfeito com aqueles que estão conosco. No entanto, Jesus convida a ir ao encontro dos feridos, ignorados, distantes. A ordem de Jesus aos apóstolos de ontem continua repercutindo na vida dos apóstolos de hoje: é necessário avançar para águas mais profundas!

Site Franciscanos –  No seu ponto de vista, concretamente, como a Igreja pode se aproximar da juventude hoje?

Dom Jaime – Onde podemos encontrar a maioria dos jovens? Certamente não é em nossas comunidades! Portanto, urge ir ao encontro da juventude lá onde ela se encontra. Espaço privilegiado para encontrá-la é certamente as escolas e universidades. E aqui vale o que diz o Instrumentum Laboris do Sínodo: “Devemos nos perguntar o quanto nossas escolas ajudam os jovens a considerar sua preparação escolar como uma responsabilidade perante os problemas do mundo, as necessidades dos mais pobres e o cuidado do meio ambiente”. Nossas escolas católicas possuem uma identidade? Qual a verdadeira razão da presença de expressões da Igreja no mundo da educação? Há por parte do poder público o necessário empenho em formar o jovem para a vida? Ou se deseja simplesmente adestrar o jovem para o mercado de trabalho? A Igreja precisa estar presente nas escolas!

Outro espaço privilegiado para encontrar a juventude são as ruas da cidade. A Igreja não pode ficar esperando que o jovem venha até o templo. Aqui é necessário criatividade e ousadia. Também o âmbito familiar é lugar privilegiado para encontrar a juventude. Por isso, seria conveniente criar espaços de trabalho pastoral conjunto entre a catequese, a pastoral familiar e a própria pastoral juvenil. A pastoral não acontece por ‘gavetas’! Essa possível integração ou aproximação, pode proporcionar estratégias novas de acompanhamento da juventude.

O jovem precisa ser acompanhado. Alias, é interessante perceber o quanto o Instrumentum Laboris do Sínodo trata do tema do acompanhamento. Construir estratégias de acompanhamento, saber fazer-se próximo, ir ao encontro da juventude, aprender a ouvir os jovens, descobrir uma linguagem capaz de tornar a mensagem do Evangelho compreensível aos jovens é algo que precisamos juntos, através do diálogo, da observação e da oração encontrar, projetar, realizar e avaliar. Não existe uma fórmula pronta para aproximar-se da juventude. Distintas situações requerem respostas adequadas. E respostas adequadas a situações distintas pressupõem perspicácia, sensibilidade, atenção, vigilância e discernimento.

Site Franciscanos – Como o senhor avalia a preparação do Sínodo? O fato dos jovens terem respondido tornou o Sínodo mais ‘participativo’?

Dom Jaime - O itinerário sinodal realizado até o momento foi algo magnifico. Desde os inícios dos trabalhos de preparação para o Sínodo houve a preocupação de envolver o maior número possível de jovens de todo o mundo. Os jovens responderam de forma magnífica! Não só católicos; também jovens de outros de nominações religiosas, ateus, indiferentes, agnósticos. Tudo isso é sinal de um desejo da parte dos jovens de poder expor suas alegrias e esperanças, dores e angústias, incertezas e dúvidas, expectativas e desejos mais íntimos. O caminho empreendido torna certamente o Sínodo mais participativo. Toca agora aos participantes dessa fase do Sínodo levar em consideração o que foi colhido no seio da juventude mundial e buscar encontrar indicações que possam, de algum modo, responder aos anseios da juventude, iluminadas pelo Evangelho, a rica e bela tradição da Igreja e as ciências humanas.